domingo, 25 de setembro de 2022

Dois Personagens Injustiçados

O tempo está bom para falar de reis. O bicentenário da independência e o falecimento da rainha Elizabeth da Inglaterra puxam o assunto. Hoje vou abordar dois personagens tão importantes quanto injustiçados de nossa História: dom João VI e Pedro I.

O rei dom João é apresentado como um glutão bonachão e medroso, e seu filho, o futuro primeiro imperador do Brasil, como um rapagão mulherengo, grosseiro e ignorante a ponto de ser considerado quase um semi-analfabeto. Tanto um quanto o outro isentos de qualidades de estadista.

Mas primeiro de tudo faltou colocá-los em seu devido contexto histórico. O parvo João moveu-se em um verdadeiro olho de um furacão, tendo reinado em um dos períodos mais conturbados e de mais súbitas mudanças de toda a História Universal. De príncipe a rei, sem ter sido educado para tal, pois não era o herdeiro. Da Europa para o Brasil. De absolutista a constitucional. Do Brasil colônia a país independente. Passou por todas essas transições e permaneceu no poder, enquanto outros reis muito mais poderosos e melhor preparados eram depostos e exilados. E mais não se diga, inserido em um ambiente doméstico tão inóspido quanto o ambiente político.

Segundo de tudo, é preciso desmitificar a suposta fuga de João, que dizem, escafedeu-se deixando o seu povo a ver navios, daí ter surgido essa antiga expressão, pois a população de Lisboa ficou vendo os navios do rei sua comitiva ao longe enquanto as tropas de Napoleão chegavam. Mas é preciso dizer e repetir: João não fugiu. Tivesse fugido, seria apenas mais um rei no exílio. Mas continuou reinando, pois junto com ele, foi transportada toda a máquina governamental, incluindo o funcionalismo, os arquivos, o tesouro, a biblioteca que está aqui até hoje, e até uma tipografia completa. Uma operação de logistica complicadíssima para a época, mais ainda por ter sido planejada em total sigilo, que nunca antes fora executada, nem jamais o seria depois. Dom João VI foi o primeiro e o último monarca a visitar suas colônias na América - hoje isso pode parecer estranho, mas na época não se justificava de modo algum um rei meter-se em um navio para uma viagem arriscada e desconfortável, que tomaria mais de três meses tanto para a ida quanto para a volta, perfazendo bem um ano de ausência na metrópole.

A transferência do reino para outro continente foi uma façanha extraordinária e única, que já bastaria para tornar João admirável. Mas ele continuou a ser considerado um governante fracote e pusilânime, que sempre postergava decisões, supostamente por medo de tomá-las. Mas de postergação em postergação, o rei sobreviveu a todas as crises políticas e impasses militares daquea época conturbada, deu um grande impulso ao Brasil, que deixou de ser colônia, e ainda foi bem recebido de volta a Portugal, a terra de onde supostamente havia fugido correndo. Parece-me bem falso que João não tivesse qualidades de estadista.

Já dom Pedro é lembrado por haver tido dezenas de amantes e filhos naturais, bem como por seus modos grosseiros e sua boca cheia de palavrões. Não deixa de ser verdade. Mas se esquece que tal libertinagem era a regra para todos os reis e nobres da época. Uma espécie de compensação: sabia-se que reis e nobres tinham que sacrificar sua vida privada em prol de interesses políticos, com casamentos arranjados, mas ao mesmo tempo eram homens poderosos e acostumados a ter seus prazeres satsfeitos. Então lhes era concedida uma tolerância para casos extraconjugais que não se extendia à burguesia e ao povo.

É verdade também que o rapaz Pedro preferia expressar-se em linguagem coloquial, e por vezes conduzia-se como um rude homem do povo. Mas também é verdade que os arquivos da Biblioteca Nacional guardam muitos documentos bem escritos pelo próprio punho do imperador, em linguagem adequada. Não, Pedro não era um ignorante semi-analfabeto como muitos imaginam; ele teve, sim, uma educação de príncipe. Também é absurdo afirmar que não tinha qualidades de estadista um homem que aos 24 anos já havia feito a independência de um país que era quase um continente inteiro, e antes dos 36 anos já havia conduzido e vencido uma guerra em Portugal contra o usurpador do trono de sua filha, deixando tanto o Brasil quanto Portugal com regimes constitucionais, em uma época em que a monarquia absoluta estava em alta após as guerras napoleônicas. Pedro agiu bem e agiu mal, mas sobretudo, agiu sempre, quando poderia ter simplesmente se retirado para os bastidores e ali levado uma sossegada vida de pândega e fudelança.

Não vejo outra razão para o pouco caso com que são tratados esses personagens tão importantes de nossa História, senão como um sinal de profunda falta de autoestima. Antes que os outros zombem de nós, nós mesmos nos zombamos.

sábado, 17 de setembro de 2022

A Monarca e a Nação

A notícia que dominou a mídia na última semana foi o falecimento da rainha Elizabeth II da Inglaterra. Entende-se que um personagem tão simpático desperte uma justa comoção ao partir deste mundo, e de fato, a falecida soube como poucos conduzir-se como uma rainha deve ser, separando com discrição a vida pública da vida privada.

