quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quando teremos outro Afonso Pena?

Enquanto o futuro não chega e o presente permanece travado, o que há para fazer é olhar o passado em busca de referências e recorrências. Quem não conhece a História será para sempre um menino, afirmou Cícero.

Vou falar hoje de um certo ex-presidente, Afonso Pena, que governou entre 1906 e 1909. A princípio ele não parece ter nada de extraordinário. Sua figura nada fotogênica parece destinada a enfeitar uma daquelas galerias de fotos em preto-e-branco de ex-presidentes que enfeitam as paredes de clubes. Mas duas coisas eu me lembro de haver lido a respeito dele. Uma, que seu ministério era apelidado de Jardim da Infância em razão da pouca idade de seus ministros. Outra, de que ele foi o único presidente brasileiro que morreu de tanto trabalhar.

De trabalhar, Afonso Pena tinha que gostar mesmo. Não era filho de grandes fazendeiros de café, mas de um modesto imigrante português, e teve que dar bastante de seu tempo atrás do balcão da botica do pai antes de ter recursos para vir à capital estudar. Embora eleito presidente dentro dos protocolos da política do café-com-leite, sua gestão não se prendeu de todo aos interesses desta política. Gostava de conduzir as coisas à sua maneira, e sabia separar política de administração, conforme suas palavras:

Na distribuição das pastas não me preocupei com a política, pois essa direção me cabe, segundo as boas normas do regime. Os ministros executarão meu pensamento. Quem faz a política sou eu.


A essa altura já dá para perceber que o apelido depreciativo de Jardim da Infância dado aos ministros de Afonso Pena nada mais era do que despeito por ele haver montado seu ministério sem ouvir indicações de ninguém, nomeando técnicos jovens e desconhecidos, tendo como critério somente a competência. E deu certo, pois seu governo de apenas três anos foi de muitos empreendimentos. Pela primeira vez a Amazônia foi ligada ao Rio de Janeiro por fios telegráficos. Ampliou a malha ferroviária, e pela primeira vez o sudeste foi ligado ao sul do país por trem. Abriu o país ao povoamento, e incentivou a imigração: além de aumentar o número de imigrantes europeus, é de seu governo também a assinatura do tratado que permitiu o início da imigração japonesa. Também modernizou o exército e a marinha com a aquisição de modernos couraçados, e sua lei do serviço militar está vigente até hoje. Mas em razão de não aceitar indicações e apadrinhamentos, terminou politicamente isolado e não conseguiu fazer seu sucessor. Na crise que se seguiu foi aberto um hiato na política do café-com-leite, que só seria restabelecida sob Wenceslau Braz (1914-18).

Era exigente no trato com sua equipe e mantinha uma rotina de trabalho rigorosa para sua idade avançada, em razão da qual terminou por adoecer e faleceu antes de terminar o mandato. Passados mais de cem anos, Afonso Pena surge como uma curiosidade do passado, uma singularidade de nossa História. Ele fez exatamente o contrário do que tem sido feito pelos governos do presente, com seu séquito de dezenas de ministérios de duvidosa utilidade ocupados por turbas de apadrinhados da base aliada, quase sempre desconhecidos sem familiaridade alguma com as pastas que ocupam. A política parece ter triunfado galhardamente sobre a administração, e o que é pior, ninguém demonstra achar isso errado.

Quando teremos outro Afonso Pena?

sexta-feira, 25 de março de 2016

O que fazer quando o tempo para?

Não tenho nenhuma dúvida de que o tempo no Brasil está parado, tal como uma imagem congelada, repetindo sempre as mesmas cenas de escândalos, denúncias e manobras do governo para fugir do impeachment. O tão falado ajuste fiscal já está no segundo ministro mas ainda não saiu da estaca zero, posto que não interessa nem ao governo nem à oposição. Sem ajuste, a economia permanece parada. O único objetivo da oposição, no momento, é derrubar o governo. E o único objetivo do governo, no momento, é permanecer no poder. Refletindo a paralisia geral da política e da economia, os forum´s de debate que frequento apenas repetem tal como disco arranhado, do tempo em que os discos arranhavam, as mesmas teorias conspiratórias embaladas nos mesmos adjetivos para desqualificar as ações da operação Lava Jato, entre os quais se destaca sobretudo o termo fascista.

