Termina 2015, um ano que decididamente não legou nada de bom. A imagem que me vem logo à mente é o rio de lama do desastre de Mariana, que serve de metáfora para outros rios de lama que correram este ano tão ruim. Sem ser protagonista dos acontecimentos, eu como tantos outros permaneci imerso nas redes sociais, blog's e forum's da internet, locais onde reverberam os ecos dos acontecimentos - é a única maneira que tenho de participar deles.
Uma coisa que eu já havia notado desde sempre, mas que realçou-se de maneira extraordinária durante este ano em que a popularidade do governo caiu quase a zero, é o imenso abismo entre o eco dos forum's e o eco das ruas. Os primeiros são frequentados em sua maioria por uma turma que mostra notável uniformidade ideológica em suas visões do país e da política. Essa turma defende o governo petista com unhas e dentes, enquanto todas as estatísticas mostram que o apoio a Dilma Rousseff não passa de 7% na ruas, embora tais opinantes populares não tenham uma argumentação uniforme ou bem articulada para justificar sua posição. Ao mesmo tempo observo o crescimento de uma corrente direitista nos forum's, ainda minoritária, que opõe-se ao governo com um discurso ideológico razoavelmente bem articulado, mas que tampouco é endossado nas ruas. A única coisa que fica claro nisso tudo é que os frequentadores dos forum's não são o povo.
Não me espanta que haja grande diferença de nível intelectual entre os opinantes dos forum's e os populares nas ruas. Tampouco me espanta que haja grande oscilação nos índices de aprovação do governo, pois o povo em sua maioria não segue ditames ideológicos que sedimentem um compromisso permanente, mas apenas julga conforme as benesses que recebe ou deixa de receber - também José Sarney em seu tempo já passou de 80% para 8% de aprovação. O que me espanta é que os forum's não sirvam nem como caixa de ressonância da opinião das ruas - como se vivessem em universos diferentes. Essa turma de petistas, eu já os encontrei nos forum's quando comecei a frequentá-los. Impressiona-me a quantidade deles, e com certeza já existiam muito antes da invenção da internet, veiculando suas opiniões em círculos mais restritos. De início pareciam-me um tanto utópicos e até admirava-me a sua independência intelectual - invariavelmente críticos ao governo, proclamavam-se anarquistas, chamavam Lula de Judas Barbudo, reclamavam que aquele governo não cumpria nada do que eles sonhavam, tudo em meio a críticas hiperbólicas e sugestões absurdas - enfim, o retrato perfeito daquilo que no meu tempo se chamava porra-louca.
Mas de um momento para outro, começaram a mudar. Na medida mesmo em que os bons tempos de Lula ficavam para trás e se iniciavam os anos claudicantes de Dilma, as críticas ao governo começaram a rarear e os forum's passaram cada vez mais a ecoar a propaganda oficial petista, com frequência reproduzindo na íntegra artigos publicados em páginas de revistas de esquerda. Alguma coisa estava acontecendo, sem dúvida. Eu não estava mais diante de divertidos porra-loucas, mas de indivíduos alinhados inflexivelmente com o partido governista, com certeza tendo motivos particulares para tal. O discurso partidarizado substituiu o ideológico: não se falava mais de esquerda e direita, em termos subjetivos, mas de PT e PSDB, sendo este segundo atacado como se fosse o que há de mais à direita no espectro político brasileiro. Confesso que senti saudades dos tempos ingênuos. Embora eu nunca houvesse simpatizado com este pessoal, não pude deixar de ficar chocados ao ver os ex-anarquistas defendendo o aumento de impostos, a impunidade de grandes empreiteiros e o velho capitalismo de compadres.
De onde surgiu, afinal, essa turma? Como explicar a mutação que vem ocorrendo?
Pesquisando aqui e acolá, cheguei a algumas conclusões. Essa numerosa fauna que habita os forum's e redes sociais são nada mais que aquilo que foi batizado por Otto Maria Carpeaux como o proletariado intelectual. Uma rápida pesquisa sobre o assunto pode ser encontrada aqui, mas vou resumir eu mesmo: o proletariado intelectual é uma espécie de exército de reserva de profissionais universitários, indivíduos que têm como objetivo trabalhar para o Estado, mas não encontram colocação. A expansão desse grupo está intimamente ligada à expansão da máquina administrativa bem como do próprio Estado, e obedece a um objetivo específico, embora não evidenciado: além de mão-de-obra para o funcionalismo, formar uma claque de militantes virtuais, ou de cabos eleitorais que trabalham de graça. Isso ocorre porque tais indivíduos, sentindo-se frustrados em seus anseios de entrar para o Estado, passam a sonhar em assenhorar-se deste Estado e moldá-lo conforme seus desejos. Formam, portanto, uma classe de insatisfeitos que está sempre a veicular uma mensagem revolucionária que corresponda aos projetos daqueles que efetivamente controlam o Estado e os instigam a este fim. A fórmula é sempre a mesma: expansão do funcionalismo, seguida de expansão do número de universidades, mas não de cursos voltados às necessidades do mercado, e sim de cursos voltados à necessidade do Estado - com vagas sempre em número superior àquelas que o funcionalismo pode oferecer.
Assim é formada aquela massa de bacharéis semi-letrados e falastrões, gente bem conhecida por qualquer um que tenha frequentado uma faculdade brasileira nas últimas décadas, a ponto de fazerem parte do folclore universitário: quem nunca esbarrou com aquele garoto ou moça que passava os dias no diretório falando de política enquanto sonhava passar em um concurso público, para o qual poucos efetivamente passarão?