Muitos, contudo, não julgarão o ocorrido algo diferente da morte de alguma socialite ou artista muito popular. Mas eu insisto que Elizabeth foi mais do que isso. O que é a monarquia no mundo atual? Um regime de espetáculo, politicamente inútil e muito dispendioso, ao qual só alguns países muito ricos e tradicionalistas podem ser dar ao luxo de manter, certo? Custa caro, mas não afeta o funcionamento do governo, digo a vida de quem efetivamente governa. Desperta a nostagia de um passado quando os governantes era figuras garbosas, tão diferentes dos políticos que querem se passar por homens do povo, mas o que importa é que, garbosos ou não, aqueles que governam são referendados pelo povo. Ponto. Ficou no passado a dicotomia Monarquia/Aristocracia X República/Democracia.

Mas afinal, se a monarquia é um regime onde o povo não governa, como explicar que no mundo atual todos os regimes monárquicos sejam democracias exemplares, e todas as ditaduras são ou foram regimes republicanos?

Aí temos que recorrer à História e acompanhar a evolução dos regimes monárquicos, de absolutistas a constitucionais, até chegar à mera encenação de espetáculo que tornaram-se no tempo presente. O caso mais emblemático foi o da Inglaterra. Difícil hoje pensar em uma Inglaterra onde não haja um rei. Já dizia um certo personagem cujo nome eu esqueci, no futuro so restarão cinco reis: o rei de copas, o rei de espadas, o rei de ouros, o rei de paus e o rei da Inglaterra. Mas nem sempre foi assim. A Inglaterra foi o primeiro lugar do mundo moderno onde o regime monárquico foi seriamente questionado, ali pelo século 16. Um rei perdeu a cabeça, mas depois chegou-se à concusão de que o melhor mesmo era ter um rei, e a monarquia foi restaurada. Mas até o fim do século 18 foi um regime bastante desastrado, com reis mais interessados na vida dissoluta do que nos assuntos de estado, o que abriu espaço para que o parlamento e o primeiro ministro concentrassem cada vez mais o poder.

A monarquia britânica só consolidou-se de fato e tornou-se benquista com o reinado da rainha Vitória, e de certa fora foi ela, e não a tirânica Elizabeth I, a precursora da falecida Elizabeth II. Com a agitação social resultante da revolução industrial, surgiu a demanda por um governo que incutisse respeito à população, e a jovem rainha mostrou-se a figura ideal. Vitória tornou-se o protótipo do governante que, com sua conduta pessoal ilibada, dá legitimidade ao regime e às hierarquias sociais que o sustentam. Apesar de nunca haver mostrado interesse pelas demandas populares e não esconder sua preferência pelos conservadores, Vitória gozou de bons índices de aprovação popular a maior parte de seu reinado, em razão do poder e prosperidade alcançados pelo Império Britânico, e por sua vida exemplar na companhia do marido, sem os escândalos e adultérios que haviam até então marcado a família real. Aí foi gestado o conceito que ganhou o nome de moral burguesa, oposta à lassidão dos aristocratas, mas também devendo servir de modelo às classes trabalhadoras.

Elizabeth II reproduziu sem grandes volteios o papel de Vitória. Então, a monarquia não é mero resquício inútil de épocas passadas, ela teve uma função ao construir o presente dos países mais evoluídos do globo, e por isto é mantida com esmero por estes. O monarca não governa, mas reina; ele não está vinculado a um partido, mas à nação; e como tal, reúne em torno de si um poderoso simbolismo que mantém acesa a mística da nacionalidade. Faz-nos muita falta algo assim, tal como também falta a tantas outras repúblicas imperfeitas ou meramente repúblicas de fancaria pelo planeta afora. Mas já o tivemos. Terá sido coincidência que o país foi o único do continente que obteve sua independência com um regime monárquico, e também o único que manteve-se íntegro, sem fragmentar-se em dezenas de republiquetas? Terá sido por acaso que o Segundo Reinado foi bem mais estável política e economicamente do que a república que o sucedeu?

O papel de nosso último monarca foi bem resgatado em um memorável artigo que o escritor Monteiro Lobato publicou no longínquo ano de 1918. Ele procurava explicar como a época da monarquia podia ter sido tão menos conturbada que os tempos republicanos que estava vivendo então, se o povo e a classe política eram essencialemente os mesmos. Ele chegou à resposta: a presença de dom Pedro II:

Pedro II era a luz do baile.


Muita harmonia, respeito às damas, polidez de maneiras, jóias de arte sobre os consolos, dando ao conjunto uma impressão genérica de apuradíssima cultura social.


Extingue-se a luz. As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as jóias…

domingo, 28 de agosto de 2022

A Esquerda não se reinventa

Lula é candidato a presidente desde 1990. Ninguém jamais disputou tantas eleições presidenciais no país, todas com reais chances de vencer. Duas ele levou. E agora está aí disputando mais uma e liderando as intenções de voto.

Já afirmei aqui que a razão do nome Lula permanecer sempre atual após tantos anos é a impressionante capacidade que ele tem de se reinventar. O Lula de 2022 não é o mesmo de 2002, muito menos o de 1990. No entanto, ela carrega nas costas uma esquerda que não quer, ou não consegue se reinventar, e ignora-se até que ponto esse peso irá atrapalhá-lo em seu caminho até a presidência.