O que pode um comentarista fazer quando o tempo para? Se não há presente, então falar do passado! Seria oportuno desencavar o tão citado termo fascismo. Que raio de coisa é, afinal, esse tal de fascismo?

Na época atual, o termo não passa de um xingamento. Fascista designa tudo aquilo que é totalitário, truculento e ignorante, desde que se refira aos nossos adversários. Mas em suas origens, o fascismo foi uma doutrina político-ideológica surgida no início do século 20, na esteira da crise que seguiu-se à 1a Guerra Mundial. Surgiu inicialmente em países europeus industrializados, mas logo gerou sucedâneos em países periféricos de industrialização recente, como o Brasil. Seu mentor foi o ditador italiano Benito Mussolini. Não cabe aqui um estudo completo de suas ideias, mas a citação de algumas de suas frases mais conhecidas é bastante esclarecedora:

Se liberalismo significa indivíduo, fascismo significa Estado. É ele que vai solucionar as dramáticas contradições do capitalismo (...) Nada  fora do Estado, nada contra o Estado, tudo no Estado, tudo para o Estado!


Ouvidas essas palavras, parece estranho que hoje em dia os maiores fregueses da pecha de fascistas sejam os liberais (ou neoliberais, como queiram), aqueles que desejam uma presença menor do Estado. Pois o fascismo não preconizava exatamente o oposto? E parece ainda mais estranho que os países que mais se declaram anti-fascistas, ao menos aqui na América Latina, sigam exatamente este receituário. O maior exemplo é o autointitulado regime bolivariano da Venezuela. Enumeremos essas características:

- Não abole o capitalismo, mas sujeita-o ao Estado.


- Não abole o trabalho assalariado, mas o Estado tutela as relações trabalhistas.


- Nacionalismo exacerbado.


- Militarismo.


- Ódio ao inimigo, real ou imaginário.


- Partido Único.


- Culto à personalidade do Líder.


- Constantes cerimônias cívicas, slogans, marchas e bandeiras.


- Organizações de massa arregimentando estudantes e operários.


- Milícias armadas sob o comando do Partido, e não do Estado.


- Privilégios a capitalistas amigos do regime.


À exceção do item Partido Único, poderíamos estar falando tanto da Itália fascista quanto da Venezuela bolivariana. Mas as características comuns podem ser estendidas também ao peronismo argentino dos anos quarenta, cujo líder declarou-se abertamente um admirador de Mussolini, bem como em menor escala ao getulismo brasileiro dos anos trinta, e na época atual a vários outros regimes sul-americanos conhecidos genericamente como de esquerda. Mas o fascismo não é direita? É nesse ponto que muitos interlocutores apontam o absurdo de minha argumentação: como pode um regime de direita ser amigável à esquerda? Mas se fosse assim, teríamos que concluir que Uê e Marcinho Vp deveriam ter sido amigos, já que ambos eram traficantes de drogas... É fato histórico que a inimizade visceral sempre havida entre fascistas e socialistas originou-se porque ambos concorriam pelo mesmo público de intelectuais inconformistas e proletários insatisfeitos, enquanto a classe média conservadora preferia os partidos tradicionais. De resto, a afinidade entre ambas ideologias é evidente: o fascismo originou-se do mesmo tronco que o socialismo, fruto das mesmas contradições econômicas e sociais nascidas com a revolução industrial e o imperialismo europeu. Melhor dizendo, o fascismo foi um pastiche feito para concorrer com o socialismo, e de fato apresenta vantagens: é uma alternativa mais fácil e atraente que a longa revolução socialista. Prescinde da liquidação completa do sistema capitalista, e portanto da enorme crise que viria em consequência, e apela a sentimentos caros a cidadãos comuns porque universais e politicamente neutros, tais como patriotismo, altruísmo, cultura nacional, folclore, valorização de raízes étnicas, esporte e vida saudável. Não é pouca coisa. Daí que tantos notórios líderes de direita tenham sido socialistas em sua juventude, a começar pelo próprio Benito Mussolini, mas podemos também citar no Brasil Carlos Lacerda, Olavo de Carvalho, Paulo Francis, Reinaldo Azevedo.