Acredito que os tais 7% que ainda apoiam Dilma sejam compostos essencialmente por este proletariado intelectual, minoria absoluta no país real, maioria absoluta no país virtual formado pelas redes sociais, forum's e blog's onde reverberam suas ideias, sempre lamentando que a mídia corporativa não concorde com eles. Minoria sim, mas não deixam de constituir uma massa, no sentido de que são amorfos, não possuem uma estrutura definida com cabeça e membros. E convém lembrar que todas as massas têm um grau de imprevisibilidade, mesmo as mais passivas. Às vezes algumas ondas percorrem as massas sem que saibamos bem de onde vem, ou para onde vão. Foi o que eu observei esse ano com o dito proletariado intelectual que tão bem conheço nos forum's que frequento: os debates rapidamente perderam o tom generalista e tornaram-se partidarizados, basicamente PT x PSDB. Máscaras caíram, o que antes era dito com subterfúgios passou a ser escancarado. Palavrões voaram contra Joaquim Barbosa, contra Sérgio Moro, até contra veteranos petistas. Fiquei surpreso. Mas antes de tudo, a que atribuir essa mudança?
Penso que à evolução política e econômica do país nos últimos 12 anos. Os dois primeiros mandatos de Lula permitiram uma enorme expansão da máquina pública, fazendo com que a massa dos proletários intelectuais passasse dos sonhos ao cheiro do poder já lhes atingindo as narinas. Alguns efetivamente arrumaram algum cargo, e muito outros viram ex-colegas tornando-se poderosos e ricos de uma hora para a outra. As discussões teóricas cederam lugar ao planejamento frio, a zombaria aos adversários cedeu lugar ao discurso de ódio, os escrúpulos cederam lugar definitivamente ao pragmatismo.
No primeiro mandato de Dilma, a guinada em direção ao nacional-estatismo aguçou ainda mais o apetite dessa turma. Mas o dinheiro acabou e a excitação foi substituída pela perplexidade. Ainda sem querer admitir que o sonho acabou e que nunca ganharão a almejada posição de dinheiro e poder, os militantes virtuais agitam os forum's com seus impropérios, ao mesmo tempo em que nas ruas impera a mais profunda reprovação ao governo. Como eu disse antes, as massas às vezes são percorridas por ondas que não se sabe bem de onde vem, nem aonde irão rebentar. Tal como o dique de Mariana que cedeu, a massa de proletários intelectuais tem sido acumulada silenciosamente desde muito tempo. Quando o dique ceder, aonde irá parar?
O ano de 2015, para mim, será sempre lembrado como o ano dos diques que cederam.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Vendo o Chico passar
É de todo lamentável o bate-boca acontecido no Leblon entre Chico Buarque e um grupo de anti-petistas, incidente que tem repercutido amplamente nas redes sociais e suscitado furiosos comentários contra e a favor. Mas também é um sinal dos tempos, e um blog que trata de História não pode deixar de comentar um episódio que marca a transição entre o passado e o presente.
Chico Buarque é indiscutivelmente um dos melhores e mais populares compositores brasileiros, senão o melhor de todos. É lembrado sobretudo por suas instigantes canções de protesto no tempo da ditadura. Mas há um outro aspecto também advindo daquela época pelo qual Chico é lembrado hoje: como um expoente da chamada esquerda festiva, aquela que pregava o socialismo para os outros e os confortos do capitalismo para si.
Essa estirpe teve muitos outros representantes além do Chico, como o ex-jogador Sócrates e o arquiteto Oscar Niemeyer. Outros pertenceram a ela e depois a renegaram, como Paulo Francis. Geralmente intelectuais e artistas, invariavelmente bem sucedidos financeiramente, bons de copo e bem relacionados, a turma costumava reunir-se para beber whisky no Antonio´s, que ironicamente ficava no Leblon, mesmo bairro onde Chico foi insultado esta semana. Durante muitos anos a óbvia hipocrisia dos esquerdas festivos foi tolerada e até vista com certa graça - afinal, não deixava de ser um achincalhe à ditadura, e a turma com certeza não fazia isso sem risco pessoal. É verdade que pessoas como Chico Buarque e Oscar Niemeyer por certo imaginavam que em um hipotético Brasil comunista, eles teriam algum alto cargo público, de modo que seu padrão pessoal de vida não seria alterado, ao contrário do restante da população. Mas na época ninguém parava para pensar nisso.
Hoje, porém, o pessoal não perdoa mais. O encanto quebrou. Uma coisa era ver Chico indo para Cuba quando nenhum brasileiro podia fazê-lo sem grave risco, arrostando todas as possíveis represálias do governo contra suas obras e apresentações; outra coisa é ver Chico hoje indo para uma Cuba que é sabidamente fracassada e pobre, sem risco nenhum e ainda recebendo rapapés, e longe de ter a hostilidade do governo, ainda é brindado com generosas verbas e subsídios. O Leblon do Antonio´s passou. E tal como a banda, Chico também passou: nada que desmereça sua obra, mas ela pertence ao passado. Desde o fim da ditadura, sua inspiração parece haver secado. Isso me lembra uma peça encenada creio que no início dos anos setenta: um certo dramaturgo decadente que fizera muito sucesso em uma época de forte censura e perseguição política, subitamente desaprende a escrever após o país haver entrado em uma democracia. Buscando ter de volta a inspiração, ele contrata atores para desfilar vestidos de policiais, censores para censurar seus textos... se alguém se lembrar do nome da peça, me diga.
