segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Confiança, de Fukuyama

Tenho finalmente em mãos um livro que há muito queria ler - Confiança, de Francis Fukuyama. Tive que encomenda-lo de um sebo, pois há muito não há mais edições em livrarias, já que vendeu pouco, muito menos do que O Fim da História e o Último Homem, obra que fez sucesso logo após a queda dos regimes da Cortina de Ferro, mas que é pouco citada hoje. Teve sua época, mas não foi uma grande obra: embora bem escrita, o texto me pareceu mais uma provocação, algo direcionado a suscitar questões e não a responde-las. Já Confiança é bastante superior, embora tenha feito pouco sucesso.

Aprecio Fukuyama porque ele é um dos poucos ensaístas modernos que procura explicar essa questão até hoje aberta - porque alguns países são rico e outros são pobres - penetrando fundo na cultura e na psicologia dos povos, um terreno que a maioria prefere evitar em favor do economês anódino. Tenho dele também Ficando Para Trás. Confiança é bom porque retoma o conceito de Capital Social, contraposto ao conceito de Capital Humano, este muito citado, mas que reporta aos costumes e valores, e não somente ao conhecimento adquirido. Espero que Fukuyama responda algumas dúvidas que tenho até hoje, por exemplo, que explique porque culturas tão baseadas na família, como o Japão, obtiveram resultados tão semelhantes aos de culturas onde a família tem pouca relevância nos negócios, como a Alemanha. Quanto a nós, aqui, estou convencido de que o compadrio ancestral do "homem cordial" é um dos fatores que nos mantêm no subdesenvolvimento até hoje, e creio que Fukuyama concordará comigo.

Aos poucos debaterei aqui as ideias lançadas no livro. Até a próxima!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Relatório da Comissão da Verdade

Saiu hoje o relatório da Comissão de Verdade, sem revelar muita coisa além do que já sabíamos, conforme era esperado. Serviu mais para remoer velhos sentimentos e ressentimentos, vide as lágrimas da Dilma...

Mas o período do governo militar 1964-1985, apesar de já relativamente distanciado no tempo, ainda está longe de ter uma avaliação isenta da parte dos comentaristas, mesmo daqueles que nem eram nascidos na época. Repetindo o chavão, é ferida não cicatrizada. Impressiona ver a coleção de ideias prontas e esquematismos repetidos vezes sem conta sobre aquele período. Uma boa amostra delas saiu nessa reportagem da UOL, provocativamente intitulada Você sabia que a ponte Rio Niterói e a PM são heranças da Ditadura?

A página afirma que a Polícia Militar, a corrupção, a dívida, a inflação, a educação ideológica, o aumento da desigualdade e as obras faraônicas foram um legado deste período. Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. Mas já que estamos em época de comissões da verdade, temos aqui uma boa oportunidade de examinar caso a caso.

Polícia Militar: falso. Já existiam polícias militares no Brasil bem antes de 1964, apenas com outros nomes (Força Pública, Brigada Militar, etc.) e subordinadas à autoridade dos estados. O que o regime militar fez foi subordinar nominalmente as polícias militares ao comando do exército, e elas passaram a ser intituladas "forças auxiliares". Entretanto, o que o governo tinha em mente era a utilização das PM´s como auxílio no combate à guerrilha. O crime comum, embora já em ascenção na época, não foi considerado questão de segurança nacional, e na prática as PM´s continuaram agindo como sempre haviam agido.

Corrupção: havia corrupção, sim. Mas não era superior à que havia hoje, mesmo porque o governo não tinha necessidade de comprar votos. O maior escândalo do período, o Escândalo da Mandioca, ocorrido no governo Figueiredo, desviou um montante minúsculo se comparado aos escândalos que vieram depois.

