A História de Todos Nós
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Antigamente as guerras tinham começo, meio e fim
quinta-feira, 30 de julho de 2026
O País Preso nos Anos Sessenta
Acompanho a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pela próxima eleição presidencial. Nenhuma novidade aqui. Exceto que a impressão que me persegue é que estou vendo a reencenação da disputa entre a esquerda revolucionária e os militares golpistas na década de sessenta, como se fosse um filme reprisado década após década, com o mesmo roteiro e atores diferentes.
Que Flávio Bolsonaro é uma reedição de Jair Bolsonaro, disso não há dúvida. Jair Bolsonaro, por sua vez, proclama-se uma reedição dos militares que tomaram o poder em 1964. Já Lula, por sua ligação com o PT, surge como uma reedição dos esquerdistas que almejaram chegar ao poder no governo de João Goulart. É claro que ambas as comparações são estereotipadas. Jair Bolsonaro não participou do regime de 1964, ele emergiu para a História só na época de Sarney, e não é afilhado político de nenhuma figura proemimente da época. Lula, por sua vez, é uma criatura posterior aos revolucionários financiados por Cuba nos anos 60 e 70, e nunca foi filiado a nenhum partido comunista. Mas tanto o primeiro como o segundo emulam o discurso da época.
Apenas o discurso, contudo. Em seu período, Jair Bolsonaro não reeditou o desenvolvimentismo nacional-estatista característico do regime vigente entre 1964 e 1985; ao contrário, pautou-se pelo privatismo. Lula, por sua vez, ao invés de um regime socialista, implementou uma espécie de getulismo tardio, e continua prometendo mais do mesmo.
Os anos 60 parecem ter produzido um trauma tão forte que paralisou o pais, e o faz viver no passado. O país avança, sim, por inércia e por necessidade, mas as ideias continuam presas àquele momento histórico, como um enigma nunca decifrado, ou um livro nunca lido até o capítulo final, enquanto os países da Ásia avançam sem nós.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
O Derretimento do Comunismo
Esta semana chegou a notícia de uma ampla reforma política em Cuba, com a aprovação de um pacote histórico de 176 medidas de abertura econômica e descentralização. As reformas incluem a conversão de estatais em sociedades mercantis com ações, permissão de capital estrangeiro no setor privado, autorização para empresas com mais de 100 funcionários e abertura do setor imobiliário, agrícola e bancário. Tudo sem alarde, e aprovado por unanimidade em uma única votação, conforme esperado em um regime onde não há oposição. Mas todos sabem que a real causa foi a pressão de Washington.
No início do ano, com a captura de Nicolas Maduro na Venezuela, o governo que assumiu em seu lugar prontamente dispôs-se a ceder às exigências de Trump. Mas tanto no caso de Cuba, quanto na Venezuela, o regime permaneceu intacto. Não houve convocação de eleições, libertação de presos políticos, fim de censura, e isso não parece importar a Trump, que se dá por satisfeito e afirma haver cumprido suas promessas.
Vai-se o comunismo, fica a ditadura. O esperado é que seja adotado o modelo chinês: toda liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. Mas nem de longe existe a expectativa de que Cuba e Venezuela experimentem o desenvolvimento econômico chinês. Em todo caso, fica a impressão: é assim que os regimes comunistas acabam? Não são derrubados, mas simplesmentem derretem, escorrendo aos poucos pelas beiradas da forma, que permanece.
Tem a ver. Na antiga Cortina de Ferro, a maioria dos regimes comunistas não caiu por uma revolução, simplesmente ruiu feito prédio condenado. Historicamente, a tentativa imprudente de reparar prédios condenados costuma ser a causa do empurrão final que provoca seu colapso, e foi justamente o que aconteceu na ex-URSS. Na ex-RDA, o regime caiu por uma frase mal interpretada de seu chanceler. O comunismo parece transformar de maneira tão radical e absoluta os arcabouços sociais, politicos e econômicos de uma nação, que inviabiliza qualquer oposição articulada capaz de derrubá-lo. Só não consegue evitar de cair sozinho, sob o peso de seu fracasso. Dizia Roberto Campos, o comunismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo.
Então, o que podemos esperar aqui na América Latina, é que os regimes comunistas existentes derretam. Mas e a ditadura? Bem, essa não tem a ver com o comunismo. É hábito nosso. Seja Fidel ou Raúl Castro, Hugo Chávez ou Nicolas Maduro, e também Evo Morales, todos repetiram o padrão das gerações de velhos caudilhos antes deles: procuraram eternizar-se no poder.
domingo, 31 de maio de 2026
Nossos Bandidos
terça-feira, 10 de março de 2026
Guerra Moderna, Conflito Antigo
Ninguém contava muito com Trump, o fanfarrão. Mas as operações que ele tem lançado exibem uma surpreendente e estonteante visão da guerra moderna: ao contrário do arrastar sem fim da guerra de Putin contra a Ucrânia, Trump tem demonstrado que é possível atacar de forma tão precisa e pontual, que pode-se capturar (ou matar) um individuo específico, localizado em um quadrante específico de um vasto território.