Saber disto tudo não me deixa feliz - afinal, também eu compartilhei a inocência daqueles tempos - mas não me escapa uma certa sensação de desforra: a esquerda finalmente conseguiu o que queria. O pessoal não tinha como objetivo convencer-nos de que éramos uma sociedade perversa e dividida em classes? Pois fizeram-no. Os moradores do Leblon afinal vestiram a carapuça e estão comportando-se como a elite arrogante que foi dito que eles são, longe das ilusões de que um trago no Antonio´s podia convertê-los em genuínos porta-vozes do proletariado...
Chico Buarque é indiscutivelmente um dos melhores e mais populares compositores brasileiros, senão o melhor de todos. É lembrado sobretudo por suas instigantes canções de protesto no tempo da ditadura. Mas há um outro aspecto também advindo daquela época pelo qual Chico é lembrado hoje: como um expoente da chamada esquerda festiva, aquela que pregava o socialismo para os outros e os confortos do capitalismo para si.
Essa estirpe teve muitos outros representantes além do Chico, como o ex-jogador Sócrates e o arquiteto Oscar Niemeyer. Outros pertenceram a ela e depois a renegaram, como Paulo Francis. Geralmente intelectuais e artistas, invariavelmente bem sucedidos financeiramente, bons de copo e bem relacionados, a turma costumava reunir-se para beber whisky no Antonio´s, que ironicamente ficava no Leblon, mesmo bairro onde Chico foi insultado esta semana. Durante muitos anos a óbvia hipocrisia dos esquerdas festivos foi tolerada e até vista com certa graça - afinal, não deixava de ser um achincalhe à ditadura, e a turma com certeza não fazia isso sem risco pessoal. É verdade que pessoas como Chico Buarque e Oscar Niemeyer por certo imaginavam que em um hipotético Brasil comunista, eles teriam algum alto cargo público, de modo que seu padrão pessoal de vida não seria alterado, ao contrário do restante da população. Mas na época ninguém parava para pensar nisso.
Hoje, porém, o pessoal não perdoa mais. O encanto quebrou. Uma coisa era ver Chico indo para Cuba quando nenhum brasileiro podia fazê-lo sem grave risco, arrostando todas as possíveis represálias do governo contra suas obras e apresentações; outra coisa é ver Chico hoje indo para uma Cuba que é sabidamente fracassada e pobre, sem risco nenhum e ainda recebendo rapapés, e longe de ter a hostilidade do governo, ainda é brindado com generosas verbas e subsídios. O Leblon do Antonio´s passou. E tal como a banda, Chico também passou: nada que desmereça sua obra, mas ela pertence ao passado. Desde o fim da ditadura, sua inspiração parece haver secado. Isso me lembra uma peça encenada creio que no início dos anos setenta: um certo dramaturgo decadente que fizera muito sucesso em uma época de forte censura e perseguição política, subitamente desaprende a escrever após o país haver entrado em uma democracia. Buscando ter de volta a inspiração, ele contrata atores para desfilar vestidos de policiais, censores para censurar seus textos... se alguém se lembrar do nome da peça, me diga.
Saber disto tudo não me deixa feliz - afinal, também eu compartilhei a inocência daqueles tempos - mas não me escapa uma certa sensação de desforra: a esquerda finalmente conseguiu o que queria. O pessoal não tinha como objetivo convencer-nos de que éramos uma sociedade perversa e dividida em classes? Pois fizeram-no. Os moradores do Leblon afinal vestiram a carapuça e estão comportando-se como a elite arrogante que foi dito que eles são, longe das ilusões de que um trago no Antonio´s podia convertê-los em genuínos porta-vozes do proletariado...
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Entre a Venezuela e o Paraguai
O momento histórico brasileiro realmente é único. Sem ter como fazer paralelos com o passado, no eixo do tempo, resta fazer paralelos no eixo do espaço, olhando o mapa. Penso que estamos precisamente entre a Venezuela e o Paraguai. Corremos o risco de escapar de ser uma Venezuela para nos tornar um Paraguai.
O impeachment, ainda que justificado, é sempre lamentável, e mais lamentável ainda dois impeachments em 25 anos. Se virar moda, poderemos cair em um parlamentarismo ex-officio. Mas as circunstâncias em que o presente pedido de impeachment ocorre são especialmente lamentáveis. A oposição não tem qualquer projeto, parece totalmente cega pela ambição de ocupar o lugar da presidente, e a cegueira é tanta que sequer percebem o principal: se Dilma for derrubada por alguém como Eduardo Campos, ela vai sair na foto como vítima, e não como vilã. Esquecem-se de que a memória coletiva é seletiva: em pouco tempo o povo terá esquecido os anos ruins de Dilma, e se lembrará somente dos anos bons de Lula. A lenda de que Dilma foi derrubada por uma pérfida conspiração só ganhará força com o tempo, abrindo o caminho para o retorno de Lula em 2018. Afoita, a oposição tem tudo para queimar a largada.
Mas Eduardo Cunha também é um exemplo ilustrativo do tipo do político que as alianças do PT nos últimos anos trouxeram ao primeiro plano. De certa forma ele é o destino que o próprio PT traçou. E esse destino pode recair sobre todos nós.
Queria acordar um dia e ver que tudo não passou de um pesadelo.
