sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Confiança, de Fukuyama: nós e a Coréia

Estou lendo bem devagar o livro Confiança, de Francis Fukuyama, tido como o melhor que ele escreveu (embora não o mais vendido) e que encomendei de um sebo, pois está esgotado nas livrarias. Quando saiu em primeira edição, foi tão pouco divulgado que acabei não comprando.

Queria há muito ler esse livro, mas é sempre algo decepcionante quando você entra na expectativa de uma confirmação de suas certezas, e termina, ao contrário, com dúvidas. Foi o que aconteceu no capítulo da Coréia do Sul. Explicando, sempre tive especial apreço por este país, que conheci em duas proveitosas viagens a trabalho feitas em 1992, e sempre o tive como modelo para o Brasil em questões de desenvolvimento econômico - vi na Coréia tudo aquilo que o Brasil poderia ter feito, e não fez. Sempre considerei a causa primária de nosso atraso o modelo de gestão de nossas empresas, dependentes de subsídios estatais, síndrome cuja causa profunda é cultural, apontada por Fukuyama: a falta de confiança entre cidadãos privados em nossa sociedade. O modelo oposto: sociedades de alta confiança, como os EUA e o Japão, onde as empresas são formadas e geridas por múltiplos acionistas e executivos assalariados, sem dependência do Estado. Parecidos conosco são os países do sul da Europa, onde a baixa confiança manteve as empresas confinadas nas mãos pouco competentes dos clãs familiares ou do Estado, e a China, cuja sociedade segue modelo semelhante.

No entanto, o autor reconhece que a Coréia do Sul, estrela dos países emergentes, tem mais semelhanças com a China, modelo negativo, do que com o Japão, modelo positivo. De fato, os chaebol (grandes conglomerados) coreanos foram formados mediante subsídios, proteção, regulação e outras modalidades de intervenção governamental - enfim, nada muito diferente do que tem sido feito por aqui desde os tempos de Vargas. Por que com eles deu certo, e conosco deu errado? Frustrante isso.

Terá sido o fator de diferenciação o ditador Park Chung-hee, que governou a Coréia do Sul entre 1961 e 1979, e é tido como o artífice do milagre econômico por que passou o país? Ditadores, também os tivemos, bem como "milagres econômicos". Será que os ditadores deles são melhores que os nossos? Park Chung-hee, de fato, é reconhecido como um governante repressivo, mas de conduta pessoal austera e competência na condução dos negócios. Mas repugna-me atribuir fenômenos tão amplos à atuação de um único homem, ou super-homem que seja. Vamos ver se até chegar ao final do livro eu encontro uma resposta que me convença. Mas quando passo pelo centro de São Paulo e vejo ali tantos coreanos, não posso deixar de pensar que talvez brasileiros e coreanos não sejam assim tão diferentes...

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dilma II: Dejà Vu

A divisa Pátria Educadora, lançada como bordão deste segundo governo Dilma, para mim soou como dejà vu. Um inconfundível gostinho fascista. Surpreende eu dizer isto? Hoje em dia, o senso comum assumiu o fascismo como sendo o oposto do socialismo. Mas quando surgiu lá pelo início do século vinte, o fascismo vinha do mesmo tronco que o socialismo. Ambos regimes compartilham simbologia e rituais, ambos são voltados ao coletivo e ao espetáculo: pompa, fanfarra, estudantes e operários desfilando uniformizados, bandeiras, divisas altissonantes como esta Pátria Educadora... Para quem conhece a História, nada disso é surpresa: o PT é o herdeiro do trabalhismo de Vargas, cujo Estado Novo foi a versão tupiniquim do fascismo que estava na moda. A própria legislação trabalhista legada por Vargas, que Dilma jura não modificar nem que a vaca tussa (Cof! Cof!) é uma cópia descarada da Carta Del Lavoro de Mussolini.

