terça-feira, 18 de julho de 2023

Imigração e Ruína

Os recentes distúrbios na França lançam luz sobre um problema que vem se arrastando há décadas: a imigração descontrolada e os problemas que acarreta.

Problemas? Entendo um problema como uma anomalia que pode (deve) ser reparada, tipo um cano vazando embaixo da pia. Mas no contexto atual, o contínuo deslocamento de imigrantes dos países do Terceiro Mundo em direção ao Primeiro Mundo não é um problema, mas uma característica de nossa época. É claro que a interpretação pode ser outra: uns dizem que aqueles países estão sendo invadidos por hordas de estrangeiros, outros se queixam de que as comunidades de estrangeiros são alvo de injusta discriminação da parte das autoridades locais. Não há invasão nenhuma: a vinda de imigrantes pobres dispostos a executar trabalhos rejeitados pelos habitantes tem sido incentivada há décadas. E se a polícia age com violência, também é verdade que são os imigrantes e seus descendentes que cometem a maior parte dos crimes.

O fato é que os franceses, suecos, alemães e todo o mais não gostam de imigrantes, mas gostam ainda menos de executar os trabalhos pesados que são feitos pelos imigrantes. Aí o problema não tem solução, e pos isso mesmo não é um problema. O que não tem remédio...

Essa constatação dá um certo desalento. Pois em nosso imaginário, imigração é uma coisa boa, a epopéia de indivíduos corajosos e laboriosos, que abandonam suas terras de origem para construir novos países no além-mar. Os EUA até colocaram aquela inscrição na Estátua da Liberdade para homenageá-los. Entre nós, persiste a memória afetiva de nossos avós italianos, portugueses, japoneses e alemães.

O mesmo não ocorre para com os novos imigrantes na Europa e nos EUA. Eles não vem construir novos países, aqueles países já estão construídos e já têm sua cultura estabelecida. A fenomenologia da imigração moderna diz respeito à substituição de mão-de-obra: aqueles imigrantes têm a função de assumir trabalhos que a força de trabalho local já não pode suprir. Sem ter a incumbência criar o arcabouço da cultura e da identidade nacional daqueles países antigos, não existe uma integração social; as comunidades estrangeiras permanecem como uma excrescência, ao mesmo tempo em que sua integração econômica em determinados nichos do mercado de trabalho é forte a ponto de não ser mais possível dispensá-los. Esse quadro tende a reproduzir-se geração após geração, perpetuando o mútuo estranhamento e ressentimento. A agitação, a violência e o crime são consequências inevitáveis.

Observa-se aí um claro sintoma depressivo: ao contrário do que sucedeu no Brasil, nos EUA e em demais países "novos", o fluxo de imigrantes parece ilógico: o direcionamento não deveria ser do velho para o novo, do que já foi feito para o que ainda está em gestação? Não está ocorrendo, portanto, uma construção, mas um declínio. Os países antigos estão abandonando seus valores; sua população não quer mais executar trabalhos pesados nem criar filhos, prefere o repouso e o lazer. Envelhecida e sem renovação, tende a encolher enquanto aumenta o percentual de estrangeiros. De forma irônica. lembra o que ocorria no Brasil da época da escravidão, quando os brancos não queriam trabalhar e tudo era deixado para os cativos. Impressionada com a quantidade de crianças negras ociosas pelas ruas após a abolição, uma educadora alemã que veio ser preceptora de filhos da elite paulista escreveu em seu diário:

"Não percebem eles que assim estão preparando a pior das gerações, que irá depois conviver com seus próprios filhos?"

Mais de cem anos depis, podemos dizer a mesma frase aos descendentes da preceptora.


terça-feira, 20 de junho de 2023

O Fim de Bolsonaro

Estamos assistindo agora ao esgotamento do fenômeno iniciado cinco anos atrás, o Fenômeno Bolsonaro, com o ocaso do personagem que há poucos meses esteve a escassos votos de se tornar pela segunda vez presidente do país. Não causa espanto, exceto talvez para o próprio e para seus apoiadores mais próximos, que todo o apoio que supostamete tinha para aventuras golpistas se revelasse pura ilusão. Ignoro que rumo tomará a direita nacional daqui por diante, pois ao que tudo indica, o bolsonarismo morrerá com seu criador, posto que todo movimento político calcado no personalismo se acaba quando se extingue o carisma do personagem.