Recentemente descobri uma postagem que sintetiza muito bem esse imobilismo da esquerda brasileira, da autoria de um certo Gregório Faria.

"Na verdade, a esquerda brasileira sofre de juventude"

O autor começa lembrando que ao assumir o poder nos anos 2000, a esquerda era basicamente sindicalista, aquela que surgiu nas empresas e lutava por direitos e interesse dos trabalhadores.

"Mas os anos PT cometeram um erro gigantesco (ainda bem) com o foco na economia primária, extração e agropecuária, com a indústria perdendo apoio governamental (que tinha mais interesse nos bilhões da China) e o país se desindustrializando"

"Ou seja, o trabalhador que era a base de apoio da esquerda deixou de ser contemplado por ela e deixou de a apoiar"

Mas terá sido mesmo esse o fenômeno, ou se foi, em que medida? A desindustrialização já vinha ocorrendo desde os anos 90, e é sabidamente um fenômeno mundial a progressiva substituição do setor secundário (industria) pelo setor terciário (serviços). Mas pensava-se que essa transição atingiria somente países industrializados antigos. Não vou entrar aqui nessa discussão: o fato é que o PT progressivamente perdeu a base de apoio que o havia alçado ao poder. Uma explicação melhor é lançada pelo autor no parágrafo seguinte:

"Ao mesmo tempo, sem novos quadros vindo da indústria, comércio e 'mundo real', não houve renovação de seus quadros, que tinha seus teóricos dos anos 60 não se comunicando com os jovens dos anos 90 e 00, agora adultos"

Aí está o X da questão, a diferença entre o Brasil e os países industrializados antigos. A esquerda nasceu da revolução industrial, e originalmente dedicava-se somente a pautas relativas a salários e direitos dos trabalhadores. Mas nossa industrialização foi tardia, tendo tomado fôlego somente nos anos Vargas, fomentada pelo Estado, ao qual estavam atrelados inclusive os sindicatos. Então, a esquerda brasileira não foi gestada por operários, mas por intelectuais e sindicalistas profissionais. Esse público formou uma seita - nome apropriado a um grupo ligado por comungar uma ideologia - e seitas são atemporais. Restrita aos bairros da classe média e aos campi universitários, sem contato com o mundo real das periferias e seus trabalhadores, essa seita passou a importar uma pauta globalista, sobretudo vinda dos EUA, com reivindicações que podem fazer sentido lá, mas não aqui.

"Então, enquanto ainda temos centenas de milhares, milhões sem emprego, essa 'nova esquerda' está defendendo inclusão de trans, ataque às religiões, luta agressiva contra o racismo, liberalização das drogas, todas pautas justas e necessárias, mas em segundo plano, depois que emprego, segurança, saúde e educação sejam universais"

"Então o 'seu Zé da quitanda', que é contra a direita, mas é assaltado toda semana, a dona Maria que tem um filho viciado e que a ameaça para ter dinheiro e não quer drogas liberadas, o Augusto, que é negro mas namora uma branca e ela foi ofendida porque usava turbante na cabeça, todos eles são atacados por essa 'nova esquerda' (chamada, com toda razão, de Esquerda Leblon), que quer os chamar de fascistas por defenderem o direito de terem uma vida menos pior"

Aí está o motivo do povão das periferias haver se bandeado em quantidade para a direita de Bolsonaro, a despeito dos resultados relativamente bons e da popularidade de que a esquerda chegou a desfrutar durante a Era Lula. O pessoal classe média da dita Esquerda Leblon queixa-se  dos "coxinhas" que se apossaram do poder, esquecidos que os coxinhas são uma pequena minoria do eleitorado, e se quisessem realmente entender como Bolsonaro chegou ao poder, deveriam atentar para o que ele tem que agrada ao povão, e não aos coxinhas. O primeiro aviso, bem incisivo, surgiu durante ainda os anos Lula, com o embaraçoso sucesso do filme Tropa de Elite a mostrar o abismo entre o povo das periferias idealizado pela Esquerda Leblon e o real povo das periferias, que frequenta igrejas evangélicas e é aterrorizado por bandidos. Tão tola foi a Esquerda Leblon, que imaginando contar com o apoio irrestirto dos pobres, pôs-se a renegar a classe média que até então fora seu sustentáculo ideológico (quem se lembra daquele discurso de Marilena Chauí ante um constrangido Lula, Eu Odeio a Classe Média?). Depois se espantaram que essa mesma classe média engrossasse as passeatas pró-impedimento de Dilma.

Lula não foi um intelectual, mas foi um sindicalista profissional - a outra vertente da esquerda nativa tupiniquim. É certo que enquanto foi conveniente, ele endossou o discurso da esquerda intelectual universitária, mas a impressão que sempre tive foi que ele no fundo a desprezava - no início de sua carreira, ainda sindicalista, nem deixava estudantes subirem ao palanque. Resta saber se agora ele vai colocar a seu serviço essa esquerda que não quer reinventar-se, ou se ela vai arrastá-lo ao fundo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Bicentenário da Independência

De minha infância, ficou-me na memória uma palavrinha que foi ecoada ad nauseaum pelas mídias lá pelos idos de 1972: tratava-se do tal de sesquicentenário da independência. Traduzindo, os 150 anos da independência do país. Não é uma efeméride tão emblemática quanto um centenário ou um bicentenário, por certo, mas vivia-se na época um clima de euforia celebrado pelo regime de 1964, que proclamava o Milagre Brasileiro. Marco extraordinário, sesquicentenário da inedependência / Potência de amor e paz, esse país faz coisas que ninguém imagina que faz...

