Amanhã é dia de escolher quem será o presidente, e pela primeira vez em muitos anos, não há certeza de quem irá vencer. Mas a impressão que eu tenho aqui comigo é que amanhã vai ser decidido não só quem será o próximo presidente, mas também o presidente de 2018.
As nuvens escuras estão no horizonte à vista de todos, e se não é possível prever com segurança quem vai ganhar amanhã, por outro lado é perfeitamente possível prever o que vai acontecer com o vencedor: terá que enfrentar uma boa rebordosa. Se Aécio vencer, não terá outra alternativa além de ser um segundo FHC: as medidas de austeridade serão inevitáveis, a fim de baixar a inflação e recompor nossas reservas, e inevitável também será o ônus de impopularidade resultante de tais medidas. Se tudo correr bem, 2018 será o ano de novo mandato de Lula, que ganhará facilmente, bastando comparar os tempos bicudos de Aécio com os tempos fartos de seus dois primeiros mandatos. Se Dilma vencer... aí complica. A bomba vai estourar na mão dela. Até agora o PT tem governado com certa facilidade, pois o povo está satisfeito com os bons resultados da economia, mas nota-se que quase tudo o que Dilma teve para apresentar em sua campanha não foi produto de seu governo, mas herança dos bons tempos dos dois mandatos de Lula, que recusou-se terminantemente a disputar essas eleições justamente por saber que o tempo havia fechado. Com a economia em queda e o povo batendo panela na rua, aí só na paulada, como na Venezuela. As alternativas são duas: ou o PT parte logo para a ditadura, ou conforma-se em sofrer uma derrota fragorosa em 2018.
O que vejo de fato nesse embate PT X PSDB que há vinte anos monopoliza nosso quadro político, é um movimento de gangorra: um sobe, outro desce; outro sobe, um desce. É claro que ninguém quer ficar por baixo, mas como toda criança sabe, só com um não dá para brincar de gangorra. Na visão do grande público, dominado por aquela paixão que antecede as grandes decisões, PT e PSDB cumprem um roteiro de novela das oito: de um lado os galãs, do outro os vilões. Os bons e os maus, os ricos e os pobres Seus programas, supostamente, são opostos e inconciliáveis, um governará para os ricos, e o outro para os pobres. Poucos notam que são apenas dois na gangorra. A questão é ficar por cima na hora certa.
sábado, 25 de outubro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
As eleições através dos tempos
A revista História Viva desse mês apresentou uma oportuna reportagem sobre como evoluíram as eleições no Brasil. Fiquei sabendo que a primeira ocorreu em 1532, para a Câmara Municipal de São Vicente. O que eu já sabia, e a reportagem confirmou, foi que as câmaras de Homens Bons constituíram até o final do século 18 o poder de facto no Brasil, uma terra quase desabitada onde o rei era uma figura tão distante que parecia lendária, e seus funcionários eram tão escassos que pareciam pouco mais que lendários. Naquele vazio permeado aqui e ali por vilas e fazendas isoladas, mandavam os ditos Homens Bons, mais precisamente os senhores de terra, muitos deles dispondo de homens armados sob seu comando. O senso comum afirma que os senhores de terra brasileiros eram fidalgos que receberam sesmarias do rei de Portugal. Na prática, porém, a posse da terra em locais tão distantes da autoridade real dependia da capacidade desses senhores de a obterem e conservarem pela força, e para tal contavam com a ajuda, não do rei, mas de parentes, agregados, colonos e demais dependentes que se dispusessem a pegar em armas sob suas ordens. Tanto eram independentes e refratários à autoridade da metrópole, que conforme conta a reportagem, a fim de diminuir seu poder, o rei passou a nomear os chamados Juízes de Fora para fiscalizar os municípios, onde os juízes eram os membros das câmaras locais (deve ser lembrado aqui que o princípio da divisão de poderes não existia na época, e os vereadores eram ao mesmo tempo o prefeito, os juízes e os funcionários).
Como se vê, então, a elite brasileira dos tempos coloniais, longe de compor-se com a metrópole, ao contrário, dedicava-lhe constante estranhamento. Os Homens Bons frequentemente ignoravam as disposições do rei, ameaçavam e corrompiam seus funcionários. Daí que não seja de admirar que o desejo por independência tenha surgido nas elites antes de surgir nas massas, como bem ilustra o exemplo da Inconfidência Mineira.
Outro fato que eu já conhecia, e foi oportunamente lembrado pela reportagem, foi que durante o império ocorreram diversas reformas na legislação eleitoral, que ao final deste período já haviam se tornado diretas (no início os eleitores, ditos de primeiro grau, votavam em delegados ditos eleitores de segundo grau, que votavam nos candidatos). Em determinado momento o número de eleitores chegou a ser até superior ao que viria a ser no início da república, apesar do sistema censitário, que na prática era fácil de ser contornado, pois os valores de renda exigidos eram relativamente baixos e ficaram congelados por anos, e a comprovação de rendas era difícil. Enfim, esse período, longe de ter sido de imobilismo e obscurantismo, foi de muitas experiências.
O sufrágio universal masculino (exceto analfabetos) instituído com a república teve como consequência inicial apenas a consolidação do poder dos coronéis do sertão. Esses chefes políticos, sem dúvida, já existiam antes, mas antes também tinham menos eleitores em seu cabresto. Sob este aspecto, fica difícil afirmar que a instituição do sufrágio universal representou uma conquista democrática. E penso mesmo que se também votassem os analfabetos, o poder dos coronéis ficaria ainda mais consolidado, pois sustentava-se na fragilidade e dependência econômica dos colonos de sua fazenda, e os analfabetos pertenciam ao estrato social mais frágil e dependente. De fato, uma fraude comum no período era forjar a alfabetização dos trabalhadores do coronel, a fim de que pudessem se tornar eleitores.
