domingo, 28 de novembro de 2021

Que Vença o Menos Odiado

Tendo sido o país incapaz de estabelecer um regime bipartidarista onde duas correntes de orientação bem conhecida se alternassem no poder sem traumas nem percalços, a exemplo das nações desenvolvidas politicamente estáveis como os EUA e a Inglaterra, a próxima eleição será disputada por candidatos personalistas, raivosos e com propostas radicalmente distintas. Nenhum deles possui maioria simples do eleitorado, mas em comum todos têm um altíssimo índice de rejeição - de onde se deduz que o próximo presidente não será escolhido entre os mais amados, mas entre os menos odiados, e seja quem for, governará tendo à frente uma oposição feroz.

Destes, o novo personagem é o ex-juiz Sérgio Moro. Não vou entrar aqui em tecnicidades quanto a sua atuação como juiz na prisão de Lula, mesmo porque não tenho conhecimento do assunto, mas me parece evidente que Moro estaria bem melhor se continuasse juiz. Sua atuação como ministro foi pífia, e sua saída do cargo foi inglória. Com certeza Sérgio Moro não conseguiu até agora ser um político competente, o que não causa estranheza, pois a atividade do político é o oposto da função do juiz. Na política, só se obtém resultado mediante negociação, e a institucionalidade é uma massa fresca sendo moldada. O juiz não negocia, impõe a sentença de forma unilateral, consoante uma institucionalidade rígida e imutável. Deduzo que se Moro for presidente e insistir em conduzir-se como juiz, ou ele será um ditador, o que é improvável, ou sua atuação será não inócua quanto foi como ministro do governo atual.

De Bolsonaro e Lula, não há muito a dizer que já não tenha sido dito. A esperança que tenho é que, na impossibilidade de termos candidatos moderados, os personagens atuais acabem se moderando por puro desgaste. Bolsonaro já está bastante desgastado, não conseguiu impor-se para além de bravatas, e se ganhar um novo mandato, só obterá êxito se rever muitas de suas posturas atuais. Lula saiu da prisão com aura de vingador, mas todos sabem que já um personagem gasto. Ainda é capaz de bravatas, como quando justificou que o líder nicaraguense Daniel Ortega possa permanecer indefinidamente no poder. Mas ele próprio por certo não ficará indefinidamente no poder, ainda mais considerando-se sua idade, e um novo governo Lula está mais para uma pálida cópia de seu notável mandato da primeira década, quando contou com uma conjuntura política e econômica muito mais favorável.

Assim, acredito que um Lula renascido em 2022 será uma versão desidratada do Lula que conhecemos. Ele poderá até permitir-se mais alguns arroubos, como dar apoio ostensivo aos velhos aliados da Venezuela e Cuba, mas ao fazê-lo estará apenas manifestando o caráter do "brasileiro cordial", por ele tão bem incorporado, para quem o que importa são os "companheiros", não importa quão questionáveis eles sejam (lembram-se de Cesare Battisti?) Mas não terá força para fazer mais do que isso, e o provável é que se valha de sua habilidade política para levar o mandato até o fim e preservar seu histórico. O Lula atual já pertence mais ao passado do que ao presente. Desperta paixões, muitos o endeusam e outros o abominam. Quanto a mim, creio que ainda se passará um tempo antes que sua figura seja vista com mais imparcialidade, e sua importância histórica seja reconhecida na dimensão correta: diferente de Bolsonaro, que se inclui mais no rol das singularidades destinadas ao esquecimento, Lula merece ser lembrado no futuro porque soube incorporar como nenhum outro de seus contemporâneos as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração.