quarta-feira, 30 de março de 2022

Não se fazem mais guerras como antigamente

O que não mudou, é que a guerra é sempre uma desgraça. Bem como o séquito de refugiados. Minto: antigamente ninguém ligava para refugiados, hoje eles ao menos se materializam em imagens. Mas as guerras de antigamente pareciam mesmo ter um roteiro: havia um vencedor e um perdedor, milhares de prisioneiros, um armistício e uma ocupação. Já as guerras da atualidade se parecem mais a desordens.

Desconheço as raízes do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e não vou comentá-las. Mas parece-me que esse conflito se insere no padrão da guerra "moderna" - a primeira que vi foi a guerra Irã X Iraque nos anos 80, que durou não sei quantos anos e terminou sem vencedores e sem alteração no balanço geopolítico do Oriente Médio. A guerra moderna, ou é essa empatação que apenas consome vidas e recursos, ou se assemelha a uma operação policial levada a cabo por potências que se arrogam uma função policialesca dos conflitos globais, como foi a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. Haverá um equilíbrio de forças, ou um receio de se lançar mão da força total? Já dizia o general Sherman, da época da guerra civil norte-americana:

"Guerra é crueldade. Quanto mais cruel, mais cedo termina"

No passado as guerras ocasionavam por vezes tenebrosos massacres, mas tinham um papel no desenrolar da História, não eram simples desordem à espera de um policial para restaurar a ordem. Algumas até davam lucro ao vencedor, como foram as guerras movidas pelas potências imperialistas do século 19, notadamente as promovidas pelos EUA. Mas a Primeira Guerra Mundial veio pela primeira vez sinalizar que a guerra moderna havia se tornado tão custosa que significava prejuízo até para o vencedor - de fato, todos sofreram com a crise econômica que veio no rescaldo da guerra e prolongou-se até a Segunda Guerra Mundial, que foi ainda mais custosa, mas o pós-guerra veio quebrar o paradigma: não era mais o derrotado o encarregado de pagar toda a conta, mas os vencedores deviam se encarregar de ajudar na recuperação de todos a fim de criar um equilíbrio onde não houvesse mas ressentimentos que conduzissem a um novo conflito - e funcionou: a guerra seguinte, denominada a Guerra Fria, foi a guerra que não aconteceu, a despeito das previsões apocalípticas dos que viam como inexorável uma Terceira Guerra Mundial.

Havia também os chamados Conflitos de Baixa Intensidade, uma espécie de guerra "a prestação", que permanecia latente às vezes por décadas a fio, com longos intervalos intercalando uns tantos choques violentos. O conflito árabe-israelense, segundo alguns analistas, se enquadra nesta definição. A guerra da independência da América Latina durou 27 anos no início do século 19, mas não houve combates ininterruptos durante todo esse período, e sim avanços e recuos compondo uma longa história. De modo geral, na época, as guerras só afetavam intensamente as regiões onde se encontravam o teatro de operações. Isso mudou com o advento da guerra moderna industrial já na segunda metade do século, a nova guerra que não envolvia somente os exércitos, mas o comprometimento de toda a economia do país e o trabalho da população civil na retaguarda. Os primeiros exemplos de guerra moderna industrial foram a guerra civil norte-americana e a guerra franco-prussiana. A principal característica era o custo muito maior em dinheiro e vítimas.

Pouca gente sabe, mas a Guerra do Paraguai, ocorrida nesta mesma época, pode também ser enquadrada como exemplo pioneiro de guerra moderna industrial - bem distinta dos outros conflitos do continente, esta guerra destacou-se por sua longa duração, o enorme número de baixas (mesmo o Brasil perdeu 30% de seus efetivos, um percentual muito grande para um vencedor) e seu exorbitante custo. Evidente que o Brasil, exportador de produtos primários, não tinha condição de arcar com uma guerra industrial moderna, onde tinha que importar das potências industriais quase todo o seu material bélico, de modo que o conflito foi o início da derrocada do Segundo Império - uma vitória pírrica, de certo modo antecipando a mensagem que só ficaria clara meio século mais tarde, de que a guerra podia custar tão caro que não compensava nem para o vencedor.

