segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A Antiga e a Nova Classe Média

Deparei-me outro dia com esse artigo no Jornal GGN, intitulado Pobre de Avião, o DNA da Ultra-direita Brasileira, que defende uma curiosa tese: a contra-revolução conservadora que se seguiu ao governo petista teria sido motivada pelo incômodo causado à classe média pela presença de pobres no aeroporto.

Certamente que não endosso tese tão primária, mas o dito artigo levantou certas suposições que eu já havia observado em outros contextos. A mais central delas é que não existiria apenas uma classe média, mas duas, uma "antiga" oriunda da classe alta em declínio, e uma "nova" originada da classe pobre em ascensão, e a hostilidade contra os pobres viria, por contraditório que pareça, precisamente desta nova classe média. Faz algum sentido. Observa o autor do artigo:

"Os muito ricos não se sentem ameaçados por pobres em nenhum espaço ou momento, a não ser em conflitos reais, como tumultos, vandalismo (...) Muitos bilionários têm visão social e praticam alguma forma de ação de apoio, menos no Brasil e mais nos países centrais, onde grandes fortunas criaram grandes fundações filantrópicas"


"Muitos ricos são de centro esquerda, alguns de direita, mas a ultra direita se concentra na classe média que vê perigo nos pobres chegando perto, física ou socialmente"


A velha classe média brasileira, realmente, originou-se da decomposição da antiga aristocracia luso-brasileira, à medida em que a propriedade comum era dividida por herança e os descendentes passaram a ter que ganhar a vida com suas profissões, mas conservando postura e hábitos herdados dos tempos antigos, tais como manter empregadas domésticas. Como bem apontou o autor do artigo, essa antiga classe média nunca se importou com a proximidade física dos pobres, e até fazia questão de mantê-los próximos enquanto serviçais. Isso porque os espaços físico e social eram muito bem delimitados - o pobre, como se dizia, "sabia o seu lugar". De fato, eventualmente os pobres eram até ajudados por seus patrões ou padrinhos.

Já a nova classe média brasileira originou-se sobretudo da grande onda de imigração ocorrida entre o fim do século 19 e o início do século 20, após a abolição do tráfico de escravos. Esses imigrantes experimentaram uma ascensão social à custa de muito esforço, o que lhes causa orgulho, e a lembrança do passado de pobreza serve como referência de tudo o que é mau e errado - talvez por isso não demonstrem nenhuma empatia por pobres, ao contrário da velha classe média. Mas há uma causa mais prosaica: a concorrência, fator crucial a quem ambiciona ascensão social à custa do próprio esforço.

É sabido que nos EUA, historicamente, o racismo se originou sobretudo da classe trabalhadora branca, como reação à presença de ex-escravos e imigrantes pobres disputando seus empregos. Os ricos não se importavam tanto, afinal raramente algum negro atravessava-lhes o caminho. Por aqui costumamos apresentar os EUA como contra-exemplo de tudo o que é o oposto de nossa realidade, mas o fato é que, histórica e socialmente, os EUA tem, sim, muitos paralelos com o Brasil, e este é um deles. Trump acusa os imigrantes de "roubar o trabalho" dos americanos. Ele está certo. Mas os imigrantes que de fato roubam o trabalho dos americanos não são aqueles que cruzam ilegalmente a fronteira - esses vão procurar serviços recusados pelos próprios americanos - e sim os descendentes deles, já com estudo e cidadania, que querem disputar empregos qualificados.

Já no Brasil, por ter uma dinâmica social mais lenta, nunca se viu um racismo declarado de imigrantes brancos contra pretos ex-escravos, mas um aforismo que veio dos tempos da escravidão era aquele que afirmava que não havia dono de escravos mais cruel do que o ex-escravo. A tese do Pobre de Avião faz algum sentido, sim. Ainda que irônico. Então, contrariando o ideário da luta de classes marxista, o pior inimigo do pobre não é o rico, mas o outro pobre? Com certeza algo embaraçoso de admitir.

Mas uma diatribe antiga da esquerda intelectual contra a classe média sempre existiu, uma espécie de grito primal de revolta, originado até do próprio ambiente doméstico desses militantes, geralmente oriundos da classe média. Os pais representavam, para eles, o establishment, sempre "caretas" e insistindo para que se formassem e fossem trabalhar para os ricos. A classe média era entendida como o esteio da ordem social, sempre conservadora, medíocre e alvo de caricatura. Em determinado momento durante o governo petista esta antiga diatribe tornou-se declarada - o manifesto de ruptura foi aquele famoso discurso da filósofa petista Marlena Chauí, Eu Odeio a Classe Média.