Tanto paralelismo entre o passado e o presente faz-me crer que os partidos políticos, tal como as pessoas segundo os espiritualistas, quando morrem, reencarnam posteriormente: no fundo, não há nada de novo no panorama político brasileiro, ao menos para quem conhece a História. Estamos apenas vendo os velhos partidos sob nova roupagem. Conforme foi dito acima, o PT é a reencarnação do velho PTB de Vargas, o partido dos sindicalistas pelegos que tem como mote o nacional-estatismo, com seu séquito de empresas estatais (o petróleo é nosso!) e os bancos estatais despejando dinheiro para os empresários amigos-do-rei. Mas quem é a reencarnação da velha UDN, o inimigo figadal do PTB?

Aparentemente é o PSDB. Mas há um problema: no espectro político dos anos cinquenta, a velha UDN ficava à direita tanto do PTB quanto do PSD, o partido centrista. No espectro político atual, o PSDB fica à direita do PT, mas à esquerda do PMDB e demais partidos de centro. De resto, o PSDB sempre se definiu como de social-democrata e nunca encampou o discurso da antiga UDN, embora tenha-o implementado na prática em algumas ocasiões por razões de pragmatismo (mas esse pragmatismo o PT também é capaz de fazer, como está acontecendo nesse início de governo Dilma com a escolha de um ministério orientado ao mercado).

A meu ver, a origem da confusão está em um equívoco semelhante àquele que toma os fascistas como sendo o oposto dos socialistas, quando na realidade ambos derivaram do mesmo tronco, frutos do mesmo zeitgeist. O lugar-comum esquerdista colocou a UDN no passado, e os trabalhistas no futuro: segundo se crê, a UDN representava tudo o que havia de mais reacionário na política nacional: era o partido dos ricos, dos financistas, dos oligarcas e das multinacionais estrangeiras, inimigo dos trabalhadores. O PSDB, na condição de principal antagonista do PT, teria herdado esse papel.

Mas é falso. Tanto o PTB quando a UDN, ao surgirem, sinalizavam uma ruptura com o passado. Ambos são produto das transformações sociais por que o Brasil passou na época da revolução de 1930, quando duas novas classes sociais emergiram, o operariado e a classe média urbana. O PTB encampou os desejos do operariado, e a UDN, os desejos da classe média urbana; desta forma, PTB e UDN tornaram-se antagonistas, mas frutos do mesmo zeitgeist. O verdadeiro partido reacionário da época não era a UDN, mas o PSD, que congregava tudo o que restara da velha política: era o partido isento de ideologias, feito apenas de uma malha de interesses, e por esse motivo basicamente venal, pronto a aliar-se a quem se propusesse a atender seus interesses. Vargas bem sabia disso, e cuidou de manter o PSD em sua base de sustentação.

Não resta dúvida de que a encarnação atual do velho PSD é o PMDB. Mas uma peça insiste em não encaixar: onde está, afinal, a reencarnação da UDN? O PSDB é a reencarnação de quem?

Na realidade, os ideais udenistas não desapareceram, estão dispersos por aí. São notados diuturnamente em cada blog que critica o caráter populista e condena a corrupção do governo. Mas não existe mais um partido político que assuma esse ideário, embora a prática dita "neoliberal" possa ser feita, por razões de pragmatismo, tanto pelo PSDB quanto pelo PT. Então, se na época atual, PTB e PSD são fantasmas rondando os vivos, a UDN foi reduzida a um fantasma rondando fantasmas. A origem dessa exclusão do udenismo do espectro político nacional pode ser rastreada no Movimento de 1964. Até então a UDN encampava os ideais da classe média urbana, mas porque aderiu ao novo regime, passou a ser rejeitada por esta classe média, que tornou-se cada vez mais esquerdista em repúdio à ditadura. O udenismo tornou-se politicamente incorreto, embora essa expressão ainda não existisse na época, e ninguém nunca mais quis assumir o seu legado.

