terça-feira, 21 de abril de 2015

Deixem o PT roubar, senão...

Tenho acompanhado a argumentação apresentada pelos simpatizantes do PT desde que se tornou notório o imenso esquema de corrupção protagonizado por este partido antes tido como a vanguarda da ética na política. Compreendem três fases distintas. Na primeira, negam as acusações. Na segunda, já não negam, mas acusam seus adversários de fazer o mesmo. Na terceira, assumem o que fizeram, mas afirmam que tal foi benéfico para o povo ou simplesmente necessário para seu projeto político.

Esta cara dura não me impressiona tanto assim, pois quem conhece a História sempre soube que o combate à corrupção jamais foi uma bandeira da esquerda. Não há motivo para sê-lo, pois quem empunha essa bandeira endossa uma moral burguesa: a proibição de roubar, derivada do tabu da inviolabilidade da propriedade privada. Ora, quem professa uma ideologia de inspiração marxistas ou anarquista necessariamente não reconhece o princípio da inviolabilidade da propriedade privada, e portanto não tem motivo algum para condenar a corrupção. Se alguém ainda insistir que roubar é moralmente errado, pode-se afirmar que a corrupção seria inerente ao sistema capitalista e só poderia ser eliminada junto com este - assim, o combate à corrupção, antes da liquidação do capitalismo, é inútil, e após, desnecessário. Por conseguinte, não há sentido para um militante de esquerda clamar por ética na política, e de fato, na História do Brasil, esse discurso tem sido mais típico dos partidos conservadores, apropriadamente taxado pela esquerda de "udenismo" e dito ser mero subterfúgio para derrubar governos legitimamente eleitos. Só com o surgimento do PT, na década de oitenta, essa tendência se inverteu à medida em que esse partido apresentava-se como reformador dos costumes políticos e paladino da ética, sempre atacando e eventualmente derrubando governos corruptos, e desde então, no senso comum daqueles cuja memória histórica é curta, estabeleceu-se a noção de que a luta anti-corrupção é uma bandeira da esquerda e que só a direita é corrupta.

Essa noção foi violentamente virada de cabeça para baixo tão logo o PT assumiu o poder, surpreendendo os ingênuos. Repetindo o que disse, eu próprio não me surpreendi, mas admito sentir um certo mal-estar nesse momento em que vejo a maioria dos apoiadores do PT chegando à fase 3 - aquela em que o malfeito é assumido e justificado. Como diz o ditado, a hipocrisia é a última homenagem que o vício presta à virtude. O que virá depois? Assusta-me que alguns artigos escritos por apologistas do PT sejam ponderados e bem embasados, sem tanta necessidade de recorrer ao cinismo. Um exemplo foi esse aqui de Luís Nassif. que encontrei no GGN. Destaca um suposto desastre político e econômico que a Operação Mãos Limpas teria provocado na Itália, e adverte para a possibilidade do mesmo ocorrer aqui, quando o juiz Sérgio Moro repete os métodos da Operação Mãos Limpas.

Afirma ele, a corrupção sempre fez parte dos costumes políticos italianos desde o tempo dos Médici, e a eliminação desta prática teria surtido consequências políticas e econômicas desastrosas, com a destruição do sistema político do pós-guerra, e liquidação dos quatro principais partidos políticos italianos - o Democrata Cristão, o Socialista, o Social Democrata e o Liberal - bem como de numerosas empresas privadas e estatais. Após a guerra, a Itália experimentara impressionante recuperação econômica e chegou ao posto de 5a economia do mundo, os empresários eram pujantes e criativos, o povo vivia feliz em meio à roubalheira dos políticos. Depois, acabou a esfuziante dolce vita: a economia estagnou, os empresários foram para a cadeia ou faliram, e no vácuo criado pela destruição do sistema político penetraram aventureiros como Sílvio Berlusconi. Conclui o autor, na construção das grandes economias há mais barões ladrões do que monges mendicantes.