Restou na memória a musiquinha e o curioso neologismo. Hoje, cinquenta anos depois, a celebração do bicentenário não desperta paixão alguma, o país vive tudo menos um clima de euforia, e o presidente se assemelha a uma paródia dos generais espaventosos do tempo do milagre econômico. Parece coerente: não existe evento que não tenha motivado mais esforços para ser desacreditado do que o sete de setembro. Não há professor de História que não tenha afirmado que não houve independência alguma, já que o país continuou governado por um monarca estrangeiro, que dom Pedro havia ido a São Paulo visitar sua amante e que parou para defecar no caminho, quando foi alcançado pelo mensageiro que trazia cartas exigindo seu retorno a Portugal. O quadro de Pedro Américo já foi comparado a uma propaganda de desodorantes, com tantos daqueles braços erguidos.

Tudo mentira, a começar que dom Pedro sequer conhecia dona Domitila na ocasião, veio a travar seu primeiro contato por obra do acaso nessa viagem. É certo que a data de sete de setembro foi escolhida por mero papel simbólico, pois desde o 21 de janeiro, Dia do Fico, o imperador já estava formalmente rompido com as cortes de Lisboa, uma esquadra já estava sendo preparada para ser enviada ao Brasil, e os acontecimentos teriam tomado o rumo que tomaram não importa o que o monarca fizesse ou deixasse de fazer naquele sete de setembro. Pessoalmente acredito que dom Pedro disse foi um par de palavrões ao invés do grito de independência ou morte, mas isso é totalmente irrelevante.

A celebração do Sete de Setembro, contudo, obscureceu outros atores daqueles eventos, a começar pelo papel da Inglaterra, que tinha interesse na independência do Brasil e fez abortar o envio da esquadra portuguesa. Houve combate em várias partes do país, sobretudo no norte, mas os protagonistas desses combates hoje são personagens secudários só lembrados em seus estados de origem. Foi também esquecido um papel importatíssimo da imperatriz Leopoldina: tão logo ela soube que o marido havia proclamado a independência em seu caminho de volta, mandou prender o comandante da guarnição portuguesa da cidade. Seria engraçado se dom Pedro, logo após de proclamar a independência, terminasse preso ao chegar à capital...

Mas é fato que nem todos eram tão assim favoráveis à independência. Muitas províncias do norte não viam diferença entre obedecer a uma corte em Lisboa e obedecer a uma corte no Rio de Janeiro. E não faltavam os que sonhavam com o restabelecimento do Reino Unido, uma monarquia dual com dom Pedro assumindo também o trono português, do qual ainda era o herdeiro - mas bem ou mal, a independência foi feita, e tivemos que pagar por ela.

Hoje, se o bicentenário não está sendo devidamente comemorado, ao menos o distanciamento no tempo permite apreciar o justo valor e significado deste evento histórico. E vejo que foi muito bom que o país tenha conquistado sua independência desta maneira, sem guerras fratricidas que inevitavelmente dividiriam o território entre miríades de republiquetas. Se o país permaneceu uno, e se nossa História é relativamente pacífica se comparada com a de nossos vizinhos hispânicos, isso devemos à decisão de um rapaz de 24 anos, que poderia ter regressado a seu país e ali sossegadamente levado a vida dissoluta de tantos outros fidalgos, mas preferiu ariscar o pescoço e fazer a nossa independência. É assim que no Brasil atual, a enorme diversidade racial coexiste com uma notável uniformidade cultural - quanto valor não tem isso?

E mais não se diga, prefiro ser governado por um imperador de verdade do que por fazendeiros fantasiados de general.

sábado, 23 de julho de 2022

O Último Tenente

Está fazendo 100 anos agora do surgimento de um fenômeno que impactou bastante os rumos da história brasileira dali por diante, e suscita mesmo a questão: ainda estamos experimentando um longinquo efeito deste impacto? Refiro-me ao tenentismo, rebelião de jovens oficiais contra a República Velha que eclodiu nos anos 20. Saiu uma reportagem a respeito na revista Aventuras na História.

Revendo os feitos dos tenentes da época, não dá para disfarçar a admiração. Enfrentaram de peito aberto os tiros na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Derrotados em suas insurreições, não se renderam: embrenharam-se pelo interior, bem longe da Avenida Atlântica, e marcharam a chamada Coluna Prestes, que percorreu uma distância superior àquela da famosa Grande Marcha de Mao Tsé-tung, até se internar na Bolívia. Muita fibra. Aos olhos de hoje, parecem jovens idealistas audazes, dispostos a desafiar os arcaicos arcabouços políticos e socias da república dominada pelos grandes fazendeiros. É empolgante pensar: o novo contra o velho, a cidade contra o interior atrasado, a emergente classe média contra a velha aristocracia.