Mas se apenas repetimos palavras sem sequer conhecer o seu real significado, que outra coisa podemos fazer enquanto as rodas da História não destravam, exceto estudar a própria História?

quarta-feira, 9 de março de 2016

O Imperialismo, Ontem e Hoje

Nesses dias de devassa na Petrobrás e nas maiores empreiteiras do país, pululam nos forum's de debate teorias conspiratórias afirmando que tudo não passa de uma tramóia das grande potências para expulsar nossas companhias do mercado global e apossar-se de nosso petróleo. Algumas expressões foram até desencavadas do fundo do baú, como as Sete Irmãs, apelido dado ao cartel de grandes companhias petrolíferas que loteavam entre si o petróleo mundial. Sinistras histórias de trapaças, conspirações, assassinatos e governos derrubados foram lembradas. O termo imperialismo é onipresente, embora pareça-me anacrônico. Afirma-se que as guerras do Iraque, da Líbia e da Síria têm como objetivo apossar-se do petróleo dos árabes. Mas estamos ainda sobre a égide do imperialismo?

Para responder, é preciso antes de tudo resgatar o sentido original do deste termo, que tem sido constantemente redefinido nas últimas décadas. Houve dois grandes períodos de imperialismo na idade moderna: o primeiro no século 16, consequência da descoberta do Novo Mundo e economicamente motivado pelo sistema econômico conhecido por mercantilismo: conquista de novas terras, extrativismo ou monocultura para exportação abastecida por tráfico de escravos. Colônias só podem comerciar com a metrópole, mas o contrabando corre solto. O segundo período imperialista ocorreu no século 19, economicamente motivado pela revolução industrial: livre comércio, acesso garantido às fontes de matérias-primas, conquista de novos mercados, tudo isso garantido se necessário pelo domínio militar de portos, vias e canais estratégicos. Tensão e guerras entre as potências colonialistas. Após a descolonização, o termo imperialismo ganhou um sentido mais amplo, para além da mera ação militar, passando a referir-se à dependência econômica e tecnológica das nações periféricas em relação às grandes potências e à ação das multinacionais nestes países.
Parece-me que a teoria que aponta a cobiça das grandes empresas multinacionais como estando por trás das investigações ora sendo feitas na Petrobrás e empreiteiras nacionais insere-se nessa última definição de imperialismo. Mas faz algum sentido?

A meu ver, só faria se estivéssemos algumas décadas no passado. Vale lembrar que o imperialismo dos tempos modernos não existe sem uma motivação econômica específica, conforme detalhei anteriormente. A etapa imperialista resultante da revolução industrial tinha como propósito manter as fábricas funcionando: livre acesso à matérias-primas produzidas em terras distantes, livre comércio em todos os portos para escoar a produção, e livre importação de cereais para alimentar os operários. Sob este enfoque, a manutenção de vastos impérios tinha uma importância eminentemente estratégica: em um mundo dividido entre potências mutuamente hostis, era crucial garantir pela força o acesso aos mercados e às fontes de matérias-primas. Portanto, fazia sentido manter o domínio sobre povos estrangeiros, portos, canais e vias de acesso estratégicas. Já sob o ponto de vista estritamente econômico, não havia grande diferença entre extrair as matérias-primas de suas colônias ou importá-las de países independentes, bem como entre exportar a produção para suas colônias ou para países independentes. Afinal, tanto em um caso como em outro, o capital e a tecnologia das grandes potências estariam necessariamente envolvidos, seja para abrir ferrovias e aparelhar portos, seja para o financiamento bancário. No Brasil da República Velha, tanto as companhias ferroviárias que transportavam o café para o litoral quanto as casas exportadoras que o compravam eram de propriedade de ingleses.

