domingo, 18 de agosto de 2024

Sílvio Santos foi embora

"Sílvio Santos vem aí" era o conhecido bordão do programa do apresentador. Agora ele foi embora, porque faleceu. Mas não devemos esquecer que um dia ele esteve bem próximo de se tornar o presidente da república.

Foi na eleição vencida por Collor de Mello, da qual participaram também Lula e Brizola. Collor estava na liderança das pesquisas, mas o cenário ainda estava indefinido. A candidatura de Sílvio Santos, com a campanha eleitoral já pela metade, foi um audacioso golpe que teve como finalidade redefinir as preferências do eleitorado, inserindo um populista no centro e tirando os candidatos da esquerda de um segundo turno. Audacioso porque tinha poucas chances de vingar, como de fato não vingou. Mas tambérm porque tinha chances de vingar, e o país tomaria rumos imprevisíveis.

Nos escassos dias antes da candidatura ser impugnada, Sílvio Santos chegou a figurar como o segundo nas intenções de voto. Com certeza muitos sentiram um frio na espinha imaginando-o presidente. Mas a presidência de Sílvio Santos teria sido algo tão inusitado e potencialmente ruinoso, como se pensa?

Penso que não seria tão diferente do atual presidente, nem de seu antecessor. Sílvio Santos não era um político? Mas existe uma profunda analogia entre o perfil do político, do apresentador e do pastor evangélico: todos os três são especialistas em catalisar o apoio entusiasmado de multidões pouco dotadas intelectualmente, mesmo que não tenham nada de concreto para lhes oferecer - exceto alguns prêmios e "milagres". Sendo que Sílvio Santos ainda conta com a vantagem de não ser politicamente polarizado, como o atual e o anterior - acredito que levaria seu governo com menos atritos. Quem é dono de indiscutíveis habilidades sociais, quase sempre também é dono de indiscutíveis habilidades políticas. E Sílvio Santos sempre foi bom para com o povo, desde o início servia lanches para as moças da periferia que compareciam a seu auditório.

Enfim, Sílvio Santos não se tornou presidente. Mas estamos sendo governados por seus congêneres a pelos menos oito anos.

domingo, 28 de julho de 2024

Lula está "dilmando"?

O governo Bolsonaro teve um deempenho econômico pífio, mas não quebrou o país. O governo Lula teve um início tranquilo. Mas já dá sinal de estar "dilmando", expressão recém-criada que denota a entrada em um espiral de declínio pela repetição de velhos equívocos. O assunto foi abordado pelo The Economist nesse vídeo que critica Lula como perdulário. Segundo afirma, Lula age como se o país fosse mais rico do que é.

Não surpreende. Há décadas, o Brasil e demais "emergentes" da América Latina oscilam entre o estatismo e a desestatização, como se não conhecessem outra fórmula. Chega a ser uma obsessão doentia. Na verdade, a desestatização nada mais é do que a inevitável venda de ativos de um estado quebrado, que mais cedo ou mais tarde acaba sendo seguido por mais um ciclo de estatismo. A ideia é que o Estado deve ser o indutor do desenvolvimento, gastando sempre mais do que dispõe e endividando-se, como se o retorno aos investimentos do Estado na infra-estrutura fosse sempre capaz de tapar o rombo a tempo de repetir-se o ciclo.

Mas Lula pode até ser considerado um participante moderado dessa síndrome. Nada comparado a uma Argentina, ou mais recentemente, a uma Venezuela. Em seu primeiro governo, Lula não dilapidou o legado do Plano Real. O descalabro começou com Dilma, sua sucessora, que foi retirada do cargo e sucedida por governos que pouco puderam fazer além de consertar o que ela fez.

O Lula do segundo governo parece uma versão cansada do Lula do primeiro governo. Em comum, tem a sorte de pegar um país com as contas mais ou menos equilibradas. Mas não sabe fazer diferente: mesmo com voz cansada, dá todos os sinais de que está "dilmando", repetindo as mesmas fórmulas fracassadas, aumentando o gasto público, afugentando os investidores. Alguns economistas até preveem uma data para a quebra do país: 2026 ou 2028, conforme as previsões. Após essa data, o desequilíbrio das contas públicas inevitavelmente afundará o país em recessão e inflação.

