quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Morte de Olavo e a Nova Direita

 A direita no Brasil renasceu com Olavo de Carvalho. Mas será que remorreu com a morte deste?

É fato que até poucas décadas atrás a direita brasileira parecia tão extinta quanto os antigos dinossauros. A direita política foi suprimida após a tomada de poder pelos militares em 1964, que não queriam nenhum partido político proeminente e tampouco qualquer resquício de poder civil, fosse de esquerda ou de direita. Já no terreno das ideias, durante a após a ditadura, ser direita era simplesmente ser politicamente incorreto, embora a expressão ainda não existisse. Ser de direita significava ser a favor da ditadura, da tortura, da desigualdade social, do massacre dos índios, etc. etc. Nesse deserto de ideias assentaram-se camadas de lugares-comuns repetidos pelos pretensos esquerdistas, que sedimentaram-se no senso comum.

Daí que a inesperada aparição de Olavo de Carvalho, desmontando peça por peça aquelas toscas construções ideológicas, tenha sido recebida como uma libertação para milhares de conservadores, que se viram novamente livres para expressar suas ideias sem as barreiras na novilíngua esquerdista. Houve mesmo uma euforia, e falou-se do surgimento de uma Nova Direita no país, finalmente apta a disputar o poder e romper com a hegemonia do ideário esquerdista.

E como se sabe, a direita chegou ao poder nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, o próprio Olavo de Carvalho nunca estabeleceu-se como líder político, tendo preferido cercar-se de um séquito de discípulos fiéis, porém figuras apagadas fora dos círculos intelectuais. Foi proclamado como o guru da Nova Direita e grande inspirador de Jair Bolsonaro, mas o real alcance de sua influência sobre o presidente nunca ficou claro. Ele próprio não disfarçou estar um tanto desapontado com seus supostos seguidores e com o próprio Bolsonaro, e há quem diga que ele foi traído pelo presidente. A impressão que fica é que a direita que chegou ao poder não foi bem a sonhada por Olavo e seus discípulos. Mesmo porque o ideário dessa Nova Direita sempre me pareceu de pouca utilidade para o mundo político, misturando preceitos religiosos e filosóficos um tanto bizarros. Confusa como seu mentor, que nunca teve uma formação acadêmica regular. Polemista brilhante, mas difícil de conceituar, Olavo de Carvalho obteve sua formação intelectual catando preceitos de fontes avulsas, desde altos estudos clássicos até esoterismos e superstições - por muitos anos definiu-se como astrólogo. Nunca conseguiu montar um conjunto coerente de ideias, e parece não ter sido esse o seu objetivo. Amargo, pouco empático e sem disposição para o diálogo, abusando de linguagem chula contra quem ousasse contestá-lo, tornou-se aquilo que acusava a esquerda de ser: um sectário.

Olavo de Carvalho está ligado a um momento específico da História brasileira, aquele do esgotamento e da desilusão com a hegemonia das ideias da esquerda. Não foi feito para durar. Sua morte coincide com o esgotamento da direita no país.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Presidente bom é presidente chato

Estou com saudades de Michel Temer. Não, não é piada. Se ele foi um dos mais apagados e esquecíveis personagens que já sentaram na cadeira presidencial, e inclusive a legitimidade de seu mandato foi colocada em dúvida pelos que não aceitavam o impedimento de Dilma Rousseff, por outro lado é preciso recordar que naqueles anos a situação financeira do país foi melhorando gradual e continuamente, a ponto de Jair Bolsonaro pegar o país já com uma modesta recuperação econômica. Pouco depois, como se sabe, o dólar disparou e o crescimento travou.
 
Alguém comentou que Temer deveria ter aproveitado o fato de ser um presidente impopular para tomar medidas impopulares, o que ele fez até certo ponto, mas na minha opinião deveria ter feito mais. O problema é que o antigo paternalismo vigente por aqui nas relações entre governantes e governados faz com que as pessoas acreditem que os sucessos e os fracassos de um presidente dependem de sua boa ou má vontade. Lula pegou uma conjuntura econômica favorável e vendeu a ideia de que os bons resultados eram obra de sua gestão, mas dificilmente poderá repetir a mágica se eleito agora. Como Dilma igualmente não pôde. Vendo o saco de bondades do PT esvaziado, o povo voltou suas esperanças para "o mito", sempre a procura de um salvador da pátria.
 
