Eu que frequento habitualmente diversos forum's de discussão política, venho observando cada vez mais uma disposição em condenar a meritocracia, sobretudo no que se refere à educação e à disputa por vagas. Isso me causa certa apreensão. Meritocracia era até pouco atrás um termo erudito raramente mencionado, agora está jogado na lama. Conheço essa tática: para se destruir um conceito, muda-se o sentido da palavra que o define. O adjetivo meritocrático, originalmente elogioso, deve tornar-se uma ignomínia. Para isso o termo é usado vezes sem conta em contextos depreciativos, irônicos e misturado com outros xingamentos, e isso repetido vezes sem conta até que se estabeleça no senso comum a noção de que a meritocracia é uma coisa ruim.
O truque já deu certo com outras palavras, por exemplo, higienismo, que no princípio do século passado denotava uma elogiosa disposição para o saneamento urbano, e hoje evoca discriminação e racismo. Ignoro se vai funcionar com a meritocracia - o sentido elogioso do mérito é muito cristalino. Tentar eles tentam. Uns limitam-se aos xingamentos; outros, mais elaborados, tecem teses para demonstrar que a meritocracia é um truque usado pelas classes mais ricas para manter seu status quo. Um exemplo desses argumentos pode ser encontrado nesses textos de Renato Santos de Souza (UFSM/RS) aqui e aqui. Junto com a meritocracia, demoniza-se a classe média brasileira.
Quanto a mim, prefiro passar ao largo dessa discussão sociológica. Mesmo porque discutir a justiça da meritocracia é inútil desde o princípio, uma vez que a meritocracia jamais foi um valor moral, mas simplesmente um método de gestão. Como tal, seu propósito não é fazer justiça, mas produzir um resultado. O próprio conceito de mérito é subjetivo: alguns indivíduos, com certeza, se acham cheios de virtudes e merecedores de prêmio, já outros discordam. Mas há uma logicidade autoevidente na meritocracia: é o que eu chamo o Axioma do Time de Futebol. Em uma equipe de futebol, todos evidentemente querem ser os titulares, mas se não puderem sê-lo, preferem que os titulares sejam os melhores entre eles, pois é melhor ser reserva de um time vencedor do que de um time perdedor. Tal dilema se repete na vida prática. Em qualquer ramo de atividade de interesse geral para o país inteiro - por exemplo, na seleção de alunos para uma universidade ou para vagas de um emprego - a dita atividade será melhor desempenhada se forem favorecidos aqueles que têm melhor condição de desempenhá-la, independente de sua raça ou classe social. Se a atividade for desempenhada por indivíduos menos qualificados, o resultado será mais fraco, e isso, em algum grau, prejudicará a população como um todo, independente de raça ou classe social. Difícil é dizer em que grau isso ocorrerá, mas que haverá um resultado pior, isso haverá. É líquido e certo, independente de ideologias ou do juízo moral que se faça da meritocracia.
É justo? Não, não é. Também não é justo que o fogo queime e a água molhe, mas o caso é que o fogo queima e a água molha. A meritocracia não é justa, mas é racional. O destino inevitável de todos os países que desprezam a meritocracia é afundar na mediocridade e na pobreza - dizer isso chega a ser um pleonasmo, porque a mediocridade sempre se traduz em pobreza. Simetricamente, o talento atrai a riqueza, então sempre se poderá invocar o argumento de que o mérito é uma impostura dos ricos para preservar seus privilégios. Mas os fatos históricos estão à vista: os únicos exemplos de países que saltaram do terceiro mundo para o primeiro mundo são os países do sudeste asiático, que conseguiram esse resultado graças a uma rígida meritocracia que começa na escola e segue pela vida profissional afora. A receita é trabalhosa, mas simples em sua concepção: privilegiando os indivíduos mais talentosos, o trabalho deles potencializará a geração de riquezas, o que beneficiará a todos, inclusive aqueles que não são talentosos.
Mas a História também mostra abundantes exemplos de grupos e classes de indivíduos que mostraram total incapacidade de enxergar as mudanças que se processavam bem à sua frente, e foi assim que o Brasil e a América Latina deixaram de ser a região emergente do globo por excelência, posto que hoje cabe aos meritocráticos países do leste asiático. O ódio à meritocracia é mais uma faceta do profundo ódio de nossos intelectuais à toda e qualquer desigualdade que se apresente em um eixo superior/inferior, ainda que essa desigualdade seja resultado de fatores inatos que nada tenham a ver com posição social - afinal, o pobre também consegue coisas com seu esforço. Ignoro se a atual campanha de desonra ao mérito vai conseguir seu objetivo de subverter a conotação elogiosa deste vocábulo, mas é uma aposta perigosa: se não der certo, o efeito pode ser o oposto, como cuspir para o céu. Podem grudar na própria testa as etiquetas invejoso e recalcado.
Veremos.
sábado, 23 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
O PT caiu em sua esparrela?
No incerto momento atual, um mistério que ainda não foi desvendado é: qual foi o real agente causador da rápida queda (até agora) do PT, o partido que poucos anos atrás governava o país com amplo respaldo? O mistério fica ainda mais intrigante quando se contata que os principais protagonistas dessa queda foram indivíduos que foram imbuídos de poder pelo próprio PT, indivíduos que em teoria seriam aliados - gente como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e as turmas do Ministério Público e da Polícia Federal.
O caso é esse: uma das características fundamentais dos governos de esquerda sempre foi o crescimento do setor estatal, o aumento do número de burocratas, o aparelhamento de todos os órgãos da administração pública com funcionários estritamente fiéis ao governo, visando ampliar o controle da autoridade do Estado - ou do partido - sobre todas as esferas da sociedade. O PT promoveu vários concursos públicos e incrementou sobretudo o pessoal do MPF e da PF. Mas ao contrário do previsto, esses funcionários não reproduziram a tradicional subserviência ao governo. Em alguns casos, mostraram-se mesmo como algozes do governo. O que aconteceu de errado? Ou deveríamos perguntar, o que aconteceu de certo?
Mudou o país ou mudaram os funcionários?
Um artigo publicado aqui procura analisar esse fenômeno, atribuindo-o a uma nova geração de "concurseiros", jovens que, na apreciação do autor, entraram no serviço público atraídos pelos altos salários iniciais e pela autoridade do cargo. Essa nova geração teria, então, quebrado os valores tradicionais do funcionalismo público, substituindo-os pelos valores "coxinhas". Por valores tradicionais entenda-se a mentalidade do antigo barnabé, aquele que começava a carreira por baixo, ganhando menos do que na iniciativa privada, e ia subindo devagar à medida em que assimilava os valores da corporação, agindo sempre como um dócil peão da inteira confiança do governo.
O artigo é bastante preconceituoso e foi contestado inclusive por muitos comentaristas de esquerda, como pode ser observado por quem seguir o link. Mas uma questão fica no ar. Como pôde o PT ser traído justamente por seus favoritos, a turma que almeja viver do Estado, aqueles que só entraram no Estado graças aos concursos que o próprio PT lançou?