Dívida e inflação: verdade. Os governos militares seguiram o modelo do nacional-estatismo fundado por Vargas e Kubitchek, caracterizado pelo papel central do Estado na condução da economia e financiado pela inflação e pelo endividamento. Os governos de Vargas e Kubitchek, ao menos, não utilizaram esses dois instrumentos simultaneamente - por exemplo, nos anos JK a inflação subiu, mas o país rompeu com o FMI e o endividamento permaneceu baixo. O maior erro dos militares foi aumentar simultaneamente a inflação e o endividamento.

Educação ideológica: parcialmente verdade. Os militares incluíram no currículo as matérias de Estudos dos Problemas Brasileiros, Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Educação Moral e Cívica. Mas isso me pareceu bastante inócuo, e até contraproducente: a democracia era louvada e o OSPB ensinava o funcionamento de um regime republicano, exatamente o contrário do que eu via o governo fazer!

Aumento da desigualdade: sofisma. A desigualdade é uma estatística que mostra a participação relativa de cada faixa de renda no bolo nacional. Durante o período a participação relativa das camadas mais pobres encolheu, e esse fato é citado maliciosamente como prova de que os ricos ficaram mais ricos à custa de tornar os pobres ainda mais pobres. Mas em termos ABSOLUTOS, tanto a renda dos ricos quanto a renda dos pobres cresceu, só que a renda dos ricos cresceu mais rápido, resultando em um aumento da participação relativa da fatia destes no bolo. A prova do aumento do nível de vida dos trabalhadores na época foi a quase ausência de operários nos movimentos guerrilheiros, via de regra siglas incipientes contando com poucas dezenas de estudantes, intelectuais,padres, ex-militares, etc.

Obras públicas: parcialmente verdade. De fato, os militares fizeram na época muitas obras faraônicas e de utilidade duvidosa, como a transamazônica. Mas quem hoje afirmaria que a ponte Rio-Niterói e a hidroelétrica de Itaipu são inutilidades?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A quase-lógica ataca de novo: os degredados

Vi recentemente no blog de um professor um artigo interessante, que contesta um dos mais longevos e disseminados daqueles mitos sobre a História do Brasil que aprendemos na escola e repetimos pela vida afora com a convicção de quem enuncia uma verdade absoluta: O Brasil é uma terra cheia de bandidos e corruptos porque no passado fomos colonizados por degredados.

Essa assertiva quase sempre entra na discussão quando se procura explicar porque os EUA e outros países desenvolvidos que foram colônias no passado, hoje são tão ricos, ordeiros e honestos, ao passo que nós continuamos chafurdando na pobreza e na ladroagem. É nesse ponto que tocamos em outro mito escolar longevo: fomos uma "colônia de exploração", ao passo que eles foram uma "colônia de povoamento".

O artigo cita um outro artigo, este publicado na grande imprensa, da autoria de um conhecido escritor:

Foram os portugueses, porém, que disseminaram a prática da corrupção.  Diferentemente dos peregrinos ingleses que desembarcaram na América do Norte para se fixarem e construírem uma nova vida, os portugueses que vieram atrás de Cabral eram uma escória, um bando de renegados e desterrados que só queriam se aproveitar deste terreno baldio sem ninguém, para enriquecer e voltar à terrinha. Pois foram eles que se encarregaram de fiscalizar o contrabando do pau-brasil, aves, ouro e especiarias contra a Coroa Portuguesa.  Não podia dar certo.  Mas aqueles aventureiros portugueses estabeleceram um padrão de rapinagem que de lá para cá só fez se aprimorar.  Durma com uma corrupção dessas!


É bem redigido e parece até fazer lógica.  Mas é um exemplo daquilo que eu chamo de quase-lógica, uma praga que brota das salas de aula, propaga-se pela mídia e contamina o debate acadêmico até receber a chancela de verdade absoluta, tristeza de um país dividido entre iletrados e pretensos intelectuais. De fato, a presença de elementos com um histórico de má conduta social em uma comunidade contribui em algum grau para o aumento dos delitos naquela comunidade. Muitos dos primeiros capitães do Brasil deploraram a presença daqueles bandidos em suas capitanias, e escreveram cartas ao rei narrando os malfeitos que protagonizavam. Mas não é suficiente para explicar os atuais níveis de crime e de corrupção. Saindo do chute para a pesquisa séria, vê-se que o número de degredados foi relativamente pequeno entre os colonos, que a política de enviar degredados às colônias não durou tanto tempo assim, e tampouco era exclusividade de Portugal - a Inglaterra também enviou muitos degredados no início da colonização da Austrália, isso em época bem mais recente, e a Austrália hoje é um local aprazível e com baixos índices de crime e corrupção.

