segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Lula Lá

Apesar da exígua margem, a mais estreita da história republicana, aconteceu o previsto: Lula será o próximo presidente.

Quem acompanha meu blog sabe que eu deploro a falta de renovação da política brasileira. Lula já teve dois mandatos, e terminando mais esse, será (creio eu) o mais idoso presidente que já governou o país. Mas a bem dizer, não devo estranhar, nem lamentar que Lula esteja de novo no comando da nação. Muitos, como eu, não nutrem grande simpatia por ele, e de fato custou algum tempo até que se reconhecesse que Lula foi o personagem que mais encarnou as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração. Sem retórica, Lula tem mesmo a cara do Brasil - para o bem e para o mal.

Resta esperar, agora, que ele preserve a boa imagem legada por seus primeiros dois mandatos, e não se arrisque a colocar tudo a perder agora no fim de sua carreira, quando a lembrança que ficará para a posteridade será a deste último mandato. As perspectivas são boas, pois algo que Lula sempre mostrou saber bem cuidar, é da própria imagem. Lula sempre soube se reinventar, e mais não se diga, diferente de Bolsonaro e de Sérgio Moro, Lula sempre foi um político - ele sabe negociar e fazer alianças. Não tem grandes escrúpulos em defender aliados patifes, nem em entregar o pescoço deles quando é necessário para salvar o próprio pescoço. Mas assim é o mundo político. Como diz o ditado, aqueles que têm nojo à política são governados pelos que não têm.

domingo, 9 de outubro de 2022

O Passado Está à Frente

Não deveria dizer que o futuro está à frente?

Mas alguém já disse que o Brasil tem um grande passado pela frente, e essa afirmação nunca foi tão verdade quanto agora, que a presidência é disputada por dois candidatos que emergem de um passado já meio mítico. Entre um e o outro, apenas o burburinho dos mesmos personagens de sempre com suas intenções de voto nanicas, atestando a incapacidade do quadro político de se renovar.

Bolsonaro encarna o regime militar de que não tomou parte por não ter idade à época, mas que transformou em ideal, embora sua política nada tenha a ver com o nacional-estatismo do tempo dos generais. Lula encarna uma utopia que vem lá do século 19, o operário no poder, e credencia-se em dois mandatos bem sucedidos mas já afastados no tempo, quanto usufruiu de uma conjuntura mundial favorável que não se repetirá agora. A ausência de renovação mostra que o país chegou a um impasse, sem ideias ou projetos originais, muito menos utopias. Há muito que não somos mais o país do futuro - o futuro agora está na Ásia, naqueles países que poucas décadas atrás eram mais pobre do que nós. Com o fim da Guerra Fria, nossa parte do mundo também perdeu toda a importância estratégica para o Ocidente, e tornou-se, de fato, um subúrbio pobre do Ocidente, o que já era antes, mas pelo menos havia esperança.

Podemos, então, afirmar que quem quer que vença o segundo turno, não devemos esperar nenhuma novidade, só mais do mesmo. Certo? Nem tanto. Se Bolsonaro vencer, penso que essa premissa é verdadeira, pois o atual presidente parece esgotado de projetos, e sem forças para levar adiante suas pretensões ditatoriais. Mas se Lula for o vencedor, eu não me arrisco a prever. Lula tem uma inusitada capacidade de se reinventar, o que de fato é seu segredo, pois do contrário ja teria se desmoralizado pelas muitas eleições em que foi derrotado desde 1990, ou em razão do período em que esteve preso.

Como será o Lula de 2023? Há duas hipóteses. Ele pode repetir o Lula de 2010 com seu getulismo tardio, e reeditar a Nova Matriz Econômica em um cenário totalmente adverso, talvez deixando a bomba estourar no colo de seu sucessor, como fez com Dilma Rousseff. Ou então pode usar sua habilidade e seu carisma para criar um clima de confiança, como fez em 2002, e finalmente deixar para trás os modelos superados e enviar o país para algum futuro, senão o ideal, ao menos algum futuro.

