sábado, 13 de abril de 2019

Paulo Freire e o fracasso da educação

Os resultados da educação no país são reconhecidamente ruins, e numerosas causas têm sido apontadas desde muito. Mas recentemente uma nova causa foi levantada e chamou a atenção: o principal responsável pelo malogro da educação nacional seria a influência de Paulo Freire, que ironicamente foi consagrado como o patrono da educação brasileira.

“Se temos uma filosofia de educação tão boa, [e] Paulo Freire é uma unanimidade, por que temos resultados tão ruins?”


São palavras do Ministro da Educação, Abraham Weintraub. Se a polêmica já chegou na esfera governamental, então deve ser discutida. Será Paulo Freire o culpado pelos sucessivos fracassos do país nas avaliações internacionais do desempenho dos alunos?

Na minha opinião, isso é um exagero. As avaliações internacionais colocam-nos juntos a países em sua maioria do Primeiro Mundo, com os quais saímos necessariamente perdendo em qualquer comparação. É óbvio que a causa principal é a precariedade material de nossas escolas e da própria estrutura familiar de boa parte dos alunos. Não estamos na Finlândia. E independente disto, Paulo Freire a priori não pode ser considerado o culpado, simplesmente porque ele nunca foi um educador, e sim um filósofo. O método a ele atribuído destina-se à alfabetização de adultos, portanto, não é de uso geral. Nossas escolas não podem afirmar que aplicam o método Paulo Freire, exceto em um sentido muito subjetivo. Sua obra mater, Pedagogia do Oprimido, não trata de didática, mas é de fato um apanhado de aforismos em prol da educação como veículo de transformação social em um mundo necessariamente dividido entre opressores e oprimidos. Esse discurso atraiu muitos admiradores que desejam uma educação libertária, tanto que seu livro é o terceiro mais citado do mundo em trabalhos acadêmicos na área de humanidades, fato frequentemente invocado como prova da excelência do suposto educador.

Mas os que citam Paulo Freire são em geral também filósofos que compartilham seus pontos de vista políticos. Não há nada de prático em sua obra no terreno da pedagogia, da didática, daquilo que pode efetivamente melhorar o desempenho dos alunos. Paulo Freire só é bom para dar nome a institutos, ser representado em estátuas e servir de referência a teses de doutorado muito complicadas. Mesmo no terreno da alfabetização de adultos, alvo original de seu método, os resultados são questionáveis. Paulo Freire já retornou do exílio há muitas décadas e exerceu diversos cargos públicos até sua morte, mas o Brasil continua um dos campeões em analfabetos adultos. Os mais ingênuos afirmam que o ideário de Paulo Freire é bom, o problema seria o uso político que se faz dele, como se não fosse este o objetivo de Freire.

De minha parte, acredito que a parcela de culpa de Paulo Freire quanto ao fracasso de nossa educação não vem de sua atuação como educador, coisa que ele nunca foi, mas sim, efetivamente, de sua atuação como filósofo. O discurso de Freire criou um ambiente ideal para a desvalorização do ensino e da própria figura do professor, ao colocar a conscientização social como foco principal, e invalidar a hierarquia que deve existir entre educador e educando. Assim, pode-se sempre argumentar que o ensino está ruim, mas isso não é grave porque a "verdadeira missão" do mestre não é ensinar as matérias, mas sim "formar cidadãos" - expressão de sentido vago que cada um pode interpretar como quiser. Ao nivelar professor e aluno (a educação deve ser dialógica, esquecido que o diálogo pressupõe equivalência de conhecimento entre interlocutores) e aluno bom e aluno ruim (não existe bom nem ruim, só diferentes) Freire também abre caminho para métodos inovadores de avaliação que excluem provas, e portanto camuflam as deficiências do ensino, aprovando automaticamente todos os alunos - algo sem dúvida do agrado de políticos que querem exibir boas estatísticas ao Ministério da Educação.

Mas Freire vai além. Destrói o próprio conceito de honra ao mérito, origem do esforço de auto superação que deve necessariamente existir para todo aquele que pretende distinguir-se pela educação. Na visão binária de Freire, onde só há oprimidos e opressores, e onde quem não é oprimido é opressor, o aluno que procura superar seu colega é um vil membro da classe dos opressores, inimigo da igualdade, e o professor que procura melhorar o desempenho de sua turma mediante avaliações rigorosas é um autoritário que recusa o diálogo. A tendência inevitável de quem aceita esse ideário será conformar-se a uma vala comum de mediocridade. Falta alguém perguntar: se eu não sou opressor nem oprimido, onde eu entro aí? Posso ser melhor que meu colega? Posso cobrar mais de meus alunos?