Mas se mostraram muita coragem ao percorrer matas virgens, pantanais e caatinga, por onde passaram saqueavam fazendas, roubavam gado e torturavam quem lhes negasse informação ou suprimento, não muito diferente do que faziam os cangaceiros do sertão. O que faz suspeitar da pureza de seus ideais. O futuro confirmou as suspeitas: quase todos se tornaram adeptos de ideologias totalitárias. Luís Carlos Prestes, aquele da coluna, como se sabe tornou-se o primeiro e mais notório comunista do país. De fato, o comunismo nasceu do tenentismo e vicejou entre os militares antes de vicejar nos movimentos estudantil e sindical, característica de um país de industrialização tardia. Mas a maioria tomou o rumo oposto: admiradores do fascismo italiano, aderiram primeiro ao integralismo de Plínio Salgado, e mais tarde fizeram do anticomunismo profissão de fé, endossando conspirações e golpes que culminaram na conquista do poder em 1964. Mas aí os tenentes já eram generais.

Mas voltando à pergunta:ainda estamos experimentando um longinquo efeito do tenentismo? Se sim, então estamos sendo governados pelo último tenente: o ex-capitão Jair Bolsonaro.

Mutos acharão desapropriada a comparação. Alguém consegue imaginar Bolsonaro percorrendo o sertão sem comida, roupa ou remédio, disposto a enfrentar patrulhas do exército, da polícia e de milicianos à sua caça? Além do que, é sabido que quando a História se repete, é como farsa. Foi assim que Bolsonaro surgiu para o país, em 1987: tal como os antigos tenentes enfrentaram os coronéis da política, o último tenente enfrentou Sarney, o último coronel, contra o arrocho salarial da classe média.

Mas se Bolsonaro é de fato o último tenente, espero que seja mesmo o último para este país que tem enorme dificuldade de desvencilhar-se do passado. Hoje se vê como o tenentismo foi um fenômeno nefasto, que ulcerou décadas da vida do país, suscitanto instabilidade política, luta armada, destruição, mortes e ideologias totalitárias. Do tenentismo dos anos vinte emergiram tanto a guerrilha quanto o golpismo, tanto o comunismo quanto o anticomunismo.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Revendo 2013

O distanciamento no tempo permite a avaliação correta do significado dos acontecimentos históricos. E há um cuja explicação ainda não é um consenso. Refiro-me ao fenômeno das manifestações de 2013. Surgiram meio como raio em céu sereno, disparadas por um quase anódino movimento que pregava o passe livre nas conduções, em um momento político que parecia tranquilo para um governo que colhia bons frutos das duas administrações anteriores de Lula, e revelara uma profunda inquietação popular. Hoje, ao contrário, quando o momento político e econômico é conturbado, não se vê grandes manifestações. O horizonte está vazio de ideias.

O que teriam sido de fato aquelas manifestações que encheram as ruas por várias semanas? O despertar de uma nova geração de movimentos sociais, desvinculados de organizações tradicionais e de partidos políticos? Ou o surgimento de uma onda conservadora que permanece até agora no poder? O que se sabe é que o fenômeno fugiu totalmente ao planejamento da esquerda tradicional então no poder. Logo de início o governo petista tentou pegar carona no movimento e anunciou com alarde a convocação de uma assembleia constituinte, sonhada para dar o golpe e por fim instalar um regime bolivariano onde o legislativo passaria a ser controlado por "organizações sociais" obviamente controladas pelo PT. Mas tal como a moça feia da canção de Chico Buarque, enganou-se achando que a banda tocava para ela. Hoje não há dúvida de que aquelas manifestações foram o começo da queda do governo Dilma e da própria era petista.

Passada quase uma década, o que se nota é que não houve um movimento único, mas vários movimentos manifestando-se ao mesmo tempo. O rescaldo de uma breve era de otimismo - os dois governos de Lula, em um momento econômico favorável e crescimento. Muitas promessas foram levantadas, e sentimentos reprimidos vieram à tona. Mas seguiu-se uma sensação de engodo depois que Dilma assumiu. O povão viu que as promessas não seriam cumpridas, e a classe média decepcionou-se com o ostensivo desprezo com que era tratada pelos líderes petistas. De repente ficou claro que aquele governo não era o que parecia ser, e tinha propósitos ocultos. Sua ideologia não conseguiu cativar a parcela mais pobre da população, mas foi suficiente para pisotear valores antigos muito caros, o que deu origem à onda conservadora da Nova Direita. As manifestações de 2013 foram basicamente o choque entre a fervura e a água.

Mas isso agora é passado, e difícil é prever o futuro. Teremos uma nova era de fermentação de ideias e otimismo? Ou vai continuar o embate entre uma nova direita que já envelheceu, e uma velha esquerda que não sabe se renovar? O que sei é que tenho saudades de 2013.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A Polícia que Mata

Mais uma vez uma operação da polícia no RJ deixa dezenas de mortos, e mais uma vez ecoa nas manchetes, inclusive estrangeiras, o mesmo bordão: a polícia brasileira está entre as que mais matam no mundo,

Em geral essa afirmação bombástica vem acompanhada das denúncias de que "metade dos mortos não tinha passagem na polícia", outros eram inocentes vítimas de balas perdidas, outros foram executados, etc.