E no entanto, esse mesmo PT foi quem alardeou haver incluído milhões de cidadãos na classe média, e sempre declarou ter como objetivo criar um país de classe média. Como pode, então, odiar a sua própria criação? Ainda mais levando-se em conta que a maior repulsa contra os pobres vem justamente da nova classe média recém-incluída, conforme é reconhecido. A explicação, a meu ver, vem daquele grito de revolta primal, reprimido durante anos pelos militantes. O PT não se originou dos extratos mais pobres da população, mas da classe média intelectualizada e politizada de São Paulo, muitos com histórico de militância desde os anos 60. Durante um bom tempo o eleitorado petista reduziu-se a este núcleo, enquanto as massas pobres continuavam fiéis aos políticos tradicionais com seus laços de clientelismo. A partir do momento em que o PT obteve o apoio desse eleitorado pobre majoritário, percebeu que não dependia mais da classe média que havia sido o seu esteio, e pôde então renegá-la ostensivamente - a partir daí, os inimigos eram os "coxinhas", sobretudo os paulistas.

Mas não se percebeu uma coisa: o eleitorado pobre não é ideologizado. Limita-se a dar o voto a quem tem a chave do cofre no momento, e pode conceder benefícios de imediato. Por conseguinte, a massa do eleitorado pobre não é fiel. Já o eleitorado da classe média vota de acordo com suas ideia, e não gostou do repúdio que o PT lhes dedicou. Muitos eleitores da classe média que eram neutros, e até simpatizavam com o PT, migraram para a direita, ao mesmo tempo em que o eleitorado pobre dava as costas a este partido tão logo percebeu que a crise esvaziara o saco de bondades. Foi essa a verdadeira causa da guinada conservadora que derrubou o PT, e não a suposta raiva da classe média contra os pobres no aeroporto.

Não creio que a esquerda voltará ao poder enquanto não superar sua diatribe contra a classe média.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Brasil no olho do furacão?

Nosso continente é sujeito a tendências cíclicas, isso já é sabido. A derrota de Macri na Argentina, os distúrbios no Chile e no Equador, parecem indicar o fim do ciclo de governos conservadores que sucedeu ao ciclo populista da primeira década do século. Não obstante, o Brasil está tranquilo, assim como quem fica bem no olho do furacão. Isso apesar da posturas polêmicas que o governo Bolsonaro vem assumindo. A oposição é ruidosa, reunindo intelectuais, jornalistas, economistas e até ex-apoiadores do presidente, mas não empolga as massas.

A reação das massas nem sempre é fácil de prever. Isso ficou claro em 2013, quando um mês antes a aprovação de Dilma era de 70%, e de súbito despencou para menos de 30%, pondo a nu a frustração que vinha se acumulando silenciosamente contra seu governo. O caso do Chile parece ser análogo, mesmo porque começou, tal como aqui, com uma discussão em torno de centavos nas passagens do metrô. No Brasil, atribuo a atual pasmaceira, em primeiro lugar, à pasmaceira da economia. Não melhora, mas também não piora: a inflação está sob controle e não há pacotes econômicos à vista. Mas algumas coisas estão acontecendo devagar. A reforma da presidência foi aprovada sem estardalhaço, e o pacote anticrime avança entre percalços.

Penso que a ausência de manifestações violentas de repúdio à reforma da previdência se deve a esta reforma não haver sido colocada na forma de pacote, como é o costume nessa parte do mundo, mas ao invés disto haver sido alvo de longo debate. De qualquer modo, a queda do dólar nos últimos dias indica maior confiança na economia após a aprovação. O índice de desemprego também vem registrando ligeira queda, muito pequena para fazer diferença, mas sinalizando um cenário mais favorável daqui por diante. Foi anunciada uma redução no número de homicídios, também muito pequena para fazer diferença, mas que pode ter a ver com o pacote anticrime ora em debate.

Enfim, o povo parece haver dado um longo crédito de confiança ao governo. Estamos em compasso de espera enquanto nossos vizinhos se agitam. Mas o futuro, para eles, é previsível, e para nós é obscuro. A Argentina tem longa tradição de revezamento entre governos peronistas e conservadores, geralmente os primeiros arruinando a economia com gastos excessivos e os segundos entrando para consertar com medidas "neoliberais", mas o inverso também pode acontecer, como foi o caso do  peronista Menem, além da tendência dos conservadores argentinos de promoverem desastres ainda piores que aqueles dos populistas. No Chile também é observado um bipartidarismo, mais recente que o argentino, porém menos turbulento, com governos socialistas e conservadores se sucedendo desde o fim da ditadura de Pinochet, sem contudo desmanchar o arcabouço que permitiu ao Chile ser o país mais estável do continente.

Mas no Brasil, o bipartidarismo que deveria ser entre PT e PSDB naufragou em razão da postura agressiva dos petistas ao conquistar o poder, e da falta de coragem dos tucanos em defender o legado de FHC. Por conseguinte, o que virá depois de Bolsonaro é uma incógnita total. Conseguirá Bolsonaro se reeleger ou fazer seu sucessor, contrariando a tendência atual pró-esquerda do continente? O PT irá voltar ao poder, mais moderado e compondo-se com os demais partidos? Ou o PT vai voltar ao poder rancoroso e partindo para um confronto que necessariamente terminará em ditadura?

