domingo, 16 de fevereiro de 2020

Social piora, Crime melhora

Um ano de governo Bolsonaro, alguns balanços já podem ser notados. Benefícios sociais e educação pioraram. Economia ficou estável. Criminalidade caiu.

Que conclusão podemos tirar dessa combinação? Piorar o social diminui o crime? Não deveria ser o contrário? Ou basta a economia ficar mais ou menos estável para o crime cair?

Eu prefiro acreditar que isso é efeito do pacote anti-crime de Sérgio Moro, bem como da disposição de endurecer contra os criminosos que Bolsonaro vem propagandeando desde sua campanha. O pacote anticrime foi bastante atenuado ao passar pelo congresso, mas ao que parece, a simples perspectiva de ver o crime combatido com maior rigor tem dissuadido alguns criminosos. Mas nem todos veem nisso uma boa notícia. Volta e meia eu encontro por aí artigos condenando o encarceramento massivo no país, como esse aqui.

A tese é que a forma de combate ao crime empregada pelo governo surte o efeito, na verdade, de fomentar o crime.

"No processo penal, a maneira mais rápida de jogar uma pessoa no crime é uma condenação por falta irrisória – como acontece abundantemente, com jovens sendo presos e condenados por carregar quantidades mínimas de drogas, muitas vezes para consumo próprio. Depois que vira ficha suja, a sociedade se encarrega de blindar qualquer possibilidade de voltar à economia formal"


É uma velha lenda: as nossas cadeias estariam abarrotadas de ladrões de galinha e de gente que foi pega com 10 gramas de maconha. A mensagem sub-reptícia é: abram as portas da cadeia e liberem as drogas. Mas a premissa é totalmente falsa. O perfil do criminoso neófito não é um sujeito que foi pego com uma quantidade mínima de droga, mas alguém que vem cometendo delitos desde tenra idade, e uma vez que o ECA limita o tempo das internações e não permite internação de menor de doze anos, o delinquente segue cometendo crimes, e quando se torna adulto, já está irrecuperável.

O maior obstáculo para o combate eficaz ao crime é a persistência de abordagens ingênuas ou ultrapassadas, às quais chamei pensamentos paralisantes e desfio nesse artigo que escrevi. Há uma insistência em afirmar que "prisão não recupera". Tampouco acredito que prisão recupere alguém. Prisão não é sanatório, nem preso é doente. Mas acredito que enquanto ele permanecer na prisão, não estará nas ruas cometendo crimes, e que outras pessoas que porventura o vejam preso pensarão duas vezes antes de irem pelo mesmo caminho.

Outra abordagem muito repetida é uma já ultrapassada, aquela que afirma que a solução para o crime seria o investimento em educação - mais escola, menos cadeia. Parte da premissa de que o indivíduo torna-se criminoso porque não teve estudo, e portanto não tem profissão para sustentar-se. É uma tese rousseaunica, que acredita que o indivíduo é naturalmente bom, e só se torna mau por força das circunstâncias. Se ele tivesse estudo, certamente não seria criminoso. Podia fazer algum sentido décadas atrás, quando havia no país muitos analfabetos que depois viravam ladrões de galinha. Na época atual, a  grande maioria dos bandidos teve escola, mas preferiu abandoná-la ao constatar que o crime dava mais lucro. A verdade é que o crime pode não ser uma segunda opção para quem não conseguiu sustentar-se honestamente, e sim uma opção prioritária, a partir do momento em que é constatada uma vantagem comparativa sobre o estudo e o trabalho: o rendimento é alto, o risco é baixo porque o tempo de prisão é pequeno, então compensa.

A única maneira de reverter este quadro é desfazer a vantagem comparativa, aumentando o tempo de encarceramento, de modo que os ganhos deixem de compensar os riscos. É claro que isso implica em maior população carcerária e demanda a construção de mais prisões. Não sei se este item está na pauta de Bolsonaro - no último comentário que eu me lembro, ele afirmou que prisão é que nem coração de mãe sempre cabe mais um. Se apertar, de fato cabe. Mas prisão superlotada é inevitavelmente dominada por facções criminosas - como um punhado de guardas penitenciários vai controlar tanta gente?