O impeachment, ainda que justificado, é sempre lamentável, e mais lamentável ainda dois impeachments em 25 anos. Se virar moda, poderemos cair em um parlamentarismo ex-officio. Mas as circunstâncias em que o presente pedido de impeachment ocorre são especialmente lamentáveis. A oposição não tem qualquer projeto, parece totalmente cega pela ambição de ocupar o lugar da presidente, e a cegueira é tanta que sequer percebem o principal: se Dilma for derrubada por alguém como Eduardo Campos, ela vai sair na foto como vítima, e não como vilã. Esquecem-se de que a memória coletiva é seletiva: em pouco tempo o povo terá esquecido os anos ruins de Dilma, e se lembrará somente dos anos bons de Lula. A lenda de que Dilma foi derrubada por uma pérfida conspiração só ganhará força com o tempo, abrindo o caminho para o retorno de Lula em 2018. Afoita, a oposição tem tudo para queimar a largada.
Mas Eduardo Cunha também é um exemplo ilustrativo do tipo do político que as alianças do PT nos últimos anos trouxeram ao primeiro plano. De certa forma ele é o destino que o próprio PT traçou. E esse destino pode recair sobre todos nós.
Queria acordar um dia e ver que tudo não passou de um pesadelo.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Vendo a História passar
Outro dia por acaso topei com o link para a edição digital de um livrinho bem interessante, Capitalismo para Principiantes, de Carlos Eduardo Novaes, com ilustrações de Vilmar Rodrigues. O livro parece ter sido escrito lá pelo início dos anos 80, mas ainda é bem atual, mesmo porque a crise presente mostra que ainda estamos discutindo princípios básicos do capitalismo, como principiantes que somos. E o interessante da leitura vem justamente disto: trata-se de um retrato, o instantâneo de uma paisagem tirado em determinado momento do tempo histórico, que confrontado com o retrato da mesma paisagem tirado hoje, permite distinguir a passagem do tempo em seus mínimos detalhes.
Não estou me referindo, obviamente, a uma paisagem física, mas a uma paisagem de ideias. Como víamos e entendíamos o mundo na época, e ao comparar com o que temos hoje, podemos marcar onde erramos e onde acertamos, quais convicções que se tornaram dúvidas e quais dúvidas que se tornaram convicções, tudo sob o amparo do julgamento da História, com suas sentenças já proferidas. Devo dizer que foi uma leitura agradável, pois os autores são ótimos como humoristas. Mas não deixei de sentir uma certa nostalgia por aquele tempo de inocência, quando certas injunções que hoje sabemos serem apenas piadas podiam ser tomadas por argumentação consistente. É de fato engraçado ver Karl Marx ser tomado por grande gênio e a ex-URSS por referência de sucesso antes da queda do muro de Berlim. Mas outras diferenças que notei entre o discurso daquela época e o discurso atual são bem significativas. Enumero algumas:
- Getúlio Vargas e Juscelino Kubitchek, hoje vacas sagradas inatacáveis para os esquerdistas, são depreciados e apresentados como servis à burguesia e ao capital estrangeiro.
- O texto ridiculariza também os intelectuais de botequim, esses que hoje são vacas sagradas, e chama-os de socialistas-porra-louca-utópicos.
- Também é criticado o uso das contribuições compulsórias dos assalariados, como FGTS e PIS/PASEP, para capitalizar bancos estatais como a Caixa Econômica e o BNDES (na época BNDE), exatamente o oposto do discurso atual em defesa do nacional-estatismo.
- Nenhuma referência ao racismo como instrumento indutor da desigualdade social no Brasil, a qual é vista como causada unicamente pela espoliação estrangeira.
- Nenhuma referência à "cultura da periferia" como resistência ao establishment.
Enfim, o edifício de ideias da época não era tão esquematizado como o que temos hoje, ou seria o caso de se dizer, não tão partidarizado. Falava-se mais de conceitos abstratos - burguesia, imperialismo, consumismo, ideologia, tudo sem dar nome aos bois. Foi esse discurso que doutrinou a juventude na época e preparou a atual hegemonia do pensamento de esquerda? Não creio. A minha impressão é que a maioria dos leitores, tal como eu, apenas se divertiu. De qualquer modo, hoje os propagadores de tais ideias estão no poder, e defrontam-se ao vivo e em tempo real com as contradições de seu discurso. Minha avaliação para os autores: como humoristas, muito bons; como analistas políticos, inocentes. Mas a inocência é o traço comum de tudo aquilo que carece de conhecimentos, até da barbárie.
Não estou me referindo, obviamente, a uma paisagem física, mas a uma paisagem de ideias. Como víamos e entendíamos o mundo na época, e ao comparar com o que temos hoje, podemos marcar onde erramos e onde acertamos, quais convicções que se tornaram dúvidas e quais dúvidas que se tornaram convicções, tudo sob o amparo do julgamento da História, com suas sentenças já proferidas. Devo dizer que foi uma leitura agradável, pois os autores são ótimos como humoristas. Mas não deixei de sentir uma certa nostalgia por aquele tempo de inocência, quando certas injunções que hoje sabemos serem apenas piadas podiam ser tomadas por argumentação consistente. É de fato engraçado ver Karl Marx ser tomado por grande gênio e a ex-URSS por referência de sucesso antes da queda do muro de Berlim. Mas outras diferenças que notei entre o discurso daquela época e o discurso atual são bem significativas. Enumero algumas:
- Getúlio Vargas e Juscelino Kubitchek, hoje vacas sagradas inatacáveis para os esquerdistas, são depreciados e apresentados como servis à burguesia e ao capital estrangeiro.
- O texto ridiculariza também os intelectuais de botequim, esses que hoje são vacas sagradas, e chama-os de socialistas-porra-louca-utópicos.