O paradigma é cortar as cabeças, seja as de líderes, seja as de sistemas específicos, deixando o corpo sem comando. Bastando apontar para um ponto específico do mapa, à feição de um videogame, com pouco ou nenhum custo humano, já que o trabalho e feito em grande parte por robôs. Funciona? Sim, os resultados têm se mostrado espetaculares.
Mas param por aí. Corta a cabeça não extingue o regime. Os EUA capturaram Nicolas Maduro com a facilidade com que se captura um traficantezinho em um subúrbio qualquer. Mas o regime bolivariano continua na Venezuela. Os EUA já abateram boa parte das lideranças do Irã. Mas o regime dos aiatolás não caiu. Tampouco destruir sistemas de armas estratégicos, radares ou lançadores de mísseis, significa destruir um exército. Se os EUA querem terminar o serviço, terão que enviar tropas, como já fizeram no Iraque e no Afeganistão. Aí não vai dar mais para jogar videogame, será preciso sujar as mãos. E os resultados são incertos. No Afeganistão, como se sabe, o talibã voltou ao poder. O Iraque está um caos, assim como ficou a Líbia após a derrubada de Ghadafi.
Não surpreende. Cortar a cabeça impõe uma luta pelo poder nas bases, o que dificilmente resulta em uma nova cabeça única, mas em facções se digladiando. A lição é: a guerra pode ser moderna, mas o conflito é antigo. Os fatores políticos e sociais que originaram aqueles regimes que os EUA querem suprimir são complexos, e profundamente enraizados. Ninguém pode afirmar com certeza o que a Venezuela e o Irã se tornarão. Lidar com tais conflitos não se resolve com alta tecnologia, nem com sistemas de armas de última geração. É como dar um tiro em um ninho de vespas: o dano é minimo, e as vespas saem todas esvoaçando.
Trump pode estar fazendo um bonitão, e colherá os dividendos. Mas as consequencias a longo prazo podem ser uma enorme bagunça.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Direita e Esquerda, no surrado sentido atual
domingo, 18 de janeiro de 2026
O Sentimento de Unicidade Norte-Americano
Não há dúvida: se Trump quis que os EUA retomassem o protagonismo nos destinos do mundo que um dia teve, conseguiu. Ele já é, e deve ser ainda por bastante tempo o assunto geral no planeta. Se isso significa "tornar a América grande outra vez", seu slogan de campanha, não sei. Não sabia que a América havia deixado de ser grande. Muitos americanos, aliás, veem em Trump um arrivista, e não um membro genuíno da aristocracia política dos EUA. De fato, muito de suas ações têm um jeito de farsa: retomando a Doutrina Monroe um século após o contexto que a justificava, parafraseando a divisa deTeddy Roosevelt, Fale manso,mas carregue um porrete grande, sendo que Trump fala grosso e carrega um porrete proporcionamente bem menor que o de Teddy.
Mas seja Trump, Teddy ou Monroe, de onde veio tanto afã por autoglorificação e protagonismo?
Um sentimento tão presente na História, que atravessou tantas gerações, sem dúvida que não surgiu por acaso. Minha teoria: ele vem dos primeiros colonos, refugiados puritanos, que buscavam uma nova terra onde pudessem viver conforme suas crenças, reeditando a mística do Povo Escolhido em busca da Terra Prometida. Não tenho nada a ver com quem se considera assim, mas é preciso convir que pessoas que acreditam ser parte de um povo escolhido em uma terra prometida, necessariamente cultivam um exclusivismo em relação aos povos que não são o escolhido, e às terras que não são a prometida. Essa crença tem o nome de Excepcionalismo Americano, e já foi objeto de muitos comentaristas. Consiste na convicção de que os EUA são um país intrinsecamente diferente dos outros. Estudiosos consideram que a crença excepcionalista seja um elemento central da identidade nacional do povo dos Estados Unidos. Embora o termo "excepcional" não implique necessariamente a ideia de superioridade, ele pode facilmente adquirir um caráter de supremacismo na retórica de líderes direitistas.
O excepcionalismo norte-americano fica patente em suas definições raciais: embora não seja colocado textualmente, nota-se que os rótulos "branco" e "negro" são assumidos como exclusivos de norte-americanos. Os demais povos são de qualquer outra raça, independente de qualquer fator, inclusive a cor da pele. A pior época do racismo norte-americano já está no passado, mas nenhum outro povo tem tamanha obsessão em criar rótulos e categorias raciais. Alguns já extrapolam as fronteiras dos EUA. Devemos discutir se somos ou não latinos?
Os conceitos de Povo Escolhido e Terra Prometida nasceram com os hebreus, mas pertencem a tempos bíblicos. Essas ideias já não são correntes no moderno Estado de Israel, à exceção de alguns fundamentalistas. No mundo atual, poderíamos encará-lo como uma mera idiossincrasia norte-americano, não fosse por um desdobramento perigoso: quem acredita ser membro de um povo escolhido, mais cedo ou mais tarde vê-se como um missionário entre pagãos, e acredita ter a missão exclusiva de transformar o mundo. Aí que mora o perigo.
A mistura de religião com política invariavelmente corrompe a religião sem redimir a política.