Se Paulo Freire quis promover uma revolução com seu método, sem dúvida que fracassou. Mas antes de morrer, talvez o mestre tenha aprendido uma lição. Sem disciplina não se faz nada. Nem revolução.

domingo, 31 de março de 2019

Rememorando 1964

Em 1946, ninguém lembrava do golpe de 1889. Em 1986, ninguém lembrava da revolução de 1930. Mas hoje, o golpe de 1964 continua alvo de agitadas polêmicas, a começar pela própria definição, se tratou-se de um golpe, de um contragolpe ou de uma revolução. Se o passado recusa-se a ficar quieto nos livros de História, é porque não é passado, e sim presente.

É visível o embaraço que a instrução do presidente Bolsonaro de comemorar o golpe de 1964 causou aos chefes militares. Mas primeiro de tudo, deve-se esclarecer o que isto significa para o próprio Bolsonaro. Nem ele, nem qualquer integrante de seu governo tiveram qualquer participação nos governos instituídos a partir do golpe de 1964, e o protagonismo de Bolsonaro só começa no governo Sarney. Ele é apenas um admirador daquele período. E de resto, seu governo tido como neoliberal nada tem a ver com o desenvolvimentismo nacional-estatista seguido pelos presidentes do período militar.

Passando ao largo da questão de comemorar ou não a data, enaltecer ou criticar o regime, deve-se entender o que de fato aconteceu na época. Havia uma forte rejeição ao governo Goulart e um genuíno temor a uma revolução ou guerra civil. Isto fica patente nas manifestações de massa contrárias ao presidente, até então as mais numerosas do país. Mas logo mostrou-se ingênuo o propósito de retomar de imediato a normalidade após a saída do presidente, como se a normalidade constitucional, este delicado pacto, pudesse ser desligada e religada como quem aciona um interruptor. Quem assumiu o poder não foi a cúpula da UDN e a ESG, ambos logo alijados do comando por uma série de "golpes dentro do golpe" entre 1964 e 1969. Castelo Branco assumiu a presidência com plenos poderes, mas era uma mandatário já esvaziado de poderes quando passou a presidência a Costa e Silva, com cuja candidatura não concordava. Costa e Silva assinou o AI-5, mas terminou seu governo como mero fantoche, imobilizado por uma trombose. O poder foi de fato assumido por um estamento burocrático que vinha sendo gestado desde os anos 50, quando Juscelino iniciou a prática de comprar o apoio dos militares dando-lhes cargos na administração e nas empresas estatais.

É emblemática a figura de Garrastazu Médici, que presidiu o país no período mais violento, mas que não costumava vociferar bravatas em seus discursos, e apreciava a ditadura porque ela lhe dava poderes para levar seu projeto desenvolvimentista sem empecilhos. Neste aspecto, não se pode considerar o regime de 1964 como uma singularidade: foi a continuação do projeto varguista dos anos 30, do desenvolvimento induzido pelo Estado autoritário. De fato, foi durante o período militar que o nacional-estatismo foi levado ao auge, nos anos setenta, e ao esgotamento nos anos oitenta. E deve ser lembrado que o nacional-estatismo vicejou muito mais tempo sob regimes ditatoriais do que democráticos, desde o Estado Novo de Vargas, o que é coerente com sua premissa básica: o desenvolvimento deve ser conduzido pelo Estado, e não pelos cidadãos.

Mas o próprio nacional-estatismo autoritário teve suas raízes em tempos mais antigos. É uma herança do positivismo de Comte, muito apreciado pelas elites intelectuais e militares da segunda metade do século 19. Comte repudiava a democracia parlamentar e propugnava em seu lugar uma "ditatura republicana, racional e científica", conduzida por homens superiores e imbuídos do propósito único de conduzir o país ao progresso. A descrença nas formas representativas de governo empurrou gerações de jovens militares ao radicalismo no começo do século 20, dividindo-se entre o fascismo e o comunismo. Embora o regime de 1964 fosse visceralmente anticomunista, deve ser lembrado que o comunismo, no Brasil, surgiu com o tenentismo dos anos 20, e entre Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra e Lamarca, numerosos comunistas históricos foram oriundos das fileiras do exército.