- Também é criticado o uso das contribuições compulsórias dos assalariados, como FGTS e PIS/PASEP, para capitalizar bancos estatais como a Caixa Econômica e o BNDES (na época BNDE), exatamente o oposto do discurso atual em defesa do nacional-estatismo.
- Nenhuma referência ao racismo como instrumento indutor da desigualdade social no Brasil, a qual é vista como causada unicamente pela espoliação estrangeira.
- Nenhuma referência à "cultura da periferia" como resistência ao establishment.
Enfim, o edifício de ideias da época não era tão esquematizado como o que temos hoje, ou seria o caso de se dizer, não tão partidarizado. Falava-se mais de conceitos abstratos - burguesia, imperialismo, consumismo, ideologia, tudo sem dar nome aos bois. Foi esse discurso que doutrinou a juventude na época e preparou a atual hegemonia do pensamento de esquerda? Não creio. A minha impressão é que a maioria dos leitores, tal como eu, apenas se divertiu. De qualquer modo, hoje os propagadores de tais ideias estão no poder, e defrontam-se ao vivo e em tempo real com as contradições de seu discurso. Minha avaliação para os autores: como humoristas, muito bons; como analistas políticos, inocentes. Mas a inocência é o traço comum de tudo aquilo que carece de conhecimentos, até da barbárie.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Fim do ciclo populista na América Latina?
A eleição de Maurício Macri na Argentina, derrotando o candidato do kirshnerismo que havia pouco parecia imbatível, foi saudada por muitos como o sinal do início do fim do ciclo populista latino-americano iniciado por Hugo Chávez em 1998. Quanto a mim, procuro ser mais cauteloso.
A própria presença de ciclos na história de um país ou região já é mau agouro. Denota uma repetição compulsiva, uma incapacidade de romper com o passado e seguir adiante. Na América Latina, nenhum país sofre mais desta síndrome do que a Argentina desde o primeiro governo Perón. Estando o país com um formidável saldo na balança comercial no fim da guerra, em consequência das exportações feitas aos países beligerantes, Perón pôde proporcionar a seus concidadãos muitos anos de bonança enquanto o cofre esteve abastecido. Depois que acabou, os argentinos associaram os maus tempos à ausência do caudilho, e desde então têm procurado de todas as maneiras reviver o peronismo, mesmo que tenham que fazer o casal Evita/Perón reencarnar no casal Kirschner. De fato, os argentinos já reconduziram os peronistas ao poder mesmo em situações bem piores que a atual, daí que não foi sem surpresa que eu vi a vitória de Macri.
Protótipo do caudilhismo populista, Perón inaugurou na América Latina um ciclo nefasto, repetido em variadas épocas e locais. A fórmula consiste de raspar até o fundo do cofre a fim de comprar o apoio do povão, e depois que o dinheiro acaba, baixar o cacete. Se não é estabelecida uma ditadura, a eleição seguinte fatalmente tira os populistas do poder. Tenho visto divertidas teorias em forum´s por aí, taxando o povo de ingrato. Dizem que o governo popular tira o povão da pobreza e o transforma em classe média; enriquecido, o povão passa a se identificar com a oligarquia e vota na direita; no poder, a direita os faz voltar à pobreza. Não é nada disso. Indivíduos que ascendem à classe média podem de fato incorporar os valores de sua nova classe social, mas a classe média na América Latina é minoritária e não decide eleição. Quem tira os populistas do poder é o mesmo eleitor pobre que os levou ao poder, decepcionado com as promessas não cumpridas e com o fim das benesses. Nada de veleidade ideológicas aí.
Mas simetricamente, é ilusório achar que o eleitor que agora está votando em candidatos como Macri mudou sua mentalidade. Ele apenas está apostando suas fichas em outro. Por isso, é de se temer que o fim do ciclo populista seja sucedido por um novo ciclo "neoliberal" que uma vez tendo saneado a economia, prepare o início de um futuro o ciclo populista. O que precisa ser feito é quebrar os ciclos, parar de repetir fórmulas passadas. Mas isso só será feito no dia em que o eleitor for seduzido por ideias, e não por benesses.
A própria presença de ciclos na história de um país ou região já é mau agouro. Denota uma repetição compulsiva, uma incapacidade de romper com o passado e seguir adiante. Na América Latina, nenhum país sofre mais desta síndrome do que a Argentina desde o primeiro governo Perón. Estando o país com um formidável saldo na balança comercial no fim da guerra, em consequência das exportações feitas aos países beligerantes, Perón pôde proporcionar a seus concidadãos muitos anos de bonança enquanto o cofre esteve abastecido. Depois que acabou, os argentinos associaram os maus tempos à ausência do caudilho, e desde então têm procurado de todas as maneiras reviver o peronismo, mesmo que tenham que fazer o casal Evita/Perón reencarnar no casal Kirschner. De fato, os argentinos já reconduziram os peronistas ao poder mesmo em situações bem piores que a atual, daí que não foi sem surpresa que eu vi a vitória de Macri.
Protótipo do caudilhismo populista, Perón inaugurou na América Latina um ciclo nefasto, repetido em variadas épocas e locais. A fórmula consiste de raspar até o fundo do cofre a fim de comprar o apoio do povão, e depois que o dinheiro acaba, baixar o cacete. Se não é estabelecida uma ditadura, a eleição seguinte fatalmente tira os populistas do poder. Tenho visto divertidas teorias em forum´s por aí, taxando o povo de ingrato. Dizem que o governo popular tira o povão da pobreza e o transforma em classe média; enriquecido, o povão passa a se identificar com a oligarquia e vota na direita; no poder, a direita os faz voltar à pobreza. Não é nada disso. Indivíduos que ascendem à classe média podem de fato incorporar os valores de sua nova classe social, mas a classe média na América Latina é minoritária e não decide eleição. Quem tira os populistas do poder é o mesmo eleitor pobre que os levou ao poder, decepcionado com as promessas não cumpridas e com o fim das benesses. Nada de veleidade ideológicas aí.
