domingo, 11 de novembro de 2018

Histórias não (ou mal) contadas: escravidão

Estou lendo mais um livro de Rodrigo Trespach, da série Histórias Não (ou Mal) Contadas. Tal como a série dos Guias Politicamente Incorretos de Leandro Narloch, dedica-se a desmontar de forma leve e bem-humorada todo um amontoado de mitos que viraram verdade oficial após haverem sido muito repetidos por professores escritores ideologicamente enviesados - algo bem oportuno para a época plena de revisionismos que estamos vivendo, sem dúvida.

Um dos mitos mais duradouros, aliás, que muita gente acreditou, foi que o Brasil teria sido o último país do mundo a abolir a escravidão. Não foi nem o último das américas, pois Cuba só aboliu em 1898. Mas em outras partes do mundo, a escravidão continuou legal pelo século 20 adentro - só foi abolida na Arábia Saudita em 1960, e na Mauritânia em 1980, muito embora seja sabido que a escravidão continue de forma clandestina em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. O livro procura desmentir, sobretudo, a impressão mais persistente de todas: que a escravidão seria pertinente a uma única etnia.

Essa impressão repetiu-se em épocas distintas da História da humanidade, que coincidiram com um crescimento explosivo do número de escravos, em razão de diversos fatores. A mais recente foi a escravização maciça de africanos para trabalhar nas plantações do Novo Mundo colonizado, que fez grudar até hoje nos afrodescendentes o estereótipo de ex-escravo, a ponto de qualquer escravidão que incidisse sobre elementos de outra raça ser taxada de "escravidão branca". Mas houve um tempo em que o povo-escravo-padrão era outro, branco e originário do leste da Europa: os eslavos. O nome originou o próprio termo "escravo" (em inglês, "slave"). O motivo teria sido semelhante ao que ocasionou a escravização massiva dos africanos: muita divisão, muitas tribos inimigas, muitas guerras. Mas durante a expansão máxima do escravismo, na época da Roma antiga, a escravidão sempre foi multiétnica.

Entretanto, até o início do século 19, nunca deixaram de existir escravos europeus brancos, capturados por piratas árabes ou otomanos e vendidos nos mercados da África e da Ásia. O número não se comparava ao de escravos negros no mesmo período, mas atingia a cifra de milhões: de fato, essa escravização só cessou por completo depois que a colonização europeia do norte da África destruiu as bases por onde operava esses piratas. Mas também sempre existiram escravos brancos pertencentes a senhores brancos. Uma das falhas do ensino de História nas escolas tem sido a suposição de que a escravidão, na Europa, teria sido fenômeno da Idade Antiga, sucedida pela servidão da gleba na Idade Média - o estatuto do servo da gleba teria sido bem diferente e melhor do que o do antigo escravo, pois ele não pertencia a um senhor, mas à gleba da qual não podia ser apartado, e que garantia a sua subsistência. Erro duplo: primeiro, a escravidão na Europa não cessou durante a Idade Média e prosseguiu até a Idade Moderna, embora em pequeno número, pois não havia um imperativo econômico que implicasse no uso intensivo do trabalho escravo; segundo, a situação do servo da gleba não era muito diferente daquela do escravo. Ele estava sujeito aos mesmos abusos e castigos, assim como ao trabalho forçado. O Senhor não podia tirar-lhe mais do que o necessário para a subsistência, mas tampouco interessava ao Senhor que sua mão-de-obra morresse de fome.

O livro é minucioso e trata de peculiaridades da escravidão pouco conhecidas, bem como da persistência dela no mundo atual. Só senti falta de uma abordagem mais economicista. O autor poderia ter derrubado outro mito: de que nossa desigualdade social é produto da escravidão. Olhando ao redor, vemos muitos vizinhos sul-americanos que tiveram histórico de escravidão bem inferior e aboliram-na já no início do século 19, e que têm uma desigualdade muito semelhante à nossa. Poderia ter tratado também da incompatibilidade intrínseca do regime de trabalho escravo com o capitalismo industrial que se expandia pelo século 19, o qual necessitava do regime de trabalho assalariado.

Foi de fato a expansão do capitalismo que impôs o fim da escravidão, ao menos daquela escravidão intensiva e presente nas regiões economicamente mais ativas do globo. Para forçar esse fim, chegou-se até à guerra, como é sabido. Um raro exemplo da total incompatibilidade entre o trabalho escravo e o capitalismo industrial foi apresentado por Jorge Caldeira em sua biografia do Barão de Mauá. Quando o barão comprou o estaleiro de Ponta de Areia com o intuito de iniciar a produção de barcos a vapor, teve que comprar também o plantel de escravos que já trabalhavam ali. O capital gasto na aquisição dos escravos foi praticamente o mesmo investido na compra das instalações. Sem dúvida que o barão preferiria reservar esse capital para si e, ao invés, pagar salários, mas ele sabia muito bem que era impossível: mesmo que ele procurasse por trabalhadores, não os encontraria, pois quase toda a mão-de-obra existente estava na forma de escravos.