Podem até ser verdadeiras algumas dessas denúncias. Mas é nítida a mensagem de que a polícia mata deliberadamente trabalhadores inocentes. A polícia brasileira mata? Sim, isto é flagrante. Mas também morre. O que as manchetes raramente dizem é que a polícia brasileira está entre as que mais morrem no mundo. Quanto a mim, não nego nem estranho, nem a primeira afirmação, nem a sua contrapartida: a meu ver trata-se do resultado inevitável de um quadro onde os bandidos formam numerosas quadrilhas e usam armamento pesado, do tipo só usado pelas forças armadas, adquirido de grandes contrabandistas internacionais. Todos sabem que os bandidos ocupam posições privilegiadas do alto das favelas, de onde começam a disparar tão logo a polícia chega ao pé do morro. De um combate assim, só podem resultar muitas morte, inclusive por bala perdida. O que vale é que os bandidos têm as mais poderosas armas, mas não o treinamento apropriado para usá-las: não sabem nem segurá-las direito. Aí quando vão enfrentar soldados que sabem usar a arma, o resultado é esse.

Passando ao largo do sensacionalismo, podemos raciocinar: se 20 morreram, imagine quantos escaparam. Por aí dá para avaliar o tamanho das quadrilhas. Se metade dos mortos não tinha ficha na polícia, isso não é prova de que eram inocentes. Isso é prova da generalizada impunidade dos bandidos que dominam as favelas onde a polícia raramente incursiona. Qualquer garoto ali, vendo um companheiro que já é quadrilheiro desde muitos anos sem ter sido jamais preso, só pode se animar a seguir a mesma carreira.

A solução é matar? Não concordo. Bandido, em geral, não tem medo de morrer, porque já viram muitas mortes, sabem que sua vida será curta de qualquer jeito, então tratam de desfrutá-la ao máximo. Bandido tem medo, isso sim, de cana dura: passar longos anos em uma cela, onde não tem festa, nem bebida, nem droga, nem mulher, nem nada daquilo que o motivou a entrar para o crime. A solução é prender; matar é apenas a consequência inevitável de um enfrentamento onde do lado de lá atiram com armas pesadas que sequer sabem utilizar.

Não deixo de lamentar os vinte mortos na operação. Mas eles morreram porque estavam lá, e não na cadeia onde deveriam estar.

domingo, 24 de abril de 2022

Entre Lula e Bolsonaro

 A próxima eleição presidencial está se desenhando como uma disputa pessoal entre Lula e Bolsonaro, o que não é nada animador, não só pela sensação de dejà vu que evidencia a ausência de renovação, mas pelo radicalismo tosco dos personagens, que evidencia uma ruptura do espectro político que não se percebe no dia-a-dia da grande maioria da população.

Se Lula foi uma esperança que gorou, Bolsonaro é o retrato de um país de mau humor, desapontado por haver sido frustrado em suas esperanças. Bolsonaro é um boquirroto, mas ele não faz tanta bobagem quanto fala, ou teria ficado lá pelo meio do mandato tal como Jânio Quadros, Collor de Mello e outros "pontos fora da curva" de nossa política. Lula, é forçoso reconhecer, não fala bobagens. É extremamente articulado com as palavras, embora eventualmente tropece na gramática. Mas pelas costas faz as bobagens que não fala, é narcisista e ardiloso. Lula é um político. Bolsonaro é um anti-político. Lula é um malandro. Bolsonaro é um santarrão. E as comparações não param por aí.

Na realidade, tanto Bolsonaro quanto Lula encarnam caricaturas de figuras do passado. Bolsonaro é um patético ditador militar perdido em uma democracia, com a cabeça ainda no regime dos generais, do qual não participou porque era um simples cadete na época. Lula encarna o sonho dos anos sessenta, o operário no poder, utopia que ruiu com o Muro de Berlim. O país, de fato, parece ter sido congelado em algum momento entre o inicio dos anos 80, quando ruiu o sonho do Brasil Grande dos militares, e o início dos anos 90, quando ruiu a utopia socialista.

Mas ao contrário de Bolsonaro, Lula sabe se reinventar. Se não há renovação, então ficamos na expectativa do Novo Lula versão 2023. Bolsonaro parece que já deu o que tinha que dar.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Não se fazem mais guerras como antigamente

O que não mudou, é que a guerra é sempre uma desgraça. Bem como o séquito de refugiados. Minto: antigamente ninguém ligava para refugiados, hoje eles ao menos se materializam em imagens. Mas as guerras de antigamente pareciam mesmo ter um roteiro: havia um vencedor e um perdedor, milhares de prisioneiros, um armistício e uma ocupação. Já as guerras da atualidade se parecem mais a desordens.