No anos 30 tivemos o exotismo dos "deputados das profissões", que eram eleitos por delegados de suas respectivas profissões - herança do corporativismo do fascismo italiano. Não deixaram saudades.
Com a constituição atual, enfim, pode-se afirmar que o voto se tornou universal no Brasil. Analfabeto vota. E analfabeto é eleito. Mas esse é nosso país, e essa é a História de todos nós.
Como se vê, então, a elite brasileira dos tempos coloniais, longe de compor-se com a metrópole, ao contrário, dedicava-lhe constante estranhamento. Os Homens Bons frequentemente ignoravam as disposições do rei, ameaçavam e corrompiam seus funcionários. Daí que não seja de admirar que o desejo por independência tenha surgido nas elites antes de surgir nas massas, como bem ilustra o exemplo da Inconfidência Mineira.
Outro fato que eu já conhecia, e foi oportunamente lembrado pela reportagem, foi que durante o império ocorreram diversas reformas na legislação eleitoral, que ao final deste período já haviam se tornado diretas (no início os eleitores, ditos de primeiro grau, votavam em delegados ditos eleitores de segundo grau, que votavam nos candidatos). Em determinado momento o número de eleitores chegou a ser até superior ao que viria a ser no início da república, apesar do sistema censitário, que na prática era fácil de ser contornado, pois os valores de renda exigidos eram relativamente baixos e ficaram congelados por anos, e a comprovação de rendas era difícil. Enfim, esse período, longe de ter sido de imobilismo e obscurantismo, foi de muitas experiências.
O sufrágio universal masculino (exceto analfabetos) instituído com a república teve como consequência inicial apenas a consolidação do poder dos coronéis do sertão. Esses chefes políticos, sem dúvida, já existiam antes, mas antes também tinham menos eleitores em seu cabresto. Sob este aspecto, fica difícil afirmar que a instituição do sufrágio universal representou uma conquista democrática. E penso mesmo que se também votassem os analfabetos, o poder dos coronéis ficaria ainda mais consolidado, pois sustentava-se na fragilidade e dependência econômica dos colonos de sua fazenda, e os analfabetos pertenciam ao estrato social mais frágil e dependente. De fato, uma fraude comum no período era forjar a alfabetização dos trabalhadores do coronel, a fim de que pudessem se tornar eleitores.
No anos 30 tivemos o exotismo dos "deputados das profissões", que eram eleitos por delegados de suas respectivas profissões - herança do corporativismo do fascismo italiano. Não deixaram saudades.
Com a constituição atual, enfim, pode-se afirmar que o voto se tornou universal no Brasil. Analfabeto vota. E analfabeto é eleito. Mas esse é nosso país, e essa é a História de todos nós.
domingo, 5 de outubro de 2014
O Erro do PSDB
O bom desempenho do candidato Aécio Neves nesse primeiro turno foi surpreendente. Estará o PSDB, finalmente, ressuscitando? Temos aqui uma boa ocasião para meditar sobre o que tem levado esse partido a sucessivas derrotas, isso após haver protagonizado o único plano econômico bem sucedido em décadas, o Plano Real.
Minha conclusão é uma só: o erro do PSDB foi tentar emular o discurso petista. O eleitor não se empolgou - afinal, por que alguém desejaria a imitação, se pode ter o original?
Em parte justifica-se, pois é o discurso petista que é entendido pelas massas. Equilíbrio de contas, agências reguladoras, independência do Banco Central, essas coisas são entendidas por mim e por você, não pelo povão. Como também é inócuo denunciar novos casos de corrupção no governo, pois o eleitorado petista, na época atual, é constituído por aquela massa que não se importa com a corrupção, uma vez que não tem rendimentos suficientes para pagar impostos diretos - se não saiu do bolso deles, então não há motivo para se sentir pessoalmente lesado. É essa massa que, historicamente, sempre reelege os políticos cassados por corrupção. No passado ela já pertenceu à antiga ARENA do regime militar, depois foi herdada pelo PMDB de Sarney, foi dos coronéis nordestinos e hoje pertence ao PT. E ao que tudo indica, permanecerá fiel.
A minha convicção é que a atual hegemonia petista só terminará quando começar a doer no bolso. Há duas maneiras de aprender: pelo discernimento, ou levando na cabeça. O sábio aprende pela experiência alheia, o ignorante só aprende pela experiência própria. Por enquanto, o povão constata que o saldo é positivo, sua vida melhorou com o PT no poder. Mas é evidente que o saco agora está vazio, os últimos cartuchos foram queimados nessa campanha. A vitória de Dilma pode até ser contraproducente: sem poder repetir os bons resultados passados, o povão perderá a confiança, e tchau PT. Talvez fosse até mais conveniente que um "neoliberal" ganhasse essa eleição, para arrumar a casa, arcar com o ônus de impopularidade e deixar tudo limpo para o retorno triunfal de Lula em 2018: seria apenas um breve interregno na atual era petista. O futuro o dirá.