Mas se Lula está dilmando, haverá outra Dilma? Um sucessor, posto que em razão da idade, o próprio Lula dificilmente se habilitará a um novo mandato. Mesmo porque, sua especialidade sempre foi deixar a bomba estourar na mão dos outros. Se as previsões catastrofistas estão corretas, Lula deixará o governo a tempo de que a bomba não estoure em suas mãos, e o que vier em seguida pode ser atribuído à imperícia de seu sucessor. Mas não se sabe se esse sucessor será do PT. Caso não seja, será mais um "direitista", obrigado a tomar medidas impopulares para restaurar as contas públicas, assim preparando o cenário para novo ciclo de gastança chefiado por um governo de esquerda.

Mas se o sucessor fou um petista, pode ser a desmoralização. Como não dá para rejuvenecer Lula, e mesmo se desse, ele não toparia porque não entra em canoa furada, então o remédio será o PT se reinventar. Talvez assim finalmente consigamos quebrar o ciclo que se repete desde a Era Vargas.

domingo, 21 de julho de 2024

A Venezuela elege quem quiser

A recente declaração de Lula, a Venezuela elege quem quiser, mostra bem como o presidente quer fugir do assunto, e com certeza vê que o declarado apoio que deu ao regime chavista no princípio do mandato, agora é motivo de embaraço.

Não me surpreende que Lula apóie o regime chavista, pois democrata ele nunca foi - em tempos passados já havia dado declarações apoiando o regime cubano. Se ele se considera democrata, então não sabe o que é democracia. Mas por outro lado, Lula nunca mostrou apreço por dogmas ideológicos, nem por qualquer outra coisa que demande esforço para ser entendida. Sempre foi pragmático e oportunista. É certo que repetiu frases feitas em várias ocasiões ao longo de sua carreira, mas uma impressão que me acompanha é que ele sempre teve desprezo pelos "intelectuais orgânicos" do PT, aquela turma aburguesada de militantes de academia, incapazes de compreender que o real povão nada tem a ver com a idealização que fazem.

Mas isso agora é passado. Quem está no poder não é o PT, é Lula. O PT, como projeto político independente, morreu após o mensalão e a lava-jato, e nunca mais conseguiu remontar o gigantesco esquema de desvio de dinheiro público para os cofres do partido, que como se sabe, visava torná-lo todo poderoso e hegemônico, espécie de PRI mexicano versão brasileira. Agora sobrevive atado ao carisma de Lula.

E Lula, o pragmático, acordou com uma batata quente nas mãos. Em que lhe servirá o apoio prestado ao regime chavista, agora que este se encontra no ápice de gigantesca crise, apregoando ameaça de guerra civil? Sem falar na ameaça de guerra externa contra a Guiana. Lula vai intervir para ajudar seu aliado? Mandar tropas? Dar dinheiro? Apoio diplomático? Em qualquer dessas hipóteses, vai sobrar para o país mais do que os refugiados que já estão sobrando.

O caso da Venezuela é intrincado, pois não se trata de uma eleição com partícipes de um mesmo jogo político - um deles, Maduro, está pronto a melar o jogo, e tem todas as possibilidades para isso, e o outro, na remota hipótese de se sagrar vencedor e assumir, terá que desmontar o regime, o que é impossível de ser feito sem luta. Somente uma solução negociada pode permitir uma retirada pacífica dos atuais mandatários chavistas, mas não se antevê essa solução em lugar nenhum.

Um dado curioso sobre o regime chavista é que ele parece ter se inspirado bastante no antigo regime militar brasileiro. Lá como aqui, foram permitidos partidos politicos e eleições a fim de expor um simulacro de democracia, mas os oposicionistas com possibilidade de vencer são cassados, e as regras do jogo são mudadas sempre que a oposição tem reais chances de chegar ao poder. Soa familiar? O regime também cria "falsos opositores" a quem permite se candidatar. Golbery do Couto e Silva fez escola.

Outro dado é que o regime abusa de plebiscitos, igualmente para dar uma impressão de democracia. O plebiscito é descrito como a consulta mais democrática que existe, posto que o povo decide diretamente, sem a necessidade de representantes. Isso é fato. Mas o plebiscito é indicado para decisões pontuais, sim ou não. O regime fez plebiscitos para aprovar verdadeiros pacotes onde o poder do executivo era fortalecido, ardilosamente mesclados de concessões populistas, podendo o eleitor apenas dizer sim para tudo ou não para tudo, como a mãe que diz ao filho: se não comer a verdura, também não come o doce.