Contudo, o regime de 1964 de certa forma implantou aquele projeto dos positivistas do século anterior. Era uma "ditadura republicana" no sentido em que os presidentes tinham plenos poderes, mas seus mandatos eram fixos, preservando o formato republicano do regime. Era "racional e científico" no sentido em que a administração era conduzida por tecnocratas, um conjunto de superministros cuja atuação ultrapassava o escopo original de suas pastas. Esses tecnocratas supostamente exerceriam a administração de acordo com critérios puramente técnicos, em substituição aos interesses pessoais dos políticos. Como se sabe, o regime produziu alguns resultados na economia, mas esgotou-se sem nunca deixar de ser violento.

Enquanto o golpe de 1964 não passar definitivamente aos livros de História, o país permanecerá preso ao contexto que o gerou. Bolsonaro podia começar por deixar de lado a sua admiração pueril pela ditadura, assumir que a fase histórica é outra, e que as propostas de seu governo são opostas ao desenvolvimento tutelado pelo Estado, que se acreditava na época.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Respondendo à pergunta: para que serve, afinal, o ensino de História?

Da boa coleção de revistas de História que tínhamos poucos anos atrás nas bancas, parece que sobrou somente a Leituras da História. Da Revista de História da Biblioteca Nacional, eu me abasteço e um bom sebo que tem todos os números antigos. Mas nas bancas, tenho que me virar mesmo com o Leituras da História. Que entretanto melhorou um pouco de qualidade, talvez alguns colaboradores das revistas descontinuadas tenham se mudado para ela. O último número fechou com um artigo instigante: Para que serve, afinal, o ensino de História?

O artigo enumera certos sofismas antigos que, infelizmente, os professores de História continuam a repetir a seus alunos. Até aqui sem novidade. Um pequeno passo atrás em uma revista que vem dando passos à frente.
 
"Entender porque tivemos habitantes nesse território há milhares de anos, e só termos sido 'descobertos' em 1500... Entender porque é comum falar em Descobrimento do Brasil, se não havia um Brasil... Entender porque Pedro I era português e nobre, e trouxe a 'independência' ao Brasil... Entender porque Pedro II manteve a escravidão por 48 dos 49 anos que governou, e mesmo assim é conhecido por um sábio... Porque Getúlio Vargas é lembrado e homenageado mesmo tendo sido um ditador sombrio a maior parte de seu governo..."


Mas não ficou claro se o autor endossa essas afirmações, ou se lança o debate. Por isso vale a pena respondê-las uma por uma.

"Entender porque tivemos habitantes nesse território há milhares de anos, e só termos sido 'descobertos' em 1500"


O sofisma é: se o território já era habitado em 1500, então o Brasil já havia sido descoberto por seus primitivos habitantes. Só que o que havia antes não era o Brasil, mas a região geográfica habitada por diversos povos que não tinham qualquer ideia de que faziam parte de uma nação. Bom ou mau, feio o bonito, o Brasil como o entendemos é uma criação do colonizador e passa a existir a partir de 1500.

"Entender porque é comum falar em Descobrimento do Brasil, se não havia um Brasil"


De fato, seria melhor falar da fundação do Brasil, ao invés da descoberta.

"Entender porque havia milhões de habitantes nas primeiras décadas após o 'descobrimento', e depois disso ficaram restrito a poucos milhares"


A ideia que se quer vender é que ocorreu aqui um genocídio, e os milhões de índios que existiam em 1500 foram massacrados até se tornarem os poucos milhares que existem hoje. É um antigo sofisma. Não se pode colocar em um mesmo recenseamento indivíduos que viveram em séculos diferentes. É óbvio que todos os índios que viviam aqui em 1500 já morreram, seja de velhice, doença ou até combate com os colonos. Foram sucedidos por outras gerações. Só que a cada geração, mais e mais índios abandonavam a vida tribal e se integravam de bom ou mau grado na sociedade do colonizador. Ou seja, os índios "morreram" no sentido antropológico, não no sentido biológico. Se houve aqui um genocídio, como se explica que tantos brasileiros da atualidade tenham genes dos antigos habitantes da terra?

"Entender porque Pedro I era português e nobre, e trouxe a 'independência' ao Brasil"


De fato, Dom Pedro I poderia ter acatado a ordem de retornar a Lisboa, e ali levar sossegadamente a vida dissoluta que tantos fidalgos portugueses já tiveram antes dele. Mas preferiu arriscar o pescoço e fazer a nossa independência, grafada entre aspas porque não corresponde ao que o autor desejaria que fosse. Poucos personagens históricos são alvo de tanta tentativa de desmoralização por parte dos professores de História, que o pintam como um pândego, e até um semi-analfabeto.

