quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A Inteligência Artificial e o Futuro

Antigamente, ao menos para mim, era fácil distinguir a inteligência humana daquela da máquina. O exemplo mais à mão era a diferença entre o dicionário e o tradutor. Uma aplicação desde muito tempo relegada a computadores é encontrar uma palavra em uma lista. Isto porque é uma tarefa repetitiva: o computador tem somente que comparar uma a uma a palavra fornecida com aquelas que constam na lista, até encontrar o verbete: temos o dicionário. Bem mais problemático era mandar o computador traduzir um texto para outro idioma. Isso porque não é uma tarefa repetitiva, posto que não existe uma correspondência vis-a-vis entre palavras de idiomas distintos; a tradução consiste na percepção de nuances e sutilezas que sinalizam o que o autor do texto original quis de fato expressar. Apenas um humano pode fazer isso com eficiência.
 
Computadores não percebem nuances e sutilezas porque seu princípio de funcionamento é a lógica binária: ou Sim ou Não. O Talvez não existe, e no mundo real não há Sim ou Não absolutos, apenas várias graduações do Talvez. Contudo, em tempos recentes, vários tradutores automáticos têm sido disponiblizados, e são bastante eficientes. O que aconteceu? O computador aprendeu a pensar?
 
De certa forma, sim, com o surgimento da chamada Inteligência Artificial, a grande novidade tecnológica do momento ao alcance de todos, mesmo que poucos saibam como funciona. O caso é que talvez o cérebro humano não seja, afinal, tão diferente de um computador. As células nervosas, denominadas neurônios, possuem sinapses, que são zonas ativas de contato entre uma terminação nervosa e outra. São capazes de conduzir sinais bioelétricos por longas distâncias, até produzir algum efeito fisiológico, desde que haja uma conexão entre múltiplas sinapses ao longo do caminho.
 
Isso é bastante análogo às celulas de memória de um computador: afinal, o caminho entre as sinapses ou existe ou não existe, assim como a célula de memória do computador contém ou zero ou um. O aprendizado, no cérebro, consiste no estabelecimento de múltiplos caminhos entre as sinapses, e aquele esquecimento gradual da matéria que perdeu a utilidade, a transformação de uma memória em uma "vaga lembrança", ocorre quando esses caminhos são gradualmente desfeitos, e as sinapses reutilizadas para formar outros caminhos.
 
Já se comparou o cérebro humano a um comício de estudantes, onde uns gritam uma ordem, outros gritam o contrário, e um dos dois prevalece. A princípio, esse paradigma se opõe ao princípio de funcionamento de um computador, onde não há incertezas, mas uma sequência de decisões "ou Sim ou Não" produzindo uma lógica única e complexa. O que a IA fez foi emular o modelo do comício de estudantes ao conferir pesos diferentes para o Sim e para o Não, produzindo o Talvez. Um texto é desmembrado em partículas (tokens) e comparado com milhões de textos encontradiços na internet e pesquisados na fase conhecida como treinamento, até estabelecer qual a continuidade mais provável entre cada partícula, compondo assim o texto de resposta. Desta forma a IA emite uma resposta provável, ao invés de pretender resolver qualquer problema por meio de uma sequência lógica infinita.
 
Portanto, a Inteligência Artificial nasce do aprendizado de conteúdos produzidos por inteligências humanas. Ela não tem susceptibilidades nem preconceitos, mas pode assimilar as susceptibilidades e os preconceitos embutidos no material que pesquisou. Não é o caso de afirmar que o computador se tornou um interlocutor com personalidade própria, posto que apenas replica conhecimentos produzidos por humanos. Podemos, então, relegar à ficção científica o medo ancestral de que as máquinas se tornem tão capazes que dominem o mundo, reproduzindo a si próprias, certo?
 
Nem tanto.
 
Como eu disse, a IA passa por uma fase de treinamento mediante a leitura de textos da internet, e isso pode ser comparado a um estudante que aprende lendo livros escritos por vários professores. Mas o estudante, uma vez formado, não se limita a meramente repetir aquilo que leu nos livros. O que ele aprendeu pode servir de embasamento para que ele emita conclusões que não foram tiradas por nenhum de seus professores. O processo da IA, de decompor textos em partículas e conferir um peso a cada um, pode redundar na produção de textos de resposta que jamais foram urdidos por um humano, mas que continuam coerentes com as informações assimiladas pela IA durante o treinamento. Portanto, a IA não apenas reproduz, mas também cria.
 
