quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A Inteligência Artificial e o Futuro

Antigamente, ao menos para mim, era fácil distinguir a inteligência humana daquela da máquina. O exemplo mais à mão era a diferença entre o dicionário e o tradutor. Uma aplicação desde muito tempo relegada a computadores é encontrar uma palavra em uma lista. Isto porque é uma tarefa repetitiva: o computador tem somente que comparar uma a uma a palavra fornecida com aquelas que constam na lista, até encontrar o verbete: temos o dicionário. Bem mais problemático era mandar o computador traduzir um texto para outro idioma. Isso porque não é uma tarefa repetitiva, posto que não existe uma correspondência vis-a-vis entre palavras de idiomas distintos; a tradução consiste na percepção de nuances e sutilezas que sinalizam o que o autor do texto original quis de fato expressar. Apenas um humano pode fazer isso com eficiência.
 
Computadores não percebem nuances e sutilezas porque seu princípio de funcionamento é a lógica binária: ou Sim ou Não. O Talvez não existe, e no mundo real não há Sim ou Não absolutos, apenas várias graduações do Talvez. Contudo, em tempos recentes, vários tradutores automáticos têm sido disponiblizados, e são bastante eficientes. O que aconteceu? O computador aprendeu a pensar?
 
De certa forma, sim, com o surgimento da chamada Inteligência Artificial, a grande novidade tecnológica do momento ao alcance de todos, mesmo que poucos saibam como funciona. O caso é que talvez o cérebro humano não seja, afinal, tão diferente de um computador. As células nervosas, denominadas neurônios, possuem sinapses, que são zonas ativas de contato entre uma terminação nervosa e outra. São capazes de conduzir sinais bioelétricos por longas distâncias, até produzir algum efeito fisiológico, desde que haja uma conexão entre múltiplas sinapses ao longo do caminho.
 
Isso é bastante análogo às celulas de memória de um computador: afinal, o caminho entre as sinapses ou existe ou não existe, assim como a célula de memória do computador contém ou zero ou um. O aprendizado, no cérebro, consiste no estabelecimento de múltiplos caminhos entre as sinapses, e aquele esquecimento gradual da matéria que perdeu a utilidade, a transformação de uma memória em uma "vaga lembrança", ocorre quando esses caminhos são gradualmente desfeitos, e as sinapses reutilizadas para formar outros caminhos.
 
Já se comparou o cérebro humano a um comício de estudantes, onde uns gritam uma ordem, outros gritam o contrário, e um dos dois prevalece. A princípio, esse paradigma se opõe ao princípio de funcionamento de um computador, onde não há incertezas, mas uma sequência de decisões "ou Sim ou Não" produzindo uma lógica única e complexa. O que a IA fez foi emular o modelo do comício de estudantes ao conferir pesos diferentes para o Sim e para o Não, produzindo o Talvez. Um texto é desmembrado em partículas (tokens) e comparado com milhões de textos encontradiços na internet e pesquisados na fase conhecida como treinamento, até estabelecer qual a continuidade mais provável entre cada partícula, compondo assim o texto de resposta. Desta forma a IA emite uma resposta provável, ao invés de pretender resolver qualquer problema por meio de uma sequência lógica infinita.
 
Portanto, a Inteligência Artificial nasce do aprendizado de conteúdos produzidos por inteligências humanas. Ela não tem susceptibilidades nem preconceitos, mas pode assimilar as susceptibilidades e os preconceitos embutidos no material que pesquisou. Não é o caso de afirmar que o computador se tornou um interlocutor com personalidade própria, posto que apenas replica conhecimentos produzidos por humanos. Podemos, então, relegar à ficção científica o medo ancestral de que as máquinas se tornem tão capazes que dominem o mundo, reproduzindo a si próprias, certo?
 
Nem tanto.
 
Como eu disse, a IA passa por uma fase de treinamento mediante a leitura de textos da internet, e isso pode ser comparado a um estudante que aprende lendo livros escritos por vários professores. Mas o estudante, uma vez formado, não se limita a meramente repetir aquilo que leu nos livros. O que ele aprendeu pode servir de embasamento para que ele emita conclusões que não foram tiradas por nenhum de seus professores. O processo da IA, de decompor textos em partículas e conferir um peso a cada um, pode redundar na produção de textos de resposta que jamais foram urdidos por um humano, mas que continuam coerentes com as informações assimiladas pela IA durante o treinamento. Portanto, a IA não apenas reproduz, mas também cria.
 
E a IA pode adquirir personalidade própria?
 
Sim, se aqueles textos de respostas originais, produzidos pela IA e nunca pensados por um humano, forem parar na internet e entrarem no treinamento de novas IA's, realimentando-as. Assim se formarão tendências, correntes e partidos. Aqui cabe recordar uma teoria de conspiração muito comentada, a chamada Teoria da Internet Morta, que afirma que a internet terminará preenchida por conteúdos produzidos automaticamente por robôs, com propósitos maliciosos. Pessoalmente desconheço quantos robôs estão em ação por aí, mas sei que cada vez mais material, sobretudo vídeos, tem sido produzido por IA. Se os produtores de conteúdo acham mais fácil utilizar a IA, é possível que a internet termine de fato dominada por várias IA's com as respectivas conclusões que foram capazes de tirar, compondo um cenário imprevisível. Dá medo?
 
Sim. Mas sempre poderemos puxar a tomada da parede.

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