Sem dúvida que a revolução industrial não teria sido possível em um mundo onde cada industrial, após empatar seu capital na aquisição da fábrica, tivesse que empatar igual quantia na aquisição de escravos. A existência de uma massa de trabalhadores livres e disponíveis era essencial. O capitalismo, onde se instalou com força, afugentou o escravismo por força de sua própria lógica de produção, mas do que do humanismo de seus próceres.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Eu vi o futuro repetir o passado

O que era previsto aconteceu. Já na minha postagem passada eu manifestava a impressão de que a história ia se repetir. Disse Marco Túlio Cícero,

Aquele que não conhece a História será sempre um menino


Cícero quis dizer que para aquele que não conhece a História, tudo parece novidade, assim como tudo é novo para uma criança que ainda não tem vivência. O estudo da História serve ao menos para isso, para não ser feito de bobo. Quem conhece a História sabe que o fenômeno não é novo. Já é a terceira edição. O cenário é o mesmo: em um momento de desalento com a política, surge um arrivista sem ligações com as facções políticas tradicionais, prometendo um renovação geral em "tudo isso que está aí". O primeiro foi Jânio Quadros em 1961. O segundo foi Collor de Mello em 1989. Agora temos Jair Bolsonaro.

O fato está consumado, resta agora tentar explicar como um obscuro e exótico personagem, que frequentou por tanto tempo o congresso sem apresentar quase nenhum projeto, pôde de repente conquistar milhões de votos e tornar-se o novo presidente do país. E tentar prever o futuro à luz do passado.

O voto em Bolsonaro foi, claramente, um voto de raiva. Reflete um descontentamento difuso com o que vinha acontecendo no país desde longo tempo. É neste ponto que torna-se imprescindível explicar: por que tanta rejeição ao PT, que governou o país por 14 anos com nítido saldo positivo?

O sucesso de Bolsonaro foi, em grande medida, a transmutação do insucesso do PT. Mesmo que o governo Dilma tenha sido um desastre, os dois mandatos de Lula proporcionaram amplas melhorias ao nível de vida da população, e a popularidade do então presidente atingiu níveis recordes. Como foi possível o PT cair de maneira tão fragorosa tão pouco tempo depois?

As teorias são muitas, mas eu prefiro a mais simples. A falha maior do PT, a meu ver, foi não escutar aquele que é o anseio máximo da população: o combate ao crime que desde muito assola a sociedade em níveis crescentes. A proposta anunciada pelo PT foi criar penas alternativas no intuito de diminuir a população carcerária, e assim aumentar o número de criminosos soltos. Foi um erro visceral, do qual o PT não pôde escapar, pois já estava comprometido com essa linha desde pelo menos os anos 70, quando o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores, fez com que os ideólogos de esquerda cada vez mais se aproximassem dos marginais da sociedade, chamados eufemisticamente de "excluídos", mas a quem Marx cem anos atrás já denominava o "lumpen-proletariado", e com toda a razão afirmava serem imprestáveis como revolucionários.

Os trabalhadores aderiram ao capitalismo, então a esquerda vai buscar seu novo público entre os lúmpens, aí entendidos não apenas como os marginais, mas como todo grupo de indivíduos desajustados e inconformistas. Neste ponto o PT tocou em cordas muito sensíveis do caráter nacional. De fato, boa parte do eleitorado petista é constituída por aqueles cidadãos mais humildes, que são justamente os mais atingidos pela avassaladora criminalidade, bem como os detentores dos valores morais e religiosos mais conservadores. Essas pessoas viram seus valores enxovalhados pelo discurso petista, e endossaram a narrativa do PT como "partido de bandidos e vagabundos". Penso que o chamado marxismo cultural, que os militantes mais antigos viam como mera distração (e estavam certos) terminou por ser um estrondoso tiro no próprio pé.

Resta agora prognosticar o futuro. Há basicamente dois roteiros mais prováveis. O primeiro, como já citado, é Bolsonaro repetir a trajetória de Jânio Quadros e Collor de Mello: jovem e sem experiência em conchavos, cairá na ilusão de que pode governar sozinho, perderá gradativamente o apoio até ser excluído do poder de alguma forma. No segundo roteiro, Bolsonaro abandonará a linguagem ferina e o discurso extremista, e fará um governo pragmático conduzido por seu ministro da economia, tomando as necessárias medidas de austeridade para a retomada do crescimento econômico, e seu sucessor colherá os frutos. Será o novo Fernando Henrique Cardoso. Curioso que tanto no primeiro como no segundo roteiro, o desdobramento será a retomada do poder pela esquerda com o próximo presidente.