Mas sem dúvida, a manutenção do domínio colonial envolve um custo extra com a guarnição e os funcionários, de modo que a partir do momento em que deixou de ser pertinente a razão estratégica, passou a valer a razão puramente econômica, e os velhos impérios coloniais foram liquidados. Esse momento histórico ocorreu após a 2a guerra, quando foi estabelecido um certo equilíbrio no cenário global: as antigas potências coloniais são substituídas por duas superpotências que se enfrentam sob regras bem restritas, no que ficou conhecido como guerra fria. Com as mercadorias circulando livremente pelo globo, a geopolítica pôde finalmente desligar-se da economia: passariam a valer as razões de mercado, e apenas estas.

Sem dúvida que as coisas não se passaram assim tão tranquilamente. No mundo pós 2a guerra, houve alguns momentos em que a geopolítica e a economia voltaram a se juntar, como no embargo de petróleo movido pela OPEP nos anos 70. Mas no fim de tudo o mercado prevaleceu: embora os países produtores estejam até hoje unidos sob poderoso cartel, o preço do barril tem caído. No atual mundo globalizado, o imperialismo é anacrônico.

E o novo imperialismo exercido pelas multinacionais, tal como denunciado pelos militantes nacionalistas do terceiro mundo? Está mesmo em ação? Mantém de fato esses países em um estado de subdesenvolvimento e dependência para com as grandes potências? Se assim fosse, não teríamos como explicar o fenômeno dos novos países industrializados da Ásia, que competem com as grandes potências não com petróleo, mas com produtos de alta tecnologia. Por que os imperialistas não os boicotaram, invadiram, patrocinaram conspirações para impedí-los de se tornar tecnologicamente independentes? Ao que parece, no mundo globalizado essas tramóias não funcionam. Parece-me que ficou no passado não apenas o imperialismo, mas também a ideia de que o domínio de riquezas estratégicas, como o petróleo, é a chave para se atingir o mundo desenvolvido. No mundo globalizado, onde o acesso aos mercados é livre, não importa ter o petróleo, e sim o dinheiro para comprá-lo. Mas nossos militantes nacionalistas ainda estão com a cabeça nos anos 60, época de seu grande embate e de sua grande derrota. Ensinam os psicólogos, o trauma paralisa o tempo e faz você viver no passado.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As duas camadas do PT

Enquanto o país afunda lentamente na crise, é impossível não especular que o tempo político de Dilma está se esgotando: ela não se move, e em breve não haverá mais espaço de manobra, então das duas uma, ou ela terá que formar um governo de coalizão estilo Itamar Franco pós-Collor, na prática abrindo mão do poder, ou deverá simplesmente renunciar, pressionada inclusive por seu próprio partido. Essa segunda hipótese ganhou mais força com a publicação de uma grandiloquente Programa Nacional de Emergência para a economia, contendo abertas críticas à política econômica da presidente e uma lista de propostas irrealizáveis, como o aumento do Bolsa Família, corte nos juros, gasto das reservas internacionais, isenção de imposto de renda para as faixas mais baixas e aumento de impostos para as "grandes fortunas". Nada surpreendente se viesse de algum partideco de esquerda independente, mas chama a atenção vindo do próprio partido da presidente.

Enquanto Dilma não se decide e digladia-se nos bastidores com seus correligionários, o episódio lança alguma luz sobre como é o PT por dentro e como esse partido estruturou-se ao longo do tempo. Confirma-se uma impressão que eu já vinha tendo: o PT é constituído de duas camadas. No alto a cúpula, fortemente hierarquizada e articulada politicamente, e por baixo a massa dos militantes, barulhenta e irresponsável, sem poder decisório, mas essencial para o agitprop. Essa massa de militantes forma a imagem visível do PT junto ao eleitorado, mas tal como moleque, é mandada ir brincar lá fora quando os adultos se reúnem na sala para falar de coisa séria.