Quanto ao PSDB, só vejo solução se esse partido desistir de imitar o discurso populista, e ao invés disto adotar um discurso coerente, que permaneça de eleição para eleição, mesmo que não obtenha eco imediato no eleitorado. Quando o último engodo for desmascarado, o povão - ignorante, mas não burro - verá enfim quem tem razão.
Minha conclusão é uma só: o erro do PSDB foi tentar emular o discurso petista. O eleitor não se empolgou - afinal, por que alguém desejaria a imitação, se pode ter o original?
Em parte justifica-se, pois é o discurso petista que é entendido pelas massas. Equilíbrio de contas, agências reguladoras, independência do Banco Central, essas coisas são entendidas por mim e por você, não pelo povão. Como também é inócuo denunciar novos casos de corrupção no governo, pois o eleitorado petista, na época atual, é constituído por aquela massa que não se importa com a corrupção, uma vez que não tem rendimentos suficientes para pagar impostos diretos - se não saiu do bolso deles, então não há motivo para se sentir pessoalmente lesado. É essa massa que, historicamente, sempre reelege os políticos cassados por corrupção. No passado ela já pertenceu à antiga ARENA do regime militar, depois foi herdada pelo PMDB de Sarney, foi dos coronéis nordestinos e hoje pertence ao PT. E ao que tudo indica, permanecerá fiel.
A minha convicção é que a atual hegemonia petista só terminará quando começar a doer no bolso. Há duas maneiras de aprender: pelo discernimento, ou levando na cabeça. O sábio aprende pela experiência alheia, o ignorante só aprende pela experiência própria. Por enquanto, o povão constata que o saldo é positivo, sua vida melhorou com o PT no poder. Mas é evidente que o saco agora está vazio, os últimos cartuchos foram queimados nessa campanha. A vitória de Dilma pode até ser contraproducente: sem poder repetir os bons resultados passados, o povão perderá a confiança, e tchau PT. Talvez fosse até mais conveniente que um "neoliberal" ganhasse essa eleição, para arrumar a casa, arcar com o ônus de impopularidade e deixar tudo limpo para o retorno triunfal de Lula em 2018: seria apenas um breve interregno na atual era petista. O futuro o dirá.
Quanto ao PSDB, só vejo solução se esse partido desistir de imitar o discurso populista, e ao invés disto adotar um discurso coerente, que permaneça de eleição para eleição, mesmo que não obtenha eco imediato no eleitorado. Quando o último engodo for desmascarado, o povão - ignorante, mas não burro - verá enfim quem tem razão.
domingo, 14 de setembro de 2014
A Cara dos Presidentes Está Mudando
Claramente, o perfil dos presidentes brasileiros está mudando. Ou ao menos o rosto deles. Nunca antes havíamos tido um presidente operário, e em 2002 Lula elegeu-se. Verdade que só trabalhou como operário uns quarenta anos atrás, mas como não assumiu nenhuma outra profissão definida depois disto, operário sendo, operário ficou. Também nunca antes havíamos tido uma presidente mulher, até que em 2010 Dilma Rousseff elegeu-se. E agora o próximo pleito será disputado por duas mulheres, sendo que a segunda também foi seringueira e analfabeta até os 16 anos - outro fato inédito.
Mudaram os presidentes ou mudaram os políticos? Mudaram os políticos ou mudou o Brasil?
Mudar tudo muda, é claro, mas certas coisas permanecem iguais, como a pouca competência e a escassa honestidade de nossa classe política. Bem, se é indiscutível que nossos presidentes agora estão ficando mais com a cara do povo, podemos concluir que a corrupção não é exclusividade das elites, como outrora foi senso comum. Mas será que no tempo em que nossos presidentes tinham cara de cavalheiros, eles eram mais honestos? Essa mudança toda, afinal de contas, está sendo para melhor ou para pior?
É um julgamento que só pode ser feito pelo senso comum, mas a impressão geral é que os políticos já foram pessoas mais distintas no passado. Alguns afirmaram isso textualmente. No distante ano de 1900 foi publicado um livro chamado Porque Me Ufano de Meu País, de autoria do dramaturgo e ensaísta Afonso Celso de Assis, o conde Afonso Celso, obra hoje citada como exemplo acabado de patriotismo desvairado e otimismo discutível. Entre vários motivos que o autor citou como sendo razão de orgulho para o brasileiro, estava o caráter dos homens públicos nacionais: "Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nele entraram (...) Casos de venalidade enumeram-se raríssimos, geralmente profligados (...) Quase todos os políticos brasileiros legam a miséria a suas famílias. Qual o que já se locupletasse à custa do benefício público?" Com certeza, nenhum comentarista sério acredita que os homens públicos do tempo de Afonso Celso fossem tão corretos assim. Mas uma coisa não se pode negar: se naquele ano de 1900 um escritor pôde escrever essas palavras sem temer um estrepitoso ridículo, era porque a percepção de corrupção era muito menor do que hoje.
Não é sem uma certa melancolia que constatamos isso. Se não podemos medir com rigor a probidade dos políticos de antanho, há um outro aspecto que não admite dúvidas: eles eram mais letrados. Consultando-se a biografia de personagens que habitavam o mundo da política cinquenta ou cem anos atrás, encontramos com facilidade poliglotas, autores de livros, ensaístas, poetas e romancistas. é certo que nem todos eram um Ruy Barbosa ou um José de Alencar, mas ao menos um José Sarney era lugar-comum. Sarney, inclusive, é o último exemplar desta estirpe, por certo que não é nenhum escritor de primeira linha, mas no cenário atual está a anos-luz de tantos analfabetos que pululam pelo congresso.