No século 20, ao mesmo tempo em que desaparecia o conflito entre grandes potências, ganhava destaque a guerra de guerrilhas, grande moda da época, algumas se prolongando até os dias atuais, obviamente obedecendo ao paradigma dos Conflitos de Baixa Intensidade, mas que também já saiu de moda após o fim da Guerra Fria. O que sobrou foi essa guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que ocupa os noticiários até cansar, vira meme e dá suspeita de ser uma grande palhaçada. Já não se fazem mais guerras como antigamente, só não sei se isso é bom ou ruim.

domingo, 13 de março de 2022

Mamãe Falei Besteira

Da guerra entre Rússia e Ucrânia, pouco tenho a dizer, por não ter conhecimento do contexto específico a este conflito. Fico então com o assunto do momento: a desastrada fala do deputado conhecido por Mamãe Falei a respeito das mulheres ucranianas, que considerou lindas e fáceis "porque são pobres".

Nunca tinha ouvido falar deste deputado, mas a julgar pelo seu apelido, deve ser daqueles que buscam notoriedade com falas bombásticas ou engraçadinhas. Esta última de sua lavra com certeza vai deixá-lo queimado por um longo tempo, talvez para sempre. Mas antes de juntar-me ao coro condenatório, é preciso lembrar que ao menos uma coisa pode ser dita em sua defesa: ele não tinha intenção de tornar pública aquela fala. Nem imagino quem foi, ou quais as intenções de quem vazou o vídeo, o caso é que vazou, e já que está aí, temos uma rara oportunidade de saber o que pensam e falam nossos políticos em sua privacidade. E não surpreendentemente, eles mostram a mesma grosseria de milhões de brasileiros comuns que nunca se candidataram a nada.

Quanto a mim, não consigo imaginar como se consegue ver beleza e sensualidade em uma fila de refugiados. É sabido mundialmente que as mulheres do leste europeu são muito bonitas, mas se elas são mesmo tão pobres quanto dizem, fico na dúvida. Também é sabido mundialmente que as mulheres brasileiras são muito bonitas, mas quanto a essas não tenho dúvidas, já que meu país eu conheço: existem algumas de fato muito bonitas, que se tornam modelos de sucesso internacional, mas também uma enorme massa de mulheres feias. A média é muito fraca, e penso que não há dificuldade em atribuir à pobreza esta média fraca: beleza tem seu preço.

Muitos observadores estrangeiros, contudo, têm as mesmas ideias de Mamãe Falei quanto às mulheres brasileiras. Lembro de um entrevistado que abordava o grande número de modelos brasileiros de sucesso, e (por incrível que pareça) querendo parecer gentil e inteligente, expôs sua dedução: muitas mulheres brasileiras se tornam modelos porque "são bonitas e sentem fome". Foram essas suas palavras. Fiquei pensando se havia alguma lógica aí. Que um estrangeiro que pouco conhece do Brasil tenha essa fantasia, isso se entende, mas quem tem um mínimo de vivência deve saber que tornar-se modelo custa dinheiro: é preciso pagar cursos, ensaios fotográficos, além de uma vida saudável com boa alimentação ser requisito óbvio para quem quer ficar bonita. Das modelos brasileiras de sucesso, muito poucas tiveram origem pobre, a maioria teve na juventude condições ao menos razoáveis. É necessário muito esforço para imaginar Gisele Bündchen passando fome quando criança.

Deixando de lado o politicamente correto, é preciso reconhecer: mulher pobre em geral é feia. O que não impede que muitos turistas sexuais sejam vistos pelas praias do país ao lado de tipos que passam longe do catálogo de modelos, em geral negras ou mulatas, o que parece ser uma preferência da parte deles, espécie de fetiche de "sinhôzinho" ou eco dos contos dos marinheiros de cinco séculos atrás sobre as praias povoadas de índias nuas de pele escura sem noção de pecado. Agora, se no leste europeu as mulheres pobres são bonitas, não sei, nunca estive lá. O que posso concluir é que existe um traço comum no imaginário masculino internacional, a lenda de um lugar onde mulheres lindíssimas estão disponíveis a quem lhes pagar um prato de comida.