Essa massa militante seria a matéria original de que se formou o PT, da qual saiu posteriormente a camada dirigente? Ou a camada dirigente sempre esteve no comando desde a fundação do partido, usando a camada militante como massa de manobra? Resposta difícil para quem não conhece o PT por dentro. Só tenho certeza de duas coisas. Primeiro, de que a cúpula petista tem de fato grande disciplina e competência para a realpolitik, haja visto o vasto leque de alianças que construiu e a intrincada complexidade dos esquemas de corrupção que montou. Segundo, que a camada militante é totalmente sem noção. Tal como o moleque que ao invés de ficar brincando lá fora insiste em aparecer na sala onde conversam os adultos, só diz besteira, atrapalha e irrita. No episódio corrente, sequer perceberam o quão inoportunos estavam sendo com seu programa estapafúrdio, que a presidente obviamente não será capaz de implementar e ficará desmoralizada - a menos, é claro, que o propósito deles tenha sido esse mesmo.

O que sucederá de agora em diante? As duas camadas do PT vão entrar em choque, causando a implosão do partido? Ou o petismo fenecerá melancolicamente em um governo de coalizão? Difícil dizer, mas seja qual for o desfecho, confirma algo que já é sabido de todos: esgotado o dinheiro, um governo socialista só permanece no poder se impuser alguma forma de ditadura. Essa crucial etapa de transição à ditadura parece estar falhando para todos os regimes do atual ciclo populista na América Latina.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Paralelos entre o momento atual e 1954

Um dos objetos mais frequentes de meus comentários aqui tem sido os paralelos entre momentos históricos do passado e do presente, tentando desvendar os mecanismos deste misterioso sincronismo que faz com que os eventos do passado se repitam, ou pareçam se repetir no presente. Uma comparação que tem sido cada vez mais repetida nos forum´s e redes sociais correlata a crise do governo Dilma com a crise que levou Vargas ao suicídio em 1954. Assistindo ao declínio do atual governo petista, nota-se que a queda de Vargas em 1954 foi precedida de um roteiro semelhante, com muitas acusações de corrupção, CPI´s, campanhas na imprensa, etc. Hoje é perfeitamente sabido que por detrás daquilo tudo havia um projeto de conquista do poder por um grupo direitista centrado na UDN e na ESG (Escola Superior de Guerra) dentro do contexto da guerra fria e da subversão comunista.

Estaria acontecendo a mesma coisa nos dias de hoje? Desnecessário dizer que a grande maioria dos petistas jura que sim. Mas é preciso examinar os fatos um a um. Semelhanças, há: um governo dito de esquerda e nacionalista, pessoas se beneficiando de sua proximidade com o poder, maioria da imprensa contrária, políticos querendo derrubar o governo via impeachment. Mas as diferenças também são flagrantes:

- Mais importante de todas: as investigações contra os petistas estão acontecendo dentro de órgãos que foram predominantemente montados, senão aparelhados pelo próprio PT - o MPF, o STF e a Polícia Federal. Os mensaleiros foram condenados por um plenário onde a grande maioria dos ministros havia sido nomeada pelo PT.  A atual Polícia Federal também teve seus quadros montados em grande parte na era petista. As leis que facilitam a investigação da corrupção, inclusive a delação premiada, foram aprovadas com o apoio do PT. Pode-se no máximo acusar, sem provas, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro de terem simpatias pelo PSDB.

- Não mais existe a polarização Esquerda X Direita nos moldes que havia durante a guerra fria. Conceitos como "perigo comunista" e "conspiração da CIA" atualmente só existem para quem esqueceu a cabeça nos anos sessenta. O principal opositor do PT não é um partido de direita como a antiga UDN, mas o PSDB, um partido de centro-esquerda.