Embora haja uma repulsa instintiva em assumir que a corrupção é melhor que a honestidade, é preciso admitir que tudo o que Luís Nassif argumentou é rigorosamente verdadeiro. A Itália, de fato, passou por um período de rápido crescimento até o início da Operação Mãos Limpas, desde então passa por um prolongado declínio econômico, e Berlusconi foi de fato um governante desastrado. Mas... será que foi mesmo a eliminação da corrupção que causou tudo isso?

É uma questão instigante, ainda mais porque cai em um terreno perigosamente fértil: nós aqui no Brasil também temos um longo caso de amor com a falta de ética. Fomos nós que romantizamos a malandragem, fomos nós que criamos o personagem Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, e temos sempre disposição para incensar todo tipo de personagem sem caráter, bem como para eleger e reeleger todo tipo de político ladrão. Enfim, não faltam argumentos para afirmar que a corrupção é indissociável do caráter brasileiro, e portanto ela é boa e necessária ao funcionamento de nossa sociedade. A mensagem é: deixem o PT roubar em paz, senão... acabaremos igual à Itália!

Devemos engolir isso?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Por que a corrupção aumentou nas obras públicas?

O assunto do dia é a terceirização, objeto de uma lei que está em debate na câmara, com a finalidade de permiti-la em todas as atividades de uma empresa. Os argumentos pró e contra são aqueles rasos e maniqueístas de sempre: a terceirização é "precarização" do trabalho, mas vai garantir o aumento das contratações, etc. Mas em meio a essa balbúrdia eu encontrei aqui um raro artigo melhor elaborado que procura correlacionar a terceirização com o aumento da corrupção nas obras públicas.

O autor afirma que o notório aumento da corrupção nas obras públicas foi a consequência do desmonte dos departamentos de engenharia das estatais. Antes esses departamentos eram responsáveis pelo Projeto Básico, e muitas vezes também o Projeto Executivo, e as empreiteiras ficavam somente com a execução, fiscalizadas de perto pelos engenheiros da empresa. Assim minimizavam-se as oportunidades de adendos contratuais e mudanças nos projetos com o fim de encarecer a obra. Com a terceirização, isso acabou: as empreiteiras ficaram com todo o projeto na mão, e puderam deitar e rolar.

Bom artigo, muito racional e honesto, mas faltou responder uma questãozinha essencial: se os departamentos de engenharia das estatais eram tão bons assim, por que motivo eles foram desmontados?

Os petistas vão bradar que a culpa é dos tucanos que sucatearam as empresas em sua busca pelo "estado mínimo", e os tucanos vão bradar que o PT, uma vez no poder, nada fez para mudar esse estado de coisas, muito pelo contrário. Mas se quisermos dar seguimento ao tom de honestidade deste artigo, tempos que ir à raiz do problema. Eu já trabalhei em empresa estatal mais de uma vez, tanto como terceirizado quanto como concursado, e posso dizer que conheço o problema por dentro, e por suas duas vertentes. Seja lá o que foi que aconteceu, ocorreu entre o fim do regime militar e o atual governo. O autor do artigo foi honesto bastante para expor aqui uma verdade muito embaraçosa, que todo o mundo sabe mas ninguém diz: no tempo dos militares havia bem menos corrupção nas estatais. E olha que não era para ser assim, pois no tempo deles havia censura e se eles quisessem, qualquer escândalo podia ser abafado. Veio a democracia, acabou a censura. Então, o que deu errado?

A raiz do problema da terceirização, a meu ver, é a própria CLT, que com o tempo tornou-se tão complicada, arriscada e onerosa, que os empregadores acharam preferível pagar a conta altíssima dos atravessadores de mão-de-obra. Mas no que diz respeito às firmas estatais, existe um considerável agravante: a enorme burocracia para fazer contratações, em razão da obrigatoriedade de concurso público. Não sei se vocês fazem ideia de como é demorado e custoso realizar um concurso público. Primeiro tem que ter previsão orçamentária. Aí tem que publicar o edital, fazer as provas, corrigir, formar o cadastro reserva, e só pode chamar de um em um, conforme a classificação na lista. Imagine que a empresa necessita urgente de um profissional com determinado perfil. Não há tempo para fazer um concurso, e mesmo se houvesse, não compensaria fazer concurso para preencher uma só vaga. Mesmo se houver sobras do cadastro reserva do último concurso, pode não haver ali um profissional com o perfil requerido, e se houver, ele pode estar em uma posição mais atrás na lista e não pode ser chamado antes dos outros que estão na frente. Simplesmente não há outra alternativa além da terceirização!

