Li recentemente um artigo de José Maria e Silva, reproduzido aqui no Jornal Opção, comentando uma recente reportagem do Fantástico sobre os privilégios que são concedidos nos presídios aos líderes das facções criminosas. Não é novidade. Sabe-se há tempos que os líderes de tais facções gozam nos presídios de inúmeros privilégios inconcebíveis para bandidinhos comuns, como celas bem equipadas, comida farta, o direito de realizar festas e churrascos, receber mulheres, e principalmente comandar seus negócios por telefone e extorquir os outros presos. O que José Maria chamou atenção foi para o enfoque distinto que a reportagem da Globo deu ao secretário de segurança de Goiás, do PSDB, e o secretário de segurança do Rio Grande do Sul, governado pelo PT.
Edemundo Dias, o secretário de segurança de Goiás, foi acuado pela reportagem. Com ar de pobre coitado, deu algumas desculpas esfarrapadas e tentou impedir o acesso das câmeras ao interior do presídio. Já Airton Michels, secretário de segurança do Rio Grande do Sul, foi mostrado muito empertigado em sua poltrona, admitiu abertamente a existência de regalias nos presídios para os chefes das facções, e justificou-as dizendo que, não fosse assim, haveria uma tragédia. Edemundo Dias foi exonerado pelo governador, Airton Michels permaneceu no cargo. Pareceu-me que o principal propósito de José Maria, em seu artigo, foi mostrar que a Globo é parcial entre seu tratamento a um governo tucano e a um governo petista. Mas a comparação me lembrou um antigo adágio: a hipocrisia é a última homenagem que o vício presta à virtude.
Hipocrisia é feio. Edemundo Dias foi hipócrita. Airton Michels foi sincero. E no entanto, estou convicto de que Airton agiu muito pior do que Edemundo. Lembrei-me de um episódio ocorrido logo no início do primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1983. Naqueles tempos ainda relativamente inocentes, o jogo do bicho ainda era um caso de polícia. É claro que todos sabiam que a polícia não reprimia coisa nenhuma e que os governadores recebiam caixinha dos bicheiros. Como Brizola enfrentaria o problema? Para surpresa geral, o governador declarou em alto e bom tom que não reprimiria o jogo, afirmando que a polícia tinha coisa mais importante a fazer. No clima político da época, com a volta dos exilados e enorme expectativa de mudanças, tal declaração chegou a soar como alvissareira: até que enfim um governante deixava de lado a hipocrisia! Mas eu, apesar de haver votado em Brizola (era jovem, né?) senti naquele dia um certo frio na barriga. Uma sensação de perda, de haver ultrapassado uma certa barreira e estar ciente de que não poderia voltar atrás e as coisas nunca mais seriam como antes. Em termos práticos, a decisão de Brizola não mudou nada, pois o jogo ilegal já não era mesmo reprimido, e havia de fato problemas de segurança mais urgentes. Mas em termos simbólicos, o impacto foi enorme: aquela foi a primeira vez que eu vi um governante democraticamente eleito afirmar na cara dura que não ia cumprir uma lei, e ficar por isso mesmo. E as coisas, realmente, nunca mais foram como antes.
Brizola recusou ser hipócrita. Airton Michels recusou ser hipócrita. Mas a hipocrisia é a última homenagem que o vício presta à virtude.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
sábado, 21 de junho de 2014
As vaias da Dilma
Já gostei de futebol a ponto de ter sido um frequentador assíduo de estádios, hoje em dia não acompanho mais. Mas difícil é deixar de falar de futebol em época de copa do mundo.
A meu ver, a copa no Brasil começou até bem. Os problemas técnicos e logísticos foram menores que o esperado. Os baderneiros de sempre mal chamaram atenção. E os jogos têm sido bons. Comecei a ficar otimista depois que vi a festa de abertura, pois antes tinha dois medos. O primeiro, que fosse uma festa espetacular e cheia de pirotecnias tecnológicas de custo altíssimo, o que me faria ter a sensação das notas voando do meu bolso, pois obviamente quem paga isso tudo somos eu e você. Mas a festa foi simples e não deve ter custado muito. O segundo medo foi que houvessem resolvido fazer uma festa "genuinamente brasileira" para gringo ver, o que significa muita mulata rebolando para nos fazer alvo de escárnio lá fora. Mas artisticamente a festa foi anódina, não teve mulata de bunda de fora, e na verdade não teve nem um sambinha, de que senti falta. Não teve sambista, mas teve um funkeiro, sinal dos tempos. Alguém decidiu que a representação autêntica de nossa cultura popular não é mais o samba, e sim o rap importado dos guetos negros norte-americanos, e assim ficou resolvido. Mas estou me desviando do assunto, ia falar da nota triste da festa: a vaia que Dilma levou.