O mais irônico, contudo, foi que o golpe fatal na antiga UDN veio do próprio governo militar que ela apoiou. O regime de 1964 era uma tecnocracia que sempre prescindiu da política partidária, e o partido de sustentação do governo, assim como o partido de oposição, foram mantidos apenas pro forma. Assim que firmou-se no poder, o regime tratou de liquidar quaisquer lideranças políticas que pudessem contrapor-se aos tecnocratas, inclusive as lideranças da direita. Isso foi fatal para a UDN, cuja liquidação ocorreu em dois momentos: primeiro, pela cassação da vanguarda do partido, e segundo, por impedir o surgimento de uma nova vanguarda. Esse impedimento foi uma consequência da legislação instituída pelo regime, cuidadosamente calculada para tornar inoperante toda a política partidária e parlamentar. Um dos postulados era a subordinação dos centros urbanos aos rincões do interior, cujo peso nas convenções e assembléias era sempre maior. Assim, quem pontificava na ARENA, o partido do governo, não era a vanguarda udenista dos Carlos Lacerda e San Tiago Dantas, mas políticos provincianos, de José Sarney a Célio Borja, gente que antes de 1964 provavelmente nunca imaginara que um dia seriam líderes de seus partidos e presidentes da câmara e do senado. A antiga UDN foi triturada e depositada na vala comum da ARENA, que nada mais era que a reencarnação do antigo PSD, tal como o atual PMDB é a reencarnação da antiga ARENA.

A classe média brasileira, que foi o sustentáculo do PT em seus primeiros anos, hoje tem motivos para sentir-se abandonada. Voltará um dia essa classe a ter um partido que represente seus ideais? Depende do PSDB assumi-los ou não. Por enquanto, a classe média brasileira continua órfã.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Eu sou Charlie? Não exatamente.

É impossível não comentar o atentado em Paris contra a redação do Charlie Hebdo. Não vou repetir aqui minha condenação ao ato abominável, que isso é óbvio e já foi dito por muitos, mas vou tentar entender exatamente o que aconteceu. Esse blog é sobre História, e o atentado tem muito a ver com os tempos que estamos vivendo, mas - justamente pelo ponto de observação estar muito próximo ao tempo presente - temos dificuldade em avaliar corretamente aquilo que vemos. Uns reciclam o antigo "conflito de civilizações" entre ocidente e oriente, outros negam a motivação religiosa dos autores do atentado e tentam encaixar tudo a marretadas dentro de sua concepção particular de luta de classes - o velho Marx jogou fora um ponto de vista fundamental para entender a psique humana ao desprezar a religião...

Quanto a mim, passando ao largo da tentativa de dar uma explicação definitiva, limito-me a constatar que o fenômeno é por demais palpável e disseminado para ser visto como mero sinal dos tempos, e por demais complexo para se conformar às explicações parciais que até agora têm sido produzidas. Existe o conflito árabe-israelense? Sim, existe. Existe tensão entre os europeus e a comunidade muçulmana imigrada? Sim, existe. Existem amplas diferenças culturais entre cristãos e muçulmanos? Sim, existem. Mas nada disso explica completamente o ocorrido. É fato que o terrorismo islâmico está se tornando cada vez mais organizado e agressivo, e a tendência é piorar. Alguns contemporizam e afirmam que os ataques à religião deveriam ser criminalizados, da mesma forma que são os insultos racistas e o nazismo, enquanto outros berram: liberdade de expressão! Quanto a mim, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Todos sabem que a liberdade de expressão tem limites. O racismo é crime, e agora também a homofobia. É proibido fazer apologia do crime e da violência. Poucos discordam que fazer a apologia do nazismo também deva ser proibido. Calúnia, difamação e plágio podem dar origem a ações na justiça contra seu autor. Então, por que não criminalizar também os ataques á religião?

