terça-feira, 10 de março de 2026

Guerra Moderna, Conflito Antigo

Ninguém contava muito com Trump, o fanfarrão. Mas as operações que ele tem lançado exibem uma surpreendente e estonteante visão da guerra moderna: ao contrário do arrastar sem fim da guerra de Putin contra a Ucrânia, Trump tem demonstrado que é possível atacar de forma tão precisa e pontual, que pode-se capturar (ou matar) um individuo específico, localizado em um quadrante específico de um vasto território.

O paradigma é cortar as cabeças, seja as de líderes, seja as de sistemas específicos, deixando o corpo sem comando. Bastando apontar para um ponto específico do mapa, à feição de um videogame, com pouco ou nenhum custo humano, já que o trabalho e feito em grande parte por robôs. Funciona? Sim, os resultados têm se mostrado espetaculares.

Mas param por aí. Corta a cabeça não extingue o regime. Os EUA capturaram Nicolas Maduro com a facilidade com que se captura um traficantezinho em um subúrbio qualquer. Mas o regime bolivariano continua na Venezuela. Os EUA já abateram boa parte das lideranças do Irã. Mas o regime dos aiatolás não caiu. Tampouco destruir sistemas de armas estratégicos, radares ou lançadores de mísseis, significa destruir um exército. Se os EUA querem terminar o serviço, terão que enviar tropas, como já fizeram no Iraque e no Afeganistão. Aí não vai dar mais para jogar videogame, será preciso sujar as mãos. E os resultados são incertos. No Afeganistão, como se sabe, o talibã voltou ao poder. O Iraque está um caos, assim como ficou a Líbia após a derrubada de Ghadafi.

Não surpreende. Cortar a cabeça impõe uma luta pelo poder nas bases, o que dificilmente resulta em uma nova cabeça única, mas em facções se digladiando. A lição é: a guerra pode ser moderna, mas o conflito é antigo. Os fatores políticos e sociais que originaram aqueles regimes que os EUA querem suprimir são complexos, e profundamente enraizados. Ninguém pode afirmar com certeza o que a Venezuela e o Irã se tornarão. Lidar com tais conflitos não se resolve com alta tecnologia, nem com sistemas de armas de última geração. É como dar um tiro em um ninho de vespas: o dano é minimo, e as vespas saem todas esvoaçando.

Trump pode estar fazendo um bonitão, e colherá os dividendos. Mas as consequencias a longo prazo podem ser uma enorme bagunça.

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