A resposta não é fácil, e acredito que ainda levará algum tempo para ser encontrada. Por enquanto fica só a impressão de que o PT caiu em sua esparrela: montou a máquina e perdeu o controle sobre ela. Tal como o aprendiz de feiticeiro, começou a mágica e não soube pará-la. Uma coisa, porém, é certa: funcionários públicos nunca devem ter poder excessivo, e sobretudo, nunca devem ganhar mais do que seus símiles da iniciativa privada. Isso é uma contradição, pois não são os servidores públicos que produzem a riqueza do país - sua função não é essa - mas os cidadãos e empresas privados que pagam impostos. Por conseguinte, só há recursos para concursos e bons salários para o funcionalismo onde e quando os cidadãos e empresas privados são prósperos. Do contrário, se estará criando uma situação que não é sustentável indefinidamente, como sempre ocorre quando o gasto supera a provisão. Qualquer governo que embarque nessa onda, de um modo ou de outro, cedo ou tarde, acabará caindo em sua esparrela.
O caso é esse: uma das características fundamentais dos governos de esquerda sempre foi o crescimento do setor estatal, o aumento do número de burocratas, o aparelhamento de todos os órgãos da administração pública com funcionários estritamente fiéis ao governo, visando ampliar o controle da autoridade do Estado - ou do partido - sobre todas as esferas da sociedade. O PT promoveu vários concursos públicos e incrementou sobretudo o pessoal do MPF e da PF. Mas ao contrário do previsto, esses funcionários não reproduziram a tradicional subserviência ao governo. Em alguns casos, mostraram-se mesmo como algozes do governo. O que aconteceu de errado? Ou deveríamos perguntar, o que aconteceu de certo?
Mudou o país ou mudaram os funcionários?
Um artigo publicado aqui procura analisar esse fenômeno, atribuindo-o a uma nova geração de "concurseiros", jovens que, na apreciação do autor, entraram no serviço público atraídos pelos altos salários iniciais e pela autoridade do cargo. Essa nova geração teria, então, quebrado os valores tradicionais do funcionalismo público, substituindo-os pelos valores "coxinhas". Por valores tradicionais entenda-se a mentalidade do antigo barnabé, aquele que começava a carreira por baixo, ganhando menos do que na iniciativa privada, e ia subindo devagar à medida em que assimilava os valores da corporação, agindo sempre como um dócil peão da inteira confiança do governo.
O artigo é bastante preconceituoso e foi contestado inclusive por muitos comentaristas de esquerda, como pode ser observado por quem seguir o link. Mas uma questão fica no ar. Como pôde o PT ser traído justamente por seus favoritos, a turma que almeja viver do Estado, aqueles que só entraram no Estado graças aos concursos que o próprio PT lançou?
A resposta não é fácil, e acredito que ainda levará algum tempo para ser encontrada. Por enquanto fica só a impressão de que o PT caiu em sua esparrela: montou a máquina e perdeu o controle sobre ela. Tal como o aprendiz de feiticeiro, começou a mágica e não soube pará-la. Uma coisa, porém, é certa: funcionários públicos nunca devem ter poder excessivo, e sobretudo, nunca devem ganhar mais do que seus símiles da iniciativa privada. Isso é uma contradição, pois não são os servidores públicos que produzem a riqueza do país - sua função não é essa - mas os cidadãos e empresas privados que pagam impostos. Por conseguinte, só há recursos para concursos e bons salários para o funcionalismo onde e quando os cidadãos e empresas privados são prósperos. Do contrário, se estará criando uma situação que não é sustentável indefinidamente, como sempre ocorre quando o gasto supera a provisão. Qualquer governo que embarque nessa onda, de um modo ou de outro, cedo ou tarde, acabará caindo em sua esparrela.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes - II
Prosseguindo a leitura do Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes, de Paulo Schmidt, o autor classifica Rodrigues Alves entre os raros bons presidentes do país. Parece-me correto. Rodrigues Alves se encaixa naquela categoria dos que foram muito combatidos em sua época, mas a quem a posteridade fez justiça. Tomou enérgicas providências para sanear e dotar de infraestrutura urbana a capital, e teve que enfrentar a triste Revolta da Vacina, gesto de desespero de um povo ignorante habilmente manipulado por líderes ambiciosos que nada tinham de ignorante - foi o último suspiro do nefasto positivismo que assolou o governo Floriano. Por pouco os professores de História livraram-se do vexame de ter que ensinar a seus alunos que um presidente foi deposto por haver querido livrar seu povo das doenças. Vendo-se hoje os resultados das obras de Rodrigues Alves, nota-se que os sacrifícios que impôs à população foram amplamente compensatórios. E ele conta ainda com o mérito de haver-se oposto ao Convênio de Taubaté, vergonhoso arranjo que transformou o contribuinte brasileiro em avalista dos cafeicultores.
Seu sucessor , o mineiro Afonso Pena, foi uma figura ambígua. Procurou separar política e administração, dando preferência a essa última, mas deixou-se enredar por Pinheiro Machado, sob cujos auspícios foi eleito, mas que ao final de seu governo já tinha tomado as rédeas da sucessão, deixando o presidente isolado. Afonso Pena provavelmente julgou que se fizesse as concessões que seus aliados queriam, eles o deixariam livre para tocar a administração do jeito que ele desejava. Mas a História ensina que sempre que administração e política entram em conflito, prevalece esta última. Outro erro foi ter ratificado o Convênio de Taubaté, o que deixou a economia condenada a longo prazo.
Seu sucessor, Nilo Peçanha, é outro que pertence à categoria dos injustiçados. De origem modesta, procurou fazer um bom governo, mas tal como Afonso Pena, caiu no erro de julgar que podia enredar Pinheiro Machado. Merecia da História um tratamento mais benigno.
A figura mais poderosa da época, entretanto, não foi um presidente, mas o senador Pinheiro Machado, que soube habilmente juntar em suas mãos as cartas marcadas do jogo político da República Velha. Seu propósito era derrubar o esquema do café-com-leite, apelido dado à hegemonia dos estados de São Paulo e Minas Gerais, e substituí-lo pela hegemonia de um partido nacional totalmente controlado por ele próprio. Para esse fim, fez presidente o marechal Hermes da Fonseca, astro sem luz própria que prestava-se bem como joguete. Hermes reintroduziu as ações armadas na política, sob o nome de Política das Salvações, depondo pela força numerosos governadores que não haviam entrado para o partido fundado por Pinheiro Machado. Mas quando quis estender as "salvações" ao estado do Ceará, governado por um aliado de Pinheiro Machado, não tardou a ver quem mandava ali. Derrotado e desmoralizado, saiu do governo como figura caricata. Só teve uma coisa boa: sua derrocada foi de tal modo fragorosa, que acabou arrastando junto seu patrono, o senador Pinheiro Machado.