Historicamente, o plebiscito tem sido mais usado por ditaduras do que por democracias. O próprio Hitler convocou dois plebiscitos antes de estabelecer seu poder absoluto.

O cenário venezuelano é totalmente incerto. A única certeza é que vai sobrar para nós. Haverá possibilidade de fazermos uma mediação eficaz, promovendo a saída do chavismo sem derramamento de sangue? Por hora, Lula só quer fugir do assunto. A Venezuela elege quem quiser...

domingo, 9 de junho de 2024

A Razão para sermos Latino-Americanos

Recentemente deparei-me com este vídeo. É uma crítica a uma nova animação dos estúdios Disney, que retrata uma família latino-americana residente nos EUA, e foi acusado de ser ofensivo à comunidade latina por incluir gramática incorreta, estereótipos, racismo e uso de uma gíria inapropriada. Não vou entrar no mérito dessa discussão. Mas chamou-me a atenção um discurso da dubladora da animação, ela mesma descendente de mexicanos, procurando justificar os erros gramaticais:

"A língua espanhola não é uma língua latino-americana. É uma lingua que os conquistadores espanhóis forçaram ao povo latino-americano. A razão para sermos latinos e não nativo-americanos. É o motivo dessa distinção. Então fique bravo comigo o quanto quiser por palavras incorretas em espanhol"

À primeira vista, parece mesmo um disparate. Se é assim, por que ninguém diz que o inglês também não é uma língua americana, mas que foi imposta por conquistadores britânicos? No entanto, essa fala tem, sim, uma lógica peculiar, proclamada por latino-americanos residentes nos EUA. Em seu entendimento, o termo "latino" refere-se ao nativo americano, e não ao colonizador. Pelo senso comum, sabemos que o termo "latino" refere-se a povos originados da desintegração do Império Romano do Ocidente, onde a língua falada era o latim - italianos, franceses, espanhóis, portugueses, romenos. Estritamente falando, sul-americanos não são latinos, mas descendentes de latinos. Nunca encontrei motivo para pôr em dúvida essa assertiva. Mas recentemente, um novo pensamento tem redefinido o sentido do termo, retirando-o da Europa: latinos são os sul-americanos, e o europeu colonizador foi um invasor estrangeiro que ocupou essas terras e impôs seu idioma.

Entendo que muitos descendentes de imigrantes sul-americanos nos EUA procurem uma identidade que evoca uma época gloriosa, o tempo dos antigos impérios azteca e maia, diferente da realidade frustrante de pobreza e discriminação vivida por eles. Mas militantes variados têm dado um uso político a esse sentimento identitário, com a finalidade de desvincular a população dos valores herdados de nosso mundo ocidental, e culpabilizar a outros pelos problemas atuais - nossos povos, supostamente, já existiam aqui antes da América ser descoberta, quando então fomos invadidos e espoliados, e estamos até hoje procurando fazer das ruínas um país.

Poderia ser apenas uma ilusão tola. Mas é nefasta, a julgar por outros exemplos na História. A busca por uma identidade antiga e mítica como escapismo para os maus tempos do presente já ocorreu em outros momentos, como por exemplo na Alemanha derrotada após a primeira guerra mundial, quando surgiu a Sociedade Thule, fundada por ocultistas, que afirmava serem os povos nórdicos originados de uma ilha mítica denominada Thule, e pregava o retorno aos supostos valores originários e o abandono do mundo ocidental cristão. Sabe-se que esta sociedade teve grande influència no partido nazista, que realmente incentivou a prática de rituais do antigo paganismo germânico, como forma de resgate do orgulho e do sentimento exclusivista.

Do mesmo modo, os latino-americanos da época atual querem se desvincular do mundo ocidental. E tem nesse propósito o pleno apoio dos norte-americanos, igualmente interessados em alijá-los do mundo ocidental, que assim pode ser pensado como composto unicamente por países ricos e desenvolvidos. Ironicamente, com essas ideias, os latino-americanos endossam o estranhamento que é a verdadeira causa de sentirem-se excluídos e discriminados, e também alimentam o racialismo tão marcante na América do Norte - atualmente, nos EUA, ninguém mais associa o latino ao europeu que fala uma língua derivada do latim, mas o termo tem sido empregado cada vez mais como a definição de uma raça, supostsmente originária da América do Sul. Um sul-americano chegado nos EUA pode ter a raça que for, mas nunca é catalogado como branco, negro ou asiático, mas sempre como "latino".