Há ainda um terceiro roteiro: Bolsonaro aprofundar sua retórica extremista e reinstaurar o regime dos militares encerrado em 1985. Mas uma nova ditadura será uma ópera bufa. As condições do presente nada tem a ver com as de 1964. Não há mais guerra fria, não há mais URSS bancando o partido comunista, não há mais exilados em Cuba, não há mais guerrilheiros no interior. Seria até uma contradição de termos, pois o regime dos generais era estatista, e Bolsonaro proclama-se liberal. Aí não sei o que vai acontecer, mas é provável que sua queda será ainda mais rápida. Se Bolsonaro quiser mesmo começar uma nova etapa na política e fazer seu sucessor, terá que reinventar-se. A retórica de botequim de nada vale nos gabinetes.

A roda da História nunca deixa de girar. Mas às vezes não sai do lugar. Esperemos que o futuro não repita o passado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O ponto a que chegamos

A eleição foi ontem. Por toda parte os comentaristas trombeteiam: nunca antes neste país houve situação de tal polarização política! Eu concordo. Mas o estudo da História serve para isso mesmo: só sabendo o passado podemos entender o presente e prever o futuro. A História se repete? Não integralmente. Disse Oscar Wilde, a História não se repete, são os historiadores que repetem uns aos outros...

Mas quem leu meu último artigo não pode deixar de perceber uma flagrante analogia entre o que aconteceu na Alemanha dos anos trinta e o que aconteceu ontem no Brasil. Conforme eu mesmo levantei, uma maneira da extrema direita chegar ao poder é através do vácuo aberto por um partido centrista que colapsa. Na República de Weimar, foi o partido social-democrata; no Brasil do presente, foi o PSDB.

O desmoronamento do PSDB é um fenômeno ainda a ser desvendado com exatidão. Esse partido, que lançou o Plano Real, foi o responsável pela transição do país do século 20, com seu modelo nacional-estatista esgotado, para o país do século 21, onde estamos agora. Como uma agremiação que teve tal importância histórica pode terminar tão melancolicamente? A meu ver, o PSDB relutou em aceitar o papel que a História reservava para ele, o de compor um bipartidarismo com o PT e proporcionar estabilidade política ao país. O PSDB, com sua herança da Era FHC, tinha tudo para ser um contraponto liberal à social-democracia do PT, mas deliberou renegar seu passado e tentar um retorno tardio a suas raízes social-democratas, esquecido que esse escaninho já estava ocupado pelo PT, e ninguém vai querer a cópia se pode ter o original. Tivesse perseverado no caminho traçado desde 1994, o PSDB com certeza não teria sido capaz de vencer o PT em 2006 e 2010, mas permaneceria íntegro para o eleitorado liberal, e seria capaz de triunfar em uma eleição futura quando a esquerda estivesse em baixa. Mas ao invés disto, desmoralizou-se com sucessivas derrotas. Deve ser lembrado que a real causa da desmoralização não é a derrota em si - Lula foi derrotado em 1989, 1994 e 1998, e só se fortaleceu - mas o abandono de seus ideais.

Desprezada a escolha segura, que permite repetir o passado, fica aberto o caminho para aventureiros e arrivistas. O desalento das massas pode explicar o momento que estamos vivendo. Relembro um artigo que escrevi tempos atrás, comparando o modelo de quatro castas hindu - sacerdotes, guerreiros, comerciantes e trabalhadores - com a evolução dos tipos de governo através da História: teocracia, reinos, repúblicas democráticas. O sentido normal é esse, mas em momentos de crise política, moral ou espiritual, a população pode ansiar pelo retorno ao estágio anterior. Quando o governo de líderes militares nacionalistas parece fracassar, o povo sente a nostalgia do tempo em que era governado por pios líderes religiosos - no mundo atual, esse fenômeno foi observado na eclosão do fundamentalismo islâmico, que é o retorno do governo da casta dos guerreiros para a casta dos sacerdotes. Quando o povo se sente desiludido com seus políticos corruptos e medíocres, vem a nostalgia de um tempo em que os governantes eram varonis e se pautavam por uma ética de guerreiros - é a volta do governo da casta dos comerciantes para o governo da casta dos guerreiros. É precisamente nesse estado de espírito em que estamos o presente. O passado do governo militar instalado em 1964 tornou-se mítico, e ainda há os que desejam o retorno a um estágio ainda mais pregresso, o governo dos sacerdotes, no caso, os pastores evangélicos.

