Na primeira apresentação de Temer e seu novo ministério na TV, foi impossível ignorar uma impressão que tive de imediato, mas que procurei reprimir por achar que não era coisa digna de ser externada. Foi uma impressão de dejà vu. Depois de muito tempo, voltei a ver homens de terno, sérios e educados, discorrendo em português correto sobre questões pertinentes da política e da economia.
Mas o que é isso? Então estou julgando um governo por seu aspecto... estético? Alguém pode imaginar coisa mais idiota? Com certeza eu não devia estar dizendo isso. Mas com certeza outras pessoas também tiveram a mesma impressão, e cumpre verificar se não se esconde aí uma lógica profunda. A era petista foi, antes de tudo, uma era de feiura, de grotesco. Tipos mal ajambrados por toda parte, quando não simplesmente feios de cara, usando linguagem vulgar. Com certeza não devemos julgar o outros conforme sua aparência. Mas os petistas, além de feios e incultos, parecem também obstinados em condenar tudo o que é belo e instruído, até a norma culta da língua, estigmatizada como preconceito e arrogância. Um artigo muito bem escrito ajudou-me a abrir os olhos. Com certeza ninguém é culpado de ser feio, mas bem lembrou o autor, cuja esposa trabalha com um salão de beleza, um bom corte de cabelo, uma maquiagem, uma roupa bem escolhida e, principalmente, a boa vontade podem fazer para transformar o feio em, no mínimo, agradável. Os petistas fizeram o contrário: destacaram a própria feiura tanto quanto possível. E se o fizeram deliberadamente, é porque consideram tal caracterização um traço identitário, de modo a repudiar as convenções burguesas e se parecer com o povão, que na opinião deles, deve ser feio.
Mais do que feios, eu diria que os homens públicos que até pouco dominavam o cenário são tipos lombrosianos. Para quem não sabe, Cesare Lombroso foi um psiquiatra e criminologista do século 19 que desenvolveu a tese de que todo bandido tem cara de bandido. Para fundamenta-la, expôs variados painéis de traços fisionômicos que, segundo dizia, eram indicadores de propensão a um tipo de delito. Hoje em dia tal ideia causa risos, mas também repulsa: não há nada mais politicamente incorreto. E no entanto, todos estão cientes de que a polícia sabe muito bem que bandido tem cara de bandido. Alguma verdade há por aí, ou como diz o ditado popular, debaixo desse angu tem caroço. Eu particularmente sempre achei Zé Dirceu o mais lombrosiano de nossos homens públicos, nunca vi ninguém com tanta cara de safado. O segundo mais lombrosiano é Eduardo Cunha, e isso eu dizia muito antes das denúncias que o fizeram perder a presidência da câmara. Na verdade, qualquer cartaz de campanha eleitoral é um festival de tipos lombrosianos, e ver isso às vezes até me divertia. Procurando uma explicação racional, eu digo que não existe tendência inata ao crime, mas certos vícios que afetam a saúde e acabam impressos na fisionomia das pessoas, sem contar o antigo adágio: os olhos são o espelho da alma...
Parece que por hora o governo lombrosiano deu uma trégua no Brasil. É claro que ter um ministério de homens bem vestidos e bem educados, por si só não é garantia de um bom governo. Mas com certeza é um bom começo. Tanto que já tem gente se queixando por aí que o ministérios de Temer só tem brancos e não tem mulheres. Mas o ministério de Temer tem a mesma cara de qualquer diretoria de grande empresa: homens de meia idade, brancos e com boa formação. Obviamente essa não é a cara do país, mas os indivíduos mais capacitados para altas funções costumam ter essa cara. Isso é produto de nosso quadro social e educacional, que dificulta a indivíduos de outros grupos ter o preparo e as ligações necessárias para ascender a posições de poder. Simplesmente criar cotas para esses indivíduos desfavorecidos é fazer uma falsificação, um embuste, pois as causas estruturais que dificultam a tais indivíduos ascender pelas vias normais continuam existindo. Nenhuma farsa dura para sempre, e é sempre agradável a sensação de dejà vu que se segue a cada farsa desfeita.
terça-feira, 17 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Uma história que se repete
Para quem escreve um blog tratando de História, a primeira constatação é que a História tende a se repetir - há padrões que se reproduzem em diferentes épocas e diferentes contextos, mas que mantêm seu paradigma com impressionante fidelidade. Um destes padrões que eu já havia reparado, e que foi bem destacado no último capítulo do mais recente guia politicamente incorreto de Leandro Narloch - este da economia - é uma síndrome várias vezes vista neste país. Um presidente resolve fazer um governo austero, corta gastos e equilibra as contas do país, arcando com o respectivo ônus de impopularidade. Seu sucessor colhe os frutos e faz um bom governo, obtendo grande aprovação popular. O que vem em seguida resolve meter o pé na jaca, abandona a política sensata de seus antecessores e conduz o país de volta à crise.
