domingo, 26 de fevereiro de 2023

Brasil: Outra História Americana

Já escrevi aqui análises comparando a evolução dos EUA com a do Brasil, apontando as analogias do ponto de partida - o mesmo roteiro de descoberta, incorporação a um império europeu, povoamento, supressão de povos nativos, independência, escravidão e imigração - tentando explicar como ambos chegaram a um destino tão diferente. Sobre isso, não tenho muito mais a acrescentar. Mas recentemente fiquei surpreso ao ver que o mesmo questionamento foi feito por uma pesquisadora norte-americana, a historiadora Brodwyn Fischer, da Universidade de Chicago, que há mais de dez anos criou um curso batizado com um nome provocativo: Brazil, Another American History.

É citado o tipo de colonização - a portuguesa, implantada no Brasil, e a britânica nos EUA, cada uma imprimindo a suas colônias as características que suas metrópoles já possuíam. Até aqui nenhuma novidade. Mas a autora lança um conceito bem oportuno, que pode explicar porque há tanta dificuldade para visualizar sem isenção o que Brasil e EUA têm de semelhante e diferente. Ela denominou-o hiperrealismo, e definiu-o como a noção de algo que na verdade nunca existiu em lugar nenhum, mas que é aceito pelo senso comum, inclusive de pessoas bem instruídas.

Vejo aqui uma semelhança com o conceito de wishfull thinking, que tampouco possui tradução exata em português, e denota uma coisa que as pessoas "gostam de acreditar". A proliferação de ideias hiper-reais têm disseminado esquematismos pré-concebidos que aparentemente explicam os brasileiros e os americanos em seus atributos mais profundos, mas que não resistem à análise.

Começando pela já citada ideia hiper-real da colonização portuguesa concebida como brutal e malévola, e da colonização britânica como esclarecida e benévola. A História não confirma essa assertiva. Os britânicos também foram brutais com os povos nativos e os escravos. O motivo pela evolução dos dois países haver se desviado tanto não deve, portanto, ser buscado nas origens da escravidão, mas sim no que sucedeu depois: ao contrário dos EUA, a escravidão permaneceu entre nós informalmente, desde o tempo em que o tráfico foi formalmente proibido mas continuou clandestinamente. Desnecessário lembrar como a escravidão marcou todo o nosso futuro. A autora aponta a tendência brasileira de criar "poderes informais", que se sobrepõem à lei escrita, ao passo que nos EUA "fazemos questão de colocar na lei até as nossas brutalidades".

Por trás desses poderes informais, não temos dificuldade para enxergar um conceito que nos é bastante familiar: o famoso jeitinho brasileiro. Mas trata-se de outra notória ideia hiper-real. A autora aponta um aluno brasileiro, que afirma com patética descontração "oh, nós temos o jeitinho, nós somos diferentes" como se essa fosse uma explicação mágica para todas as diferenças entre brasileiros e norte-americanos. Entretanto, afirma a autora, o jeitinho também existe nos EUA, embora não com esse nome. "A diferença é muito mais da auto-percepção".

O caso é que, assumindo erroneamente o jeitinho como uma peculiaridade brasileira, nós nos apegamos a ele. Aí reside o encanto do hiperrealismo - é uma coisa nossa, assim é a nossa alma, rejeitá-lo é rejeitar a nós mesmos. Afastando-me agora da dissertação da professora, posso citar por minha conta mais algumas ideias hiper-reais. Uma bem popular é a noção do brasileiro homem cordial, lançada por Sérgio Buarque de Holanda, que já causou muita polêmica ao ser a cordialidade assumida como sinônimo de afabilidade. Na acepção do autor, referindo-se à origem do termo - cordial deriva de coração - ele quis dizer passionalismo, personalismo, irreverência em face de normas institucionais. Basicamente, o homem cordial age conforme a emoção, e não a razão.

