sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nova Luz Sobre o Brasil Pré-cabralino

Terminei de ler o livro 1499 O Brasil Antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes. Em estilo jornalístico, leitura leve e até divertida, própria para o grande público, a obra dá conta de recentes descobertas que vem mostrar que os nativos brasileiros não eram tão primitivos nem tão parados no tempo quanto se estabeleceu no senso comum e foi endossado por professores nas escolas - ao contrário, nossos índios moravam em aldeias do tamanho de cidades, cercadas de muros e interligadas por estradas, praticavam uma agricultura evoluída e tinham redes de comércio. O livro deixa muitas revelações e algumas indagações.

A ideia de índios "diferentes", na verdade, não é tão estranha assim do público. Todos conhecem o nome do rio Amazonas, tirado da lendária tribo de mulheres guerreiras da antiguidade clássica, e segundo consta, chamado assim porque um explorador espanhol narrou haver sofrido ataque de mulheres guerreiras na região. O nome pegou, mas as tais mulheres nunca foram vistas novamente. Afirmou-se que o explorador teria tomado por mulheres homens com cabelos longos, comuns nas tribos da região. Mas outros exploradores menos imaginosos fizeram narrativas bem mais minuciosas, contudo igualmente inacreditáveis. Falaram de aldeias tão grandes que podiam ser avistadas por horas enquanto os barcos desciam o rio, ligadas por estradas largas e planas, paliçadas, roçados e muito mais.

Tal como as mulheres guerreiras, ninguém nunca mais viu tal coisa, e essas narrativas passaram ao terreno das lendas, até que recentes descobertas arqueológicas apontaram vestígios das tais aldeias gigantes e seus planos urbanísticos. Muito antes o povo da região já se referia à "terra preta dos índios", herança de antigos roçados sustentados por fertilizantes naturais. Também eram conhecidos certos "pomares naturais" na floresta, com grande concentração de uma única espécie de árvore, que dificilmente poderiam ter surgido por obra do acaso.

De fato, a pré-história brasileira é muito pouco conhecida e certos conceitos estabelecidos já sofreram reviravolta no passado, a começar pelo própria antiguidade do povoamento da América. O autor contou a história de Luzia, nome dado a um crânio feminino de características africanas e melanésias encontrado em Minas Gerais, e posteriormente datado de 15 mil anos. As características do crânio deram origem a especulações de que os primeiros habitantes dessas terras não teriam sido siberianos que atravessaram o estreito de Behring como sempre se supôs, mas habitantes do Pacífico sul que teriam de alguma forma cruzado os mares. A discussão continua aberta, mas a mim parece que a explicação é mais simples: todas as raças humanas se originaram da África, há cerca de cinquenta mil anos, e só lentamente adquiriram as características atuais à medida em que as populações migravam e se adaptavam ao clima das regiões onde se estabeleciam. Então, é possível que os siberianos de 15 mil anos atrás não fossem muito diferentes dos atuais africanos.

As revelações do autor tocam certos pontos sensíveis de nosso sentimento identitário. Ao longo de nossa história, a herança indígena tem sido alternadamente desprezada e exaltada. Há um sentimento de inferioridade em relação ao colono europeu, e mesmo às outras etnias nativas da América, bem mais evoluídas. Outros, porém, têm usado o índio brasileiro para moldar mitos fundadores que estabeleçam uma afinidade do brasileiro com sua terra ancestral, e nesse afã o índio é romantizado. Exemplos não faltam. Para uns, o índio é corajoso e varonil; para outros, é uma vítima patética, massacrado e exterminado pelo colonizador. Nesse ponto, e obra de Reinaldo Lopes é oportuna para mostrar que o índio verdadeiro não é uma coisa nem outra, mas assim como faz muitas revelações, também deixa algumas indagações.

A principal delas é: se os índios que habitavam o interior do país há apenas 500 anos atrás eram tão evoluídos, por que poucos séculos depois só restavam vestígios de suas enormes aldeias?
Sabe-se que muitas tribos do litoral foram dizimadas e expulsas pelo colonizador. Mas não há relatos de bandeirantes travando combates com exércitos de tribos populosas que habitavam verdadeiras cidades no interior de Goiás e Mato Grosso. Quando eles chegaram a essa região, os povos que encontraram habitavam pequenas aldeias e não eram mais evoluídos que os do litoral. Seja lá o que foi que aconteceu, foi antes deste momento. O autor não chega a dar uma explicação completa, e acaba levantando mais indagações. Começa por apontar uma dificuldade comum dos povos nativos da América: o conhecido Princípio de Ana Karênina, popularizado por Jared Diamond.