Wenceslau Braz chegou ao governo para restabelecer o café-com-leite, pondo fim ao pinheirismo. Correspondendo bem ao estereótipo do político mineiro, foi discreto, mas fez coisas importantes. Politicamente conservador, mas moderado, adepto dos acordos em lugar das intervenções nos estados tão a gosto de seu antecessor. Mostrou-se eficiente em gestão de crises, e não teve refresco: seu governo foi conhecido como o governo dos três G´s: Guerra, Gripe e Greve. Em razão de sua habilidade como negociador, deixou a seu sucessor um país com um grau maior de paz política, que no entanto não duraria muito tempo. Penso que seu maior mérito foi não ter querido ser mais do que era.
Delfim Moreira foi o único louco diagnosticado a governar o país. Penso que tivemos outros presidentes loucos, mas não diagnosticados.
Epitácio Pessoa foi o típico político medíocre. Chegou ao poder somente porque paulistas e mineiros não chegaram a um acordo quando ao candidato. Colecionador de mordomias e aposentadorias, autoritário, marcou o início do declínio da República Velha. Nas palavras de Paulo Schmidt, substituiu a política dos governadores pela política dos presidentes, dando início ao ciclo de presidentes autoritários que elevariam a temperatura política até a incineração final do regime.
Artur Bernardes foi uma figura sombria, o que se deixa perceber até em sua fisionomia, com aquele olhar duro e os lábios tão inexpressivos que parecem desenhados a lápis. Violento e mesmo cruel, governou quase o mandato inteiro sob estado de sítio, e mandava seus prisioneiros para um campo de concentração próximo à fronteira com a Guiana Francesa, não distante da Ilha do Diabo, aquela mesma do Papillon. Em sua defesa, pode ser dito que teve que enfrentar inimigos bem sujos. Antes mesmo de ser eleito, conspiradores divulgaram cartas falsas procurando indispô-lo com os militares. Não deu certo, e pela segunda vez (a primeira foi na revolta da vacina) nossos professores de História escaparam de um vexame, este de ter que ensinar que no Brasil basta um falsário para derrubar um presidente. Em seu governo eclodiu também o movimento tenentista, visto na época como idealista e regenerador. Mas os antigos tenentes viriam e embicar por utopias totalitárias, entre o fascismo e o comunismo, e já convertidos em coronéis e generais despidos do idealismo da juventude, atravessariam o século 20 conspirando contra diversos governos, e terminando por impor uma ditadura em 1964. Por aí vê-se que Artur Bernardes não deixou de ter motivos para bater neles com tanta força.
Washington Luiz foi uma figura algo melancólica, própria para assinalar o fim de uma dinastia. Credenciado por um bom governo em São Paulo, assumiu sob um clima de otimismo, embora possa ser dito que depois de Artur Bernardes, qualquer presidente seria bem vindo. Mas procurou fazer um governo de pacificação e realizações. Atingido em cheio pela crise de 1929, mudou o rumo em direção ao endurecimento, e pau que não verga, quebra.
Depois falarei da Era Vargas.
Seu sucessor , o mineiro Afonso Pena, foi uma figura ambígua. Procurou separar política e administração, dando preferência a essa última, mas deixou-se enredar por Pinheiro Machado, sob cujos auspícios foi eleito, mas que ao final de seu governo já tinha tomado as rédeas da sucessão, deixando o presidente isolado. Afonso Pena provavelmente julgou que se fizesse as concessões que seus aliados queriam, eles o deixariam livre para tocar a administração do jeito que ele desejava. Mas a História ensina que sempre que administração e política entram em conflito, prevalece esta última. Outro erro foi ter ratificado o Convênio de Taubaté, o que deixou a economia condenada a longo prazo.
Seu sucessor, Nilo Peçanha, é outro que pertence à categoria dos injustiçados. De origem modesta, procurou fazer um bom governo, mas tal como Afonso Pena, caiu no erro de julgar que podia enredar Pinheiro Machado. Merecia da História um tratamento mais benigno.
A figura mais poderosa da época, entretanto, não foi um presidente, mas o senador Pinheiro Machado, que soube habilmente juntar em suas mãos as cartas marcadas do jogo político da República Velha. Seu propósito era derrubar o esquema do café-com-leite, apelido dado à hegemonia dos estados de São Paulo e Minas Gerais, e substituí-lo pela hegemonia de um partido nacional totalmente controlado por ele próprio. Para esse fim, fez presidente o marechal Hermes da Fonseca, astro sem luz própria que prestava-se bem como joguete. Hermes reintroduziu as ações armadas na política, sob o nome de Política das Salvações, depondo pela força numerosos governadores que não haviam entrado para o partido fundado por Pinheiro Machado. Mas quando quis estender as "salvações" ao estado do Ceará, governado por um aliado de Pinheiro Machado, não tardou a ver quem mandava ali. Derrotado e desmoralizado, saiu do governo como figura caricata. Só teve uma coisa boa: sua derrocada foi de tal modo fragorosa, que acabou arrastando junto seu patrono, o senador Pinheiro Machado.
Wenceslau Braz chegou ao governo para restabelecer o café-com-leite, pondo fim ao pinheirismo. Correspondendo bem ao estereótipo do político mineiro, foi discreto, mas fez coisas importantes. Politicamente conservador, mas moderado, adepto dos acordos em lugar das intervenções nos estados tão a gosto de seu antecessor. Mostrou-se eficiente em gestão de crises, e não teve refresco: seu governo foi conhecido como o governo dos três G´s: Guerra, Gripe e Greve. Em razão de sua habilidade como negociador, deixou a seu sucessor um país com um grau maior de paz política, que no entanto não duraria muito tempo. Penso que seu maior mérito foi não ter querido ser mais do que era.
Delfim Moreira foi o único louco diagnosticado a governar o país. Penso que tivemos outros presidentes loucos, mas não diagnosticados.
Epitácio Pessoa foi o típico político medíocre. Chegou ao poder somente porque paulistas e mineiros não chegaram a um acordo quando ao candidato. Colecionador de mordomias e aposentadorias, autoritário, marcou o início do declínio da República Velha. Nas palavras de Paulo Schmidt, substituiu a política dos governadores pela política dos presidentes, dando início ao ciclo de presidentes autoritários que elevariam a temperatura política até a incineração final do regime.