Uma vez perguntaram a um pesquisador de crimes horríveis o que ele buscava naqueles casos escabrosos que colecionava, e ele respondeu: conhecer a alma humana. O lixo do pensamento, bem ou mal, também é uma maneira de conhecer a alma humana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Morte de Olavo e a Nova Direita

 A direita no Brasil renasceu com Olavo de Carvalho. Mas será que remorreu com a morte deste?

É fato que até poucas décadas atrás a direita brasileira parecia tão extinta quanto os antigos dinossauros. A direita política foi suprimida após a tomada de poder pelos militares em 1964, que não queriam nenhum partido político proeminente e tampouco qualquer resquício de poder civil, fosse de esquerda ou de direita. Já no terreno das ideias, durante a após a ditadura, ser direita era simplesmente ser politicamente incorreto, embora a expressão ainda não existisse. Ser de direita significava ser a favor da ditadura, da tortura, da desigualdade social, do massacre dos índios, etc. etc. Nesse deserto de ideias assentaram-se camadas de lugares-comuns repetidos pelos pretensos esquerdistas, que sedimentaram-se no senso comum.

Daí que a inesperada aparição de Olavo de Carvalho, desmontando peça por peça aquelas toscas construções ideológicas, tenha sido recebida como uma libertação para milhares de conservadores, que se viram novamente livres para expressar suas ideias sem as barreiras na novilíngua esquerdista. Houve mesmo uma euforia, e falou-se do surgimento de uma Nova Direita no país, finalmente apta a disputar o poder e romper com a hegemonia do ideário esquerdista.

E como se sabe, a direita chegou ao poder nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, o próprio Olavo de Carvalho nunca estabeleceu-se como líder político, tendo preferido cercar-se de um séquito de discípulos fiéis, porém figuras apagadas fora dos círculos intelectuais. Foi proclamado como o guru da Nova Direita e grande inspirador de Jair Bolsonaro, mas o real alcance de sua influência sobre o presidente nunca ficou claro. Ele próprio não disfarçou estar um tanto desapontado com seus supostos seguidores e com o próprio Bolsonaro, e há quem diga que ele foi traído pelo presidente. A impressão que fica é que a direita que chegou ao poder não foi bem a sonhada por Olavo e seus discípulos. Mesmo porque o ideário dessa Nova Direita sempre me pareceu de pouca utilidade para o mundo político, misturando preceitos religiosos e filosóficos um tanto bizarros. Confusa como seu mentor, que nunca teve uma formação acadêmica regular. Polemista brilhante, mas difícil de conceituar, Olavo de Carvalho obteve sua formação intelectual catando preceitos de fontes avulsas, desde altos estudos clássicos até esoterismos e superstições - por muitos anos definiu-se como astrólogo. Nunca conseguiu montar um conjunto coerente de ideias, e parece não ter sido esse o seu objetivo. Amargo, pouco empático e sem disposição para o diálogo, abusando de linguagem chula contra quem ousasse contestá-lo, tornou-se aquilo que acusava a esquerda de ser: um sectário.

Olavo de Carvalho está ligado a um momento específico da História brasileira, aquele do esgotamento e da desilusão com a hegemonia das ideias da esquerda. Não foi feito para durar. Sua morte coincide com o esgotamento da direita no país.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Presidente bom é presidente chato

Estou com saudades de Michel Temer. Não, não é piada. Se ele foi um dos mais apagados e esquecíveis personagens que já sentaram na cadeira presidencial, e inclusive a legitimidade de seu mandato foi colocada em dúvida pelos que não aceitavam o impedimento de Dilma Rousseff, por outro lado é preciso recordar que naqueles anos a situação financeira do país foi melhorando gradual e continuamente, a ponto de Jair Bolsonaro pegar o país já com uma modesta recuperação econômica. Pouco depois, como se sabe, o dólar disparou e o crescimento travou.
 
Alguém comentou que Temer deveria ter aproveitado o fato de ser um presidente impopular para tomar medidas impopulares, o que ele fez até certo ponto, mas na minha opinião deveria ter feito mais. O problema é que o antigo paternalismo vigente por aqui nas relações entre governantes e governados faz com que as pessoas acreditem que os sucessos e os fracassos de um presidente dependem de sua boa ou má vontade. Lula pegou uma conjuntura econômica favorável e vendeu a ideia de que os bons resultados eram obra de sua gestão, mas dificilmente poderá repetir a mágica se eleito agora. Como Dilma igualmente não pôde. Vendo o saco de bondades do PT esvaziado, o povo voltou suas esperanças para "o mito", sempre a procura de um salvador da pátria.
 