O princípio refere-se às dificuldades encontradas pelos domesticadores de animais e plantas, nos primórdios da Revolução Agrícola. Escreveu Tolstói em seu romance, todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz, é infeliz a seu modo. Fazendo uma analogia, Jared Diamond lembra que todas as espécies domesticáveis se parecem, posto que compartilham um conjunto mínimo de características em comum, mas cada espécie indomesticável apresenta uma não-conformidade distinta: o animal pode ter um temperamento indócil, não se reproduzir em cativeiro, ser difícil de alimentar, ser territorialista e não tolerar viver em confinamento. Nesse quesito, o desfavor do continente americano em comparação aos outros continentes é evidente. Aqui se domesticou a mandioca e o pato-bravo. A gravura de Debret que ilustra a capa do livro mostra o que parece ser um cachorro-vinagre, espécie da fauna brasileira, mas além disso muito pouco foi domesticado pelos nativos brasileiros. Mesmo na América andina, muito mais evoluída, poucas espécies foram domesticadas. Além do milho e da batata, de animais apenas a lhama, a alpaca e o porquinho-da-índia foram domesticados. Faltaram sobretudo grandes mamíferos, que além de fonte de alimento pudessem servir como animais de carga. Por aí não se admira que os maias, tão evoluídos, não conhecessem a roda (ou melhor, conheciam-na, mas só a utilizavam em brinquedos).

Por que tanto desfavor? O autor lembra que até Darwin, quando passou por aqui, espantou-se da pobreza do continente em termos de animais de grande porte, em comparação com a África equatorial, que tem um panorama físico semelhante. O naturalista, que na ocasião coletava fósseis, também admirou-se da variedade e do porte dos mamíferos que aqui viveram até o fim da última Era Glacial, com tatus do tamanho de um boi e preguiças do tamanho de um elefante.

Por que todos desapareceram? Houve extinção em massa também no norte, desapareceram mastodontes e rinocerontes da Europa, mas para a felicidade nossa sobraram os ancestrais dos atuais bois e cavalos. Aqui nem os cavalos sobraram, embora a espécie, ironicamente, tenha se originado da América. Não há ainda uma explicação, mas sabe-se que os primitivos habitantes do continente tiveram pouco papel nessa extinção, pois quando chegaram aqui há dez ou quinze mil anos atrás, a mega-fauna já estava quase toda extinta (diferente da Austrália, povoada desde 40 mil anos atrás, onde os nativos tiveram um papel importante ao exterminar a mega-fauna local).

O autor aventa outra hipótese para explicar a desaparição das grandes aldeias do Brasil central: o que chamou de um telefone-sem-fio das doenças transmissíveis. É bem conhecido o efeito das doenças trazidas pelo colonizador sobre os nativos que tiveram contato com eles, produzindo epidemias que dizimaram aldeias inteiras. Mas esse contágio pode ter acontecido também longe das vistas dos colonos, pois os índios possuíam estradas e rotas comerciais por onde circulavam os infectados. Então, quando os bandeirantes chegaram ao país central, já encontraram as grandes aldeias exterminadas. É uma hipótese, mas não se pode provar nem que sim nem que não. Mas o autor também citou evidências arqueológicas de que o povoamento da Ilha de Marajó (uma das áreas mais evoluídas da região amazônica, célebre por sua cerâmica) apresentou vários períodos de crescimento e declínio, e isso antes de 1500 e da chegada dos colonos e suas doenças infecciosas. Penso eu, é provável que as instabilidades e incertezas próprias do limiar da Revolução Agrícola tenham sido as responsáveis pelo declínio das aldeias que um dia foram cidades. Numerosos exemplos de cidades inteiras encontradas por arqueólogos engolidas pela selva são o testemunho de que povos que um dia foram evoluídos, regrediram a um estágio anterior quando alterações no ambiente inviabilizaram o sustento de tais civilizações urbanas.

O livro de Reinaldo Lopes é bem-vindo para substituir crenças equivocadas por evidência científica.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Fenômeno Bolsonaro

Podemos não simpatizar com determinadas figuras da política, mas chega um ponto que não podemos mais ignorá-las. É o caso de Jair Bolsonaro. Até pouco tempo mais um ítem do panteão folclórico, comparado ao já falecido Enéas Carneiro, agora o candidato com segunda maior intenção de votos. Devemos então encarar seriamente a possibilidade dele ser nosso novo presidente, e analisar possíveis consequências.