- Não existe um antagonista do calibre de um Carlos Lacerda, capaz de galvanizar a oposição apenas com seu carisma pessoal. Os políticos que querem derrubar Dilma com o impeachment são notoriamente medíocres, movidos por ambições pessoais, e não por razões ideológicas. Nenhum observador sério acredita que se Dilma sair, o país vai cair em uma ditadura de direita.

- A dita "Republica do Paraná" não é igual à antiga Republica do Galeão. Em 1954, a aeronáutica já era hostil a Vargas desde antes do atentado a Lacerda. A Polícia Federal e a Justiça Federal são crias do PT.

- A imprensa, hoje, não tem o mesmo poder que tinha 60 anos atrás, pois atualmente há muitas outras mídias na internet que podem servir como formadoras de opinião.

- E por fim, falta o lance trágico: a tentativa de assassinato de Lacerda e o suicídio de Vargas.

A conclusão a que chego é que há mais imaginação do que paralelo histórico. Se há um paralelo efetivo entre os dois momentos, é quanto ao surto de corrupção inerente ao modelo nacional-estatista moldado por Vargas e adotado pelo PT, que invariavelmente cria um séquito de empresários amigos-do-rei em torno do Estado. A diferença é que, na época atual, há meios mais efetivos de investigar e levar aos tribunais os corruptos. A verdade pode ser dita sem grandes volteios: o PT agiu como o macaco que prendeu a mão na cumbuca, e acabou caindo na arapuca que ele mesmo montou ao fortalecer a Polícia Federal e aprovar leis anticorrupção, tudo isso para em seguida mergulhar em práticas corruptas como se não houvesse amanhã. Mas como, afinal, os petistas, que já deram provas de muito melhor organização e visionarismo no passado, foram agir de maneira tão inábil?

Aí só posso especular. Talvez acreditassem que a prosperidade da primeira década fosse eterna, e então o eleitor poderia continuar relevando a corrupção como sempre fez durante os períodos bons da economia. Ou talvez, como afirma o dístico popular, quem nunca comeu manga, quando come se lambuza.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Os rótulos duram mais que os conceitos

Sempre que entro em um desses forum´s de discussão política sou possuído por uma sensação de haver voltado no tempo, até pelo menos os anos sessenta. Impressiona-me a repetição de chavões e esquematismos que faziam sucesso por aquela época, mas que qualquer um com um mínimo de percepção histórica reconhecerá como anacrônicos nos dias de hoje. Tudo é culpa das elites, do imperialismo ianque, da colonização, da mídia burguesa, dos religiosos e por aí afora. Mas se as palavras ainda são as mesmas, a forma como elas são articuladas não é mais a mesma. Acredito que um militante lá dos anos sessenta, trazido por uma máquina do tempo à época atual, ficaria surpreso de ver os atuais militantes de esquerda defendendo empresários e banqueiros corruptos, idolatrando marginais comuns e jurando que somos tão racistas quanto os norte-americanos. Sem contar que naquele tempo se considerava homossexualismo um sinal de decadência burguesa e ambientalismo coisa de porra-louca.

Claramente, os rótulos duram mais que os conceitos que pretendem representar. Em algum instante inicial, os rótulos foram cunhados a partir dos conceitos, mas com o passar do tempo um e outro foram se distanciando. Os rótulos são papagueados, e ninguém mais cuida de verificar se, como diz a canção, as ideias correspondem aos fatos. Um exemplo gritante é o adjetivo "neoliberal", um dos mais em moda atualmente. O neoliberalismo é conceito dos anos 80, da Inglaterra de Thatcher e dos EUA de Reagan, e o termo atualmente se encontra em desuso, exceto na América Latina, onde o neoliberalismo nunca existiu mas tornou-se sinônimo de tudo o que há de ruim no mundo.