Artur Bernardes foi uma figura sombria, o que se deixa perceber até em sua fisionomia, com aquele olhar duro e os lábios tão inexpressivos que parecem desenhados a lápis. Violento e mesmo cruel, governou quase o mandato inteiro sob estado de sítio, e mandava seus prisioneiros para um campo de concentração próximo à fronteira com a Guiana Francesa, não distante da Ilha do Diabo, aquela mesma do Papillon. Em sua defesa, pode ser dito que teve que enfrentar inimigos bem sujos. Antes mesmo de ser eleito, conspiradores divulgaram cartas falsas procurando indispô-lo com os militares. Não deu certo, e pela segunda vez (a primeira foi na revolta da vacina) nossos professores de História escaparam de um vexame, este de ter que ensinar que no Brasil basta um falsário para derrubar um presidente. Em seu governo eclodiu também o movimento tenentista, visto na época como idealista e regenerador. Mas os antigos tenentes viriam e embicar por utopias totalitárias, entre o fascismo e o comunismo, e já convertidos em coronéis e generais despidos do idealismo da juventude, atravessariam o século 20 conspirando contra diversos governos, e terminando por impor uma ditadura em 1964. Por aí vê-se que Artur Bernardes não deixou de ter motivos para bater neles com tanta força.
Washington Luiz foi uma figura algo melancólica, própria para assinalar o fim de uma dinastia. Credenciado por um bom governo em São Paulo, assumiu sob um clima de otimismo, embora possa ser dito que depois de Artur Bernardes, qualquer presidente seria bem vindo. Mas procurou fazer um governo de pacificação e realizações. Atingido em cheio pela crise de 1929, mudou o rumo em direção ao endurecimento, e pau que não verga, quebra.
Depois falarei da Era Vargas.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes - I
Estou lendo o Guia Politicamente Incorreto dos presidentes do Brasil, de Paulo Schmidt. Seguindo a linha dos guias politicamente incorretos lançada por Leandro Narloch, não se trata de historiografia - não lança nenhum dado novo - mas de uma sátira enfatizando determinados aspectos da biografia dos presidentes, que sempre foram conhecidos mas nunca propriamente destacados pela historiografia oficial.
É uma leitura leve e divertida, mas eu procuro extrair o que é pertinente. Quem procura motivos para escarnecer dos presidentes por certo encontrará aí um prato feito, mas isso não me admira: todos os vultos históricos, sejam brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade, se examinados com a acuidade suficiente revelam-se não mais que pessoas comuns, com seus erros e fraquezas, muitos devendo sua notoriedade menos ao talento pessoal do que à circunstância de estar no lugar certo na hora certa. A diferença entre eles e o comum dos mortais é que a narrativa histórica preocupou-se mais com os efeitos duradouros de seus atos do que com suas personalidades, de modo que as mesquinhezas e defeitos de suas vidas privadas foram esquecidos. Mas há sempre uma correlação entre o público e o privado.
Começando por Deodoro da Fonseca, o autor expõe aquilo que sempre se soube: o fundador da república nunca foi um republicano. Movido por interesses mesquinhos e contendas pessoais com figurões da política, deixou-se servir de joguete para os cafeicultores paulistas que queriam ascender ao poder mas não tinham espaço no sistema eleitoral do império, viciado por fraudes e de renovação lenta, com muitos cargos vitalícios ocupados por indivíduos oriundos de regiões que haviam sido economicamente importantes no passado, mas que estavam decadentes. Homem medíocre, Deodoro saiu melancolicamente da presidência, jogando no colo de seu sucessor um país em crise econômica e guerra civil. O autor chama a atenção também para um episódio pouco conhecido do período: o último gabinete do império, do visconde de Ouro Preto, estava efetivamente engajado em um amplo projeto de reformas que poderiam ter revigorado a monarquia brasileira, e mesmo lançado o país vários passos à frente da república - o projeto incluía até reforma agrária! Falácia? Com certeza. Mas dez anos antes, a abolição da escravatura mediante votação no parlamento também era falácia...
Floriano Peixoto, embora enaltecido com portentosos adjetivos nos livros escolares - o Marechal de Ferro - é mostrado em toda a extensão de sua mediocridade: um soldado rude, desprovido de ideias ou projetos, que embora tenha deixado um bom séquito de seguidores autodenominados florianistas, desconhece-se qual corpo de ideias os embasava - se Floriano deixou algum, não foi por escrito.
Prudente de Morais frequentemente "passa batido" nos livros escolares, mas o autor expõe a importância de seu papel em por fim às lutas despertadas por seus antecessores e organizar uma precária institucionalidade. Seu mandato ficou manchado pelo massacre de Canudos, mas o autor destaca que o recrudescimento do conflito ocorreu quando Prudente estava afastado por doença e o governo estava nas mãos de seu vice, Manoel Vitorino. Quando Prudente reassumiu o cargo, toda solução pacífica já havia se tornado inviável. Ao final de seu mandato, Prudente mostrou autoridade e mandou para a cadeia os últimos renitentes conspiradores florianistas.
O autor é bem crítico em relação a Campos Salles, o verdadeiro fundador da República Velha, leia-se o criador dos protocolos da política viciada que prevaleceram até o final deste período, da política dos governadores ao café com leite. Agindo como um aristocrata e oligarca na mais legítima acepção do termo, desta forma Campos Salles matou no nascedouro qualquer viabilidade democrática para a nascente república. Mas faltou destacar seu papel em reconstruir a economia e a credibilidade internacional do país após a fenomenal desordem legada pelo "encilhamento" de Ruy Barbosa, cujos efeitos nefastos ainda se faziam sentir.
Estou lendo agora Rodrigues Alves.
É uma leitura leve e divertida, mas eu procuro extrair o que é pertinente. Quem procura motivos para escarnecer dos presidentes por certo encontrará aí um prato feito, mas isso não me admira: todos os vultos históricos, sejam brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade, se examinados com a acuidade suficiente revelam-se não mais que pessoas comuns, com seus erros e fraquezas, muitos devendo sua notoriedade menos ao talento pessoal do que à circunstância de estar no lugar certo na hora certa. A diferença entre eles e o comum dos mortais é que a narrativa histórica preocupou-se mais com os efeitos duradouros de seus atos do que com suas personalidades, de modo que as mesquinhezas e defeitos de suas vidas privadas foram esquecidos. Mas há sempre uma correlação entre o público e o privado.
Começando por Deodoro da Fonseca, o autor expõe aquilo que sempre se soube: o fundador da república nunca foi um republicano. Movido por interesses mesquinhos e contendas pessoais com figurões da política, deixou-se servir de joguete para os cafeicultores paulistas que queriam ascender ao poder mas não tinham espaço no sistema eleitoral do império, viciado por fraudes e de renovação lenta, com muitos cargos vitalícios ocupados por indivíduos oriundos de regiões que haviam sido economicamente importantes no passado, mas que estavam decadentes. Homem medíocre, Deodoro saiu melancolicamente da presidência, jogando no colo de seu sucessor um país em crise econômica e guerra civil. O autor chama a atenção também para um episódio pouco conhecido do período: o último gabinete do império, do visconde de Ouro Preto, estava efetivamente engajado em um amplo projeto de reformas que poderiam ter revigorado a monarquia brasileira, e mesmo lançado o país vários passos à frente da república - o projeto incluía até reforma agrária! Falácia? Com certeza. Mas dez anos antes, a abolição da escravatura mediante votação no parlamento também era falácia...