Afinal, se os políticos estão ficando mais com a cara do povo, isso significa que eles estão ficando mais iletrados e desonestos?
Para responder a essa pergunta, é necessário contrapor o perfil do político tradicional com o novo. O político tradicional, sem dúvida que nunca foi um exemplo de probidade administrativa, vide os Malufs, os Sarneys, os ACM, os Jader Barbalhos, os Collors e por aí afora. Mas esses indivíduos, sem exceção, vinham de famílias ricas, geralmente com várias gerações de políticos, e por mais que pusessem a mão no dinheiro público, a maior parte de seus rendimentos sempre veio de seu patrimônio pessoal. Já os novos políticos geralmente vieram de famílias pobres, e a possibilidade de ganhar dinheiro foi justamente o motivo original que os levou a tentar a carreira política. São ratos magros, em suma. Entram pobres, saem ricos. Sem patrimônio ou tradição, utilizam-se do populismo para empolgar as massas, inclusive invocando sua condição de homens do povo. Eu tenho observado um paralelo cada vez maior entre as carreiras do político, do animador de programa de auditório e do pastor de igreja vigarista: começam a vida pobres, terminam ricos e valem-se do ilusionismo para cativar seu público específico. Notei isso pela primeira vez quando estava perto de uma TV ligada mostrando o programa Sílvio Santos. Em determinado momento surgiu na tela o rosto de Dilma Rousseff fazendo um discurso enaltecendo o novo programa do governo denominado Brasil Carinhoso. Levei alguns segundos para perceber que estava vendo a imagem da presidente da república. Explico: é que a maneira como ela falava e o linguajar que ela usava se harmonizavam de tal maneira com a apresentação de um programa de auditório, que distraidamente julguei que se tratava de algum novo quadro ou concurso do Sílvio Santos.
Senor Abravanel não conseguiu ser presidente da república. Mas o Brasil vai aos poucos se transformando em um imenso auditório.
Mudaram os presidentes ou mudaram os políticos? Mudaram os políticos ou mudou o Brasil?
Mudar tudo muda, é claro, mas certas coisas permanecem iguais, como a pouca competência e a escassa honestidade de nossa classe política. Bem, se é indiscutível que nossos presidentes agora estão ficando mais com a cara do povo, podemos concluir que a corrupção não é exclusividade das elites, como outrora foi senso comum. Mas será que no tempo em que nossos presidentes tinham cara de cavalheiros, eles eram mais honestos? Essa mudança toda, afinal de contas, está sendo para melhor ou para pior?
É um julgamento que só pode ser feito pelo senso comum, mas a impressão geral é que os políticos já foram pessoas mais distintas no passado. Alguns afirmaram isso textualmente. No distante ano de 1900 foi publicado um livro chamado Porque Me Ufano de Meu País, de autoria do dramaturgo e ensaísta Afonso Celso de Assis, o conde Afonso Celso, obra hoje citada como exemplo acabado de patriotismo desvairado e otimismo discutível. Entre vários motivos que o autor citou como sendo razão de orgulho para o brasileiro, estava o caráter dos homens públicos nacionais: "Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nele entraram (...) Casos de venalidade enumeram-se raríssimos, geralmente profligados (...) Quase todos os políticos brasileiros legam a miséria a suas famílias. Qual o que já se locupletasse à custa do benefício público?" Com certeza, nenhum comentarista sério acredita que os homens públicos do tempo de Afonso Celso fossem tão corretos assim. Mas uma coisa não se pode negar: se naquele ano de 1900 um escritor pôde escrever essas palavras sem temer um estrepitoso ridículo, era porque a percepção de corrupção era muito menor do que hoje.
Não é sem uma certa melancolia que constatamos isso. Se não podemos medir com rigor a probidade dos políticos de antanho, há um outro aspecto que não admite dúvidas: eles eram mais letrados. Consultando-se a biografia de personagens que habitavam o mundo da política cinquenta ou cem anos atrás, encontramos com facilidade poliglotas, autores de livros, ensaístas, poetas e romancistas. é certo que nem todos eram um Ruy Barbosa ou um José de Alencar, mas ao menos um José Sarney era lugar-comum. Sarney, inclusive, é o último exemplar desta estirpe, por certo que não é nenhum escritor de primeira linha, mas no cenário atual está a anos-luz de tantos analfabetos que pululam pelo congresso.
Afinal, se os políticos estão ficando mais com a cara do povo, isso significa que eles estão ficando mais iletrados e desonestos?
Para responder a essa pergunta, é necessário contrapor o perfil do político tradicional com o novo. O político tradicional, sem dúvida que nunca foi um exemplo de probidade administrativa, vide os Malufs, os Sarneys, os ACM, os Jader Barbalhos, os Collors e por aí afora. Mas esses indivíduos, sem exceção, vinham de famílias ricas, geralmente com várias gerações de políticos, e por mais que pusessem a mão no dinheiro público, a maior parte de seus rendimentos sempre veio de seu patrimônio pessoal. Já os novos políticos geralmente vieram de famílias pobres, e a possibilidade de ganhar dinheiro foi justamente o motivo original que os levou a tentar a carreira política. São ratos magros, em suma. Entram pobres, saem ricos. Sem patrimônio ou tradição, utilizam-se do populismo para empolgar as massas, inclusive invocando sua condição de homens do povo. Eu tenho observado um paralelo cada vez maior entre as carreiras do político, do animador de programa de auditório e do pastor de igreja vigarista: começam a vida pobres, terminam ricos e valem-se do ilusionismo para cativar seu público específico. Notei isso pela primeira vez quando estava perto de uma TV ligada mostrando o programa Sílvio Santos. Em determinado momento surgiu na tela o rosto de Dilma Rousseff fazendo um discurso enaltecendo o novo programa do governo denominado Brasil Carinhoso. Levei alguns segundos para perceber que estava vendo a imagem da presidente da república. Explico: é que a maneira como ela falava e o linguajar que ela usava se harmonizavam de tal maneira com a apresentação de um programa de auditório, que distraidamente julguei que se tratava de algum novo quadro ou concurso do Sílvio Santos.