No tempo dos militares, as pessoas eram mais honestas? Não creio. Eu penso que a explicação é outra: no tempo dos militares a CLT era menos complicada e havia menos burocracia para as empresas estatais contratarem, sem tanta exigência de concurso público. A teoria que eu tenho para explicar a decadência e o desmonte dos departamentos de engenharia é a seguinte: com o tempo, as contratações foram ficando tão difíceis que os departamentos não puderam ser renovados à medida em que os engenheiros saíam, se aposentavam ou morriam. Chegou um momento em que não houve outra alternativa senão terceirizar tudo, do projeto à execução.

Como solucionar esse impasse?

Voltando à raiz do problema, é preciso rever a CLT, que se tornou totalmente obsoleta. No caso específico das estatais, é preciso que elas tenham a mesma liberdade quanto à gestão de seu pessoal de que desfrutam as empresas privadas. Quando uma empresa privada necessita de um profissional, ela vai no mercado e o contrata sem mais delongas. Então, ou se privatiza de uma vez todas as empresas, ou se acaba com a obrigatoriedade de concurso público, mesmo porque concurso público é algo indicado somente para funcionários públicos, pessoas que exercem funções de responsabilidade que exigem uma formação específica - fiscais, auditores, juízes, etc.

Se isso for feito, penso que a terceirização retornará a seu escopo original - as atividades contratadas como empreitada, com prazo para terminar. Afinal, ao contrário do que muitos pensam, terceirizar não sai barato: as empresas alocadoras de mão-de-obra cobram cerca do triplo do salário em carteira de cada trabalhador alocado. O empregador, invariavelmente, se dispõe a pagar um valor X por cada empregado, valor esse determinado pelo mercado de trabalho. Se desse valor, um total y será descontado na forma de encargos trabalhistas pela CLT ou na forma de pagamento à empresa terceirizada, isso é indiferente para o empregador: ele desembolsou X, e ponto final. Mas não é indiferente para o empregado, que recebe X - y em seu contracheque. Acredito que para o trabalhador, interessante seria se ele recebesse o valor X integralmente - sem nem o Estado, nem o atravessador de mão-de-obra no caminho.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O Brasil e o Mundo Ocidental

Pouca gente se dá conta, e dos que dão conta, poucos dão a devida importância ao assunto, mas uma descoberta que fiz recentemente, e que chamou minha atenção, foi que boa parte do Mundo Ocidental não considera o Brasil parte do Mundo Ocidental. Outros também - jornalistas, acadêmicos - fizeram a mesma descoberta, com surpresa e alguma apreensão: o professor de literatura Alex Castro, trabalhando em uma universidade norte-americana, descobriu que seus alunos matricularam-se em seu curso porque queriam ter contato com uma literatura não-ocidental. O jornalista Guga Chacra fez a mesma descoberta. E a também jornalista Gisela Anauate conta como descobriu em Paris que não era ocidental.

Faz diferença? Essa podia ser uma discussão bizantina sobre conceitos subjetivos, mas faz diferença, sim. Por detrás da exclusão do Brasil do imaginário ocidental, há posturas pessoais e atitudes que podem efetivamente prejudicar-nos. Não confio em quem pensa isso de mim. Podemos afirmar: afinal, acreditem ou não, nós somos parte do ocidente, como provam nossa colonização, nossa língua, nossa religião, nossa cultura, nossa inserção em uma História européia que teve início quando Cristóvão Colombo aportou neste continente. Inútil: não se pode provar, cabalmente, que pertencemos ao Mundo Ocidental, pois esse conceito não tem uma definição estabelecida, mas pertence ao senso comum. O senso comum, como se sabe, muda com o tempo, e na época atual a ideia de Ocidente está ligada aos valores políticos e econômicos tornados dominantes a partir da hegemonia mundial européia. Pertencem ao Ocidente os países da Europa Ocidental, Os EUA, o Canadá, a Austrália e Nova Zelândia, pois são capitalistas, ricos e democráticos. O Brasil e o restante da América Latina não pertencem ao Mundo Ocidental porque são pobres. Ponto. Mas seguindo essa linha de raciocínio, o Japão também é incluído no Mundo Ocidental porque, afinal, também é capitalista, rico e democrático.