Construir cadeia e contratar agentes penitenciários custa dinheiro, sem dúvida. Mas só assim teremos certeza de que a notícia da diminuição dos crimes não será uma falsa esperança. Quem afirma que o crime tem solução mágica é um vigarista. Como já dizia o grande frasista norte-americano, H L Mencken,

"Todo grande problema tem uma solução simples, fácil, rápida, barata e totalmente equivocada"

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Da Humanidade dos Índios

Recentemente soube de uma notícia afirmando que a coordenadora da Associação Protetora dos Índios do Brasil (APIB), Sonia Guajajara, pretendia processar o presidente Jair Bolsonaro por crime de racismo, em razão de uma declaração dada recentemente.

 “O índio mudou, está evoluindo, cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós. Então fazer com que o índio cada vez mais se integre à sociedade e seja realmente dono da sua terra indígena, é isso que nós queremos”

Indignada, a coordenadora publicou em seu twiter:

“Nós, povos indígenas, originários desta terra, exigimos respeito! Bolsonaro mais uma vez rasga a Constituição ao negar nossa existência enquanto seres humanos. É preciso dar um basta a esse perverso!”


Não é novidade que o presidente é descuidado com as palavras, isso quando não quer insultar mesmo. Mas não parece ter sido o caso desta vez. É preciso atentar para o que foi que ele quis dizer, e o que foi que a coordenadora entendeu. O índio é cada vez mais um ser humano como nós, ele afirmou. Então, antes o índio era cada vez menos um ser humano como nós, ou não era um ser humano? A meu ver, ser humano o índio sempre foi.

Mas não parece ter sido a dúvida quanto à natureza humana do índio a causa da indignação da coordenadora. O presidente nega a existência dos índios enquanto seres humanos, ela afirmou. Mas a afirmação do presidente não foi exatamente o contrário?

Cabe concluir que no entendimento da coordenadora, então, o índio é um ser humano, mas não um ser humano como nós. Querer enquadra-lo como uma pessoa comum seria negar a especificidade que lhe é atribuída. Não conheço Sonia Guajajara, mas posso perceber que ela é mais uma ativista bem sintonizada com os ideais globalistas disseminados por ONG´s, e pouco afeita à cultura ancestral dos índios. É sabido que desde o descobrimento, o índio brasileiro tem sido objeto de utopias e narrativas criadas por estrangeiros. A utopia do presente é essa criatura inventada pelos ambientalistas, o índio ecologicamente correto, que preserva aa florestas e as defende contra os destruidores. Quem entende o mínimo de povos nativos da floresta sabe muito bem que a preservação da natureza nunca fez parte da cultura ancestral destes povos. Ao contrário, a sobrevivência deles sempre dependeu de predar os recursos naturais, com caça, pesca e agricultura de queimada para os mais evoluídos. Quando os recursos naturais se esgotavam, eles se deslocavam para outro lugar. Simples assim.

Mas na visão dos ambientalistas, preservar as florestas significa deixa-las sob a guarda dos "povos originários", e não faltam representantes destes povos que aprenderam a mimetizar tal discurso e recebem o apoio das ONG´s, que lhes patrocinam viagens e auditórios. Na descrição destes ativistas, o índio seria uma criatura telúrica, parte mesmo da natureza com quem vive em harmonia. Preservar seu modo de vida original é sua única ambição e fonte de perfeita felicidade.

Essa mistificação está presente em muitas representações na literatura e no cinema, e não tenho necessidade de cita-las aqui. Mas nada tem de real, sob o ponto de vista antropológico. O modo de vida ancestral dos índios sempre foi extremamente danoso para a natureza, que só permaneceu preservada (em termos) porque as comunidades de povos da floresta eram muito pequenas e o dano que elas causava não chegava a ser significativo. Mas essas populações eram pequenas justamente em razão da inviabilidade intrínseca a seu modo de vida. Se a população crescia, a tribo tinha que se dividir e se deslocar, pois os recursos naturais rapidamente eram esgotados. Morria-se de fome, e pronto.