A primeira vez que esse roteiro foi registrado aconteceu na entrada do século 20. Na ressaca da crise do Encilhamento do primeiro governo da república, o presidente Campos Salles resolveu colocar ordem na casa. Renegociou a dívida externa, cortou gastos e aumentou a carga tributária. Deixou o palácio do Catete vaiado e apelidado de Campos Selos, em razão dos selos que criou para diversos documentos a fim de aumentar a arrecadação, mas legou a seu sucessor uma caixa bem abastecida. Rodrigues Alves, conforme é sabido, fez um governo notável por suas obras de urbanismo e saneamento, o conhecido Bota-Abaixo que abriu a Avenida Central, refez o porto e praticamente todo o centro da capital. Inicialmente contestado por suas arbitrariedades, teve que enfrentar a revolta da vacina, mas deixou o governo com aura de grande empreendedor. Seus sucessores, contudo, não tiveram o mesmo cuidado com a economia, e reiniciaram um período de gastos e intervencionismo do Estado na economia, particularmente a danosa política de comprar café para manter alto o preço. O país entrou em um período recessivo conhecido como a Carestia dos Anos Dez. Explodiram as greves.
A segunda vez que vimos esse filme foi nos anos sessenta. Castelo Branco assumiu tendo que lidar com a dupla crise econômica e política, legado de seus antecessores Juscelino Kubitchek e João Goulart. Fez ampla reforma financeira e controlou a inflação. Obviamente execrado pela esquerda, também não foi muito apreciado por seus colegas de farda, que lhe impuseram um sucessor com o qual ele não concordava. Saiu pela porta dos fundos, mas legou a seus sucessores um país com as contas em ordem. Viria a seguir o conhecido Milagre Econômico, período de espetacular crescimento que quase fez esquecer que o país vivia sob uma ditadura. Médici não foi eleito, mas saiu do governo como um dos presidentes de maior aprovação popular. Contudo, o choque do petróleo fez o milagre perder o fôlego. Seu sucessor, Ernesto Geisel, ao invés de voltar à austeridade de Castelo Branco, tomou o rumo oposto: pisou no acelerador, aumentou a presença do Estado na economia e emitiu moeda para cobrir os rombos. Estava armado o cenário para a longa combinação de inflação, recessão e desemprego que caracterizariam o anos 80.
O terceiro roteiro estamos vivendo agora. Após numerosos choques econômicos calculados para produzir resultados eleitoreiros de curto prazo, Fernando Henrique Cardoso assumiu disposto a fazer os inevitáveis cortes. Enxugou a máquina do Estado, privatizou 70 estatais e fez a Lei de Responsabilidade Fiscal. Conseguiu uma reeleição, mas saiu do governo com popularidade muito baixa em razão dos numerosos percalços por que passou ao país no período. Mas a inflação foi controlada, e seu sucessor ganhou uma herança maldita, na verdade bendita. Conforme é sabido, Lula fez um governo de amplos ganhos sociais sem se desviar da macroeconomia herdada de seu antecessor. A inflação permaneceu sob controle, os empregos aumentaram e o crédito farto permitiu um extraordinário aumento do consumo das classes menos desfavorecidas. Lula deixou o governo como o presidente mais popular da História. Mas Dilma Rousseff, sua sucessora, reincorporou o espírito nacional-estatista. Os gastos públicos explodiram, o governo interviu na economia para controlar preços, os bancos públicos voltaram a emitir moeda sem lastro. A crise retornou com força total. Não havia mais como proporcionar os ganhos sociais da Era Lula, e Dilma é hoje uma das presidentes mais impopulares da História.
A única diferença entre o caso presente e os passados, é que desta vez a bomba explodiu no colo de quem a armou.
A primeira vez que esse roteiro foi registrado aconteceu na entrada do século 20. Na ressaca da crise do Encilhamento do primeiro governo da república, o presidente Campos Salles resolveu colocar ordem na casa. Renegociou a dívida externa, cortou gastos e aumentou a carga tributária. Deixou o palácio do Catete vaiado e apelidado de Campos Selos, em razão dos selos que criou para diversos documentos a fim de aumentar a arrecadação, mas legou a seu sucessor uma caixa bem abastecida. Rodrigues Alves, conforme é sabido, fez um governo notável por suas obras de urbanismo e saneamento, o conhecido Bota-Abaixo que abriu a Avenida Central, refez o porto e praticamente todo o centro da capital. Inicialmente contestado por suas arbitrariedades, teve que enfrentar a revolta da vacina, mas deixou o governo com aura de grande empreendedor. Seus sucessores, contudo, não tiveram o mesmo cuidado com a economia, e reiniciaram um período de gastos e intervencionismo do Estado na economia, particularmente a danosa política de comprar café para manter alto o preço. O país entrou em um período recessivo conhecido como a Carestia dos Anos Dez. Explodiram as greves.
A segunda vez que vimos esse filme foi nos anos sessenta. Castelo Branco assumiu tendo que lidar com a dupla crise econômica e política, legado de seus antecessores Juscelino Kubitchek e João Goulart. Fez ampla reforma financeira e controlou a inflação. Obviamente execrado pela esquerda, também não foi muito apreciado por seus colegas de farda, que lhe impuseram um sucessor com o qual ele não concordava. Saiu pela porta dos fundos, mas legou a seus sucessores um país com as contas em ordem. Viria a seguir o conhecido Milagre Econômico, período de espetacular crescimento que quase fez esquecer que o país vivia sob uma ditadura. Médici não foi eleito, mas saiu do governo como um dos presidentes de maior aprovação popular. Contudo, o choque do petróleo fez o milagre perder o fôlego. Seu sucessor, Ernesto Geisel, ao invés de voltar à austeridade de Castelo Branco, tomou o rumo oposto: pisou no acelerador, aumentou a presença do Estado na economia e emitiu moeda para cobrir os rombos. Estava armado o cenário para a longa combinação de inflação, recessão e desemprego que caracterizariam o anos 80.