"Entender porque Pedro II manteve a escravidão por 48 dos 49 anos que governou, e mesmo assim é conhecido por um sábio"


Essa é até desonestidade intelectual. Dom Pedro II não era monarca absoluto, portanto não podia abolir a escravidão sem a aprovação de um parlamento integrado por donos de escravos.
 
"Porque Getúlio Vargas é lembrado e homenageado mesmo tendo sido um ditador sombrio a maior parte de seu governo"


Os personagens históricos são relevantes pelo que influenciaram no rumo dos acontecimentos, e não pelo julgamento moral que é feito deles. Sendo eles homens públicos, tanto o bem quanto o mal que fizeram não podem ser creditados unicamente à sua pessoa, mas divide-se coletivamente entre todos aqueles que o apoiaram e possibilitaram que fizesse aquele bem e aquele mal. Getúlio Vargas foi um ditador sombrio a maior parte de seu governo, mas pelo que realizou, é indubitavelmente o personagem brasileiro mais importante do século 20.

Esses são os sofismas. As outras questões levantadas são menos óbvias.

"Entender porque na primeira experiência democrática brasileira, entre cinco presidentes, um se matou, outro renunciou e outro foi derrubado"


Os políticos de então eram menos democráticos que o regime. Sempre havia alguém clamando por um golpe, e prevalecia a crença de que as forças armadas deveriam intervir como "poder moderador".

"Entender porque Castelo Branco assumiu prometendo uma transição rápida, e os militares ficaram 21 anos no poder"


Quem efetivamente assumiu o poder não foi a cúpula udenista nem o pessoal da ESG, do qual Castelo fazia parte. Esses deram o golpe, mas sucessivos "golpes dentro do golpe" vieram a afastá-los e colocaram em seu lugar um time de burocratas desenvolvimentistas, que acreditavam que a democracia só deveria ser restabelecida após o país se tornar desenvolvido.

"Entender porque os planos econômicos de Sarney e Collor não deram certo, e ninguém foi responsabilizado"


Na verdade eles fizeram aquilo que o pessoal de então sonhava: resolver os problemas econômicos por passe de mágica. Sarney, então, por irônico que pareça, foi responsável pela primeira experiência socialista do país: ele seguiu todo o receituário que a esquerda pregava desde os anos 60, do congelamento de preços à moratória da dívida externa. Mas parou após a vitória do MDB nas eleições.

"Entender porque o PT prometeu um governo ético e caiu na vala comum das transações mesquinhas"


O combate à corrupção sempre foi uma bandeira da direita, pois a proibição de roubar deriva do tabu da inviolabilidade da propriedade privada. O PT roubava para o bem do povo, ou assim acreditava.

Já com o fecho do artigo, eu concordo plenamente:

"Ela é esse resgate, e ao mesmo tempo esse roteiro. Entender o que se passou para compreender a bagunça do presente e balizar as ações"

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Carnaval é só Carnaval

Está chegando o carnaval, e esse foi o título de uma crônica publicada por Diogo Mainardi na revista Veja, e lá se vão mais de 10 anos. Não que eu seja um grande fã deste cronista, que sempre considerei amargo e repetitivo. Mas na ocasião admirei a sua disposição em refutar certos lugares-comuns que ao longo dos anos os brasileiros se acostumaram a ter como verdade acerca do carnaval. De fato, há pelo menos 80 anos insistimos em ver um significado antropológico profundo no carnaval brasileiro, que seria o emblema máximo da brasilidade, mesmo até a chave para o entendimento de como nossa sociedade funciona e se mantem a despeito da enorme desigualdade.

Não vou repetir aqui esses chavões um por um. Mas permito-me constatar que passados 80 anos, esses chavões materializaram uma imagem caricatural do país, veiculada sobretudo no exterior, onde carnaval é a primeira coisa que vem à cabeça do estrangeiro quando se fala em Brasil. Muitos não veem mal nisso. Ter a imagem do país associada a uma grande festa onde todos se divertem seria uma coisa positiva, ou no máximo uma tolice inócua. O problema surge quando se pretende enxergar aí um significado histórico e antropológico profundo, e isso é o que tem sido feito ao longo dos anos.