Mas como não sou tão inocente quanto a maioria dos ambientalistas, acredito que essa construção utópica tem propósitos outros. As ONG´s ambientalistas são todas originárias de países ricos, com alto índice de consumo da parte da população. A mensagem que passam aos pobres é essa:vocês são todos índios e têm que manter seu modo de vida original, para que NÓS possamos continuar com nosso modo de vida atual e manter nosso padrão de consumo sem colocar em risco o planeta. O índio (isso é, nós aqui) tem que viver como seus ancestrais, caçando e pescando, e deixar o resto do planeta para o usufruto dos países desenvolvidos. Penso vir daí a ideia fixa de muitos europeus e até alguns americanos, de olhar para nós e nos ver como índios. Nesse momento me vem à memória velhas fotos desbotadas da era vitoriana, mostrando os ingleses bem vestidos a contemplar os nativos batucando e dançando pelados.

O índio precisa, sim, livrar-se dessas representações utópicas que lhe têm sido imputadas desde que Rousseau criou o mito do Bom Selvagem, e assumir-se como um ser humano igual a nós. Digo assumir-se, pois ser humano ele sempre foi.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Ministro Nazista e o Sinal dos Tempos

Os últimos dias reservaram ao país uma revelação sensacional: temos um secretário da cultura nazista. E não se trata de mero xingamento, mas de uma acusação comprovada: ele parafraseou um trecho inteiro de um discurso feito por Josef Goebbels em um pronunciamento.

"A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada"


O episódio foi um prato cheio para os detratores do presidente Bolsonaro, que teve que demitir o secretário. Então, após tantas vezes a pecha de nazista ser lançada contra o governo, surge a prova cabal!

Pessoalmente não acredito que o secretário fosse um leitor de Goebbels. Ele provavelmente copiou aquele trecho de uma fonte secundária, sem saber que o original era do ministro da propaganda de Hitler. Tampouco alguém, mesmo inimigo ferrenho do governo, leva a sério a acusação de ser o presidente Bolsonaro um nazista. Para início de conversa, a postura de alinhamento da política externa aos EUA nada tem a ver com o afã ultranacionalista e belicista do nazismo. A pecha é apenas uma caricatura. No entanto, o dito episódio aconteceu efetivamente, e se não é uma prova do caráter nazista do governo, é com certeza um sinal dos tempos em que vivemos.

Para bem entender de onde surgiu esta afinidade de um membro do governo atual com um ministro de um regime criado 80 anos atrás na Alemanha, precisamos nos transportar para o contexto histórico em que surgiu o nazismo. Não foi o produto de uma mera crise política ou econômica, mas de algo mais profundo. Uma crise moral e existencial, que acomete um povo inteiro quando este sente estar perdendo seus referenciais e seu destino histórico. Quando isto acontece, a sensação de desamparo leva a população a buscar uma tábua de valores supostamente genuínos, bem como aspirar um futuro glorioso e denunciar traidores e bodes expiatórios supostamente responsáveis pelo estado atual de decadência. As consequências, todos puderam ver após Hitler subir ao poder.

Há alguma semelhança entre a Alemanha dos anos 30 e o Brasil atual? Não se trata certamente do mesmo fenômeno no mesmo grau, mas é forçoso reconhecer, alguma analogia há, sim. Eu já apontei aqui em um artigo passado Afinal, em que Ponto a nossa Cultura de Trumbicou, que a crise brasileira tampouco é meramente política, mas deriva fundamentalmente da cultura. O declínio de nosso nível cultural é flagrante, e isso nada tem a ver com a escolaridade, que todas as estatísticas confirmam só haver aumentado nas últimas décadas, como aliás não poderia deixar de ser. A questão é de qualidade, e não de quantidade. Temos a nítida sensação de que já fomos bem melhores.

O declínio cultural de um povo concomitante ao aumento de sua escolaridade não é fenômeno exclusivo do Brasil da época atual. O caso mais emblemático foi o da União Soviética. Se alguém pedir a um brasileiro de cultura mediana que enumere alguns russos que se destacaram nos campos da ciência, das artes ou da literatura, ele dirá talvez uns cinco ou seis nomes, mas todos serão personagens que viveram nos tempos do czar, quando boa parte da população da Rússia era analfabeta. Na época do comunismo, quando o analfabetismo foi zerado, dificilmente alguém poderá apontar algum nome de destaque. Como se o aumento da instrução houvesse, ao mesmo tempo, secado a imaginação criativa da população.