Senor Abravanel não conseguiu ser presidente da república. Mas o Brasil vai aos poucos se transformando em um imenso auditório.
sábado, 13 de setembro de 2014
Não queria comentar, mas...
Quando ocorreu esse episódio da torcedora que chamou um jogador de macaco, não dei nenhuma importância. Não sou racista, e há muito não acompanho mais futebol. Não pensei que seria matéria para comentar em meu blog, mas diante da repercussão do caso, cujo último desdobramento foi um incêndio criminoso na casa da moça, concluí que estava diante de um fenômeno que valia, sim, a atenção geral.
Em primeiro lugar, é claro que chamar alguém de macaco é uma grosseria, além de óbvio racismo. Mas todos estão cansados de saber que torcedores em um estádio desde priscas eras sempre gritaram todo o tipo de grosseria. Nos tempos em que eu frequentava estádios, era comum ouvir-se o coro chamando o juiz de FDP sempre que ele marcava algo que prejudicava nosso time - e no entanto, jamais ouvi falar de alguma mãe de árbitro de futebol que algum dia houvesse entrado com uma ação por calúnia contra algum torcedor!
Parece-me evidente que as palavras ditas em estádio durante uma partida não devem ser julgadas da mesma maneira como se fossem ditas em outro local e em outras circunstâncias. A impressão geral foi que a reação contra a infratora foi desproporcionalmente severa. O que isso significa? Estaremos ficando mais civilizados e intolerantes com agressões de qualquer natureza? Se for verdade, isso é bom: o racismo é repulsivo, e deve, sim, ser reprimido. Mas o fato é que a reação enérgica contra o racismo convive sem problemas com uma ampla indiferença quanto a episódios muito mais violentos e imorais que ocorrem todos os dias. Daí que eu conclua que estamos diante de outro fenômeno: a instrumentalização dos ressentimentos humanos.
É sabido que grupos diversos de indivíduos considerados oprimidos por alguma razão têm se unido e organizado de forma espontânea, a fim de defender-se e expor suas reivindicações. Não há nada de errado ou estranho quanto a isso. Mas de uns tempos para cá, essa organização tem sido cada vez mais instrumentalizada por ONG´s e por partidos políticos - são os "movimentos sociais" da autodenominada sociedade civil organizada. De um lado, isso é bom para os movimentos, pois provê de verbas e de publicidade àqueles que antes dependiam apenas de si próprios. Mas de outro lado, transforma esses movimentos em um mero público ao dispor das ONG´s e partidos que os financiam. A reação desproporcional contra o procedimento da torcedora, portanto, não é prova de que estamos ficando menos racistas, e sim prova de que os grupos que combatem o racismo estão ficando mais fortes, uma vez que os movimentos negros, tal como tantos outros - gays, sem terra, sem teto, índios, etc. - têm sido cooptados por partidos e ONG´s, e como tal, têm ganho respaldo cada vez maior dos poderes públicos. Mas conforme afirmei, esse ganho de poder corresponde a uma crescente instrumentalização dos ditos movimentos - eles devem servir a quem os banca, certo? Aí o futuro é incerto. A criatura vai se voltar contra o criador? O criador vai suprimir a criatura quando não mais necessitar dela?
O futuro o dirá.
Em primeiro lugar, é claro que chamar alguém de macaco é uma grosseria, além de óbvio racismo. Mas todos estão cansados de saber que torcedores em um estádio desde priscas eras sempre gritaram todo o tipo de grosseria. Nos tempos em que eu frequentava estádios, era comum ouvir-se o coro chamando o juiz de FDP sempre que ele marcava algo que prejudicava nosso time - e no entanto, jamais ouvi falar de alguma mãe de árbitro de futebol que algum dia houvesse entrado com uma ação por calúnia contra algum torcedor!
Parece-me evidente que as palavras ditas em estádio durante uma partida não devem ser julgadas da mesma maneira como se fossem ditas em outro local e em outras circunstâncias. A impressão geral foi que a reação contra a infratora foi desproporcionalmente severa. O que isso significa? Estaremos ficando mais civilizados e intolerantes com agressões de qualquer natureza? Se for verdade, isso é bom: o racismo é repulsivo, e deve, sim, ser reprimido. Mas o fato é que a reação enérgica contra o racismo convive sem problemas com uma ampla indiferença quanto a episódios muito mais violentos e imorais que ocorrem todos os dias. Daí que eu conclua que estamos diante de outro fenômeno: a instrumentalização dos ressentimentos humanos.