Infelizmente há uma terceira hipótese. Ele pode querer preservar a imagem do Lula bem sucedido de seus dois mandatos anteriores, e conduzir uma administração sem grandes ousadias. Aí sim, teremos o passado à nossa frente.

domingo, 25 de setembro de 2022

Dois Personagens Injustiçados

O tempo está bom para falar de reis. O bicentenário da independência e o falecimento da rainha Elizabeth da Inglaterra puxam o assunto. Hoje vou abordar dois personagens tão importantes quanto injustiçados de nossa História: dom João VI e Pedro I.

O rei dom João é apresentado como um glutão bonachão e medroso, e seu filho, o futuro primeiro imperador do Brasil, como um rapagão mulherengo, grosseiro e ignorante a ponto de ser considerado quase um semi-analfabeto. Tanto um quanto o outro isentos de qualidades de estadista.

Mas primeiro de tudo faltou colocá-los em seu devido contexto histórico. O parvo João moveu-se em um verdadeiro olho de um furacão, tendo reinado em um dos períodos mais conturbados e de mais súbitas mudanças de toda a História Universal. De príncipe a rei, sem ter sido educado para tal, pois não era o herdeiro. Da Europa para o Brasil. De absolutista a constitucional. Do Brasil colônia a país independente. Passou por todas essas transições e permaneceu no poder, enquanto outros reis muito mais poderosos e melhor preparados eram depostos e exilados. E mais não se diga, inserido em um ambiente doméstico tão inóspido quanto o ambiente político.

Segundo de tudo, é preciso desmitificar a suposta fuga de João, que dizem, escafedeu-se deixando o seu povo a ver navios, daí ter surgido essa antiga expressão, pois a população de Lisboa ficou vendo os navios do rei sua comitiva ao longe enquanto as tropas de Napoleão chegavam. Mas é preciso dizer e repetir: João não fugiu. Tivesse fugido, seria apenas mais um rei no exílio. Mas continuou reinando, pois junto com ele, foi transportada toda a máquina governamental, incluindo o funcionalismo, os arquivos, o tesouro, a biblioteca que está aqui até hoje, e até uma tipografia completa. Uma operação de logistica complicadíssima para a época, mais ainda por ter sido planejada em total sigilo, que nunca antes fora executada, nem jamais o seria depois. Dom João VI foi o primeiro e o último monarca a visitar suas colônias na América - hoje isso pode parecer estranho, mas na época não se justificava de modo algum um rei meter-se em um navio para uma viagem arriscada e desconfortável, que tomaria mais de três meses tanto para a ida quanto para a volta, perfazendo bem um ano de ausência na metrópole.

A transferência do reino para outro continente foi uma façanha extraordinária e única, que já bastaria para tornar João admirável. Mas ele continuou a ser considerado um governante fracote e pusilânime, que sempre postergava decisões, supostamente por medo de tomá-las. Mas de postergação em postergação, o rei sobreviveu a todas as crises políticas e impasses militares daquea época conturbada, deu um grande impulso ao Brasil, que deixou de ser colônia, e ainda foi bem recebido de volta a Portugal, a terra de onde supostamente havia fugido correndo. Parece-me bem falso que João não tivesse qualidades de estadista.

Já dom Pedro é lembrado por haver tido dezenas de amantes e filhos naturais, bem como por seus modos grosseiros e sua boca cheia de palavrões. Não deixa de ser verdade. Mas se esquece que tal libertinagem era a regra para todos os reis e nobres da época. Uma espécie de compensação: sabia-se que reis e nobres tinham que sacrificar sua vida privada em prol de interesses políticos, com casamentos arranjados, mas ao mesmo tempo eram homens poderosos e acostumados a ter seus prazeres satsfeitos. Então lhes era concedida uma tolerância para casos extraconjugais que não se extendia à burguesia e ao povo.