Por mais que eu seja contra a Dilma, não posso deixar de ficar envergonhado com a grosseria de meus compatriotas. Felizmente poucos dos estrangeiros presentes deve ter entendido as palavras de baixo calão. Achei a vaia, sobretudo, incoerente: se eles são contra a copa, como os manifestantes que andam por aí gritando, então o que eles estavam fazendo no estádio? Mas a réplica da Dilma foi ainda mais incoerente: culpou a elite. Segundo declarou, as vaias que ouviu não vieram do povão, mas da tal de elite. Concordo. A julgar pelo preço dos ingressos, quem estava ali, decididamente, não era o mesmo povão com que eu me imiscuía ombro a ombro nos tempos em que eu frequentava estádios de futebol. Mas se Dilma queria escutar os aplausos do povão que, segundo crê, lhe dá apoio, então por que foi fazer uma copa em que só a elite pode ir ao estádio? Incoerente. Na copa de 50, um em cada dez habitantes da cidade do Rio de Janeiro estava no estádio no dia da final. De lá para cá, copa do mundo deixou de ser diversão de massas. Então, Dilma, que ature você a elite!
Eu de qualquer modo já deixei de acompanhar futebol, para mim tanto faz. Mas vou torcer para que a copa seja um sucesso, a fim de que não passemos mais vergonha ainda.
A meu ver, a copa no Brasil começou até bem. Os problemas técnicos e logísticos foram menores que o esperado. Os baderneiros de sempre mal chamaram atenção. E os jogos têm sido bons. Comecei a ficar otimista depois que vi a festa de abertura, pois antes tinha dois medos. O primeiro, que fosse uma festa espetacular e cheia de pirotecnias tecnológicas de custo altíssimo, o que me faria ter a sensação das notas voando do meu bolso, pois obviamente quem paga isso tudo somos eu e você. Mas a festa foi simples e não deve ter custado muito. O segundo medo foi que houvessem resolvido fazer uma festa "genuinamente brasileira" para gringo ver, o que significa muita mulata rebolando para nos fazer alvo de escárnio lá fora. Mas artisticamente a festa foi anódina, não teve mulata de bunda de fora, e na verdade não teve nem um sambinha, de que senti falta. Não teve sambista, mas teve um funkeiro, sinal dos tempos. Alguém decidiu que a representação autêntica de nossa cultura popular não é mais o samba, e sim o rap importado dos guetos negros norte-americanos, e assim ficou resolvido. Mas estou me desviando do assunto, ia falar da nota triste da festa: a vaia que Dilma levou.
Por mais que eu seja contra a Dilma, não posso deixar de ficar envergonhado com a grosseria de meus compatriotas. Felizmente poucos dos estrangeiros presentes deve ter entendido as palavras de baixo calão. Achei a vaia, sobretudo, incoerente: se eles são contra a copa, como os manifestantes que andam por aí gritando, então o que eles estavam fazendo no estádio? Mas a réplica da Dilma foi ainda mais incoerente: culpou a elite. Segundo declarou, as vaias que ouviu não vieram do povão, mas da tal de elite. Concordo. A julgar pelo preço dos ingressos, quem estava ali, decididamente, não era o mesmo povão com que eu me imiscuía ombro a ombro nos tempos em que eu frequentava estádios de futebol. Mas se Dilma queria escutar os aplausos do povão que, segundo crê, lhe dá apoio, então por que foi fazer uma copa em que só a elite pode ir ao estádio? Incoerente. Na copa de 50, um em cada dez habitantes da cidade do Rio de Janeiro estava no estádio no dia da final. De lá para cá, copa do mundo deixou de ser diversão de massas. Então, Dilma, que ature você a elite!
Eu de qualquer modo já deixei de acompanhar futebol, para mim tanto faz. Mas vou torcer para que a copa seja um sucesso, a fim de que não passemos mais vergonha ainda.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Futebol e Racismo
Lendo por acaso sobre futebol (é difícil evitar, nessa época de copa do mundo) por acaso lembrei-me do primeiro artigo que escrevi sobre o racismo no Brasil, tentando explicar sua peculiaridade, e porque é diferente do racismo norte-americano. O que tem a ver, afinal, futebol e racismo? Explico mais adiante.
A tese que defendi no artigo citado foi de que o racismo brasileiro sempre foi, historicamente, diferente do racismo norte-americano, porque nos EUA o racismo foi motivado sobretudo pela reação da classe trabalhadora branca contra a entrada daquela mão-de-obra barata em seus locais de trabalho e de residência, colocando em risco seu padrão de vida. Não que o racismo seja exclusivo da classe trabalhadora, é claro. O branco rico também é racista, mas na prática, ele raramente tem que se confrontar com negros, posto que esses estão excluídos a priori dos locais que frequenta, não por serem negros, mas por serem pobres. Diferente do que acontece com o branco pobre, que a toda hora tem que entrar em disputas com negros, e por esse motivo o racismo vindo da classes trabalhadoras seria mais vicioso - por assim dizer, seria um racismo padrão norte-americano, ao passo que o racismo mais subjetivo vindo dos ricos, calcado em desprezo e indiferença, seria um racismo padrão brasileiro.