Floriano Peixoto, embora enaltecido com portentosos adjetivos nos livros escolares - o Marechal de Ferro - é mostrado em toda a extensão de sua mediocridade: um soldado rude, desprovido de ideias ou projetos, que embora tenha deixado um bom séquito de seguidores autodenominados florianistas, desconhece-se qual corpo de ideias os embasava - se Floriano deixou algum, não foi por escrito.
Prudente de Morais frequentemente "passa batido" nos livros escolares, mas o autor expõe a importância de seu papel em por fim às lutas despertadas por seus antecessores e organizar uma precária institucionalidade. Seu mandato ficou manchado pelo massacre de Canudos, mas o autor destaca que o recrudescimento do conflito ocorreu quando Prudente estava afastado por doença e o governo estava nas mãos de seu vice, Manoel Vitorino. Quando Prudente reassumiu o cargo, toda solução pacífica já havia se tornado inviável. Ao final de seu mandato, Prudente mostrou autoridade e mandou para a cadeia os últimos renitentes conspiradores florianistas.
O autor é bem crítico em relação a Campos Salles, o verdadeiro fundador da República Velha, leia-se o criador dos protocolos da política viciada que prevaleceram até o final deste período, da política dos governadores ao café com leite. Agindo como um aristocrata e oligarca na mais legítima acepção do termo, desta forma Campos Salles matou no nascedouro qualquer viabilidade democrática para a nascente república. Mas faltou destacar seu papel em reconstruir a economia e a credibilidade internacional do país após a fenomenal desordem legada pelo "encilhamento" de Ruy Barbosa, cujos efeitos nefastos ainda se faziam sentir.
Estou lendo agora Rodrigues Alves.
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Gigantes do Brasil
O canal History, que já apresentou uma série de reportagens intitulada Gigantes da Indústria contando a trajetória dos pioneiros industriais e mega-empresários norte-americanos, agora está apresentando uma produção contando a história de nossos empreendedores pioneiros, Gigantes do Brasil.
Vem em boa hora nesse momento em que o país está em crise e está sendo questionado, mais do que um governo, um modelo de desenvolvimento. Agora que vivemos o ocaso do desenvolvimentismo nacional-estatista varguista, é oportuno recordar o que acontecia antes desta fase histórica, e como se conduziam nossos pioneiros visionários. A produção é bem cuidada, a reconstituição de época muito bem feita, e são mostrados detalhes biográficos de quatro personagens escolhidos: Matarazzo, Martinelli, Farquhar e Guinle. Esta amostra já permite algumas inferências: o que os tais gigantes do Brasil tinham em comum uns com os outros? Quais são as semelhanças e as diferenças entre eles e os gigantes da indústria norte-americanos mostrados anteriormente?
Duas características que notei logo nos personagens brasileiros foram, primeiro, que a maioria deles começou pobre, ou ao menos vinda de um patamar bem mais modesto; segundo, que a maioria deles nasceu fora do país: Matarazzo e Martinelli eram italianos, e Farquhar norte-americano. Vale dizer que durante boa parte de suas carreiras eles conheceram o capitalismo mais elementar, aquele onde o contato entre comerciante e cliente é pessoal, separados apenas por um balcão, ou nem isso quando trabalhavam como mascates. Não há interferência de políticos. Mesmo depois quando já eram magnatas e frequentavam gabinetes de altas autoridades, a impressão que fica é que eram mais joguetes do que manipuladores, e nesse aspecto eles se diferenciam dramaticamente dos gigantes da indústria norte-americanos, os famosos Barões Ladrões que floresceram na Gilded Age com a política na mão e os políticos no bolso, dando origem a numerosos trustes que desfilariam seu poder pelo século 20 adentro.
É uma conclusão curiosa: então os industriais brasileiros, que hoje vivem na parceria com o Estado dirigista, terminaram por onde os norte-americanos começaram? É preciso analisar com cuidado para não se cair na armadilha de falsas analogias. No final do século 19, os políticos já eram corruptos, mas o Estado ainda não era dirigista. Os empreendedores norte-americanos não podiam se esquivar de ter boas relações com os políticos, mesmo porque em boa parte atuavam em áreas que dependiam de concessões do governo, como ferrovias e petróleo. Sem dúvida que estavam cientes de representar o Poder Econômico na mais legítima acepção do termo, naqueles anos de auge da revolução industrial. O mesmo não se diz dos seus equivalentes brasileiros, que na mesma época atuavam geralmente em áreas estritamente privadas e ignoradas pelo poder público, e com certeza estavam cientes de que o verdadeiro Poder Econômico do país não era representado por aqueles industriais incipientes, mas pelos fazendeiros de café que povoavam os gabinetes. Tal como seu distante predecessor, o Barão de Mauá, estavam tão sujeitos aos humores da política quanto um barquinho de papel no mar, e podiam passar da riqueza à pobreza mediante uma decisão de um ministro qualquer.
Fossem esses homens heróis ou vilões, esta fase por assim dizer heróica do capitalismo brasileiro esvaneceu-se a partir da Era Vargas. Desde então a indústria brasileira experimentou um desenvolvimento extraordinário, mas impessoal, sem "gigantes". O Estado tornou-se o indutor do desenvolvimento, e para os empresários grandes ou pequenos a fórmula do sucesso passou a ser o bom trânsito junto às autoridades governamentais. Não se ouviu mais falar de histórias de meninos que começavam como mascates e legavam a seus herdeiros um vasto império - de fato, quando os sobrenomes desses capitães de indústria voltaram a frequentar os noticiários, foi para informar escândalos de corrupção e prisões. O último grande capitalista brasileiro, Eike Batista, soçobrou junto com o nacional-estatismo ao qual devera sua ascenção, na verdade puxado pelo pai, Eliézer.
No início da Era Vargas, poucos duvidavam de que a ação de um Estado forte era indispensável para se alavancar o crescimento industrial em um país agrário e dominado por oligarquias provinciais. Hoje, porém, observando-se a economia e os escândalos, poucos também duvidam que o nacional-estatismo já deu tudo de bom que podia dar. Nossa elite industrial agora é um séquito de empresários amigos-do-rei, compondo-se com uma elite política de burocratas de empresas estatais à qual se junta uma elite de sindicalistas cooptados, imitando pateticamente as antigas nomenklaturas dos antigos países soviéticos.
Diante deste quadro desalentador, fica comigo a impressão de que a idade de ouro da indústria nacional foi mesmo aquele tempo em que um imigrante chegava aqui sem tostão, montava uma fabriqueta, trabalhava feito um mouro (expressão antiga!) e morria deixando a seus filhos um vasto império. Mas os netos deste empreendedor hoje preferem viver nas abas do Estado. Seja romântica ou não a visão que hoje se tem desses gigantes do passado, sob um aspecto não há dúvida de que eles se diferenciam radicalmente dos empresários atuais: a disposição de correr riscos. A biografia desses senhores mostra que em várias ocasiões eles não hesitaram em apostar todas as suas fichas para lançar um novo empreendimento inédito no país, mesmo quando já estavam razoavelmente estabelecidos em seus negócios. Não foram prudentes, com certeza. Mas nessa hora lembro-me da anedota contada por David Landes em A Riqueza e a Pobreza das Nações. Em meados do século 19, quando a Alemanha ainda era uma região predominantemente agrária, um grupo de empresários locais recorreu à consultoria de um eminente economista britânico. Após uma série de estudos, o consultor expôs sua conclusão: a melhor opção para eles era plantar trigo e centeio, exportá-lo para a Grã-Bretanha e importar manufaturas inglesas.