Tentando entender como essa imagem se solidificou, a principal pista é a grande aceitação dela no exterior. Claramente introjetamos uma leitura que os estrangeiros têm feito de nós ao longo dos anos, e se damos o que eles querem ver, temos em troca o reconhecimento. Desde o século 16 existe na Europa uma utopia a respeito dos trópicos do Novo Mundo, vistos como uma espécie de Jardim do Éden antes do pecado original - diz o provérbio, não existe pecado do lado de baixo do equador. O que queriam dizer era que do lado de baixo do equador, não seria errado fazer o que era errado fazer em casa. Ali podia-se fazer sexo com as mulheres índias e ter várias esposas, o que efetivamente aconteceu. E daí nasceu um mito fundador do Brasil relacionado ao sexo: o povo brasileiro, e por conseguinte o país, só pôde surgir mediante a supressão da moral cristã e à conjunção carnal ilimitada entre todas as raças, em uma enorme orgia até hoje celebrada no carnaval. Quem quiser entender o Brasil, portanto, deve entender o carnaval. Por isso que somos assim, sem culpa, enquanto os puritanos do norte reprimiam sua sexualidade e cultivavam o racismo.

Há algum fundamento nesta teoria? Ou ela é aceita apenas porque satisfaz as fantasias que os povos do norte têm historicamente alimentado a respeito dos trópicos? Na verdade, não há muito fundamento. Os portugueses católicos não tinham uma atitude em relação ao sexo muito diferente daquela dos ingleses protestantes, mas havia outra diferença, esta sim fundamental: quando chegaram aqui as primeiras levas de colonos, não havia mulheres. Ao contrário dos colonos da América do Norte, que sempre trouxeram mulheres em suas jornadas. Portanto, para os portugueses, coabitar com índias não era uma escolha, mas uma necessidade, não apenas para produzir descendentes, indispensáveis para quem está se estabelecendo em uma terra estranha e despovoada, mas também para firmar alianças com as tribos. Por conseguinte, essa coabitação não se deu na forma de uma desbragada orgia como é imaginada, mas tinha que amoldar-se aos costumes dos locais, que aceitavam a poligamia, mas não o abandono de esposa e filhos. Os colonos não saíam por aí a emprenhar índias e abandona-las, como afirma a caricatura; eles tinham que tratar suas esposas com deferência, se quisessem continuar a contar com o favor das tribos.

Foi assim nos primórdios. Algumas décadas depois, já estabelecidos no litoral e contando com mulheres europeias chegando em quantidade nos navios, os colonos puderam dispensar as alianças com as tribos e retomar a moral sexual cristã. A partir de então o sexo com nativas assumiu o caráter de entretenimento, senão de estupro, que se mantém até hoje. Mas os descendentes mestiços originados daquela fase de "intoxicação sexual", como se refere Gilberto Freyre, continuaram a produzir descendentes, e hoje oferecem ao mundo a imagem de um povo que não vê barreiras raciais quando se trata de fazer amor, e supostamente por este motivo, aqui "não existe racismo". E no carnaval todos festejam.

Não é difícil entender como o estrangeiro comprou uma imagem que endossava o que ele esperava ver. Mais difícil é entender porque o brasileiro tanto se esforçou para vender uma imagem que, bem considerada, era desairosa. É preciso lembrar que a noção da não existência de pecado nas colônias deriva de uma dicotomia Civilizado X Selvagem. O civilizado é regido por costumes, o selvagem se deixa levar por instintos. O civilizado tem uma moral, o selvagem não tem. Uma relação baseada em uma dicotomia Civilizado X Selvagem nunca é de fato amistosa, ainda que pareça. Para entender, é preciso retornar ao passado. Até o início do século 20, o carnaval era muito mal visto pelas "boas famílias", mas ali pelos anos 30, as coisas mudaram. O país passava por uma fase de autoafirmação e nativismo, buscando por mitos fundadores e o resgate de "coisas nossas" supostamente genuínas. Daí começou a glorificação do carnaval e a construção de teorias que afirmavam seu suposto significado antropológico. Queríamos exibir ao mundo uma imagem que fosse autenticamente nossa, e assim reconhecida pelo estrangeiro. Mas acabamos introjetando ideias que esses mesmos estrangeiros sempre nutriram a nosso respeito, e resgatamos o país da esbórnia sexual, festejado no carnaval.

Os principais responsáveis por esta construção foram intelectuais como Gilberto Freyre, apologista da mistura de raças, mas obcecado por sexo interracial, como ele deixou claro em um livro de memórias intitulada De Menino a Homem, onde narra diversas experiências sexuais bizarras de sua juventude. Mas também havia os políticos que consideravam a oficialização do carnaval como festa nacional uma maneira de domestica-lo, transformando as letras de samba em glorificação do regime, e os foliões em paradistas bem comportados. O fato é que, desde então, o carnaval perdeu muito de sua espontaneidade e de suas características originais.