A inclusão do Japão parece-me ainda mais absurda que a exclusão do Brasil. O Japão tem sua própria civilização, a qual, tendo cinco mil anos de História, é mais antiga que a própria civilização ocidental, que tem apenas dois mil anos. O caso é que a acepção em uso do conceito de Ocidente exclui toda referência cultural. Tornou-se um paradigma, reduzido de fato a sinônimo de Primeiro Mundo. Entretanto, se o senso comum pode modificar o sentido das palavras, não pode apagar o significado anterior, pois este continua registrado em impressos e na memória das pessoas: ocidente, no dicionário, ainda significa um lugar específico do mapa, e no contexto da presente discussão, sabemos que este lugar é a Europa Ocidental, e não outra parte do mundo. Uma vez que o Brasil foi colonizado por países da Europa Ocidental e é herdeiro da cultura aqui deixada pelo colonizador, penso que temos motivos pertinentes para afirmar que somos parte do Mundo Ocidental, tanto quanto norte-americanos, canadenses e demais países do Novo Mundo colonizados por europeus.
Uma alternativa para contemporizar seria lembrar que a formação do Brasil não incluiu somente europeus, mas também índios, africanos e asiáticos. Soa bem. Mas não resolve a questão: sob esta lógica, EUA, Canadá e Austrália também seriam países não-ocidentais. No entanto, não são apenas europeus e norte-americanos que querem nos excluir do Ocidente; muitos latino-americanos têm o mesmo propósito, mas com objetivos diferentes. Todos se lembram quando Hugo Chávez, na Venezuela, declarou que não mais comemoraria o dia da descoberta da América, posto que não havia nada a comemorar, uma vez que o que teria de fato ocorrido foi uma invasão que trouxe a desgraça aos povos originários. Esta não é a opinião apenas de líderes carismáticos, muitos antropólogos e historiadores endossam a tese: a civilização latino-americana já existia em 1492 quando foi invadida por europeus. Assim, o que existe hoje nessa parte do globo não seria uma parte da civilização ocidental, mas uma civilização créole, mesclando elementos europeus com ameríndios.

Vale conferir. Há de fato locais da América do Sul e Central - os Andes, o México, o Caribe - onde existem descendentes de antigos povos autóctones que falam a língua e praticam costumes de seus ancestrais. Mas são apenas aqueles poucos grupos étnicos que eram evoluídos e tinham cultura vigorosa quando o europeu chegou. Na maior parte do continente, a população indígena era primitiva e foi totalmente aculturada, deixando como legado apenas vestígios de sua cultura original. O brasileiro pode ser caboclo ou mulato, mas não fala tupi ou ieorubá, fala o português deixado pelo colonizador. Não acredito ser válida, do ponto de vista antropológico, a definição de uma civilização sul-americana original e distinta da civilização ocidental. Ou melhor dizendo, a civilização sul-americana não é uma civilização, mas um gueto, um conceito que foi inventado para aparta-la do Mundo Ocidental.