Mas o contexto histórico atual é outro. Não há justificativa para um governo sustentado pela força militar, pois a guerra fria terminou, não há mais guerrilhas nem inimigo armado a combater. As possibilidades que temos até o segundo turno são mesquinhas. Se Haddad vencer, sem ter o apoio deste congresso maciçamente conservador, ele apenas passará de pau-mandado de Lula para refém de sua base: terá que ceder, ou o país permanecerá no mesmo impasse em que se encontra desde 2014. Se Bolsonaro vencer, ele não terá apoio para reeditar a ditadura dos generais, mesmo porque generais não gostam de obedecer a um capitão. Periga ter o mesmo fim de Collor de Mello. Não digo que terá que se reinventar, terá mesmo que se inventar, pois as frases de efeito que fazem sucesso nos palanques de nada valem para governança. Se tiver juízo, moderará o palavreado e se concentrará na economia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Falácia Ad Hitlerum

Mas como? Eu, que nem historiador sou, me atrevo a escrever sobre Adolf Hitler, possivelmente o personagem mais notório do último século, sobre o qual já foram escritas dezenas de biografias com centenas de páginas? Tenho a pretensão de adicionar algum dado que ainda não tenha sido debatido?
Não pretendo escrever exatamente a respeito da pessoa de Adolf Hitler, sobre o qual, aliás, li pouco, mas li coisa interessante. Tenho uma predileção por livros finos e pouco conhecidos, convicto que estou que nenhum autor precisa de muitas páginas para expor uma conclusão sucinta que tenha escapado aos autores que escreveram muitas páginas. O livro que gostei chama-se Um Tal de Adolf Hitler, de autoria de uma tal de Sebastian Haffner, que é um jornalista, e não um historiador. Ele procura decifrar as singularidades de Hitler e do nazismo observando as diferenças entre ele e outros grandes líderes do mundo ocidental, bem como as semelhanças entre o nazismo e o comunismo, ambos florescidos na mesma época.

"O pai de Adolf Hitler percorreu sua vida em ascensão. Apesar de filho ilegítimo de uma criada, conseguiu alcançar um cargo elevado no funcionalismo público, morrendo honrado e respeitado. O filho começou a vida em declínio. Não terminou o colégio, foi reprovado no exame de admissão para a Escola de Belas-Artes... A vida de Adolf Hitler carece de tudo o que normalmente dá peso, calor e dignidade à existência de um homem: cultura, profissão, amor, amizade, casamento, paternidade..."
Se alguém encontrar esse livro em algum sebo, recomendo que o compre. Mas o meu interesse agora por este tema diz respeito ao impacto que o nazismo ainda apresenta no mundo atual. De fato, com frequência lemos por aí ataques a líderes políticos repugnantes comparando-os a Hitler, bem como regimes políticos repugnantes sendo comparados ao nazismo. Chama-se isso falácia Ad Hitlerum, termo cunhado pelo filósofo político Leo Strauss. Adicionado à conhecida coleção de falácias da retórica, consiste de uma argumentação que visa desqualificar um oponente de forma irremediável e irreversível.

Pelo senso comum, faz sentido. Na História Universal, não há expoente de malignidade maior do que Hitler, o vilão máximo. Mas se há tantos hitleres soltos por aí, então isso é um sinal de que Hitler não está morto. Parece existir um temor coletivo de que o nazismo possa ressurgir subitamente. Quem vive a época atual sabe do que estou falando, e por época atual não me refiro a mês e dia, mas a toda a época, mesmo. Os hitleres mudam de nome e os nazismos mudam de endereço, mas há sempre um por aí a ser denunciado.

Não se pode suprimir um medo sem entender sua origem. O que foi, exatamente, o nazismo? Ainda há algumas pessoas vivas que testemunharam aquele período, mas para as gerações recentes, se comparado com o mundo atual, parece uma época tão distante quanto a Idade Média, e Hitler parece um personagem tão obscuro quanto um Gengis Khan. Se assistimos um documentário e visualizamos imagens, prova cabal do que ocorreu naquela época, o contraste com o mundo atual é tão impactante quanto o contraste da antiga fotografia em preto-e-branco com a moderna fotografia a cores. Se as imagens são colorizadas, parecem um filme de ficção, do tipo dos seriados de terror e ficção científica encontráveis na TV a cabo. Sabemos que guerras e massacres ainda ocorrem em determinadas partes do mundo, mas não na Europa, tida como um lugar refinado e ordeiro, sendo a Alemanha um lugar particularmente refinado e ordeiro, e já era assim antes dos eventos que originaram o nazismo. Como aquilo tudo pôde ocorrer em um local que é o paradigma do mundo civilizado? Como um país tão evoluído quanto a Alemanha pôde ter um líder como Hitler?