Como tampouco tem grande significado a dicotomia Colônia de Povoamento X Colônia de Exploração. Os conceitos são auto-explicativos, mas não explicam o que pretendem. O Brasil também foi uma colônia de povoamento. Ou alguém acredita que os únicos portugueses que aportavam aqui eram fidalgos que vinham assumir cargos públicos e tomar posse de sesmarias? Esses vieram, mas junto com eles também vieram milhares de colonos despossuídos, alguns talvez sonhando em fazer fortuna rápido e voltar à terra natal, mas a maioria, decerto, ciente de que jamais regressariam, mesmo porque tinham o exemplo de outros que haviam partido antes deles e não regressaram. O epíteto colônia de exploração, a meu ver, se aplica a ex-colônias como a Índia e a Indonésia, onde já existia uma população nativa e o colonizador só se fazia presente transitoriamente como funcionário da administração ou homem de negócios. Do mesmo modo, os EUA também foram uma colônia de exploração: o sul foi dedicado a monocultoras de exportação trabalhadas por mão-de-obra escrava, tal como sucedeu no Brasil. E até o século 18 pelo menos, em termos puramente econômicos, o sul foi mais importante do que o norte habitado por camponeses pobres que trabalhavam a terra pessoalmente. Então, a explicação para a grande discrepância quanto aos níveis de riqueza  & corrupção entre nós e os EUA tem uma explicação diferente.

Mas qual explicação? Serão os anglo-saxônicos inerentemente mais honestos que os ibéricos? É verdade que Portugal e Espanha no século 16 não eram nenhum modelo de moralidade pública. Mas tampouco a Inglaterra o era: até o século 18, o dito popular "é como encontrar um homem honesto no parlamento" equivalia ao nosso "é como encontrar agulha no palheiro". A meu ver, a moralidade pública nasce da sociedade civil e propaga-se à esfera pública, e não o oposto. Sem grandes floreios retóricos, eu penso que a real explicação é mais prosaica: No Brasil, o Estado se formou antes da sociedade civil, ao passo que nos EUA, estado e sociedade civil formaram-se juntos. O colono que aportava aqui, já encontrava uma administração pronta e funcionando nos mesmos moldes que funcionava em Portugal, e sabia que tinha que buscar a proteção desses homens de gabinete se quisesse prosperar, ou mesmo sobreviver na nova terra. Estabeleceu-se então uma relação de dependência do privado para com o público, que de geração em geração chegou até aos dias atuais. Fica flagrante quando se vê que o sonho de todo jovem recém-formado não é fundar seu próprio negócio, mas passar em algum concurso, e a fórmula do sucesso das empresas não é a competência nos negócios, mas as ligações com os políticos. A honestidade nos negócios é estabelecida, a meu ver, nas mediações da vida diária, no preço que se paga por ser desonesto em termos de perda de confiança. Isso só acontece dentro da sociedade civil, pois o Estado, como no tempo dos degredados, tudo o que pode fazer é mandar para a cadeia. Penso que quando a sociedade civil começar a se tornar mais importante do que o Estado, e o mercado se tornar mais importante do que o círculo dos amigos-do-rei, começaremos a ser mais honestos.

domingo, 9 de novembro de 2014

A Gangorra PT / PSDB

Datando da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, hoje completamos vinte anos de hegemonia PT / PSDB na política brasileira em um clima de inédita polarização entre esses dois pilares. É sabido que a última eleição foi a mais disputada dos últimos tempos, e é notória a divisão do país entre os apoiantes de Dilma e os de Aécio. Com o ar ainda impregnado de discussões políticas, ao sabor das paixões de cada um, tem-se a impressão de que Dilma e Aécio, e por conseguinte o PT e o PSDB, encarnam duas opiniões diametralmente opostas, duas visões e dois projetos totalmente inconciliáveis: Direita X Esquerda, Ricos X Pobres, Democracia X Ditadura, Nacionalismo X Submissão, Bem X Mal, etc.