A quem interessa aparta-la? Do nosso lado, aos nacionalistas exaltados, que desejam afrontar o antigo colonizador, ao mesmo tempo em que cortejam os antigos descendentes de índios e criam um senso de solidariedade com o resto do Terceiro Mundo. Na extremidade oposta, os membros ricos do Mundo Ocidental desejam apartar-nos porque, do contrário, teriam que admitir que o Mundo Ocidental contém países pobres. Uma vez que na conceituação destes, o Ocidente foi reduzido ao paradigma Capitalista-Rico-Democrático, então por definição não existem pobres no ocidente. Vê-se que tanto de um lado quanto do outro a exclusão da América Latina do Ocidente esconde sentimentos mutuamente hostis, senão de baixa paixão, por detrás do arrazoado tecnicista. Nós nos excluímos porque desejamos renegar nossos colonizadores; eles nos excluem porque lhes é vergonhoso compartilhar seus contexto civilizacional com pobres. Uma abordagem desapaixonada, a meu ver, não pode concluir outra coisa senão que a América Latina é um ocidente pobre, e que a civilização ocidental, como toda civilização, também contém partes pobres. De resto, mesmo os membros do Mundo Ocidental tidos atualmente como efetivos não foram sempre ricos, nem foram sempre democráticos. E não custa lembrar que o comunismo, tanto quanto o capitalismo, surgiu no cerne mesmo do Mundo Ocidental antes de espalhar-se pela periferia.

Acredito que devemos, sim, afirmar nossa condição de membros do Mundo Ocidental, ao invés de relativizar a questão. Somos um ocidente pobre, mas tão produto da colonização européia quanto EUA ou Austrália. Abrir mão desse vínculo só tem o efeito de nos deixar à deriva, privados de referenciais, tentando construir do zero uma hipotética civilização latino-americano. O próprio nome é autocontraditório, pois afinal, de que outro lugar veio o latino, senão da Europa? Que eu saiba, o Latium era a região da Itália central onde surgiu Roma. Trata-se de outra mistificação que bem devíamos combater: assim como o conceito de Mundo Ocidental tem sido transmutado em Primeiro Mundo, o conceito de latino tem sido transmutado em não-europeu (ou não-branco), ou seja, o que é originado da América do Sul ou Central. É um erro enorme. Nossa latinidade é o vínculo que nos une ao cerne mesmo da civilização ocidental, que conforme se sabe, é formada pela conjunção da herança greco-romana (ou latina) com a tradição judaico-cristã.

terça-feira, 17 de março de 2015

A classe média, de volta a seu lugar

As manifestações deste domingo ainda estão sendo digeridas pelos observadores, e pipocam aqui e ali conclusões meio disparatadas. Mas desde já noto dois aspectos que não deixam dúvida. Primeiro, ao contrário das manifestações de 2013, desta vez há cartazes dizendo Fora Dilma e Fora PT. Os manifestantes têm um alvo, não estão contra "tudo isso que está aí". Segundo, noto que os manifestantes foram, em sua maioria, integrantes da classe média. Então, pela primeira vez em muitos anos, a classe média e a esquerda estão em campos opostos.

Isso não deveria ser uma contradição. Afinal, a classe média, também conhecida como pequena burguesia, é considerada conservadora e aliada da alta burguesia de acordo com todos os manuais de sociologia. Mas no Brasil, ao menos desde 1964, nos acostumamos a ver a classe média como celeiro de esquerdistas. É fato que o próprio PT, em seus primórdios, teve como esteio a classe média politizada, sobretudo estudantes e intelectuais, antes de cair no gosto do eleitorado-povão. Mas é preciso lembrar também que 1964 foi o ano que viu as últimas manifestações de massa promovidas pela classe média conservadora. Acredito então que o viés esquerdista que a classe média nacional adquiriu desde então foi produto da desilusão com o regime de ditadura que essa própria classe média havia ajudado a colocar no poder.

Mas agora a classe média está desiludida com o regime populista que igualmente ajudou a colocar no poder. Que o PT fosse um dia romper com esta classe que fora o seu esteio, isso era esperado a partir do momento em que este partido obtivesse um eleitorado suficiente para sustenta-lo no poder. Ora, a grande massa dos eleitores é pobre, nunca compartilhou dos valores tradicionais da classe média, e se o PT agora depende deste eleitor, é a ele que deve atender, e pode até dispensar o apoio da classe média, numericamente insuficiente para sustentar um partido majoritário. O PT serviu-se da classe média, tal como escada que usou para chegar ao topo, e depois de galgar o último degrau, chutou-a.

