quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Paralelos entre o momento atual e 1954

Um dos objetos mais frequentes de meus comentários aqui tem sido os paralelos entre momentos históricos do passado e do presente, tentando desvendar os mecanismos deste misterioso sincronismo que faz com que os eventos do passado se repitam, ou pareçam se repetir no presente. Uma comparação que tem sido cada vez mais repetida nos forum´s e redes sociais correlata a crise do governo Dilma com a crise que levou Vargas ao suicídio em 1954. Assistindo ao declínio do atual governo petista, nota-se que a queda de Vargas em 1954 foi precedida de um roteiro semelhante, com muitas acusações de corrupção, CPI´s, campanhas na imprensa, etc. Hoje é perfeitamente sabido que por detrás daquilo tudo havia um projeto de conquista do poder por um grupo direitista centrado na UDN e na ESG (Escola Superior de Guerra) dentro do contexto da guerra fria e da subversão comunista.

Estaria acontecendo a mesma coisa nos dias de hoje? Desnecessário dizer que a grande maioria dos petistas jura que sim. Mas é preciso examinar os fatos um a um. Semelhanças, há: um governo dito de esquerda e nacionalista, pessoas se beneficiando de sua proximidade com o poder, maioria da imprensa contrária, políticos querendo derrubar o governo via impeachment. Mas as diferenças também são flagrantes:

- Mais importante de todas: as investigações contra os petistas estão acontecendo dentro de órgãos que foram predominantemente montados, senão aparelhados pelo próprio PT - o MPF, o STF e a Polícia Federal. Os mensaleiros foram condenados por um plenário onde a grande maioria dos ministros havia sido nomeada pelo PT.  A atual Polícia Federal também teve seus quadros montados em grande parte na era petista. As leis que facilitam a investigação da corrupção, inclusive a delação premiada, foram aprovadas com o apoio do PT. Pode-se no máximo acusar, sem provas, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro de terem simpatias pelo PSDB.

- Não mais existe a polarização Esquerda X Direita nos moldes que havia durante a guerra fria. Conceitos como "perigo comunista" e "conspiração da CIA" atualmente só existem para quem esqueceu a cabeça nos anos sessenta. O principal opositor do PT não é um partido de direita como a antiga UDN, mas o PSDB, um partido de centro-esquerda.

- Não existe um antagonista do calibre de um Carlos Lacerda, capaz de galvanizar a oposição apenas com seu carisma pessoal. Os políticos que querem derrubar Dilma com o impeachment são notoriamente medíocres, movidos por ambições pessoais, e não por razões ideológicas. Nenhum observador sério acredita que se Dilma sair, o país vai cair em uma ditadura de direita.

- A dita "Republica do Paraná" não é igual à antiga Republica do Galeão. Em 1954, a aeronáutica já era hostil a Vargas desde antes do atentado a Lacerda. A Polícia Federal e a Justiça Federal são crias do PT.

- A imprensa, hoje, não tem o mesmo poder que tinha 60 anos atrás, pois atualmente há muitas outras mídias na internet que podem servir como formadoras de opinião.

- E por fim, falta o lance trágico: a tentativa de assassinato de Lacerda e o suicídio de Vargas.

A conclusão a que chego é que há mais imaginação do que paralelo histórico. Se há um paralelo efetivo entre os dois momentos, é quanto ao surto de corrupção inerente ao modelo nacional-estatista moldado por Vargas e adotado pelo PT, que invariavelmente cria um séquito de empresários amigos-do-rei em torno do Estado. A diferença é que, na época atual, há meios mais efetivos de investigar e levar aos tribunais os corruptos. A verdade pode ser dita sem grandes volteios: o PT agiu como o macaco que prendeu a mão na cumbuca, e acabou caindo na arapuca que ele mesmo montou ao fortalecer a Polícia Federal e aprovar leis anticorrupção, tudo isso para em seguida mergulhar em práticas corruptas como se não houvesse amanhã. Mas como, afinal, os petistas, que já deram provas de muito melhor organização e visionarismo no passado, foram agir de maneira tão inábil?