Tivessem seguido o conselho desse senhor, comenta Landes, os alemães estariam sendo bastante racionais, mas hoje em dia seriam bem pobres. E no entanto, seus cálculos estavam corretos. Só que a opção mais lucrativa do presente pode não ser a do futuro. E redundante é dizer, nada acontece se não há um esforço para que aconteça.
Contemplando os empresários atuais, totalmente avessos ao risco e ávidos pelo guarda-chuva estatal, noto uma enorme semelhança com o cenário de 200 anos atrás, antes da abertura dos portos de Dom João VI: naqueles tempos pré-capitalistas vigorava o sistema conhecido como mercantilismo, no qual apenas o comércio da colônia com a metrópole era permitido, inexistia a livre empresa e a livre concorrência, e toda atividade econômica só era possível com a autorização (alvará régio) e o apoio do rei, que concedia monopólios a seus protegidos. Será que o Brasil chegou ao passado antes de chegar ao futuro?
Vem em boa hora nesse momento em que o país está em crise e está sendo questionado, mais do que um governo, um modelo de desenvolvimento. Agora que vivemos o ocaso do desenvolvimentismo nacional-estatista varguista, é oportuno recordar o que acontecia antes desta fase histórica, e como se conduziam nossos pioneiros visionários. A produção é bem cuidada, a reconstituição de época muito bem feita, e são mostrados detalhes biográficos de quatro personagens escolhidos: Matarazzo, Martinelli, Farquhar e Guinle. Esta amostra já permite algumas inferências: o que os tais gigantes do Brasil tinham em comum uns com os outros? Quais são as semelhanças e as diferenças entre eles e os gigantes da indústria norte-americanos mostrados anteriormente?
Duas características que notei logo nos personagens brasileiros foram, primeiro, que a maioria deles começou pobre, ou ao menos vinda de um patamar bem mais modesto; segundo, que a maioria deles nasceu fora do país: Matarazzo e Martinelli eram italianos, e Farquhar norte-americano. Vale dizer que durante boa parte de suas carreiras eles conheceram o capitalismo mais elementar, aquele onde o contato entre comerciante e cliente é pessoal, separados apenas por um balcão, ou nem isso quando trabalhavam como mascates. Não há interferência de políticos. Mesmo depois quando já eram magnatas e frequentavam gabinetes de altas autoridades, a impressão que fica é que eram mais joguetes do que manipuladores, e nesse aspecto eles se diferenciam dramaticamente dos gigantes da indústria norte-americanos, os famosos Barões Ladrões que floresceram na Gilded Age com a política na mão e os políticos no bolso, dando origem a numerosos trustes que desfilariam seu poder pelo século 20 adentro.
É uma conclusão curiosa: então os industriais brasileiros, que hoje vivem na parceria com o Estado dirigista, terminaram por onde os norte-americanos começaram? É preciso analisar com cuidado para não se cair na armadilha de falsas analogias. No final do século 19, os políticos já eram corruptos, mas o Estado ainda não era dirigista. Os empreendedores norte-americanos não podiam se esquivar de ter boas relações com os políticos, mesmo porque em boa parte atuavam em áreas que dependiam de concessões do governo, como ferrovias e petróleo. Sem dúvida que estavam cientes de representar o Poder Econômico na mais legítima acepção do termo, naqueles anos de auge da revolução industrial. O mesmo não se diz dos seus equivalentes brasileiros, que na mesma época atuavam geralmente em áreas estritamente privadas e ignoradas pelo poder público, e com certeza estavam cientes de que o verdadeiro Poder Econômico do país não era representado por aqueles industriais incipientes, mas pelos fazendeiros de café que povoavam os gabinetes. Tal como seu distante predecessor, o Barão de Mauá, estavam tão sujeitos aos humores da política quanto um barquinho de papel no mar, e podiam passar da riqueza à pobreza mediante uma decisão de um ministro qualquer.
Fossem esses homens heróis ou vilões, esta fase por assim dizer heróica do capitalismo brasileiro esvaneceu-se a partir da Era Vargas. Desde então a indústria brasileira experimentou um desenvolvimento extraordinário, mas impessoal, sem "gigantes". O Estado tornou-se o indutor do desenvolvimento, e para os empresários grandes ou pequenos a fórmula do sucesso passou a ser o bom trânsito junto às autoridades governamentais. Não se ouviu mais falar de histórias de meninos que começavam como mascates e legavam a seus herdeiros um vasto império - de fato, quando os sobrenomes desses capitães de indústria voltaram a frequentar os noticiários, foi para informar escândalos de corrupção e prisões. O último grande capitalista brasileiro, Eike Batista, soçobrou junto com o nacional-estatismo ao qual devera sua ascenção, na verdade puxado pelo pai, Eliézer.
No início da Era Vargas, poucos duvidavam de que a ação de um Estado forte era indispensável para se alavancar o crescimento industrial em um país agrário e dominado por oligarquias provinciais. Hoje, porém, observando-se a economia e os escândalos, poucos também duvidam que o nacional-estatismo já deu tudo de bom que podia dar. Nossa elite industrial agora é um séquito de empresários amigos-do-rei, compondo-se com uma elite política de burocratas de empresas estatais à qual se junta uma elite de sindicalistas cooptados, imitando pateticamente as antigas nomenklaturas dos antigos países soviéticos.
Diante deste quadro desalentador, fica comigo a impressão de que a idade de ouro da indústria nacional foi mesmo aquele tempo em que um imigrante chegava aqui sem tostão, montava uma fabriqueta, trabalhava feito um mouro (expressão antiga!) e morria deixando a seus filhos um vasto império. Mas os netos deste empreendedor hoje preferem viver nas abas do Estado. Seja romântica ou não a visão que hoje se tem desses gigantes do passado, sob um aspecto não há dúvida de que eles se diferenciam radicalmente dos empresários atuais: a disposição de correr riscos. A biografia desses senhores mostra que em várias ocasiões eles não hesitaram em apostar todas as suas fichas para lançar um novo empreendimento inédito no país, mesmo quando já estavam razoavelmente estabelecidos em seus negócios. Não foram prudentes, com certeza. Mas nessa hora lembro-me da anedota contada por David Landes em A Riqueza e a Pobreza das Nações. Em meados do século 19, quando a Alemanha ainda era uma região predominantemente agrária, um grupo de empresários locais recorreu à consultoria de um eminente economista britânico. Após uma série de estudos, o consultor expôs sua conclusão: a melhor opção para eles era plantar trigo e centeio, exportá-lo para a Grã-Bretanha e importar manufaturas inglesas.