De fato, desde o início Bolsonaro pareceu uma figura fora de seu tempo, como um holograma projetado de outra época - o extinto regime de 1964, do qual Bolsonaro não participou por não ter idade, mas que sempre idealizou, assim como o fizeram seus apoiadores. O fenômeno em si pode ser considerado o último eco de uma expectativa erigida há mais de 100 anos atrás, desde pouco antes da proclamação da república: a crença de que os militares seriam a reserva moral da nação, cabendo-lhes assumir a função de Poder Moderador sucedendo ao imperador.

Durante todo o período republicano, essa idealização impregnou o imaginário nacional. Formalmente desligados das lides políticas, os militares seriam, portanto, guiados apenas por devoção à pátria. Enquanto exercessem o Poder Moderador, o país estaria livre de impasses sangrentos e guerra civis. Os militares sempre apareceriam para salvar o país de uma situação de perigo, impressão recorrente em diversos momentos da história republicana, o último deles ao final dos governos petistas, quando apareceu Bolsonaro para assumir o papel salvacionista.

Mas se os militares eram tão bons assim, por que não assumiam o poder de uma vez, sucedendo aos políticos profissionais e seus interesses pessoais escusos, ao invés de permanecerem somente no papel de mediadores?

Conforme é sabido, isso aconteceu em 1964. Neste período a mística do poder militar chegou ao auge, mas também foi o início de seu declínio. De fato, o regime começou com um pico - o "milagre", com enorme sucesso econômico, mas que também foi o pico da repressão, e a face feia dos militares não pôde mais ser ocultada. Seguiu-se a crise econômica dos anos 80, a "década perdida", com o desprestígio e o fim do regime, então o encanto foi quebrado. As últimas ações dos militares foram atentados terroristas perpetrados por membros dos órgãos de repressão, na tentativa de recriar um clima de instabilidade que justificasse a manutenção do regime de ditadura. Ficou evidente que o lendário "poder moderador" já se encontrava irremediavelmente corrompido, e seus últimos atores tardios foram em geral oficiais de baixa patente, avessos à disciplina, cujo modo de ação pouco diferia daquele de terroristas, com marcada tendência ao envolvimento com o crime comum, repetindo o que desde muito acontece com a baixa oficialidade das polícias militares.

Foi exatamente neste grupo que Bolsonaro surgiu, ainda capitão, durante o governo Sarney. Avesso à disciplina, chegou a declarar em uma entrevista seu projeto de explodir bombas para chamar a atenção do Ministro do Exército às demandas dos colegas de farda. Abandonando ele próprio a farda e entrando para a política, ficou por longo tempo um outsider, até que a conjunção de fatores políticos criou o fenômeno que o levou à presidência. Foi provado que a mística dos militares "salvadores do país contra os políticos irresponsáveis" ainda estava viva, embora em estado latente, mas seu ressurgimento encarnou com precisão a velha narrativa do drama que se repete como farsa. Bolsonaro teve sua época, ela passou, e cabe-lhe o julgamento da História. Bom ou mau, para o país foi indiscutivelmente um progresso: a crença do "poder moderador" exercido pelos militares é mais um dente-de-leite que cai da boca.


terça-feira, 30 de maio de 2023

Lula e o Compadre Maduro

O assunto do dia é a visita do presidente Nicolas Maduro ao Brasil, severamente criticada por quem vê aí uma aproximação de Lula com ditaduras. Algumas previsões catastrofistas podem ser feitas. Quanto a mim, não é surpreendente. Para Lula, é fácil afirmar que a Venezuela tem sido "vítima de uma narrativa", e que sua monumental crise econômica é consequência das sanções impostas. Não acredito que essa reaproximação do país com a Venezuela trará outras consequências nefastas além de mais dinheiro perdido em empréstimos que não serão pagos.

Mas o caso é que o episódio evidencia um traço do atual presidente, que tem sido bem marcante: Lula é um discípulo dileto do compadrio, atributo que foi bem dissecado em estudo sociológico por Sérgio Buarque de Holanda ao definir o conceito do Homem Cordial. Em outras palavras, Lula se reaproxima de Maduro, nem tanto por motivações políticas e econômicas, mas sobretudo porque Maduro é um compadre. A lógica é essa: o sujeito pode ter matado a mãe, estuprado a avó e explodido o quarteirão inteiro, mas se é compadre, então está colocado na categoria dos "boa gente".

Lula pode ser politicamente habilidoso, mas nunca conseguiu se libertar do vício do compadrio, que o vincula àquilo que o povo brasileiro tem de mais bruto e primitivo. Isso ficou bem claro quando ele concedeu asilo ao foragido Cesare Batisti, afirmando em alto e bom tom que o considerava um inocente perseguido pelo governo italiano, fato que causou grande embaraço ao país. E no fim, Batisti confessou-se culpado e está na prisão na Itália.