Os norte-americanos não proclamam que o inglês foi uma língua imposta pelos conquistadores, pois ao contrário dos latino-americanos, consideram-se os herdeiros legítimos daquele conquistador. E no entanto, a despeito das muitas diferenças, tanto no norte como sul, a História replicou o mesmo roteiro de Descoberta + Inclusão em Impérios Europeus + Independência + Escravidão + Imigração. Sem fantasias e mistificações, somos membros ordinários do Mundo Ocidental. Que não contém somente países ricos.

domingo, 14 de abril de 2024

A Lenda do Poder Moderador

Uma notícia recente dá conta de que o STF rejeitou por unanimidade a tese de que um artigo da constituição conferiria um "poder moderador" às Forças Armadas. Lembrando, a figura do Poder Moderador, esse em maiúsculas, foi criada na primeira constituição do país e conferido ao imperador, a quem caberia mediar conflitos entre o ministério e o parlamento, com prerrogativa de dissolver ambos e convocar novas eleições. Ao invés dos tradicionais três poderes - executivo, legislativo e judiciário - a constituição do Império reconhecia quatro. E o fato é que o Poder Moderador funcionou a contento, haja visto ter sido aquela a constituição mais longeva da história do país.

Nenhuma constituição republicana mencionou um poder moderador. Mas uma corrente de historiadores e analistas políticos têm tido gosto em afirmar que o poder moderador continuou existindo, tendo passado a ser exercido pelos militares. Faz um certo sentido. Os militares derrubaram o imperador, que era o detentor legal do Poder Moderador, então teriam assumido para si este poder. E bem ou mal, a história republicana foi pontilhada de muitas intervenções militares. Uma interpretação benevolente afirma que em momentos de grave impasse político, com iminência de revolução e guerra civil, as forças armadas apresentam-se como mediadoras do conflito e impõem uma solução que impede o pior.

Independente da orientação política do observador, é de fato tentador crer que existe um anjo da guarda que sempre nos salvará de impasses sangrentos, reconduzindo o país à normalidade. Mas as intervenções militares na história republicana se encaixam efetivamente na figura de um poder moderador?

Um mediador, por definição, concilia dois contendores. Ele pode urdir um acordo, ou dar ganho de causa para um dos litigantes, mas não pode assumir o poder ele próprio - nesse caso ele deixaria de ser um mediador e se tornaria um terceiro contendor. Parece-me que o real propósito dos militares, em todos os episódios de intervenção, sempre foi inaugurar seu próprio governo. Em 1930 um junta depôs o presidente, abortando a guerra civil que se avizinhava. Mas deu inequívocos sinais de que pretendia permanecer no poder, tendo inclusive nomeado ministros - o poder só foi entregue a Getúlio Vargas quando as forças que o apoiavam ameaçaram prosseguir rumo à capital. Em 1946 o próprio Getúlio Vargas, suspeito de planejar um golpe para suspender a eleição marcada, foi deposto por um golpe dos militares, e o poder foi entregue ao presidente do STF. Mas na eleição que se seguiu, ambos os candidatos eram militares. Em 1964 o poder foi tomado pelos militares sem nenhuma disposição de conciliar facções políticas.

A estabilidade política do Império deveu-se à forma como o país obteve a independência, preservando intactas instituições herdadas do período colonial e assim impedindo que os militares se tornassem atores políticos, como aconteceu na América Hispânica. Por toda a história do continente, a presença de militares na política foi sinônimo de guerra e distúrbio, raramente produzindo governos duradouros, ou quando o faziam, eram terríveis ditaduras de algum caudilho. Considero "wishful thinking" a tese de que os militares exercem um poder moderador - historicamente, eles têm sido mais um fator de desordem do que de ordem.

Quem quer o poder moderador, quer ser imperador. Mas imperador o país já teve.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Mais um 31 de março

Todo ano, aproximando-se o calendário do 31 de março, emergem novas (ou as mesmas?) discussões sobre o evento ocorrido em 1964, até hoje não assimilado de todo pelos comentaristas, como prova essa ressurgência. Mas por acaso adquiri recentemente um livro sobre o tema, Ditadura à Brasileira, de Marco Antonio Villa, que consegue lançar luz sobre aspectos ainda não bem ventilados.