O que se pode fazer, por enquanto, é contemplar ao redor do olho do furacão.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Bacurau, Pensamento e Desejo

Uma expressão na língua inglesa que não tem tradução exata em português é "wishful thinking". Literalmente "pensamento desejoso", denota uma atitude tão movida pelo desejo de que uma certa premissa seja verdadeira, que se passa a tomar decisões e tirar conclusões embasadas por aquela premissa, cada vez desligando-se mais da realidade. Tal como a construção de teorias conspiratórias, abundam em épocas quando há grande desalento e frustração coletiva. Tudo a ver com o tempo presente, a partir da eleição de Bolsonaro, que significa utopia para uns e distopia para outros.

Tais pensamentos desejosos podem se manifestar por diversos canais, da produção de estudos ao cinema. Um filme recentemente lançado e muito comentado, que tem inspirado numerosas análises, é Bacurau, de Kléber Mendonça. Este artigo no Jornal GGN, de autoria de Guilherme Mello, mostra bem como o enredo une utopia e distopia aplicadas ao momento histórico atual no Brasil. Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha do filme, e sim mostrar o quanto as imagens exibidas expressam pensamentos e desejos frustrados do momento político de agora. Trata-se sem dúvida de uma história contada por cineastas de esquerda, onde estão facilmente identificáveis os representantes de sempre da luta de classes - o burguês, o imperialista, o trabalhador, o guerrilheiro, etc. Até aí sem novidade. Mas não é uma mensagem da esquerda cheia de alento dos anos sessenta, e sim da esquerda desalentada após a queda do PT, onde se nota agudamente o choque entre a utopia e a distopia, e brotam os "wishful thinkings".

O primeiro deles é a própria caracterização de Bacurau, a cidadezinha do interior do nordeste onde se passa a trama. Bacurau é ostensivamente apresentada como sendo a epítome do Brasil Autêntico, oposto ao Brasil Falso do sul estrangeirado. Portanto, deve ser aquilo que os intelectuais e militantes de esquerda acreditam que é o país autêntico: conforme descrição do autor do artigo do Jornal GGN,
 
"É um povoado pobre, mas marcado pela solidariedade entre seu povo, pelo respeito às diferenças (sociais, étnicas, sexuais, etc.), pela força feminina, pelas liberdades individuais e pelo respeito à história e conhecimento (...) Em suma, estamos diante de uma comunidade que pratica uma espécie de comunismo primitivo laico, com valorização da mulher e da diversidade"


Em Bacurau, a igreja existe, mas é usada como depósito, enquanto o orgulho da cidade é o museu que homenageia o passado cangaceiro do local. O uso de drogas na cidade também é livre.

O segundo wishful thinking, este representando a distopia, é a caricatura do sulista supremacista. Ele não se considera mais parte do mesmo país, e a televisão mostra cenas de execuções públicas em São Paulo, aplaudidas pela população. Já o estrangeiro invasor, este é alemão e comporta-se como um nazista em um campo de concentração, sem necessidade de explicação.

Entre a utopia e a distopia, onde fica o mundo real? Claramente, Bacurau não existe. As cidades pequenas do interior, muito pelo contrário, sempre encarnaram tudo aquilo que a esquerda mais abomina: universo rural sob o domínio de latifundiários, população religiosa e conservadora. Se a busca é por um "país autêntico", este pode ser encontrado muito mais em São Paulo, em razão de seu cosmopolitismo e de reunir indivíduos oriundos de todas as regiões do país, além de ser muito mais liberal em todos os sentidos. Lula nasceu no nordeste, mas teve que vir para São Paulo para construir sua carreira. O PT nasceu em São Paulo e desenvolveu-se no sul bem antes de penetrar no nordeste. Tampouco já ouvi falar de alguma cidade nordestina onde museus glorificassem cangaceiros - muito pelo contrário, o que eu já ouvi falar é de um museu em Mossoró dedicado à resistência armada feita pela população, que expulsou o bando de Lampião quando este tentou invadir a cidade para saqueá-la.

Ao final, a população de Bacurau reage com violência, esmaga os invasores e exibe suas cabeças cortadas, como os autores do filme desejariam que a população brasileira fizesse. As cabeças cortadas evocam velhas cenas do cangaço. Mas como bem observou Guilherme Mello:

"No entanto, o que há de mais realista em Bacurau é sua brasilidade, construída nas referências ao passado cangaceiro do povoado. A resistência não se dá de forma 'civilizada', com passeatas de classe média gritando palavras de ordem. Ela é organizada por bandidos, assassinos, guerrilheiros, mas também por mulheres, homens andróginos, professores, trabalhadores e prostitutas (...) Não são heróis virtuosos os que resistem, não é uma resistência branca, limpa, ideológica e civilizada. É uma resistência negra, mulata, desviante, pobre e bárbara..."