Mas o que importa é que Maduro é um compadre, e aos compadres se empresta dinheiro mesmo que não paguem. Com essa transfusão, Lula pode dar uma sobrevida ao regime chavista, sabidamente um desastre completo que tem inundado de refugiados os países vizinhos, inclusive o Brasil. Isso é triste, sobretudo quando lembramos que a Venezuela é dona da maior reserva de petróleo do planeta, e costumava ter um padrão de vida superior ao do Brasil. Agora é também foco de banditismo organizado, comandado pela temida gangue conhecida como Trem de Aragua, gestada nas superlotadas prisões venezuelanas. A explosão da população carcerária venezuelana é fenômeno não bem explicado, pois começou ainda nos "anos bons" dos chavismo, quando foram implementados numerosos programas de distribuição de renda que, em teoria, deveriam aliviar as tensões sociais. No momento atual, não há dúvida de que o colapso do país, empurrando tantos milhões para a informalidade e o ilícito, constitui o caldo de cultura ideal para o florescimento do crime organizado.

Como pode ter havido tanto declínio? Nada de se espantar: a incompetência política é característica de povos onde a autoridade política é calcada no modelo familiar, com uma relação paternal entre o chefe de estado e a população, conduzindo ao caudilhismo, à corrupção e ao compadrio. Em outras palavras, é o traço de uma sociedade habitada pelo Homem Cordial, onde as relações sociais ainda não conseguiram evoluir de moldes personalistas para modelos abstratos, como a cidadania e a institucionalidade. O que prejudica nosso entendimento foi que Buarque de Holanda vendeu o Homem Cordial como se fosse uma invenção brasileira, até mesmo definida pateticamente como a "contribuição brasileira para a humanidade". Isso fez com que nos afeiçoássemos ao conceito, e o considerássemos "coisa nossa", quando na realidade está presente em maior ou menor grau em todos os povos do Terceiro Mundo.

Não se pode negar que Lula é bastante cordial. Mas continuo na esperança de que isso não nos cause mais do que alguns calotes na dívida.

sábado, 6 de maio de 2023

O Linha Direta e a "bandidolatria nacional"

Vi com satisfação o retorno do programa Linha Direta à grade da TV Globo, de onde estava ausente desde 2007. Até então, o programa veiculava casos policiais em aberto, e exibia o retrato dos criminosos foragidos. A despeito de sua enorme popularidade, foi descontinuado, e chegou-se a comentar que a Globo estaria recebendo ameaças dos criminosos denunciados. Outros afirmaram que o programa estava sendo criticado por supostamente glamurizar o crime. Sinceramente, não notei essa glamurização nos episódios que assisti, mas o fato do programa haver proporcionado a prisão de mais de 400 criminosos graças a suas denúncias, a meu ver dispensa qualquer outro argumento e justifica de pleno a sua manutenção.

O episódio para a reestréia foi bem escolhido: tratou-se do Caso Eloá, extremamente emblemático. Como se sabe, refere-se a um sequestro com cárcere privado ocorrido em 2008, quando um homem inconformado com o fim de uma relação, Lindemberg Alves Fernandes, invadiu o apartamento da ex-namorada, Eloá Cristina Pimentel, e ali manteve ela e uma colega como reféns por nada menos que cinco dias, terminando por matá-la e ferindo a colega antes de ser preso quando a polícia invadiu o apartamento.

Não foi a primeira vez que uma coisa assim aconteceu, nem seria a última, mas o episódio notabilizou-se pela maneira absurda com que foi tratado pela polícia e pela midia, chegando a tornar-se um grotesco reality show, com seu ponto máximo na reentrega da refém colega de Eloá dois dias após haver sido libertada.

Nos cinco dias que durou o show, o sequestrador foi tratado com todo o beneplácido pela polícia, que atendeu a todas as suas exigências, inclusive enviando mantimentos para que pudesse manter o cárcere privado indefinidamente. Quando ele afirmou que só se entregaria se Nayara, a colega de Eloá, estivesse presente, a polícia foi buscá-la com a finalidade de "ajudar nas negociações", e o sequestrador só teve o trabalho de puxá-la pelo braço para trazê-la de volta ao apartamento. Quando por fim a polícia decidiu invadir, os preparativos foram tão descuidados que o sequestrador teve tempo de armar uma barricada junto à porta, o que atrasou a entrada dos policiais por tempo suficiente para que ele atirasse nas vítimas.