Sérgio Buarque de Holanda vendeu o conceito como sendo a contribuição brasileira para a humanidade, e aí nasceu a ideia hiper-real. Mas qualquer indivíduo razoavelmente nem informado quanto ao mundo que o rodeia pode notar que as características do homem cordial, sobretudo a indistinção entre família e Estado, estão presentes em vários povos, em várias partes do mundo. Não é, de modo algum, uma peculiaridade brasileira. Ocorre em povos de distintas origens e culturas, mas que grosso modo, compartilham o status de serem subdesenvolvidos. A partir desta constatação, não há dificuldade em concluir que a "cordialidade" nada mais é do que o traço de uma organização social primeva, orientada ao clã familiar, ainda não entrada em formas mais complexas e abstratas como a Comunidade, a Corporação ou o Estado, menos ainda entrada no racionalismo científico. Sendo um sinal de atraso e ignorância, não deveria de modo algum ser percebida com carinho e orgulho. Mas assim funciona o hiperrealismo.

A questão racial é outro celeiro de ideias hiper-reais, tanto nutridas por brasileiros como por norte-americanos. São notórias as diferenças entre a percepção da raça e o racismo de lá para cá. Nos EUA, não houve miscigenação, e todo indivíduo com qualquer ancestralidade africana, por mínima que seja, é catalogado como negro. No Brasil houve miscigenação abundante, prova de que não existe o racismo entre nós. Sociólogos como Gilberto Freyre afirmaram a existência de um luso-tropicalismo, supostamente uma característica inata dos portugueses a se misturarem, por já estarem próximos da África e já existirem escravos africanos em Portugal. Para os britânicos e demais europeus do norte, tudo seria apenas produto de uma sensualidade desabrida característica dos povos sulistas - nós somos racistas, mas não somos devassos como eles, certo? No centro de tudo, o mito da terra abaixo do equador, habitada por índias nuas, onde "não existe pecado".

Mas faltou incluir na discussão um dado crucial: desde as primeiras levas de povoadores nos EUA, havia homens e mulheres. Nas primeiras décadas desde a descoberta do Brasil, só houve povoadores homens. Esses colonos tinham que ter esposas e filhos - é fácil entender que qualquer um que se estabelece em uma terra desconhecida e hostil, sente de imediato a necessidade de produzir descendentes, o mais rápido e no maior número possível, sem os quais não terá sequer como sustentar-se quando lhe faltarem forças para o trabalho. Eles escolhiam esposas índias porque não havia ali mulheres europeias, e também porque era necessário estabelecer boas relações com os índios, de quem dependiam para quase tudo. Enquanto isso Portugal, que chegou a ter 10% de sua população afro-descendente no século 16, viu esse percentual reduzir-se a quase zero nos séculos seguintes.

Não, os colonos portugueses não saíam por aqui estuprando índias, ou emprenhando-as e abandonando-as, como muitos imaginam; eles tinham relações estáveis com suas esposas índias, pois só relações estáveis podiam garantir o grande número de descendentes que necessitavam, além de precisarem do bom conceito de seus aliados índios. Pode ser também que a crença do colono português aproveitador e abandonador de filhos derive dos costumes dos índios, pelos quais as crianças só ficavam com os pais até certa idade, e depois eram criadas coletivamente pela tribo. Os colonos portugueses não vinham com o objetivo de satisfazer seu libido, mas de sobreviver.

Contudo, a imagem do Brasil como uma imensa senzala habitada por negras assanhadas e portugueses lúbricos viria a nos perseguir por muitos anos, também disseminada por romancistas e comentaristas. Mas a real matriz dos brasileiros miscigenados não foram os africanos, e sim os índios, que deram origem à massa dos caboclos, também conhecidos como mamelucos. Certamente muitas negras escravas foram estupradas por seus capatazes e senhores, tal como ocorreu em todos os lugares e épocas onde existiram senhores e escravos, mas é bastante primário assumir que todo um grupo étnico, conhecido como mulato, possa ser criado a partir de uma série de estupros. Mesmo porque o propósito do estupro não é produzir descendentes, embora isso possa acontecer. É preciso lembrar que os costumes da época eram tolerantes com o abuso sexual das escravas, mas não eram tolerantes com crianças bastardas e legítimas vivendo sob o mesmo teto. São abundantes os relatos de vinganças cruéis de esposas de fazendeiros contra suas amantes escravas. Ao que me parece, a maioria das crianças geradas pelo senhor eram abortadas, vendidas para outra fazenda ou feitas desaparecer de outra maneira.

