domingo, 24 de abril de 2022

Entre Lula e Bolsonaro

 A próxima eleição presidencial está se desenhando como uma disputa pessoal entre Lula e Bolsonaro, o que não é nada animador, não só pela sensação de dejà vu que evidencia a ausência de renovação, mas pelo radicalismo tosco dos personagens, que evidencia uma ruptura do espectro político que não se percebe no dia-a-dia da grande maioria da população.

Se Lula foi uma esperança que gorou, Bolsonaro é o retrato de um país de mau humor, desapontado por haver sido frustrado em suas esperanças. Bolsonaro é um boquirroto, mas ele não faz tanta bobagem quanto fala, ou teria ficado lá pelo meio do mandato tal como Jânio Quadros, Collor de Mello e outros "pontos fora da curva" de nossa política. Lula, é forçoso reconhecer, não fala bobagens. É extremamente articulado com as palavras, embora eventualmente tropece na gramática. Mas pelas costas faz as bobagens que não fala, é narcisista e ardiloso. Lula é um político. Bolsonaro é um anti-político. Lula é um malandro. Bolsonaro é um santarrão. E as comparações não param por aí.

Na realidade, tanto Bolsonaro quanto Lula encarnam caricaturas de figuras do passado. Bolsonaro é um patético ditador militar perdido em uma democracia, com a cabeça ainda no regime dos generais, do qual não participou porque era um simples cadete na época. Lula encarna o sonho dos anos sessenta, o operário no poder, utopia que ruiu com o Muro de Berlim. O país, de fato, parece ter sido congelado em algum momento entre o inicio dos anos 80, quando ruiu o sonho do Brasil Grande dos militares, e o início dos anos 90, quando ruiu a utopia socialista.

Mas ao contrário de Bolsonaro, Lula sabe se reinventar. Se não há renovação, então ficamos na expectativa do Novo Lula versão 2023. Bolsonaro parece que já deu o que tinha que dar.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Não se fazem mais guerras como antigamente

O que não mudou, é que a guerra é sempre uma desgraça. Bem como o séquito de refugiados. Minto: antigamente ninguém ligava para refugiados, hoje eles ao menos se materializam em imagens. Mas as guerras de antigamente pareciam mesmo ter um roteiro: havia um vencedor e um perdedor, milhares de prisioneiros, um armistício e uma ocupação. Já as guerras da atualidade se parecem mais a desordens.

Desconheço as raízes do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e não vou comentá-las. Mas parece-me que esse conflito se insere no padrão da guerra "moderna" - a primeira que vi foi a guerra Irã X Iraque nos anos 80, que durou não sei quantos anos e terminou sem vencedores e sem alteração no balanço geopolítico do Oriente Médio. A guerra moderna, ou é essa empatação que apenas consome vidas e recursos, ou se assemelha a uma operação policial levada a cabo por potências que se arrogam uma função policialesca dos conflitos globais, como foi a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. Haverá um equilíbrio de forças, ou um receio de se lançar mão da força total? Já dizia o general Sherman, da época da guerra civil norte-americana:

"Guerra é crueldade. Quanto mais cruel, mais cedo termina"

No passado as guerras ocasionavam por vezes tenebrosos massacres, mas tinham um papel no desenrolar da História, não eram simples desordem à espera de um policial para restaurar a ordem. Algumas até davam lucro ao vencedor, como foram as guerras movidas pelas potências imperialistas do século 19, notadamente as promovidas pelos EUA. Mas a Primeira Guerra Mundial veio pela primeira vez sinalizar que a guerra moderna havia se tornado tão custosa que significava prejuízo até para o vencedor - de fato, todos sofreram com a crise econômica que veio no rescaldo da guerra e prolongou-se até a Segunda Guerra Mundial, que foi ainda mais custosa, mas o pós-guerra veio quebrar o paradigma: não era mais o derrotado o encarregado de pagar toda a conta, mas os vencedores deviam se encarregar de ajudar na recuperação de todos a fim de criar um equilíbrio onde não houvesse mas ressentimentos que conduzissem a um novo conflito - e funcionou: a guerra seguinte, denominada a Guerra Fria, foi a guerra que não aconteceu, a despeito das previsões apocalípticas dos que viam como inexorável uma Terceira Guerra Mundial.