E a IA pode adquirir personalidade própria?
 
Sim, se aqueles textos de respostas originais, produzidos pela IA e nunca pensados por um humano, forem parar na internet e entrarem no treinamento de novas IA's, realimentando-as. Assim se formarão tendências, correntes e partidos. Aqui cabe recordar uma teoria de conspiração muito comentada, a chamada Teoria da Internet Morta, que afirma que a internet terminará preenchida por conteúdos produzidos automaticamente por robôs, com propósitos maliciosos. Pessoalmente desconheço quantos robôs estão em ação por aí, mas sei que cada vez mais material, sobretudo vídeos, tem sido produzido por IA. Se os produtores de conteúdo acham mais fácil utilizar a IA, é possível que a internet termine de fato dominada por várias IA's com as respectivas conclusões que foram capazes de tirar, compondo um cenário imprevisível. Dá medo?
 
Sim. Mas sempre poderemos puxar a tomada da parede.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Antigamente as guerras tinham começo, meio e fim

A guerra entre os EUA e o Iran (talvez fosse melhor citar a guerra entre Trump e o Iran) está seguindo o mesmo roteiro da guerra entre Putin e a Ucrânia: ela não termina. Não tem fim, e não se divisando um fim, tampouco se pode estabelecer um meio; ela só tem o começo. Desanimador isso. Não que eu ache que existam guerras boas, mas antigamente havia ao menos a expectativa de que a guerra terminaria um dia. Guerra é crueldade, quanto mais cruel, mas cedo termina, disse um general norte-americano do século 19. Será que as guerras da atualidade estão durando mais porque se tornaram menos cruéis? Tenho minhas dúvidas.
 
Guerras sempre existiram, sempre foram destrutivas, mas as expectativas e os alcances das guerras variaram com o tempo. Em alguma época já ocorreram guerras construtivas? Bem, até o final do século 19, houve guerras que foram entusiasticamente aplaudidas por certos grupos, e efetivamente renderam dividendos para o vencedor. Cite-se as guerras dos EUA contra o México e a Espanha, que resultaram em novos territórios. A Guerra Franco-Prussiana resultou na unificação da Alemanha, sem destruir a França, dando razão ao chanceler Bismark: "Com fogo e sangue serão feitas as grandes obras de nosso tempo". Brutal, mas historicamente verdadeiro.
 
A história começou a virar após a Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, que teve começo, meio, fim, vencedor e perdedor. Tudo conforme o padrão, seguida de pesada indenização infligida ao derrotado. Mas desta vez houve algo diferente. Os vencedores acabaram englobados na mesma crise econômica que devastou o perdedor, dando a impressão de que naquela guerra não houve vencedores. Era o sinal inequívoco de que as guerras estavam se tornando tão caras, que já deixavam de ser economicamente viáveis. O que não bastou para evitar novo conflito ainda mais caro e destrutivo, mas desta feita, seguiu-se um planejamento racional para a recuperação de todos os beligerantes, ao invés das antigas indenizações punitivas, e mais não se diga, o advento das armas nucleares fez até os mais fanáticos belicistas entenderem que uma nova guerra mundial seria impraticável.
 
Evidentemente, as guerras não deixaram de acontecer, mas mudaram de perfil. Durante a chamada Guerra Fria, fenômeno mais geopolítico do que puramente militar, a arena de luta entre as duas superpotências não se localizava mais em seus próprios territórios, mas no chamado Terceiro Mundo, região em disputa entre os blocos capitalista e comunista, onde cada superpotência fornecia ajuda a governos ou grupos armados seus aliados.
 
Mas a Guerra Fria também teve fim. Então, qual seria o futuro da guerra? Vimos a guerra Iran X Iraque, que durou oito anos e terminou sem um vencedor distinguível, antecipando as guerras intermináveis da época atual. O conflito árabe-israelense prossegue sem que se preveja um final. A patética Guerra das Malvinas foi um golpe mal dado por um país que apostou que não haveria guerra. Ah sim, as duas Guerras do Golfo tiveram final, vencedor e perdedor. Mesmo? A situação no Iraque permanece totalmente indefinida e caótica, assim como a situação na Líbia e na Venezuela.
 