Tivessem seguido o conselho desse senhor, comenta Landes, os alemães estariam sendo bastante racionais, mas hoje em dia seriam bem pobres. E no entanto, seus cálculos estavam corretos. Só que a opção mais lucrativa do presente pode não ser a do futuro. E redundante é dizer, nada acontece se não há um esforço para que aconteça.
Contemplando os empresários atuais, totalmente avessos ao risco e ávidos pelo guarda-chuva estatal, noto uma enorme semelhança com o cenário de 200 anos atrás, antes da abertura dos portos de Dom João VI: naqueles tempos pré-capitalistas vigorava o sistema conhecido como mercantilismo, no qual apenas o comércio da colônia com a metrópole era permitido, inexistia a livre empresa e a livre concorrência, e toda atividade econômica só era possível com a autorização (alvará régio) e o apoio do rei, que concedia monopólios a seus protegidos. Será que o Brasil chegou ao passado antes de chegar ao futuro?
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Afinal, houve golpe de estado?
Não se pode visitar a página de um jornal ou um fórum qualquer da internet sem se deparar com essa palavra-de-ordem repetida vezes sem conta: golpe, golpe, houve um golpe, fulano é um golpista, fora o governo ilegítimo.
Golpe ou não, o governo Temer está aí. Ninguém espera muita coisa dele, mas sua vantagem reside justamente nessa premissa: o que vier é lucro. Pode até surpreender e começar a arrumar a economia, como um segundo Itamar Franco, mas com certeza será apenas um interregno até um novo governo eleito que ninguém sabe qual será. A probabilidade do PT voltar ao poder com Lula é alta. Isso pode ocorrer em duas hipóteses: primeiro, se o governo Temer for um desastre total, tudo piorar e a agitação ganhar as ruas, levando à antecipação das eleições; segundo se, paradoxalmente, o governo Temer for um sucesso, recolocar a economia nos eixos até 2018, e então o PT terá cacife para prometer uma nova era e prosperidade e conquistas sociais, repetindo o cenário de 2002.
Eu particularmente acho que não acontecerá nem a primeira nem a segunda hipótese. O PT está desgastado com o povo desde que seu saco de bondades ficou vazio, e tampouco a crise é grave o suficiente para suscitar atos de desespero como saques e quebra-quebra. Por outro lado, até 2018 é um prazo muito curto para uma recuperação significativa da economia. Mas estou me desviando do assunto. Perguntava-me se o que aconteceu foi ou não um golpe de estado.
Por definição, um golpe é uma batida, uma ação inesperada e rápida. Esse termo não se aplica a um processo que prolongou-se por meses a fio. Muitos dicionários por certo terão sua definição particular de golpe de estado, mas eu penso que a expressão pode ser descrita em poucas palavras como uma investida súbita de um grupo, geralmente minoritário, no sentido de apossar-se dos centros de poder, a fim de controlar o Estado dali por diante. Não foi isso o que aconteceu. O impedimento de Dilma Rousseff pode até ser questionável do ponto de vista jurídico, mas seguiu todos os trâmites previstos na constituição e foi acompanhado pelo STF. Sem contar que é um golpe muito estranho esse em que ninguém foi preso e a presidente até pode continuar usufruindo do palácio.
Isso no entanto não impede que os simpatizantes do governo continuem repetindo que houve um golpe de estado, certamente acreditando na velha máxima de que toda mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade. Não é bem isso. O que acontece de fato é que após repetir mil vezes a mentira, o próprio mentiroso passa a acreditar nela.
Golpe ou não, o governo Temer está aí. Ninguém espera muita coisa dele, mas sua vantagem reside justamente nessa premissa: o que vier é lucro. Pode até surpreender e começar a arrumar a economia, como um segundo Itamar Franco, mas com certeza será apenas um interregno até um novo governo eleito que ninguém sabe qual será. A probabilidade do PT voltar ao poder com Lula é alta. Isso pode ocorrer em duas hipóteses: primeiro, se o governo Temer for um desastre total, tudo piorar e a agitação ganhar as ruas, levando à antecipação das eleições; segundo se, paradoxalmente, o governo Temer for um sucesso, recolocar a economia nos eixos até 2018, e então o PT terá cacife para prometer uma nova era e prosperidade e conquistas sociais, repetindo o cenário de 2002.
Eu particularmente acho que não acontecerá nem a primeira nem a segunda hipótese. O PT está desgastado com o povo desde que seu saco de bondades ficou vazio, e tampouco a crise é grave o suficiente para suscitar atos de desespero como saques e quebra-quebra. Por outro lado, até 2018 é um prazo muito curto para uma recuperação significativa da economia. Mas estou me desviando do assunto. Perguntava-me se o que aconteceu foi ou não um golpe de estado.
Por definição, um golpe é uma batida, uma ação inesperada e rápida. Esse termo não se aplica a um processo que prolongou-se por meses a fio. Muitos dicionários por certo terão sua definição particular de golpe de estado, mas eu penso que a expressão pode ser descrita em poucas palavras como uma investida súbita de um grupo, geralmente minoritário, no sentido de apossar-se dos centros de poder, a fim de controlar o Estado dali por diante. Não foi isso o que aconteceu. O impedimento de Dilma Rousseff pode até ser questionável do ponto de vista jurídico, mas seguiu todos os trâmites previstos na constituição e foi acompanhado pelo STF. Sem contar que é um golpe muito estranho esse em que ninguém foi preso e a presidente até pode continuar usufruindo do palácio.
Isso no entanto não impede que os simpatizantes do governo continuem repetindo que houve um golpe de estado, certamente acreditando na velha máxima de que toda mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade. Não é bem isso. O que acontece de fato é que após repetir mil vezes a mentira, o próprio mentiroso passa a acreditar nela.
terça-feira, 17 de maio de 2016
O fim do governo lombrosiano
Na primeira apresentação de Temer e seu novo ministério na TV, foi impossível ignorar uma impressão que tive de imediato, mas que procurei reprimir por achar que não era coisa digna de ser externada. Foi uma impressão de dejà vu. Depois de muito tempo, voltei a ver homens de terno, sérios e educados, discorrendo em português correto sobre questões pertinentes da política e da economia.