A tipificação do cangaceiro como herói popular não é nova, vem do tempo de Glauber Rocha, que à falta de um bandido-revolucionário tipo Pancho Villa em nossa história, reciclou a figura do cangaceiro para este papel. De fundamento, há apenas a admiração de um populacho inserido em um meio social violento, que vê a coragem e a ousadia como valores - mesmo fenômeno que transformou em heróis cinematográficos os bandidos do velho oeste norte-americano. Mas se o zé-povinho admirava a macheza de Lampião, a recíproca nunca foi verdadeira. O Rei do Cangaço jamais teve qualquer consciência ou consideração pelos desfavorecidos, distinguia apenas aqueles que lhe eram leais daqueles que eram inimigos. O próprio Eric Hobsbawm foi reticente ao incluir Lampião em seu rol de "bandidos sociais". Já o "wishful thinking" que tipifica como revolucionários os marginais da sociedade - bandidos, desviantes, inconformistas, prostitutas - é fenômeno mais recente, consequência do abandono dos ideais revolucionários pela classe trabalhadora, cada vez mais incluída no capitalismo. Os intelectuais marxistas, então, têm procurado angariar seu novo público entre os marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, e tentam convencer-se de que os marginais farão a revolução que os trabalhadores se recusaram a fazer.

Outra mensagem que chama a atenção é a ênfase na cisão norte-sul, calcada em uma suposta cisão étnica entre um Brasil genuíno e um Brasil estrangeiro. Também é uma abordagem recente; até os anos sessenta o discurso da esquerda nacional reproduzia o puro modelo de luta de classes marxista - o país era dividido entre burgueses e trabalhadores, imperialistas e nacionalistas, e só. Conflitos étnicos e raciais eram característicos de outras paragens, sem relação com nossa idiossincrasia. Durante muito tempo esse foi o senso comum. A mudança na abordagem reflete a apropriação do discurso das esquerdas brasileiras por parte de ONG´s e "think tanks" globalistas, que desejam exportar para aqui os mesmos pontos de vista que aplicam no mundo inteiro: então devemos ser racistas e secessionistas, tal como os demais.

Um pormenor que poderia passar quase despercebido é o uso livre de drogas em Bacurau, mas Guilherme Mello percebe aí uma mensagem essencial:

"A forma liberal com que é encarada o uso de drogas não é o elemento central do filme, como algumas críticas apontam. O uso das drogas aparece como um alerta de que o enfrentamento da realidade que ameaça os direitos e a existência de parte da sociedade exige pensar para além do real. Resistir no mundo atual exige sonho, utopia e alguma dose de delírio..."


Não é novidade: desde os anos sessenta os militantes de esquerda defendem o uso de drogas como iluminador para abrir a mente a novas ideias e afrontar o convencionalismo burguês. Mas o problema é que esse consumo de drogas sustenta um lucrativo comércio que absorve aqueles lúmpen-proletários a quem os drogados sonham fazer seu público revolucionário. Até aí o capitalismo triunfa... Guilherme Mello conclui:

"A virtude não está nas pessoas, mas na utopia. E quem disse que bandidos não podem sonhar com uma sociedade mais justa?"


Realmente é preciso muita droga para acreditar que bandidos podem sonhar com uma sociedade mais justa. Mas no desolador panorama político atual, é o que a esquerda nacional pode fazer, além de produzir na tela alegorias de um país imaginário. O medo que eu tenho é que decidam permanecer em definitivo no mundo da fantasia, deixando a cena política monopolizada por uma direita canhestra.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Colonialismo Britânico e Ibérico

Uma das teses mais repetidas em minha geração foi a explicação da diferença econômica entre a América do Sul e a América do Norte: eles foram uma "colônia de povoamento", e nós fomos uma "colônia de exploração". Penso que todo o mundo que estudou comigo já ouviu isso de professores de história e geografia, e provavelmente aceitou como verdade cristalina.

As definições são autoexplicativas. Nós somos pobres porque o projeto do colonizador era apenas explorar, e não construir. Já nas colônias do norte, o propósito era povoar e construir países. Ponto. Mas o caráter raso dessas definições também fica evidente à mínima abordagem. Se não houve povoamento aqui, então de onde veio a nossa população?

Colocado assim, fica parecendo que o Brasil foi como a Índia colonizada por britânicos, ou a Indonésia colonizada por holandeses, onde já havia uma população autóctone e a presença do colonizador deu-se apenas na forma de um pequeno estrato de funcionários governamentais, técnicos e homens de negócio, que não fixaram residência definitiva. Mas é óbvio que esse não é o nosso caso. A grande maioria de nossa população descende de povoadores vindos de várias partes. Não eram apenas fidalgos que chegaram para tomar posse de cargos públicos ou sesmaria, junto deles vieram milhares de colonos despossuídos; fomos, sim, também uma colônia de povoamento. Então, se hoje somos pobres e eles são ricos, a explicação deve ser outra.