Eu discordo. Religião é questão de crenças íntimas. A liberdade religiosa, tão consagrada nos regimes democráticos quanto a liberdade de expressão, assegura que ninguém será perseguido em razão de suas crenças. Mas se crer é permitido, não crer também é permitido. Tanto um quanto o outro pertencem à esfera da consciência individual: cada um é livre para acreditar no que quiser, mas não é livre para impor sua crenças a outrem, nem para proibir as crenças alheias - aí já saímos da consciência individual e entramos no social, que é regido por leis que permitam a mútua convivência. Assim sendo, por pior que tenha sido o mau gosto das charges anti-islâmicas publicadas no Charlie Hebdo (essa é a minha opinião), elas não constituem crime e não devem ser proibidas. Não houve ali um ataque pessoal, mas o ataque a uma ideia, e todos são livres para defender e atacar ideias. Eu acredito que a liberdade de atacar a religião foi uma conquista extraordinária da humanidade, uma espécie de ritual de passagem para o mundo moderno, e não deve ser revertida em hipótese alguma. A liberdade de atacar a religião livrou o mundo político e social da tirania religiosa, mas também livrou a religião da tirania do mundo político e s social - agora, cada um está no lugar onde deve estar, e mistura-los novamente é um retrocesso.

Mas assim, então, o que fazer quanto aqueles que não concordam com essa liberdade, e replicam com violência? Pode-se responder também com rigor: afinal, o alvo inimigo - os muçulmanos - estão em toda parte, e muita gente está mesmo a fim de ver o caldo entornar. Mas dar tiros em todas as direções não é muito produtivo. O efeito será aumentar o ressentimento, já alto, e levar à radicalização muitos elemento que até agora têm estado quietos. Eu penso, então, que o melhor a fazer é rir - não era essa a intenção daqueles que fizeram as charges? Então deve-se fazer mais charges e rir. Já dizia o chavão, rir é o melhor remédio.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Confiança, de Fukuyama

Tenho finalmente em mãos um livro que há muito queria ler - Confiança, de Francis Fukuyama. Tive que encomenda-lo de um sebo, pois há muito não há mais edições em livrarias, já que vendeu pouco, muito menos do que O Fim da História e o Último Homem, obra que fez sucesso logo após a queda dos regimes da Cortina de Ferro, mas que é pouco citada hoje. Teve sua época, mas não foi uma grande obra: embora bem escrita, o texto me pareceu mais uma provocação, algo direcionado a suscitar questões e não a responde-las. Já Confiança é bastante superior, embora tenha feito pouco sucesso.

Aprecio Fukuyama porque ele é um dos poucos ensaístas modernos que procura explicar essa questão até hoje aberta - porque alguns países são rico e outros são pobres - penetrando fundo na cultura e na psicologia dos povos, um terreno que a maioria prefere evitar em favor do economês anódino. Tenho dele também Ficando Para Trás. Confiança é bom porque retoma o conceito de Capital Social, contraposto ao conceito de Capital Humano, este muito citado, mas que reporta aos costumes e valores, e não somente ao conhecimento adquirido. Espero que Fukuyama responda algumas dúvidas que tenho até hoje, por exemplo, que explique porque culturas tão baseadas na família, como o Japão, obtiveram resultados tão semelhantes aos de culturas onde a família tem pouca relevância nos negócios, como a Alemanha. Quanto a nós, aqui, estou convencido de que o compadrio ancestral do "homem cordial" é um dos fatores que nos mantêm no subdesenvolvimento até hoje, e creio que Fukuyama concordará comigo.

Aos poucos debaterei aqui as ideias lançadas no livro. Até a próxima!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Relatório da Comissão da Verdade

Saiu hoje o relatório da Comissão de Verdade, sem revelar muita coisa além do que já sabíamos, conforme era esperado. Serviu mais para remoer velhos sentimentos e ressentimentos, vide as lágrimas da Dilma...

Mas o período do governo militar 1964-1985, apesar de já relativamente distanciado no tempo, ainda está longe de ter uma avaliação isenta da parte dos comentaristas, mesmo daqueles que nem eram nascidos na época. Repetindo o chavão, é ferida não cicatrizada. Impressiona ver a coleção de ideias prontas e esquematismos repetidos vezes sem conta sobre aquele período. Uma boa amostra delas saiu nessa reportagem da UOL, provocativamente intitulada Você sabia que a ponte Rio Niterói e a PM são heranças da Ditadura?