Entretanto, lendo a história do futebol no Brasil - afinal, futebol também é História - notei que, no início do século 20, o futebol foi um dos poucos ramos de atividade da sociedade brasileira onde já existiu um racismo explícito e organizado - inclusive fiquei sabendo que fazia parte de estatutos de clubes o fim da cessão de patrimônios como campos e sedes da parte de seus sócios-proprietários, caso no futuro os clubes viessem a aceitar atletas negros. Também ocorreram diversas cisões de ligas, com clubes abandonando suas ligas originais e fundando outras quando aquelas permitiam a entrada de clubes que aceitavam negros. Esse estado de coisas durou até a implantação definitiva do profissionalismo nos anos 30, e a tese do artigo era essa: foi o profissionalismo que acabou com o racismo no futebol brasileiro. Tudo fecha: o futebol foi uma das poucas áreas onde houve disputa ferrenha entre bancos e negros no Brasil, coisa que naquela época não acontecia nas fábricas, dominadas por operários imigrantes, geralmente italianos e portugueses, enquanto a maioria dos negros ainda vivia no campo. Isso confirma a minha tese, e também outra ideia que lancei: que a cura definitiva para o racismo é a meritocracia. Onde existe a busca pelo lucro e somente pelo lucro, não há espaço para critérios raciais, e por este motivo foi o profissionalismo que matou o racismo no futebol brasileiro. No mundo atual, existe o exemplo de Singapura, uma pequena cidade-estado onde convivem etnias bem distintas como os malaios, os indianos e os chineses, mas não se verificam ali os choques inter-étnicos tão comuns naquela parte do mundo, justamente porque Singapura é uma sociedade profundamente competitiva, com mão-de-obra altamente qualificada, onde impera a meritocracia. A meritocracia dissolve o racismo.
É nesse ponto que recaímos mais uma vez na discussão das cotas para negros e índios em universidades. O assunto foi mais uma vez discutido no Centro de Mídia Independente, aqui nessa postagem. Minha opinião: no Brasil, o funil de acesso ao nível superior é tão estreito, e o nível do ensino já é tão ruim, mesmo sem cotas, que acredito que as coisas não vão mudar muito, e que o nível acadêmico dos alunos cotistas, e mesmo o seu nível social, não seja muito diferente daquele dos alunos não-cotistas. Aí o governo pode fazer o seu bonitão sem correr muito risco. Mas se começarem a inventar cotas e mais contas, enchendo as universidades públicas de alunos sem preparo, todos sabem muito bem qual será a consequência: as universidades públicas se tornarão tão ruins quanto hoje são as escolas secundárias públicas, o mercado de trabalho rejeitará os formados, e o único meio de conseguir um bom emprego será ter dinheiro para cursar uma boa faculdade privada.
A tese que defendi no artigo citado foi de que o racismo brasileiro sempre foi, historicamente, diferente do racismo norte-americano, porque nos EUA o racismo foi motivado sobretudo pela reação da classe trabalhadora branca contra a entrada daquela mão-de-obra barata em seus locais de trabalho e de residência, colocando em risco seu padrão de vida. Não que o racismo seja exclusivo da classe trabalhadora, é claro. O branco rico também é racista, mas na prática, ele raramente tem que se confrontar com negros, posto que esses estão excluídos a priori dos locais que frequenta, não por serem negros, mas por serem pobres. Diferente do que acontece com o branco pobre, que a toda hora tem que entrar em disputas com negros, e por esse motivo o racismo vindo da classes trabalhadoras seria mais vicioso - por assim dizer, seria um racismo padrão norte-americano, ao passo que o racismo mais subjetivo vindo dos ricos, calcado em desprezo e indiferença, seria um racismo padrão brasileiro.
Entretanto, lendo a história do futebol no Brasil - afinal, futebol também é História - notei que, no início do século 20, o futebol foi um dos poucos ramos de atividade da sociedade brasileira onde já existiu um racismo explícito e organizado - inclusive fiquei sabendo que fazia parte de estatutos de clubes o fim da cessão de patrimônios como campos e sedes da parte de seus sócios-proprietários, caso no futuro os clubes viessem a aceitar atletas negros. Também ocorreram diversas cisões de ligas, com clubes abandonando suas ligas originais e fundando outras quando aquelas permitiam a entrada de clubes que aceitavam negros. Esse estado de coisas durou até a implantação definitiva do profissionalismo nos anos 30, e a tese do artigo era essa: foi o profissionalismo que acabou com o racismo no futebol brasileiro. Tudo fecha: o futebol foi uma das poucas áreas onde houve disputa ferrenha entre bancos e negros no Brasil, coisa que naquela época não acontecia nas fábricas, dominadas por operários imigrantes, geralmente italianos e portugueses, enquanto a maioria dos negros ainda vivia no campo. Isso confirma a minha tese, e também outra ideia que lancei: que a cura definitiva para o racismo é a meritocracia. Onde existe a busca pelo lucro e somente pelo lucro, não há espaço para critérios raciais, e por este motivo foi o profissionalismo que matou o racismo no futebol brasileiro. No mundo atual, existe o exemplo de Singapura, uma pequena cidade-estado onde convivem etnias bem distintas como os malaios, os indianos e os chineses, mas não se verificam ali os choques inter-étnicos tão comuns naquela parte do mundo, justamente porque Singapura é uma sociedade profundamente competitiva, com mão-de-obra altamente qualificada, onde impera a meritocracia. A meritocracia dissolve o racismo.