Um outro paradigma, então, foi urdido: teria havido um projeto colonial "bom", o britânico, que foi bem sucedido, e um projeto colonial "mau", o ibérico, que fracassou. O projeto ibérico era baseado em trabalho escravo, religiosidade obscurantista e governo absolutista, o projeto britânico era baseado em um ideal de liberdade e empreendorismo. Assim, o continente americano foi dividido entre os herdeiros de um projeto bem sucedido e um projeto fracassado. A dicotomia Norte X Sul aprofundou-se a ponto de implantar no imaginário coletivo a noção de duas civilizações distintas e descorrelatadas, sendo que apenas a América do Norte pertenceria ao Mundo Ocidental, e dentro dela os EUA ocuparia um papel a parte em razão de seu excepcionalismo e características únicas. A crença nesse excepcionalismo americano é arraigada tanto dentro quanto fora dos EUA, e um bom exemplo pode ser encontrado nesse artigo, onde um comentarista observa: "Os EUA foram a única nação fundada sobre um credo". Uma abordagem racial dessa dicotomia também implantou no imaginário coletivo a visão dos EUA como um mundo branco, enquanto o sul seria um mundo negro-latino, aqui entendido "latino" como a definição de uma raça sul-americana supostamente autóctone.
Mas quais são os limites deste modelo entre uma realidade política, econômica e antropológica, e aquilo que os americanos chamam um "wishful thinking", uma ideia que é agradável considerar verdade?

Penso que nunca houve, de fato, um projeto colonial "britânico" e outro "ibérico", pois de fato ambos coexistiram em várias regiões do Novo Mundo, praticados por várias potências colonialistas. O projeto "ibérico", baseado em trabalho escravo para monoculturas e mineração, é característico do sistema econômico denominado mercantilismo, que predominou entre os séculos 15 e 18, antes de ser substituído pelo capitalismo moderno (que aliás ensejaria um novo projeto colonial da parte das potências industriais, já no século 19, mas deste não fizemos parte). Foi praticado por Portugal e Espanha em todos os seus domínios, mas não só por eles. Também foi praticado pelos ingleses no sul dos EUA e em algumas regiões do Caribe, onde também foram estabelecidas colônias francesas e holandesas praticantes do mesmo sistema escravocrata. O sul dos EUA, após uma guerra que forçou sua reinclusão na União, também teve forçada sua inclusão no modelo econômico industrial e desenvolvido, mas acaso são países desenvolvidos hoje Haiti, Belize, Jamaica, Guiana Francesa e as ex-Guianas Inglesa e Holandesa?

Se a explicação não está no modelo econômico do colonialismo, então deve estar na sua qualidade. Os países hoje desenvolvidos foram povoados por colonos brancos puritanos, que traziam consigo um ideal e valores que favoreciam a liberdade e o progresso; os países do sul tiveram povoadores não-brancos e católicos, que traziam uma mentalidade de autocracia e obscurantismo religioso. Essa tese é endossada por numerosos comentaristas, tanto lá quanto aqui. Mas de novo faz-se a pergunta: até que ponto isso também é "wishful thinking"?

Mas pensando bem, o Brasil também recebeu uma boa quantidade desses povoadores brancos e protestantes, e eles de fato fizeram prosperar as regiões onde se estabeleceram. Mas os imigrantes católicos vindos de Portugal, Itália e Polônia, sem falar nos japoneses, exibiram uma ética de trabalho notavelmente semelhante. Penso, então, que esse afã de prosperar tem sua origem na condição específica do imigrante, alguém que sabe que só pode contar com seu trabalho, e não de uma raça ou religião. Os primeiros povoadores dos EUA são muito reverenciados por seu credo em fundar uma terra de livres, mas não se distinguiram particularmente pelo progresso material, mesmo porque foram prejudicados neste aspecto por suas próprias crenças utópicas. A grande maioria dos povoadores dos EUA não desembarcou lá movida por um credo, mas pelo desejo de fugir da pobreza em sua terra natal, tal como os imigrantes que aportaram aqui. Foram esses indivíduos materialistas e pragmáticos os maiores responsáveis pela prosperidade.

Do mesmo modo, também os EUA receberam escravos africanos, e sempre existiu ali uma população autóctone, seja de nativos ou de hispânicos que ali já residiam quando os estados do sul e do oeste foram tomados aos mexicanos. A dicotomia Norte Branco Protestante X Sul Mestiço Católico, a meu ver, é mesmo um "wishful thinking" construído para sustentar a crença no excepcionalismo americano. Não corresponde à realidade histórica e demográfica. Negros, hispânicos e católicos sempre existiram na América do Norte, também. Brancos e protestantes sempre existiram na América do Sul, também.