Por que tanta incúria? Por que a polícia não agiu antes? Naqueles cinco dias, o sequetrador apareceu inímeras vezes à janela, podendo ser alvo de um atirador de elite. E com certeza ele precisava de tanto em tanto dormir, comer e até ir ao banheiro. Em suma, não faltaram ocasiões oportunas para a policia invadir. Mas nada aconteceu. Um boato não confirmado dá conta de que o governador Alkmin havia proibido terminantemente a polícia de matar o sequestrador, pois era época de eleição e não queria se prejudicar. A meu ver, a melhor explicação pode ser extraída deste comentário do coronel Eduardo Félix, então comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar:

"Nós poderíamos ter matado, ter dado o tiro, mas é um garoto de 22 anos de idade, sem antecedentes criminais e com uma crise amorosa. Se nós tivéssemos atingido o Lindemberg, fatalmente os senhores [jornalistas] estariam questionando o GATE sobre por que não negociaram mais"

 Uma leitura apressada passa a impressão de que o comentarista estaria imbuído de sólidos escrúpulos quanto aos direitos humanos do delinquente. Mas realmente preocupa-se com direitos humanos alguém que denomina "crise amorosa" o terror que o criminoso infligiu às vítimas?

O que se vê, de fato, é uma sólida empatia para com o criminoso, cujas atitudes são contempladas com compreensão, concomitante a um enorme desprezo pelo sofrimento da vítima. Não é a opinião isolada do coronel Eduardo Félix: coisa expressa com tanta convicção está por certo impressa na mente da população desde muitas gerações atrás, e trata-se de uma espécie de doença mental coletiva que eu denomino bandidolatria. Que ninguém ache estranho: não é este o pais onde o cangaceiro Lampião é considerado herói popular? A bandidolatria é basicamente a empatia para com o delinquente, cujos atos são justificados por alguma lógica. Sua causa mais primal é um sentimento de falta de autoridade moral para condenar o criminoso, que assim pode fazer sua própria justiça. Sua consequência última é a alta criminalidade consoante à extrema brandura da legislação penal. Difícil é condenar o delinquente. Facílimo é libertá-lo por meio de incontáveis benefícios para se relaxar a prisão.

O Linha Direta promete abordar o caso Letícia Tanzi, ainda mais emblemático da fraqueza da legislação penal brasileira. Não tenho estômago para falar dele aqui no momento. Quem quiser, procure no Google.

domingo, 26 de março de 2023

Essa Guerra Já Deu

Quem viveu tanto quanto eu, com certeza conheceu o tempo quando todos temiam o fim do mundo com a Terceira Guerra Mundial, a guerra nuclear, que não aconteceu. No mundo pós-guerra fria, uma coisa que não se sabe bem definir é a guerra moderna. Essa entre a Rússia e a Ucrânia é o primeiro grande conflito surgido após a temida guerra nuclear EUA X URSS sair de pauta. E já faz um ano de reme-reme. Exato um ano atrás eu escrevi, Não Se Fazem Mais Guerras Como Antigamente, e agora só tenho a dizer que essa guerra já deu. Outro dia alguém perguntou porque não acontecem guerras na América Latina. Eu respondo: seria uma perda de tempo. Tenho certeza que seria mais um reme-reme produzindo apenas mortos, feridos e dinheiro torrado ao invés de resultados.

Mas afinal, quando foi que as guerras deixaram de ser um acontecimento notável, capaz de redirecionar os rumos da História?

A Época Áurea das guerras foi a segunda onda de colonialismo que se seguiu à revolução industrial, no século 19. Era um tempo quando as potências tinham que assegurar o suprimento de matérias-primas e os mercados para seus produtos, em um mundo que não era globalizado, mas retalhado por impérios. Quem chegou tarde à corrida por colônias só tinha duas alternativas: aliar-se a uma das potências, em posição subalterna, ou conquistar seu próprio império colonial pela guerra. As tensões daí resultantes desembocariam no século 20 com a primeira e a segunda guerras mundiais. Nesse contexto surgiram os regimes fascistas, e a necessidade daquele domínio assegurador de recursos naturais e humanos foi consubstanciada pelos nazistas na expressão "espaço vital".

Mas ao fim da segunda guerra, um novo equilíbrio de forças surgiu. Desapareceram as potências de antes, substituídas por duas superpotências: os EUA e a antiga URSS. A luta entre esses dois novos atores não se fazia mais por busca de colônias ou territórios, mas no sentido de impor aos demais seus respectivos sistemas político e econômico, o capitalismo e o comunismo. O enfrentamento armado direto entre as duas superpotências foi descartado, pois significaria uma guerra nuclear que destruiria a ambas, e então, quando havia conflito armado, esse acontecia nos países satélites das duas superpotências, opondo exércitos ou grupos guerrilheiros apoiados por seu respectivo patrono ideológico.