Havia também os chamados Conflitos de Baixa Intensidade, uma espécie de guerra "a prestação", que permanecia latente às vezes por décadas a fio, com longos intervalos intercalando uns tantos choques violentos. O conflito árabe-israelense, segundo alguns analistas, se enquadra nesta definição. A guerra da independência da América Latina durou 27 anos no início do século 19, mas não houve combates ininterruptos durante todo esse período, e sim avanços e recuos compondo uma longa história. De modo geral, na época, as guerras só afetavam intensamente as regiões onde se encontravam o teatro de operações. Isso mudou com o advento da guerra moderna industrial já na segunda metade do século, a nova guerra que não envolvia somente os exércitos, mas o comprometimento de toda a economia do país e o trabalho da população civil na retaguarda. Os primeiros exemplos de guerra moderna industrial foram a guerra civil norte-americana e a guerra franco-prussiana. A principal característica era o custo muito maior em dinheiro e vítimas.

Pouca gente sabe, mas a Guerra do Paraguai, ocorrida nesta mesma época, pode também ser enquadrada como exemplo pioneiro de guerra moderna industrial - bem distinta dos outros conflitos do continente, esta guerra destacou-se por sua longa duração, o enorme número de baixas (mesmo o Brasil perdeu 30% de seus efetivos, um percentual muito grande para um vencedor) e seu exorbitante custo. Evidente que o Brasil, exportador de produtos primários, não tinha condição de arcar com uma guerra industrial moderna, onde tinha que importar das potências industriais quase todo o seu material bélico, de modo que o conflito foi o início da derrocada do Segundo Império - uma vitória pírrica, de certo modo antecipando a mensagem que só ficaria clara meio século mais tarde, de que a guerra podia custar tão caro que não compensava nem para o vencedor.

No século 20, ao mesmo tempo em que desaparecia o conflito entre grandes potências, ganhava destaque a guerra de guerrilhas, grande moda da época, algumas se prolongando até os dias atuais, obviamente obedecendo ao paradigma dos Conflitos de Baixa Intensidade, mas que também já saiu de moda após o fim da Guerra Fria. O que sobrou foi essa guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que ocupa os noticiários até cansar, vira meme e dá suspeita de ser uma grande palhaçada. Já não se fazem mais guerras como antigamente, só não sei se isso é bom ou ruim.

domingo, 13 de março de 2022

Mamãe Falei Besteira

Da guerra entre Rússia e Ucrânia, pouco tenho a dizer, por não ter conhecimento do contexto específico a este conflito. Fico então com o assunto do momento: a desastrada fala do deputado conhecido por Mamãe Falei a respeito das mulheres ucranianas, que considerou lindas e fáceis "porque são pobres".

Nunca tinha ouvido falar deste deputado, mas a julgar pelo seu apelido, deve ser daqueles que buscam notoriedade com falas bombásticas ou engraçadinhas. Esta última de sua lavra com certeza vai deixá-lo queimado por um longo tempo, talvez para sempre. Mas antes de juntar-me ao coro condenatório, é preciso lembrar que ao menos uma coisa pode ser dita em sua defesa: ele não tinha intenção de tornar pública aquela fala. Nem imagino quem foi, ou quais as intenções de quem vazou o vídeo, o caso é que vazou, e já que está aí, temos uma rara oportunidade de saber o que pensam e falam nossos políticos em sua privacidade. E não surpreendentemente, eles mostram a mesma grosseria de milhões de brasileiros comuns que nunca se candidataram a nada.