É nesse momento que devemos recorrer à História para explicar o presente. Se observarmos bem, é recorrente na nossa política o fenômeno de personagens surgidos do nada com um discurso bombástico, tendo uma carreira meteórica e chegando à presidência bem jovens, só para logo em seguida desaparecerem tão rapidamente quanto surgiram. O exemplo mais emblemático é o de Jânio Quadros. Depois veio Collor de Mello, esse parecendo mais uma caricatura do primeiro. E agora Bolsonaro.

De comum, todos os três brandiram um discurso moralista que em outras circunstâncias seria considerado lugar-comum, mas que na ocasião causou considerável impacto e empolgou muita gente. São por isso considerados protagonistas de uma espécie de "populismo de direita", definição algo preconceituosa porque supõe que o populismo seria exclusivo da esquerda, o que não é verdade. Mas o sucesso que tiveram deixa claro que preencheram um vácuo, atendendo às expectativas de multidões que naquele momento não tinham quem expressasse suas ideias. O rápido desgaste e a queda em seguida também deixa claro que apesar de todas as esperanças que despertaram, seus projetos não eram exequíveis e eles próprios não tinham o mínimo jeito para a coisa, não passavam de corpos estranhos que foram expelidos pelo organismo.

Jair Bolsonaro terá trajetória semelhante? Por enquanto, tudo o que ouvimos dele são frases de efeito, insultos e provocações contra grupos minoritários também barulhentos. Isso chama bastante a atenção, mas não se materializa em um projeto político. Assustou-me sobretudo haver ele declarado em uma entrevista que não entende de economia. O que fará ele se for presidente? É um declarado apologista do regime militar de 1964, mas o modelo econômico nacional-estatista praticado por este regime já está desde muito esgotado, e ironicamente foi encampado pela esquerda petista que Bolsonaro combate.

Todo populista quando chega ao poder encontra-se diante de uma realidade cabal: vai ter que governar. Os discursos que faziam sucesso nos palanques não funcionam nos gabinetes. Penso que haverá duas possibilidades: a primeira, Bolsonaro se tornará uma caricatura de Donald Trump, de tanto em tanto soltando bravatas, e só. Sem uma liderança eficaz, a economia e a política logo se degradarão, ele perderá apoio e será expelido tal como seus antecessores. Na segunda hipótese, ele abandonará o discurso extremista, fará coligações e se tornará uma figura de proa, deixando a tarefa de governar para os outros, já que ele não entende de economia e ao que parece também não tem paciência para a política.

Mas isso só saberemos em 2018.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Culpa é das Elites

Nas pretensas análises sobre o quadro social e político brasileiro, umas das palavras mais repetidas é "a elite", geralmente sendo depreciada e responsabilizada por todas as mazelas nacionais. O termo pertence àquela classe de palavras que, de tão repetidas, ganham vida própria: desligadas de seu contexto original, dispensam uma definição e são passadas adiante sem exame, até que um dia alguém se lembra de perguntar qual é, afinal, o seu significado, e cada um dá uma versão diferente.

Recentemente deparei-me com um artigo que me chamou a atenção. Intitulava-se "A Elite Brasileira Existe?" Embora pareça uma injunção ociosa, o autor gastou bastante teclado para responde-la, o que deixa claro que a questão despertava-lhe algum incômodo. Perdi o link para a página, mas o artigo dizia mais ou menos assim: a elite brasileira não possui o mesmo orgulho patriótico e o senso de responsabilidade das elites dos outros países. O autor conclui que isso se deve à elite brasileira ser uma elite somente de dinheiro, enquanto as outras elites demonstram brilhantismo em áreas diversas.

Conforme eu já comentei aqui mais de uma vez, no imaginário dos usuais detratores da elite nacional, o que chamam de elite nada mais é do que aquilo que os psicólogos chamam um totem, uma entidade sobrenatural que encarna determinados atributos. Todos sabem como a elite é, mas ninguém sabe dizer exatamente o que a elite é, exceto que seus integrantes são sempre os outros. A pergunta A Elite Brasileira Existe? revela o desconforto do autor com a imaterialidade deste conceito. É mesmo um ato falho, pelo qual o autor reconhece que a elite que ele tanto denigre, na verdade não existe. Um totem, como toda entidade sobrenatural, pode estar em toda parte, mas ao mesmo tempo não está em lugar nenhum, já que é incorpóreo.