Algo que vem me chamando a atenção é a infindável polêmica sobre se o ocorrido teria sido um golpe ou uma revolução, também a recente mania de nomear o regime como cívico-militar ao invés de simplesmente militar, como se essas fossem questões cruciais. Alguma coisa aí não ficou bem entendida, ou querem que seja o que gostariam que fosse. Lendo o livro, que cita numerosos depoimentos de personagens da época, notei que o termo "revolução" é muito repetido pelos próceres do regime até pelo menos a época de Medici. Fico com a impressão que o golpe ou revolução não foi somente uma réplica à suposta guinada comunista do presidente deposto, mas embutia efetivamente um projeto de longo prazo, abrangendo várias esferas, social, poitica, econômica, tal como uma verdadeira revolução.

Mas que projeto seria esse? No campo econômico, os presidentes militares não se desviaram do desenvolvimentismo nacional-estatista que vinha regendo o país desde os anos 30, oscilando entre sua vertente "entreguista" (Kubitchek, Castello) e sua vertente "nacionalista" (Vargas, Geisel). No campo político, fica claro: seguiu-se a doutrina positivista do filósofo Auguste Comte, leitura preferida dos alunos das escolas militares do fim do império. Os positivistas desacreditavam da democratia representativa e pregavam uma "ditadura republicana, racional e científica", comandada por técnicos e não por políticos, que presumivelmente implementaria o desenvolvimento econômico e social.

Essas "ideias geniais" eram intoleráveis até para a conservadora oligarquia de plantadores de café que assumiu o poder na primeira república, a qual tratou de fechar o espaço político para os positivistas, influentes durante a "república da espada", e conseguiu alijá-los. Mas os princípios positivistas permaneceram no ideário de numerosos líderes políticos, e sobretudo militares. O autor foi claro em todas as letras: os militares viam a política como uma inutilidade, um obstáculo ao desenvolvimento.

Mas neste ponto verifica-se uma contradição fundamental: se era assim, então por que o regime instaurado em 1964 revestiu-se de um caráter bacharelesco, com todos os atos arbitrários cuidadosamente editados, numerados e publicados? Houve cerca de vinte atos institucionais, embora sejam mais conhecidos o AI-2 e o AI-5. Os atos complementares contam-se às dezenas. Essa idiossincrasia contrapõe-se dramaticamente ao que ocorria na época em nossos vizinhos hispânicos, com os generais-presidentes dispensando qualquer arremedo de legalidade, e sem data para sair. Talvez houvesse uma aversão da parte de nossos generais de serem vistos como reles caudilhos, equiparando-se aos hispânicos, aversão herdada dos idos do império quando o exército brasileiro bateu-se contra vários daqueles caudilhos.

Ou talvez ocultasse uma proposta de tornar gradualmente a ditadura um regime constitucional, para desta forma cimentar nas instituições os ideais da suposta revolução, e quando nada, para lhes proporcionar uma saída honrosa, "legal". Conforme se sabe, conseguiram.

O livro chama a atenção para outros aspectos do período frequentemente ignorados pelos comentaristas, como o fato da esquerda tampouco ser democrática - se para os militares a política era uma inutilidade, para os militantes revolucionários a política era uma farsa, a que chamavam "democracia burguesa". É perfeitamente sabido que todos os movimentos revolucionários sul-americanos dos anos 60 e 70 tinham como meta o modelo cubano, com um partido único. Outra verdade incômoda é que nem todos os políticos civis do partido governista submetiam-se à ditadura apenas por coação - havia muitos que concordavam com ela, e até os que eram mais radicais.