Portanto, é outra ideia hiper-real essa de que havia grande miscigenação entre brancos e negros no Brasil colonial - a miscigenação que houve foi entre brancos e índias, no primeiro século de nossa história. O que aconteceu de fato foi que após a abolição, houve uma tendência dos escravos recém-libertos se unirem à massa de caboclos, que tinham uma condição social semelhante à deles. Por conseguinte, a maioria dos indivíduos apresentados hoje como mulatos não são uma pura mistura de brancos com negros, mas uma mistura de caboclos com negros - ou seja, há componentes brancos, índios e negros. Isso explica também porque os negros brasileiros são fisionomicamente tão diferentes dos negros norte-americanos, embora descendam das mesmas etnias.

Com essas informações rigorosamente históricas e verdadeiras, cai por terra o hiperrealismo do contraste entre o colono britânico puritano, que não abusava das negras mas era racista, e o colono português devasso, que abusava das negras mas não era racista. Mesmo porque a moral sexual católica não era mais liberal que a moral sexual protestante. Na esteira, caem também outras ideias hiper-reais, como a já arcaica noção da Democracia Racial, que chegou a ser bastante popular poucas décadas atrás, e que muitos atribuíam a Gilberto Freyre, embora essa palavra não constasse em nenhum escrito do autor. Hoje se sabe muito bem que o racismo sempre existiu no Brasil. Outra ideia hiper-real, essa mais moderna, é a que afirma que o racismo brasileiro seria igual ao racismo norte-americano, e que a maioria da população brasileira seria negra.

Trata-se do produto da influência de militantes do movimento negro norte-americano, nesse mundo cada vez mais globalizado e tendente a padronizar os discursos. A maioria da população brasileira só pode ser considerada negra se for chamado de negro qualquer indivíduo de pele mais ou menos escura, mesmo sem nenhuma ancestralidade africana. Nesse contexto, a própria noção de raça tem perdido o seu sentido original de característica genotípica, e ganha uma acepção ideológica: é negro todo aquele que não se considera branco e se considera discriminado em razão de sua raça.

Os norte-americanos, por sua vez, também são aferrados a antigas ideias hiper-reais. A principal delas, a meu ver, é a crença em seu exclusivismo. O histórico de fundação e colonização dos EUA seria único porque foi revestido de um significado místico: os peregrinos que ali vieram, fizeram-no movidos por uma crença religiosa. Isso pode ter sido verdade para os primeiros povoadores, mas até onde eu sei, a prosperidade dos EUA foi construída por imigrantes que, em sua maioria, não tinham um credo. O exclusivismo norte-americano também se refere à raça: as categorias "branco" e "negro" seriam exclusivas dos americanos natos. Por este motivo o conceito de "latino", que originalmente se referia a povos europeus que falam uma língua derivada do latim, foi recriado para adquirir uma conotação racial e referir-se unicamente a sul-americanos: um indivíduo originado da América Latina pode ter a raça que for, mas nunca é catalogado como branco ou negro, sempre como "latino".

Após remover o entulho das ideias hiper-reais, poderemos enfim chegar a conclusões mais precisas e menos imaginosas para explicar porque Brasil e EUA se tornaram tão diferentes. Por ora, o que todo o mundo sabe é o óbvio: que somos muito diferentes. O que não fica claro é que somos bem menos diferentes do que muitos sabem ou querem saber.

domingo, 29 de janeiro de 2023

O Perfil do Terceiro Governo de Lula

Renascido das cinzar, o terceiro período de Lula como presidente começa a se desenhar. A conjuntura é bastante diferente daquela dos dois períodos entre 2003 e 2010, que por sua vez mostraram um Lula bem diferente daquele dos palanques nos anos 80 e 90. Lula não cessa de se reinventar.