O incômodo dessas questões é: se aconteceu aquilo com eles, que eram tão bons, então quem garante que não possa acontecer conosco? E se aconteceu uma vez, quem garante que não pode acontecer de novo? Incapazes de determinar as origens do fenômeno, ficamos com a suspeita de que o nazismo ainda está entre nós, insidiosamente incubado e pronto a ressurgir, mesmo que seja na figura de um exótico candidato a presidente. É o momento ideal para uma reflexão, procurando entender o que realmente foi o nazismo, e afastar certas pressuposições que erguemos como barreira contra constatações atemorizantes.

A primeira dessas pressuposições é a crença de que a doutrina nazista está circunscrita à Alemanha e à pessoa de Hitler. Mas está havendo aqui uma amnésia coletiva. A noção de superioridade racial era corrente no início do século 20, e no século anterior fora objeto de enunciados pretensamente científicos por vários pesquisadores que não eram "nazistas" no sentido em que essa palavra adquiriu posteriormente. A crença de que a raça deveria ser melhorada por políticas públicas, denominado eugenia, era considerada respeitável. É verdade que seus seguidores não pregavam o extermínio de quem já nasceu, e sim evitar o nascimento de indivíduos considerados degenerados, mas a mensagem implícita é a mesma: raças e indivíduos inferiores devem ser levados à extinção. Diversas práticas eugênicas já vinham sendo implantadas por países desenvolvidos, e isso era visto como progresso; não levavam pessoas para câmaras de gás, mas em muitos casos pessoas eram esterilizadas sem o seu consentimento.

Enfim, não foram os nazistas que inventaram a doutrina da superioridade racial, o que eles fizeram foi colocá-la em prática. Após o trauma gerado pela descoberta dos campos de extermínio nazistas, esses conceitos caíram em desgraça e estabeleceu-se a amnésia coletiva que impede de perceber que não foram os nazistas seus inventores.

E tampouco foram os nazistas que inventaram os campos de concentração. Já havia campos de prisioneiros com essas características na Rússia em 1918, criados pelos bolchevistas. Mas os introdutores do conceito foram os britânicos durante a Guerra dos Boers, tendo sido criados campos na África onde eram aprisionadas famílias inteiras.

A segregação de raças, a proibição da miscigenação e do contato físico entre indivíduos de raças diferentes já vinha sendo praticada nos EUA desde o século 19, amplamente amparada na legislação, e prosseguiu até bem depois da derrocada nazista.

O nazismo não foi a invenção de um gênio maligno. Seus preceitos, embora renegados na época atual, fizeram parte da bagagem de crenças e práticas das nações mais evoluídas do mundo ocidental em época recente. Daí que, por mais absurdo que tenha sido, ainda parece familiar hoje. Recentemente houve uma discussão em torno de um vídeo divulgado pela embaixada alemã, questionando se o nazismo teria sido um movimento de esquerda, e não de direita. Parece estapafúrdio, mas a questão esconde um mal entendido: o nazismo é, obviamente, de direita. Mas a direita e a esquerda do início do século 20 derivavam do mesmo fenômeno social e disputavam o mesmo público de proletários, intelectuais descontentes e inconformistas em geral. Na época presente convencionou-se que direita é sinônimo de conservadorismo, mas os regimes fascistas que brotaram a partir da década de vinte nada tinham de conservadores. As imagens evocadas ainda hoje pelo nazismo trazem multidões, bandeiras, fanfarra, operários e estudantes desfilando uniformizados etc. etc. Impressiona o entusiasmo da juventude, bem como o fato de que quase todos os líderes nazistas recém-chegados ao poder eram jovens na faixa dos 30 anos, inclusive o próprio Hitler.

Fascismo e socialismo emergiram do mesmo contexto de revolução industrial, expansão do proletariado, nacionalismo e rivalidade entre potências colonialistas. Pregavam a superação tanto do sistema político quando do sistema econômico vigentes em favor de um regime de partido único e um líder carismático. Como diferença básica, o socialismo era internacionalista (união dos proletários contra os burgueses) e o fascismo era nacionalista (confundindo os conceitos de raça e nacionalidade), mas de resto ambos eram muito semelhantes em seus ritos e métodos. Basicamente antiliberais e anticapitalistas, preconizavam o Estado no comando da economia e da vida privada dos cidadãos.

