domingo, 18 de janeiro de 2026

O Sentimento de Unicidade Norte-Americano

Não há dúvida: se Trump quis que os EUA retomassem o protagonismo nos destinos do mundo que um dia teve, conseguiu. Ele já é, e deve ser ainda por bastante tempo o assunto geral no planeta. Se isso significa "tornar a América grande outra vez", seu slogan de campanha, não sei. Não sabia que a América havia deixado de ser grande. Muitos americanos, aliás, veem em Trump um arrivista, e não um membro genuíno da aristocracia política dos EUA. De fato, muito de suas ações têm um jeito de farsa: retomando a Doutrina Monroe um século após o contexto que a justificava, parafraseando a divisa deTeddy Roosevelt, Fale manso,mas carregue um porrete grande, sendo que Trump fala grosso e carrega um porrete proporcionamente bem menor que o de Teddy.

Mas seja Trump, Teddy ou Monroe, de onde veio tanto afã por autoglorificação e protagonismo?

Um sentimento tão presente na História, que atravessou tantas gerações, sem dúvida que não surgiu por acaso. Minha teoria: ele vem dos primeiros colonos, refugiados puritanos, que buscavam uma nova terra onde pudessem viver conforme suas crenças, reeditando a mística do Povo Escolhido em busca da Terra Prometida. Não tenho nada a ver com quem se considera assim, mas é preciso convir que pessoas que acreditam ser parte de um povo escolhido em uma terra prometida, necessariamente cultivam um exclusivismo em relação aos povos que não são o escolhido, e às terras que não são a prometida. Essa crença tem o nome de Excepcionalismo Americano, e já foi objeto de muitos comentaristas. Consiste na convicção de que os EUA são um país intrinsecamente diferente dos outros. Estudiosos consideram que a crença excepcionalista seja um elemento central da identidade nacional do povo dos Estados Unidos. Embora o termo "excepcional" não implique necessariamente a ideia de superioridade, ele pode facilmente adquirir um caráter de supremacismo na retórica de líderes direitistas.

O excepcionalismo norte-americano fica patente em suas definições raciais: embora não seja colocado textualmente, nota-se que os rótulos "branco" e "negro" são assumidos como exclusivos de norte-americanos. Os demais povos são de qualquer outra raça, independente de qualquer fator, inclusive a cor da pele. A pior época do racismo norte-americano já está no passado, mas nenhum outro povo tem tamanha obsessão em criar rótulos e categorias raciais. Alguns já extrapolam as fronteiras dos EUA. Devemos discutir se somos ou não latinos?

Os conceitos de Povo Escolhido e Terra Prometida nasceram com os hebreus, mas pertencem a tempos bíblicos. Essas ideias já não são correntes no moderno Estado de Israel, à exceção de alguns fundamentalistas. No mundo atual, poderíamos encará-lo como uma mera idiossincrasia norte-americano, não fosse por um desdobramento perigoso: quem acredita ser membro de um povo escolhido, mais cedo ou mais tarde vê-se como um missionário entre pagãos, e acredita ter a missão exclusiva de transformar o mundo. Aí que mora o perigo.

A mistura de religião com política invariavelmente corrompe a religião sem redimir a política.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Narcoestado

A operação de Trump na Venezuela reúne caracterísricas da invasão do Panamá para capturar Noriega com a caçada para matar Bin Laden. Sem dúvida os EUA tem capacitação para levar a cabo esse tipo de operação. Mas não vou falar aqui da Trump, nem do regime chavista. Vou falar do termo usado por Trump para definir o regime chavista - Narcoestado.

Não é mera força de expressão, nem se refere somente à Venezuela. Refere-se a uma tendência que vem se manifestando desde o princípio dos anos 80 em várias regiões da América Latina, onde o poder e a riqueza dos narcotraficantes aumentou a ponto de confundir-se com o Estado, substituindo os antigos grupos insurgentes de guerrilheiros que eram até então o paradigma do contrapoder. Esses grupos não despareceram de imediato, mas pertencem a uma era passada,o tempo da Guerra Fria. Com o fim do apoio soviético, eles tiveram que buscar suporte financeiro no narcotráfico, e os que não foram aniquilados, fundiram-se aos cartéis já existentes.

Agora, em vários países sul-americanos, são os narcotraficantes que fornecem o apoio econômico e militar a qualquer governo que queira ter poder demais. Haja visto a frase de Fidel Castro dita a Hugo Chávez, quando foi criado o eixo Venezuela-Narcotraficantes-Cuba: este é o míssil com que vamos furar o bloqueio norte-americano. De fato, o público norte-americano injeta bilhões nesses países ao comprar drogas, quantia por vezes superior às divisas de seu produto legal de exportação mais vendido. Esses bilhões penetram na economia, produzindo não apenas quadrilheiros, mas movimentando toda uma rede de fornecedores e trabalhadores diretos e indiretos, em várias regiões superando de longe o total movimentado por qualquer atividade legal. As pessoas, ricos ou pobres, que dependem dessa atividade ilegal com certeza não apóiam que ela seja eliminada, e o poder político não tem como contrariá-los, restando pactuar com o narcotráfico. A partir deste ponto, o Estado torna-se um Narcoestado.

Não é possível um Narcoestado deixar de ser um Narcoestado sem experimentar uma quebra generalizada de sua economia. Portanto, não há previsão de quando esse fenômeno começará a recuar na América Latina. É possível aos EUA capturar Nicolas Maduro, mas não podem deter o narcotráfico com mais de uns tantos barcos explodidos, tampouco com um porta-aviões gigantesco e quase inócuo para esse tipo de guerra. A única coisa que pode deter o narcotráfico é suprimir quem o financia - os compradores de drogas. Todo combate ao narcotráfico é inútilenquanto os EUA gastarem milhões para combater drogas, e bilhões para comprar drogas.

Por aqui, não chegamos a ser um Narcoestado. O país é consumidor, e não produtor de drogas, e portanto a atividade ilegal está segregada aos pontos de venda - as favelss - e não atinge ao núcelo do poder, tampouco movimenta quantia significativa do PIB. Mas contemplando as favelas, temos amostras perfeitas de mini-narcoestados.