Michel Temer me lembra Itamar Franco, outro presidente sem carisma que assumiu após o impedimento do titular cheio de carisma. Sua melhor ideia foi reativar a produção do fusca. Mas foi também no seu período que se iniciou o primeiro planejamento econômico sério desde muitas décadas após a pior crise econômica do país. Fernando Henrique começou a gestar o Plano Real ainda como ministro de Itamar, depois tornou-se o presidente, e sua figura está indelevelmente ligada ao plano que pôs fim à hiperinflação que arruinava o país, ao passo que Itamar é mais lembrado por haver tirado aquela foto junto à modelo sem calcinha. Não sei quando a importância de Itamar será devidamente reconhecida, mas parece-me que assim como de tanto em tanto surgem umas figuras exóticas que ocupam a presidência com estardalhaço para desaparecer em seguida, também de tanto em tanto surgem umas figuras apagadas para colocar a casa em ordem.
 
Lembro-me daquele ditado dos frequentadores de estádios: o bom juiz de futebol é aquele que após o jogo você não sabe o nome. Porque se você sabe o nome, alguma coisa errada ele fez. Do mesmo odo, os presidentes mais falados são aqueles que mais desastres causaram ao país. Eu não sei o nome do síndico do prédio onde moro. Mas infelizmente sempre sei o nome do presidente do país.
 
Michel Temer para presidente!

domingo, 28 de novembro de 2021

Que Vença o Menos Odiado

Tendo sido o país incapaz de estabelecer um regime bipartidarista onde duas correntes de orientação bem conhecida se alternassem no poder sem traumas nem percalços, a exemplo das nações desenvolvidas politicamente estáveis como os EUA e a Inglaterra, a próxima eleição será disputada por candidatos personalistas, raivosos e com propostas radicalmente distintas. Nenhum deles possui maioria simples do eleitorado, mas em comum todos têm um altíssimo índice de rejeição - de onde se deduz que o próximo presidente não será escolhido entre os mais amados, mas entre os menos odiados, e seja quem for, governará tendo à frente uma oposição feroz.

Destes, o novo personagem é o ex-juiz Sérgio Moro. Não vou entrar aqui em tecnicidades quanto a sua atuação como juiz na prisão de Lula, mesmo porque não tenho conhecimento do assunto, mas me parece evidente que Moro estaria bem melhor se continuasse juiz. Sua atuação como ministro foi pífia, e sua saída do cargo foi inglória. Com certeza Sérgio Moro não conseguiu até agora ser um político competente, o que não causa estranheza, pois a atividade do político é o oposto da função do juiz. Na política, só se obtém resultado mediante negociação, e a institucionalidade é uma massa fresca sendo moldada. Já o juiz não negocia, impõe a sentença de forma unilateral, consoante uma institucionalidade rígida e imutável. Deduzo que se Moro for presidente e insistir em conduzir-se como juiz, ou ele será um ditador, o que é improvável, ou sua atuação será tão inócua quanto foi como ministro do governo atual.

De Bolsonaro e Lula, não há muito a dizer que já não tenha sido dito. A esperança que tenho é que, na impossibilidade de termos candidatos moderados, os personagens atuais acabem se moderando por puro desgaste. Bolsonaro já está bastante desgastado, não conseguiu impor-se para além de bravatas, e se ganhar um novo mandato, só obterá êxito se rever muitas de suas posturas atuais. Lula saiu da prisão com aura de vingador, mas todos sabem que já é um personagem gasto. Ainda é capaz de bravatas, como quando justificou que o líder nicaraguense Daniel Ortega possa permanecer indefinidamente no poder. Mas ele próprio por certo não ficará indefinidamente no poder, ainda mais considerando-se sua idade, e um novo governo Lula está mais para uma pálida cópia de seu notável mandato da primeira década, quando contou com uma conjuntura política e econômica muito mais favorável.