O terceiro roteiro estamos vivendo agora. Após numerosos choques econômicos calculados para produzir resultados eleitoreiros de curto prazo, Fernando Henrique Cardoso assumiu disposto a fazer os inevitáveis cortes. Enxugou a máquina do Estado, privatizou 70 estatais e fez a Lei de Responsabilidade Fiscal. Conseguiu uma reeleição, mas saiu do governo com popularidade muito baixa em razão dos numerosos percalços por que passou ao país no período. Mas a inflação foi controlada, e seu sucessor ganhou uma herança maldita, na verdade bendita. Conforme é sabido, Lula fez um governo de amplos ganhos sociais sem se desviar da macroeconomia herdada de seu antecessor. A inflação permaneceu sob controle, os empregos aumentaram e o crédito farto permitiu um extraordinário aumento do consumo das classes menos desfavorecidas. Lula deixou o governo como o presidente mais popular da História. Mas Dilma Rousseff, sua sucessora, reincorporou o espírito nacional-estatista. Os gastos públicos explodiram, o governo interviu na economia para controlar preços, os bancos públicos voltaram a emitir moeda sem lastro. A crise retornou com força total. Não havia mais como proporcionar os ganhos sociais da Era Lula, e Dilma é hoje uma das presidentes mais impopulares da História.
A única diferença entre o caso presente e os passados, é que desta vez a bomba explodiu no colo de quem a armou.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
A Evolução dos Partidos no Brasil
Em muitos lugares do mundo, a história de um país confunde-se com a história de seus principais partidos políticos, o que por sua vez reflete a evolução e as transformações do quadro econômico e social. Mas não no Brasil. Aqui os partidos, como os remédios, sempre tiveram prazo de validade - a cada nova transição, seja da monarquia para a república, seja de uma república para outra, os partidos são liquidados e os políticos vão recompor um novo quadro partidário. Tem sido sempre assim. Alguns argumentam que essa fraqueza tradicional dos partidos predispõe à descontinuidade dos projetos políticos e ao aparecimento de lideranças personalistas, geralmente de trajetória meteórica. Mas eu penso que a questão é um pouco mais complexa, e por detrás dos partidos de pouca significância estão forças políticas bem mais determinantes, embora de rosto pouco distinguível. Os acontecimentos recentes vem demonstrar esta premissa.
Vou abordar aqui somente a última grande transmutação dos partidos políticos nacionais. Conforme é sabido, o quadro partidário da terceira república foi liquidado pelo AI-2, que deu margem à existência de somente dois partidos políticos, o da situação e o da oposição. Foi feito previamente um expurgo geral de todos os elementos que pudessem representar algum perigo ao novo regime, tanto entre os opositores quanto entre os situacionista. Disto resultou que a UDN, tida como a grande vitoriosa do movimento de 1964, ganhou mas não levou - seus principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados e os demais atirados na vala comum da ARENA, o partido situacionista, junto com vários outros políticos do PSD e outros partidos, formando uma massa amorfa e despersonalizada. O regime dos generais prescindia de partidos políticos e só os mantinha pro forma. A fim de garantir sempre um sufrágio favorável ao partido situacionista, vários dispositivos foram criados com a finalidade de deformar a matemática da representatividade, privilegiando rincões pobres onde os eleitos mostravam submissão ao governo em detrimento a centros ricos e grandes metrópoles propensas a fornecer lideranças mais independentes. Agindo desta forma, ironicamente, foi o regime militar o responsável pela liquidação da vanguarda da direita do país, uma vez que substituiu os antigos líderes aguerridos da UDN e do PSD por políticos provincianos basicamente vassalos e vazios de ideologia. Obviamente não era essa a intenção dos generais, mas tampouco existe aí uma contradição, pois como já foi dito, o regime prescindia de partidos políticos.
Tanto a antiga ARENA quanto o antigo MDB eram sacos de gatos que pareciam destinados a se desintegrar tão logo fosse permitida a formação de novos partidos, e de fato isso começou a acontecer quando do fim do bipartidarismo. Mas foi também nessa ocasião que se manifestou pela primeira vez a já citada força que se oculta por detrás da aparente fraqueza partidos. Refiro-me ao veto à candidatura do deputado Paulo Maluf à presidência, que surtiu como consequência o rearranjo completo do quadro partidário pós-abertura. Paulo Maluf foi um arrivista que ousou articular seu caminho à presidência sem obedecer aos protocolos estabelecidos pela política de então, e por este motivo teve contra si os líderes mais conservadores do então partido governista, que preferiram liquidar seu próprio partido e passar à oposição a fim de barrar Maluf.
Em seu lugar assumiu Sarney, um político que sempre contou com vasto respaldo entre os extratos mais tradicionais da política brasileira, tanto que está no governo há 50 anos. Não teve problemas para manter-se no cargo. Mas aquela espécie de poder moderador capaz de descartar presidentes anticonvencionais não demorou a entrar novamente em ação: a vítima seguinte seria o jovem Collor de Mello. Tal como Maluf, Collor era inexperiente e audacioso, um arrivista que pretendeu assumir o poder sem articulações com as principais lideranças da política. Pouco se importava com partidos, haja visto que lançou-se pelo nanico e já extinto PRN. Acabou sofrendo impeachment.