É sabido que grupos diversos de indivíduos considerados oprimidos por alguma razão têm se unido e organizado de forma espontânea, a fim de defender-se e expor suas reivindicações. Não há nada de errado ou estranho quanto a isso. Mas de uns tempos para cá, essa organização tem sido cada vez mais instrumentalizada por ONG´s e por partidos políticos - são os "movimentos sociais" da autodenominada sociedade civil organizada. De um lado, isso é bom para os movimentos, pois provê de verbas e de publicidade àqueles que antes dependiam apenas de si próprios. Mas de outro lado, transforma esses movimentos em um mero público ao dispor das ONG´s e partidos que os financiam. A reação desproporcional contra o procedimento da torcedora, portanto, não é prova de que estamos ficando menos racistas, e sim prova de que os grupos que combatem o racismo estão ficando mais fortes, uma vez que os movimentos negros, tal como tantos outros - gays, sem terra, sem teto, índios, etc. - têm sido cooptados por partidos e ONG´s, e como tal, têm ganho respaldo cada vez maior dos poderes públicos. Mas conforme afirmei, esse ganho de poder corresponde a uma crescente instrumentalização dos ditos movimentos - eles devem servir a quem os banca, certo? Aí o futuro é incerto. A criatura vai se voltar contra o criador? O criador vai suprimir a criatura quando não mais necessitar dela?
O futuro o dirá.
sábado, 30 de agosto de 2014
O Fenômeno Marina
Um mês atrás, eu nem sabia que Marina Silva era candidata a vice na chapa terceira colocada nas pesquisas. Agora, como todos os brasileiros, estou diante do maior fenômeno eleitoral dos últimos tempos, mais notável ainda por haver sido produto de circunstâncias fortuitas, um acidente de avião, sem nenhuma articulação por trás ou trabalho prévio de marqueteiros. Quanto a mim, não tenho maiores simpatias por Marina, como não tenho pelos outros candidatos, mas como comentarista sinto-me obrigado a pelo menos tentar decifrar o fenômeno.
Como é possível que um candidato com tanto potencial fosse originalmente lançado apenas como vice, em uma chapa sem chance sequer de passar ao segundo turno? Vivo Eduardo Campos, sua candidatura era um cadáver; morto o candidato, sua candidatura ressuscita no corpo de Marina. A explicação que eu encontro é a falta de base partidária de Marina, que tampouco possui base nas massas, em razão de sua falta de carisma. Mais difícil de explicar é de onde vieram tantas intenções de voto para uma candidata tão apagada. Mostram as estatísticas que Dilma perdeu poucos votos para Marina, o que não me espanta: o eleitorado petista, atualmente, é composto por aquela massa que vota no candidato que tem a chave do cofre. Como reza o provérbio, o eleitor tem a memória do burro, sempre se lembra onde come. Essa massa já pertenceu, no passado, à antiga ARENA do regime militar, foi depois herdada pelo PMDB de Sarney e agora é propriedade do PT: muda de partido, mas não muda de endereço, está sempre localizada nos rincões mais pobres e dependentes do favor do governo. Já Aécio Neves perdeu bem mais votos do que Dilma, passando a terceiro lugar, o que evidencia que o eleitorado de Marina é composto em sua maioria por um eleitor descontente com o PT, mas que também não se encantava com Aécio. Esse eleitor desalentado talvez votasse em branco caso não tivesse ocorrido o desastre de avião. A impressão que tenho é que finalmente surgiu um candidato com mínimo apelo popular para confrontar a hegemonia petista.
Mas por que o PSDB não empolgava os anti-petistas?
A explicação se encontra nos próprios fundamentos ideológicos do PSDB, um partido de centro-esquerda que foi obrigado pelas circunstâncias a adotar uma política "neoliberal", que é o nome que a esquerda dá aos cortes, privatizações e medidas de austeridade absolutamente indispensáveis para se tirar qualquer contabilidade do vermelho, seja a de um país ou a do botequim da esquina. O PSDB conspurcou-se com sua fama de neoliberal, enquanto o PT revelou total empatia com as massas, que clamam por um Estado grande e paternal. Por este motivo, o PSDB preferiu renegar o seu passado, desvencilhar-se da imagem de Fernando Henrique Cardoso, paradoxalmente seu líder mais bem -sucedido, e procurou emular o discurso neo-populista do PT. O resultado não poderia ser outro: derrota atrás de derrota. Afinal, quem vai querer a imitação barata se pode ter o original?
E por que Marina empolga os anti-petistas?
Essa é mais difícil de responder. Vejo em Marina uma personagem oca, revestida de um discurso feito de lugares-comuns ambientalistas. Não tem carisma pessoal nem base partidária, passou os últimos anos pulando de galho em galho. É tão oca quanto uma luva, que só espera que alguém coloque-a na mão. E quem será? O PT ou o PSDB? Um hipotético governo de Marina é uma incógnita total, sabe-se apenas que não será fácil, pois os oito anos de Lula deixaram uma pesada conta a ser paga. Esperava-se que Dilma pagasse a conta e deixasse tudo no azul para Lula voltar em 2014, mas isso não aconteceu. Afirma Aécio que o governo de Dilma acabou, mas não é bem assim; o governo de Dilma sequer começou. Então, talvez Marina acabe fazendo o papel que Dilma não fez: ser a "neoliberal" que vai arrumar a casa, arcar com o inevitável ônus de impopularidade e deixar tudo limpo para o retorno triunfal do PT em 2018.
O problema - repito mais uma vez - é que quem pode levar será o PSol, ao invés do PT...