Aí só posso especular. Talvez acreditassem que a prosperidade da primeira década fosse eterna, e então o eleitor poderia continuar relevando a corrupção como sempre fez durante os períodos bons da economia. Ou talvez, como afirma o dístico popular, quem nunca comeu manga, quando come se lambuza.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Os rótulos duram mais que os conceitos

Sempre que entro em um desses forum´s de discussão política sou possuído por uma sensação de haver voltado no tempo, até pelo menos os anos sessenta. Impressiona-me a repetição de chavões e esquematismos que faziam sucesso por aquela época, mas que qualquer um com um mínimo de percepção histórica reconhecerá como anacrônicos nos dias de hoje. Tudo é culpa das elites, do imperialismo ianque, da colonização, da mídia burguesa, dos religiosos e por aí afora. Mas se as palavras ainda são as mesmas, a forma como elas são articuladas não é mais a mesma. Acredito que um militante lá dos anos sessenta, trazido por uma máquina do tempo à época atual, ficaria surpreso de ver os atuais militantes de esquerda defendendo empresários e banqueiros corruptos, idolatrando marginais comuns e jurando que somos tão racistas quanto os norte-americanos. Sem contar que naquele tempo se considerava homossexualismo um sinal de decadência burguesa e ambientalismo coisa de porra-louca.

Claramente, os rótulos duram mais que os conceitos que pretendem representar. Em algum instante inicial, os rótulos foram cunhados a partir dos conceitos, mas com o passar do tempo um e outro foram se distanciando. Os rótulos são papagueados, e ninguém mais cuida de verificar se, como diz a canção, as ideias correspondem aos fatos. Um exemplo gritante é o adjetivo "neoliberal", um dos mais em moda atualmente. O neoliberalismo é conceito dos anos 80, da Inglaterra de Thatcher e dos EUA de Reagan, e o termo atualmente se encontra em desuso, exceto na América Latina, onde o neoliberalismo nunca existiu mas tornou-se sinônimo de tudo o que há de ruim no mundo.

Os próprios conceitos basilares de esquerda e direita já não são mais os mesmos. Em seu contexto original, denotavam a luta de classes: esquerda era os trabalhadores, direita os patrões; esquerda era os pobres, direita era os ricos. Ninguém punha isso em dúvida. Após a queda do muro de Berlim, o antagonismo esquerda X direita deixou de ser irreconciliável, e os conceitos se tornaram mais frouxos, embora seus respectivos rótulos continuassem a ser repetidos mecanicamente, ecoando até hoje nos forum´s de discussão política. Entretanto, a dicotomia Esquerda X Direita, no mundo atual, pode ser traduzida em termos mais precisos: Mais Estado X Menos Estado. Trocando em miúdos, não se trata mais da luta ricos X pobres, nem mesmo da luta trabalhador X patrão. Hoje em dia se alinha com a esquerda todo aquele, rico ou pobre, que está de alguma forma beneficiado pela máquina do Estado. E se alinha com a direita todo aquele, rico ou pobre, que sobrevive da iniciativa privada.

Assim explicado, não surpreende que um milionário empreiteiro beneficiado por seus contatos políticos se alinhe com um governo de esquerda, tal qual os milhões de beneficiários do bolsa-família, bem como não surpreende que o camelô da esquina amaldiçoe o governo sempre que vê o dólar subir. A luta atual travada no país é essa: os que dependem do estado X os que dependem se si próprios. Ilusoriamente, os rótulos continuam a ser vestidos tal como camisas do seu time de futebol preferido - ninguém se surpreende de que muitos defensores da esquerda nada tenham de pobre nem de trabalhador - mas o embate real é mais prosaico: o governo não quer cortar as suas despesas, prefere que o cidadão comum corte as despesas dele. O governo não quer botar os seus funcionários na rua, prefere que o dono da lojinha da esquina bote os dele na rua. E assim prossegue a queda-de-braço enquanto o pessoal se distrai repetindo divisas altissonantes do século passado.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A que horas ela volta?

Fui surpreendido outro dia pela apresentação em um canal de TV por assinatura do filme que causou grande polêmica ano passado, intitulado A que horas ela volta? Não encontrei tempo para assisti-lo no cinema e não esperava a liberação desse filme para a TV tão cedo, de modo que foi uma surpresa agradável. A considerável celeuma que o filme causou despertou-me a curiosidade, falava-se até de pessoas saindo no meio da sessão por sentirem-se ofendidas. No clima político carregado deste ano, é claro que a polêmica toda girou muito mais em torno da mensagem política do filme do que por suas qualidades artísticas.