O fascismo nunca foi um regime de elites econômicas, como se acredita hoje; era um regime apoiado por organizações de massa que em determinado momento conquistou o apoio dos grandes empresários, que consideraram-no uma alternativa ao comunismo. O verdadeiro oposto do fascismo não é o socialismo, mas o liberalismo, e no caso do nazismo, isso fica claro no próprio nome: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mas o parentesco entre as duas correntes políticas pode ser deduzido também da história pessoal de figuras notáveis da direita, que em sua juventude foram socialistas, inclusive o próprio Benito Mussolini. No poder, o nazi-fascismo não eliminou a burguesia como fez o comunismo, mas colocou-a a serviço do Estado (na prática os fascismos criam uma burguesia para uso próprio, seja favorecendo empresários amigos ou enriquecendo seus próprios acólitos, ao mesmo tempo em que perseguem e expropriam os burgueses não cooptados).

Então, não é estranho que o nazismo nos pareça familiar quando observamos certos líderes, partidos e regimes ao redor. A pergunta é: pode surgir novamente em nossa história? Afinal, já tivemos simpatizantes do nazismo no passado. Para responder essa pergunta é preciso verificar se além das ideias, também as condições sociais daquele momento podem repetir-se. Na Alemanha dos anos vinte havia multidões de ex-soldados, gente que não tinha emprego, mas tinha disciplina e sabiam usar armas. Foram esses indivíduos que engrossaram as organizações de massa e paramilitares do partido nacional-socialista. O exemplo que temos mais próximo de nós é o da Colômbia, onde uma longa guerra civil deixou uma multidão de combatentes que tampouco têm empregos, mas sabem usar armas, e vem integrando tanto grupos guerrilheiros quanto bandos armados de traficantes.

Por aqui não temos essa disponibilidade de massas que possam integrar grupos paramilitares antes de migrar para bandos criminosos. As que temos já foram direto para bandos criminosos. Mas convém lembrar que em sua época, o partido nacional-socialista alemão, ao mesmo tempo em que armava seus militantes, concorria a eleições e aumentava sua representação no parlamento. Para isso valeu-se do colapso do partido centrista, o social-democrata da classe média conservadora, para tomar o poder de forma quase anestésica, dentro do quadro de legalidade ainda vigente. Durante a chamada República de Weimar, o partido social-democrata manteve um equilíbrio precário sustentado pelos conservadores, enquanto os descontentes se dividiam entre o partido comunista e o nacional-socialista. Quando os comunistas começaram a bandear-se em massa para o nacional-socialismo, a balança se desequilibrou, e o resto da história todos conhecem.

A História mostra, portanto, que um modo pelo qual o nazismo pode alcançar o poder é introduzindo-se pela fenda aberta com o colapso de um partido centrista. Resta saber se essas condições podem se fazer presentes um dia entre nós.

Ou se tudo não passa de falácia Ad Hitlerum.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Orgulho Negro X Orgulho Branco

Não dá para fugir ao assunto, faz parte do espírito da época. Eu não sei dizer exatamente quando começou esta abordagem racialista dos problemas brasileiros, aqui onde antes era senso comum que o nosso problema não era o racismo, mas a desigualdade social. Mas com certeza é um produto da globalização. À medida em que os espaços se encurtam, aumenta o estranhamento entre as raças. O que sei com certeza é que a expressão Orgulho Negro se tornou corriqueira, reverberada em camisetas onde está escrito: 100% negro.

Por este motivo vi com preocupação o surgimento da expressão Orgulho Branco, que nunca antes tinha ouvido, e camisetas com a inscrição 100% branco. Pareceu-me estar surgindo uma reação contra o orgulho racial negro, capaz de fomentar, enfim, o racismo que tanto se esforçam em denunciar. Mas é difícil negar legitimidade a essa reivindicação. Se eles podem proclamar o orgulho de serem negros, nós podemos proclamar o orgulho de sermos brancos, certo?

Por acaso deparei-me com a primeira refutação lógica deste axioma. Um blogueiro explica porque as demais expressões de orgulho não são racismo, e apenas a expressão de orgulho branco é.



Preto = herança cultural africana
Mexicano  = herança cultural mexicana
Asiático = herança cultural da Ásia
Muçulmano = herança cultural e religiosa
Branco = cor da pele

Assim, explica Robert Gonzales, celebrar orgulho italiano, irlandês, mexicano, alemão, espanhol, é celebrar uma herança cultural que não pertence a uma raça específica. Celebrar orgulho branco é celebrar somente a cor da pele, pois não existe uma herança cultural branca, posto que os povos europeus pertencem a várias culturas. Faz sentido. A fusão dos conceitos de raça e cultura é um equívoco atroz, e detestável, pois implica que alguém de uma raça específica deve obrigatoriamente ter uma cultura específica, e uma cultura específica não pode ser abraçada por alguém de outra raça. As consequências nefastas desta linha de pensamento estão bem visíveis na história recente.