A página afirma que a Polícia Militar, a corrupção, a dívida, a inflação, a educação ideológica, o aumento da desigualdade e as obras faraônicas foram um legado deste período. Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. Mas já que estamos em época de comissões da verdade, temos aqui uma boa oportunidade de examinar caso a caso.

Polícia Militar: falso. Já existiam polícias militares no Brasil bem antes de 1964, apenas com outros nomes (Força Pública, Brigada Militar, etc.) e subordinadas à autoridade dos estados. O que o regime militar fez foi subordinar nominalmente as polícias militares ao comando do exército, e elas passaram a ser intituladas "forças auxiliares". Entretanto, o que o governo tinha em mente era a utilização das PM´s como auxílio no combate à guerrilha. O crime comum, embora já em ascenção na época, não foi considerado questão de segurança nacional, e na prática as PM´s continuaram agindo como sempre haviam agido.

Corrupção: havia corrupção, sim. Mas não era superior à que havia hoje, mesmo porque o governo não tinha necessidade de comprar votos. O maior escândalo do período, o Escândalo da Mandioca, ocorrido no governo Figueiredo, desviou um montante minúsculo se comparado aos escândalos que vieram depois.

Dívida e inflação: verdade. Os governos militares seguiram o modelo do nacional-estatismo fundado por Vargas e Kubitchek, caracterizado pelo papel central do Estado na condução da economia e financiado pela inflação e pelo endividamento. Os governos de Vargas e Kubitchek, ao menos, não utilizaram esses dois instrumentos simultaneamente - por exemplo, nos anos JK a inflação subiu, mas o país rompeu com o FMI e o endividamento permaneceu baixo. O maior erro dos militares foi aumentar simultaneamente a inflação e o endividamento.

Educação ideológica: parcialmente verdade. Os militares incluíram no currículo as matérias de Estudos dos Problemas Brasileiros, Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Educação Moral e Cívica. Mas isso me pareceu bastante inócuo, e até contraproducente: a democracia era louvada e o OSPB ensinava o funcionamento de um regime republicano, exatamente o contrário do que eu via o governo fazer!

Aumento da desigualdade: sofisma. A desigualdade é uma estatística que mostra a participação relativa de cada faixa de renda no bolo nacional. Durante o período a participação relativa das camadas mais pobres encolheu, e esse fato é citado maliciosamente como prova de que os ricos ficaram mais ricos à custa de tornar os pobres ainda mais pobres. Mas em termos ABSOLUTOS, tanto a renda dos ricos quanto a renda dos pobres cresceu, só que a renda dos ricos cresceu mais rápido, resultando em um aumento da participação relativa da fatia destes no bolo. A prova do aumento do nível de vida dos trabalhadores na época foi a quase ausência de operários nos movimentos guerrilheiros, via de regra siglas incipientes contando com poucas dezenas de estudantes, intelectuais,padres, ex-militares, etc.

Obras públicas: parcialmente verdade. De fato, os militares fizeram na época muitas obras faraônicas e de utilidade duvidosa, como a transamazônica. Mas quem hoje afirmaria que a ponte Rio-Niterói e a hidroelétrica de Itaipu são inutilidades?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A quase-lógica ataca de novo: os degredados

Vi recentemente no blog de um professor um artigo interessante, que contesta um dos mais longevos e disseminados daqueles mitos sobre a História do Brasil que aprendemos na escola e repetimos pela vida afora com a convicção de quem enuncia uma verdade absoluta: O Brasil é uma terra cheia de bandidos e corruptos porque no passado fomos colonizados por degredados.

Essa assertiva quase sempre entra na discussão quando se procura explicar porque os EUA e outros países desenvolvidos que foram colônias no passado, hoje são tão ricos, ordeiros e honestos, ao passo que nós continuamos chafurdando na pobreza e na ladroagem. É nesse ponto que tocamos em outro mito escolar longevo: fomos uma "colônia de exploração", ao passo que eles foram uma "colônia de povoamento".