A trama, como se sabe, conta a história de uma empregada doméstica que mora na casa dos patrões e submete-se à conhecida posição subalterna reservada aos serviçais domésticos, até que um dia recebe a visita da filha que vem tentar o vestibular em São Paulo. Com outra mentalidade, a jovem causa um rebuliço na casa dos patrões ao recusar a posição subalterna, exigindo ser tratada como hóspede, e acaba contagiando a mãe. No espírito da época atual, não há dificuldade alguma em ver aí uma alegoria do quadro social brasileiro na era petista: Val, a empregada, representa o proletariado tradicional, os patrões representam a elite tradicional, e Jéssica, a filha, representa o novo proletariado esclarecido e em processo de ascensão social via estudos universitários, supostamente um produto da era petista.

Direi logo de cara que achei o filme bom, mas nada de excepcional. Realmente não dava para chegar ao Oscar, como chegou a ser cogitado. Suas qualidades centravam-se excessivamente na ótima interpretação de Regina Casé como Val, pois o desempenho dos demais atores era bem sofrível, em parte porque seus personagens também eram um bocado ambíguos. Mas o que chamou mais minha atenção foi o contraste entre aquela alegoria toda que o público viu e aquilo que efetivamente vi na tela. O filme procurava retratar a opressão da elite contra os pobres, e o heroísmo da postura revolucionária da jovem? Não vi nada disso. A empregada Val era muito mais bem tratada do que a maioria dos empregados domésticos por aí, e o quartinho abafado no qual era obrigado a dormir revelou-se maior do que muitos quartos de filhos de família de classe média. E Jéssica, a filha, foi ainda mais bem tratada, começando pelo fato de que os donos da casa não tinham nenhuma obrigação de hospedá-la ali. Mas não apenas a recebem, como atendem a seu pedido de ficar instalada no quarto de hóspedes da casa, dali só saindo quando chega a visita de uma pessoa da família. Ela circula livremente pela casa, todos são atenciosos com ela e não, o garotão filho da família não tenta assediá-la. Em determinado momento a patroa chega a preparar um desjejum para ela, com toda a boa vontade. E mesmo a tão comentada cena em que ela supostamente quebra as regras da casa-grande ao entrar na piscina revelou não ter nada a ver com o que era comentado, começando que ela nem entrou na piscina por iniciativa própria. O garoto filho da casa está recebendo visitas e convida-a; ela recusa educadamente, afirmando não ter roupa de banho, mas agindo por brincadeira, os rapazes jogam-na à força na piscina com roupa e tudo. Se a cena traz alguma mensagem política, é de que a nossa elite não só quer compartilhar seus privilégios com os excluídos como ainda os forçam a tal...

É chegado o momento de refletir: a forma como são tratadas as empregadas domésticas nas casas de família é mesmo algo degradante?

Depende do ponto de vista. Garçons em restaurantes também são proibidos de sentar à mesa com os clientes. Empregados de clubes também são proibidos de cair na piscina junto com os sócios. E ninguém acha isso ofensivo. É evidente que a abundância de serviçais domésticos sinaliza um mercado de trabalho limitado, característico de países pobres, mas essa é a ocupação com que podem contar. Se hoje todas as empregadas domésticas forem demitidas, elas não se tornarão no dia seguinte secretárias, recepcionistas ou atendentes de telemarketing. No dia seguinte elas serão desempregadas. Os patrões são uns canalhas por lhe darem aquele emprego?

Tampouco concordo com a tese muito em voga de que a empregada doméstica é uma herança da escravidão. Ela é uma herança da falta de outras oportunidades no mercado de trabalho, isso sim. São abundantes em todos os países pobres, inclusive naqueles que tiveram um passado de escravidão muito mais restrito e longínquo que o nosso, como é o caso de vários de nossos vizinhos. O fenômeno é puramente econômico, e creio mesmo que seja um insulto para com as empregadas domésticas afirmar que seu trabalho é degradante e análogo à escravidão.

Os patrões, supostos representantes de nossa elite opressora, são bastante caricaturizados. Provocam riso, e não raiva. A trama evolui por uma série de esquetes inusitados e engraçados, causados pela presença de Jéssica ali, estranha no ninho, em contraste com a conformada Val. No fim das contas, o filme é bem leve e diverte, mas deixa algumas questões em aberto. Logo na chegada, Val tem dificuldade para reconhecer a filha, que no trajeto para a casa, fica surpresa ao descobrir que a mãe mora com os patrões. Então, naqueles anos todos, não foi trocada uma foto, nem tampouco Jéssica teve a curiosidade de saber onde a mãe morava? A impressão que fica é que Val praticamente abandonou a filha com parentes, e não houve quase comunicação entre as duas. De fato, Jéssica queixa-se da negligência da mãe em vários momentos, mas logo é a vez de Val ficar indignada quando descobre entre os cadernos da filha a foto de uma criança, e fica sabendo que se trata do filho de Jéssica, sobre o qual ela não informou a mãe. Ao par do drama social alegórico, é insinuado um drama pessoal bem pungente, mas o filme não se aprofunda aí. A bola é levantada, mas deixada cair.