Isso é mau? De certa maneira, não. Isso fez as coisas voltarem a seu lugar e recolocou a classe média em sua posição natural de antagonista da esquerda, conforme pode ser percebido nos adjetivos com que tem sido brindada pelos militantes governistas. A farsa terminou. Mas convém lembrar: se a classe média é pouco relevante numericamente, ela é muito relevante culturalmente, capaz de gestar e veicular ideias que se propagam pelos núcleos de poder. Para o bem ou para o mal. O que virá desta vez?

quinta-feira, 12 de março de 2015

É viagem, ou a história se repete?

Impeachment, impeachment, impeachment, estou ouvindo essa palavra a toda hora. Não acredito em impeachment de Dilma Roussef, pois rigorosamente falando, isso não interessa a ninguém, posto que o mais vantajoso para os opositores é deixar a presidente se queimar até o toco, de modo que a eleição de 2018 seja disputada com um PT beijando a lona. Se Dilma sair, quem a substituir vai ter que segurar o rojão - e ninguém está a fim.

É possível, contudo, que uma hora Dilma seja forçada a renunciar, e isto seja exigido pelo próprio PT, que em breve estará engajado na campanha de Lula para 2018 e será crucial não permitir que a imagem elameada de Dilma suje a imagem imaculada de Lula. Engana-se quem julga que Lula sai perdendo com a queda de Dilma - ele é uma liderança carismática, baseada em sua própria pessoa (ou mais exatamente, no personagem que ele criou) então sempre soube desvincular a pessoa do partido. Lula é Lula, o PT é o PT. Acredito que, em determinado momento, Lula vai anunciar seu rompimento com Dilma, dizer que a culpa foi toda dela e que ele não sabia de nada, e lançar sua candidatura. Comparando os tempos bons de Lula com os tempos maus de Dilma, o eleitorado vai desejar ardentemente a volta dos bons tempos, e pode dar a Lula uma espetacular vitória. Assim, ironicamente, o debacle de Dilma e do PT, tal como o movimento de uma gangorra, pode servir para alavancar o retorno triunfal de Lula à presidência.

Mas falava de impeachment, e minha memória trouxe-me de volta ao tempo em que eu escutei pela primeira vez essa palavra: era 1974 e eu era garoto. O todo-poderoso presidente americano, Richard Nixon, estava ameaçado de um impeachment e terminou por renunciar. Estou notando curiosos paralelos entre este episódio e o momento político atual do Brasil - será que a História é reencenada com diferentes atores em diferentes teatros, em épocas distintas? Pouco antes, Nixon estava ultra desgastado em razão da guerra do Vietnam, e as eleições de 1972 estavam chegando. Mas sendo ele uma raposa velha tão esperta quanto o nosso Lula, subitamente anunciou como sua plataforma o fim imediato da guerra. De um instante para outro, todas as expectativas se inverteram e Nixon obteve uma das vitórias mais acachapantes da história norte-americana.

Mas dois anos depois, ele caía, vítima de um impeachment...

quarta-feira, 4 de março de 2015

A evolução da corrupção no Brasil: tentando decifrar

Uma sensação generalizada e inequívoca no momento atual é de que nunca houve tanta corrupção no Brasil. E como ela vem em um crescendo desde a descoberta do mensalão em 2005, não há qualquer vislumbre de onde iremos parar. Não se vê a luz no fim do túnel nem o fundo do poço. Sem dúvida que nada disso é novidade por estas bandas, mas ainda assim ficamos com uma sensação de promessa desfeita, de que as coisas não encaixam e as informações são contraditórias, agridem nosso senso comum. Como é possível que o auge da corrupção coexista com uma geral conformidade da população, a ponto do governo haver sido reeleito poucos meses atrás? A corrupção não vinha diminuindo desde o impeachment de Collor? Os últimos governos não têm tido cada vez mais respaldo popular, então não deveriam encampar cada vez mais o desejo geral do povo em acabar com a corrupção? Como é que pode estar tudo andando para trás agora?