É verdade também que o rapaz Pedro preferia expressar-se em linguagem coloquial, e por vezes conduzia-se como um rude homem do povo. Mas também é verdade que os arquivos da Biblioteca Nacional guardam muitos documentos bem escritos pelo próprio punho do imperador, em linguagem adequada. Não, Pedro não era um ignorante semi-analfabeto como muitos imaginam; ele teve, sim, uma educação de príncipe. Também é absurdo afirmar que não tinha qualidades de estadista um homem que aos 24 anos já havia feito a independência de um país que era quase um continente inteiro, e antes dos 36 anos já havia conduzido e vencido uma guerra em Portugal contra o usurpador do trono de sua filha, deixando tanto o Brasil quanto Portugal com regimes constitucionais, em uma época em que a monarquia absoluta estava em alta após as guerras napoleônicas. Pedro agiu bem e agiu mal, mas sobretudo, agiu sempre, quando poderia ter simplesmente se retirado para os bastidores e ali levado uma sossegada vida de pândega e fudelança.

Não vejo outra razão para o pouco caso com que são tratados esses personagens tão importantes de nossa História, senão como um sinal de profunda falta de autoestima. Antes que os outros zombem de nós, nós mesmos nos zombamos.

sábado, 17 de setembro de 2022

A Monarca e a Nação

A notícia que dominou a mídia na última semana foi o falecimento da rainha Elizabeth II da Inglaterra. Entende-se que um personagem tão simpático desperte uma justa comoção ao partir deste mundo, e de fato, a falecida soube como poucos conduzir-se como uma rainha deve ser, separando com discrição a vida pública da vida privada.

Muitos, contudo, não julgarão o ocorrido algo diferente da morte de alguma socialite ou artista muito popular. Mas eu insisto que Elizabeth foi mais do que isso. O que é a monarquia no mundo atual? Um regime de espetáculo, politicamente inútil e muito dispendioso, ao qual só alguns países muito ricos e tradicionalistas podem ser dar ao luxo de manter, certo? Custa caro, mas não afeta o funcionamento do governo, digo a vida de quem efetivamente governa. Desperta a nostagia de um passado quando os governantes era figuras garbosas, tão diferentes dos políticos que querem se passar por homens do povo, mas o que importa é que, garbosos ou não, aqueles que governam são referendados pelo povo. Ponto. Ficou no passado a dicotomia Monarquia/Aristocracia X República/Democracia.

Mas afinal, se a monarquia é um regime onde o povo não governa, como explicar que no mundo atual todos os regimes monárquicos sejam democracias exemplares, e todas as ditaduras são ou foram regimes republicanos?

Aí temos que recorrer à História e acompanhar a evolução dos regimes monárquicos, de absolutistas a constitucionais, até chegar à mera encenação de espetáculo que tornaram-se no tempo presente. O caso mais emblemático foi o da Inglaterra. Difícil hoje pensar em uma Inglaterra onde não haja um rei. Já dizia um certo personagem cujo nome eu esqueci, no futuro so restarão cinco reis: o rei de copas, o rei de espadas, o rei de ouros, o rei de paus e o rei da Inglaterra. Mas nem sempre foi assim. A Inglaterra foi o primeiro lugar do mundo moderno onde o regime monárquico foi seriamente questionado, ali pelo século 16. Um rei perdeu a cabeça, mas depois chegou-se à concusão de que o melhor mesmo era ter um rei, e a monarquia foi restaurada. Mas até o fim do século 18 foi um regime bastante desastrado, com reis mais interessados na vida dissoluta do que nos assuntos de estado, o que abriu espaço para que o parlamento e o primeiro ministro concentrassem cada vez mais o poder.