Desconheço as raízes do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e não vou comentá-las. Mas parece-me que esse conflito se insere no padrão da guerra "moderna" - a primeira que vi foi a guerra Irã X Iraque nos anos 80, que durou não sei quantos anos e terminou sem vencedores e sem alteração no balanço geopolítico do Oriente Médio. A guerra moderna, ou é essa empatação que apenas consome vidas e recursos, ou se assemelha a uma operação policial levada a cabo por potências que se arrogam uma função policialesca dos conflitos globais, como foi a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. Haverá um equilíbrio de forças, ou um receio de se lançar mão da força total? Já dizia o general Sherman, da época da guerra civil norte-americana:

"Guerra é crueldade. Quanto mais cruel, mais cedo termina"

No passado as guerras ocasionavam por vezes tenebrosos massacres, mas tinham um papel no desenrolar da História, não eram simples desordem à espera de um policial para restaurar a ordem. Algumas até davam lucro ao vencedor, como foram as guerras movidas pelas potências imperialistas do século 19, notadamente as promovidas pelos EUA. Mas a Primeira Guerra Mundial veio pela primeira vez sinalizar que a guerra moderna havia se tornado tão custosa que significava prejuízo até para o vencedor - de fato, todos sofreram com a crise econômica que veio no rescaldo da guerra e prolongou-se até a Segunda Guerra Mundial, que foi ainda mais custosa, mas o pós-guerra veio quebrar o paradigma: não era mais o derrotado o encarregado de pagar toda a conta, mas os vencedores deviam se encarregar de ajudar na recuperação de todos a fim de criar um equilíbrio onde não houvesse mas ressentimentos que conduzissem a um novo conflito - e funcionou: a guerra seguinte, denominada a Guerra Fria, foi a guerra que não aconteceu, a despeito das previsões apocalípticas dos que viam como inexorável uma Terceira Guerra Mundial.

Havia também os chamados Conflitos de Baixa Intensidade, uma espécie de guerra "a prestação", que permanecia latente às vezes por décadas a fio, com longos intervalos intercalando uns tantos choques violentos. O conflito árabe-israelense, segundo alguns analistas, se enquadra nesta definição. A guerra da independência da América Latina durou 27 anos no início do século 19, mas não houve combates ininterruptos durante todo esse período, e sim avanços e recuos compondo uma longa história. De modo geral, na época, as guerras só afetavam intensamente as regiões onde se encontravam o teatro de operações. Isso mudou com o advento da guerra moderna industrial já na segunda metade do século, a nova guerra que não envolvia somente os exércitos, mas o comprometimento de toda a economia do país e o trabalho da população civil na retaguarda. Os primeiros exemplos de guerra moderna industrial foram a guerra civil norte-americana e a guerra franco-prussiana. A principal característica era o custo muito maior em dinheiro e vítimas.

Pouca gente sabe, mas a Guerra do Paraguai, ocorrida nesta mesma época, pode também ser enquadrada como exemplo pioneiro de guerra moderna industrial - bem distinta dos outros conflitos do continente, esta guerra destacou-se por sua longa duração, o enorme número de baixas (mesmo o Brasil perdeu 30% de seus efetivos, um percentual muito grande para um vencedor) e seu exorbitante custo. Evidente que o Brasil, exportador de produtos primários, não tinha condição de arcar com uma guerra industrial moderna, onde tinha que importar das potências industriais quase todo o seu material bélico, de modo que o conflito foi o início da derrocada do Segundo Império - uma vitória pírrica, de certo modo antecipando a mensagem que só ficaria clara meio século mais tarde, de que a guerra podia custar tão caro que não compensava nem para o vencedor.

No século 20, ao mesmo tempo em que desaparecia o conflito entre grandes potências, ganhava destaque a guerra de guerrilhas, grande moda da época, algumas se prolongando até os dias atuais, obviamente obedecendo ao paradigma dos Conflitos de Baixa Intensidade, mas que também já saiu de moda após o fim da Guerra Fria. O que sobrou foi essa guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que ocupa os noticiários até cansar, vira meme e dá suspeita de ser uma grande palhaçada. Já não se fazem mais guerras como antigamente, só não sei se isso é bom ou ruim.

domingo, 13 de março de 2022

Mamãe Falei Besteira

Da guerra entre Rússia e Ucrânia, pouco tenho a dizer, por não ter conhecimento do contexto específico a este conflito. Fico então com o assunto do momento: a desastrada fala do deputado conhecido por Mamãe Falei a respeito das mulheres ucranianas, que considerou lindas e fáceis "porque são pobres".

Nunca tinha ouvido falar deste deputado, mas a julgar pelo seu apelido, deve ser daqueles que buscam notoriedade com falas bombásticas ou engraçadinhas. Esta última de sua lavra com certeza vai deixá-lo queimado por um longo tempo, talvez para sempre. Mas antes de juntar-me ao coro condenatório, é preciso lembrar que ao menos uma coisa pode ser dita em sua defesa: ele não tinha intenção de tornar pública aquela fala. Nem imagino quem foi, ou quais as intenções de quem vazou o vídeo, o caso é que vazou, e já que está aí, temos uma rara oportunidade de saber o que pensam e falam nossos políticos em sua privacidade. E não surpreendentemente, eles mostram a mesma grosseria de milhões de brasileiros comuns que nunca se candidataram a nada.

Quanto a mim, não consigo imaginar como se consegue ver beleza e sensualidade em uma fila de refugiados. É sabido mundialmente que as mulheres do leste europeu são muito bonitas, mas se elas são mesmo tão pobres quanto dizem, fico na dúvida. Também é sabido mundialmente que as mulheres brasileiras são muito bonitas, mas quanto a essas não tenho dúvidas, já que meu país eu conheço: existem algumas de fato muito bonitas, que se tornam modelos de sucesso internacional, mas também uma enorme massa de mulheres feias. A média é muito fraca, e penso que não há dificuldade em atribuir à pobreza esta média fraca: beleza tem seu preço.