É nessas horas que se deve voltar ao significado original das palavras. Elite, nos dicionários, significa o conjunto daqueles indivíduos que mais se destacam em uma área específica. Portanto, não se pode falar de elite como uma categoria pré-definida: há de fato várias elites, desde a elite dos melhores jogadores de futebol que são convocados para a seleção, até a elite dos melhores estudantes que passam para as universidades. E é claro, existe também a elite do dinheiro. Mas o autor lança uma falsa dicotomia ao opor a elite brasileira, que seria apenas de dinheiro, contra a elite dos outros países, que supostamente não seriam do dinheiro. É sabido, porém, que o talento costuma ser bem remunerado, de modo que todo aquele que se destaca em uma determinada área, quase sempre integra também uma elite do dinheiro. É um fenômeno que, em estatística, se chama um atrator. Portanto, ser membro de uma elite do dinheiro não é fator distintivo para a elite nacional nem para a elite de qualquer outro país, é apenas uma coisa normal.

Tampouco faz sentido que exista no Brasil uma elite má coexistindo com um povo bom. Por definição, a elite é sempre acima da média. Uma elite ruim nada mais é do que o sintoma de uma média pior ainda. De fato, lendo o discurso de ódio malhando as elites que ninguém sabe dizer exatamente quem são, fico com a impressão de que o sentimento da maioria dos comentaristas é apenas inveja e despeito.

A culpa é das elites? Ou a culpa é das estrelas? O conceito de culpa embute um julgamento. Mas de quem é a culpa do céu ser azul e do fogo ser amarelo?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Brasil antes do Brasil

Estou lendo um livro bem interessante, 1499 - O Brasil Antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes, que dá uma visão dos povos indígenas pré-cabralinos bem mais ampla do que as informações que tínhamos até agora. Mas prefiro chama-lo de O Brasil Antes do Brasil, pois o país, assim conceituado como construção política, diplomática e cultural, passou a existir em 1500 após a chegada dos colonos. Até 1499 o que havia aqui não era o Brasil, mas a região geográfica habitada por povos distintos que não obedeciam a um mesmo governo nem tinham territórios delimitados por fronteiras.

Esses povos, contudo, eram bem mais antigos, numerosos e evoluídos que a imagem veiculada pelos livros de História até agora. Começando por Luzia, nome dado ao esqueleto mais antigo encontrado no país e datado de 12 mil A.C., o autor traça um painel surpreendente: populações sedentárias habitando aldeias do tamanho de cidades modernas, com elementos de urbanismo tais como ruas, praças e amuradas, ligadas por largas estradas e praticando uma agricultura diversificada com várias espécies nativas domesticadas, e inclusive usando fertilizantes naturais - a misteriosa terra preta dos índios. Essas tribos evoluídas ocupavam o centro do território brasileiro em um formato de cruz, da Ilha de Marajó ao sul de Mato Grosso, e do Amazonas ao Piauí.

É sabido que os primeiros exploradores do Amazonas fizeram relatos algo fantasiosos das tribos que encontraram, falando de grandes aldeias mas também de mulheres guerreiras que emprestaram seu nome ao rio, e que nunca mais foram avistadas de novo. Acredita-se que seriam guerreiros de cabelo comprido tomados por mulheres. Mas o fato é que, quando a região foi criteriosamente explorada em épocas mais recentes, nem as mulheres guerreiras nem as portentosas aldeias foram encontradas - elas tiveram que esperar o trabalho de arqueólogos do século 20 para virem à luz.

O trabalho do autor é importante para superar a conceituação simplória que se fazia dos índios brasileiros até agora. Mas fica a pergunta no ar: se eles eram assim tão evoluídos até meros 500 anos atrás, porque desapareceram antes de qualquer contato significativo com o colonizador?

Essa pergunta o autor promete responder nos capítulos finais do livro, que lerei em breve. Mas até lá posso fazer alguma especulações. A impressão que eu tenho é que o estágio da Revolução Agrícola, a passagem de povos caçadores-coletores para povos agricultores, é um processo bem mais complicado e demorado do que parece. Isso porque é uma aposta sem volta: a criação de roçados e pastagens requer a destruição do ambiente natural onde se praticava a caça e a coleta. Trata-se de uma decisão sábia, contanto que dê certo.