Quanto a mim, não consigo imaginar como se consegue ver beleza e sensualidade em uma fila de refugiados. É sabido mundialmente que as mulheres do leste europeu são muito bonitas, mas se elas são mesmo tão pobres quanto dizem, fico na dúvida. Também é sabido mundialmente que as mulheres brasileiras são muito bonitas, mas quanto a essas não tenho dúvidas, já que meu país eu conheço: existem algumas de fato muito bonitas, que se tornam modelos de sucesso internacional, mas também uma enorme massa de mulheres feias. A média é muito fraca, e penso que não há dificuldade em atribuir à pobreza esta média fraca: beleza tem seu preço.

Muitos observadores estrangeiros, contudo, têm as mesmas ideias de Mamãe Falei quanto às mulheres brasileiras. Lembro de um entrevistado que abordava o grande número de modelos brasileiros de sucesso, e (por incrível que pareça) querendo parecer gentil e inteligente, expôs sua dedução: muitas mulheres brasileiras se tornam modelos porque "são bonitas e sentem fome". Foram essas suas palavras. Fiquei pensando se havia alguma lógica aí. Que um estrangeiro que pouco conhece do Brasil tenha essa fantasia, isso se entende, mas quem tem um mínimo de vivência deve saber que tornar-se modelo custa dinheiro: é preciso pagar cursos, ensaios fotográficos, além de uma vida saudável com boa alimentação ser requisito óbvio para quem quer ficar bonita. Das modelos brasileiras de sucesso, muito poucas tiveram origem pobre, a maioria teve na juventude condições ao menos razoáveis. É necessário muito esforço para imaginar Gisele Bündchen passando fome quando criança.

Deixando de lado o politicamente correto, é preciso reconhecer: mulher pobre em geral é feia. O que não impede que muitos turistas sexuais sejam vistos pelas praias do país ao lado de tipos que passam longe do catálogo de modelos, em geral negras ou mulatas, o que parece ser uma preferência da parte deles, espécie de fetiche de "sinhôzinho" ou eco dos contos dos marinheiros de cinco séculos atrás sobre as praias povoadas de índias nuas de pele escura sem noção de pecado. Agora, se no leste europeu as mulheres pobres são bonitas, não sei, nunca estive lá. O que posso concluir é que existe um traço comum no imaginário masculino internacional, a lenda de um lugar onde mulheres lindíssimas estão disponíveis a quem lhes pagar um prato de comida.

Uma vez perguntaram a um pesquisador de crimes horríveis o que ele buscava naqueles casos escabrosos que colecionava, e ele respondeu: conhecer a alma humana. O lixo do pensamento, bem ou mal, também é uma maneira de conhecer a alma humana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Morte de Olavo e a Nova Direita

 A direita no Brasil renasceu com Olavo de Carvalho. Mas será que remorreu com a morte deste?

É fato que até poucas décadas atrás a direita brasileira parecia tão extinta quanto os antigos dinossauros. A direita política foi suprimida após a tomada de poder pelos militares em 1964, que não queriam nenhum partido político proeminente e tampouco qualquer resquício de poder civil, fosse de esquerda ou de direita. Já no terreno das ideias, durante a após a ditadura, ser direita era simplesmente ser politicamente incorreto, embora a expressão ainda não existisse. Ser de direita significava ser a favor da ditadura, da tortura, da desigualdade social, do massacre dos índios, etc. etc. Nesse deserto de ideias assentaram-se camadas de lugares-comuns repetidos pelos pretensos esquerdistas, que sedimentaram-se no senso comum.

Daí que a inesperada aparição de Olavo de Carvalho, desmontando peça por peça aquelas toscas construções ideológicas, tenha sido recebida como uma libertação para milhares de conservadores, que se viram novamente livres para expressar suas ideias sem as barreiras na novilíngua esquerdista. Houve mesmo uma euforia, e falou-se do surgimento de uma Nova Direita no país, finalmente apta a disputar o poder e romper com a hegemonia do ideário esquerdista.