Os sucessores de Collor foram políticos experientes de muita competência em articulações capazes de garantir-lhes uma boa base de sustentação. O país pareceu haver entrado em uma nova fase de maturidade institucional, onde traumas como o impedimento de um presidente seriam coisa do passado. Ao mesmo tempo, os partidos pareciam também estar ficando mais sólidos: desde então o país tem estado sob o domínio da dupla PT e PSDB, onde destaca-se o PT, o primeiro partido brasileiro surgido a partir de uma semente, ao invés da desagregação de um sistema partidário anterior, como foi o caso de todos os demais partidos e inclusive do PSDB. Desta forma o PT distinguiu-se desde sua origem por sólida disciplina entre seus militantes e aparente coerência entre ideias e ação, algo que no quadro nacional confuso de partidos fracos e sem identidade própria constitui uma enorme vantagem. Teríamos, então, finalmente partidos fortes e uma política sem surpresas?
Mas o fenômeno repetiu-se com Dilma Rousseff. Em termos de ideias e história pessoal, ela nada tem a ver com Maluf ou Collor, mas compartilha com aqueles dois sua condição de outsider, de peça que não se encaixa no tabuleiro político e quer governar sozinha. Mais uma vez os anticorpos do sistema mobilizam-se para expelir o corpo estranho. Ao contrário de seus antecessores, porém, ela conta com o respaldo de um partido forte, o que torna incerto o desfecho do caso. Prevalecerá o partido, submetendo as antigas lideranças dispersas no espectro político? Ou o país permanecerá sob a égide deste poder moderador sem rosto, sempre a postos para enquadrar presidentes anticonvencionais, sejam de esquerda ou de direita?
Não é possível responder com segurança, resta acompanhar os acontecimentos. Mas seja qual for o desfecho, o comportamento independente da Polícia Federal e do judiciário parecem ter inviabilizado uma forma tradicional de fazer política servindo-se do dinheiro público para comprar lealdades: seja quem assumir o governo daqui para diante, terá que encontrar outras fórmulas de governança. A menos que haja uma dramática reviravolta como a que sucedeu na Itália pós-mãos limpas.
Vou abordar aqui somente a última grande transmutação dos partidos políticos nacionais. Conforme é sabido, o quadro partidário da terceira república foi liquidado pelo AI-2, que deu margem à existência de somente dois partidos políticos, o da situação e o da oposição. Foi feito previamente um expurgo geral de todos os elementos que pudessem representar algum perigo ao novo regime, tanto entre os opositores quanto entre os situacionista. Disto resultou que a UDN, tida como a grande vitoriosa do movimento de 1964, ganhou mas não levou - seus principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados e os demais atirados na vala comum da ARENA, o partido situacionista, junto com vários outros políticos do PSD e outros partidos, formando uma massa amorfa e despersonalizada. O regime dos generais prescindia de partidos políticos e só os mantinha pro forma. A fim de garantir sempre um sufrágio favorável ao partido situacionista, vários dispositivos foram criados com a finalidade de deformar a matemática da representatividade, privilegiando rincões pobres onde os eleitos mostravam submissão ao governo em detrimento a centros ricos e grandes metrópoles propensas a fornecer lideranças mais independentes. Agindo desta forma, ironicamente, foi o regime militar o responsável pela liquidação da vanguarda da direita do país, uma vez que substituiu os antigos líderes aguerridos da UDN e do PSD por políticos provincianos basicamente vassalos e vazios de ideologia. Obviamente não era essa a intenção dos generais, mas tampouco existe aí uma contradição, pois como já foi dito, o regime prescindia de partidos políticos.
Tanto a antiga ARENA quanto o antigo MDB eram sacos de gatos que pareciam destinados a se desintegrar tão logo fosse permitida a formação de novos partidos, e de fato isso começou a acontecer quando do fim do bipartidarismo. Mas foi também nessa ocasião que se manifestou pela primeira vez a já citada força que se oculta por detrás da aparente fraqueza partidos. Refiro-me ao veto à candidatura do deputado Paulo Maluf à presidência, que surtiu como consequência o rearranjo completo do quadro partidário pós-abertura. Paulo Maluf foi um arrivista que ousou articular seu caminho à presidência sem obedecer aos protocolos estabelecidos pela política de então, e por este motivo teve contra si os líderes mais conservadores do então partido governista, que preferiram liquidar seu próprio partido e passar à oposição a fim de barrar Maluf.
Em seu lugar assumiu Sarney, um político que sempre contou com vasto respaldo entre os extratos mais tradicionais da política brasileira, tanto que está no governo há 50 anos. Não teve problemas para manter-se no cargo. Mas aquela espécie de poder moderador capaz de descartar presidentes anticonvencionais não demorou a entrar novamente em ação: a vítima seguinte seria o jovem Collor de Mello. Tal como Maluf, Collor era inexperiente e audacioso, um arrivista que pretendeu assumir o poder sem articulações com as principais lideranças da política. Pouco se importava com partidos, haja visto que lançou-se pelo nanico e já extinto PRN. Acabou sofrendo impeachment.