Lembro de 1984, de Orwell, onde o escritor previa um mundo dividido em superpotências mantendo entre si um infindável estado de guerra, sem que se divisasse outro objetivo além de manter a população unida contra o inimigo externo, e desatenta da situação interna. Talvez ele estivesse certo.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O País Preso nos Anos Sessenta

Acompanho a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pela próxima eleição presidencial. Nenhuma novidade aqui. Exceto que a impressão que me persegue é que estou vendo a reencenação da disputa entre a esquerda revolucionária e os militares golpistas na década de sessenta, como se fosse um filme reprisado década após década, com o mesmo roteiro e atores diferentes.

Que Flávio Bolsonaro é uma reedição de Jair Bolsonaro, disso não há dúvida. Jair Bolsonaro, por sua vez, proclama-se uma reedição dos militares que tomaram o poder em 1964. Já Lula, por sua ligação com o PT, surge como uma reedição dos esquerdistas que almejaram chegar ao poder no governo de João Goulart. É claro que ambas as comparações são estereotipadas. Jair Bolsonaro não participou do regime de 1964, ele emergiu para a História só na época de Sarney, e não é afilhado político de nenhuma figura proemimente da época. Lula, por sua vez, é uma criatura posterior aos revolucionários financiados por Cuba nos anos 60 e 70, e nunca foi filiado a nenhum partido comunista. Mas tanto o primeiro como o segundo emulam o discurso da época.

Apenas o discurso, contudo. Em seu período, Jair Bolsonaro não reeditou o desenvolvimentismo nacional-estatista característico do regime vigente entre 1964 e 1985; ao contrário, pautou-se pelo privatismo. Lula, por sua vez, ao invés de um regime socialista, implementou uma espécie de getulismo tardio, e continua prometendo mais do mesmo.

Os anos 60 parecem ter produzido um trauma tão forte que paralisou o pais, e o faz viver no passado. O país avança, sim, por inércia e por necessidade, mas as ideias continuam presas àquele momento histórico, como um enigma nunca decifrado, ou um livro nunca lido até o capítulo final, enquanto os países da Ásia avançam sem nós.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O Derretimento do Comunismo

Esta semana chegou a notícia de uma ampla reforma política em Cuba, com a aprovação de um pacote histórico de 176 medidas de abertura econômica e descentralização. As reformas incluem a conversão de estatais em sociedades mercantis com ações, permissão de capital estrangeiro no setor privado, autorização para empresas com mais de 100 funcionários e abertura do setor imobiliário, agrícola e bancário. Tudo sem alarde, e aprovado por unanimidade em uma única votação, conforme esperado em um regime onde não há oposição. Mas todos sabem que a real causa foi a pressão de Washington.

No início do ano, com a captura de Nicolas Maduro na Venezuela, o governo que assumiu em seu lugar prontamente dispôs-se a ceder às exigências de Trump. Mas tanto no caso de Cuba, quanto na Venezuela, o regime permaneceu intacto. Não houve convocação de eleições, libertação de presos políticos, fim de censura, e isso não parece importar a Trump, que se dá por satisfeito e afirma haver cumprido suas promessas.

Vai-se o comunismo, fica a ditadura. O esperado é que seja adotado o modelo chinês: toda liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. Mas nem de longe existe a expectativa de que Cuba e Venezuela experimentem o desenvolvimento econômico chinês. Em todo caso, fica a impressão: é assim que os regimes comunistas acabam? Não são derrubados, mas simplesmentem derretem, escorrendo aos poucos pelas beiradas da forma, que permanece.

Tem a ver. Na antiga Cortina de Ferro, a maioria dos regimes comunistas não caiu por uma revolução, simplesmente ruiu feito prédio condenado. Historicamente, a tentativa imprudente de reparar prédios condenados costuma ser a causa do empurrão final que provoca seu colapso, e foi justamente o que aconteceu na ex-URSS. Na ex-RDA, o regime caiu por uma frase mal interpretada de seu chanceler. O comunismo parece transformar de maneira tão radical e absoluta os arcabouços sociais, politicos e econômicos de uma nação, que inviabiliza qualquer oposição articulada capaz de derrubá-lo. Só não consegue evitar de cair sozinho, sob o peso de seu fracasso. Dizia Roberto Campos, o comunismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo.

Então, o que podemos esperar aqui na América Latina, é que os regimes comunistas existentes derretam. Mas e a ditadura? Bem, essa não tem a ver com o comunismo. É hábito nosso. Seja Fidel ou Raúl Castro, Hugo Chávez ou Nicolas Maduro, e também Evo Morales, todos repetiram o padrão das gerações de velhos caudilhos antes deles: procuraram eternizar-se no poder.

domingo, 31 de maio de 2026

Nossos Bandidos

A decisão de Trump de classificar o CV e o PCC como organizações terrorista me surpreendeu. Eu não fazia ideia de que as ações desses grupos já impactavam território norte-americano, até então eu as supunha restritas ao eixo Colômbia-Brasil, destinadas a abstecer o mercado interno de drogas.Não sei qual será a próxima ação e o efeito imediato dessa classificação, mas não creio que será de grande ajuda para combatê-las no Brasil.
 