Uma discussão recente aqui perguntava se o Lula atual é realmente de esquerda. Eu diria que sim, mas está mais sintonizado com a esquerda globalista pós-guerra fria, enquanto os fundadores do PT eram oriundos da esquerda revolucionária dos anos 60 e 70 (e alguns até hoje não se livraram de todo dessa influência). Por isso Lula não enfatiza a luta de classes, mas prioriza as políticas "afirmativas" de inclusão de populações e grupos marginalizados. Isso traz benefícios, sem dúvida, mas o lado ruim é que essas políticas são frequentemente inspiradas e financiadas por entidades globalistas (são mesmo a marca de um mundo globalizado), entre as quais se incluem numerosas ONG´s com financiadores obscuros, e há o risco de obedecerem a objetivos que não são os locais, mas os globais (isso acontece sobretudo com as políticas voltadas para os índios). Não sei até que ponto Lula vai se deixar manipular por esses globalistas, ou vai impingir a sua marca pessoal.

O lado fraco de Lula, a meu ver, é a política econômica: eu o classifico como um getulista tardio. Em seus dois primeiros mandatos ele tentou reativar o nacional-estatismo getulista que marcou vários governos dos anos trinta até os anos oitenta, quando entrou em colapso, sendo sua maior patologia o inchaço do estado. No início dos anos 2000, Lula contou com uma conjuntura internacional favorável, que de fato permitiu que ele reavivasse artificialmente aquelas políticas estatizantes e nacionalistas, mas quando o tempo bom acabou, a Nova Matriz Econômica estourou nas mãos de Dilma, e foi aberto o caminho para a queda do PT.

Cumpre notar que seu antecessor entrou com um discurso totalmente oposto, dizendo-se liberal e anti-estatista, mas na prática pouco realizou nesse sentido. O que não me espanta, pois Bolsonaro é um grande admirador do regime de 1964, que foi justamente o que levou ao auge o nacional-estatismo, criando miríades de empresas cujos nomes terminavam em "bras", até quebrar o estado e levar o país ao caos inflacionário.

OK, Lula não é mais o barbudo revolucionário dos anos 80 que elogiava Fidel Castro e queria deixar de pagar a dívida externa. Mas não se tornou direitista; no máximo, um social-democrata. Compreendo o temor que muitos têm com essas guinadas de Lula no espectro ideológico, são frequentes os exemplos de esquerdistas que migram para a direita mais radical. Carlos Lacerda foi um dos mais notáveis, mas não o único; há numerosos outros como o falecido Olavo de Carvalho, e não por acaso: trata-se da comprovação do parentesco entre a direita fascista e a esquerda socialista.

O senso comum considera uma o antônimo da outra, mas examinando a História, vê-se que ambas derivam do mesmo tronco: as tensões sociais e nacionais do tempo da revolução industrial. O verdadeiro antônimo do socialismo não é fascismo, mas o liberalismo a que chamam "democracia burguesa". A revolução industrial acirrou o antagonismo entre patrões e empregados, assim como o antagonismo entre as potências, que disputavam mercados e fontes de matérias-primas em um mundo que não era globalizado, mas retalhado por impérios. Desse impasse surgiram doutrinas que pregavam a superação dos sistemas político e econômico que emergiram da revolução francesa (taxada de "revolução burguesa"). Os socialistas pregavam a extinção da classe patronal mediante uma revolução mundial que unisse todos os trabalhadores, ao passo que os fascistas pregavam a união em torno do Estado, a quem caberia mediar os conflitos entre patrões e trabalhadores, e lançar-se à guerra para obter os impérios que atenderiam às demandas por mercado e matéria-prima. Como se vê, então, migrar de um para o outro necessita apenas a troca de alguns paradigmas: do internacionalismo operário para o nacionalismo fascista, da extinção da classe patronal para o controle desta pelo Estado. De resto, eram ambos regimes de  partido único e organizações de massas, bandeiras e divisas altissonantes.

Outra suspeita que tem sido com frequência lançada contra o PT é de que seja um partido anti-religião, mais ainda nesse momento em que as igrejas evangélicas pendem para a direita bolsonarista. Não, o PT não é um partido comunista ateísta, embora desde o início tenha dado um viés político a suas crenças religiosas, sob influencia da Teologia da Libertação. Mas ao guinar para a esquerda pós-guerra fria, adotou bandeiras globalistas que iam em rota de colisão contra a mentalidade conservadora e religiosa da maioria da população, como a defesa do aborto e do homossexualismo. Sob este aspecto, ironicamente, os direitistas estavam mais sintonizados com os setores populares. Foi de fato um grande tiro no pé, que contribuiu para o desprestígio e queda do PT. Lula até agora não deu sinais claros se continuará nessa linha em seu terceiro mandato. Se uns acham que convém não discutir política e religião, em minha opinião convém ainda menos misturá-las.