Ao final, depois de escutar muitas reprimendas da filha por conta de sua postura submissa e humilhante, Val por fim se revolta e pede demissão. Terá a era petista emancipado o proletariado e livrado-o da exploração da elite malvada? Mas quando a patroa pergunta o porquê dela estar demitindo-se, Val responde que pretende passar mais tempo junto da filha, aparentemente arrependida por sua longa negligência. Então, qual foi a real motivação de Val? Drama social ou drama pessoal?

Gostei do filme. Mas se pretendia acirrar a luta de classes, fracassou.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Balanço do Ano

Termina 2015, um ano que decididamente não legou nada de bom. A imagem que me vem logo à mente é o rio de lama do desastre de Mariana, que serve de metáfora para outros rios de lama que correram este ano tão ruim. Sem ser protagonista dos acontecimentos, eu como tantos outros permaneci imerso nas redes sociais, blog's e forum's da internet, locais onde reverberam os ecos dos acontecimentos - é a única maneira que tenho de participar deles.

Uma coisa que eu já havia notado desde sempre, mas que realçou-se de maneira extraordinária durante este ano em que a popularidade do governo caiu quase a zero, é o imenso abismo entre o eco dos forum's e o eco das ruas. Os primeiros são frequentados em sua maioria por uma turma que mostra notável uniformidade ideológica em suas visões do país e da política. Essa turma defende o governo petista com unhas e dentes, enquanto todas as estatísticas mostram que o apoio a Dilma Rousseff não passa de 7% na ruas, embora tais opinantes populares não tenham uma argumentação uniforme ou bem articulada para justificar sua posição. Ao mesmo tempo observo o crescimento de uma corrente direitista nos forum's, ainda minoritária, que opõe-se ao governo com um discurso ideológico razoavelmente bem articulado, mas que tampouco é endossado nas ruas. A única coisa que fica claro nisso tudo é que os frequentadores dos forum's não são o povo.

Não me espanta que haja grande diferença de nível intelectual entre os opinantes dos forum's e os populares nas ruas. Tampouco me espanta que haja grande oscilação nos índices de aprovação do governo, pois o povo em sua maioria não segue ditames ideológicos que sedimentem um compromisso permanente, mas apenas julga conforme as benesses que recebe ou deixa de receber - também José Sarney em seu tempo já passou de 80% para 8% de aprovação. O que me espanta é que os forum's não sirvam nem como caixa de ressonância da opinião das ruas - como se vivessem em universos diferentes. Essa turma de petistas, eu já os encontrei nos forum's quando comecei a frequentá-los. Impressiona-me a quantidade deles, e com certeza já existiam muito antes da invenção da internet, veiculando suas opiniões em círculos mais restritos. De início pareciam-me um tanto utópicos e até admirava-me a sua independência intelectual - invariavelmente críticos ao governo, proclamavam-se anarquistas, chamavam Lula de Judas Barbudo, reclamavam que aquele governo não cumpria nada do que eles sonhavam, tudo em meio a críticas hiperbólicas e sugestões absurdas - enfim, o retrato perfeito daquilo que no meu tempo se chamava porra-louca.

Mas de um momento para outro, começaram a mudar. Na medida mesmo em que os bons tempos de Lula ficavam para trás e se iniciavam os anos claudicantes de Dilma, as críticas ao governo começaram a rarear e os forum's passaram cada vez mais a ecoar a propaganda oficial petista, com frequência reproduzindo na íntegra artigos publicados em páginas de revistas de esquerda. Alguma coisa estava acontecendo, sem dúvida. Eu não estava mais diante de divertidos porra-loucas, mas de indivíduos alinhados inflexivelmente com o partido governista, com certeza tendo motivos particulares para tal. O discurso partidarizado substituiu o ideológico: não se falava mais de esquerda e direita, em termos subjetivos, mas de PT e PSDB, sendo este segundo atacado como se fosse o que há de mais à direita no espectro político brasileiro. Confesso que senti saudades dos tempos ingênuos. Embora eu nunca houvesse simpatizado com este pessoal, não pude deixar de ficar chocados ao ver os ex-anarquistas defendendo o aumento de impostos, a impunidade de grandes empreiteiros e o velho capitalismo de compadres.