Mas não é a impressão que eu tenho. Minha abordagem é histórica, e a abordagem histórica altera a perspectiva das imagens ao acrescentar-lhes a dimensão do tempo: o que antes parecia de um jeito na imagem chapada, feita de instantâneos do tempo presente, ganha profundidade quando comparamos com o tempo passado. Isso me lembra uma diversão que havia muito antigamente nas revistas de palavras cruzadas, junto com curiosidades e ilusões de ótica: o leitor era apresentado a um desenho onde só se viam as silhuetas em preto das figuras, e desafiado a descobrir o que representava aquela imagem. Na primeira impressão sempre parecia alguma coisa estranha, tipo uma feiticeira mexendo um caldeirão. Mas quando íamos à página de respostas, onde era mostrado o mesmo desenho tridimensional, víamos uma dona de casa varrendo um tapete debaixo de uma mesinha de centro. O tapete, redondo, em silhueta lembrava um caldeirão, e o que parecia o chapéu da bruxa era na verdade um pote colocado sobre uma prateleira bem atrás da cabeça da mulher. A mesma ilusão temos ao apreciar os fatos acrescentando-lhes ou não a dimensão histórica, como no caso dessa suposta polarização PT X PSDB: bem avaliado ao longo desses vinte anos de hegemonia, o que eu vejo de fato não é um embate, e sim uma gangorra tendo em uma ponta o PT, em outra ponta o PSDB. Como em toda gangorra, ora um sobe e o outro necessariamente desce, sendo a descida condição necessária para a posterior subida. Evidente que todos querem ficar em cima, mas como toda criança sabe, só com um não dá para brincar de gangorra. Nem com mais de dois. O crucial, em política, é ficar por cima no momento certo.

E quem tem se saído melhor nessa brincadeira de gangorra? É fato que o PSDB saiu na frente, com duas vitórias eleitorais de FHC sobre Lula. O PT soube perder, pois em toda gangorra, ficar em baixo é condição necessária para subir, embora nada determine por quanto tempo o parceiro pode permanecer no alto. Em seguida o PT venceu em 2002, e tem permanecido em cima até agora. Mas ficam algumas indagações no ar.

Lula poderia ter ganho já em 1994? Ou em 1990, se recuarmos até a eleição de Collor?

Poder, poderia, mas os resultados teriam sido muito diversos. A economia não estava estabilizada, e a inflação disparava. Na América Latina, todas as experiências populistas levadas a cabo antes da estabilização econômica dos anos noventa fracassaram inapelavelmente, produzindo caos e hiperinflação, sendo exemplos Siles Suazo na Bolívia e Alan Garcia no Peru. Se Lula houvesse ganho qualquer uma das eleições que disputou antes de 2002, ele só teria duas opções: fazer mais ou menos o mesmo que Fernando Henrique fez, e assim ficaria desmoralizado junto às bases, ou partir para uma aventura populista que inevitavelmente terminaria em caos hiperinflacionário. Tanto na primeira quanto na segunda hipótese, Lula estaria destruído politicamente.

Vê-se, portanto, que a estabilização da economia a partir do Plano Real, levada a cabo pelo PSDB, foi essencial para garantir o bom desempenho de Lula a partir de 2002, o qual já rendeu até agora três vitórias sucessivas do PT. Conscientemente ou não, o PT soube ficar por baixo na gangorra na hora certa, e soube também o momento certo de subir. Mas como vai se comportar de agora em diante a gangorra PT / PSDB? Por quanto tempo o PT ficará por cima? Será que, assim como foi bom o PT ficar por baixo antes de 2002, pode ser ruim o PT ficar por cima em 2014, com o quadro atual da economia em queda?