E como se sabe, a direita chegou ao poder nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, o próprio Olavo de Carvalho nunca estabeleceu-se como líder político, tendo preferido cercar-se de um séquito de discípulos fiéis, porém figuras apagadas fora dos círculos intelectuais. Foi proclamado como o guru da Nova Direita e grande inspirador de Jair Bolsonaro, mas o real alcance de sua influência sobre o presidente nunca ficou claro. Ele próprio não disfarçou estar um tanto desapontado com seus supostos seguidores e com o próprio Bolsonaro, e há quem diga que ele foi traído pelo presidente. A impressão que fica é que a direita que chegou ao poder não foi bem a sonhada por Olavo e seus discípulos. Mesmo porque o ideário dessa Nova Direita sempre me pareceu de pouca utilidade para o mundo político, misturando preceitos religiosos e filosóficos um tanto bizarros. Confusa como seu mentor, que nunca teve uma formação acadêmica regular. Polemista brilhante, mas difícil de conceituar, Olavo de Carvalho obteve sua formação intelectual catando preceitos de fontes avulsas, desde altos estudos clássicos até esoterismos e superstições - por muitos anos definiu-se como astrólogo. Nunca conseguiu montar um conjunto coerente de ideias, e parece não ter sido esse o seu objetivo. Amargo, pouco empático e sem disposição para o diálogo, abusando de linguagem chula contra quem ousasse contestá-lo, tornou-se aquilo que acusava a esquerda de ser: um sectário.

Olavo de Carvalho está ligado a um momento específico da História brasileira, aquele do esgotamento e da desilusão com a hegemonia das ideias da esquerda. Não foi feito para durar. Sua morte coincide com o esgotamento da direita no país.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Presidente bom é presidente chato

Estou com saudades de Michel Temer. Não, não é piada. Se ele foi um dos mais apagados e esquecíveis personagens que já sentaram na cadeira presidencial, e inclusive a legitimidade de seu mandato foi colocada em dúvida pelos que não aceitavam o impedimento de Dilma Rousseff, por outro lado é preciso recordar que naqueles anos a situação financeira do país foi melhorando gradual e continuamente, a ponto de Jair Bolsonaro pegar o país já com uma modesta recuperação econômica. Pouco depois, como se sabe, o dólar disparou e o crescimento travou.
 
Alguém comentou que Temer deveria ter aproveitado o fato de ser um presidente impopular para tomar medidas impopulares, o que ele fez até certo ponto, mas na minha opinião deveria ter feito mais. O problema é que o antigo paternalismo vigente por aqui nas relações entre governantes e governados faz com que as pessoas acreditem que os sucessos e os fracassos de um presidente dependem de sua boa ou má vontade. Lula pegou uma conjuntura econômica favorável e vendeu a ideia de que os bons resultados eram obra de sua gestão, mas dificilmente poderá repetir a mágica se eleito agora. Como Dilma igualmente não pôde. Vendo o saco de bondades do PT esvaziado, o povo voltou suas esperanças para "o mito", sempre a procura de um salvador da pátria.
 
Michel Temer me lembra Itamar Franco, outro presidente sem carisma que assumiu após o impedimento do titular cheio de carisma. Sua melhor ideia foi reativar a produção do fusca. Mas foi também no seu período que se iniciou o primeiro planejamento econômico sério desde muitas décadas após a pior crise econômica do país. Fernando Henrique começou a gestar o Plano Real ainda como ministro de Itamar, depois tornou-se o presidente, e sua figura está indelevelmente ligada ao plano que pôs fim à hiperinflação que arruinava o país, ao passo que Itamar é mais lembrado por haver tirado aquela foto junto à modelo sem calcinha. Não sei quando a importância de Itamar será devidamente reconhecida, mas parece-me que assim como de tanto em tanto surgem umas figuras exóticas que ocupam a presidência com estardalhaço para desaparecer em seguida, também de tanto em tanto surgem umas figuras apagadas para colocar a casa em ordem.
 
Lembro-me daquele ditado dos frequentadores de estádios: o bom juiz de futebol é aquele que após o jogo você não sabe o nome. Porque se você sabe o nome, alguma coisa errada ele fez. Do mesmo odo, os presidentes mais falados são aqueles que mais desastres causaram ao país. Eu não sei o nome do síndico do prédio onde moro. Mas infelizmente sempre sei o nome do presidente do país.
 