Assim, acredito que um Lula renascido em 2022 será uma versão desidratada do Lula que conhecemos. Ele poderá até permitir-se mais alguns arroubos, como dar apoio ostensivo aos velhos aliados da Venezuela e Cuba, mas ao fazê-lo estará apenas manifestando o caráter do "brasileiro cordial", por ele tão bem incorporado, para quem o que importa são os "companheiros", não importa quão questionáveis eles sejam (lembram-se de Cesare Battisti?) Mas não terá força para fazer mais do que isso, e o provável é que se valha de sua habilidade política para levar o mandato até o fim e preservar seu histórico. O Lula atual já pertence mais ao passado do que ao presente. Desperta paixões, muitos o endeusam e outros o abominam. Quanto a mim, creio que ainda se passará um tempo antes que sua figura seja vista com mais imparcialidade, e sua importância histórica seja reconhecida na dimensão correta: diferente de Bolsonaro, que se inclui mais no rol das singularidades destinadas ao esquecimento, Lula merece ser lembrado no futuro porque soube incorporar como nenhum outro de seus contemporâneos as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração.

domingo, 31 de outubro de 2021

Extrema Direita X Extrema Esquerda

Pelo senso comum, a próxima eleição presidencial no país será disputada entre a extrema direita e a extrema esquerda, mais exatamente entre Bolsonaro e Lula, com todas as consequências que a polarização politica pode surtir. Mas direita e esquerda são termos gastos de tanto uso. Convém averiguar o quanto ainda se aplicam ao quadro político que se desenha com as próximas eleições.

Jair Bolsonaro com certeza é direita. Fica a gosto do freguês afirmar se ele é extrema direita ou apenas direita. Entretanto, ele não saiu de um partido formalmente direitista, nem é versado em ideologias. Seu direitismo reduz-se à admiração pelo regime militar de 1964, do qual não participou em razão da pouca idade. O eleitorado de direita aglutinou-se em torno dele simplesmente porque não havia mais ninguém que se assumisse direitista no país, desde a morte de Enéas Carneiro. E a ironia é que quem matou a direita no Brasil, foi justamente o regime militar que Bolsonaro admira.

Historicamente, a direita nacional era representada pela UDN, onde pontificavam líderes como Carlos Lacerda. Mas ao tomar o poder em 1964, a segunda coisa que os militares fizeram, depois de liquidar a esquerda comunista e trabalhista, foi liquidar a UDN, justamente para evitar que esse partido chegasse ao poder. Os principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados, e os demais atirados à vala comum da ARENA, partido sem ideologia e sem força. Evidente que eliminar a direita não era o objetivo declarado do grupo que tomou o poder - eles queriam eliminar alternativas civis à presidência, independente da cor ideológica. Seu projeto era um Estado com plenos poderes, garantido pelos militares e gerido pelos tecnocratas, superministros cuja influência ia muito além do escopo de suas pastas, dos quais os mais notáveis representantes foram Delfim Neto e Mário Simonsen. Nada tão original, também era assim o getulismo da época do Estado Novo, por sua vez gestado no positivismo do século 19, que propugnava uma "ditadura republicana, racional e científica" conduzida por critérios puramente técnicos em lugar dos interesses regionais, corporativos ou meramente pessoais dos políticos profissionais.

Mas os políticos não foram banidos de todo. Diferente das ditaduras pré-segunda guerra, a polarização ideológica da guerra fria proclamava-se uma luta do "mundo livre" contra o totalitarismo comunista. Então o regime inaugurado em 1964 tinha que exibir uma fachada democrática, com corpos legislativos supostamente atuantes e ao menos um partido de oposição admitido. Para criar esse simulacro, toda a legislação eleitoral foi alterada para privilegiar rincões políticos do interior em detrimento dos grandes centros. As consequências dessa repaginação de nossa classe política se manifestaram muito além do fim do regime militar. Por este motivo a direita brasileira não se recompôs após a supressão de suas lideranças em 1964 - nunca mais surgiram líderes intelectualmente valorosos e administradores competentes como Carlos Lacerda, o que surgiu em seu lugar foram políticos provincianos e medíocres. Estou convicto de que em 1964, José Sarney não imaginava que um dia seria o presidente.