De onde surgiu, afinal, essa turma? Como explicar a mutação que vem ocorrendo?

Pesquisando aqui e acolá, cheguei a algumas conclusões. Essa numerosa fauna que habita os forum's e redes sociais são nada mais que aquilo que foi batizado por Otto Maria Carpeaux como o proletariado intelectual. Uma rápida pesquisa sobre o assunto pode ser encontrada aqui, mas vou resumir eu mesmo: o proletariado intelectual é uma espécie de exército de reserva de profissionais universitários, indivíduos que têm como objetivo trabalhar para o Estado, mas não encontram colocação. A expansão desse grupo está intimamente ligada à expansão da máquina administrativa bem como do próprio Estado, e obedece a um objetivo específico, embora não evidenciado: além de mão-de-obra para o funcionalismo, formar uma claque de militantes virtuais, ou de cabos eleitorais que trabalham de graça. Isso ocorre porque tais indivíduos, sentindo-se frustrados em seus anseios de entrar para o Estado, passam a sonhar em assenhorar-se deste Estado e moldá-lo conforme seus desejos. Formam, portanto, uma classe de insatisfeitos que está sempre a veicular uma mensagem revolucionária que corresponda aos projetos daqueles que efetivamente controlam o Estado e os instigam a este fim. A fórmula é sempre a mesma: expansão do funcionalismo, seguida de expansão do número de universidades, mas não de cursos voltados às necessidades do mercado, e sim de cursos voltados à necessidade do Estado - com vagas sempre em número superior àquelas que o funcionalismo pode oferecer.

Assim é formada aquela massa de bacharéis semi-letrados e falastrões, gente bem conhecida por qualquer um que tenha frequentado uma faculdade brasileira nas últimas décadas, a ponto de fazerem parte do folclore universitário: quem nunca esbarrou com aquele garoto ou moça que passava os dias no diretório falando de política enquanto sonhava passar em um concurso público, para o qual poucos efetivamente passarão?

Acredito que os tais 7% que ainda apoiam Dilma sejam compostos essencialmente por este proletariado intelectual, minoria absoluta no país real, maioria absoluta no país virtual formado pelas redes sociais, forum's e blog's onde reverberam suas ideias, sempre lamentando que a mídia corporativa não concorde com eles. Minoria sim, mas não deixam de constituir uma massa, no sentido de que são amorfos, não possuem uma estrutura definida com cabeça e membros. E convém lembrar que todas as massas têm um grau de imprevisibilidade, mesmo as mais passivas. Às vezes algumas ondas percorrem as massas sem que saibamos bem de onde vem, ou para onde vão. Foi o que eu observei esse ano com o dito proletariado intelectual que tão bem conheço nos forum's que frequento: os debates rapidamente perderam o tom generalista e tornaram-se partidarizados, basicamente PT x PSDB. Máscaras caíram, o que antes era dito com subterfúgios passou a ser escancarado. Palavrões voaram contra Joaquim Barbosa, contra Sérgio Moro, até contra veteranos petistas. Fiquei surpreso. Mas antes de tudo, a que atribuir essa mudança?

Penso que à evolução política e econômica do país nos últimos 12 anos. Os dois primeiros mandatos de Lula permitiram uma enorme expansão da máquina pública, fazendo com que a massa dos proletários intelectuais passasse dos sonhos ao cheiro do poder já lhes atingindo as narinas. Alguns efetivamente arrumaram algum cargo, e muito outros viram ex-colegas tornando-se poderosos e ricos de uma hora para a outra. As discussões teóricas cederam lugar ao planejamento frio, a zombaria aos adversários cedeu lugar ao discurso de ódio, os escrúpulos cederam lugar definitivamente ao pragmatismo.

No primeiro mandato de Dilma, a guinada em direção ao nacional-estatismo aguçou ainda mais o apetite dessa turma. Mas o dinheiro acabou e a excitação foi substituída pela perplexidade. Ainda sem querer admitir que o sonho acabou e que nunca ganharão a almejada posição de dinheiro e poder, os militantes virtuais agitam os forum's com seus impropérios, ao mesmo tempo em que nas ruas impera a mais profunda reprovação ao governo. Como eu disse antes, as massas às vezes são percorridas por ondas que não se sabe bem de onde vem, nem aonde irão rebentar. Tal como o dique de Mariana que cedeu, a massa de proletários intelectuais tem sido acumulada silenciosamente desde muito tempo. Quando o dique ceder, aonde irá parar?