A monarquia britânica só consolidou-se de fato e tornou-se benquista com o reinado da rainha Vitória, e de certa fora foi ela, e não a tirânica Elizabeth I, a precursora da falecida Elizabeth II. Com a agitação social resultante da revolução industrial, surgiu a demanda por um governo que incutisse respeito à população, e a jovem rainha mostrou-se a figura ideal. Vitória tornou-se o protótipo do governante que, com sua conduta pessoal ilibada, dá legitimidade ao regime e às hierarquias sociais que o sustentam. Apesar de nunca haver mostrado interesse pelas demandas populares e não esconder sua preferência pelos conservadores, Vitória gozou de bons índices de aprovação popular a maior parte de seu reinado, em razão do poder e prosperidade alcançados pelo Império Britânico, e por sua vida exemplar na companhia do marido, sem os escândalos e adultérios que haviam até então marcado a família real. Aí foi gestado o conceito que ganhou o nome de moral burguesa, oposta à lassidão dos aristocratas, mas também devendo servir de modelo às classes trabalhadoras.

Elizabeth II reproduziu sem grandes volteios o papel de Vitória. Então, a monarquia não é mero resquício inútil de épocas passadas, ela teve uma função ao construir o presente dos países mais evoluídos do globo, e por isto é mantida com esmero por estes. O monarca não governa, mas reina; ele não está vinculado a um partido, mas à nação; e como tal, reúne em torno de si um poderoso simbolismo que mantém acesa a mística da nacionalidade. Faz-nos muita falta algo assim, tal como também falta a tantas outras repúblicas imperfeitas ou meramente repúblicas de fancaria pelo planeta afora. Mas já o tivemos. Terá sido coincidência que o país foi o único do continente que obteve sua independência com um regime monárquico, e também o único que manteve-se íntegro, sem fragmentar-se em dezenas de republiquetas? Terá sido por acaso que o Segundo Reinado foi bem mais estável política e economicamente do que a república que o sucedeu?

O papel de nosso último monarca foi bem resgatado em um memorável artigo que o escritor Monteiro Lobato publicou no longínquo ano de 1918. Ele procurava explicar como a época da monarquia podia ter sido tão menos conturbada que os tempos republicanos que estava vivendo então, se o povo e a classe política eram essencialemente os mesmos. Ele chegou à resposta: a presença de dom Pedro II:

Pedro II era a luz do baile.


Muita harmonia, respeito às damas, polidez de maneiras, jóias de arte sobre os consolos, dando ao conjunto uma impressão genérica de apuradíssima cultura social.


Extingue-se a luz. As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as jóias…

domingo, 28 de agosto de 2022

A Esquerda não se reinventa

Lula é candidato a presidente desde 1990. Ninguém jamais disputou tantas eleições presidenciais no país, todas com reais chances de vencer. Duas ele levou. E agora está aí disputando mais uma e liderando as intenções de voto.

Já afirmei aqui que a razão do nome Lula permanecer sempre atual após tantos anos é a impressionante capacidade que ele tem de se reinventar. O Lula de 2022 não é o mesmo de 2002, muito menos o de 1990. No entanto, ela carrega nas costas uma esquerda que não quer, ou não consegue se reinventar, e ignora-se até que ponto esse peso irá atrapalhá-lo em seu caminho até a presidência.

Recentemente descobri uma postagem que sintetiza muito bem esse imobilismo da esquerda brasileira, da autoria de um certo Gregório Faria.

"Na verdade, a esquerda brasileira sofre de juventude"

O autor começa lembrando que ao assumir o poder nos anos 2000, a esquerda era basicamente sindicalista, aquela que surgiu nas empresas e lutava por direitos e interesse dos trabalhadores.