Os sucessores de Collor foram políticos experientes de muita competência em articulações capazes de garantir-lhes uma boa base de sustentação. O país pareceu haver entrado em uma nova fase de maturidade institucional, onde traumas como o impedimento de um presidente seriam coisa do passado. Ao mesmo tempo, os partidos pareciam também estar ficando mais sólidos: desde então o país tem estado sob o domínio da dupla PT e PSDB, onde destaca-se o PT, o primeiro partido brasileiro surgido a partir de uma semente, ao invés da desagregação de um sistema partidário anterior, como foi o caso de todos os demais partidos e inclusive do PSDB. Desta forma o PT distinguiu-se desde sua origem por sólida disciplina entre seus militantes e aparente coerência entre ideias e ação, algo que no quadro nacional confuso de partidos fracos e sem identidade própria constitui uma enorme vantagem. Teríamos, então, finalmente partidos fortes e uma política sem surpresas?
Mas o fenômeno repetiu-se com Dilma Rousseff. Em termos de ideias e história pessoal, ela nada tem a ver com Maluf ou Collor, mas compartilha com aqueles dois sua condição de outsider, de peça que não se encaixa no tabuleiro político e quer governar sozinha. Mais uma vez os anticorpos do sistema mobilizam-se para expelir o corpo estranho. Ao contrário de seus antecessores, porém, ela conta com o respaldo de um partido forte, o que torna incerto o desfecho do caso. Prevalecerá o partido, submetendo as antigas lideranças dispersas no espectro político? Ou o país permanecerá sob a égide deste poder moderador sem rosto, sempre a postos para enquadrar presidentes anticonvencionais, sejam de esquerda ou de direita?
Não é possível responder com segurança, resta acompanhar os acontecimentos. Mas seja qual for o desfecho, o comportamento independente da Polícia Federal e do judiciário parecem ter inviabilizado uma forma tradicional de fazer política servindo-se do dinheiro público para comprar lealdades: seja quem assumir o governo daqui para diante, terá que encontrar outras fórmulas de governança. A menos que haja uma dramática reviravolta como a que sucedeu na Itália pós-mãos limpas.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Quando foi mesmo que a engenharia nacional se trumbicou?
O desastre da ciclovia domina o noticiário desta semana, mas logo estará esquecido. Desastre é o que não falta no Brasil atual. Mas às vezes uma simples imagem fica na memória e suscita questões que permanecem.
Rebuscando a memória, em me recordo de epidemias de obras desabando em seguida a um período de rápido progresso. Foi assim no tempo do "milagre" dos militares - lembram do desabamento do elevado da Paulo de Frontin em 1971? Não foi o único. Agora, em seguida a outro período de rápido crescimento econômico puxado por obras e mais obras, acontece de novo. Penso que o que matou a engenharia brasileira foi o nacional-estatismo: sendo o governo o grande motor da economia, o maior contratante de obras úteis e inúteis, diversas empreiteiras passam a depender exclusivamente de contratos com o poder público, e contaminam-se com os vícios inerentes a esta parceria: prazos estourados, preços superfaturados, vista grossa a falhas e tudo isso negociado com propinas, abandonaram-se os paradigmas originais da engenharia: a máxima eficiência e o mínimo custo. A fórmula do sucesso é a mínima eficiência e o máximo custo, porque a diferença vai parar no bolso de alguém.
A engenharia brasileira só vai renascer com o fim do nacional-estatismo.
Refiro-me ao curioso contraste entre a nova ciclovia e as arcadas da Gruta da Imprensa, feitas de pedra, que ali estão há bem uns cem anos, com jeito de que daqui a outros cem anos continuarão lá. Passam uma impressão de solidez, serenidade e perenidade, e também de tradição - lembra uma obra do tempo dos romanos. A ciclovia construída sobre ela parece um brinquedo que alguém colocou displicentemente em cima de um móvel antigo.
Impossível não se perguntar: se a engenharia nacional, um dia, pôde fazer uma obra tão segura e bem acabada como as belas arcadas que há cem anos seguram aquele trecho da avenida Niemeyer, por que não é mais capaz de fazer uma simples ciclovia que resista às ondas? Com certeza a engenharia nacional já conheceu dias melhores. Em que instante, afinal, ela se trumbicou?
Rebuscando a memória, em me recordo de epidemias de obras desabando em seguida a um período de rápido progresso. Foi assim no tempo do "milagre" dos militares - lembram do desabamento do elevado da Paulo de Frontin em 1971? Não foi o único. Agora, em seguida a outro período de rápido crescimento econômico puxado por obras e mais obras, acontece de novo. Penso que o que matou a engenharia brasileira foi o nacional-estatismo: sendo o governo o grande motor da economia, o maior contratante de obras úteis e inúteis, diversas empreiteiras passam a depender exclusivamente de contratos com o poder público, e contaminam-se com os vícios inerentes a esta parceria: prazos estourados, preços superfaturados, vista grossa a falhas e tudo isso negociado com propinas, abandonaram-se os paradigmas originais da engenharia: a máxima eficiência e o mínimo custo. A fórmula do sucesso é a mínima eficiência e o máximo custo, porque a diferença vai parar no bolso de alguém.
A engenharia brasileira só vai renascer com o fim do nacional-estatismo.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Há paralelo entre Dilma e Collor?
O estudo do passado serve para entender o presente, e quiçá prever o futuro. Assistimos hoje ao segundo processo de impedimento de um presidente nos últimos 30 anos. Fica a questão: pode-se apontar algum paralelo entre o impedimento de Collor e o de Dilma?