No Brasil, alguém de meia idade pode facilmente recordar-se de tempos quando o povo era mais otimista, e havia o consenso de que o país tinha um futuro promissor. A despeito dos altos índices de analfabetismo, havia escritores, artistas e intelectuais de renome, líderes políticos mais idealistas, as pessoas mesmo pareciam mais inspiradas. A música era excelente. E é claro, havia muito menos crime e o país crescia a altas taxas. Tudo isso acontecia sem que fosse preciso um governo dirigista que moldasse a cultura a um formato "heroico, nacional e imperativo", como desejava o secretário demitido, mas antes decorria naturalmente da comunhão de ideais e valores culturais bem definidos, que a partir de algum momento foram dilapidados, levando o país à situação atual.

Quando o povo sente que perde seus referenciais, agarra-se aos líderes messiânicos que prometem um renascimento. Esse líder não é necessariamente político, mas pode ser um religioso, e de fato, o fundamentalismo religioso tem sido a resposta de muitos países que passam por crise semelhante. Mas no âmbito da cultura, o político e o religioso se confundem à medida em que ambos se propõem a moldar a cultura, ditando quais valores devem ser seguidos. No Brasil, o crescimento da igrejas evangélicas das periferias é uma óbvia reação do povo contra a violência e a dissolução de seus valores morais. Nosso futuro, será, então, algo entre Hitler e o ayatollah Khomeini?

Melhor não deixar a imaginação disparar. Donald Trump e Jair Bolsonaro não são Hitler, nem o bispo Crivella é Khomeini, com certeza. Mas os sinais do tempo estão aí.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Rebelião dos Barriga Cheia

Quem está de barriga cheia faz rebelião?

Os eventos da História só podem ser corretamente interpretados em seu significado após um conveniente distanciamento no tempo, que permita apreciar os antecedentes e as consequências. Alguns demoram mais a serem entendidos. Isso se aplica às manifestações de junho de 2013, que contaram com a participação de vários ativistas de esquerda, mas que hoje são vistas como um movimento de direita para derrubar o governo petista. Alguns daqueles personagens que ganharam destaque naqueles dias, como a ativista Elisa Quadros, mais conhecida como Sininho, agora tentam se livrar da pecha de traidores ou ingênuos que ajudaram a pavimentar o caminho para a tomada do poder pela direita, como consta neste artigo de autoria de Elisa Quadros.

Quando eclodiram as manifestações de 2013, o pretexto inicial foi reclamar contra o aumento de poucos centavos nas passagens de ônibus, mas logo se viu que o fenômeno era mais amplo. Os manifestantes não tinham um perfil nítido, tampouco suas reivindicações; parecia mais a exibição de um descontentamento difuso, contra "tudo isso que está aí", frase lançada naquela época. O governo petista foi pego totalmente de surpresa. Vinha de uma longa sequência de sucessos desde o primeiro mandato de Lula, que incrementou o padrão de vida de milhões aproveitando o contexto econômico favorável, e a presidente Dilma esbanjava popularidade. De um momento para outro tudo mudou: a popularidade de Dilma despencou, e as manifestações contra o governo aumentaram até o seu melancólico fim.

Como foi possível? Um governo popular pode ser alvo de massivas manifestações contrárias? Quem está com as panelas cheias sai batendo panela?

A verdade é que não foi um fenômeno isolado, a rebelião dos barriga cheia já aconteceu ouras vezes na História da humanidade. O evento mais notável foi o maio de 1968 com suas manifestações estudantis que começaram em Paris contra a proibição do ingresso dos estudantes masculinos no dormitório feminino, e se espalharam apelo mundo afora, também "contra tudo isso que está aí", sem uma agenda política clara além do bordão de que é proibido proibir. Não causaram nenhuma mudança política, mas foram um marco na revolução dos costumes. Mas quem fazia aquelas manifestações? Basicamente estudantes universitários membros da classe média, e não trabalhadores. Eram o produto da onda de prosperidade que se seguiu ao fim da segunda guerra, a qual multiplicou o número de estudantes universitários e permitiu o protagonismo destes.