O ano de 2015, para mim, será sempre lembrado como o ano dos diques que cederam.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Vendo o Chico passar

É de todo lamentável o bate-boca acontecido no Leblon entre Chico Buarque e um grupo de anti-petistas, incidente que tem repercutido amplamente nas redes sociais e suscitado furiosos comentários contra e a favor. Mas também é um sinal dos tempos, e um blog que trata de História não pode deixar de comentar um episódio que marca a transição entre o passado e o presente.

Chico Buarque é indiscutivelmente um dos melhores e mais populares compositores brasileiros, senão o melhor de todos. É lembrado sobretudo por suas instigantes canções de protesto no tempo da ditadura. Mas há um outro aspecto também advindo daquela época pelo qual Chico é lembrado hoje: como um expoente da chamada esquerda festiva, aquela que pregava o socialismo para os outros e os confortos do capitalismo para si.

Essa estirpe teve muitos outros representantes além do Chico, como o ex-jogador Sócrates e o arquiteto Oscar Niemeyer. Outros pertenceram a ela e depois a renegaram, como Paulo Francis. Geralmente intelectuais e artistas, invariavelmente bem sucedidos financeiramente, bons de copo e bem relacionados, a turma costumava reunir-se para beber whisky no Antonio´s, que ironicamente ficava no Leblon, mesmo bairro onde Chico foi insultado esta semana. Durante muitos anos a óbvia hipocrisia dos esquerdas festivos foi tolerada e até vista com certa graça - afinal, não deixava de ser um achincalhe à ditadura, e a turma com certeza não fazia isso sem risco pessoal. É verdade que pessoas como Chico Buarque e Oscar Niemeyer por certo imaginavam que em um hipotético Brasil comunista, eles teriam algum alto cargo público, de modo que seu padrão pessoal de vida não seria alterado, ao contrário do restante da população. Mas na época ninguém parava para pensar nisso.

Hoje, porém, o pessoal não perdoa mais. O encanto quebrou. Uma coisa era ver Chico indo para Cuba quando nenhum brasileiro podia fazê-lo sem grave risco, arrostando todas as possíveis represálias do governo contra suas obras e apresentações; outra coisa é ver Chico hoje indo para uma Cuba que é sabidamente fracassada e pobre, sem risco nenhum e ainda recebendo rapapés, e longe de ter a hostilidade do governo, ainda é brindado com generosas verbas e subsídios. O Leblon do Antonio´s passou. E tal como a banda, Chico também passou: nada que desmereça sua obra, mas ela pertence ao passado. Desde o fim da ditadura, sua inspiração parece haver secado. Isso me lembra uma peça encenada creio que no início dos anos setenta: um certo dramaturgo decadente que fizera muito sucesso em uma época de forte censura e perseguição política, subitamente desaprende a escrever após o país haver entrado em uma democracia. Buscando ter de volta a inspiração, ele contrata atores para desfilar vestidos de policiais, censores para censurar seus textos... se alguém se lembrar do nome da peça, me diga.

Saber disto tudo não me deixa feliz - afinal, também eu compartilhei a inocência daqueles tempos - mas não me escapa uma certa sensação de desforra: a esquerda finalmente conseguiu o que queria. O pessoal não tinha como objetivo convencer-nos de que éramos uma sociedade perversa e dividida em classes? Pois fizeram-no. Os moradores do Leblon afinal vestiram a carapuça e estão comportando-se como a elite arrogante que foi dito que eles são, longe das ilusões de que um trago no Antonio´s podia convertê-los em genuínos porta-vozes do proletariado...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Entre a Venezuela e o Paraguai

O momento histórico brasileiro realmente é único. Sem ter como fazer paralelos com o passado, no eixo do tempo, resta fazer paralelos no eixo do espaço, olhando o mapa. Penso que estamos precisamente entre a Venezuela e o Paraguai. Corremos o risco de escapar de ser uma Venezuela para nos tornar um Paraguai.