Nesse novo contexto político e militar, tornou-se desnecessário recorrer à força armada para obter recursos naturais ou compradores, que podiam ser obtidos em um mercado global cuja existência era do interesse de ambas as superpotências. Os antigos impérios coloniais tornaram-se anacrônicos, e foram liquidados. Foi o fenômeno conhecido por descolonização, que fez nascer dezenas de novos países. As potências desfizeram-se de seus domínios de bom grado, pois muitos deles eram mantidos a alto custo e sem visível retorno. Nenhuma das antigas metrópoles empobreceu após livrarem-se de suas colônias, o que não causa surpresa, pois como foi afirmado, a manutenção das colônias no passado obedecia a um imperativo estratégico, e não econômico.

O quadro de permanente tensão e nenhum enfrentamento direto entre as duas superpotências ganhou o nome apropriado de guerra fria. Até que a própria guerra fria deixou de existir, com o fim da ex-URSS, e desde então não se sabe direito para o que é que serve a guerra.

Talvez para distrair populações e manter ditadores no poder, como previu o autor de 1984.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Brasil: Outra História Americana

Já escrevi aqui análises comparando a evolução dos EUA com a do Brasil, apontando as analogias do ponto de partida - o mesmo roteiro de descoberta, incorporação a um império europeu, povoamento, supressão de povos nativos, independência, escravidão e imigração - tentando explicar como ambos chegaram a um destino tão diferente. Sobre isso, não tenho muito mais a acrescentar. Mas recentemente fiquei surpreso ao ver que o mesmo questionamento foi feito por uma pesquisadora norte-americana, a historiadora Brodwyn Fischer, da Universidade de Chicago, que há mais de dez anos criou um curso batizado com um nome provocativo: Brazil, Another American History.

É citado o tipo de colonização - a portuguesa, implantada no Brasil, e a britânica nos EUA, cada uma imprimindo a suas colônias as características que suas metrópoles já possuíam. Até aqui nenhuma novidade. Mas a autora lança um conceito bem oportuno, que pode explicar porque há tanta dificuldade para visualizar sem isenção o que Brasil e EUA têm de semelhante e diferente. Ela denominou-o hiperrealismo, e definiu-o como a noção de algo que na verdade nunca existiu em lugar nenhum, mas que é aceito pelo senso comum, inclusive de pessoas bem instruídas.

Vejo aqui uma semelhança com o conceito de wishfull thinking, que tampouco possui tradução exata em português, e denota uma coisa que as pessoas "gostam de acreditar". A proliferação de ideias hiper-reais têm disseminado esquematismos pré-concebidos que aparentemente explicam os brasileiros e os americanos em seus atributos mais profundos, mas que não resistem à análise.

Começando pela já citada ideia hiper-real da colonização portuguesa concebida como brutal e malévola, e da colonização britânica como esclarecida e benévola. A História não confirma essa assertiva. Os britânicos também foram brutais com os povos nativos e os escravos. O motivo pela evolução dos dois países haver se desviado tanto não deve, portanto, ser buscado nas origens da escravidão, mas sim no que sucedeu depois: ao contrário dos EUA, a escravidão permaneceu entre nós informalmente, desde o tempo em que o tráfico foi formalmente proibido mas continuou clandestinamente. Desnecessário lembrar como a escravidão marcou todo o nosso futuro. A autora aponta a tendência brasileira de criar "poderes informais", que se sobrepõem à lei escrita, ao passo que nos EUA "fazemos questão de colocar na lei até as nossas brutalidades".

Por trás desses poderes informais, não temos dificuldade para enxergar um conceito que nos é bastante familiar: o famoso jeitinho brasileiro. Mas trata-se de outra notória ideia hiper-real. A autora aponta um aluno brasileiro, que afirma com patética descontração "oh, nós temos o jeitinho, nós somos diferentes" como se essa fosse uma explicação mágica para todas as diferenças entre brasileiros e norte-americanos. Entretanto, afirma a autora, o jeitinho também existe nos EUA, embora não com esse nome. "A diferença é muito mais da auto-percepção".