E o resto é pagar para ver.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os Bolsonaristas e a "white trash" americana

Os eventos recentes mostram que os bolsonaristas têm uma base social surpreendentemente numerosa. De onde veio tanta gente, e por que têm tanta raiva? É nesse ponto que emerge um paralelo entre os bolsonaristas e a chamada "white trash" norte-americana, que constituíram os apoiadores mais devotos do ex-presidente Donald Trump, que não coincidentemente, manifesta uma grande afinidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e tal como ele, foi derrotada por bem pequena margem em sua tentativa de reeleição, e tal como sucede aqui, manifestantes enraivecidos invadiram a sede do legislativo. Tanta coincidência não teria uma motivação?

A "white trash" norte-americana é como se chama a classe trabalhadora branca que se sente mais incomodada com a presença de negros e imigrantes concorrendo por seus empregos, e sobretudo pelos fundos do Estado, e por este motivo pende fortemente à direita - contrariando o senso comum ainda muito em voga por aqui, de que a classe trabalhadora é essencialmente esquerdista. Outros ingredientes nesse meio social, como a intrusão de pessoas "diferentes", podem efetivamente mudar o rumo desse grupo para a direita, fenômeno já antigo nos EUA, mas até o momento não observado aqui. Afirmou um comentarista:

De qualquer forma, tais fatos alegados - falsos ou reais - como sabemos, desagrada uma parte da população americana, a saber, parcelas do povo branco, norte-americano.
Adicione-se que, parte dos afro americanos, sobrevivem com a "pensão social" destinada pelo Estado; o que causa nos brancos americanos, parece que principalmente nos "white trash", um ressentimento muito grande; tendo em vista que eles consideram que o benefício estatal destinado aos afro americanos mais pobres, é oriundo dos seus rendimentos, anteriormente convertidos em impostos.

A questão levantada é: tanta coincidência entre eventos ocorridos nos EUA e aqui são evidência de que já existe no Brasil uma numerosa classe trabalhadora ressentida com os benefícios que um governo de esquerda concede aos mais pobres?

A analogia deles com a white trash norte-americana, a meu ver, é limitada. Uma característica marcante da classe trabalhadora americana é a sua consciência de serem pagadores de impostos, portanto sustentadores do erário público - daí que não se agradem com a ideia de que seus impostos são usados para sustentar aqueles que (supostamente) não pagam impostos.

Essa arraigada crença de que quem paga impostos deve ter o controle do Estado vem dos primórdios da nação norte-americana, cuja revolução foi motivada por cidadãos que se julgavam espoliados por pagarem impostos que eram apropriados pelo administrador britânico ao invés de aplicados ali. Esse pensamento nunca ocorreu com a mesma ênfase no Brasil, onde o Estado tem sido tradicionalmente visto como um patrono dono de fundos supostamente infinitos, a quem cabe prover a população (visão muito endossada por líderes populistas), e não como mero síndico de uma receita de impostos finita.

A noção de que "cidadão" é sinônimo de "aquele que paga impostos" foi herdada do colonizador britânico pelos norte-americanos. Remonta, de fato, ao tempo da Magna Carta, que limitou o poder do rei de instituir impostos a sua vontade, e foi reforçada pelas revoluções que instituíram o parlamento como agente do poder. Inicialmente, apenas os pagadores de impostos podiam votar e ser votados, o que fazia pleno sentido no contexto político e social da época, posto que as funções dos primeiros parlamentos se reduziam à gestão de impostos, e por conseguinte, a representatividade política era da alçada somente daqueles que pagavam os impostos, e de ninguém mais. Só gradualmente a atuação dos parlamentos foi estendida à legislação em todas as áreas, e as prerrogativas de cidadão foram estendidas a toda a população nacional.