Do mesmo modo, as jornadas de 2013 no Brasil seguiram-se a um período de prosperidade e crescimento da classe média. Inserem-se, portanto, na fenomenologia da rebelião dos barriga cheia, que deve ser vista como um fenômeno mais psico-social do que puramente político. Sempre que um grande número de indivíduos ascende à classe média e passa a ter consciência, tempo e disposição para abordar assuntos políticos, segue-se uma onda de insatisfação e turbulência muito semelhante à típica rebeldia que acomete os indivíduos quando chegam à adolescência. São pessoas que vem escutando promessas e tendo suas aspirações atendidas, então sempre querem mais e mais. A população brasileira vinha experimentando melhoras em seu padrão de vida desde meados dos anos 2000, em razão da conjuntura econômica favorável, e o número de estudantes universitários aumentou consideravelmente neste período. Quando o governo Dilma começou a ratear em 2013 e surgiram os primeiros sinais da corrupção desenfreada, essa multidão embalada por promessas suspeitou de um engodo, e a reação foi violenta.

Por vezes essa inquietação de uma nova camada da população que ganha súbito protagonismo revolve sentimentos ocultos lá no fundo, que sobem à tona. Por este motivo que essas rebeliões de barriga cheia ganham por vezes um inesperado tom conservador. O exemplo mais notório aconteceu na Tailândia em outubro de 1976, conhecido como o Massacre da Universidade Thammasat. Os antecedentes foram semelhantes. No início dos anos 60 a Tailândia experimentou um surto de prosperidade, que fez crescer enormemente o número de estudantes universitários. Esses estudantes começaram a participar de manifestações contra o regime, que em 1973 provocaram a queda de um governo ditatorial.

Mas as esperanças de que a ascensão dessa nova camada da população inaugurasse um período democrático logo se desfizeram. A classe média ascendente era monarquista e visceralmente anticomunista. O novo governo foi marcado por caos e instabilidade. Quando em outubro de 1976 os estudantes ocuparam a universidade Thammasat para protestar contra o retorno dos ditadores exilados, foram massacrados, e muitos dos que participaram do massacre foram outros estudantes universitários, colegas dos que foram mortos.

Ao menos aqui no Brasil a guinada conservadora foi bem mais benigna. Mas igualmente mostra como são imprevisíveis os acontecimentos quando uma nova camada social ascende ao cenário político. Quem dava importância aos pastores da periferia 20 anos atrás?

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Bolsonaro veio para ficar

É essa a conclusão a que chego, após um ano de governo. E para que não digam que é uma opinião particular minha, mostro esse e mais esse artigos publicados na imprensa francesa.

Quando o fenômeno Bolsonaro começou a tomar corpo, especulei se ele não seria mais um daqueles cometas que periodicamente cruzam o céu de nossa política para logo desaparecer no horizonte, como foram Jânio Quadros e Collor de Mello. Decorrido um ano de governo, o desempenho parece aquém das expectativas. O índice de aprovação caiu para cerca de 30%. O crescimento da economia foi pequeno. A maior parte do pacote anti-crime de Moro foi vetada.

Mas convém lembrar que em sete meses, Jânio Quadros já havia renunciado, e em menos tempo ainda Collor de Mello e seu pacote econômico já estavam desmoralizados. A queda do índice de aprovação de Bolsonaro segue o padrão de todos os presidentes após a "lua de mel" da época da eleição, não se trata de uma queda brutal e inesperada. A economia avançou pouco, mas avançou. A reforma da previdência foi aprovada sem grande alarde. Estatísticas mostram uma diminuição nos crimes. Não há grandes escândalos de corrupção, nem manifestações massivas contra o governo.

Enfim, penso estar autorizado a concluir que Bolsonaro não segue o roteiro dos "cometas" que o precederam, e ao que tudo indica terminará seu mandato e tem grandes chances de fazer seu sucessor, conforme mostram as projeções. Para o bem ou para o mal, o fenômeno Bolsonaro parece que vai cristalizar-se em nossa política, congregando facções conservadoras até então desgarradas ou naufragadas no antigo DEM, dando partida, talvez, a um bipartidarismo com facções de esquerda moderada, papel que o PSDB falhou em executar. O mais é futurismo, pois nossa política é inerentemente instável, mas considero factíveis essas previsões.