Já outros comentaristas preferem apontar um significado social no carnaval - seria uma colossal confraternização entre as classes. Ao menos naqueles dias os papéis se inverteriam, o pobre poderia vestir-se de rei e festejar ao lado do rico. Sem essa válvula de escape o país supostamente explodiria em conflitos. Uns acham isso bom, porque permite a paz social, e outros acham isso ruim, porque retarda a revolução. Mas tem algum fundamento?

Muito pouco. Na Roma antiga, de onde se originou o carnaval, de fato havia o costume de se vestir um escravo como rei durante certa festividade. Mas no Brasil de hoje, o carnaval foi apossado pela indústria turística. Uma pequena parcela da população adora o carnaval, outra pequena parcela odeia-o, e para a maioria trata-se apenas de um feriado que aproveitam para viajar. Alguém acredita que se o carnaval for suspenso, haverá uma revolução?

Só podemos repetir a conclusão de Mainardi. Carnaval é só carnaval.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Para os historiadores do futuro explicarem

A História só pode ser devidamente apreciada com um mínimo de distanciamento no tempo. Como se diz, não se pode contemplar uma catedral estando dentro dela. E um fenômeno que os historiadores do futuro terão que explicar é a queda do PT, o partido dos trabalhadores que dez anos atrás exibia ampla aprovação, mas terminou rejeitado por esses mesmos trabalhadores.

Já dei minha opinião a respeito em outras oportunidades. Mas uma coisa que sempre me chamou a atenção é a capacidade de certas figuras populares, intelectualmente rasas, de sintetizar em poucas palavras a explicação para um fenômeno que os intelectuais não conseguem ou não querem explicar. Nesse artigo do Jornal GGN, intitulado o Povo Quer as Milícias no Poder, o rapper Mano Brown assim criticou o PT:

Deixou de entender o povão, já era. Se é Partido dos Trabalhadores, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender

Ele disse o mesmo que eu já repeti tantas vezes: o principal motivo do divórcio entre o Partido dos Trabalhadores e o trabalhador foi a negligência com a questão da segurança pública, que é a preocupação número um do povo das periferias assoladas pelo crime. Mas como um partido que sempre se disse antenado com o povo pôde ignorar uma demanda tão óbvia?

No mesmo artigo, a socióloga Angelina Peralva ressalta que a violência no Brasil se acentuou no período pós-ditadura. De fato, ela já vinha em ascensão durante a ditadura, negligenciada pelos militares, mas foi mesmo nos anos 80 que deu um salto. E esse salto está diretamente ligado à ascensão de governos de esquerda, sendo o exemplo mais notável Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Como se sabe, Brizola proibiu a polícia de subir aos morros, e em consequência os traficantes se armaram e passaram a dominar seus territórios como um exército de ocupação. Em resposta, a população se cotizou para pagar guardas particulares, geralmente policiais ou ex-policiais, que depois se tornaram as milícias.

Como isso foi possível?

O equívoco fundamental, a meu ver, foi a própria abordagem da questão da segurança por parte dos petistas, em sua maioria indivíduos egressos de meios intelectuais sem contato com o povo nas ruas. Foi dado ao fenômeno da criminalidade uma leitura de luta de classes, sob a óptica marxista - por conseguinte, reprimir os criminosos é reprimir o povo. A abordagem marxista não enxerga o indivíduo, apenas a classe social. Como tanto os marginais quanto os trabalhadores pertencem à classe dos proletários, então, julgam os petistas, eles são a mesma coisa, e devem merecer o mesmo favor. Isso vai diametralmente contra o enfoque que o povo das periferias tem a respeito de si próprio e dos marginais: a dicotomia Trabalhador X Vagabundo. Uma vez que habita as mesmas paragens que os marginais, o trabalhador fica indefeso contra eles, exceto se contar com as milícias. Natural que busque apoio em quem promete dureza no combate ao crime.

Essa substituição dos trabalhadores pelos marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, na verdade vem desde o fim da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores. O proletariado não ingressava na guerrilha, mas em contrapartida, as favelas cresciam. Daí que a esquerda foi buscar seu novo público entre esses lúmpens, aí entendidos não só como os marginais, mas como todo grupo de indivíduos desajustados e inconformistas. Isso escandalizou o povo das periferias, profundamente conservador, que correu para os pastores evangélicos e selou de vez o divórcio com o PT.

Frequentador que sou de forum´s da internet, chama-me a atenção, também, a resistência dos petistas em admitir seu equívoco. Isso se deve, a meu ver, ao DNA revolucionário do PT. O tópico foi debatido nesse artigo, também do Jornal GGN.