Imagino o que aconteceria caso Aécio Neves houvesse ganho a eleição. Ele teria vencido por uma pequena margem; o PT, mesmo derrotado, ainda seria uma força considerável, e o PSDB não poderia governar sem negociar com os petistas. O eleitorado ficou satisfeito com o governo petista, e como é natural, espera do novo governo o aprofundamento dessas mudanças. Ao contrário do que acreditam alguns apoiadores ingênuos, o PSDB não é um partido de direita, muito menos neoliberal: é um partido social-democrata, tal como o próprio PT, embora sem os arroubos revolucionários deste. Mesmo se tivesse a intenção de fazer reformas profundas, não teria força para fazê-las. Tudo o que Aécio poderia fazer seria mais ou menos o mesmo que Fernando Henrique fez em 1994: atacar um quadro de economia em queda e inflação crescente com as indispensáveis medidas de austeridade, aí incluído cortes nos gastos públicos, congelamento de salários e privatizações. Essas medidas necessariamente acarretam um ônus de impopularidade, e o PT facilmente venderia ao povo a sua versão de que o PSDB é o partido que é dos ricos, do grande capital e do FMI, que deseja o arrocho para o povão. Não demoraria até que todos começassem a sentir saudades dos bons tempos petistas em contraste com os tempos bicudos tucanos. Tal como aconteceu em 2002, o PSDB entregaria ao PT triunfante um país com as contas no azul, pronto para novo ciclo de crescimento. Portanto, talvez tenha sido bom para o PSDB ficar por baixo na gangorra nesses quatro anos.

E afinal, foi bom para o PT haver ganho essa eleição? Não teria sido este o momento de ficar por baixo na gangorra?

Há muitos desdobramentos a considerar. A única coisa certa é que o novo governo terá que tomar medidas impopulares para estancar o déficit público, como aliás já está fazendo. Desde 2002 até agora o PT tem governado com facilidade, já que o povo está satisfeito, mas com o povo batendo panelas na rua, a coisa muda. Deve ser lembrada a intensidade das manifestações ano passado; é certo que elas não se voltaram diretamente contra o PT, mas isso é uma possibilidade a considerar. Eu penso, então que o PT tem três alternativas:

1) Partir para a ditadura, estilo bolivariano, com milícias armadas e pressão sobre a mídia;

2) Conformar-se com uma derrota para o PSDB em 2018;

3) Auto-sacrifício: Dilma vai tomar todas as medidas amargas necessárias para sanear as contas públicas, arcando com o ônus de impopularidade, o que a deixará obviamente queimada, mas será de fato o sacrifício em holocausto de Dilma: o próprio PT a abandonará e passará a atacá-la, assim preparando o clima para o retorno de Lula em 2018 na posição de salvador da pátria.

Temos quatro anos para ver.

sábado, 25 de outubro de 2014

Amanhã decidiremos quem será o presidente... em 2018

Amanhã é dia de escolher quem será o presidente, e pela primeira vez em muitos anos, não há certeza de quem irá vencer. Mas a impressão que eu tenho aqui comigo é que amanhã vai ser decidido não só quem será o próximo presidente, mas também o presidente de 2018.