Quanto a mim, nunca pensei em sair por aí com uma coisa tão idiota quanto uma camisa escrito 100% branco, mas também penso aqui comigo: na África existe somente uma cultura? Não será simplismo, ignorância ou meramente racismo afirmar que todo indivíduo de tez escura deve obrigatoriamente ter as mesmas crenças, os mesmos valores, enfim, a mesma cultura?

E mesmo dentro das fronteiras de um único país, é obrigatório que exista somente uma cultura? O México, por exemplo, compartilha uma vigorosa cultura dos povos ancestrais e uma herança espanhola do colonizador. A que exatamente se refere a expressão Orgulho Mexicano? Se o dito orgulho não se refere a um único país, mas a toda uma região, a expressão torna-se mais vaga ainda: o que significa Orgulho Asiático? Na Ásia só existe uma civilização? Se os europeus reconhecem múltiplas civilizações em seu continente de origem, a ponto de não possuir sentido cultural a expressão Orgulho Branco, então por que reconhecem uma única cultura em toda a Ásia? Não haveria aí uma generalização simplista de fundo racial, tipo todo indivíduo de olho amendoado é a mesma coisa?

Esse discurso racialista que permeia a época atual parece-me mais uma cortina de fumaça que impede de ver com clareza os contornos de povos, civilizações e crenças.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O país que odeia seu passado

O incêndio que destruiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista não foi exatamente uma surpresa. O estado precário dos museus brasileiros é coisa antiga e bem conhecida, e só nos últimos anos já houve outros dois incêndios em São Paulo. Além do que, incêndios têm sido uma especialidade dos edifícios sob a administração da UFRJ, já houve o da antiga faculdade da Praia Vermelha, e um no próprio prédio da reitoria. Mas o bate-boca e a troca de acusações que se seguiu chamaram minha atenção. Alguns responsabilizaram o governo atual, por sua política de cortes e sua PEC que congelou gastos. Mas outros lembraram que o museu já vinha sofrendo cortes desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, que aliás foi quem colocou Temer na vice-presidência.

Tanto os primeiros quanto os segundos estão com razão. E quando dois contentores têm razão em uma polêmica, dá para suspeitar que a verdadeira explicação é bem outra, ou como se diz, o buraco é mais embaixo.

Eu penso que deve ser reconhecido o seguinte: o Brasil é um país que odeia seu passado E consoante com esta diatribe, desdenha de tudo que remonte ao passado, seja os vestígios materiais conservados nos museus, seja a própria memória coletiva. Concomitantemente, exibe uma idolatria babosa e injustificada por seu futuro - o Brasil é o país do futuro, não é? Viva a juventude!

A expressão material deste desprezo pelo passado combinado com a celebração do futuro pode ser vista, de um lado, no estado lastimável do Museu Nacional, e do outro, no novíssimo e reluzente Museu do Amanhã, que custou aos cofres públicos muitas vezes o valor da manutenção anual do museu das velharias. Eu estive lá tem dois anos, só para conferir. Não me pareceu um museu, ou pelo menos, nada que tivesse mínimo valor científico. Era mais uma sala de exposição de artes plásticas, reverberando umas tantas platitudes e lugares-comuns do discurso globalista para "salvar o planeta". Kitsch e presunçoso, construído no auge da euforia vivida pelo estado no boom das commodities, de certa forma pressagiava a vertiginosa queda que viria em seguida, queda esta fechada com chave de ouro pelo incêndio de nosso museu mais antigo.

Mas por que odiamos tanto nosso passado? Penso que é porque fomos ensinados que nosso passado é mau. Fomos colônia, como se diz, colônia de exploração; massacramos índios, tivemos escravos, tivemos ditadura, nossos personagens históricos foram uns canalhas, etc. Enfim, nosso passado é um carma vergonhoso de que temos que nos livrar, e por isso qualquer reverência ou celebração do passado é contraproducente. Temos que olhar para o futuro, que acreditamos ser promissor, embalados por uma série de argumentos pueris, que vão desde supostas qualidades de nosso caráter até a grandeza de nossos recursos naturais. Outra vertente de nossa repulsa ao passado pode ser contemplada em nossa mania de estar sempre reformando a língua - quantas reformas ortográficas já não fizemos nos últimos 80 anos? Estamos sempre querendo expurgar de nossa cultura qualquer traço herdado da civilização do colonizador e afirmar uma brasilidade original, voltada para o futuro. Só conseguimos desorientar cada vez mais quem tenta aprender a escrever.