É certo que o PT nunca foi, formalmente, um partido revolucionário, como era o antigo pecebão. Mas foi constituído desde o princípio por elementos oriundos de movimentos revolucionários. O revolucionário não é igual ao político, eles não se vê como participante de um jogo onde pode ganhar ou perder, tampouco como porta-voz de demandas populares avulsas. Ele se vê como portador de uma verdade excelsa e definitiva, um sistema de ideias coerente e completo que deve substituir o que está aí, e iniciar uma nova etapa histórica onde será hegemônico - para ele não existe A ou B, mas Certo ou Errado. É a mesma atitude do pregador de uma nova religião. O profeta não pode admitir estar errado, ou perderá sua legitimidade.

E religião por religião, isso os pastores evangélicos sabem fazer melhor.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Dois motivos para otimismo

Ainda não dá para ter uma ideia precisa de como será o novo governo, mas dois fatos por mim observados autorizam certo otimismo.

O primeiro, é a estabilidade da economia, que ainda está longe de apresentar forte crescimento, mas exibe inflação baixa e desemprego em queda, ao contrário da típica turbulência que se segue às incertezas de um novo governo.

O segundo, foi o modesto discurso de Bolsonaro em Davos.

Esses sinais apontam para aquele que considero o cenário ideal para o país, nesse momento: o protagonismo da economia e o eclipse da política. Ao fazer um discurso curto, quase tímido, Bolsonaro mostrou que não está disposto a se embrenhar em um terreno que definitivamente não é seu forte: a palavra. Dizem que ele, calado, é um poeta. Difícil é ficar calado por quatro anos, mas se mantiver um estilo discreto, já é alguma coisa. Já a economia, tal como a grama, cresce quando ninguém olha para ela.

Bolsonaro claramente é um personagem despreparado para a política. Nunca exerceu um cargo executivo, e no congresso notabilizou-se por seus bate-bocas insultosos. Foi eleito pelo voto de raiva de multidões decepcionadas por sucessivos governos de esquerda que atiraram ao lixo a moralidade pública e se recusaram a reprimir criminosos. Mas parece ter percebido cedo que a retórica dos palanques é inútil nos gabinetes. O escândalo envolvendo seu filho também veio em ocasião oportuna para baixar sua crista. A esperança é que mantenha o estilo discreto e deixe o governo para os especialistas. O momento é crucial para que sejam feitas as reformas de que o país necessita, cujo impasse vem travando o crescimento, em especial a reforma da previdência. Bolsonaro tem grande potencial, tanto de destravar este nó com as reformas, quanto de provocar um enorme desastre. Dar prosseguimento ao discurso extremista do tempo dos palanques, neste momento, terá o mesmo efeito que sambar na corda bamba.

Observando o cenário econômico, o que se vê ainda é pasmaceira. Mas isto não é ruim, levando em conta o histórico desde o início da crise. É nesse momento que se pode apreciar corretamente o valor do governo Temer, o de menor índice de aprovação de nossa História. Quando assumiu, a economia apresentava um quadro de acelerada degradação, com inflação em alta e crescimento negativo. Temer não fez o país sair da crise, mas entrega a seu sucessor um quadro de inflação em queda e crescimento positivo. Faltou-lhe apoio, é certo, para as reformas cruciais como a da previdência, além de estar ele próprio manchado por escândalos, mas fez o essencial: desviou o país da rota para o desastre. Como se diz, estancou a sangria. Se Temer tem algum valor a mostrar, é o valor do presidente impopular, que não tem ambições políticas futuras, e por isso mesmo pode dar-se ao luxo de tomar aquelas medidas desagradáveis, porém indispensáveis para se sair de uma crise, medidas essas que Dilma Rousseff dificilmente teria condições de tomar, presa que estava aos compromissos eleitorais. Tivesse ela permanecido no poder, o quadro econômico teria se agravado, e as últimas eleições seriam disputadas em um ambiente de raiva e polarização ainda mais pronunciado.

Mas agora a economia parece pronta para novo ciclo de crescimento, desde que livre de turbulências políticas e de projetos bombásticos. Há boa chance disto acontecer, esperando-se que Bolsonaro permaneça disposto a acolher aquele conselho que o rei da Espanha deu a Hugo Chávez: "pusque no te callas?"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Colonialismo e Sociedade Civil

É recorrente afirmar-se que a má formação de nossa sociedade civil origina-se no colonialismo pautado em violências e escravidão. Mas sempre ficam alguns tópicos mal explicados: por que o mesmo não ocorreu nas colônias britânicas do norte? Recentemente li um artigo na revista Leituras da História a respeito da obra do abade francês Guillaume-Thomas Raynal, História Filosófica e Política dos Estabelecimentos e dos Comércios dos Europeus nas Duas Índias, que me chamou a atenção.