Se tal educação política permitiu aos norte-americanos um entendimento perfeito quanto aos direitos e deveres de cidadãos e governantes, por outro lado induziu uma intolerância contra todos aqueles que, em sua visão, trapaceiam nesse arranjo, e supostamente querem ter direitos sem arcar com os respectivos deveres. Não sei até que ponto os bolsonaristas brasileiros incorporaram esse discurso, mas a impressão que tenho é de que sua identificação com os apoiadores norte-americanos de Trump origina-se apenas de um paralelismo entre a posição social de uns e outros, e não de um compartilhamento de ideologia. Sob esta óptica, os bolsonaristas continuam sendo um produto de uma fenomenologia social tipicamente brasileira, e não de discípulos ou imitadores. Mas se nos EUA essa história já é antiga, aqui é nova. Só podemos esperar para ver.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Velha Discussão: Lula é de esquerda?

Muitos acharão inusitada essa colocação. Há alguma dúvida de que Lula é de esquerda?

Sim, há, e o próprio Lula tem incrementado essa polêmica de tempos em tempos. Ele surgiu na política brasileira como um outsider, sem passar pela matriz dos esquerdistas históricos nacionais, que é a universidade. Não acredito que Lula tenha alguma vez lido um autor marxista, e menos ainda se interessado pelo assunto.

O caso é que, nas últimas décadas, o sentido de "esquerda" ficou bastante difuso. O fenômeno deve-se sobretudo ao período durante e logo após o regime militar, quando havia um glamour em apresentar-se como de esquerda, mesmo por quem não era de esquerda, enquanto a direita era abominada, mesmo por quem era de direita, por ser associada à ditadura. O resultado é que na época atual, um direitista como Bolsonaro é facilmente definido e reconhecido, mas um esquerdista pode ser muita coisa. Eu vejo Lula como basicamente um líder personalista, cuja maior habilidade é reinventar-se conforme o contexto do momento. Assim, ele já repetiu discursos de esquerda no passado, bem como já foi capaz de declarar secamente "que não era de esquerda". Tem sido assim desde o tempo de sua primeira prisão, ainda na época do ABC, quando ao ser inquirido se era comunista, respondeu: "não senhor, sou torneiro-mecânico".

De resto, Lula é, estranhamente, uma criação da direita. Refiro-me ao regime de 1964, que afastou boa parte dos dirigentes sindicais de então. Antes de 1964, os sindicatos eram loteados pelos partidos, mais precisamente entre o Partido Trabalhista de Vargas e o PCB. O quadro sindical foi, então, renovado com uma nova geração de dirigentes aceitos pelo governo, submissos ao governo, sem dúvida. Mas ao menos originados do chão da fábrica, e não dos partidos políticos. Lula entrou nesse leva, e fez o caminho inverso: primeiro o sindicato, depois o partido político.

E não menos estranhamente, foi o regime de 1964, tido como de direita, o responsável pela liquidação da direita partidária no país, ao cassar Carlos Lacerda e outros líderes proeminentes, posto que não queria nenhuma alternativa civil ao poder. Nunca mais surgiria uma direita intelectualmente brilhante no país, e o espaço por ela deixado foi ocupado por políticos provincianos sem outra ideologia que a busca de favores do governo. A direita atual não tem raízes da era pré-1964, e parece motivada mais pelo desalento da população do que por alguma esperança concreta no futuro.

E o espaço deixado pela esquerda histórica, cujo tempo histórico já passou, será ocupado por Lula? Ele ainda tem um pouco de tempo, embora escasso. Bem, isso depende de saber se ele vai ou não vestir a roupagem de esquerda nessa legislatura. E após Lula, surgirá uma nova esquerda no país?

O futuro está difícil de prever.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Lula Lá

Apesar da exígua margem, a mais estreita da história republicana, aconteceu o previsto: Lula será o próximo presidente.

Quem acompanha meu blog sabe que eu deploro a falta de renovação da política brasileira. Lula já teve dois mandatos, e terminando mais esse, será (creio eu) o mais idoso presidente que já governou o país. Mas a bem dizer, não devo estranhar, nem lamentar que Lula esteja de novo no comando da nação. Muitos, como eu, não nutrem grande simpatia por ele, e de fato custou algum tempo até que se reconhecesse que Lula foi o personagem que mais encarnou as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração. Sem retórica, Lula tem mesmo a cara do Brasil - para o bem e para o mal.