É nesse ponto que recaímos mais uma vez na discussão das cotas para negros e índios em universidades. O assunto foi mais uma vez discutido no Centro de Mídia Independente, aqui nessa postagem. Minha opinião: no Brasil, o funil de acesso ao nível superior é tão estreito, e o nível do ensino já é tão ruim, mesmo sem cotas, que acredito que as coisas não vão mudar muito, e que o nível acadêmico dos alunos cotistas, e mesmo o seu nível social, não seja muito diferente daquele dos alunos não-cotistas. Aí o governo pode fazer o seu bonitão sem correr muito risco. Mas se começarem a inventar cotas e mais contas, enchendo as universidades públicas de alunos sem preparo, todos sabem muito bem qual será a consequência: as universidades públicas se tornarão tão ruins quanto hoje são as escolas secundárias públicas, o mercado de trabalho rejeitará os formados, e o único meio de conseguir um bom emprego será ter dinheiro para cursar uma boa faculdade privada.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
A falácia da Democracia Direta
O assunto quente do momento é a tal PNPS, Política Nacional de Participação Social, proposta do governo que tem o inocente objetivo de dar visibilidade e voz a “órgãos da sociedade civil” – em outra palavras, a uma miríade de movimentos sociais articulados com o PT, ou com ONG´s que têm ligações com o PT. Para bom entendedor, vê-se logo que é mais um subterfúgio para solapar os poderes da república, o legislativo e o judiciário, que o PT ainda não conseguiu controlar. Mas o pretexto é bom: as recentes manifestações mostram que o povo está descontente com a tal democracia representativa, e o melhor seria substitui-la pela democracia direta dos conselhos, pelos quais a sociedade civil efetivamente se autogovernaria.
Não é uma desculpa qualquer: as vantagens da democracia direta sobre a democracia representativa são flagrantes, tanto que todos nós a praticamos sempre que possível – por exemplo, quando é necessário fazer uma reunião de condôminos para decidir a reforma da portaria, ninguém cogita pagar salários a políticos profissionais para representa-lo na assembleia: todos comparecem e discutem pessoalmente. Mas há o outro lado. Uma assembleia de condôminos só tem autonomia para deliberar sobre assuntos que dizem respeito unicamente àquele condomínio. Se vai ser debatida alguma obra que afete o quarteirão inteiro, faz-se necessário fazer um assembleia maior, reunindo o pessoal de todos os prédios. Se trata-se de algo que afeta a rua inteira, a maioria preferirá deixar o assunto para a prefeitura. Um mundo governado por sovietes só é possível se for um mundo constituído de aldeias auto-suficientes, sem nenhuma interdependência. Pois havendo um mínimo de interdependência, surge logo a possibilidade de uma medida ser vantajosa para uma comuna e desvantajosa para a outra. Então, quem vai fazer a mediação? Ou reúnem-se todas as assembleias comunais em um enorme estádio e passam o resto do ano discutindo, coisa obviamente inexequível, ou cada assembleia envia delegados a uma espécie de soviete supremo – e a partir do momento em que ocorre essa delegação, acaba-se a democracia direta e recai-se em algum tipo de democracia indireta.
É verdade que já houve um momento no passado em que ouviu-se o brado: todo o poder aos sovietes! Mas na Rússia revolucionária de 1917, os sovietes só detiveram o poder por poucos meses, quando o estado havia se desintegrado e o país estava em guerra civil. Tão logo a guerra foi vencida e o estado organizou-se, os sovietes foram relegados às questiúnculas internas de suas respectivas comunas, e o poder de fato passou ao partido único e seu séquito de burocratas, que passaram a tomar as decisões que afetavam a totalidade do povo. Se a Rússia de 1917 já não era uma constelação de comunas interdependentes, muito menos esse modelo se aplica ao atual mundo globalizado. Vemos, então, o verdadeiro propósito daqueles que propagandeiam a democracia direta: desautorizar os parlamentos onde a oposição tem maioria, substituindo-os por uma miríade de conselhos sem poder nem importância, e no vácuo de poder assim criado, instala-se o partido único e o Grande Líder. Em toda parte onde proclamou-se a democracia direta, viu-se a hipertrofia do poder executivo e a instauração de uma ditadura pessoal, não raro dando origem a uma dinastia familiar – foi assim na Rússia, na China, na Coréia do Norte, em Cuba, na Venezuela, na Bolívia. Não sei se o PT conseguirá fazer o mesmo por aqui, mas seu plano parece-me óbvio: se o PT vencer as eleições, ele manda os “órgãos da sociedade civil” irem pastar. Se o PT perder as eleições, ele utiliza-se desses órgãos para infiltrar-se no novo governo. O problema mesmo vai ser se esses tais órgãos, sovietes ou assembleias comunais acreditarem que são mesmo independentes e começarem a agir por conta própria, tal como já está acontecendo na Bolívia, onde cada aldeia de remanescentes de índios julga-se um Estado independente. Aí pode acontecer com o PT o mesmo que aconteceu com o aprendiz de feiticeiro: começa a mágica, e depois não consegue para-la.