Analogamente, a dicotomia Colônia de Povoamento X Colônia de Exploração é, entre nós, uma armadilha mental para justificar nosso atraso de uma forma peremptória e inexorável. O colonialismo "bom" e o colonialismo "mau" não são peculiares de regiões geográficas específicas, mas de fato se encontram esparsos por todo o continente americano, de norte a sul, com maior ou menor concentração aqui e ali. A explicação racional para o nosso atraso é a incidência menor do colonialismo "bom", que no entanto nunca deixou de existir aqui e acolá, embora desprovido de mitos fundadores que o glorifiquem.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Laurentino Gomes e a Escravidão

Soube que Laurentino Gomes vai lançar mais um livro, na verdade uma trilogia. Desta vez o tema será o tráfico negreiro, e o escritor tem a pretensão de determinar, no histórico da escravidão, as marcas deixadas na sociedade brasileira até os dias de hoje.

"A escravidão e suas consequências ainda estão no DNA do Brasil"

Não é uma ideia nova. Joaquim Nabuco já afirmava, no final do século 19, que a escravidão ainda seria por longos anos a marca distintiva do Brasil. Não sei se o autor, que até agora distinguiu-se pelo tom leve e jornalístico em suas obras anteriores, terá sucesso nessa empreitada que exige o trabalho de um historiógrafo de raiz. Meu receio é que caia no mesmismo de outra vertente de ensaios, esta da lavra de autores mais casuais, que aponta na sociedade brasileira uma alegoria da escravidão. Esse artigo é um bom exemplo.

Os argumentos são repetitivos. O membro da classe dominante brasileira é apresentado como uma caricatura de senhor de escravo, supostamente mantendo até hoje uma mentalidade escravocrata, o que explicaria ao alto índice de desigualdade social no Brasil e a falta de empreendorismo de nossa elite empresarial. Mas como toda estereotipação caricatural, é fácil de reconhecer mas difícil de identificar. Até onde essa imagem corresponde à realidade?

O membro da "classe dominante" citada, presumivelmente é o grande capitalista. Mas enumerando os nomes de grandes empresários brasileiros da atualidade, há muitos descendentes de senhores de escravos?

Não, não há. A classe patronal brasileira é formada, em sua maioria, por descendentes de imigrantes europeus, árabes e orientais chegados aqui nos estertores finais da escravidão ou logo após a abolição. É óbvio que o sucesso que esses pioneiros tiveram estava relacionado às transformações econômicas que sucederam o fim da escravidão, sem o qual não teriam sequer mão-de-obra para suas fábricas. Esses personagens são, de fato, o oposto do senhor de escravos, atores de um cenário sócio-econômico incompatível com a escravidão.

O desfavorecimento dos descendentes de escravos em nosso quadro social é autoevidente. Mas passados mais de cem anos da abolição, até que ponto esse desfavor ainda pode ser atribuído ao passado escravocrata?

Observando nossos vizinhos que tiveram muito menos escravidão e a aboliram muito antes de nós, vê-se que o quadro social ali não é muito diferente. As diferenças sociais são marcantes e os descendentes de europeus estão em uma posição muito superior. Mas se isso não é consequência da escravidão, será consequência do racismo inerente à mesma?

Até certo ponto, sim. O racismo existe e é perceptível em várias situações da vida social e profissional dos indivíduos, aqui e em nossos vizinhos. Mas um equívoco que tenho observado muito persistente é atribuir ao racismo a diferença social entre brancos e pretos. Em um processo de seleção para um cargo bem pago, é possível que um candidato negro seja preterido em favor de um branco. Mas na maioria dos processos de seleção para cargos bem pagos, só há candidatos brancos. Os negros não chegam lá porque em geral não puderam frequentar boas escolas. Mas um branco pobre teria a mesma dificuldade.

É também frequentemente apontada a predominância de jovens negros entre as vítimas de homicídio e a população carcerária. Mas em geral os assassinos de negros também são negros, e assim como a maioria das vítimas de marginais negros. Penso que esse discurso é um esforço dar um viés racial à luta de classes marxista. Tem fundamento? Eu nunca vi jovens favelados saírem pelas ruas a agredir brancos. O envolvimento de negros com a marginalidade está obviamente relacionado ao passado escravocrata, que fez a população negra predominante nas áreas de alta criminalidade. Entretanto não é o racismo o motor dessa criminalidade, mas principalmente o tráfico de drogas.

Acredito que a falta de capilaridade social consequente da pouca eficiência de nossa economia é a verdadeira causa da alta diferença social entre brancos e negros. Uma explicação puramente econômica, que pode ocorrer em vários lugares independente de haver ou não uma grande herança da escravidão. E penso, também, que se nossos empresários são pouco empreendedores, tal não se deve à mentalidade escravagista, mas ao vício de depender do estado para fomentos, subsídios e protecionismo - este sim um traço cultural que pode ser rastreado na História, mas cuja origem não é a escravidão, mas o sistema econômico conhecido como mercantilismo, que vigorou no país até a abertura dos portos em 1808. Muitos empresários brasileiros ainda estão esperando um alvará régio que lhes conceda o monopólio em uma determinada área para atuarem, tal como acontecia nos tempos de colônias.