De fato, chegava a ser hilário o radicalismo caricato de um Gama e Silva, ministro da Justiça de Costa e Silva, que até tinha dificuldade para suportá-lo, pois não lhe era difícil perceber que a propensão de seu auxiliar em ser mais realista que o rei não passava de sabujice. Os primeiros anos do regime, então, foram mesmo uma tragicomédia, com tantos líderes políticos proeminentes dando seu apoio ao novo governo, confiantes que assim se veriam livres dos adversários cassados e teriam todas as possibilidades de se tornarem presidentes na eleição de 1965, apenas para verem a eleição cancelada e eles próprios cassados.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção - e que o autor procurou explicar - foi o mais absoluto abulismo da parte da população em geral, que não expressou reação nenhuma à implantação da ditadura, sobretudo após o AI-5. Pouco antes havia um clima de descontentamento no ar e um aguerrido movimento estudantil, onde foi parar tudo aquilo? O autor narra como Carlos Lacerda, preso em seguida, iniciou uma greve de fome e logo foi repreendido pelo irmão:

"Os jornais não estão iniciando nada disso; as praias estão repletas; está um sol maravilhoso e está todo o mundo na praia; ninguém está tomando conhecimento disso! Então você vai morrer estupidamente. Então você quer fazer Shakespeare na terra da Dercy Gonçalves?"

Por certo, nem todos os que estavam tomando sol na praia apoiavam o que estava acontecendo, acredito até que a grande maioria não apoiava. Por que ninguém fazia nada? O autor ensaia uma explicação:

"Em um país com tradição autoritária, avesso às grandes lutas políticas e vivendo de movimentos espasmódicos de mobilização, quando o cenário econômico é favorável, com expansão do emprego, do crédito, do consumo e com a possibilidade de ter uma casa própria, a política vira um estorvo para a ampla maioria da população. Era o que estava acontecendo em 1969"

A política tinha, de fato, virado um estorvo para todos. Mas o grande sucesso estratégico do regime foi usar a política para criar a ilusão de que havia uma normalidade próxima, e assim dissuadir qualquer reação precipitada da parte dos eventuais adversários. Para tal, em primeiro lugar foram eliminados os chefes políticos mais importantes, tanto dos adversários quanto dos apoiadores - assim se foram Carlos Lacerda, Adhemar de Barros, Juscelino Kubitchek e quaisquer outros politicos civis grandes o bastante para disputar o poder com os militares. Os demais foram atirados nos dois únicos partidos admitidos, que tornaram-se valas comuns, anódinos, sem espírito ou ideologia definida. Então criou-se uma legalidade forjada, onde as regras eram mudadas sempre que necessário para garantir a maioria do partido do governo.

Para quem vê a política como uma inutilidade, é normal acreditar que toda essa manipulação da legislação eleitoral seria inócua para o país. No entanto, essa tornou-se a herança mais importante e longeva do regime dos militares. O objetivo foi desemponderar o eleitorado e os políticos dos grandes centros, mais esclarecidos e importantes economicamente, em prol do eleitorado e dos políticos dos rincões atrasados, tradicionalmente dependentes e apoiadores do governo. O efeito a longo prazo no quadro político foi devastador. Nunca mais surgiram líderes intelectualmente brilhantes com um Carlos Lacerda; em seu lugar, surgiu um José Sarney. Vinte anos depois, o sucessor de um Adhemar de Barros, este já visto como populista e corrupto, foi um Paulo Maluf. O primeiro presidente eleito após o fim do regime foi um Collor de Melo, originado do mais atrasado coronelismo de um estado atrasado.

Sessenta anos após, nada mais resta da obra do regime exceto a destruição do quadro político. Desiludido com os partidos, o eleitorado busca líderes carismáticos - um Lula ou um Bolsonaro. Ambos parecem hologramas de outra época, repetindo discursos anacrônicos, prova de que o regime de 1964 ainda está entre nós. Por isso estamos sempre a discutí-lo como se ainda fosse o presente. Mais um 31 de março.

sábado, 16 de março de 2024

Casa Grande & Senzala, ainda atual?

Completa 90 anos o grande clássico das Ciências Sociais brasileiras, Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ainda hoje incitando polêmicas. O livro ganhou uma edição especial comemorativa de aniversário da Global Editora, e foi objeto de um artigo da revista Aventuras na História, comentado pela historiadora Mary Del Priore e pelo economista, cientista político e ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira. Mas minha grande dúvida é: continua atual? Argumenta Bresser-Pereira:

"Casa Grande & Senzala continua atual porque é uma obra histórico-sociológica que busca os fundamentos da sociedade brasileira. Uma sociedade que, como todas as grandes sociedades, muda, mas se conserva a mesma (...) As suas bases econômicas, políticas e raciais continuam as mesmas"