Contudo, o que mais me impressionou foram as palavras de Lula, referindo-se a Nossos Bandidos. Tenho certeza que a expressão também foi perturbadora para muitos. Soou acolhedor, até afetuoso. Nossos bandidos. Bem, aqueles bandidos são nossos mesmo, mas precisava chamá-los assim?
 
Talvez sim. É preciso lembrar que há tempos, somos governados por ex-presidiários. O atual presidente, e seu antecessor, já conheceram a prisão. Nem sei mais quantos ex-governadores do estado do RJ já foram presos. Não poderíamos concluir que existe uma forte empatia unindo nossos presidentes a bandidos, mesmo que não haja um envolvimento direto?
 
Penso que essa empatia existe efetivamente, mas não restrita a altas autoridades da república. Há décadas temos escutado um discurso de leniência para com o crime, seja clamando por penas menores e alternativas, seja tornando bandidos figuras míticas e heróicas em romances e filmes. Isso vem de longe. Todos conhecemos o prestígio popular de Lampião, o Rei do Cangaço. Nosso código penal é dos anos 40, e desde então todas as reformas foram no sentido de abrandar as penas, e não torná-las mais rigorosas, ao mesmo tempo emque o crime só fazia aumentar. Surgiram as aberrações das "saidinhas" das quais muitos não voltam, a possibilidade de só cumprir 1/6 da pena, o limite máximo de três anos de internação para menores. Os próprios nomes das facções agora consideradas organizações terroristas, que lembram nomes de grupos revolucionários, é a prova da convivência enrte bandidos comuns e presos políticos que sonhavam fazer dos bandidos novos revolucionários. E adimitamos: elas sabem agir muito bem como grupos revolucionários (ou terroristas, como queiram). Dominam suas comunidades, impõem "luto" quando morre um chefão, realizam ações que imitam insurgência, como colocar fogo em ônibus.
 
Tanta leniência, tão antiga e multifacetada, só pode ser produto de um fascínio pela figura do delinquente, com a qual nos identificamos, e de um desprezo pela vítima. Não é só o Lula, está enraizado em nossa cultura. Só escaparemos de ser a próxima vítima quando aprendermos a odiar  os tais "nossos bandidos".

terça-feira, 10 de março de 2026

Guerra Moderna, Conflito Antigo

Ninguém contava muito com Trump, o fanfarrão. Mas as operações que ele tem lançado exibem uma surpreendente e estonteante visão da guerra moderna: ao contrário do arrastar sem fim da guerra de Putin contra a Ucrânia, Trump tem demonstrado que é possível atacar de forma tão precisa e pontual, que pode-se capturar (ou matar) um individuo específico, localizado em um quadrante específico de um vasto território.

O paradigma é cortar as cabeças, seja as de líderes, seja as de sistemas específicos, deixando o corpo sem comando. Bastando apontar para um ponto específico do mapa, à feição de um videogame, com pouco ou nenhum custo humano, já que o trabalho e feito em grande parte por robôs. Funciona? Sim, os resultados têm se mostrado espetaculares.

Mas param por aí. Corta a cabeça não extingue o regime. Os EUA capturaram Nicolas Maduro com a facilidade com que se captura um traficantezinho em um subúrbio qualquer. Mas o regime bolivariano continua na Venezuela. Os EUA já abateram boa parte das lideranças do Irã. Mas o regime dos aiatolás não caiu. Tampouco destruir sistemas de armas estratégicos, radares ou lançadores de mísseis, significa destruir um exército. Se os EUA querem terminar o serviço, terão que enviar tropas, como já fizeram no Iraque e no Afeganistão. Aí não vai dar mais para jogar videogame, será preciso sujar as mãos. E os resultados são incertos. No Afeganistão, como se sabe, o talibã voltou ao poder. O Iraque está um caos, assim como ficou a Líbia após a derrubada de Ghadafi.