Falta de capitalismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A História se repete: queimadas na Amazônia

Várias vezes tenho dito aqui: o motivo mais importante de se saber o passado é obter embasamento para entender o presente. Ou seja, perceber que as notícias que parecem novidades bombásticas aos desatentos, na verdade são dejà vu. O conhecimento da História dá uma percepção de profundidade aos fatos observados, tal como naqueles antigos desenhos de silhuetas que às vezes apareciam nas páginas de recreação das revistas. A figura sombreada em duas dimensões parecia uma feiticeira mexendo um caldeirão, mas acrescida a luz e recuperada a perspectiva em profundidade, via-se que o desenho mostrava uma mulher varrendo debaixo de uma mesinha sobre um tapete redondo, e o chapéu da bruxa na verdade era um pote sobre uma prateleira em segundo plano.

A bola da vez são as queimadas na Amazônia. A percepção imediata é que se trata de uma medonha catástrofe, mas quem tem memória deve se lembrar que o mesmo alarmismo já foi repetido 10, 20, 30 anos atrás. Eu particularmente me lembro de meus tempos de escola, e lá se vão 40 anos, quando se afirmava que o Brasil desflorestava uma Bélgica por ano, ou uma Suíça, ou uma França, ou outro país qualquer. Então como explicar que hoje em dia a floresta ainda continue de pé?

Pesquisando e comparando cuidadosamente notícias ao longo desses anos, pude tirar algumas conclusões. O principal motivo do equívoco é a definição mesma do que é, e do que não é a Amazônia. O Brasil tem vários biomas, e a floresta amazônica propriamente dita se inicia ao norte de Mato Grosso e oeste de Goiás - ou ao menos tem sido assim nos últimos milhares de anos - fazendo fronteira com o cerrado e o pantanal. Verificando as fotos dos satélites que detectam as queimadas, vê-se que a maioria delas encontra-se na região limítrofe, principalmente ao norte de Mato Grosso e sul do Pará.



Ou seja, parte das queimadas, na verdade, não estão ocorrendo na região da floresta. Sem contar que podem estar sendo registradas queimadas em áreas que já foram desflorestadas muito tempo atrás, pois é sabido que é preciso repetir a queimada de tanto em tanto para se limpar o terreno. Mas não é assim que as notícias têm sido vinculadas, sobretudo no exterior, mesmo porque no imaginário dos estrangeiros a floresta ocupa o Brasil inteiro. Essa impressão ficou bem flagrante naquele conhecido episódio dos Simpsons, onde Homer é sequestrado, só que ao invés de ser levado a uma favela, seu cativeiro é na floresta amazônica supostamente localizada logo atrás do Rio de Janeiro.

O mesmo equívoco explica a notícia de que São Paulo teria tido um dia convertido em noite em razão da fumaça das queimada na Amazônia. A foto do satélite mostra o que realmente ocorreu:




Nota-se que a nuvem se move horizontalmente, vindo desde a Bolívia. A fumaça que enegreceu o céu de São Paulo presumivelmente originou-se de queimadas no Mato Grosso do Sul, Paraguai e na própria Bolívia. Sobre a mancha verde da Amazônia, não há nuvem. E basta observar o tamanho desta mancha verde para constatar que perto de 90% da floresta original ainda permanece onde sempre esteve.

Ou seja, as queimadas existem há muito tempo, mas estão longe de configurar a catástrofe que se quer mostrar. Elas não podem ser contidas porque ocorrem em uma área imensa, mas justamente por ser imensa esta área, é difícil de acreditar que a floresta terminará destruída nestes tempos de preocupações ambientalistas, sendo que em 500 anos sem preocupações ambientalistas não conseguimos destruir mais de 10% dela. O problema é que o ambientalismo se tornou uma doutrina, com suas crenças e dogmas. Posso citar aqui algumas.

O primeiro mito é a crença de que a Amazônia seria o pulmão do mundo, responsável pelo oxigênio do planeta. O verdadeiro pulmão do mundo são os oceanos, e a quantidade de oxigênio na atmosfera tem permanecido estável, A real importância da floresta está no clima.

Outro mito renitente é essa criatura gestada pelos ecologistas, o índio ecologicamente correto. Presume-se que o índio é um ser telúrico, que vive em harmonia com a natureza, portanto garantir a integridade dos territórios indígenas é garantir a integridade da floresta. Duplamente falso. O interesse dos índios em manter seus territórios é garantir para a tribo a exclusividade na exploração dos recursos ali contidos, no que, aliás, estão inteiramente certos, pois se não defenderem seus interesses, ninguém mais o fará. Os ambientalistas românticos dizem que se trata de índios corrompidos que aderiram à civilização predatória, e abandonaram seu modo de vida original. Mas tampouco seu modo de vida original jamais foi ecologicamente correto, pois sempre necessitaram caçar, pescar e derrubar árvores para construir suas malocas. É praticado até hoje na floresta um tipo de pesca que consiste em dissolver na água um veneno vegetal, que mata bem mais espécies de peixe do que aquelas aproveitadas na alimentação E é sabido que os tupis que ocupavam o litoral na época do descobrimento desde muito praticavam uma agricultura primitiva com queimadas. Sim, as queimadas são mais antigas do que se supõe. Índios nunca tiveram consciência ecológica, mas apenas consciência do que precisavam fazer para sobreviver.