O caso é que, assumindo erroneamente o jeitinho como uma peculiaridade brasileira, nós nos apegamos a ele. Aí reside o encanto do hiperrealismo - é uma coisa nossa, assim é a nossa alma, rejeitá-lo é rejeitar a nós mesmos. Afastando-me agora da dissertação da professora, posso citar por minha conta mais algumas ideias hiper-reais. Uma bem popular é a noção do brasileiro homem cordial, lançada por Sérgio Buarque de Holanda, que já causou muita polêmica ao ser a cordialidade assumida como sinônimo de afabilidade. Na acepção do autor, referindo-se à origem do termo - cordial deriva de coração - ele quis dizer passionalismo, personalismo, irreverência em face de normas institucionais. Basicamente, o homem cordial age conforme a emoção, e não a razão.

Sérgio Buarque de Holanda vendeu o conceito como sendo a contribuição brasileira para a humanidade, e aí nasceu a ideia hiper-real. Mas qualquer indivíduo razoavelmente nem informado quanto ao mundo que o rodeia pode notar que as características do homem cordial, sobretudo a indistinção entre família e Estado, estão presentes em vários povos, em várias partes do mundo. Não é, de modo algum, uma peculiaridade brasileira. Ocorre em povos de distintas origens e culturas, mas que grosso modo, compartilham o status de serem subdesenvolvidos. A partir desta constatação, não há dificuldade em concluir que a "cordialidade" nada mais é do que o traço de uma organização social primeva, orientada ao clã familiar, ainda não entrada em formas mais complexas e abstratas como a Comunidade, a Corporação ou o Estado, menos ainda entrada no racionalismo científico. Sendo um sinal de atraso e ignorância, não deveria de modo algum ser percebida com carinho e orgulho. Mas assim funciona o hiperrealismo.

A questão racial é outro celeiro de ideias hiper-reais, tanto nutridas por brasileiros como por norte-americanos. São notórias as diferenças entre a percepção da raça e o racismo de lá para cá. Nos EUA, não houve miscigenação, e todo indivíduo com qualquer ancestralidade africana, por mínima que seja, é catalogado como negro. No Brasil houve miscigenação abundante, prova de que não existe o racismo entre nós. Sociólogos como Gilberto Freyre afirmaram a existência de um luso-tropicalismo, supostamente uma característica inata dos portugueses a se misturarem, por já estarem próximos da África e já existirem escravos africanos em Portugal. Para os britânicos e demais europeus do norte, tudo seria apenas produto de uma sensualidade desabrida característica dos povos sulistas - nós somos racistas, mas não somos devassos como eles, certo? No centro de tudo, o mito da terra abaixo do equador, habitada por índias nuas, onde "não existe pecado".

Mas faltou incluir na discussão um dado crucial: desde as primeiras levas de povoadores nos EUA, havia homens e mulheres. Nas primeiras décadas desde a descoberta do Brasil, só houve povoadores homens. Esses colonos tinham que ter esposas e filhos - é fácil entender que qualquer um que se estabelece em uma terra desconhecida e hostil, sente de imediato a necessidade de produzir descendentes, o mais rápido e no maior número possível, sem os quais não terá sequer como sustentar-se quando lhe faltarem forças para o trabalho. Eles escolhiam esposas índias porque não havia ali mulheres europeias, e também porque era necessário estabelecer boas relações com os índios, de quem dependiam para quase tudo. Enquanto isso Portugal, que chegou a ter 10% de sua população afro-descendente no século 16, viu esse percentual reduzir-se a quase zero nos séculos seguintes.

Não, os colonos portugueses não saíam por aqui estuprando índias, ou emprenhando-as e abandonando-as, como muitos imaginam; eles tinham relações estáveis com suas esposas índias, pois só relações estáveis podiam garantir o grande número de descendentes que necessitavam, além de precisarem do bom conceito de seus aliados índios. Pode ser também que a crença do colono português aproveitador e abandonador de filhos derive dos costumes dos índios, pelos quais as crianças só ficavam com os pais até certa idade, e depois eram criadas coletivamente pela tribo. Os colonos portugueses não vinham com o objetivo de satisfazer seu libido, mas de sobreviver.

Contudo, a imagem do Brasil como uma imensa senzala habitada por negras assanhadas e portugueses lúbricos viria a nos perseguir por muitos anos, também disseminada por romancistas e comentaristas. Mas a real matriz dos brasileiros miscigenados não foram os africanos, e sim os índios, que deram origem à massa dos caboclos, também conhecidos como mamelucos. Certamente muitas negras escravas foram estupradas por seus capatazes e senhores, tal como ocorreu em todos os lugares e épocas onde existiram senhores e escravos, mas é bastante primário assumir que todo um grupo étnico, conhecido como mulato, possa ser criado a partir de uma série de estupros. Mesmo porque o propósito do estupro não é produzir descendentes, embora isso possa acontecer. É preciso lembrar que os costumes da época eram tolerantes com o abuso sexual das escravas, mas não eram tolerantes com crianças bastardas e legítimas vivendo sob o mesmo teto. São abundantes os relatos de vinganças cruéis de esposas de fazendeiros contra suas amantes escravas. Ao que me parece, a maioria das crianças geradas pelo senhor eram abortadas, vendidas para outra fazenda ou feitas desaparecer de outra maneira.