As nuvens escuras estão no horizonte à vista de todos, e se não é possível prever com segurança quem vai ganhar amanhã, por outro lado é perfeitamente possível prever o que vai acontecer com o vencedor: terá que enfrentar uma boa rebordosa. Se Aécio vencer, não terá outra alternativa além de ser um segundo FHC: as medidas de austeridade serão inevitáveis, a fim de baixar a inflação e recompor nossas reservas, e inevitável também será o ônus de impopularidade resultante de tais medidas. Se tudo correr bem, 2018 será o ano de novo mandato de Lula, que ganhará facilmente, bastando comparar os tempos bicudos de Aécio com os tempos fartos de seus dois primeiros mandatos. Se Dilma vencer... aí complica. A bomba vai estourar na mão dela. Até agora o PT tem governado com certa facilidade, pois o povo está satisfeito com os bons resultados da economia, mas nota-se que quase tudo o que Dilma teve para apresentar em sua campanha não foi produto de seu governo, mas herança dos bons tempos dos dois mandatos de Lula, que recusou-se terminantemente a disputar essas eleições justamente por saber que o tempo havia fechado. Com a economia em queda e o povo batendo panela na rua, aí só na paulada, como na Venezuela. As alternativas são duas: ou o PT parte logo para a ditadura, ou conforma-se em sofrer uma derrota fragorosa em 2018.

O que vejo de fato nesse embate PT X PSDB que há vinte anos monopoliza nosso quadro político, é um movimento de gangorra: um sobe, outro desce; outro sobe, um desce. É claro que ninguém quer ficar por baixo, mas como toda criança sabe, só com um não dá para brincar de gangorra. Na visão do grande público, dominado por aquela paixão que antecede as grandes decisões, PT e PSDB cumprem um roteiro de novela das oito: de um lado os galãs, do outro os vilões. Os bons e os maus, os ricos e os pobres Seus programas, supostamente, são opostos e inconciliáveis, um governará para os ricos, e o outro para os pobres. Poucos notam que são apenas dois na gangorra. A questão é ficar por cima na hora certa.

sábado, 18 de outubro de 2014

As eleições através dos tempos

A revista História Viva desse mês apresentou uma oportuna reportagem sobre como evoluíram as eleições no Brasil. Fiquei sabendo que a primeira ocorreu em 1532, para a Câmara Municipal de São Vicente. O que eu já sabia, e a reportagem confirmou, foi que as câmaras de Homens Bons constituíram até o final do século 18 o poder de facto no Brasil, uma terra quase desabitada onde o rei era uma figura tão distante que parecia lendária, e seus funcionários eram tão escassos que pareciam pouco mais que lendários. Naquele vazio permeado aqui e ali por vilas e fazendas isoladas, mandavam os ditos Homens Bons, mais precisamente os senhores de terra, muitos deles dispondo de homens armados sob seu comando. O senso comum afirma que os senhores de terra brasileiros eram fidalgos que receberam sesmarias do rei de Portugal. Na prática, porém, a posse da terra em locais tão distantes da autoridade real dependia da capacidade desses senhores de a obterem e conservarem pela força, e para tal contavam com a ajuda, não do rei, mas de parentes, agregados, colonos e demais dependentes que se dispusessem a pegar em armas sob suas ordens. Tanto eram independentes e refratários à autoridade da metrópole, que conforme conta a reportagem, a fim de diminuir seu poder, o rei passou a nomear os chamados Juízes de Fora para fiscalizar os municípios, onde os juízes eram os membros das câmaras locais (deve ser lembrado aqui que o princípio da divisão de poderes não existia na época, e os vereadores eram ao mesmo tempo o prefeito, os juízes e os funcionários).

Como se vê, então, a elite brasileira dos tempos coloniais, longe de compor-se com a metrópole, ao contrário, dedicava-lhe constante estranhamento. Os Homens Bons frequentemente ignoravam as disposições do rei, ameaçavam e corrompiam seus funcionários. Daí que não seja de admirar que o desejo por independência tenha surgido nas elites antes de surgir nas massas, como bem ilustra o exemplo da Inconfidência Mineira.

Outro fato que eu já conhecia, e foi oportunamente lembrado pela reportagem, foi que durante o império ocorreram diversas reformas na legislação eleitoral, que ao final deste período já haviam se tornado diretas (no início os eleitores, ditos de primeiro grau, votavam em delegados ditos eleitores de segundo grau, que votavam nos candidatos). Em determinado momento o número de eleitores chegou a ser até superior ao que viria a ser no início da república, apesar do sistema censitário, que na prática era fácil de ser contornado, pois os valores de renda exigidos eram relativamente baixos e ficaram congelados por anos, e a comprovação de rendas era difícil. Enfim, esse período, longe de ter sido de imobilismo e obscurantismo, foi de muitas experiências.