Odiar o passado é odiar a nós mesmos, pois bem ou mal, feio ou bonito, somos o produto de nossa História. Quem ignora o passado não pode entender o presente, e quem não entende o presente não pode moldar o futuro. Sem museus que nos mostrem a evolução das coisas, não percebemos para onde estamos indo. Sem passado, o futuro se reduz a um burburinho de ecos dos discursos da moda, um eterno presente que só faz repetir o passado que não nos preocupamos em registrar. Ironicamente, só chegaremos ao futuro que almejamos no dia em que nos reconciliarmos com nosso passado.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

FHC e a História

Vale a pena ainda falar de Fernando Henrique Cardoso?

Eu penso que vale. Mesmo que seja para explicar esse fenômeno curioso: por que há tanta volúpia em afirmar que ele foi um personagem desprezível em nossa História?

Eu que frequento muito forum´s de discussão, me impressiono de ver como toda vez que o nome maldito é mencionado, surgem dúzias de comentários raivosos acusando-o de todo tipo de ignomínia, não raro embasados por críticas pouco imaginosas, como afirmar que ele não teria sido o verdadeiro autor do Plano Real. Já li até alguém afirmando que na época de Sarney o país cresceu mais do que com ele...

Mas a simples quantidade de ódio que a sua figura desperta é um indicativo suficiente de que sua importância histórica é maior do que afirmam. Do contrário, para que tanto afã em chutar cachorro morto? Primeiro de tudo, um presidente que obteve uma reeleição não pode ser considerado um aborto histórico como foram um Fernando Collor ou uma Dilma Rousseff. Mas ele fez mais do que isso: para o bem ou para o mal, ele foi um divisor de águas, pôs fim à etapa histórica iniciada com o nacional-estatismo varguista nos anos 30 e esgotada nos anos 80, e iniciou nova etapa após o sucesso do Plano Real. Sem Fernando Henrique, não teria havido Lula. Ao menos não o Lula que conhecemos. Tivesse Lula tido o azar de vencer qualquer eleição entre 1989 e 1998, só teria duas opções: fazer mais ou menos o mesmo que FHC fez, e assim ficar totalmente desmoralizado junto às bases, ou conduzir o país à hiperinflação, repetindo o roteiro de Alan Garcia no Peru. No poder, o PT herdou uma macroeconomia funcionando, a tal herança maldita, na verdade bendita. Por isso eu penso que o motivo de ser FHC tão malquerido entre os petistas tem raízes psicológicas: é doloroso reconhecer que devem tanto a ele. Até sua reeleição, Lula deveu a FHC, pois a emenda foi aprovada em sua gestão.

Mas o ódio é tanto, que eu penso que há alguma coisa a mais que mero recalque. E uma pista vem daquela afirmação que fiz a pouco: alguém teve o desplante de dizer que Sarney foi melhor que FHC. Não, não é uma sandice. Sarney surgiu nos estertores do nacional-estatismo, e por isso foi capaz de radicalizar até o limite este modelo já moribundo. Congelamento de preços, moratória da dívida externa, reserva de mercado para a indústria nacional, Sarney fez tudo aquilo que os petistas sempre sonharam. Com o Plano Real, FHC pôs fim a isso tudo. Em outras palavras, FHC pôs fim ao estado de exceção na economia, pois o estado de exceção na política já havia terminado desde o fim do governo dos generais. E justamente por isso ele é tão odiado hoje. Eu acompanhei com atenção, e não sem surpresa, a massiva conversão dos militantes petistas ao nacional-estatismo varguista, eles que antes eram socialistas utópicos "contra tudo isso que está aí". Esse pessoal sente saudades dos tempos em que a economia podia ser governada discricionariamente, produzindo-se inflação para cobrir os déficits do governo mediante o confisco do poder aquisitivo da população, anulando a lei da oferta e da procura com o congelamento de preços, diminuindo o valor dos salários mediante reajustes inferiores à inflação, anulando a livre concorrência com o protecionismo, dando calote nos credores. Tal como a ditadura política, a ditadura econômica era justificada por ser "necessária ao desenvolvimento". Nesse ponto Vargas e os generais concordavam. E aparentemente, os petistas recém-convertidos ao varguismo também concordam.

Obrigando a economia a seguir as leis econômicas do sistema capitalista, tal como a política é obrigada a seguir as leis da democracia representativa, FHC obrigou o país a entrar no capitalismo. Não há motivo mais pertinente para ser odiado por quem se opõe ao capitalismo. Por muito que seu legado seja aproveitável por aqueles que vieram em seguida, FHC nunca será perdoado por isso. A nuvem negra de difamação por muito tempo ainda vai impedir que a exata dimensão histórica de Fernando Henrique Cardoso seja determinada.