sábado, 31 de maio de 2014
A Síndrome de Joaquim Barbosa
Recebi com certo alívio a notícia de que Joaquim Barbosa pretende antecipar sua aposentadoria, pois já ando meio cansado de ouvir falar dele. Nunca lhe tive grande simpatia, sempre pareceu-me arrogante e um tanto recalcado. Mas cumpriu a sua obrigação, e pronto.
Apesar de sua notória falta de marketing pessoal, Joaquim Barbosa tornou-se, fora de dúvida, o personagem mais importante do ano em um país de astral em queda, governado por uma presidente que não tem o menor carisma. Vai explicar uma coisa dessas! Eu chamaria o fenômeno de a Síndrome de Joaquim Barbosa.
Ele é o tipo de cara que não tem o menor encanto pessoal, mas que a gente não consegue tirar da cabeça. Está em toda parte. Embora os mensaleiros tenham sido condenados pelo colegiado do STF, a impressão que todos têm foi de que a condenação foi obra unicamente do Joaquim Barbosa, como se ele tivesse tal poder. Eu noto principalmente nos forum´s e redes sociais que frequento: nunca vi alguém ser tão malhado em tão pouco tempo. Parece até trauma. Divirto-me sobretudo de ler os insultos racistas vindos daqueles que até a pouco se esmeravam em apontar o racismo alheio! A opinião geral é que o JB seria um caso típico do Preto Que Queria Ser Branco, aquele conhecido arquétipo do lambe-botas oprimido que deseja tornar-se opressor. Quanto a isso, não estou dentro da mente dele para saber, mas parece-me óbvio que o dito cujo só chegou ao STF em razão da cor de sua pele, fato que obviamente não será reconhecido em voz alta nem pelo próprio, nem por quem o nomeou. Divirto-me também com a grita histérica acerca de supostos atos ilegais que teria cometido, como a compra de um apartamento sala-e-quarto em Miami pela exorbitante quantia de 500 mil dólares, preço de um sala-e-dois quartos na zona sul do Rio de Janeiro. Acusam-no de ser um agente da elite perversa contra o governo popular, esquecidos de que foi nomeado pelo PT, tal como a grande maioria do atual plenário do STF.
Uma coisa a Síndrome de Joaquim Barbosa me fez perceber: a grande maioria dos comentaristas de esquerda que pululam na net, que eu julgava serem uns porra-loucas ultra radicais que acham o PT de direita, são na realidade chapas-brancas petistas. Essa me surpreendeu, apesar de eu não me surpreender mais com muita coisa nessa altura da vida. Por que essa histeria toda? Será que temem que seu o intento mais pragmático seria lançar-se como candidato por um partido de direita, após a construção de sua imagem? Essa tese já foi definitivamente enterrada, pois agora ele não pode mais se candidatar. Vai em paz, Joaquim Barbosa. E deixa de ser chato.
Apesar de sua notória falta de marketing pessoal, Joaquim Barbosa tornou-se, fora de dúvida, o personagem mais importante do ano em um país de astral em queda, governado por uma presidente que não tem o menor carisma. Vai explicar uma coisa dessas! Eu chamaria o fenômeno de a Síndrome de Joaquim Barbosa.
Ele é o tipo de cara que não tem o menor encanto pessoal, mas que a gente não consegue tirar da cabeça. Está em toda parte. Embora os mensaleiros tenham sido condenados pelo colegiado do STF, a impressão que todos têm foi de que a condenação foi obra unicamente do Joaquim Barbosa, como se ele tivesse tal poder. Eu noto principalmente nos forum´s e redes sociais que frequento: nunca vi alguém ser tão malhado em tão pouco tempo. Parece até trauma. Divirto-me sobretudo de ler os insultos racistas vindos daqueles que até a pouco se esmeravam em apontar o racismo alheio! A opinião geral é que o JB seria um caso típico do Preto Que Queria Ser Branco, aquele conhecido arquétipo do lambe-botas oprimido que deseja tornar-se opressor. Quanto a isso, não estou dentro da mente dele para saber, mas parece-me óbvio que o dito cujo só chegou ao STF em razão da cor de sua pele, fato que obviamente não será reconhecido em voz alta nem pelo próprio, nem por quem o nomeou. Divirto-me também com a grita histérica acerca de supostos atos ilegais que teria cometido, como a compra de um apartamento sala-e-quarto em Miami pela exorbitante quantia de 500 mil dólares, preço de um sala-e-dois quartos na zona sul do Rio de Janeiro. Acusam-no de ser um agente da elite perversa contra o governo popular, esquecidos de que foi nomeado pelo PT, tal como a grande maioria do atual plenário do STF.