Portanto, é outra ideia hiper-real essa de que havia grande miscigenação entre brancos e negros no Brasil colonial - a miscigenação que houve foi entre brancos e índias, no primeiro século de nossa história. O que aconteceu de fato foi que após a abolição, houve uma tendência dos escravos recém-libertos se unirem à massa de caboclos, que tinham uma condição social semelhante à deles. Por conseguinte, a maioria dos indivíduos apresentados hoje como mulatos não são uma pura mistura de brancos com negros, mas uma mistura de caboclos com negros - ou seja, há componentes brancos, índios e negros. Isso explica também porque os negros brasileiros são fisionomicamente tão diferentes dos negros norte-americanos, embora descendam das mesmas etnias.

Com essas informações rigorosamente históricas e verdadeiras, cai por terra o hiperrealismo do contraste entre o colono britânico puritano, que não abusava das negras mas era racista, e o colono português devasso, que abusava das negras mas não era racista. Mesmo porque a moral sexual católica não era mais liberal que a moral sexual protestante. Na esteira, caem também outras ideias hiper-reais, como a já arcaica noção da Democracia Racial, que chegou a ser bastante popular poucas décadas atrás, e que muitos atribuíam a Gilberto Freyre, embora essa palavra não constasse em nenhum escrito do autor. Hoje se sabe muito bem que o racismo sempre existiu no Brasil. Outra ideia hiper-real, essa mais moderna, é a que afirma que o racismo brasileiro seria igual ao racismo norte-americano, e que a maioria da população brasileira seria negra.

Trata-se do produto da influência de militantes do movimento negro norte-americano, nesse mundo cada vez mais globalizado e tendente a padronizar os discursos. A maioria da população brasileira só pode ser considerada negra se for chamado de negro qualquer indivíduo de pele mais ou menos escura, mesmo sem nenhuma ancestralidade africana. Nesse contexto, a própria noção de raça tem perdido o seu sentido original de característica genotípica, e ganha uma acepção ideológica: é negro todo aquele que não se considera branco e se considera discriminado em razão de sua raça.

Os norte-americanos, por sua vez, também são aferrados a antigas ideias hiper-reais. A principal delas, a meu ver, é a crença em seu exclusivismo. O histórico de fundação e colonização dos EUA seria único porque foi revestido de um significado místico: os peregrinos que ali vieram, fizeram-no movidos por uma crença religiosa. Isso pode ter sido verdade para os primeiros povoadores, mas até onde eu sei, a prosperidade dos EUA foi construída por imigrantes que, em sua maioria, não tinham um credo. O exclusivismo norte-americano também se refere à raça: as categorias "branco" e "negro" seriam exclusivas dos americanos natos. Por este motivo o conceito de "latino", que originalmente se referia a povos europeus que falam uma língua derivada do latim, foi recriado para adquirir uma conotação racial e referir-se unicamente a sul-americanos: um indivíduo originado da América Latina pode ter a raça que for, mas nunca é catalogado como branco ou negro, sempre como "latino".

Após remover o entulho das ideias hiper-reais, poderemos enfim chegar a conclusões mais precisas e menos imaginosas para explicar porque Brasil e EUA se tornaram tão diferentes. Por ora, o que todo o mundo sabe é o óbvio: que somos muito diferentes. O que não fica claro é que somos bem menos diferentes do que muitos sabem ou querem saber.

domingo, 29 de janeiro de 2023

O Perfil do Terceiro Governo de Lula

Renascido das cinzar, o terceiro período de Lula como presidente começa a se desenhar. A conjuntura é bastante diferente daquela dos dois períodos entre 2003 e 2010, que por sua vez mostraram um Lula bem diferente daquele dos palanques nos anos 80 e 90. Lula não cessa de se reinventar.