O artigo cita um outro artigo, este publicado na grande imprensa, da autoria de um conhecido escritor:

Foram os portugueses, porém, que disseminaram a prática da corrupção.  Diferentemente dos peregrinos ingleses que desembarcaram na América do Norte para se fixarem e construírem uma nova vida, os portugueses que vieram atrás de Cabral eram uma escória, um bando de renegados e desterrados que só queriam se aproveitar deste terreno baldio sem ninguém, para enriquecer e voltar à terrinha. Pois foram eles que se encarregaram de fiscalizar o contrabando do pau-brasil, aves, ouro e especiarias contra a Coroa Portuguesa.  Não podia dar certo.  Mas aqueles aventureiros portugueses estabeleceram um padrão de rapinagem que de lá para cá só fez se aprimorar.  Durma com uma corrupção dessas!


É bem redigido e parece até fazer lógica.  Mas é um exemplo daquilo que eu chamo de quase-lógica, uma praga que brota das salas de aula, propaga-se pela mídia e contamina o debate acadêmico até receber a chancela de verdade absoluta, tristeza de um país dividido entre iletrados e pretensos intelectuais. De fato, a presença de elementos com um histórico de má conduta social em uma comunidade contribui em algum grau para o aumento dos delitos naquela comunidade. Muitos dos primeiros capitães do Brasil deploraram a presença daqueles bandidos em suas capitanias, e escreveram cartas ao rei narrando os malfeitos que protagonizavam. Mas não é suficiente para explicar os atuais níveis de crime e de corrupção. Saindo do chute para a pesquisa séria, vê-se que o número de degredados foi relativamente pequeno entre os colonos, que a política de enviar degredados às colônias não durou tanto tempo assim, e tampouco era exclusividade de Portugal - a Inglaterra também enviou muitos degredados no início da colonização da Austrália, isso em época bem mais recente, e a Austrália hoje é um local aprazível e com baixos índices de crime e corrupção.

Como tampouco tem grande significado a dicotomia Colônia de Povoamento X Colônia de Exploração. Os conceitos são auto-explicativos, mas não explicam o que pretendem. O Brasil também foi uma colônia de povoamento. Ou alguém acredita que os únicos portugueses que aportavam aqui eram fidalgos que vinham assumir cargos públicos e tomar posse de sesmarias? Esses vieram, mas junto com eles também vieram milhares de colonos despossuídos, alguns talvez sonhando em fazer fortuna rápido e voltar à terra natal, mas a maioria, decerto, ciente de que jamais regressariam, mesmo porque tinham o exemplo de outros que haviam partido antes deles e não regressaram. O epíteto colônia de exploração, a meu ver, se aplica a ex-colônias como a Índia e a Indonésia, onde já existia uma população nativa e o colonizador só se fazia presente transitoriamente como funcionário da administração ou homem de negócios. Do mesmo modo, os EUA também foram uma colônia de exploração: o sul foi dedicado a monocultoras de exportação trabalhadas por mão-de-obra escrava, tal como sucedeu no Brasil. E até o século 18 pelo menos, em termos puramente econômicos, o sul foi mais importante do que o norte habitado por camponeses pobres que trabalhavam a terra pessoalmente. Então, a explicação para a grande discrepância quanto aos níveis de riqueza  & corrupção entre nós e os EUA tem uma explicação diferente.

Mas qual explicação? Serão os anglo-saxônicos inerentemente mais honestos que os ibéricos? É verdade que Portugal e Espanha no século 16 não eram nenhum modelo de moralidade pública. Mas tampouco a Inglaterra o era: até o século 18, o dito popular "é como encontrar um homem honesto no parlamento" equivalia ao nosso "é como encontrar agulha no palheiro". A meu ver, a moralidade pública nasce da sociedade civil e propaga-se à esfera pública, e não o oposto. Sem grandes floreios retóricos, eu penso que a real explicação é mais prosaica: No Brasil, o Estado se formou antes da sociedade civil, ao passo que nos EUA, estado e sociedade civil formaram-se juntos. O colono que aportava aqui, já encontrava uma administração pronta e funcionando nos mesmos moldes que funcionava em Portugal, e sabia que tinha que buscar a proteção desses homens de gabinete se quisesse prosperar, ou mesmo sobreviver na nova terra. Estabeleceu-se então uma relação de dependência do privado para com o público, que de geração em geração chegou até aos dias atuais. Fica flagrante quando se vê que o sonho de todo jovem recém-formado não é fundar seu próprio negócio, mas passar em algum concurso, e a fórmula do sucesso das empresas não é a competência nos negócios, mas as ligações com os políticos. A honestidade nos negócios é estabelecida, a meu ver, nas mediações da vida diária, no preço que se paga por ser desonesto em termos de perda de confiança. Isso só acontece dentro da sociedade civil, pois o Estado, como no tempo dos degredados, tudo o que pode fazer é mandar para a cadeia. Penso que quando a sociedade civil começar a se tornar mais importante do que o Estado, e o mercado se tornar mais importante do que o círculo dos amigos-do-rei, começaremos a ser mais honestos.