Mas simetricamente, é ilusório achar que o eleitor que agora está votando em candidatos como Macri mudou sua mentalidade. Ele apenas está apostando suas fichas em outro. Por isso, é de se temer que o fim do ciclo populista seja sucedido por um novo ciclo "neoliberal" que uma vez tendo saneado a economia, prepare o início de um futuro o ciclo populista. O que precisa ser feito é quebrar os ciclos, parar de repetir fórmulas passadas. Mas isso só será feito no dia em que o eleitor for seduzido por ideias, e não por benesses.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Basta de Histórias!
É irônico que em meu blog que tem como tema a História, eu escreva uma postagem com o título Basta de Histórias. Mas esse é o título de um livro que li algum tempo atrás, do jornalista argentino Andrés Oppenheimer. O livro veio-me à cabeça depois de haver lido um artigo no Jornal GGN intitulado Brasil tem mais faculdades de Direito que todos os países.
O artigo afirma que existem 1.240 cursos de Direito no Brasil, contra 1.100 em todo o resto do mundo somado. A informação me é surpreendente, e não vou discutir aqui sua veracidade ou não, por falta de dados. Vou comentar que o autor viu nessa proliferação de advogados um mau sinal, evidência de insegurança jurídica, sem contar que a quantidade é inimiga da qualidade. Um comentarista colocou:
Nesse ponto lembrei-me do citado livro. Andrés Oppenheimer analisa o fato de em sua Argentina natal, e possivelmente em todo o resto da América Latina, os estudantes de História e Filosofia superam em número os estudantes de Engenharia e Informática, e contrapõe ao que acontece na China, onde a esmagadora maioria dos estudantes opta por cursos na área tecnológica, muito embora a China tenha uma História e um legado em Filosofia muito maiores e mais antigos que a Argentina. Nada a ver com o fato da China estar crescendo a largos passos enquanto a América Latina marca passo? Certamente que não!
Sem cair na discussão inútil sobre quem é mais útil ao país, o engenheiro ou o advogado - ambas funções essenciais e não conflitantes - vou direto à raiz do problema: a ambição da grande maioria dos estudantes brasileiros não é inventar uma engenhoca e fundar sua própria empresa, mas passar em um concurso público. E são os cursos de humanas, em especial Direito, os mais requisitados para os concursos. Algo de errado nisso? Sim. Todos sabem que funcionários públicos estão presos a planos de carreira e têm vencimentos tabelados. Se o funcionário enriquece, não é com seus vencimentos. E se o ideal de ascenção social é uma carreira no funcionalismo público, ou há um erro de cálculo ou segundas intenções. Estudantes que optam por tal carreira deveriam fazê-lo por vocação específica, e não por desejo de enriquecer - nesse caso, deveriam ter como ideal entrar na iniciativa privada e fundar suas próprias empresas.
Funcionários e burocratas são essenciais para um país, mas não produzem riqueza. Só haverá recursos para a expansão de carreiras e novos concursos se aqueles que pagam impostos forem prósperos. Do contrário, a grande maioria dos estudantes que sonham passar em um concurso jamais atingirá o seu objetivo. Quanto tempo levará até que entendam isso?
O artigo afirma que existem 1.240 cursos de Direito no Brasil, contra 1.100 em todo o resto do mundo somado. A informação me é surpreendente, e não vou discutir aqui sua veracidade ou não, por falta de dados. Vou comentar que o autor viu nessa proliferação de advogados um mau sinal, evidência de insegurança jurídica, sem contar que a quantidade é inimiga da qualidade. Um comentarista colocou:
É como eu sempre digo: pobre do país que produz mais advogados do que engenheiros.... É sintoma de algo está muito, mas muito errado.
Nesse ponto lembrei-me do citado livro. Andrés Oppenheimer analisa o fato de em sua Argentina natal, e possivelmente em todo o resto da América Latina, os estudantes de História e Filosofia superam em número os estudantes de Engenharia e Informática, e contrapõe ao que acontece na China, onde a esmagadora maioria dos estudantes opta por cursos na área tecnológica, muito embora a China tenha uma História e um legado em Filosofia muito maiores e mais antigos que a Argentina. Nada a ver com o fato da China estar crescendo a largos passos enquanto a América Latina marca passo? Certamente que não!
Sem cair na discussão inútil sobre quem é mais útil ao país, o engenheiro ou o advogado - ambas funções essenciais e não conflitantes - vou direto à raiz do problema: a ambição da grande maioria dos estudantes brasileiros não é inventar uma engenhoca e fundar sua própria empresa, mas passar em um concurso público. E são os cursos de humanas, em especial Direito, os mais requisitados para os concursos. Algo de errado nisso? Sim. Todos sabem que funcionários públicos estão presos a planos de carreira e têm vencimentos tabelados. Se o funcionário enriquece, não é com seus vencimentos. E se o ideal de ascenção social é uma carreira no funcionalismo público, ou há um erro de cálculo ou segundas intenções. Estudantes que optam por tal carreira deveriam fazê-lo por vocação específica, e não por desejo de enriquecer - nesse caso, deveriam ter como ideal entrar na iniciativa privada e fundar suas próprias empresas.