"Mas os anos PT cometeram um erro gigantesco (ainda bem) com o foco na economia primária, extração e agropecuária, com a indústria perdendo apoio governamental (que tinha mais interesse nos bilhões da China) e o país se desindustrializando"

"Ou seja, o trabalhador que era a base de apoio da esquerda deixou de ser contemplado por ela e deixou de a apoiar"

Mas terá sido mesmo esse o fenômeno, ou se foi, em que medida? A desindustrialização já vinha ocorrendo desde os anos 90, e é sabidamente um fenômeno mundial a progressiva substituição do setor secundário (industria) pelo setor terciário (serviços). Mas pensava-se que essa transição atingiria somente países industrializados antigos. Não vou entrar aqui nessa discussão: o fato é que o PT progressivamente perdeu a base de apoio que o havia alçado ao poder. Uma explicação melhor é lançada pelo autor no parágrafo seguinte:

"Ao mesmo tempo, sem novos quadros vindo da indústria, comércio e 'mundo real', não houve renovação de seus quadros, que tinha seus teóricos dos anos 60 não se comunicando com os jovens dos anos 90 e 00, agora adultos"

Aí está o X da questão, a diferença entre o Brasil e os países industrializados antigos. A esquerda nasceu da revolução industrial, e originalmente dedicava-se somente a pautas relativas a salários e direitos dos trabalhadores. Mas nossa industrialização foi tardia, tendo tomado fôlego somente nos anos Vargas, fomentada pelo Estado, ao qual estavam atrelados inclusive os sindicatos. Então, a esquerda brasileira não foi gestada por operários, mas por intelectuais e sindicalistas profissionais. Esse público formou uma seita - nome apropriado a um grupo ligado por comungar uma ideologia - e seitas são atemporais. Restrita aos bairros da classe média e aos campi universitários, sem contato com o mundo real das periferias e seus trabalhadores, essa seita passou a importar uma pauta globalista, sobretudo vinda dos EUA, com reivindicações que podem fazer sentido lá, mas não aqui.

"Então, enquanto ainda temos centenas de milhares, milhões sem emprego, essa 'nova esquerda' está defendendo inclusão de trans, ataque às religiões, luta agressiva contra o racismo, liberalização das drogas, todas pautas justas e necessárias, mas em segundo plano, depois que emprego, segurança, saúde e educação sejam universais"

"Então o 'seu Zé da quitanda', que é contra a direita, mas é assaltado toda semana, a dona Maria que tem um filho viciado e que a ameaça para ter dinheiro e não quer drogas liberadas, o Augusto, que é negro mas namora uma branca e ela foi ofendida porque usava turbante na cabeça, todos eles são atacados por essa 'nova esquerda' (chamada, com toda razão, de Esquerda Leblon), que quer os chamar de fascistas por defenderem o direito de terem uma vida menos pior"

Aí está o motivo do povão das periferias haver se bandeado em quantidade para a direita de Bolsonaro, a despeito dos resultados relativamente bons e da popularidade de que a esquerda chegou a desfrutar durante a Era Lula. O pessoal classe média da dita Esquerda Leblon queixa-se  dos "coxinhas" que se apossaram do poder, esquecidos que os coxinhas são uma pequena minoria do eleitorado, e se quisessem realmente entender como Bolsonaro chegou ao poder, deveriam atentar para o que ele tem que agrada ao povão, e não aos coxinhas. O primeiro aviso, bem incisivo, surgiu durante ainda os anos Lula, com o embaraçoso sucesso do filme Tropa de Elite a mostrar o abismo entre o povo das periferias idealizado pela Esquerda Leblon e o real povo das periferias, que frequenta igrejas evangélicas e é aterrorizado por bandidos. Tão tola foi a Esquerda Leblon, que imaginando contar com o apoio irrestirto dos pobres, pôs-se a renegar a classe média que até então fora seu sustentáculo ideológico (quem se lembra daquele discurso de Marilena Chauí ante um constrangido Lula, Eu Odeio a Classe Média?). Depois se espantaram que essa mesma classe média engrossasse as passeatas pró-impedimento de Dilma.