Mas todo paradoxo nada mais é do que uma observação incompleta da realidade, que tem como consequência uma divergência entre a realidade observada e o senso comum. A rigor, não há nenhuma contradição, tudo o que está acontecendo é o esperado. O primeiro erro foi acreditar que o fim da corrupção é uma aspiração geral do povo brasileiro. Se fosse assim, esse mesmo povo não reelegeria políticos sabidamente ladrões. O fim da corrupção é uma aspiração da classe média que paga impostos e se sente roubada, mas a classe média é minoritária e não decide eleição. A maior parte do eleitorado, sobretudo nos estados mais pobres, é dispensada de pagar impostos diretos porque não tem renda suficiente, ou porque vive na informalidade (é verdade que pagam os impostos indiretos embutidos no custo das mercadorias, mas como esses não são sentidos, não têm valor didático). Então, esse eleitor não se sente pessoalmente lesado ao saber que seu candidato roubou um dinheiro que não saiu do bolso dele. Vale a regra do Rouba-Mas-Faz que vem do tempo de Adhemar, e bem ou mal, o PT fez coisas que redundaram em benefício dos mais pobres. O povo só não tolera o Rouba-E-Não-Faz, e como o dinheiro acabou, parece-me que já estamos entrando nesse estágio.

O segundo erro do senso comum foi creditar aos partidos de esquerda uma condição moral superior, oposta à corrupção. Este equívoco vem desde o tempo do combate á ditadura: víamos os partidos de esquerda como os porta-vozes dos valores pisados. Mas observando a História a partir de um horizonte mais antigo, anterior à ditadura, vemos que o discurso moralizante sempre foi mais característico dos partidos de direita representantes da classe média pagadora de impostos. Tanto que esse discurso ganhou o apelido de "udenismo" dado pelas esquerdas, referindo-se à UDN, o partido que se opunha ao trabalhismo varguista, notório pelas denúncias de corrupção. O denuncismo da UDN, diziam, era uma estratégia para fomentar um golpe de estado - qualquer semelhança com os dias atuais não e mera coincidência. E a rigor, não há qualquer fundamentação filosófica para crer que os partidos de esquerda sejam inimigos figadais da corrupção, pois o se assim fossem estariam endossando valores burgueses - a proibição de roubar é um tabu originado da inviolabilidade da propriedade privada, princípio que não é reconhecido pela ideologia marxista que embala os partidos de esquerda. A miragem de uma esquerda moralizante foi produto da ingenuidade da classe média que aplaudiu o PT nos estertores do regime militar. Esqueceram-se de que o público das esquerdas nunca foi a classe média, e sim as massas, aquelas mesmas que não pagam impostos e não se incomodam com a corrupção.

Enfim, nada há de contraditório no que estamos vendo. A inocência foi perdida e voltamos às origens.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Mas afinal, os blog´s estão acabando?

Dizem que as redes sociais estão acabando com os blog´s, pois proporcionam uma interatividade muito maior e um público também maior. Isso para mim é lamentável. Nada contra as redes sociais, inclusive tenho Facebook. Apenas acho que uma coisa não tem a ver com a outra, tanto que nem coloco aqui o endereço de meu Facebook. Redes sociais são para contatos sociais, e o meu perfil ali interessa somente a meu reduzido círculo social e familiar. Blog´s são voltados para assuntos específicos, neste aqui nunca falei de mim mesmo, mesmo porque não considero a minha pessoa um tema assim tão interessante. Estou aqui para falar de História e Política.

Entretanto, eu tenho mesmo observado que meus blog´s favoritos estão com cada vez menos frequentadores. Será que todos preferem agora reunir-se no Facebook? Lá eu me sinto como na hora do recreio dos antigos colégios, aquele burburinho de todos falando ao mesmo tempo sobre os mais variados assuntos. Nada contra, desde que você só queira falar abobrinha. Nos blog´s, eu me sinto como em um grupo de estudos. Numerosos blog´s que já encontrei por aí são de nível altíssimo, inclusive superiores aos que você encontra na mídia comercial. Penso que na internet, como em tudo, quantidade não é qualidade.

Longa vida aos blog´s! Ou se vão encolher, espero que ganhem em qualidade.