Como é possível que um candidato com tanto potencial fosse originalmente lançado apenas como vice, em uma chapa sem chance sequer de passar ao segundo turno? Vivo Eduardo Campos, sua candidatura era um cadáver; morto o candidato, sua candidatura ressuscita no corpo de Marina. A explicação que eu encontro é a falta de base partidária de Marina, que tampouco possui base nas massas, em razão de sua falta de carisma. Mais difícil de explicar é de onde vieram tantas intenções de voto para uma candidata tão apagada. Mostram as estatísticas que Dilma perdeu poucos votos para Marina, o que não me espanta: o eleitorado petista, atualmente, é composto por aquela massa que vota no candidato que tem a chave do cofre. Como reza o provérbio, o eleitor tem a memória do burro, sempre se lembra onde come. Essa massa já pertenceu, no passado, à antiga ARENA do regime militar, foi depois herdada pelo PMDB de Sarney e agora é propriedade do PT: muda de partido, mas não muda de endereço, está sempre localizada nos rincões mais pobres e dependentes do favor do governo. Já Aécio Neves perdeu bem mais votos do que Dilma, passando a terceiro lugar, o que evidencia que o eleitorado de Marina é composto em sua maioria por um eleitor descontente com o PT, mas que também não se encantava com Aécio. Esse eleitor desalentado talvez votasse em branco caso não tivesse ocorrido o desastre de avião. A impressão que tenho é que finalmente surgiu um candidato com mínimo apelo popular para confrontar a hegemonia petista.
Mas por que o PSDB não empolgava os anti-petistas?
A explicação se encontra nos próprios fundamentos ideológicos do PSDB, um partido de centro-esquerda que foi obrigado pelas circunstâncias a adotar uma política "neoliberal", que é o nome que a esquerda dá aos cortes, privatizações e medidas de austeridade absolutamente indispensáveis para se tirar qualquer contabilidade do vermelho, seja a de um país ou a do botequim da esquina. O PSDB conspurcou-se com sua fama de neoliberal, enquanto o PT revelou total empatia com as massas, que clamam por um Estado grande e paternal. Por este motivo, o PSDB preferiu renegar o seu passado, desvencilhar-se da imagem de Fernando Henrique Cardoso, paradoxalmente seu líder mais bem -sucedido, e procurou emular o discurso neo-populista do PT. O resultado não poderia ser outro: derrota atrás de derrota. Afinal, quem vai querer a imitação barata se pode ter o original?
E por que Marina empolga os anti-petistas?
Essa é mais difícil de responder. Vejo em Marina uma personagem oca, revestida de um discurso feito de lugares-comuns ambientalistas. Não tem carisma pessoal nem base partidária, passou os últimos anos pulando de galho em galho. É tão oca quanto uma luva, que só espera que alguém coloque-a na mão. E quem será? O PT ou o PSDB? Um hipotético governo de Marina é uma incógnita total, sabe-se apenas que não será fácil, pois os oito anos de Lula deixaram uma pesada conta a ser paga. Esperava-se que Dilma pagasse a conta e deixasse tudo no azul para Lula voltar em 2014, mas isso não aconteceu. Afirma Aécio que o governo de Dilma acabou, mas não é bem assim; o governo de Dilma sequer começou. Então, talvez Marina acabe fazendo o papel que Dilma não fez: ser a "neoliberal" que vai arrumar a casa, arcar com o inevitável ônus de impopularidade e deixar tudo limpo para o retorno triunfal do PT em 2018.
O problema - repito mais uma vez - é que quem pode levar será o PSol, ao invés do PT...
terça-feira, 19 de agosto de 2014
O Caráter do Brasileiro
Não tenho muita afinidade com o povo brasileiro em geral, e
não nego que muitas características típicas dos brasileiros incomodam-me.
Sobretudo a mania de transformar tais defeitos de caráter em peculiaridades antropológicas
– daí a lenda do Brasileiro Cordial; o culto a Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter; a exaltação da malandragem, do improviso, do jeitinho, do carnaval, do
futebol – como se tudo isso fosse um traço identitário nosso. Não posso mudar
nada, mas já que a moda é tecer todo um discurso sociológico em torno dessas
ditas peculiaridades, então vou entrar também na discussão.
Entre os atributos brasileiros de que não gosto, o que mais
me incomoda – e talvez por isso mesmo, seja uma síntese de todos os outros – é
um excessivo caráter gregário. Brasileiro gosta de andar sempre em bando,
indivíduos introspectivos são mal vistos. As ligações familiares prolongam-se
além do núcleo familiar, e persistem pela vida adulta afora, muitos familiares
vivendo juntos. As amizades são tão numerosas quanto superficiais. Fala-se
sobretudo de um jeito caloroso, afetuoso de ser, que seria típico do
brasileiro. É nesse ponto que chegamos ao batido arquétipo do brasileiro
cordial, sobre o qual já me referi em outro artigo.
O que há de verdade nisto tudo?