Resta esperar, agora, que ele preserve a boa imagem legada por seus primeiros dois mandatos, e não se arrisque a colocar tudo a perder agora no fim de sua carreira, quando a lembrança que ficará para a posteridade será a deste último mandato. As perspectivas são boas, pois algo que Lula sempre mostrou saber bem cuidar, é da própria imagem. Lula sempre soube se reinventar, e mais não se diga, diferente de Bolsonaro e de Sérgio Moro, Lula sempre foi um político - ele sabe negociar e fazer alianças. Não tem grandes escrúpulos em defender aliados patifes, nem em entregar o pescoço deles quando é necessário para salvar o próprio pescoço. Mas assim é o mundo político. Como diz o ditado, aqueles que têm nojo à política são governados pelos que não têm.

domingo, 9 de outubro de 2022

O Passado Está à Frente

Não deveria dizer que o futuro está à frente?

Mas alguém já disse que o Brasil tem um grande passado pela frente, e essa afirmação nunca foi tão verdade quanto agora, que a presidência é disputada por dois candidatos que emergem de um passado já meio mítico. Entre um e o outro, apenas o burburinho dos mesmos personagens de sempre com suas intenções de voto nanicas, atestando a incapacidade do quadro político de se renovar.

Bolsonaro encarna o regime militar de que não tomou parte por não ter idade à época, mas que transformou em ideal, embora sua política nada tenha a ver com o nacional-estatismo do tempo dos generais. Lula encarna uma utopia que vem lá do século 19, o operário no poder, e credencia-se em dois mandatos bem sucedidos mas já afastados no tempo, quanto usufruiu de uma conjuntura mundial favorável que não se repetirá agora. A ausência de renovação mostra que o país chegou a um impasse, sem ideias ou projetos originais, muito menos utopias. Há muito que não somos mais o país do futuro - o futuro agora está na Ásia, naqueles países que poucas décadas atrás eram mais pobre do que nós. Com o fim da Guerra Fria, nossa parte do mundo também perdeu toda a importância estratégica para o Ocidente, e tornou-se, de fato, um subúrbio pobre do Ocidente, o que já era antes, mas pelo menos havia esperança.

Podemos, então, afirmar que quem quer que vença o segundo turno, não devemos esperar nenhuma novidade, só mais do mesmo. Certo? Nem tanto. Se Bolsonaro vencer, penso que essa premissa é verdadeira, pois o atual presidente parece esgotado de projetos, e sem forças para levar adiante suas pretensões ditatoriais. Mas se Lula for o vencedor, eu não me arrisco a prever. Lula tem uma inusitada capacidade de se reinventar, o que de fato é seu segredo, pois do contrário ja teria se desmoralizado pelas muitas eleições em que foi derrotado desde 1990, ou em razão do período em que esteve preso.

Como será o Lula de 2023? Há duas hipóteses. Ele pode repetir o Lula de 2010 com seu getulismo tardio, e reeditar a Nova Matriz Econômica em um cenário totalmente adverso, talvez deixando a bomba estourar no colo de seu sucessor, como fez com Dilma Rousseff. Ou então pode usar sua habilidade e seu carisma para criar um clima de confiança, como fez em 2002, e finalmente deixar para trás os modelos superados e enviar o país para algum futuro, senão o ideal, ao menos algum futuro.

Infelizmente há uma terceira hipótese. Ele pode querer preservar a imagem do Lula bem sucedido de seus dois mandatos anteriores, e conduzir uma administração sem grandes ousadias. Aí sim, teremos o passado à nossa frente.

domingo, 25 de setembro de 2022

Dois Personagens Injustiçados

O tempo está bom para falar de reis. O bicentenário da independência e o falecimento da rainha Elizabeth da Inglaterra puxam o assunto. Hoje vou abordar dois personagens tão importantes quanto injustiçados de nossa História: dom João VI e Pedro I.

O rei dom João é apresentado como um glutão bonachão e medroso, e seu filho, o futuro primeiro imperador do Brasil, como um rapagão mulherengo, grosseiro e ignorante a ponto de ser considerado quase um semi-analfabeto. Tanto um quanto o outro isentos de qualidades de estadista.