Michel Temer para presidente!

domingo, 28 de novembro de 2021

Que Vença o Menos Odiado

Tendo sido o país incapaz de estabelecer um regime bipartidarista onde duas correntes de orientação bem conhecida se alternassem no poder sem traumas nem percalços, a exemplo das nações desenvolvidas politicamente estáveis como os EUA e a Inglaterra, a próxima eleição será disputada por candidatos personalistas, raivosos e com propostas radicalmente distintas. Nenhum deles possui maioria simples do eleitorado, mas em comum todos têm um altíssimo índice de rejeição - de onde se deduz que o próximo presidente não será escolhido entre os mais amados, mas entre os menos odiados, e seja quem for, governará tendo à frente uma oposição feroz.

Destes, o novo personagem é o ex-juiz Sérgio Moro. Não vou entrar aqui em tecnicidades quanto a sua atuação como juiz na prisão de Lula, mesmo porque não tenho conhecimento do assunto, mas me parece evidente que Moro estaria bem melhor se continuasse juiz. Sua atuação como ministro foi pífia, e sua saída do cargo foi inglória. Com certeza Sérgio Moro não conseguiu até agora ser um político competente, o que não causa estranheza, pois a atividade do político é o oposto da função do juiz. Na política, só se obtém resultado mediante negociação, e a institucionalidade é uma massa fresca sendo moldada. O juiz não negocia, impõe a sentença de forma unilateral, consoante uma institucionalidade rígida e imutável. Deduzo que se Moro for presidente e insistir em conduzir-se como juiz, ou ele será um ditador, o que é improvável, ou sua atuação será não inócua quanto foi como ministro do governo atual.

De Bolsonaro e Lula, não há muito a dizer que já não tenha sido dito. A esperança que tenho é que, na impossibilidade de termos candidatos moderados, os personagens atuais acabem se moderando por puro desgaste. Bolsonaro já está bastante desgastado, não conseguiu impor-se para além de bravatas, e se ganhar um novo mandato, só obterá êxito se rever muitas de suas posturas atuais. Lula saiu da prisão com aura de vingador, mas todos sabem que já um personagem gasto. Ainda é capaz de bravatas, como quando justificou que o líder nicaraguense Daniel Ortega possa permanecer indefinidamente no poder. Mas ele próprio por certo não ficará indefinidamente no poder, ainda mais considerando-se sua idade, e um novo governo Lula está mais para uma pálida cópia de seu notável mandato da primeira década, quando contou com uma conjuntura política e econômica muito mais favorável.

Assim, acredito que um Lula renascido em 2022 será uma versão desidratada do Lula que conhecemos. Ele poderá até permitir-se mais alguns arroubos, como dar apoio ostensivo aos velhos aliados da Venezuela e Cuba, mas ao fazê-lo estará apenas manifestando o caráter do "brasileiro cordial", por ele tão bem incorporado, para quem o que importa são os "companheiros", não importa quão questionáveis eles sejam (lembram-se de Cesare Battisti?) Mas não terá força para fazer mais do que isso, e o provável é que se valha de sua habilidade política para levar o mandato até o fim e preservar seu histórico. O Lula atual já pertence mais ao passado do que ao presente. Desperta paixões, muitos o endeusam e outros o abominam. Quanto a mim, creio que ainda se passará um tempo antes que sua figura seja vista com mais imparcialidade, e sua importância histórica seja reconhecida na dimensão correta: diferente de Bolsonaro, que se inclui mais no rol das singularidades destinadas ao esquecimento, Lula merece ser lembrado no futuro porque soube incorporar como nenhum outro de seus contemporâneos as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração.

domingo, 31 de outubro de 2021

Extrema Direita X Extrema Esquerda

Pelo senso comum, a próxima eleição presidencial no país será disputada entre a extrema direita e a extrema esquerda, mais exatamente entre Bolsonaro e Lula, com todas as consequências que a polarização politica pode surtir. Mas direita e esquerda são termos gastos de tanto uso. Convém averiguar o quanto ainda se aplicam ao quadro político que se desenha com as próximas eleições.

