domingo, 31 de maio de 2026

Nossos Bandidos

A decisão de Trump de classificar o CV e o PCC como organizações terrorista me surpreendeu. Eu não fazia ideia de que as ações desses grupos já impactavam território norte-americano, até então eu as supunha restritas ao eixo Colômbia-Brasil, destinadas a abstecer o mercado interno de drogas.Não sei qual será a próxima ação e o efeito imediato dessa classificação, mas não creio que será de grande ajuda para combatê-las no Brasil.
 
Contudo, o que mais me impressionou foram as palavras de Lula, referindo-se a Nossos Bandidos. Tenho certeza que a expressão também foi perturbadora para muitos. Soou acolhedor, até afetuoso. Nossos bandidos. Bem, aqueles bandidos são nossos mesmo, mas precisava chamá-los assim?
 
Talvez sim. É preciso lembrar que há tempos, somos governados por ex-presidiários. O atual presidente, e seu antecessor, já conheceram a prisão. Nem sei mais quantos ex-governadores do estado do RJ já foram presos. Não poderíamos concluir que existe uma forte empatia unindo nossos presidentes a bandidos, mesmo que não haja um envolvimento direto?
 
Penso que essa empatia existe efetivamente, mas não restrita a altas autoridades da república. Há décadas temos escutado um discurso de leniência para com o crime, seja clamando por penas menores e alternativas, seja tornando bandidos figuras míticas e heróicas em romances e filmes. Isso vem de longe. Todos conhecemos o prestígio popular de Lampião, o Rei do Cangaço. Nosso código penal é dos anos 40, e desde então todas as reformas foram no sentido de abrandar as penas, e não torná-las mais rigorosas, ao mesmo tempo emque o crime só fazia aumentar. Surgiram as aberrações das "saidinhas" das quais muitos não voltam, a possibilidade de só cumprir 1/6 da pena, o limite máximo de três anos de internação para menores. Os próprios nomes das facções agora consideradas organizações terroristas, que lembram nomes de grupos revolucionários, é a prova da convivência enrte bandidos comuns e presos políticos que sonhavam fazer dos bandidos novos revolucionários. E adimitamos: elas sabem agir muito bem como grupos revolucionários (ou terroristas, como queiram). Dominam suas comunidades, impõem "luto" quando morre um chefão, realizam ações que imitam insurgência, como colocar fogo em ônibus.
 
Tanta leniência, tão antiga e multifacetada, só pode ser produto de um fascínio pela figura do delinquente, com a qual nos identificamos, e de um desprezo pela vítima. Não é só o Lula, está enraizado em nossa cultura. Só escaparemos de ser a próxima vítima quando aprendermos a odiar  os tais "nossos bandidos".