Não me permito discordar, ainda mais que tenho exemplos
vivos em toda parte. O que eu discordo mesmo é da crença de que tudo isso tudo
seria uma idiossincrasia nossa. A meu ver, esses atributos são herdados. Todo o
mundo sabe que esse jeito de ser e de falar, de cumprimentar tocando e
beijando, é comum a todos os povos latinos sul-europeus, nossos ancestrais. A
insistência em apresentar esses traços culturais como invenção brasileira, a
meu ver, revela uma vontade de ver um “algo mais” neles. De minha parte, vejo
apenas um excesso de linguagem corporal e jogo de cena, hábito de mentir
educadamente. Conforme é sabido, nunca se deve despedir de um inglês dizendo
“aparece lá em casa”, ou ele aparecerá mesmo. Nós nos acostumamos a esses
estereótipos: os ingleses escondem as emoções que sentem, os latinos mostram as
emoções que não sentem. Os ingleses são individualistas, nós somos gregários. Mas
já que a proposta é extrair daqui algum significado antropológico profundo,
vamos lá: trata-se, a meu ver, da reminiscência de uma organização social
pretérita, orientada ao clã familiar. É por este motivo que nós valorizamos
mais as ligações afetivas e familiares do que quaisquer outras formas de
filiação, inclusive ideológicas e religiosas, conforme explicou Sérgio Buarque
de Hollanda, o criador do arquétipo de brasileiro cordial, mas poucos prestaram
atenção, haja visto que continuam a interpretar a cordialidade como brandura e
mesura. Mas o cordial de Buarque de Hollanda vem da palavra latina para
coração, denotando emoção: somos mais emocionais do que racionais, foi isso que
ele quis dizer.
Não discordo de Buarque de Hollanda, mas isso colocado dessa
forma, como se fosse uma idiossincrasia nacional, uma invenção brasileira,
assume ares de mito fundador, o que reveste a ideia de uma aura de dignidade e
fornece-lhe um álibi contra todas as críticas: somos assim porque somos
brasileiros, e isso sendo uma condição imutável, não nos cabe criticar, mas
exaltar, do contrário estaremos exercitando sentimentos neuróticos de
auto-rejeição. Ponto. Mas repetindo o que afirmei acima, isso não é uma
idiossincrasia brasileira, e tampouco permite tirar uma conclusão que
identifique o brasileiro como um povo único e diferente dos demais. No máximo,
permite classificar-nos entre os povos atrasados, mais próximos de uma
organização social primitiva e orientada ao clã familiar, em detrimento da
cidadania. Há muitos outros exemplos de povos do Terceiro Mundo com essas
características, o que efetivamente distingue o brasileiro é essa disposição em
tecer um discurso sociológico dignificando tais atributos; que eu saiba, em
nenhum outro país houve intelectuais que criassem mitos análogos ao do homem
cordial, Macunaíma, o malandro, etc. Pode ser que exista, mas eu desconheço.
Devíamos é acabar com isso. Aqueles que refutaram o mito do brasileiro cordial
apresentando incontáveis episódios de violência em nossa História, isso levados
pelo equívoco de tomar cordial por gentil, fizeram-no com toneladas de razão: de
fato, para manter a velha organização social orientada ao clã familiar, é
imprescindível uma considerável dose de autoritarismo, a fim de reprimir as
veleidades individuais e enquadrar todos à força no coletivo tribal. Daí para a
violência é um passo.
É sabido que os antigos clãs familiares brasileiros tinham
um patriarca. Figura revestida de toda a autoridade, ele comandava esposa,
filhos, parentes, agregados, empregados, etc. Esse modelo de família estendida
ainda marca nossas relações sociais. Quem está de fora e vê aquele familião,
todos interagindo, não raro morando juntos, fica com uma impressão de
solidariedade e mútua cooperação. Mas quem está do lado dentro, vê a coisa como
realmente é: um mundo onde prevalecem os mais atirados, os mais audazes, quando
não os mais descarados, enquanto indivíduos tímidos e escrupulosos são
espoliados. Não existe mais a figura do patriarca, mas o autoritarismo que dele
emanava ainda está impregnado em nosso tribalismo tardio, e manifesta-se
sobretudo no pouco respeito à privacidade alheia, este que é o mais ínfimo dos
bens pessoais, e prossegue na perseguição aos “diferentes”, na disposição de
fazer uso comum com o que é de outros, em sequestrar o individual para o
suposto benefício do coletivo. Seria até uma amostra de altruísmo e
entendimento de nossa parte, não fosse esse apreço pelo coletivo tribal
paralelo ao mais absoluto desprezo pelo que está fora de tal coletivo. Como bem
demonstrou Buarque de Hollanda, a fidelidade brasileira à família e aos amigos
impede que ingressemos em formas de organização social superiores, orientadas à
cidadania e ao Estado, pautadas na legislação comum e no respeito ao que é privado.
Da falta de respeito à privacidade à falta de respeito à propriedade é apenas
um passo. Aquele ministro corrupto, no final das contas, pode até ser um bom sujeito:
tudo o que ele queria ao fraudar as licitações era beneficiar parentes e amigos
donos de empresas, não era isso? Evidente que aquilo que é bom para a curriola
dele não é bom para o país, mas é assim que raciocina o homem cordial, e é
assim também que muitos de nós raciocinamos.
Em tempos não tão distantes, governava-se o Estado como se
governava a família: de forma autoritária, frequentemente violenta. Hoje, são
os cacos dessa organização social arcaica que impedem um uso mais proveitoso de
nossas relações sociais, desde nosso círculo pessoal, passando pelo
profissional até chegar à administração pública. Continuamos a não fazer uma
distinção nítida entre público e privado, o que é nosso do que é dos outros,
sempre à espera de que algum patriarca surja das cinzas e faça a mediação
necessária para estabelecer a boa ordenação. O apreço por líderes políticos
carismáticos é apenas um dos aspectos desta questão. Está na cultura popular,
isso não vai mudar de uma hora para a outra. Mas bem podíamos começar por parar
com a mania de transformar nossos defeitos de caráter em peculiaridades
antropológicas.
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