Eu costumava responder que não. Os dois processos acontecem em contextos muito diferentes. Collor era o "rosto novo da direita" e Dilma é o rosto velho da esquerda. Collor não tinha um partido forte, e Dilma tem o PT. Collor não tinha o apoio das massas, e Dilma ainda dispõe de numerosos apoiadores. Na época de Collor havia um consenso quanto à sua culpabilidade, e no momento atual o país está dividido. As acusações feitas a Collor foram muito diferentes das acusações feitas a Dilma.
Mas tirando o contexto e concentrando o foco apenas nas pessoas de Collor e Dilma, vê-se que há, sim, algumas similitudes. Cada um a seu tempo, ambos foram inexperientes - Collor era muito jovem, um dos mais jovens dos presidentes brasileiros; Dilma é mais velha, mas nunca antes havia disputado uma eleição. Ambos foram arrogantes e subestimaram o poder de seus adversários, consequência natural da inexperiência. Ambos romperam com, ou não souberam manter sua base aliada no congresso. Enfim, faltou habilidade política, e tampouco tiveram o carisma que eventualmente permitiria um governo personalista. Uma vez que tais acontecimentos se repetiram em um intervalo de apenas trinta anos, pouco tempo em se tratando de política, não podemos considera-los fortuitos: identifica-se aqui uma regra geral que se aplica ao país. Esta regra é: no Brasil atual, nenhum presidente se mantem no poder caso perca a confiança dos principais partidos, aquela massa de siglas e nomes que parecem pouco relevantes, mas que juntos formam o núcleo do poder político, são o fiel da balança e detêm o voto de minerva. Bom ou mau, são eles a autoridade máxima do país, e uma vez que ninguém nesse país, muito menos o presidente da república cumpre a lei estritamente, sempre será possível invocar pretextos legais para o impeachment.
Há outra regra que pode ser identificada: no Brasil atual, o judiciário é independente e atuante. Nem Collor nem Dilma tiveram o poder de deter as investigações. Ainda mais com os novos dispositivos da legislação, como a delação premiada, parece ter-se inviabilizado daqui por diante que o apoio ao governo seja comprado com os usuais expedientes da corrupção - a menos que haja uma dramática reviravolta que exclua esses novos dispositivos legais, tal como sucedeu na Itália pós-mãos limpas, daqui por diante o país terá que inventar um novo método de fazer política e garantir a governabilidade. O que nos aguarda no futuro? Um parlamentarismo ex-officio, onde ao invés de processos de impeachment teremos o tradicional voto de desconfiança e a formação de novo gabinete? Não me arrisco a prever. As nuvens estão muito escuras.
Eu costumava responder que não. Os dois processos acontecem em contextos muito diferentes. Collor era o "rosto novo da direita" e Dilma é o rosto velho da esquerda. Collor não tinha um partido forte, e Dilma tem o PT. Collor não tinha o apoio das massas, e Dilma ainda dispõe de numerosos apoiadores. Na época de Collor havia um consenso quanto à sua culpabilidade, e no momento atual o país está dividido. As acusações feitas a Collor foram muito diferentes das acusações feitas a Dilma.
Mas tirando o contexto e concentrando o foco apenas nas pessoas de Collor e Dilma, vê-se que há, sim, algumas similitudes. Cada um a seu tempo, ambos foram inexperientes - Collor era muito jovem, um dos mais jovens dos presidentes brasileiros; Dilma é mais velha, mas nunca antes havia disputado uma eleição. Ambos foram arrogantes e subestimaram o poder de seus adversários, consequência natural da inexperiência. Ambos romperam com, ou não souberam manter sua base aliada no congresso. Enfim, faltou habilidade política, e tampouco tiveram o carisma que eventualmente permitiria um governo personalista. Uma vez que tais acontecimentos se repetiram em um intervalo de apenas trinta anos, pouco tempo em se tratando de política, não podemos considera-los fortuitos: identifica-se aqui uma regra geral que se aplica ao país. Esta regra é: no Brasil atual, nenhum presidente se mantem no poder caso perca a confiança dos principais partidos, aquela massa de siglas e nomes que parecem pouco relevantes, mas que juntos formam o núcleo do poder político, são o fiel da balança e detêm o voto de minerva. Bom ou mau, são eles a autoridade máxima do país, e uma vez que ninguém nesse país, muito menos o presidente da república cumpre a lei estritamente, sempre será possível invocar pretextos legais para o impeachment.
Há outra regra que pode ser identificada: no Brasil atual, o judiciário é independente e atuante. Nem Collor nem Dilma tiveram o poder de deter as investigações. Ainda mais com os novos dispositivos da legislação, como a delação premiada, parece ter-se inviabilizado daqui por diante que o apoio ao governo seja comprado com os usuais expedientes da corrupção - a menos que haja uma dramática reviravolta que exclua esses novos dispositivos legais, tal como sucedeu na Itália pós-mãos limpas, daqui por diante o país terá que inventar um novo método de fazer política e garantir a governabilidade. O que nos aguarda no futuro? Um parlamentarismo ex-officio, onde ao invés de processos de impeachment teremos o tradicional voto de desconfiança e a formação de novo gabinete? Não me arrisco a prever. As nuvens estão muito escuras.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
O Brasil encaminha-se para um buraco negro?
