quinta-feira, 30 de julho de 2026

O País Preso nos Anos Sessenta

Acompanho a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pela próxima eleição presidencial. Nenhuma novidade aqui. Exceto que a impressão que me persegue é que estou vendo a reencenação da disputa entre a esquerda revolucionária e os militares golpistas na década de sessenta, como se fosse um filme reprisado década após década, com o mesmo roteiro e atores diferentes.

Que Flávio Bolsonaro é uma reedição de Jair Bolsonaro, disso não há dúvida. Jair Bolsonaro, por sua vez, proclama-se uma reedição dos militares que tomaram o poder em 1964. Já Lula, por sua ligação com o PT, surge como uma reedição dos esquerdistas que almejaram chegar ao poder no governo de João Goulart. É claro que ambas as comparações são estereotipadas. Jair Bolsonaro não participou do regime de 1964, ele emergiu para a História só na época de Sarney, e não é afilhado político de nenhuma figura proemimente da época. Lula, por sua vez, é uma criatura posterior aos revolucionários financiados por Cuba nos anos 60 e 70, e nunca foi filiado a nenhum partido comunista. Mas tanto o primeiro como o segundo emulam o discurso da época.

Apenas o discurso, contudo. Em seu período, Jair Bolsonaro não reeditou o desenvolvimentismo nacional-estatista característico do regime vigente entre 1964 e 1985; ao contrário, pautou-se pelo privatismo. Lula, por sua vez, ao invés de um regime socialista, implementou uma espécie de getulismo tardio, e continua prometendo mais do mesmo.

Os anos 60 parecem ter produzido um trauma tão forte que paralisou o pais, e o faz viver no passado. O país avança, sim, por inércia e por necessidade, mas as ideias continuam presas àquele momento histórico, como um enigma nunca decifrado, ou um livro nunca lido até o capítulo final, enquanto os países da Ásia avançam sem nós.

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