Mas o que é isso? Então estou julgando um governo por seu aspecto... estético? Alguém pode imaginar coisa mais idiota? Com certeza eu não devia estar dizendo isso. Mas com certeza outras pessoas também tiveram a mesma impressão, e cumpre verificar se não se esconde aí uma lógica profunda. A era petista foi, antes de tudo, uma era de feiura, de grotesco. Tipos mal ajambrados por toda parte, quando não simplesmente feios de cara, usando linguagem vulgar. Com certeza não devemos julgar o outros conforme sua aparência. Mas os petistas, além de feios e incultos, parecem também obstinados em condenar tudo o que é belo e instruído, até a norma culta da língua, estigmatizada como preconceito e arrogância. Um artigo muito bem escrito ajudou-me a abrir os olhos. Com certeza ninguém é culpado de ser feio, mas bem lembrou o autor, cuja esposa trabalha com um salão de beleza, um bom corte de cabelo, uma maquiagem, uma roupa bem escolhida e, principalmente, a boa vontade podem fazer para transformar o feio em, no mínimo, agradável. Os petistas fizeram o contrário: destacaram a própria feiura tanto quanto possível. E se o fizeram deliberadamente, é porque consideram tal caracterização um traço identitário, de modo a repudiar as convenções burguesas e se parecer com o povão, que na opinião deles, deve ser feio.
Mais do que feios, eu diria que os homens públicos que até pouco dominavam o cenário são tipos lombrosianos. Para quem não sabe, Cesare Lombroso foi um psiquiatra e criminologista do século 19 que desenvolveu a tese de que todo bandido tem cara de bandido. Para fundamenta-la, expôs variados painéis de traços fisionômicos que, segundo dizia, eram indicadores de propensão a um tipo de delito. Hoje em dia tal ideia causa risos, mas também repulsa: não há nada mais politicamente incorreto. E no entanto, todos estão cientes de que a polícia sabe muito bem que bandido tem cara de bandido. Alguma verdade há por aí, ou como diz o ditado popular, debaixo desse angu tem caroço. Eu particularmente sempre achei Zé Dirceu o mais lombrosiano de nossos homens públicos, nunca vi ninguém com tanta cara de safado. O segundo mais lombrosiano é Eduardo Cunha, e isso eu dizia muito antes das denúncias que o fizeram perder a presidência da câmara. Na verdade, qualquer cartaz de campanha eleitoral é um festival de tipos lombrosianos, e ver isso às vezes até me divertia. Procurando uma explicação racional, eu digo que não existe tendência inata ao crime, mas certos vícios que afetam a saúde e acabam impressos na fisionomia das pessoas, sem contar o antigo adágio: os olhos são o espelho da alma...
Parece que por hora o governo lombrosiano deu uma trégua no Brasil. É claro que ter um ministério de homens bem vestidos e bem educados, por si só não é garantia de um bom governo. Mas com certeza é um bom começo. Tanto que já tem gente se queixando por aí que o ministérios de Temer só tem brancos e não tem mulheres. Mas o ministério de Temer tem a mesma cara de qualquer diretoria de grande empresa: homens de meia idade, brancos e com boa formação. Obviamente essa não é a cara do país, mas os indivíduos mais capacitados para altas funções costumam ter essa cara. Isso é produto de nosso quadro social e educacional, que dificulta a indivíduos de outros grupos ter o preparo e as ligações necessárias para ascender a posições de poder. Simplesmente criar cotas para esses indivíduos desfavorecidos é fazer uma falsificação, um embuste, pois as causas estruturais que dificultam a tais indivíduos ascender pelas vias normais continuam existindo. Nenhuma farsa dura para sempre, e é sempre agradável a sensação de dejà vu que se segue a cada farsa desfeita.
Mas o que é isso? Então estou julgando um governo por seu aspecto... estético? Alguém pode imaginar coisa mais idiota? Com certeza eu não devia estar dizendo isso. Mas com certeza outras pessoas também tiveram a mesma impressão, e cumpre verificar se não se esconde aí uma lógica profunda. A era petista foi, antes de tudo, uma era de feiura, de grotesco. Tipos mal ajambrados por toda parte, quando não simplesmente feios de cara, usando linguagem vulgar. Com certeza não devemos julgar o outros conforme sua aparência. Mas os petistas, além de feios e incultos, parecem também obstinados em condenar tudo o que é belo e instruído, até a norma culta da língua, estigmatizada como preconceito e arrogância. Um artigo muito bem escrito ajudou-me a abrir os olhos. Com certeza ninguém é culpado de ser feio, mas bem lembrou o autor, cuja esposa trabalha com um salão de beleza, um bom corte de cabelo, uma maquiagem, uma roupa bem escolhida e, principalmente, a boa vontade podem fazer para transformar o feio em, no mínimo, agradável. Os petistas fizeram o contrário: destacaram a própria feiura tanto quanto possível. E se o fizeram deliberadamente, é porque consideram tal caracterização um traço identitário, de modo a repudiar as convenções burguesas e se parecer com o povão, que na opinião deles, deve ser feio.
Mais do que feios, eu diria que os homens públicos que até pouco dominavam o cenário são tipos lombrosianos. Para quem não sabe, Cesare Lombroso foi um psiquiatra e criminologista do século 19 que desenvolveu a tese de que todo bandido tem cara de bandido. Para fundamenta-la, expôs variados painéis de traços fisionômicos que, segundo dizia, eram indicadores de propensão a um tipo de delito. Hoje em dia tal ideia causa risos, mas também repulsa: não há nada mais politicamente incorreto. E no entanto, todos estão cientes de que a polícia sabe muito bem que bandido tem cara de bandido. Alguma verdade há por aí, ou como diz o ditado popular, debaixo desse angu tem caroço. Eu particularmente sempre achei Zé Dirceu o mais lombrosiano de nossos homens públicos, nunca vi ninguém com tanta cara de safado. O segundo mais lombrosiano é Eduardo Cunha, e isso eu dizia muito antes das denúncias que o fizeram perder a presidência da câmara. Na verdade, qualquer cartaz de campanha eleitoral é um festival de tipos lombrosianos, e ver isso às vezes até me divertia. Procurando uma explicação racional, eu digo que não existe tendência inata ao crime, mas certos vícios que afetam a saúde e acabam impressos na fisionomia das pessoas, sem contar o antigo adágio: os olhos são o espelho da alma...
Parece que por hora o governo lombrosiano deu uma trégua no Brasil. É claro que ter um ministério de homens bem vestidos e bem educados, por si só não é garantia de um bom governo. Mas com certeza é um bom começo. Tanto que já tem gente se queixando por aí que o ministérios de Temer só tem brancos e não tem mulheres. Mas o ministério de Temer tem a mesma cara de qualquer diretoria de grande empresa: homens de meia idade, brancos e com boa formação. Obviamente essa não é a cara do país, mas os indivíduos mais capacitados para altas funções costumam ter essa cara. Isso é produto de nosso quadro social e educacional, que dificulta a indivíduos de outros grupos ter o preparo e as ligações necessárias para ascender a posições de poder. Simplesmente criar cotas para esses indivíduos desfavorecidos é fazer uma falsificação, um embuste, pois as causas estruturais que dificultam a tais indivíduos ascender pelas vias normais continuam existindo. Nenhuma farsa dura para sempre, e é sempre agradável a sensação de dejà vu que se segue a cada farsa desfeita.
Assinar:
Postagens (Atom)