domingo, 9 de novembro de 2014

A Gangorra PT / PSDB

Datando da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, hoje completamos vinte anos de hegemonia PT / PSDB na política brasileira em um clima de inédita polarização entre esses dois pilares. É sabido que a última eleição foi a mais disputada dos últimos tempos, e é notória a divisão do país entre os apoiantes de Dilma e os de Aécio. Com o ar ainda impregnado de discussões políticas, ao sabor das paixões de cada um, tem-se a impressão de que Dilma e Aécio, e por conseguinte o PT e o PSDB, encarnam duas opiniões diametralmente opostas, duas visões e dois projetos totalmente inconciliáveis: Direita X Esquerda, Ricos X Pobres, Democracia X Ditadura, Nacionalismo X Submissão, Bem X Mal, etc.

Mas não é a impressão que eu tenho. Minha abordagem é histórica, e a abordagem histórica altera a perspectiva das imagens ao acrescentar-lhes a dimensão do tempo: o que antes parecia de um jeito na imagem chapada, feita de instantâneos do tempo presente, ganha profundidade quando comparamos com o tempo passado. Isso me lembra uma diversão que havia muito antigamente nas revistas de palavras cruzadas, junto com curiosidades e ilusões de ótica: o leitor era apresentado a um desenho onde só se viam as silhuetas em preto das figuras, e desafiado a descobrir o que representava aquela imagem. Na primeira impressão sempre parecia alguma coisa estranha, tipo uma feiticeira mexendo um caldeirão. Mas quando íamos à página de respostas, onde era mostrado o mesmo desenho tridimensional, víamos uma dona de casa varrendo um tapete debaixo de uma mesinha de centro. O tapete, redondo, em silhueta lembrava um caldeirão, e o que parecia o chapéu da bruxa era na verdade um pote colocado sobre uma prateleira bem atrás da cabeça da mulher. A mesma ilusão temos ao apreciar os fatos acrescentando-lhes ou não a dimensão histórica, como no caso dessa suposta polarização PT X PSDB: bem avaliado ao longo desses vinte anos de hegemonia, o que eu vejo de fato não é um embate, e sim uma gangorra tendo em uma ponta o PT, em outra ponta o PSDB. Como em toda gangorra, ora um sobe e o outro necessariamente desce, sendo a descida condição necessária para a posterior subida. Evidente que todos querem ficar em cima, mas como toda criança sabe, só com um não dá para brincar de gangorra. Nem com mais de dois. O crucial, em política, é ficar por cima no momento certo.

E quem tem se saído melhor nessa brincadeira de gangorra? É fato que o PSDB saiu na frente, com duas vitórias eleitorais de FHC sobre Lula. O PT soube perder, pois em toda gangorra, ficar em baixo é condição necessária para subir, embora nada determine por quanto tempo o parceiro pode permanecer no alto. Em seguida o PT venceu em 2002, e tem permanecido em cima até agora. Mas ficam algumas indagações no ar.

Lula poderia ter ganho já em 1994? Ou em 1990, se recuarmos até a eleição de Collor?