Lula não foi um intelectual, mas foi um sindicalista profissional - a outra vertente da esquerda nativa tupiniquim. É certo que enquanto foi conveniente, ele endossou o discurso da esquerda intelectual universitária, mas a impressão que sempre tive foi que ele no fundo a desprezava - no início de sua carreira, ainda sindicalista, nem deixava estudantes subirem ao palanque. Resta saber se agora ele vai colocar a seu serviço essa esquerda que não quer reinventar-se, ou se ela vai arrastá-lo ao fundo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Bicentenário da Independência

De minha infância, ficou-me na memória uma palavrinha que foi ecoada ad nauseaum pelas mídias lá pelos idos de 1972: tratava-se do tal de sesquicentenário da independência. Traduzindo, os 150 anos da independência do país. Não é uma efeméride tão emblemática quanto um centenário ou um bicentenário, por certo, mas vivia-se na época um clima de euforia celebrado pelo regime de 1964, que proclamava o Milagre Brasileiro. Marco extraordinário, sesquicentenário da inedependência / Potência de amor e paz, esse país faz coisas que ninguém imagina que faz...

Restou na memória a musiquinha e o curioso neologismo. Hoje, cinquenta anos depois, a celebração do bicentenário não desperta paixão alguma, o país vive tudo menos um clima de euforia, e o presidente se assemelha a uma paródia dos generais espaventosos do tempo do milagre econômico. Parece coerente: não existe evento que não tenha motivado mais esforços para ser desacreditado do que o sete de setembro. Não há professor de História que não tenha afirmado que não houve independência alguma, já que o país continuou governado por um monarca estrangeiro, que dom Pedro havia ido a São Paulo visitar sua amante e que parou para defecar no caminho, quando foi alcançado pelo mensageiro que trazia cartas exigindo seu retorno a Portugal. O quadro de Pedro Américo já foi comparado a uma propaganda de desodorantes, com tantos daqueles braços erguidos.

Tudo mentira, a começar que dom Pedro sequer conhecia dona Domitila na ocasião, veio a travar seu primeiro contato por obra do acaso nessa viagem. É certo que a data de sete de setembro foi escolhida por mero papel simbólico, pois desde o 21 de janeiro, Dia do Fico, o imperador já estava formalmente rompido com as cortes de Lisboa, uma esquadra já estava sendo preparada para ser enviada ao Brasil, e os acontecimentos teriam tomado o rumo que tomaram não importa o que o monarca fizesse ou deixasse de fazer naquele sete de setembro. Pessoalmente acredito que dom Pedro disse foi um par de palavrões ao invés do grito de independência ou morte, mas isso é totalmente irrelevante.

A celebração do Sete de Setembro, contudo, obscureceu outros atores daqueles eventos, a começar pelo papel da Inglaterra, que tinha interesse na independência do Brasil e fez abortar o envio da esquadra portuguesa. Houve combate em várias partes do país, sobretudo no norte, mas os protagonistas desses combates hoje são personagens secudários só lembrados em seus estados de origem. Foi também esquecido um papel importatíssimo da imperatriz Leopoldina: tão logo ela soube que o marido havia proclamado a independência em seu caminho de volta, mandou prender o comandante da guarnição portuguesa da cidade. Seria engraçado se dom Pedro, logo após de proclamar a independência, terminasse preso ao chegar à capital...

Mas é fato que nem todos eram tão assim favoráveis à independência. Muitas províncias do norte não viam diferença entre obedecer a uma corte em Lisboa e obedecer a uma corte no Rio de Janeiro. E não faltavam os que sonhavam com o restabelecimento do Reino Unido, uma monarquia dual com dom Pedro assumindo também o trono português, do qual ainda era o herdeiro - mas bem ou mal, a independência foi feita, e tivemos que pagar por ela.