Então, no deserto da direita nacional, quem apareceu foi a singularidade de Jair Bolsonaro. Ele nunca foi um líder direitista capaz para além de um pequeno carisma. Sofre tanto da falta de disposição para o jogo político quanto da falta de poder efetivo para implantar a ditadura que almeja, e nem lá nem cá, vai produzindo sucessivos impasses, às vezes apenas por conta de uma teimosia pueril. O tempo passa, a economia trava e as promessas vão ficando no vazio.

Concorrendo com ele, há o Lula renascido da prisão. Cabe agora definir se é de extrema esquerda ou apenas esquerda. Na minha opinião, não é nem de esquerda, e ele concorda. Não o vejo sequer como petista. Lula é, simplesmente... lulista. Seu marketing pessoal sobreviveu a todas as intempéries, e desde suas origens no ABC tem demonstrado uma incrível capacidade de se reinventar. Mesmo que perdesse muitas eleições, sempre esteve em evidência. Com o PT desmoralizado por escândalos, emergiu como líder inquestionável. Não acredito que o PT teria grandes chances na próxima eleição se seu candidato não se chamasse Lula.

Direita ou esquerda, a próxima eleição será disputada entre dois candidatos que se valem de seu carisma. Ainda continuamos carentes de partidos fortes com propostas claras.

domingo, 17 de outubro de 2021

Em Tempos de Polarização

 Recebi recentemente uma correspondência que tem bem a ver com esses tempos de efervescência social e polarização político-ideológica. Refere-se a uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar publicada nas páginas amarelas da revista Veja.

Veja:

O senhor já disse que "se bacharelou em subversão" em Moscou e escreveu um poema em que a moça era "quase tão bonita quanto a revolução cubana". Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Ferreira Gullar:

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. 

Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. 

Veja:

Por que o capitalismo venceu?

Ferreira Gullar:

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. 

O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. 

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora.

É bobagem. Sem a empresa não existe riqueza. 

Um depende do outro. 

O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só o explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo seja inerentemente bom. 

O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções. 

O capitalismo é forte porque é instintivo. 

O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. 

O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhares de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. 

É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. 

Não tem cabimento.

Sabemos que o comunismo seduziu mais de uma geração de intelectuais brasileiros, mesmo quando já era uma ideia abandonada em seu local de nascimento, e serve ainda hoje para atiçar o debate político, bem como de espantalho para se acusar os adversários. É oportuno procurar explicar a evolução peculiar dessa ideologia em nosso ambiente. Ferreira Gullar é um personagem bem adequado para essa discussão, pois ele viveu intensamente um período de nossa História, aderiu com fervor à utopia comunista na época em que ela cortejava nossos intelectuais, bem como soube admitir honestamente e compreender os motivos do fracasso daquela utopia.

A idade dourada da utopia comunista no Brasil e em outros países de quadro histórico e social similar foi o produto de um hiato em nosso desenvolvimento comparado com a Europa da revolução industrial. Ali o comunismo nasceu do momento histórico específico: boa parte da força de trabalho alocada no ambiente fabril, onde eram sobre-explorados mas exerciam as mesmas funções, trabalhavam nas mesmas fábricas e residiam nos mesmos bairros operários, então podiam reunir-se, organizar-se em torno de reivindicações comuns e parecia fazer sentido uma tomada do poder pelos trabalhadores - afinal, o mundo tal como eles o viam parecia resumir-se a patrões e trabalhadores, os primeiros em posição de poder e os segundos subjugados, bastando portanto inverter esse jogo para escapar à exploração.

Mas por aqui a industrialização foi lenta, e a utopia comunista entrou trazida em sua maioria por intelectuais, e não por trabalhadores. Quando se estabeleceu, o quadro industrial sombrio da época da revolução industrial já havia desaparecido do mundo desenvolvido, sem nunca haver aparecido de todo aqui. Daí que a utopia, entre nós, tenha vicejado justamente no momento em que fenecia em seu nascedouro, na época da Guerra Fria, quando o comunismo era visto como ditadura e opressão no mundo desenvolvido. Mas aqui, onde o capitalismo não havia trazido a mesma pujança, parecia uma alternativa viável, que qualquer um podia idealizar como quisesse. Foi assim que o comunismo tornou-se "o ópio dos intelectuais", contraposto ao "ópio do povo", como Marx descrevia as religiões.