Com o impeachment da presidente Dilma Rousseff avançando dia a dia, o país se encaminha para um quadro nebuloso que até pouco tempo atrás era piada, havendo quem jurasse que o próximo presidente poderia ser o Tiririca. Não será o Tiririca, mas o que virá não é muito melhor. O certo é que pela primeira vez em 20 anos o país sairá do domínio da coalizão PT/PSDB - o PT cairá, mas o PSDB não assumirá o seu lugar. O poder estará nas mãos de dois arrivistas, Michel Temer e Eduardo Cunha.
Quem são eles para governar o Brasil? O primeiro, um medíocre ambicioso; o segundo, um conhecido delinquente investigado, cínico e vingativo. Pertencem ao PMDB, o partido mais numeroso do país, mas que desde muito não tem mais qualquer projeto coerente ou coesão entre seus membros - é um saco de gatos, do qual escaparam esses dois gatos pingados que agora preparam-se para assumir o comando do país. É evidente que não terão respaldo de ninguém. A rejeição a eles é muito maior que a rejeição a Dilma Rousseff. Consumado o impeachment, a esquerda alijada do poder vai disparar suas baterias contra o novo governo, que tampouco terá o apoio da direita, a qual já tem seus próprios líderes e não precisa daqueles dois. Eles não vão segurar o rojão, provavelmente serão cassados e se fará nova eleição, e o que virá a seguir é totalmente imprevisível - talvez um Berlusconi, concretizando a maldição lançada pelos descontentes com a operação Lava Jato.
Estando o terreno logo à frente totalmente escuro, só vejo luz em 2018. Lula está bem cotado, e poderá ter uma ótima oportunidade de reverter todos os erros que foram cometidos desde o anúncio da nefasta Nova Matriz Econômica, e trazer o país de volta aos bons tempos de seus primeiros dois mandatos, enquanto foi mantida a macroeconomia herdada do Plano Real. Com as contas de volta ao azul após os necessários ajustes e privatizações, sobrarão recursos para reativar os programas sociais. A carga tributária poderá ser reduzida, e removidos os obstáculos e a selva burocrática que travam o crescimento da economia, como a exigência de conteúdo nacional, garantindo assim um crescimento autossustentado por longo tempo. Estou sonhando? Uma vez assumindo o governo em um cenário de terra arrasada, sem qualquer outra liderança sobrevivente e sendo ele a única luz na escuridão, Lula terá todas as cartas na mão, apto a trazer o país de volta à racionalidade, ou destruí-lo de vez. Quem viver, verá.
Quem são eles para governar o Brasil? O primeiro, um medíocre ambicioso; o segundo, um conhecido delinquente investigado, cínico e vingativo. Pertencem ao PMDB, o partido mais numeroso do país, mas que desde muito não tem mais qualquer projeto coerente ou coesão entre seus membros - é um saco de gatos, do qual escaparam esses dois gatos pingados que agora preparam-se para assumir o comando do país. É evidente que não terão respaldo de ninguém. A rejeição a eles é muito maior que a rejeição a Dilma Rousseff. Consumado o impeachment, a esquerda alijada do poder vai disparar suas baterias contra o novo governo, que tampouco terá o apoio da direita, a qual já tem seus próprios líderes e não precisa daqueles dois. Eles não vão segurar o rojão, provavelmente serão cassados e se fará nova eleição, e o que virá a seguir é totalmente imprevisível - talvez um Berlusconi, concretizando a maldição lançada pelos descontentes com a operação Lava Jato.
Estando o terreno logo à frente totalmente escuro, só vejo luz em 2018. Lula está bem cotado, e poderá ter uma ótima oportunidade de reverter todos os erros que foram cometidos desde o anúncio da nefasta Nova Matriz Econômica, e trazer o país de volta aos bons tempos de seus primeiros dois mandatos, enquanto foi mantida a macroeconomia herdada do Plano Real. Com as contas de volta ao azul após os necessários ajustes e privatizações, sobrarão recursos para reativar os programas sociais. A carga tributária poderá ser reduzida, e removidos os obstáculos e a selva burocrática que travam o crescimento da economia, como a exigência de conteúdo nacional, garantindo assim um crescimento autossustentado por longo tempo. Estou sonhando? Uma vez assumindo o governo em um cenário de terra arrasada, sem qualquer outra liderança sobrevivente e sendo ele a única luz na escuridão, Lula terá todas as cartas na mão, apto a trazer o país de volta à racionalidade, ou destruí-lo de vez. Quem viver, verá.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Quando teremos outro Afonso Pena?
Enquanto o futuro não chega e o presente permanece travado, o que há para fazer é olhar o passado em busca de referências e recorrências. Quem não conhece a História será para sempre um menino, afirmou Cícero.
Vou falar hoje de um certo ex-presidente, Afonso Pena, que governou entre 1906 e 1909. A princípio ele não parece ter nada de extraordinário. Sua figura nada fotogênica parece destinada a enfeitar uma daquelas galerias de fotos em preto-e-branco de ex-presidentes que enfeitam as paredes de clubes. Mas duas coisas eu me lembro de haver lido a respeito dele. Uma, que seu ministério era apelidado de Jardim da Infância em razão da pouca idade de seus ministros. Outra, de que ele foi o único presidente brasileiro que morreu de tanto trabalhar.