Quando funciona, é bem sabido o que acontece: basta o trabalho de uma parcela da população para produzir alimentos para toda a comunidade. Desobrigadas de passar os dias percorrendo florestas à cata de frutas e caça, as pessoas passam a dispor de um enorme tempo vago que utilizam para fazer descobertas que darão origem a setores especializados: surgem os artesãos, os tecelões, os oleiros, os pedreiros, os ferreiros, os curandeiros, os guerreiros. A população cresce e já não pode deslocar-se, tem que ficar próximo de estão as plantações e as criações: surgem as cidades. A sociedade torna-se complexa e desigual, é o que chamamos, latu sensu, de civilização.

Mas e se não der certo? A domesticação da natureza, feita por povos que não possuem qualquer noção do que estão fazendo, pode redundar em vários tipos de catástrofe ecológica. O planeta está repleto de ruínas de templos, pirâmides e imensas cidades de pedra perdidas na floresta, testemunho de civilizações que foram arrojadas, mas que por algum motivo não puderam mais manter aquele modo de vida, tiveram que abandonar suas cidades e retornar a um estágio evolutivo anterior - os maias da América Central são um exemplo. Mas também há exemplos de povos que permaneceram por um tempo indefinido no limiar da revolução agrícola, nem lá nem cá, como os nativos norte-americanos, que tinham plantações de milho mas não podiam ficar o ano inteiro cuidando delas, pois tinham que migrar atrás dos bisões, que eram bem mais importantes para seu modo de vida.

É possível que coisa semelhante tenha ocorrido com as antigas tribos evoluídas daqui. Importante lembrar que a revolução agrícola aumenta a oferta de alimentos em quantidade, mas diminui em diversidade, posto que nem todas as espécies podem ser domesticadas - várias fontes de alimento que até eram relativamente abundantes na natureza têm que ser descartadas. Basicamente, a revolução agrícola só vinga quando há um cereal básico para suprir as necessidades energéticas da população, mais um conjunto mínimo de outros nutrientes para manter a saúde. No Oriente Médio e depois na Europa, esse cereal básico foi o trigo; na Ásia foi o arroz, e na América Central foi o milho. Os demais nutrientes são hortifrútis até hoje encontrados nas feiras livres, mas nenhum deles nativo do Brasil. Qual seria a alimentação básica de nossos índios agricultores?

Aguardo a leitura dos capítulos finais.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O Populismo, Ontem e Hoje

Um termo que é sempre atual no Brasil, e de fato, em toda a América Latina, é o populismo. Seja qual for a época, este epíteto sempre gruda em determinadas personagens ou facções, e tornou-se tão usual a ponto de ser reconhecido como patrimônio cultural de nossa política, mesmo que tenha inequívoca conotação pejorativa. A onda de governos de esquerda iniciada com a ascensão de Hugo Chavez na Venezuela em 1998 foi chamada de neo-populismo, mas será que o novo populismo é igual ao antigo? A dificuldade em responder a esta pergunta deve-se a esse termo pertencer àquela categoria das palavras cujo sentido muda com o tempo e se enquadra no contexto de cada época e no posicionamento ideológico do interlocutor. A conceituação correta só pode ser obtida por quem se disponha a voltar às origens e acompanhar a evolução do próprio conceito.

Atualmente, "populismo" denota um estilo peculiar de fazer política, no qual um líder carismático se dirige pessoalmente às massas sem a intermediação de instituições, prometendo levá-las ao poder e livrá-las de uma situação de desfavorecimento e opressão. É particularmente associado aos ambientes urbanos e aos operários. No entanto, esse líder é frequentemente apontado como um enganador, e o termo assume uma conotação de demagogia e caudilhismo. Deve ser lembrado que o populismo não possui engajamento ideológico, já que trata-se de um estilo e não de uma corrente política, havendo tanto o populismo de esquerda, mais comum, quanto o de direita. Historicamente o populismo tem sido olhado com desconfiança por tanto por um quanto o outro, taxado de conciliação de classes pelos esquerdistas e de engodo pelos direitistas. Mas não era assim quando o termo foi usado pela primeira vez, no século dezenove.

Os narodniks, ou populistas russos, surgiram entre as décadas de 1860 e 1870. Eram intelectuais militantes, membros das classes médias que cultivavam uma utopia de retorno à vida no campo para ali arregimentar prosélitos e derrubar o governo czarista. Não obtiveram sucesso, pois não houve empatia entre eles e os verdadeiros camponeses, e seriam posteriormente desprezados pelos comunistas como burgueses sonhadores, mas em sua época lançaram conceitos que foram encampados pelos comunistas e alguns perduram até hoje, como a noção de democracia direta e a criação de comunas rurais.