Aos que se desapontam com este quadro, resta tentar encontrar uma explicação. Penso que aqueles que apostaram contra Bolsonaro, subestimaram o personagem que ele representa. Sim, pois todo líder que ascende pela via do carisma, sem estar apoiado por lideranças políticas estabelecidas, cria um personagem para si mesmo, e passa a representa-lo. E Bolsonaro, que passou de oficial subalterno sem prestígio para político exótico e alternativo, mais conhecido por suas declarações polêmicas do que por seus projetos, soube de fato criar um personagem que foi acolhido por uma multidão órfã de líderes de direita e cansada de líderes de esquerda. De fato, desde que a vanguarda da direita do Brasil foi liquidada, paradoxal que pareça, pelo regime de 1964, que cassou Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek, e atirou os demais na vala comum da ARENA, não surgiu no país um líder convincente de direita para além do exótico Enéas Carneiro. E tampouco os líderes de esquerda souberam se renovar, ao contrário, desgastaram-se por suas práticas corruptas e por seu discurso que feriu os sentimentos conservadores e religiosos do povão, que preferiu correr para os pastores pentecostais das periferias.

Mas por que Bolsonaro não se queimou, como tantos outros linguarudos? Eu acredito que o segredo de Bolsonaro foi nunca se colocar na pele de seu personagem, ao contrário do que fizeram Jânio Quadros e Collor de Mello, que efetivamente se entusiasmaram, acreditaram ter o prestígio que se creditava aos personagens que criaram, e como diz o ditado popular, deram um passo maior que as pernas. Bolsonaro, no fundo, não deixou de ser aquele homenzinho enfezado que diz coisas escatológicas, provocando ora riso, ora indignação. Mas ao redor dele há um governo que, bem ou mal, caminha devagar, mas caminha na direção prometida. É esse governo que tem merecido a confiança de uma população desalentada e cansada de promessas não cumpridas. Voltando a recorrer a ditos populares, Bolsonaro não deixou a peteca cair nem o caldo entornar.

O futuro, veremos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Marxismo Cultural, ele existe?

Certas palavras estão inefavelmente ligadas a certas épocas e locais. Um termo que parece muito ligado e que pretensamente explica o momento político atual é Marxismo Cultural. O governo e os direitistas acusam o PT e a esquerda de promover tal coisa com o fim de demolir os valores tradicionais da população e assim engendrar uma espécie de revolução cultural que transformará todos em dóceis militantes. A esquerda obviamente nega que tal coisa exista.

Diz o verbete no wikipedia:

"Marxismo cultural é uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita estadunidense desde a década de 1990. Refere-se a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada de termos econômicos a termos culturais pela Escola de Frankfurt, que teria se infiltrado nas sociedades ocidentais com o objetivo final de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma sociedade global, igualitária e multicultural"


Historicamente, o termo introduziu-se no âmbito acadêmico na década de 1930. Os teóricos da Escola de Frankfurt, assim como Marx, consideram que a cultura é inseparável de seu contexto social, econômico e político e, portanto, deve ser estudada levando em conta o sistema e as relações sociais que a produzem. No ambiente acadêmico do Brasil, como tudo o mais, só chegou bem mais tarde. Nos anos 60 ninguém falava disso, e até se acreditava em revolução armada. Mas como temos o vício antropofágico de deglutir e dar uma feição peculiar ao que vem de fora, e é certo que palavras, mesmo vazias, de tão repetidas podem mesmo materializar conceitos, o marxismo cultural ganhou vida e recebeu uma acepção própria entre nós. É produto da progressiva substituição dos trabalhadores pelos lúmpens como o público revolucionário por excelência, fenômeno que vem desde o final do século passado, mais exatamente desde o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores.

Uma vez que os trabalhadores aderiram ao capitalismo, então os militantes procuraram seu novo público entre os marginais da sociedade, aqueles a quem Marx denominava lúmpen-proletariado, e afirmava serem imprestáveis como revolucionários. A coisa funciona assim: onde quer que exista um grupo de indivíduos desfavorecidos em algum conflito, antissociais, desajustados e inconformistas, os militantes vão lá e buscam a sua adesão, mesmo que o conflito no qual eles estão envolvidos não tenha nada a ver com luta anticapitalista. Com este fim, produzem um discurso que se convencionou chamar de marxismo cultural.

Mas esse discurso causa imensa repulsa nas massas populares, em geral religiosas e conservadoras em termos de costumes, e tem sido a causa principal do divórcio entre o eleitorado trabalhador e a esquerda.