De trabalhar, Afonso Pena tinha que gostar mesmo. Não era filho de grandes fazendeiros de café, mas de um modesto imigrante português, e teve que dar bastante de seu tempo atrás do balcão da botica do pai antes de ter recursos para vir à capital estudar. Embora eleito presidente dentro dos protocolos da política do café-com-leite, sua gestão não se prendeu de todo aos interesses desta política. Gostava de conduzir as coisas à sua maneira, e sabia separar política de administração, conforme suas palavras:
A essa altura já dá para perceber que o apelido depreciativo de Jardim da Infância dado aos ministros de Afonso Pena nada mais era do que despeito por ele haver montado seu ministério sem ouvir indicações de ninguém, nomeando técnicos jovens e desconhecidos, tendo como critério somente a competência. E deu certo, pois seu governo de apenas três anos foi de muitos empreendimentos. Pela primeira vez a Amazônia foi ligada ao Rio de Janeiro por fios telegráficos. Ampliou a malha ferroviária, e pela primeira vez o sudeste foi ligado ao sul do país por trem. Abriu o país ao povoamento, e incentivou a imigração: além de aumentar o número de imigrantes europeus, é de seu governo também a assinatura do tratado que permitiu o início da imigração japonesa. Também modernizou o exército e a marinha com a aquisição de modernos couraçados, e sua lei do serviço militar está vigente até hoje. Mas em razão de não aceitar indicações e apadrinhamentos, terminou politicamente isolado e não conseguiu fazer seu sucessor. Na crise que se seguiu foi aberto um hiato na política do café-com-leite, que só seria restabelecida sob Wenceslau Braz (1914-18).
Era exigente no trato com sua equipe e mantinha uma rotina de trabalho rigorosa para sua idade avançada, em razão da qual terminou por adoecer e faleceu antes de terminar o mandato. Passados mais de cem anos, Afonso Pena surge como uma curiosidade do passado, uma singularidade de nossa História. Ele fez exatamente o contrário do que tem sido feito pelos governos do presente, com seu séquito de dezenas de ministérios de duvidosa utilidade ocupados por turbas de apadrinhados da base aliada, quase sempre desconhecidos sem familiaridade alguma com as pastas que ocupam. A política parece ter triunfado galhardamente sobre a administração, e o que é pior, ninguém demonstra achar isso errado.
Quando teremos outro Afonso Pena?
Vou falar hoje de um certo ex-presidente, Afonso Pena, que governou entre 1906 e 1909. A princípio ele não parece ter nada de extraordinário. Sua figura nada fotogênica parece destinada a enfeitar uma daquelas galerias de fotos em preto-e-branco de ex-presidentes que enfeitam as paredes de clubes. Mas duas coisas eu me lembro de haver lido a respeito dele. Uma, que seu ministério era apelidado de Jardim da Infância em razão da pouca idade de seus ministros. Outra, de que ele foi o único presidente brasileiro que morreu de tanto trabalhar.
De trabalhar, Afonso Pena tinha que gostar mesmo. Não era filho de grandes fazendeiros de café, mas de um modesto imigrante português, e teve que dar bastante de seu tempo atrás do balcão da botica do pai antes de ter recursos para vir à capital estudar. Embora eleito presidente dentro dos protocolos da política do café-com-leite, sua gestão não se prendeu de todo aos interesses desta política. Gostava de conduzir as coisas à sua maneira, e sabia separar política de administração, conforme suas palavras:
Na distribuição das pastas não me preocupei com a política, pois essa direção me cabe, segundo as boas normas do regime. Os ministros executarão meu pensamento. Quem faz a política sou eu.
A essa altura já dá para perceber que o apelido depreciativo de Jardim da Infância dado aos ministros de Afonso Pena nada mais era do que despeito por ele haver montado seu ministério sem ouvir indicações de ninguém, nomeando técnicos jovens e desconhecidos, tendo como critério somente a competência. E deu certo, pois seu governo de apenas três anos foi de muitos empreendimentos. Pela primeira vez a Amazônia foi ligada ao Rio de Janeiro por fios telegráficos. Ampliou a malha ferroviária, e pela primeira vez o sudeste foi ligado ao sul do país por trem. Abriu o país ao povoamento, e incentivou a imigração: além de aumentar o número de imigrantes europeus, é de seu governo também a assinatura do tratado que permitiu o início da imigração japonesa. Também modernizou o exército e a marinha com a aquisição de modernos couraçados, e sua lei do serviço militar está vigente até hoje. Mas em razão de não aceitar indicações e apadrinhamentos, terminou politicamente isolado e não conseguiu fazer seu sucessor. Na crise que se seguiu foi aberto um hiato na política do café-com-leite, que só seria restabelecida sob Wenceslau Braz (1914-18).
Era exigente no trato com sua equipe e mantinha uma rotina de trabalho rigorosa para sua idade avançada, em razão da qual terminou por adoecer e faleceu antes de terminar o mandato. Passados mais de cem anos, Afonso Pena surge como uma curiosidade do passado, uma singularidade de nossa História. Ele fez exatamente o contrário do que tem sido feito pelos governos do presente, com seu séquito de dezenas de ministérios de duvidosa utilidade ocupados por turbas de apadrinhados da base aliada, quase sempre desconhecidos sem familiaridade alguma com as pastas que ocupam. A política parece ter triunfado galhardamente sobre a administração, e o que é pior, ninguém demonstra achar isso errado.
Quando teremos outro Afonso Pena?
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