Poder, poderia, mas os resultados teriam sido muito diversos. A economia não estava estabilizada, e a inflação disparava. Na América Latina, todas as experiências populistas levadas a cabo antes da estabilização econômica dos anos noventa fracassaram inapelavelmente, produzindo caos e hiperinflação, sendo exemplos Siles Suazo na Bolívia e Alan Garcia no Peru. Se Lula houvesse ganho qualquer uma das eleições que disputou antes de 2002, ele só teria duas opções: fazer mais ou menos o mesmo que Fernando Henrique fez, e assim ficaria desmoralizado junto às bases, ou partir para uma aventura populista que inevitavelmente terminaria em caos hiperinflacionário. Tanto na primeira quanto na segunda hipótese, Lula estaria destruído politicamente.

Vê-se, portanto, que a estabilização da economia a partir do Plano Real, levada a cabo pelo PSDB, foi essencial para garantir o bom desempenho de Lula a partir de 2002, o qual já rendeu até agora três vitórias sucessivas do PT. Conscientemente ou não, o PT soube ficar por baixo na gangorra na hora certa, e soube também o momento certo de subir. Mas como vai se comportar de agora em diante a gangorra PT / PSDB? Por quanto tempo o PT ficará por cima? Será que, assim como foi bom o PT ficar por baixo antes de 2002, pode ser ruim o PT ficar por cima em 2014, com o quadro atual da economia em queda?

Imagino o que aconteceria caso Aécio Neves houvesse ganho a eleição. Ele teria vencido por uma pequena margem; o PT, mesmo derrotado, ainda seria uma força considerável, e o PSDB não poderia governar sem negociar com os petistas. O eleitorado ficou satisfeito com o governo petista, e como é natural, espera do novo governo o aprofundamento dessas mudanças. Ao contrário do que acreditam alguns apoiadores ingênuos, o PSDB não é um partido de direita, muito menos neoliberal: é um partido social-democrata, tal como o próprio PT, embora sem os arroubos revolucionários deste. Mesmo se tivesse a intenção de fazer reformas profundas, não teria força para fazê-las. Tudo o que Aécio poderia fazer seria mais ou menos o mesmo que Fernando Henrique fez em 1994: atacar um quadro de economia em queda e inflação crescente com as indispensáveis medidas de austeridade, aí incluído cortes nos gastos públicos, congelamento de salários e privatizações. Essas medidas necessariamente acarretam um ônus de impopularidade, e o PT facilmente venderia ao povo a sua versão de que o PSDB é o partido que é dos ricos, do grande capital e do FMI, que deseja o arrocho para o povão. Não demoraria até que todos começassem a sentir saudades dos bons tempos petistas em contraste com os tempos bicudos tucanos. Tal como aconteceu em 2002, o PSDB entregaria ao PT triunfante um país com as contas no azul, pronto para novo ciclo de crescimento. Portanto, talvez tenha sido bom para o PSDB ficar por baixo na gangorra nesses quatro anos.

E afinal, foi bom para o PT haver ganho essa eleição? Não teria sido este o momento de ficar por baixo na gangorra?

Há muitos desdobramentos a considerar. A única coisa certa é que o novo governo terá que tomar medidas impopulares para estancar o déficit público, como aliás já está fazendo. Desde 2002 até agora o PT tem governado com facilidade, já que o povo está satisfeito, mas com o povo batendo panelas na rua, a coisa muda. Deve ser lembrada a intensidade das manifestações ano passado; é certo que elas não se voltaram diretamente contra o PT, mas isso é uma possibilidade a considerar. Eu penso, então que o PT tem três alternativas:

1) Partir para a ditadura, estilo bolivariano, com milícias armadas e pressão sobre a mídia;

2) Conformar-se com uma derrota para o PSDB em 2018;

3) Auto-sacrifício: Dilma vai tomar todas as medidas amargas necessárias para sanear as contas públicas, arcando com o ônus de impopularidade, o que a deixará obviamente queimada, mas será de fato o sacrifício em holocausto de Dilma: o próprio PT a abandonará e passará a atacá-la, assim preparando o clima para o retorno de Lula em 2018 na posição de salvador da pátria.

Temos quatro anos para ver.