O livro seria, então, uma referência para explicar aquilo que chamamos "brasilidade". O objeto do estudo foi o povo. Afirma Mary Del Priore:

"Muito antes dos historiadores estrangeiros falarem em atores anônimos da História, Giberto Freyre o fez. Nos seus livros, não há heróis. Há gente, povo"

Freyre foi, de fato, um pioneiro da técnica de produzir estudos sociológicos partindo de detalhes da vida privada de pessoas comuns, uma tendência que mais tarde se tornaria moda. Teve também o mérito de contestar a teoria então amplamente aceita da inferioridade das raças mestiças, que seriam um entrave ao desenvolvimento do país. Mas demolido este mito, criou outro: o da mestiçagem como sendo o traço fundador da sociedade brasileira, onde supostamente as raças convivem de forma harmônica. Por este motivo, Freyre é até hoje criticado por haver lançado a falácia da "democracia racial", termo que não aparece em nenhum de seus escritos, mas que é sugerido pela maneira leniente com que abordou a colonização portuguesa e relativizou o papel da escravidão no país. Mas como bem apontou Mary del Priore, o grosso das críticas resulta do desconhecimento da obra, das pesquisas e das inúmeras entrevistas dadas por Freyre ao longo da vida.

Essa polêmica rasa e persistente, que passa ao largo de uma análise mais profunda de sua obra, é produto, a meu ver, daquilo que é seu grande defeito: manter um viés racialista. Não confundir racialismo com racismo. Racialismo é toda abordagem que afirma ser a raça um fator explicador de determinado fenômeno social, o racismo é um recorte do racialismo que procura provar que umas raças são superiores às outras.

Freyre, com certeza, não era um racista. Mas indiscutivelmente era um um racialista: se afirmar que a mestiçagem torna o país inferior é uma falácia sem fundamento científico, o mesmo se diz de afirmar que a mestiçagem é o traço explicador do país. Afinal, o perfil social, cultural e político do Brasil foi originado da mistura de heranças genotípicas das raças que constituíram a nossa população? Ou foi produto de circunstâncias histórias e ambientais, que teriam gerado um perfil análogo mesmo se nossas matrizes raciais viessem de outros grupos étnicos?

Pergunto-me porque Gilberto Freyre, o estudioso, insistiu tanto nessa exaltação da mestiçagem. Ele próprio (ao contrário do que muitos supõem) nunca conheceu pessoalmente aquele mundo de casas grandes e senzalas sobre o qual discorreu com tanta familiaridade, como se o houvesse conhecido. Mas ele era filho de um médico e sempre morou em cidades. Talvez o motivo tenha sido uma fixação pessoal. Um outro livro de Freye, muito menos conhecido, um livro de memórias intitulado De Menino a Homem narra várias experiências sexuais bizarras da juventude, e deixa claro como o autor era fascinado por sexo interracial.

A meu ver, a mestiçagem está mais para mito fundador do que para traço fundador. É algo que gostamos de acreditar - o país é uma mistura de elementos europeus, africanos e índios. Mas é autoevidente que o elemento europeu é arrasadoramente dominante, sem contar que ao nos referirmos a elemento "africano" e "índio", estamos atirando em um mesmo saco dezenas de etnias que pouco tinham em comum umas com as outras, cujas heranças foram perdidas no processo de colonização, restando apenas vestígios periféricos. Já a herança européia é muito mais concisa, originada de seus quatro pilares: o greco-romano e o judaico-cristão. Uma análise honesta do Brasil só pode considerá-lo um membro ordinário do Mundo Ocidental, tal como o restante das ex-colônias dos impérios europeus - pobre, ou subdesenvolvido, se preferir, mas ocidental.

Mas então, Casa Grande e Senzala continua atual?

Sim, desde que o país seja reduzido a casas grandes e senzalas. Onde estão aí os milhões de imigrantes que hoje constituem a classe mais ativa do país em termos econômicos e culturais, e que nunca passaram por casas grandes nem por senzalas? A obra sociológica de Freyre continua importante, mas a discussão em torno da relevância da mestiçagem está datada. Pertence às obsessões racialistas do princípio do século passado. Na verdade, vejo-a como um trauma que deve ser superado - o trauma de ser uma sociedade com passado latifundiário e escravizador, o que em tempos modernos é traduzido pela visão reducionista de um povo bom governado por uma elite abominável.