Uma coisa a Síndrome de Joaquim Barbosa me fez perceber: a grande maioria dos comentaristas de esquerda que pululam na net, que eu julgava serem uns porra-loucas ultra radicais que acham o PT de direita, são na realidade chapas-brancas petistas. Essa me surpreendeu, apesar de eu não me surpreender mais com muita coisa nessa altura da vida. Por que essa histeria toda? Será que temem que seu o intento mais pragmático seria lançar-se como candidato por um partido de direita, após a construção de sua imagem? Essa tese já foi definitivamente enterrada, pois agora ele não pode mais se candidatar. Vai em paz, Joaquim Barbosa. E deixa de ser chato.
terça-feira, 20 de maio de 2014
O PT e a Carroça de Platão
Li em algum lugar que a resposta ao porquê da paralisia do governo Dilma talvez esteja em Platão e sua carroça. Platão afirmou que é difícil dirigir um carro puxado por dos cavalos diferentes - um bom marchador e outro manco e lerdo. É o caso do governo Dilma. É a síndrome de um governo dividido entre os arroubos bolivarianistas e as necessidades palpáveis.
A principal diferença entre o governo petista e os demais governos bolivarianos que se instalaram em nosso continente a partir do século 21 reside no fato de que aqueles governos chegaram ao poder no bojo de um movimento revolucionário, enquanto o PT chegou ao poder pelas urnas. Aqueles governos têm a seu dispor uma militância armada, enquanto a militância petista é desarmada e o partido depende das boas graças do eleitorado para manter-se no poder. E o PT, ou ao menos a cúpula petista, sabe muito bem que a atual satisfação do eleitorado origina-se da estabilidade econômica herdada dos tucanos, a qual permitiu a expansão do crédito e do consumo. É essa a verdadeira causa da melhora do padrão de vida experimentada por boa parte da população, pois de resto os salários aumentaram muito pouco, e as tão faladas bolsa só atendem a parcelas muito pobres da população, de modo que o PT sabe muito bem: se deixar a inflação voltar com força total, a carruagem vira abóbora de novo. Os milhões que passaram para a classe C voltam para a classe D, e os eleitores batem as asas.
Mas há o outro cavalo, representando o rebotalho das ideias do velho PT e tocado pelas bases militantes. Até o momento essas bases militantes estão entretidas com o chamado marxismo cultural, mas o marxismo cultural não é tão inócuo quanto parece, nem custa tão barato - haja visto o as dezenas de ministérios criadas para acolher a cumpanherada! Ainda não foi criado aqui o Ministério da Felicidade Socialista, como na Venezuela, mas estamos a caminho. Talvez não cheguemos ao bolivarianismo, verdadeira meta dos cumpanheros, mas podemos voltar ao falido nacional-estatismo que vigorou até os anos oitenta. Aí teremos que chamar alguém que queira bancar o "neoliberal" para endireitar tudo de novo e, talvez, entregar de bandeja para um novo ciclo populista, capitaneado pelo PSol. Ou então aprendemos a lição de uma vez. Quem viver, verá.
A principal diferença entre o governo petista e os demais governos bolivarianos que se instalaram em nosso continente a partir do século 21 reside no fato de que aqueles governos chegaram ao poder no bojo de um movimento revolucionário, enquanto o PT chegou ao poder pelas urnas. Aqueles governos têm a seu dispor uma militância armada, enquanto a militância petista é desarmada e o partido depende das boas graças do eleitorado para manter-se no poder. E o PT, ou ao menos a cúpula petista, sabe muito bem que a atual satisfação do eleitorado origina-se da estabilidade econômica herdada dos tucanos, a qual permitiu a expansão do crédito e do consumo. É essa a verdadeira causa da melhora do padrão de vida experimentada por boa parte da população, pois de resto os salários aumentaram muito pouco, e as tão faladas bolsa só atendem a parcelas muito pobres da população, de modo que o PT sabe muito bem: se deixar a inflação voltar com força total, a carruagem vira abóbora de novo. Os milhões que passaram para a classe C voltam para a classe D, e os eleitores batem as asas.