Jair Bolsonaro com certeza é direita. Fica a gosto do freguês afirmar se ele é extrema direita ou apenas direita. Entretanto, ele não saiu de um partido formalmente direitista, nem é versado em ideologias. Seu direitismo reduz-se à admiração pelo regime militar de 1964, do qual não participou em razão da pouca idade. O eleitorado de direita aglutinou-se em torno dele simplesmente porque não havia mais ninguém que se assumisse direitista no país, desde a morte de Enéas Carneiro. E a ironia é que quem matou a direita no Brasil, foi justamente o regime militar que Bolsonaro admira.

Historicamente, a direita nacional era representada pela UDN, onde pontificavam líderes como Carlos Lacerda. Mas ao tomar o poder em 1964, a segunda coisa que os militares fizeram, depois de liquidar a esquerda comunista e trabalhista, foi liquidar a UDN, justamente para evitar que esse partido chegasse ao poder. Os principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados, e os demais atirados à vala comum da ARENA, partido sem ideologia e sem força. Evidente que eliminar a direita não era o objetivo declarado do grupo que tomou o poder - eles queriam eliminar alternativas civis à presidência, independente da cor ideológica. Seu projeto era um Estado com plenos poderes, garantido pelos militares e gerido pelos tecnocratas, superministros cuja influência ia muito além do escopo de suas pastas, dos quais os mais notáveis representantes foram Delfim Neto e Mário Simonsen. Nada tão original, também era assim o getulismo da época do Estado Novo, por sua vez gestado no positivismo do século 19, que propugnava uma "ditadura republicana, racional e científica" conduzida por critérios puramente técnicos em lugar dos interesses regionais, corporativos ou meramente pessoais dos políticos profissionais.

Mas os políticos não foram banidos de todo. Diferente das ditaduras pré-segunda guerra, a polarização ideológica da guerra fria proclamava-se uma luta do "mundo livre" contra o totalitarismo comunista. Então o regime inaugurado em 1964 tinha que exibir uma fachada democrática, com corpos legislativos supostamente atuantes e ao menos um partido de oposição admitido. Para criar esse simulacro, toda a legislação eleitoral foi alterada para privilegiar rincões políticos do interior em detrimento dos grandes centros. As consequências dessa repaginação de nossa classe política se manifestaram muito além do fim do regime militar. Por este motivo a direita brasileira não se recompôs após a supressão de suas lideranças em 1964 - nunca mais surgiram líderes intelectualmente valorosos e administradores competentes como Carlos Lacerda, o que surgiu em seu lugar foram políticos provincianos e medíocres. Estou convicto de que em 1964, José Sarney não imaginava que um dia seria o presidente.

Então, no deserto da direita nacional, quem apareceu foi a singularidade de Jair Bolsonaro. Ele nunca foi um líder direitista capaz para além de um pequeno carisma. Sofre tanto da falta de disposição para o jogo político quanto da falta de poder efetivo para implantar a ditadura que almeja, e nem lá nem cá, vai produzindo sucessivos impasses, às vezes apenas por conta de uma teimosia pueril. O tempo passa, a economia trava e as promessas vão ficando no vazio.

Concorrendo com ele, há o Lula renascido da prisão. Cabe agora definir se é de extrema esquerda ou apenas esquerda. Na minha opinião, não é nem de esquerda, e ele concorda. Não o vejo sequer como petista. Lula é, simplesmente... lulista. Seu marketing pessoal sobreviveu a todas as intempéries, e desde suas origens no ABC tem demonstrado uma incrível capacidade de se reinventar. Mesmo que perdesse muitas eleições, sempre esteve em evidência. Com o PT desmoralizado por escândalos, emergiu como líder inquestionável. Não acredito que o PT teria grandes chances na próxima eleição se seu candidato não se chamasse Lula.

Direita ou esquerda, a próxima eleição será disputada entre dois candidatos que se valem de seu carisma. Ainda continuamos carentes de partidos fortes com propostas claras.