Ainda no final do século dezenove, a designação "populista" seria apropriada pelo People´s Party nos EUA, o qual, inicialmente agregando fazendeiros descontentes, mas depois aproximando-se do movimento trabalhista com forte discurso anti-capitalista, viria a dar a feição urbana e operária que marcaria o populismo a partir do século vinte. Foi com essa feição que o populismo entrou na política latino-americana a partir dos anos trinta, impulsionado pela tríade urbanização, industrialização e necessidade de romper com o patronato rural até então dominante. Desde então o populismo tem sido um fenômeno latino-americano por excelência.

Coisa tão recorrente em nossa História, por certo que devemos conhecê-lo bem e, certo ou errado, aceitá-lo como parte de nossos costumes políticos e objeto das aspirações do povo. Mas o populismo não teve sempre o mesmo significado em todas as épocas. Geralmente de conotação pejorativa, termo usado para desqualificar o adversário nos debates, houve um tempo em que o populismo foi considerado uma etapa necessária para fazer o país saltar do passado ao presente. Esta época áurea ocorreu em meados do século 20, a partir dos anos 30, tempo de intensa urbanização e industrialização nos países latino-americanos, o que enfraqueceu as elites tradicionais e colocou em cena novos atores políticos e econômicos, em especial o nascente proletariado urbano. Foi o tempo em que surgiram os "bons" líderes populistas, que são até hoje os ícones desta corrente: Perón na Argentina, Vargas no Brasil, Lázaro Cárdenas no México, Velasco Ibarra no Equador entre outros. Cada um com suas características próprias, mas tendo em comum o distanciamento das elites agrárias tradicionais, com o fortalecimento de sua autoridade pessoal; a aproximação ao proletariado, com a criação de benefícios e de uma legislação trabalhista; o crescimento da máquina do Estado, cooptando a burguesia nacional; o dirigismo, o nacionalismo, a criação de empresas estatais e a restrição ao capital estrangeiro.

Na época, os que se opunham a esses líderes eram em geral os setores mais reacionários, remanescentes das antigas oligarquias agrárias. Os socialistas viam-nos com suspeita, em razão de sua origem burguesa e de sua postura paternalista que não dava espaço às lideranças operárias genuínas, mas reconheciam que bem ou mal, era um modo de tornar os trabalhadores partícipes da política, algo que nunca havia acontecido até então. Parecia uma coisa boa, ou pelo menos necessária à etapa histórica que o país vivia. Contudo, as ligações desses líderes nacionalistas com setores de esquerda radical tornou-os alvos da desconfiança dos conservadores e dos próprios esquerdistas, que temiam ser cooptados, e a crise resultante levou a alguns desenlaces violentos, com a implantação de ditaduras. A época áurea do populismo foi também uma época de instabilidade e violência.

Ao final do século vinte, com a crise da dívida e a explosão inflacionária na maior parte da América Latina, o modus operanti do populismo parecia uma etapa superada. Uma nova geração de políticos pragmáticos deu início à abertura da economia e ao desmonte do Estado protecionista que se tornara excessivamente oneroso. No Brasil, Fernando Henrique Cardoso com seu Plano Real foi o representante máximo desta corrente, e chegou mesmo a declarar seu projeto de "superar a Era Vargas". Estas palavras, contudo, foram muito mal recebidas e consideradas bravata, mostrando o quanto o populismo varguista ainda estava enraizado no imaginário popular. Apesar dos êxitos obtidos na economia, a nova geração de pragmáticos recuou em seus propósitos, temendo o rótulo de neoliberal, e acabou dando um novo alento ao populismo, paradoxalmente reforçado pela estabilização econômica que eles próprios haviam promovido, mas também impulsionado por uma conjuntura favorável na primeira década do século 21, em particular a alta do preço do petróleo e outras commodities.