Não surpreende. Cortar a cabeça impõe uma luta pelo poder nas bases, o que dificilmente resulta em uma nova cabeça única, mas em facções se digladiando. A lição é: a guerra pode ser moderna, mas o conflito é antigo. Os fatores políticos e sociais que originaram aqueles regimes que os EUA querem suprimir são complexos, e profundamente enraizados. Ninguém pode afirmar com certeza o que a Venezuela e o Irã se tornarão. Lidar com tais conflitos não se resolve com alta tecnologia, nem com sistemas de armas de última geração. É como dar um tiro em um ninho de vespas: o dano é minimo, e as vespas saem todas esvoaçando.

Trump pode estar fazendo um bonitão, e colherá os dividendos. Mas as consequencias a longo prazo podem ser uma enorme bagunça.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Direita e Esquerda, no surrado sentido atual

A origem dos termos direita e esquerda é bem clara - referia-se ao local onde se sentavam os representantes da aristocracia e do povo - mas o sentido acomodou-se a muitos contextos ao longo dos anos. Mas poucos termos se encontram tão gastos na época atual, sobretudo em um país como o Brasil, que há anos vem alternando governos "de direita e de esquerda", sem que se divise uma diferença muito clara de um para o outro.
 
Direita​ pode significar o regime totalitário, ultranacionalista e belicista surgido na Europa no começo do século passado, conhecido como fascismo, como pode meramente referir-se à facção conservadora que se acomoda aos regimes democráticos modernos. Esquerda pode significar grupos de inconformistas que propugnam alteração nos costumes, sem nenhuma ação política, como eram os adeptos da contracultura dos anos 60 e 70.
 
Direita também pode denotar liberalismo econômico, enquanto a esquerda prega mais intervenção do Estado na economia. Hoje em dia, no Brasil, esquerda é Lula e direita é Bolsonaro. Mas curioso que, no passado, muitas bandeiras da atual direita eram defendidas pela esquerda, e vice-e-versa. Nos tempos do regime militar tão exaltado por Bolsonaro, a política econômica se assemelhava muito à do atual PT, com mais dirigismo, mais companhias estatais e leis trabalhistas mais rígidas.
 
Contudo, uma outra dicotomia, bem mais inquietante, tem sido notada em tempos recentes opondo direita e esquerda. Direita é quem defende rigor no combate ao crime. Esquerda é quem defende que o crime tem causas estruturais na sociedade injusta. Direita é quem defende a redução da maioridade penal. Esquerda é quem defende a diminuição da população carcerária mediante penas alternativas. Esse arrazoado foi levado ao paroxismo pelos últimos acontecimentos no México, onde sucessivos governos de esquerda têm implementado a política de "Abraços, e não Balaços", assim declarada textualmente. A violenta reação dos narcotraficantes à morte de seu chefe mostra que ao contrário do governo, eles acreditam em balaços.
 
Aguardo ansiosamente o dia em que sairemos da gangorra Direita X Esquerda, que nos prende ao passado.

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Sentimento de Unicidade Norte-Americano

Não há dúvida: se Trump quis que os EUA retomassem o protagonismo nos destinos do mundo que um dia teve, conseguiu. Ele já é, e deve ser ainda por bastante tempo o assunto geral no planeta. Se isso significa "tornar a América grande outra vez", seu slogan de campanha, não sei. Não sabia que a América havia deixado de ser grande. Muitos americanos, aliás, veem em Trump um arrivista, e não um membro genuíno da aristocracia política dos EUA. De fato, muito de suas ações têm um jeito de farsa: retomando a Doutrina Monroe um século após o contexto que a justificava, parafraseando a divisa deTeddy Roosevelt, Fale manso,mas carregue um porrete grande, sendo que Trump fala grosso e carrega um porrete proporcionamente bem menor que o de Teddy.

Mas seja Trump, Teddy ou Monroe, de onde veio tanto afã por autoglorificação e protagonismo?

Um sentimento tão presente na História, que atravessou tantas gerações, sem dúvida que não surgiu por acaso. Minha teoria: ele vem dos primeiros colonos, refugiados puritanos, que buscavam uma nova terra onde pudessem viver conforme suas crenças, reeditando a mística do Povo Escolhido em busca da Terra Prometida. Não tenho nada a ver com quem se considera assim, mas é preciso convir que pessoas que acreditam ser parte de um povo escolhido em uma terra prometida, necessariamente cultivam um exclusivismo em relação aos povos que não são o escolhido, e às terras que não são a prometida. Essa crença tem o nome de Excepcionalismo Americano, e já foi objeto de muitos comentaristas. Consiste na convicção de que os EUA são um país intrinsecamente diferente dos outros. Estudiosos consideram que a crença excepcionalista seja um elemento central da identidade nacional do povo dos Estados Unidos. Embora o termo "excepcional" não implique necessariamente a ideia de superioridade, ele pode facilmente adquirir um caráter de supremacismo na retórica de líderes direitistas.