Mas há o outro cavalo, representando o rebotalho das ideias do velho PT e tocado pelas bases militantes. Até o momento essas bases militantes estão entretidas com o chamado marxismo cultural, mas o marxismo cultural não é tão inócuo quanto parece, nem custa tão barato - haja visto o as dezenas de ministérios criadas para acolher a cumpanherada! Ainda não foi criado aqui o Ministério da Felicidade Socialista, como na Venezuela, mas estamos a caminho. Talvez não cheguemos ao bolivarianismo, verdadeira meta dos cumpanheros, mas podemos voltar ao falido nacional-estatismo que vigorou até os anos oitenta. Aí teremos que chamar alguém que queira bancar o "neoliberal" para endireitar tudo de novo e, talvez, entregar de bandeja para um novo ciclo populista, capitaneado pelo PSol. Ou então aprendemos a lição de uma vez. Quem viver, verá.
domingo, 11 de maio de 2014
Novo artigo
Acabei de publicar um novo artigo, tratando de um tema sempre recorrente nas discussões dos forums políticos: a tal da Elite, que é ela, com ela é e porque é tão maléfica. Procurei traçar um painel histórico de como formou-se a nossa elite. Reproduzo abaixo:
O consenso geral é que somos governados por uma Elite, ou
por “elites” no plural, e isso é mau. Urge apear a Elite do poder, o problema é
que ninguém sabe apontar com exatidão que Elite seria essa, exceto que seus
integrantes são sempre os outros.
Mas percebo aí um esforço inútil, pois a meu ver, o destino
de ser governado por elites não se deve ao poder haver sido conquistado por um
grupo específico, mas é de fato uma contingência da seleção natural. Vale a
comparação com um time de futebol: todos os jogadores, obviamente, desejam ser
titulares, mas se não puderem sê-lo, preferem que os titulares sejam os
melhores entre eles, pois é melhor ser reserva de um time vencedor do que de um
time perdedor. Interessa ao bem comum que os encarregados de executar
determinada função sejam aqueles que, por este ou aquele motivo, sejam os que
têm melhor condições de realiza-la, pois do contrário, todos sairão perdendo.
Então é isso: nosso destino é sermos sempre governados por uma elite ou outra,
ainda que seja a elite dos mais ousados ou a elite dos mais descarados. Ou a
elite dos mais bem colocados no partido.
A esta altura muitos já estarão bradando: as elites
dominantes a que me refiro são elites econômicas, oligarquias! Mas essa
afirmação também me parece uma redundância. Uma vez que o dinheiro é sempre
desejado, todos os membros de uma elite qualquer terminam por ascender à elite
econômica, à medida em que trocam por dinheiro a habilidade específica que os
faz membros de uma elite específica. Os profissionais altamente qualificados
conseguem altos pagamentos. Os artistas e esportistas de talento conseguem
prêmios. O empresário com tino para os negócios prospera. Mas isso é
particularmente verdadeiro quando se trata de elites políticas, onde a
conversibilidade entre poder e dinheiro é sempre fácil. Os honorários que uma
autoridade recebe são suficientes para torna-lo parte de uma elite econômica,
ainda que não receba nada além desses honorários. Enfim, a elite econômica
“atrai” as outras elites; isso é um fenômeno que, em estatística, chama-se um
atrator. Funciona também no sentido oposto: o dinheiro pode comprar o ingresso
em outras elites; por exemplo, o ingresso em boas escolas que tornarão o aluno
membro de uma elite intelectual, o ingresso em círculos de pessoas influentes
que abrirão as portas para outras elites, etc. Enfim, de qualquer ângulo que se
olhe, sempre veremos uma elite econômica hegemônica. Quem tenta mudar isso é
como o cachorro que corre atrás do próprio rabo.
Mais inteligente do que correr atrás do próprio rabo é
procurar descrever as elites existentes passando ao largo da abordagem
marxista, que vê a Elite como um bloco monolítico, distinto e elementar, que
deve ser removido tal qual a pedra que está no caminho e deve ser explodida
para a construção da estrada. Mesmo porque traçar um retrato das elites é, em
grande medida, fazer um resumo histórico e antropológico, uma vez que as elites
concentram em si atributos que são valorizados por todo o resto da população: a
elite é sempre superior à média, e uma elite ruim nada mais é do que o sintoma
de uma média pior ainda. Procurarei então responder: como se formaram as elites
brasileiras, e por que elas são assim?
Esta pergunta só pode ser respondida com o conhecimento da
História. E houve um tempo, nem tão distante assim, em que nossa elite rica
dominante não era, em sua maioria, uma elite intelectual. Numerosos relatos de
comentaristas estrangeiros em viagem pelo Brasil do século 19 dão conta do
aspecto tosco, e mesmo grotesco, dos ricos nacionais. Mesmo em época mais
recente, os folclóricos coronéis do sertão eram indivíduos de pouca instrução,
muitos até semianalfabetos, e isto ficou impresso na cultura popular, onde os
velhos coronéis são mostrados como roceiros de bota e chapelão, falando errado
ou com pesado sotaque, habitantes de grotões do interior e desinteressados de
qualquer coisa que não tivesse relação com as lides de suas fazendas. Conforme
comentou JJ Chiavenatto ao abordar o fenômeno do coronelismo, não havia grande
diferença entre o coronel e os jagunços que comandava, o que inclusive
facilitava o diálogo entre ambos: “no fundo, todos eram vaqueiros. Os que
garantiam a posse da terra mandavam, os demais obedeciam”. Por este motivo, os
esquematismos intelectuais consagrados à abordagem Elite Aristocrática X Povo
com frequência não se aplicam à História do Brasil. Como explicar, por exemplo,
que a república foi proclamada por uma elite de latifundiários cafeicultores? A
aristocracia da terra não deveria ser monarquista?