O ícone máximo do período foi Hugo Chávez na Venezuela. Na Bolívia Evo Morales, na Argentina o casal Kirshner, no Brasil Lula. Durante algum tempo pôde-se discutir se seria um fenômeno novo ou apenas a reedição do velho populismo latino-americano, mas a curta duração do ciclo, abatido em cheio pela crise do final da década, comprovou a segunda hipótese e deixou claro que o populismo está definitivamente superado e não funciona mais no mundo globalizado do século 21. O populismo ainda viceja em outras partes do mundo, até nos EUA com a eleição de Trump, mas na América Latina é duvidoso que venha renascer ainda outra vez. O desencanto da população parece definitivo. Em sua última aparição, mostrou traços caricatos que sinalizam de maneira inequívoca sua decadência - é a história repetindo-se como farsa. De fato, a carreira do líder populista da atualidade, seja ele de esquerda ou de direita, ou ainda um religioso, assemelha-se cada vez mais à carreira de um animador de programa de auditório, ou de um pastor televisivo. Hugo Chávez, seu representante máximo, não contente em parecer um animador de programa de auditório, criou para si próprio um programa de TV.

Entretanto, não há ainda sinal algum do que virá suceder o populismo.

sábado, 12 de agosto de 2017

A História só vai recomeçar em 2018

Tenho a sensação de que a História parou, e este hiato só vai ter fim em 2018 com a eleição do novo presidente. Com os últimos acontecimentos, não resta dúvida: o país está sem governo, sem projetos, sem perspectivas, um imenso vazio de poder. Michel Temer, que nunca deixou de ser um interino, pode ter escapado por hora, mas tornou-se refém dos congressistas que lhe salvaram o pescoço. É o presidente mais inexpressivo que este país já teve: se um dia sonhou em ser um Itamar, nem um Sarney conseguiu ser...

Com este quadro, é perda de tempo falar do presente, pois a História só vai recomeçar em 2018, com o novo presidente, seja ele qual for. E está se desenhando no horizonte uma volta do PT ao poder, com Lula ou sem Lula, mas de preferência com Lula, o candidato com maior intenção de votos até agora. Mas se o PT vencer, será praticamente uma vitória por WO. Tomo emprestado o termo do futebol, que dá a vitória a uma equipe se o adversário não comparece. Isso em razão da total ausência de qualquer outra opção minimamente atrativa de qualquer outro partido.

Se o PT vencer em 2018, será graças à omissão de seus adversários, e não por haver superado os erros que o levaram a ser tirado do poder em 2016. De fato, nos anos em que o PT esteve no governo, à exceção de tipos como Bolsonaro, ninguém se arriscou a emitir um discurso abertamente anti-petista ou apresentar um projeto diametralmente oposto ao do PT, julgando que esta seria a fórmula certa de perder a eleição. O PMDB desde os anos 90 desistiu de ter candidato próprio e preferiu as composições que lhe garantissem cargos, e apenas cargos. O PSDB, o único rival à altura do PT, ao invés de bater de frente, renegou seu passado e procurou desvencilhar-se da sombra de FHC. É claro que ninguém acreditou nesse mea culpa fajuto, nem ninguém vai querer a cópia se pode ter o original. Agora é tarde para o PSDB criar um candidato que tenha um perfil minimamente alternativo ao projeto petista. Pode apenas relançar os candidatos que já foram derrotados antes e serão derrotados de novo.

Mas o PT tampouco fez um mea culpa que não fosse fajuto. E mais ainda, essa guinada inesperada que o reconduza ao poder pode dar vazão a um clima de euforia e desforra, que vai reforçar a disposição de repetir os mesmos erros que foram cometidos desde o primeiro mandato de Dilma. Militantes imaginosos vão enxergar em um Lula envelhecido e desgastado, um Lula renascido e vingador, que vai finalmente levar a cabo os projetos sonhados desde os velhos tempos, aquele besteirol ideológico que o próprio Lula descartou no lixo em 2002. Aí periga a história se repetir: depois da euforia inicial, a crise se instala, não haverá mais dinheiro para projetos sociais, a popularidade do governo cai e a oposição se enche de moral. E a população, decepcionada e julgando-se mais uma vez traída, pode correr para os braços dos radicais de direita. O PT pode ter uma segunda chance, mas terceira chance é querer demais.

É preciso entender que o hipotético Lula de 2018 não será o mesmo Lula de 2002. Mesmo supondo que a frágil recuperação da economia obtida esse ano persista até o ano que vem, não será o mesmo cenário do primeiro mandato de Lula. Tampouco ele terá a mesma base de apoio que tinha naquela época. Restará a Lula fazer um governo pragmático, se quiser preservar sua biografia.

sábado, 29 de julho de 2017

A História se repete?