O excepcionalismo norte-americano fica patente em suas definições raciais: embora não seja colocado textualmente, nota-se que os rótulos "branco" e "negro" são assumidos como exclusivos de norte-americanos. Os demais povos são de qualquer outra raça, independente de qualquer fator, inclusive a cor da pele. A pior época do racismo norte-americano já está no passado, mas nenhum outro povo tem tamanha obsessão em criar rótulos e categorias raciais. Alguns já extrapolam as fronteiras dos EUA. Devemos discutir se somos ou não latinos?

Os conceitos de Povo Escolhido e Terra Prometida nasceram com os hebreus, mas pertencem a tempos bíblicos. Essas ideias já não são correntes no moderno Estado de Israel, à exceção de alguns fundamentalistas. No mundo atual, poderíamos encará-lo como uma mera idiossincrasia norte-americano, não fosse por um desdobramento perigoso: quem acredita ser membro de um povo escolhido, mais cedo ou mais tarde vê-se como um missionário entre pagãos, e acredita ter a missão exclusiva de transformar o mundo. Aí que mora o perigo.

A mistura de religião com política invariavelmente corrompe a religião sem redimir a política.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Narcoestado

A operação de Trump na Venezuela reúne caracterísricas da invasão do Panamá para capturar Noriega com a caçada para matar Bin Laden. Sem dúvida os EUA tem capacitação para levar a cabo esse tipo de operação. Mas não vou falar aqui da Trump, nem do regime chavista. Vou falar do termo usado por Trump para definir o regime chavista - Narcoestado.

Não é mera força de expressão, nem se refere somente à Venezuela. Refere-se a uma tendência que vem se manifestando desde o princípio dos anos 80 em várias regiões da América Latina, onde o poder e a riqueza dos narcotraficantes aumentou a ponto de confundir-se com o Estado, substituindo os antigos grupos insurgentes de guerrilheiros que eram até então o paradigma do contrapoder. Esses grupos não despareceram de imediato, mas pertencem a uma era passada,o tempo da Guerra Fria. Com o fim do apoio soviético, eles tiveram que buscar suporte financeiro no narcotráfico, e os que não foram aniquilados, fundiram-se aos cartéis já existentes.

Agora, em vários países sul-americanos, são os narcotraficantes que fornecem o apoio econômico e militar a qualquer governo que queira ter poder demais. Haja visto a frase de Fidel Castro dita a Hugo Chávez, quando foi criado o eixo Venezuela-Narcotraficantes-Cuba: este é o míssil com que vamos furar o bloqueio norte-americano. De fato, o público norte-americano injeta bilhões nesses países ao comprar drogas, quantia por vezes superior às divisas de seu produto legal de exportação mais vendido. Esses bilhões penetram na economia, produzindo não apenas quadrilheiros, mas movimentando toda uma rede de fornecedores e trabalhadores diretos e indiretos, em várias regiões superando de longe o total movimentado por qualquer atividade legal. As pessoas, ricos ou pobres, que dependem dessa atividade ilegal com certeza não apóiam que ela seja eliminada, e o poder político não tem como contrariá-los, restando pactuar com o narcotráfico. A partir deste ponto, o Estado torna-se um Narcoestado.

Não é possível um Narcoestado deixar de ser um Narcoestado sem experimentar uma quebra generalizada de sua economia. Portanto, não há previsão de quando esse fenômeno começará a recuar na América Latina. É possível aos EUA capturar Nicolas Maduro, mas não podem deter o narcotráfico com mais de uns tantos barcos explodidos, tampouco com um porta-aviões gigantesco e quase inócuo para esse tipo de guerra. A única coisa que pode deter o narcotráfico é suprimir quem o financia - os compradores de drogas. Todo combate ao narcotráfico é inútilenquanto os EUA gastarem milhões para combater drogas, e bilhões para comprar drogas.

Por aqui, não chegamos a ser um Narcoestado. O país é consumidor, e não produtor de drogas, e portanto a atividade ilegal está segregada aos pontos de venda - as favelss - e não atinge ao núcelo do poder, tampouco movimenta quantia significativa do PIB. Mas contemplando as favelas, temos amostras perfeitas de mini-narcoestados.