O sufrágio universal masculino (exceto analfabetos) instituído com a república teve como consequência inicial apenas a consolidação do poder dos coronéis do sertão. Esses chefes políticos, sem dúvida, já existiam antes, mas antes também tinham menos eleitores em seu cabresto. Sob este aspecto, fica difícil afirmar que a instituição do sufrágio universal representou uma conquista democrática. E penso mesmo que se também votassem os analfabetos, o poder dos coronéis ficaria ainda mais consolidado, pois sustentava-se na fragilidade e dependência econômica dos colonos de sua fazenda, e os analfabetos pertenciam ao estrato social mais frágil e dependente. De fato, uma fraude comum no período era forjar a alfabetização dos trabalhadores do coronel, a fim de que pudessem se tornar eleitores.

No anos 30 tivemos o exotismo dos "deputados das profissões", que eram eleitos por delegados de suas respectivas profissões - herança do corporativismo do fascismo italiano. Não deixaram saudades.

Com a constituição atual, enfim, pode-se afirmar que o voto se tornou universal no Brasil. Analfabeto vota. E analfabeto é eleito. Mas esse é nosso país, e essa é a História de todos nós.

domingo, 5 de outubro de 2014

O Erro do PSDB

O bom desempenho do candidato Aécio Neves nesse primeiro turno foi surpreendente. Estará o PSDB, finalmente, ressuscitando? Temos aqui uma boa ocasião para meditar sobre o que tem levado esse partido a sucessivas derrotas, isso após haver protagonizado o único plano econômico bem sucedido em décadas, o Plano Real.

Minha conclusão é uma só: o erro do PSDB foi tentar emular o discurso petista. O eleitor não se empolgou - afinal, por que alguém desejaria a imitação, se pode ter o original?

Em parte justifica-se, pois é o discurso petista que é entendido pelas massas. Equilíbrio de contas, agências reguladoras, independência do Banco Central, essas coisas são entendidas por mim e por você, não pelo povão. Como também é inócuo denunciar novos casos de corrupção no governo, pois o eleitorado petista, na época atual, é constituído por aquela massa que não se importa com a corrupção, uma vez que não tem rendimentos suficientes para pagar impostos diretos - se não saiu do bolso deles, então não há motivo para se sentir pessoalmente lesado. É essa massa que, historicamente, sempre reelege os políticos cassados por corrupção. No passado ela já pertenceu à antiga ARENA do regime militar, depois foi herdada pelo PMDB de Sarney, foi dos coronéis nordestinos e hoje pertence ao PT. E ao que tudo indica, permanecerá fiel.

A minha convicção é que a atual hegemonia petista só terminará quando começar a doer no bolso. Há duas maneiras de aprender: pelo discernimento, ou levando na cabeça. O sábio aprende pela experiência alheia, o ignorante só aprende pela experiência própria. Por enquanto, o povão constata que o saldo é positivo, sua vida melhorou com o PT no poder. Mas é evidente que o saco agora está vazio, os últimos cartuchos foram queimados nessa campanha. A vitória de Dilma pode até ser contraproducente: sem poder repetir os bons resultados passados, o povão perderá a confiança, e tchau PT. Talvez fosse até mais conveniente que um "neoliberal" ganhasse essa eleição, para arrumar a casa, arcar com o ônus de impopularidade e deixar tudo limpo para o retorno triunfal de Lula em 2018: seria apenas um breve interregno na atual era petista. O futuro o dirá.

Quanto ao PSDB, só vejo solução se esse partido desistir de imitar o discurso populista, e ao invés disto adotar um discurso coerente, que permaneça de eleição para eleição, mesmo que não obtenha eco imediato no eleitorado. Quando o último engodo for desmascarado, o povão - ignorante, mas não burro - verá enfim quem tem razão.