Não conhecia esse autor. Suas conjecturas não diferem muito das de outros autores humanistas, sobretudo religiosos, acerca das violências da colonização europeia do Novo Mundo, mas algumas colocações são originais. Em linhas gerais, o autor questiona: como haveria progresso em uma sociedade dividida entre dominadores cruéis e dominados apáticos e improdutivos?

Pelo que Raynal observou, a violência dos colonos não apenas abatia aos nativos, mas também desumanizava os próprios colonos: "As molas de sua alma foram quebradas", escreveu, referindo-se aos nativos. Já os colonos eram constituídos por indivíduos "descontentes de sua sorte", ou seja, a escória de sua sociedade, que tinham a oportunidade de enriquecer à custa da rapina em um local onde o governo civil era fraco e incapaz de contê-los. Seus descendentes, escreveu, tornavam-se "tiranos". Isso deu origem a uma sociedade "destituída de virtudes cívicas".

Raynal se pergunta se o europeu, uma vez liberto dos constrangimentos das leis e dos costumes, não é mais perverso que o selvagem. Compara os colonos portugueses a "tigres domesticados que retornam à floresta". Nada disso é novidade. Mas uma observação de Raynal me chamou a atenção. Ao afirmar que os descendentes dos primeiros colonos, aventureiros, tornavam-se pequenos tiranos, ele afirma que a chusma de pequenos tiranos é mais danosa que um grande tirano.

Penso que aí pode estar a chave para entender as diferenças entre a colonização ibérica e a britânica na América do Norte. Diferenças quanto aos resultados, pois quanto aos métodos, há mais semelhanças que diferenças. Também no norte a ocupação do território por europeus foi marcada pela brutalidade. Também ali havia aventureiros, escravidão e opressão aos nativos. Mas não se distinguem ali os pequenos tiranos a que Raynal se referiu. Havia apenas um grande tirano - o governo colonial inglês - do qual os colonos se livraram de um golpe só, o fazerem a revolução.
A administração colonial portuguesa era tirânica, mas fraca. No vasto interior, a multidão de pequenos tiranos, os "homens bons" das câmaras, fazia o que queria. Repetidamente desobedeciam, ameaçavam e corrompiam os funcionários do governo. Aqueles senhores de terras e escravos sabiam que a manutenção de suas posses dependia muito mais de sua capacidade de ter homens armados sob seu comando, do que da investidura de um rei tão distante que parecia lendário. Mas na América do Norte, a administração colonial mostrou-se capaz de conter os excessos dos colonos, e assim originar virtudes cívicas. Suas instituições, em grande medida, foram conservadas pelo governo independente que se instalou em seguida.

De fato, no Brasil, os colonos chegados só começaram a manifestar um comportamento parecido com os da América do Norte após a independência. Mas aí já não se chamavam colonos, e sim imigrantes. Os imigrantes de diversas origens foram os primeiros exemplos de virtudes cívicas do país, nem sempre reconhecida, mas bastante presente no imaginário nacional: a união familiar e a organização de comunidades, a devoção ao trabalho, a educação das crianças. Foram esses imigrantes os responsáveis pelos primeiros estabelecimentos de agricultura familiar no país, bem como das primeiras indústrias. E no entanto, eram constituídos pelo mesmo grupo humano dos antigos colonos, aqueles a quem Raynal denominou "os descontentes com sua sorte".

Mas se o colono era como um tigre domesticado que retornava à vida selvagem, o imigrante foi um tigre domesticado que se tornou um manso gatinho. O motivo é bastante evidente: eles não aportavam no país como aventureiros, nem era tolerado que fizessem o que quisessem. Tinham locais delimitados para se estabelecer. Eles não compunham câmaras de "homens bons" capazes de todos os desmandos, na verdade a entrada na política esteve praticamente vedada a eles até meados do século 20 Tiveram que concentrar-se em sua vida e seus projetos pessoais.

Se quisermos realmente cultivar virtudes cívicas, temos que liquidar o passivo dos descendentes dos aventureiros que aqui aportaram, e penso que isso só pode ser feito com o endurecimento da legislação e penalidades severas. Antes um só tirano que uma chusma de pequenos tiranos.