Marx viu o mundo de seu tempo, marcado pela polarização Trabalhador X Empresário, e criou a sua teoria extrapolando aquele quadro social para o passado, até o início dos tempos (toda a História nada mais seria do que Luta de Classes) e também para o futuro, até o fim dos tempos (a tomada do poder pelos trabalhadores pondo fim à Luta de Classes e ao próprio Estado). Mas aquele quadro social que Marx via era peculiar ao presente do século 19 europeu, e não à História como um todo. Por isso suas predições não se cumpriram. Ferreira Gullar apontou corretamente a falha maior da teoria marxista, a crença de que o empresário seria um parasita que se apropria do trabalho alheio (a mais valia). Assim, pensava Marx, a eliminação desse parasita significaria abundância, pois o trabalhador passaria a usufruir da totalidade do resultado de seu trabalho.

Não foi o que aconteceu. O nível de vida dos trabalhadores encolheu ao invés de aumentar nos países comunistas. Isso porque o operário é apenas um componente solto da máquina, que sozinho de nada vale, e cabe ao empresário montar a máquina, alocando os operários e dando-lhes uma função. Portanto, o empresário não é uma excrescência, mas exerce uma função essencial de comando e gerência - ele pode até ser eliminado, mas a função que ele exerce não pode ser eliminada, outro alguém terá que exercê-la. Nos países comunistas esta função foi exercida pelos comissários do partido, que tinham uma vida privilegiada tal como os antigos patrões, solapando a utopia de um governo de trabalhadores onde todos teriam igual participação. Como o acesso ao alto comissariado do partido era muito mais restrito do que o acesso à antiga classe empresarial (pois requer apadrinhamento e contatos políticos, enquanto há abundantes relatos de pessoas comuns que se tornaram grandes industriais sob o regime capitalista) redunda que a gestão desses comissários é muito menos eficiente do que a gestão do empresário. Há muito menos estímulo ao trabalho, e portanto muito menos produtividade.

O capitalismo não é justo, mas é compatível com a natureza, que tampouco é justa. O capitalismo não é uma ideologia, mas um método, e foi gestado no dia-a-dia de pessoas comuns, e não nas mesas de filósofos ou militantes. Como pode um sistema cujo objetivo não é a justiça, produzir abundância? Como é que poucos donos dos modos de produção vão querer produzir para muitos? O segredo está no Livre Mercado. Os trabalhadores são a grande maioria dos consumidores, e produzir muitos itens baratos para os pobres sempre rendeu mais do que produzir poucos itens caros para os ricos. Afinal, é a Volkswagen a dona da Rolls-Royce, e não a Rolls-Royce a dona da Volkswagen, e é a Fiat a dona da Ferrari, e não a Ferrari a dona da Fiat. Desde os primórdios da revolução industrial, a maioria dos produtos das fábricas destinava-se ao consumo dos trabalhadores, e não dos ricos - assim, ao mesmo tempo em que eles eram sobre-explorados por seus patrões, o custo de vida baixava para eles. Não é verdade que a pobreza do século 19 fosse pior que a pobreza do século 18 pré-industrial, ela apenas tornou-se mais visível, posto que era uma pobreza urbana, podendo sensibilizar intelectuais como Marx e escritores como Dickens.

Por aqui, nossos modelos de industrialização no passado não deram os resultados esperados porque foi uma industrialização orientada pelo Estado, e não pelo Mercado - importações proibidas e empresas nacionais produzindo para empresas estatais, sem concorrência, formando assim o conhecido conluio entre políticos e empreiteiras. Enfim, para nossos empresários, a fórmula do sucesso não era a boa qualidade nem o bom preço, mas sim o bom relacionamento com os círculos do poder. Diferente do que aconteceu nos novos países industrializados da Ásia, como a Coréia do Sul, que desde o início direcionaram sua produção para a exportação. Por este motivo não se pode alegar que "se o comunismo não deu certo, tampouco o capitalismo deu certo no Brasil". O capitalismo nunca foi tentado em sua plenitude por aqui.

Resta saber se agora vamos superar essa polarização anacrônica em nosso debate político.