Muitos observadores estrangeiros, contudo, têm as mesmas ideias de Mamãe Falei quanto às mulheres brasileiras. Lembro de um entrevistado que abordava o grande número de modelos brasileiros de sucesso, e (por incrível que pareça) querendo parecer gentil e inteligente, expôs sua dedução: muitas mulheres brasileiras se tornam modelos porque "são bonitas e sentem fome". Foram essas suas palavras. Fiquei pensando se havia alguma lógica aí. Que um estrangeiro que pouco conhece do Brasil tenha essa fantasia, isso se entende, mas quem tem um mínimo de vivência deve saber que tornar-se modelo custa dinheiro: é preciso pagar cursos, ensaios fotográficos, além de uma vida saudável com boa alimentação ser requisito óbvio para quem quer ficar bonita. Das modelos brasileiras de sucesso, muito poucas tiveram origem pobre, a maioria teve na juventude condições ao menos razoáveis. É necessário muito esforço para imaginar Gisele Bündchen passando fome quando criança.

Deixando de lado o politicamente correto, é preciso reconhecer: mulher pobre em geral é feia. O que não impede que muitos turistas sexuais sejam vistos pelas praias do país ao lado de tipos que passam longe do catálogo de modelos, em geral negras ou mulatas, o que parece ser uma preferência da parte deles, espécie de fetiche de "sinhôzinho" ou eco dos contos dos marinheiros de cinco séculos atrás sobre as praias povoadas de índias nuas de pele escura sem noção de pecado. Agora, se no leste europeu as mulheres pobres são bonitas, não sei, nunca estive lá. O que posso concluir é que existe um traço comum no imaginário masculino internacional, a lenda de um lugar onde mulheres lindíssimas estão disponíveis a quem lhes pagar um prato de comida.

Uma vez perguntaram a um pesquisador de crimes horríveis o que ele buscava naqueles casos escabrosos que colecionava, e ele respondeu: conhecer a alma humana. O lixo do pensamento, bem ou mal, também é uma maneira de conhecer a alma humana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Morte de Olavo e a Nova Direita

 A direita no Brasil renasceu com Olavo de Carvalho. Mas será que remorreu com a morte deste?

É fato que até poucas décadas atrás a direita brasileira parecia tão extinta quanto os antigos dinossauros. A direita política foi suprimida após a tomada de poder pelos militares em 1964, que não queriam nenhum partido político proeminente e tampouco qualquer resquício de poder civil, fosse de esquerda ou de direita. Já no terreno das ideias, durante a após a ditadura, ser direita era simplesmente ser politicamente incorreto, embora a expressão ainda não existisse. Ser de direita significava ser a favor da ditadura, da tortura, da desigualdade social, do massacre dos índios, etc. etc. Nesse deserto de ideias assentaram-se camadas de lugares-comuns repetidos pelos pretensos esquerdistas, que sedimentaram-se no senso comum.

Daí que a inesperada aparição de Olavo de Carvalho, desmontando peça por peça aquelas toscas construções ideológicas, tenha sido recebida como uma libertação para milhares de conservadores, que se viram novamente livres para expressar suas ideias sem as barreiras na novilíngua esquerdista. Houve mesmo uma euforia, e falou-se do surgimento de uma Nova Direita no país, finalmente apta a disputar o poder e romper com a hegemonia do ideário esquerdista.

E como se sabe, a direita chegou ao poder nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, o próprio Olavo de Carvalho nunca estabeleceu-se como líder político, tendo preferido cercar-se de um séquito de discípulos fiéis, porém figuras apagadas fora dos círculos intelectuais. Foi proclamado como o guru da Nova Direita e grande inspirador de Jair Bolsonaro, mas o real alcance de sua influência sobre o presidente nunca ficou claro. Ele próprio não disfarçou estar um tanto desapontado com seus supostos seguidores e com o próprio Bolsonaro, e há quem diga que ele foi traído pelo presidente. A impressão que fica é que a direita que chegou ao poder não foi bem a sonhada por Olavo e seus discípulos. Mesmo porque o ideário dessa Nova Direita sempre me pareceu de pouca utilidade para o mundo político, misturando preceitos religiosos e filosóficos um tanto bizarros. Confusa como seu mentor, que nunca teve uma formação acadêmica regular. Polemista brilhante, mas difícil de conceituar, Olavo de Carvalho obteve sua formação intelectual catando preceitos de fontes avulsas, desde altos estudos clássicos até esoterismos e superstições - por muitos anos definiu-se como astrólogo. Nunca conseguiu montar um conjunto coerente de ideias, e parece não ter sido esse o seu objetivo. Amargo, pouco empático e sem disposição para o diálogo, abusando de linguagem chula contra quem ousasse contestá-lo, tornou-se aquilo que acusava a esquerda de ser: um sectário.

Olavo de Carvalho está ligado a um momento específico da História brasileira, aquele do esgotamento e da desilusão com a hegemonia das ideias da esquerda. Não foi feito para durar. Sua morte coincide com o esgotamento da direita no país.