Mas primeiro de tudo faltou colocá-los em seu devido contexto histórico. O parvo João moveu-se em um verdadeiro olho de um furacão, tendo reinado em um dos períodos mais conturbados e de mais súbitas mudanças de toda a História Universal. De príncipe a rei, sem ter sido educado para tal, pois não era o herdeiro. Da Europa para o Brasil. De absolutista a constitucional. Do Brasil colônia a país independente. Passou por todas essas transições e permaneceu no poder, enquanto outros reis muito mais poderosos e melhor preparados eram depostos e exilados. E mais não se diga, inserido em um ambiente doméstico tão inóspido quanto o ambiente político.

Segundo de tudo, é preciso desmitificar a suposta fuga de João, que dizem, escafedeu-se deixando o seu povo a ver navios, daí ter surgido essa antiga expressão, pois a população de Lisboa ficou vendo os navios do rei sua comitiva ao longe enquanto as tropas de Napoleão chegavam. Mas é preciso dizer e repetir: João não fugiu. Tivesse fugido, seria apenas mais um rei no exílio. Mas continuou reinando, pois junto com ele, foi transportada toda a máquina governamental, incluindo o funcionalismo, os arquivos, o tesouro, a biblioteca que está aqui até hoje, e até uma tipografia completa. Uma operação de logistica complicadíssima para a época, mais ainda por ter sido planejada em total sigilo, que nunca antes fora executada, nem jamais o seria depois. Dom João VI foi o primeiro e o último monarca a visitar suas colônias na América - hoje isso pode parecer estranho, mas na época não se justificava de modo algum um rei meter-se em um navio para uma viagem arriscada e desconfortável, que tomaria mais de três meses tanto para a ida quanto para a volta, perfazendo bem um ano de ausência na metrópole.

A transferência do reino para outro continente foi uma façanha extraordinária e única, que já bastaria para tornar João admirável. Mas ele continuou a ser considerado um governante fracote e pusilânime, que sempre postergava decisões, supostamente por medo de tomá-las. Mas de postergação em postergação, o rei sobreviveu a todas as crises políticas e impasses militares daquea época conturbada, deu um grande impulso ao Brasil, que deixou de ser colônia, e ainda foi bem recebido de volta a Portugal, a terra de onde supostamente havia fugido correndo. Parece-me bem falso que João não tivesse qualidades de estadista.

Já dom Pedro é lembrado por haver tido dezenas de amantes e filhos naturais, bem como por seus modos grosseiros e sua boca cheia de palavrões. Não deixa de ser verdade. Mas se esquece que tal libertinagem era a regra para todos os reis e nobres da época. Uma espécie de compensação: sabia-se que reis e nobres tinham que sacrificar sua vida privada em prol de interesses políticos, com casamentos arranjados, mas ao mesmo tempo eram homens poderosos e acostumados a ter seus prazeres satsfeitos. Então lhes era concedida uma tolerância para casos extraconjugais que não se extendia à burguesia e ao povo.

É verdade também que o rapaz Pedro preferia expressar-se em linguagem coloquial, e por vezes conduzia-se como um rude homem do povo. Mas também é verdade que os arquivos da Biblioteca Nacional guardam muitos documentos bem escritos pelo próprio punho do imperador, em linguagem adequada. Não, Pedro não era um ignorante semi-analfabeto como muitos imaginam; ele teve, sim, uma educação de príncipe. Também é absurdo afirmar que não tinha qualidades de estadista um homem que aos 24 anos já havia feito a independência de um país que era quase um continente inteiro, e antes dos 36 anos já havia conduzido e vencido uma guerra em Portugal contra o usurpador do trono de sua filha, deixando tanto o Brasil quanto Portugal com regimes constitucionais, em uma época em que a monarquia absoluta estava em alta após as guerras napoleônicas. Pedro agiu bem e agiu mal, mas sobretudo, agiu sempre, quando poderia ter simplesmente se retirado para os bastidores e ali levado uma sossegada vida de pândega e fudelança.

Não vejo outra razão para o pouco caso com que são tratados esses personagens tão importantes de nossa História, senão como um sinal de profunda falta de autoestima. Antes que os outros zombem de nós, nós mesmos nos zombamos.