Os próprios conceitos basilares de esquerda e direita já não são mais os mesmos. Em seu contexto original, denotavam a luta de classes: esquerda era os trabalhadores, direita os patrões; esquerda era os pobres, direita era os ricos. Ninguém punha isso em dúvida. Após a queda do muro de Berlim, o antagonismo esquerda X direita deixou de ser irreconciliável, e os conceitos se tornaram mais frouxos, embora seus respectivos rótulos continuassem a ser repetidos mecanicamente, ecoando até hoje nos forum´s de discussão política. Entretanto, a dicotomia Esquerda X Direita, no mundo atual, pode ser traduzida em termos mais precisos: Mais Estado X Menos Estado. Trocando em miúdos, não se trata mais da luta ricos X pobres, nem mesmo da luta trabalhador X patrão. Hoje em dia se alinha com a esquerda todo aquele, rico ou pobre, que está de alguma forma beneficiado pela máquina do Estado. E se alinha com a direita todo aquele, rico ou pobre, que sobrevive da iniciativa privada.

Assim explicado, não surpreende que um milionário empreiteiro beneficiado por seus contatos políticos se alinhe com um governo de esquerda, tal qual os milhões de beneficiários do bolsa-família, bem como não surpreende que o camelô da esquina amaldiçoe o governo sempre que vê o dólar subir. A luta atual travada no país é essa: os que dependem do estado X os que dependem se si próprios. Ilusoriamente, os rótulos continuam a ser vestidos tal como camisas do seu time de futebol preferido - ninguém se surpreende de que muitos defensores da esquerda nada tenham de pobre nem de trabalhador - mas o embate real é mais prosaico: o governo não quer cortar as suas despesas, prefere que o cidadão comum corte as despesas dele. O governo não quer botar os seus funcionários na rua, prefere que o dono da lojinha da esquina bote os dele na rua. E assim prossegue a queda-de-braço enquanto o pessoal se distrai repetindo divisas altissonantes do século passado.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A que horas ela volta?

Fui surpreendido outro dia pela apresentação em um canal de TV por assinatura do filme que causou grande polêmica ano passado, intitulado A que horas ela volta? Não encontrei tempo para assisti-lo no cinema e não esperava a liberação desse filme para a TV tão cedo, de modo que foi uma surpresa agradável. A considerável celeuma que o filme causou despertou-me a curiosidade, falava-se até de pessoas saindo no meio da sessão por sentirem-se ofendidas. No clima político carregado deste ano, é claro que a polêmica toda girou muito mais em torno da mensagem política do filme do que por suas qualidades artísticas.

A trama, como se sabe, conta a história de uma empregada doméstica que mora na casa dos patrões e submete-se à conhecida posição subalterna reservada aos serviçais domésticos, até que um dia recebe a visita da filha que vem tentar o vestibular em São Paulo. Com outra mentalidade, a jovem causa um rebuliço na casa dos patrões ao recusar a posição subalterna, exigindo ser tratada como hóspede, e acaba contagiando a mãe. No espírito da época atual, não há dificuldade alguma em ver aí uma alegoria do quadro social brasileiro na era petista: Val, a empregada, representa o proletariado tradicional, os patrões representam a elite tradicional, e Jéssica, a filha, representa o novo proletariado esclarecido e em processo de ascensão social via estudos universitários, supostamente um produto da era petista.