Uma discussão recente aqui perguntava se o Lula atual é realmente de esquerda. Eu diria que sim, mas está mais sintonizado com a esquerda globalista pós-guerra fria, enquanto os fundadores do PT eram oriundos da esquerda revolucionária dos anos 60 e 70 (e alguns até hoje não se livraram de todo dessa influência). Por isso Lula não enfatiza a luta de classes, mas prioriza as políticas "afirmativas" de inclusão de populações e grupos marginalizados. Isso traz benefícios, sem dúvida, mas o lado ruim é que essas políticas são frequentemente inspiradas e financiadas por entidades globalistas (são mesmo a marca de um mundo globalizado), entre as quais se incluem numerosas ONG´s com financiadores obscuros, e há o risco de obedecerem a objetivos que não são os locais, mas os globais (isso acontece sobretudo com as políticas voltadas para os índios). Não sei até que ponto Lula vai se deixar manipular por esses globalistas, ou vai impingir a sua marca pessoal.

O lado fraco de Lula, a meu ver, é a política econômica: eu o classifico como um getulista tardio. Em seus dois primeiros mandatos ele tentou reativar o nacional-estatismo getulista que marcou vários governos dos anos trinta até os anos oitenta, quando entrou em colapso, sendo sua maior patologia o inchaço do estado. No início dos anos 2000, Lula contou com uma conjuntura internacional favorável, que de fato permitiu que ele reavivasse artificialmente aquelas políticas estatizantes e nacionalistas, mas quando o tempo bom acabou, a Nova Matriz Econômica estourou nas mãos de Dilma, e foi aberto o caminho para a queda do PT.

Cumpre notar que seu antecessor entrou com um discurso totalmente oposto, dizendo-se liberal e anti-estatista, mas na prática pouco realizou nesse sentido. O que não me espanta, pois Bolsonaro é um grande admirador do regime de 1964, que foi justamente o que levou ao auge o nacional-estatismo, criando miríades de empresas cujos nomes terminavam em "bras", até quebrar o estado e levar o país ao caos inflacionário.

OK, Lula não é mais o barbudo revolucionário dos anos 80 que elogiava Fidel Castro e queria deixar de pagar a dívida externa. Mas não se tornou direitista; no máximo, um social-democrata. Compreendo o temor que muitos têm com essas guinadas de Lula no espectro ideológico, são frequentes os exemplos de esquerdistas que migram para a direita mais radical. Carlos Lacerda foi um dos mais notáveis, mas não o único; há numerosos outros como o falecido Olavo de Carvalho, e não por acaso: trata-se da comprovação do parentesco entre a direita fascista e a esquerda socialista.

O senso comum considera uma o antônimo da outra, mas examinando a História, vê-se que ambas derivam do mesmo tronco: as tensões sociais e nacionais do tempo da revolução industrial. O verdadeiro antônimo do socialismo não é fascismo, mas o liberalismo a que chamam "democracia burguesa". A revolução industrial acirrou o antagonismo entre patrões e empregados, assim como o antagonismo entre as potências, que disputavam mercados e fontes de matérias-primas em um mundo que não era globalizado, mas retalhado por impérios. Desse impasse surgiram doutrinas que pregavam a superação dos sistemas político e econômico que emergiram da revolução francesa (taxada de "revolução burguesa"). Os socialistas pregavam a extinção da classe patronal mediante uma revolução mundial que unisse todos os trabalhadores, ao passo que os fascistas pregavam a união em torno do Estado, a quem caberia mediar os conflitos entre patrões e trabalhadores, e lançar-se à guerra para obter os impérios que atenderiam às demandas por mercado e matéria-prima. Como se vê, então, migrar de um para o outro necessita apenas a troca de alguns paradigmas: do internacionalismo operário para o nacionalismo fascista, da extinção da classe patronal para o controle desta pelo Estado. De resto, eram ambos regimes de  partido único e organizações de massas, bandeiras e divisas altissonantes.

Outra suspeita que tem sido com frequência lançada contra o PT é de que seja um partido anti-religião, mais ainda nesse momento em que as igrejas evangélicas pendem para a direita bolsonarista. Não, o PT não é um partido comunista ateísta, embora desde o início tenha dado um viés político a suas crenças religiosas, sob influencia da Teologia da Libertação. Mas ao guinar para a esquerda pós-guerra fria, adotou bandeiras globalistas que iam em rota de colisão contra a mentalidade conservadora e religiosa da maioria da população, como a defesa do aborto e do homossexualismo. Sob este aspecto, ironicamente, os direitistas estavam mais sintonizados com os setores populares. Foi de fato um grande tiro no pé, que contribuiu para o desprestígio e queda do PT. Lula até agora não deu sinais claros se continuará nessa linha em seu terceiro mandato. Se uns acham que convém não discutir política e religião, em minha opinião convém ainda menos misturá-las.

E o resto é pagar para ver.