Ao fim e ao cabo, vemos que Marx estava de todo certo ao considerar os lúmpens imprestáveis como revolucionários. Embora eles afrontem a ordem burguesa com sua conduta antissocial, por outro lado são facilmente cooptados pela burguesia, em razão de seu caráter venal. Através da História, os burgueses sempre compraram os lúmpens por poucos tostões, inclusive para jogá-los contra os trabalhadores.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Três Democracias

Sabe-se que a América Latina é um caso muito peculiar no contexto do mundo ocidental. Já passou por várias experiências democráticas com recaídas em regimes totalitários, e principalmente, já experimentou tipos diferentes de democracia, até o momento definidas, grosso modo, como regimes oligárquicos ou populistas.

Este artigo que descobri, de autoria de Fernando Horta, contudo, consegue ser inovador em conceitos. Define três tipos de democracia recorrentes na América Latina fazendo uma comparação com arquétipos femininos atemporais: a mãe, a esposa e a puta. A democracia-mãe seria um modelo abstrato, enaltecido mas não realizado:

"A mulher-mãe é o campo do sagrado, do perfeito e do intocado (...) O arquétipo é tão forte que permite que machistas tenham ódio pelas mulheres e carinho pela sua mãe, num contrassenso que se desfaz na sacralidade da palavra 'mãe' (...) Os conservadores, por exemplo, admiram a 'democracia-mãe' (...) é tão venerada quanto mais irreal ela for. É muito comum, nos discursos conservadores a reiterada imagem de apoio e apreço à 'democracia', sempre – contudo – querendo referir-se à irrealidade do arquétipo de mãe. Pode-se ser, na cabeça desta gente, contra a participação popular e 'a favor da democracia', ou contra 'partidos políticos' e a favor da 'democracia', da mesma forma que se odiavam mulheres e amava a mãe"


Bastante dejà-vu, certo? Não preciso entrar em detalhes. Já a democracia-esposa seria a democracia consentida, que preserva a hierarquia social vigente:

"A esposa é aquela que 'ajuda a construir', mas dentro – e somente dentro – dos limites autorizados pelo masculino (...) O espaço de existência da democracia-esposa é todo aquele delimitado e permitido pelo poder econômico. E este não se sente constrangido em podar, diminuir ou mesmo eclipsar a democracia caso 'ela passe dos limites'. No fundo, o limite máximo é o código. A democracia só pode existir até onde 'O' código permitir"


Já a democracia-puta seria aquela que compreende os setores marginalizados da sociedade, sem estar autorizada pela classe dominante:

"A mulher-puta é a transgressora por natureza. Capaz 'das piores' coisas no mundo. Aquela que se dá e se deixa apenas pelo seu próprio instinto de necessidade e possibilidade. Incorrigível, indomável, violenta e incivilizada. A mulher-puta não tem dono (...) A democracia-puta gera medo (...) Ela tem a indignidade de flertar com os pobres, de se associar com os indigestos e não queridos. Ela é incontrolável. A democracia das ruas precisa ser contida com cassetetes e tiros nos olhos, para que não possa mais ver"


Tenho que convir que a comparação foi original e criativa, e forçoso é admitir, bem procedente em alguns pontos. Tanto que podemos acrescentar: no mundo real, o futuro das prostitutas não costuma ser alvissareiro. A profissão é desgastante para o corpo, muitas desenvolvem vícios e não raro terminam na pobreza depois que envelhecem, com a exceção de umas poucas que se tornam cafetinas. Exatamente o que tem acontecido com as democracias-putas que pululam na América Latina: ou levam seus países à pobreza após uma curta fase de gastança e deslumbramento, ou aderem ao capitalismo mais deslavado e reservado apenas aos seus apaniguados, aqueles que foram cafetinados...

A história mostra vários exemplos de países latino-americanos que passaram de um para outro entre esses três tipos de democracia, sem dar sinal de uma trajetória evolutiva, mas de um mero rodízio sem fim. O que fizemos de errado? No restante do mundo ocidental, as democracias antigas obtém sua estabilidade no bipartidarismo. Exatamente o que faltou entre nós. Até poucos anos atrás, tudo estava pronto para se estabelecer um bipartidarismo entre o PT e o PSDB, mas o PT preferiu fazer do PSDB seu inimigo figadal e se aliar ao que há de mais obscuro e pérfido em nosso espectro político. Ainda não foi desta vez...