Hoje, se o bicentenário não está sendo devidamente comemorado, ao menos o distanciamento no tempo permite apreciar o justo valor e significado deste evento histórico. E vejo que foi muito bom que o país tenha conquistado sua independência desta maneira, sem guerras fratricidas que inevitavelmente dividiriam o território entre miríades de republiquetas. Se o país permaneceu uno, e se nossa História é relativamente pacífica se comparada com a de nossos vizinhos hispânicos, isso devemos à decisão de um rapaz de 24 anos, que poderia ter regressado a seu país e ali sossegadamente levado a vida dissoluta de tantos outros fidalgos, mas preferiu ariscar o pescoço e fazer a nossa independência. É assim que no Brasil atual, a enorme diversidade racial coexiste com uma notável uniformidade cultural - quanto valor não tem isso?

E mais não se diga, prefiro ser governado por um imperador de verdade do que por fazendeiros fantasiados de general.

sábado, 23 de julho de 2022

O Último Tenente

Está fazendo 100 anos agora do surgimento de um fenômeno que impactou bastante os rumos da história brasileira dali por diante, e suscita mesmo a questão: ainda estamos experimentando um longinquo efeito deste impacto? Refiro-me ao tenentismo, rebelião de jovens oficiais contra a República Velha que eclodiu nos anos 20. Saiu uma reportagem a respeito na revista Aventuras na História.

Revendo os feitos dos tenentes da época, não dá para disfarçar a admiração. Enfrentaram de peito aberto os tiros na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Derrotados em suas insurreições, não se renderam: embrenharam-se pelo interior, bem longe da Avenida Atlântica, e marcharam a chamada Coluna Prestes, que percorreu uma distância superior àquela da famosa Grande Marcha de Mao Tsé-tung, até se internar na Bolívia. Muita fibra. Aos olhos de hoje, parecem jovens idealistas audazes, dispostos a desafiar os arcaicos arcabouços políticos e socias da república dominada pelos grandes fazendeiros. É empolgante pensar: o novo contra o velho, a cidade contra o interior atrasado, a emergente classe média contra a velha aristocracia.

Mas se mostraram muita coragem ao percorrer matas virgens, pantanais e caatinga, por onde passaram saqueavam fazendas, roubavam gado e torturavam quem lhes negasse informação ou suprimento, não muito diferente do que faziam os cangaceiros do sertão. O que faz suspeitar da pureza de seus ideais. O futuro confirmou as suspeitas: quase todos se tornaram adeptos de ideologias totalitárias. Luís Carlos Prestes, aquele da coluna, como se sabe tornou-se o primeiro e mais notório comunista do país. De fato, o comunismo nasceu do tenentismo e vicejou entre os militares antes de vicejar nos movimentos estudantil e sindical, característica de um país de industrialização tardia. Mas a maioria tomou o rumo oposto: admiradores do fascismo italiano, aderiram primeiro ao integralismo de Plínio Salgado, e mais tarde fizeram do anticomunismo profissão de fé, endossando conspirações e golpes que culminaram na conquista do poder em 1964. Mas aí os tenentes já eram generais.

Mas voltando à pergunta:ainda estamos experimentando um longinquo efeito do tenentismo? Se sim, então estamos sendo governados pelo último tenente: o ex-capitão Jair Bolsonaro.

Mutos acharão desapropriada a comparação. Alguém consegue imaginar Bolsonaro percorrendo o sertão sem comida, roupa ou remédio, disposto a enfrentar patrulhas do exército, da polícia e de milicianos à sua caça? Além do que, é sabido que quando a História se repete, é como farsa. Foi assim que Bolsonaro surgiu para o país, em 1987: tal como os antigos tenentes enfrentaram os coronéis da política, o último tenente enfrentou Sarney, o último coronel, contra o arrocho salarial da classe média.

Mas se Bolsonaro é de fato o último tenente, espero que seja mesmo o último para este país que tem enorme dificuldade de desvencilhar-se do passado. Hoje se vê como o tenentismo foi um fenômeno nefasto, que ulcerou décadas da vida do país, suscitanto instabilidade política, luta armada, destruição, mortes e ideologias totalitárias. Do tenentismo dos anos vinte emergiram tanto a guerrilha quanto o golpismo, tanto o comunismo quanto o anticomunismo.