Isso é verdade, sim, no que diz respeito à Europa: todos
sabem que os nobres da terra eram aliados dos reis. Mas isto é perfeitamente
explicável quando se reconstitui o modo como se formou esta nobreza. Se
recuarmos o suficiente no tempo, inevitavelmente chegaremos a uma época em que
tanto os antepassados do rei quanto os antepassados dos nobres eram chefes
guerreiros aliados. Conforme a sorte dos campos de batalha, os acordos e os
casamentos, uns se tornaram suseranos, e outros vassalos, nascendo aí uma
lealdade e um senso de honra que atravessaram as gerações, e de fato perduraram
até bem após o fim do feudalismo, quando os nobres já não eram mais que
funcionários do governo, e o passado guerreiro tornara-se uma lembrança. O
mesmo não ocorreu no Brasil colonial, onde aliás nunca existiu feudalismo,
existiu escravidão, que não é a mesma coisa. Diz o senso comum que nossa elite
foi formada por donatários e fidalgos que receberam cartas de sesmaria e
tornaram-se senhores de engenho, e não falta quem acredite que os latifundiários
brasileiros descendem todos de uma linhagem que vem desde os tempos das
capitanias hereditárias. A realidade foi diferente. As cartas de sesmaria eram
pouco mais que formalidade, pois na época colonial, e mesmo muito depois, ter a
posse efetiva da terra não dependia da assinatura de um rei distante, mas da
capacidade de conquistar e manter pela força aquela porção de terra, derrotando
índios, posseiros e senhores de engenho rivais. Desde muito cedo, os
latifundiários brasileiros perceberam que naqueles sertões distantes, eles não
dependiam de um governador ou vice-rei, mas sim de si próprios, particularmente
de sua capacidade de ter homens armados sob seu comando. De fato, para aquilo
que se possa chamar de nobreza rural brasileira, as autoridades metropolitanas
eram vistas mais como um empecilho do que como garantia de sua posição social.
É sabido que os “homens bons”, aristocracia que compunha as câmaras de
vereadores das antigas vilas, frequentemente ignoravam as leis, ameaçavam e
corrompiam os funcionários do governo, e isso mudou pouco entre Mem de Sá e
Tiradentes.
Tendo nossa elite sido formada assim desta maneira tão bruta
e desvencilhada de qualquer ordem ou autoridade, é fácil entender porque esta
elite não se conforma ao conceito de “aristocracia” consagrado pelo senso
comum. Se os ricos da terra pareceram tão rudes e grosseiros aos olhos dos
comentaristas estrangeiros, era porque de fato assim o eram. Muitos fidalgos
que receberam terras não conseguiram mantê-las, e muitos posseiros que foram
audazes o suficiente e conseguiram eliminar os rivais, aumentaram suas posses e
tornaram-se grandes latifundiários. Mas continuaram ignorantes, bem como seus
filhos e netos. Isto acontecia até época recente, basta ler os romances de
Jorge Amado e Graciliano Ramos. Boa parte de nossa elite tem raízes no
populacho, e por este motivo mesmo, boa parte de nossa elite não era branca,
mas cabocla, o que não deixou de ser mencionado pelos comentaristas
estrangeiros. Por aí se vê como soa falso o epíteto “elite branca racista”
tanta vezes invocado, bem como a afirmação, que passa por verdade histórica, de
que a elite brasileira fomentou a imigração europeia com a finalidade de
branquear a população. Nessas horas me vem à mente aquela conhecida gravura
publicada em um periódico alemão de meados do século 19, mostrando dois imigrantes
brancos puxando um arado sob o chicote de um capataz negro. Era mais ou menos
isso o que acontecia nas fazendas da época: a imigração foi promovida, não com
o objetivo de embranquecer a população, mas com o objetivo de prover os
fazendeiros de novos escravos, em substituição aos africanos que não podiam
mais ser traficados. Nossa elite, na época, não era racista por um bom motivo:
esta mesma elite não era branca, e se foi embranquecendo nos anos seguintes,
isso deveu-se justamente ao influxo desses novos escravos brancos, à medida em
que eles prosperavam e eventualmente ingressavam na burguesia. Examinando-se
hoje um catálogo da FIESP, dificilmente se encontrará ali algum descendente de
barões do café.
A Elite, tal como concebida pelos observadores marxistas,
não passa de um totem. Mas examinada tal como é, tem a revelar sobre nossa
história e sobre quais fórmulas são bem sucedidas aqui.
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