Já que não podemos parar com as queimadas, devíamos ao menos entender o fenômeno dentro dos parâmetros em que efetivamente se encontra.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entre o militarismo e o parlamentarismo

Após oito meses de governo, a impressão mais marcante até agora do presidente Jair Bolsonaro é de alguém pequeno cercado de personagens maiores do que ele. E esses personagens são, em sua maioria, militares.

O que isso significa? Estamos entrando em uma nova fase de militarismo no país? É nesses momentos de dúvida que se torna oportuno conhecer a História, a fim de buscar e estabelecer paralelos com etapas do passado que parecem análogas ao presente, cabendo analisa-las e discernir o que é cíclico do que é mero dejâ vu. Os militares têm se acercado do poder desde a proclamação da república, mas sempre como uma opção revolucionária. Os presidentes militares que chegaram ao poder por eleições, dentro das regras estabelecidas, foram apenas dois e mostraram-se figuras apagadas. De resto, o último período de militarismo no país, para além da retórica anti-esquerdista, mostra pouca semelhança com o atual. Em 1964 havia uma grande expectativa de que os militares iam "consertar o país", varrendo a corrupção e a subversão. O movimento que depôs Goulart foi por muitos considerado, de fato, uma revolução, cabendo prolongar-se e deixar mudanças perenes. Sob esta óptica, os militares da época viam sua chegada ao poder não apenas como uma missão de combater a subversão, mas também a oportunidade de implementar um projeto desenvolvimentista. Ironicamente, essa propensão tornava-os mais afins do PT do que do governo atual de Bolsonaro, o qual se opõe formalmente ao desenvolvimentismo nacional-estatista e propõe o encolhimento do estado.

Na prática, o desenvolvimentismo dos militares de 1964 não era diferente do modelo anterior, oscilando entre uma vertente "nacionalista" (Vargas, Geisel) e uma vertente "entreguista" (Castelo Branco, Kubitschek). Fez sucesso nos anos 70, mas esboroou-se na década seguinte. O fracasso econômico final minou o prestígio dos militares como governantes superiores aos civis, e eles eclipsaram-se nas décadas seguintes, só voltando ao protagonismo com a última eleição. Assim encerrou-se um ciclo. Mas voltando ao início do ciclo, lá nos primórdios de século anterior, é preciso identificar qual fator elevou o prestígio dos militares e apontou-os como solução política. Esse fator foi a crença de que, em razão de não estarem vinculados a partidos e sim ao país, os militares estariam investidos de um papel de Poder Moderador, cabendo-lhes intervir nos momentos em que os poderes constituídos entrassem em conflito. Enquanto os militares exercessem essa função, o país estaria livre de impasses sangrentos e guerras civis.

A menção a um Poder Moderador reporta a outra figura histórica, o imperador Pedro II, que esteve formalmente investido deste poder tal como foi definido na constituição de 1824. Não há nenhuma semelhança entre a pessoa do ex-imperador e o atual presidente, exceto um detalhe circunstancial: Pedro II também esteve cercado, a maior parte da vida, por figuras politicamente mais influentes do que ele próprio. Assumiu o trono aos quinze anos, e por certo que meninos de quinze anos não são colocados no poder para mandar, mas para serem mandados. Em tese, seus poderes eram amplos - a constituição de 1824 não instituía um regime parlamentarista, posto que não havia nenhuma obrigatoriedade do imperador nomear um ministério obedecendo à maioria da câmara, tanto que convencionou-se chamar o regime monárquico brasileiro de parlamentarismo às avessas: primeiro o imperador indicava o presidente do Conselho de Ministros, e este indicava os nomes que o legislativo devia aprovar. Na prática, porém, o imperador tendia a referendar a corrente majoritária no momento, de modo que o regime gradualmente tornou-se parlamentarista de facto. A facilidade com que o idoso monarca foi descartado ao final de seu governo mostra bem como ele já era, então, uma figura já de todo esvaziada de poderes. Coube aos militares dar o empurrão final.

Podemos ver, então, estabelecida uma regra histórica: sempre que o chefe de estado se torna menor do que aqueles que o cercam, o país tende a se encaminhar, ou para o parlamentarismo, ou para o militarismo. A alternativa é o chefe de estado exercer uma espécie de poder moderador, do contrário se revelará descartável. O que fará Bolsonaro? Irá se eclipsar voluntariamente, e deixar o governo ser conduzido pelos que o cercam? Terá a sabedoria de moderar as correntes a sua volta que disputam o poder? Acabará simplesmente descartado, e será substituído pelo vice? Ou assumirá por fim as rédeas do governo com autoridade?

Aí já não temos que olhar para o passado, mas para o futuro.