O impeachment, ainda que justificado, é sempre lamentável, e mais lamentável ainda dois impeachments em 25 anos. Se virar moda, poderemos cair em um parlamentarismo ex-officio. Mas as circunstâncias em que o presente pedido de impeachment ocorre são especialmente lamentáveis. A oposição não tem qualquer projeto, parece totalmente cega pela ambição de ocupar o lugar da presidente, e a cegueira é tanta que sequer percebem o principal: se Dilma for derrubada por alguém como Eduardo Campos, ela vai sair na foto como vítima, e não como vilã. Esquecem-se de que a memória coletiva é seletiva: em pouco tempo o povo terá esquecido os anos ruins de Dilma, e se lembrará somente dos anos bons de Lula. A lenda de que Dilma foi derrubada por uma pérfida conspiração só ganhará força com o tempo, abrindo o caminho para o retorno de Lula em 2018. Afoita, a oposição tem tudo para queimar a largada.

Mas Eduardo Cunha também é um exemplo ilustrativo do tipo do político que as alianças do PT nos últimos anos trouxeram ao primeiro plano. De certa forma ele é o destino que o próprio PT traçou. E esse destino pode recair sobre todos nós.

Queria acordar um dia e ver que tudo não passou de um pesadelo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Vendo a História passar

Outro dia por acaso topei com o link para a edição digital de um livrinho bem interessante, Capitalismo para Principiantes, de Carlos Eduardo Novaes, com ilustrações de Vilmar Rodrigues. O livro parece ter sido escrito lá pelo início dos anos 80, mas ainda é bem atual, mesmo porque a crise presente mostra que ainda estamos discutindo princípios básicos do capitalismo, como principiantes que somos. E o interessante da leitura vem justamente disto: trata-se de um retrato, o instantâneo de uma paisagem tirado em determinado momento do tempo histórico, que confrontado com o retrato da mesma paisagem tirado hoje, permite distinguir a passagem do tempo em seus mínimos detalhes.

Não estou me referindo, obviamente, a uma paisagem física, mas a uma paisagem de ideias. Como víamos e entendíamos o mundo na época, e ao comparar com o que temos hoje, podemos marcar onde erramos e onde acertamos, quais convicções que se tornaram dúvidas e quais dúvidas que se tornaram convicções, tudo sob o amparo do julgamento da História, com suas sentenças já proferidas. Devo dizer que foi uma leitura agradável, pois os autores são ótimos como humoristas. Mas não deixei de sentir uma certa nostalgia por aquele tempo de inocência, quando certas injunções que hoje sabemos serem apenas piadas podiam ser tomadas por argumentação consistente. É de fato engraçado ver Karl Marx ser tomado por grande gênio e a ex-URSS por referência de sucesso antes da queda do muro de Berlim. Mas outras diferenças que notei entre o discurso daquela época e o discurso atual são bem significativas. Enumero algumas:

- Getúlio Vargas e Juscelino Kubitchek, hoje vacas sagradas inatacáveis para os esquerdistas, são depreciados e apresentados como servis à burguesia e ao capital estrangeiro.

- O texto ridiculariza também os intelectuais de botequim, esses que hoje são vacas sagradas, e chama-os de socialistas-porra-louca-utópicos.

- Também é criticado o uso das contribuições compulsórias dos assalariados, como FGTS e PIS/PASEP, para capitalizar bancos estatais como a Caixa Econômica e o BNDES (na época BNDE), exatamente o oposto do discurso atual em defesa do nacional-estatismo.

- Nenhuma referência ao racismo como instrumento indutor da desigualdade social no Brasil, a qual é vista como causada unicamente pela espoliação estrangeira.

- Nenhuma referência à "cultura da periferia" como resistência ao establishment.

Enfim, o edifício de ideias da época não era tão esquematizado como o que temos hoje, ou seria o caso de se dizer, não tão partidarizado. Falava-se mais de conceitos abstratos - burguesia, imperialismo, consumismo, ideologia, tudo sem dar nome aos bois. Foi esse discurso que doutrinou a juventude na época e preparou a atual hegemonia do pensamento de esquerda? Não creio. A minha impressão é que a maioria dos leitores, tal como eu, apenas se divertiu. De qualquer modo, hoje os propagadores de tais ideias estão no poder, e defrontam-se ao vivo e em tempo real com as contradições de seu discurso. Minha avaliação para os autores: como humoristas, muito bons; como analistas políticos, inocentes. Mas a inocência é o traço comum de tudo aquilo que carece de conhecimentos, até da barbárie.