Funcionários e burocratas são essenciais para um país, mas não produzem riqueza. Só haverá recursos para a expansão de carreiras e novos concursos se aqueles que pagam impostos forem prósperos. Do contrário, a grande maioria dos estudantes que sonham passar em um concurso jamais atingirá o seu objetivo. Quanto tempo levará até que entendam isso?
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
As Duas Heranças de JK
Diante do desolador panorama político da atualidade, a tentação é voltar o olhos para o passado, buscando se não uma explicação para o presente, ao menos o conforto de rememorar uma época em que o grande embate se fazia entre personagens como Juscelino Kubitchek e Carlos Lacerda, ao invés de Dilma Rousseff e Eduardo Cunha. Um certo artigo publicado no Jornal GGN sobre JK chamou-me a atenção.
O artigo recorda a difícil eleição e o conturbado governo de Juscelino, perturbado no início por uma rebelião de militares da aeronáutica e até o final pela furiosa oposição de Lacerda. Apesar de tais percalços, os anos JK são hoje recordados como uma época radiosa, e o autor dá a sua versão para explicar: Juscelino preocupou-se em criar um clima de confiança que permitisse a colaboração de todos em prol de seu projeto político, e com este fim evitou confronto com seus adversários, anistiou revoltosos e não puniu corruptos.
Pareceu-me mais um subterfúgio para justificar a corrupção petista: o certo é deixar roubar, como fez Juscelino, que o país progredirá e todos serão felizes. Mas dá para pensar. Tirando a imensa diferença na estatura de seus protagonistas, há alguma semelhança entre os anos JK e a época presente? Eu penso que sim. Seja-se contra ou a favor, é preciso admitir que Juscelino Kubitchek foi um daqueles personagens cuja influência ultrapassa as gerações e molda os costumes políticos. Ele e Vargas foram os dois pilares do nacional-desenvolvimentismo, modelo econômico que marcou o país no século 20, dos anos 30 aos anos 80, tendo em Vargas sua vertente "nacionalista", estatizante, e em JK sua vertente "entreguista", aberta ao capital estrangeiro. Além disso, Juscelino pertence àquela galeria de personagens que são muito criticados em sua época, mas que depois de mortos ganham uma dimensão que não tiveram em vida. Hoje Juscelino é o Pelé dos presidentes, e uma vez transformada a História em romance, assume o papel do galã-mocinho, enquanto o papel de vilão cabe a Carlos Lacerda.
É claro que no mundo real as coisas são mais complicadas, e nem Juscelino foi santo, nem Lacerda foi demônio, ambos foram personagens de uma época específica que não podem ser julgados em separado do contexto desta época. É fora de dúvida, contudo, que Juscelino foi o último presidente que teve um projeto bem delineado e genuíno entusiasmo para realiza-lo. Mesmo seus adversários reconhecem a honestidade de suas intenções e sua generosidade natural. Juscelino foi tudo isso, sim. Mas também foi ingênuo. Ele fez o país progredir "50 anos em 5", mas pagou a conta com dinheiro de banco imobiliário - ou seja, fez o povo pagar a conta por intermédio da inflação. Como se sabe, a crise sobrou para seus sucessores e foi decisiva para o enfraquecimento e posterior queda dos dois governos que vieram em seguida, de Jânio Quadros e Goulart. Outro erro enorme foi a anistia dada aos revoltosos, que minou a disciplina nas forças armadas, e o resultado foi o que se viu. Desnecessário lembrar que os perdoados não perdoaram JK, que foi cassado e humilhado.
Tanto o país quanto o próprio JK pagaram um alto preço pela euforia dos 50 anos em 5. A par de suas portentosas realizações, Juscelino deixou duas heranças nefastas para o país, uma econômica e outra política, que chegaram até os dias de hoje e à crise atual.
A má herança econômica foi a crença, até hoje endossada por muita gente, de que "um pouquinho de inflação" é essencial para o desenvolvimento. Mas produzir inflação nada mais é do que criar um imposto invisível sem passar pelo parlamento, de modo a obrigar o povo a cobrir os rombos das conta do governo com a perda de eu poder aquisitivo. A ingenuidade de JK a respeito foi bem apontada por Roberto Campos, então ministro: em seu livro de memórias, ele citou uma conversa que teve com o presidente, quando ele afirmou ser contra emitir dinheiro para aumentar o número de funcionários, mas a favor quando se tratava de promover o desenvolvimento. Como se a cédula que sai da prensa da Casa da Moeda estivesse ciente de servir ou não ao desenvolvimento do país, comentou o velho Bobby Fields...
A má herança política foi a crença, também até hoje endossada por muita gente, de que os crimes não devem ser apurados a fim de se preservar um clima político "bom", que permita ao governo tocar seu projeto. Assim, se há corrupção, é preciso deixar roubar, pois processar os corruptos vai prejudicar os negócios. Se há revoltas, é preciso anistiar os revoltosos, pois processa-los irá endurecer a oposição e prejudicar a governabilidade. É uma crença messiânica em um futuro radioso que precisa ser alcançado a todo custo, pois uma vez alcançado, todos os crimes do passado supostamente se tornarão pecadilhos sem importância...