Nesse momento de compasso de espera, onde a História parece haver travado, fica a sensação de que estamos presos a um ciclo que se repete. Nos cometários, abundam comparações com episódios ocorridos no passado seguidos da observação: viram? Está acontecendo de novo igualzinho! Anda muito em voga comparar o momento atual com o ano de 1961, quando, conforme é sabido, foi instituído o parlamentarismo para tirar os poderes do recém-empossado João Goulart. Teria sido um "golpe parlamentar" análogo ao que ocorreu em 2016 com o impedimento de Dilma Rousseff. Outros analistas estendem a comparação até o ano de 1954, quando a fórmula para impedir Getúlio Vargas de governar foi levá-lo ao suicídio.

Esta injunção merece análise. Eu acho que a História se repete, sim. Mas não com o mesmo significado. A dinâmica dos fatos pode ser análoga, mas o contexto não. É então que se aplica o conhecido aforismo, a História se passa duas vezes, primeiro como tragédia, depois como farsa. O contexto histórico de agora não é igual ao de 1961. Naquele ano vivia-se o auge da guerra fria, a URSS era superpotência e a revolução cubana estava logo ali. A possibilidade de uma revolução violenta e de guerra civil por aqui não era uma fantasia, era algo palpável e temido pela população. Penso que a única semelhança concreta entre os eventos atuais e os de 1961 é a presença de oportunistas desejosos de tomar o poder, o que não é extraordinária, posto que esses oportunistas existem sempre e em todo o lugar. O ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima deles, que tentaram impedir sua posse, mas também ele próprio foi um deles, pois deu apoio à derrubada de Goulart achando que assim teria campo livre para chegar à presidência em 1965. Mas a diferença mais crucial, além do clima político da guerra fria, foi o papel das forças armadas, que naquele tempo tinham ficha limpa, já que nunca antes haviam governado o país, e estavam aptas a se tornarem atores políticos. Muitos achavam que o governo militar, devotado ao país e não a partidos ou ideologias, seria ideal para livrar o país da corrupção e da irresponsabilidade dos políticos, levando-o ao desenvolvimento e à paz social.

No momento atual não há ator político para semelhante papel. O que se vê é um grande vazio onde brotam os oportunistas de sempre, aqui e ali algum arrivista radical, como o deputado Jair Bolsonaro, uma caricatura dos militares de 1964, ou o próprio Lula, que à falta de outra opção surge como o candidato com maior intenção de votos. O PT foi retirada do poder, mas simplesmente não se encontrou nada para substituí-lo, talvez porque de anos para cá todos os partidos tenham se dedicado a repetir o discurso petista. A direita brasileira foi liquidada pelos militares, que queriam governar sozinhos, então cassaram os líderes direitistas mais proeminentes e submeteram os restantes à liderança de políticos provincianos na vala comum da antiga ARENA. Não há mais uma direita assumida e intelectualmente relevante no país.

Mas tampouco existe a polarização que existia em 1961. A ojeriza que a direita tem hoje por Lula não pode ser comparada à ojeriza que a direita tinha em 1961 por Jango. Basta lembrar a vasta composição da base aliada dos governos petistas, integrada inclusive por Temer. No contexto de 1961 seria absurdo pensar em arranjo similar, com a UDN compondo-se com o PTB e o PCB. Lula já foi há muito metabolizado pelo organismo político brasileiro. A meu ver, o que esse organismo não consegue digerir não é o Lula ou Dilma, mas sim o PT, que é atualmente o único partido rigidamente organizado e disciplinado em um país onde os políticos agem para si e não para seu partido. Houve um genuíno temor de que a máquina petista enquadrasse a base aliada tal como enquadra seus próprios integrantes, e quando viram a enormidade de dinheiro desviada para a caixa do PT, enriquecendo-o e fortalecendo-o, aí eles se voltaram contra a corrupção...

O que vem em 2018 é uma loteria, pois de onde não há nada, tudo pode surgir. Lula pode até ser eleito, mas é tolice achar que um novo governo seu realizará todos os projetos revolucionários sonhados pela esquerda desde os anos 30. Se Jango não era Vargas, Lula não é Jango nem Vargas, Lula é Lula mesmo. Ele pode até fazer um bom governo, mas não poderá descartar as forças políticas conservadoras do país. Se em 2003, com uma base muito maior, ele não pôde descartá-las, muito menos agora, que sua base é bem menor.

Esperemos 2018 sem exagerar nas comparações com o passado. A História se repete, sim. Mas não com o mesmo significado.