Direi logo de cara que achei o filme bom, mas nada de excepcional. Realmente não dava para chegar ao Oscar, como chegou a ser cogitado. Suas qualidades centravam-se excessivamente na ótima interpretação de Regina Casé como Val, pois o desempenho dos demais atores era bem sofrível, em parte porque seus personagens também eram um bocado ambíguos. Mas o que chamou mais minha atenção foi o contraste entre aquela alegoria toda que o público viu e aquilo que efetivamente vi na tela. O filme procurava retratar a opressão da elite contra os pobres, e o heroísmo da postura revolucionária da jovem? Não vi nada disso. A empregada Val era muito mais bem tratada do que a maioria dos empregados domésticos por aí, e o quartinho abafado no qual era obrigado a dormir revelou-se maior do que muitos quartos de filhos de família de classe média. E Jéssica, a filha, foi ainda mais bem tratada, começando pelo fato de que os donos da casa não tinham nenhuma obrigação de hospedá-la ali. Mas não apenas a recebem, como atendem a seu pedido de ficar instalada no quarto de hóspedes da casa, dali só saindo quando chega a visita de uma pessoa da família. Ela circula livremente pela casa, todos são atenciosos com ela e não, o garotão filho da família não tenta assediá-la. Em determinado momento a patroa chega a preparar um desjejum para ela, com toda a boa vontade. E mesmo a tão comentada cena em que ela supostamente quebra as regras da casa-grande ao entrar na piscina revelou não ter nada a ver com o que era comentado, começando que ela nem entrou na piscina por iniciativa própria. O garoto filho da casa está recebendo visitas e convida-a; ela recusa educadamente, afirmando não ter roupa de banho, mas agindo por brincadeira, os rapazes jogam-na à força na piscina com roupa e tudo. Se a cena traz alguma mensagem política, é de que a nossa elite não só quer compartilhar seus privilégios com os excluídos como ainda os forçam a tal...

É chegado o momento de refletir: a forma como são tratadas as empregadas domésticas nas casas de família é mesmo algo degradante?

Depende do ponto de vista. Garçons em restaurantes também são proibidos de sentar à mesa com os clientes. Empregados de clubes também são proibidos de cair na piscina junto com os sócios. E ninguém acha isso ofensivo. É evidente que a abundância de serviçais domésticos sinaliza um mercado de trabalho limitado, característico de países pobres, mas essa é a ocupação com que podem contar. Se hoje todas as empregadas domésticas forem demitidas, elas não se tornarão no dia seguinte secretárias, recepcionistas ou atendentes de telemarketing. No dia seguinte elas serão desempregadas. Os patrões são uns canalhas por lhe darem aquele emprego?

Tampouco concordo com a tese muito em voga de que a empregada doméstica é uma herança da escravidão. Ela é uma herança da falta de outras oportunidades no mercado de trabalho, isso sim. São abundantes em todos os países pobres, inclusive naqueles que tiveram um passado de escravidão muito mais restrito e longínquo que o nosso, como é o caso de vários de nossos vizinhos. O fenômeno é puramente econômico, e creio mesmo que seja um insulto para com as empregadas domésticas afirmar que seu trabalho é degradante e análogo à escravidão.

Os patrões, supostos representantes de nossa elite opressora, são bastante caricaturizados. Provocam riso, e não raiva. A trama evolui por uma série de esquetes inusitados e engraçados, causados pela presença de Jéssica ali, estranha no ninho, em contraste com a conformada Val. No fim das contas, o filme é bem leve e diverte, mas deixa algumas questões em aberto. Logo na chegada, Val tem dificuldade para reconhecer a filha, que no trajeto para a casa, fica surpresa ao descobrir que a mãe mora com os patrões. Então, naqueles anos todos, não foi trocada uma foto, nem tampouco Jéssica teve a curiosidade de saber onde a mãe morava? A impressão que fica é que Val praticamente abandonou a filha com parentes, e não houve quase comunicação entre as duas. De fato, Jéssica queixa-se da negligência da mãe em vários momentos, mas logo é a vez de Val ficar indignada quando descobre entre os cadernos da filha a foto de uma criança, e fica sabendo que se trata do filho de Jéssica, sobre o qual ela não informou a mãe. Ao par do drama social alegórico, é insinuado um drama pessoal bem pungente, mas o filme não se aprofunda aí. A bola é levantada, mas deixada cair.

Ao final, depois de escutar muitas reprimendas da filha por conta de sua postura submissa e humilhante, Val por fim se revolta e pede demissão. Terá a era petista emancipado o proletariado e livrado-o da exploração da elite malvada? Mas quando a patroa pergunta o porquê dela estar demitindo-se, Val responde que pretende passar mais tempo junto da filha, aparentemente arrependida por sua longa negligência. Então, qual foi a real motivação de Val? Drama social ou drama pessoal?

Gostei do filme. Mas se pretendia acirrar a luta de classes, fracassou.