JK jamais foi igualado, mas fez escola. Todo jogador de futebol quer ser Pelé, e todo político quer ser JK. As duas heranças nefastas moldaram a opinião de milhões de personalidades, influentes ou não, e em toda parte há gente fazendo hercúleos esforços retóricos para vender a ideia de que o governo, para ser tão benéfico quanto foi o governo JK, precisa abandonar a austeridade fiscal e deixar roubar, pois inflação e corrupção são necessárias ao desenvolvimento. Mas não haverá outro JK, apenas imitadores medíocres, até que o país se convença de que construir prisão pode ser mais urgente do que construir viaduto, e que moldar o caráter é mais importante do que moldar a infraestrutura física.
O artigo recorda a difícil eleição e o conturbado governo de Juscelino, perturbado no início por uma rebelião de militares da aeronáutica e até o final pela furiosa oposição de Lacerda. Apesar de tais percalços, os anos JK são hoje recordados como uma época radiosa, e o autor dá a sua versão para explicar: Juscelino preocupou-se em criar um clima de confiança que permitisse a colaboração de todos em prol de seu projeto político, e com este fim evitou confronto com seus adversários, anistiou revoltosos e não puniu corruptos.
Pareceu-me mais um subterfúgio para justificar a corrupção petista: o certo é deixar roubar, como fez Juscelino, que o país progredirá e todos serão felizes. Mas dá para pensar. Tirando a imensa diferença na estatura de seus protagonistas, há alguma semelhança entre os anos JK e a época presente? Eu penso que sim. Seja-se contra ou a favor, é preciso admitir que Juscelino Kubitchek foi um daqueles personagens cuja influência ultrapassa as gerações e molda os costumes políticos. Ele e Vargas foram os dois pilares do nacional-desenvolvimentismo, modelo econômico que marcou o país no século 20, dos anos 30 aos anos 80, tendo em Vargas sua vertente "nacionalista", estatizante, e em JK sua vertente "entreguista", aberta ao capital estrangeiro. Além disso, Juscelino pertence àquela galeria de personagens que são muito criticados em sua época, mas que depois de mortos ganham uma dimensão que não tiveram em vida. Hoje Juscelino é o Pelé dos presidentes, e uma vez transformada a História em romance, assume o papel do galã-mocinho, enquanto o papel de vilão cabe a Carlos Lacerda.
É claro que no mundo real as coisas são mais complicadas, e nem Juscelino foi santo, nem Lacerda foi demônio, ambos foram personagens de uma época específica que não podem ser julgados em separado do contexto desta época. É fora de dúvida, contudo, que Juscelino foi o último presidente que teve um projeto bem delineado e genuíno entusiasmo para realiza-lo. Mesmo seus adversários reconhecem a honestidade de suas intenções e sua generosidade natural. Juscelino foi tudo isso, sim. Mas também foi ingênuo. Ele fez o país progredir "50 anos em 5", mas pagou a conta com dinheiro de banco imobiliário - ou seja, fez o povo pagar a conta por intermédio da inflação. Como se sabe, a crise sobrou para seus sucessores e foi decisiva para o enfraquecimento e posterior queda dos dois governos que vieram em seguida, de Jânio Quadros e Goulart. Outro erro enorme foi a anistia dada aos revoltosos, que minou a disciplina nas forças armadas, e o resultado foi o que se viu. Desnecessário lembrar que os perdoados não perdoaram JK, que foi cassado e humilhado.
Tanto o país quanto o próprio JK pagaram um alto preço pela euforia dos 50 anos em 5. A par de suas portentosas realizações, Juscelino deixou duas heranças nefastas para o país, uma econômica e outra política, que chegaram até os dias de hoje e à crise atual.
A má herança econômica foi a crença, até hoje endossada por muita gente, de que "um pouquinho de inflação" é essencial para o desenvolvimento. Mas produzir inflação nada mais é do que criar um imposto invisível sem passar pelo parlamento, de modo a obrigar o povo a cobrir os rombos das conta do governo com a perda de eu poder aquisitivo. A ingenuidade de JK a respeito foi bem apontada por Roberto Campos, então ministro: em seu livro de memórias, ele citou uma conversa que teve com o presidente, quando ele afirmou ser contra emitir dinheiro para aumentar o número de funcionários, mas a favor quando se tratava de promover o desenvolvimento. Como se a cédula que sai da prensa da Casa da Moeda estivesse ciente de servir ou não ao desenvolvimento do país, comentou o velho Bobby Fields...
A má herança política foi a crença, também até hoje endossada por muita gente, de que os crimes não devem ser apurados a fim de se preservar um clima político "bom", que permita ao governo tocar seu projeto. Assim, se há corrupção, é preciso deixar roubar, pois processar os corruptos vai prejudicar os negócios. Se há revoltas, é preciso anistiar os revoltosos, pois processa-los irá endurecer a oposição e prejudicar a governabilidade. É uma crença messiânica em um futuro radioso que precisa ser alcançado a todo custo, pois uma vez alcançado, todos os crimes do passado supostamente se tornarão pecadilhos sem importância...
JK jamais foi igualado, mas fez escola. Todo jogador de futebol quer ser Pelé, e todo político quer ser JK. As duas heranças nefastas moldaram a opinião de milhões de personalidades, influentes ou não, e em toda parte há gente fazendo hercúleos esforços retóricos para vender a ideia de que o governo, para ser tão benéfico quanto foi o governo JK, precisa abandonar a austeridade fiscal e deixar roubar, pois inflação e corrupção são necessárias ao desenvolvimento. Mas não haverá outro JK, apenas imitadores medíocres, até que o país se convença de que construir prisão pode ser mais urgente do que construir viaduto, e que moldar o caráter é mais importante do que moldar a infraestrutura física.
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