Michel Temer me lembra Itamar Franco, outro presidente sem carisma que assumiu após o impedimento do titular cheio de carisma. Sua melhor ideia foi reativar a produção do fusca. Mas foi também no seu período que se iniciou o primeiro planejamento econômico sério desde muitas décadas após a pior crise econômica do país. Fernando Henrique começou a gestar o Plano Real ainda como ministro de Itamar, depois tornou-se o presidente, e sua figura está indelevelmente ligada ao plano que pôs fim à hiperinflação que arruinava o país, ao passo que Itamar é mais lembrado por haver tirado aquela foto junto à modelo sem calcinha. Não sei quando a importância de Itamar será devidamente reconhecida, mas parece-me que assim como de tanto em tanto surgem umas figuras exóticas que ocupam a presidência com estardalhaço para desaparecer em seguida, também de tanto em tanto surgem umas figuras apagadas para colocar a casa em ordem.
 
Lembro-me daquele ditado dos frequentadores de estádios: o bom juiz de futebol é aquele que após o jogo você não sabe o nome. Porque se você sabe o nome, alguma coisa errada ele fez. Do mesmo odo, os presidentes mais falados são aqueles que mais desastres causaram ao país. Eu não sei o nome do síndico do prédio onde moro. Mas infelizmente sempre sei o nome do presidente do país.
 
Michel Temer para presidente!

domingo, 28 de novembro de 2021

Que Vença o Menos Odiado

Tendo sido o país incapaz de estabelecer um regime bipartidarista onde duas correntes de orientação bem conhecida se alternassem no poder sem traumas nem percalços, a exemplo das nações desenvolvidas politicamente estáveis como os EUA e a Inglaterra, a próxima eleição será disputada por candidatos personalistas, raivosos e com propostas radicalmente distintas. Nenhum deles possui maioria simples do eleitorado, mas em comum todos têm um altíssimo índice de rejeição - de onde se deduz que o próximo presidente não será escolhido entre os mais amados, mas entre os menos odiados, e seja quem for, governará tendo à frente uma oposição feroz.

Destes, o novo personagem é o ex-juiz Sérgio Moro. Não vou entrar aqui em tecnicidades quanto a sua atuação como juiz na prisão de Lula, mesmo porque não tenho conhecimento do assunto, mas me parece evidente que Moro estaria bem melhor se continuasse juiz. Sua atuação como ministro foi pífia, e sua saída do cargo foi inglória. Com certeza Sérgio Moro não conseguiu até agora ser um político competente, o que não causa estranheza, pois a atividade do político é o oposto da função do juiz. Na política, só se obtém resultado mediante negociação, e a institucionalidade é uma massa fresca sendo moldada. O juiz não negocia, impõe a sentença de forma unilateral, consoante uma institucionalidade rígida e imutável. Deduzo que se Moro for presidente e insistir em conduzir-se como juiz, ou ele será um ditador, o que é improvável, ou sua atuação será não inócua quanto foi como ministro do governo atual.

De Bolsonaro e Lula, não há muito a dizer que já não tenha sido dito. A esperança que tenho é que, na impossibilidade de termos candidatos moderados, os personagens atuais acabem se moderando por puro desgaste. Bolsonaro já está bastante desgastado, não conseguiu impor-se para além de bravatas, e se ganhar um novo mandato, só obterá êxito se rever muitas de suas posturas atuais. Lula saiu da prisão com aura de vingador, mas todos sabem que já um personagem gasto. Ainda é capaz de bravatas, como quando justificou que o líder nicaraguense Daniel Ortega possa permanecer indefinidamente no poder. Mas ele próprio por certo não ficará indefinidamente no poder, ainda mais considerando-se sua idade, e um novo governo Lula está mais para uma pálida cópia de seu notável mandato da primeira década, quando contou com uma conjuntura política e econômica muito mais favorável.

Assim, acredito que um Lula renascido em 2022 será uma versão desidratada do Lula que conhecemos. Ele poderá até permitir-se mais alguns arroubos, como dar apoio ostensivo aos velhos aliados da Venezuela e Cuba, mas ao fazê-lo estará apenas manifestando o caráter do "brasileiro cordial", por ele tão bem incorporado, para quem o que importa são os "companheiros", não importa quão questionáveis eles sejam (lembram-se de Cesare Battisti?) Mas não terá força para fazer mais do que isso, e o provável é que se valha de sua habilidade política para levar o mandato até o fim e preservar seu histórico. O Lula atual já pertence mais ao passado do que ao presente. Desperta paixões, muitos o endeusam e outros o abominam. Quanto a mim, creio que ainda se passará um tempo antes que sua figura seja vista com mais imparcialidade, e sua importância histórica seja reconhecida na dimensão correta: diferente de Bolsonaro, que se inclui mais no rol das singularidades destinadas ao esquecimento, Lula merece ser lembrado no futuro porque soube incorporar como nenhum outro de seus contemporâneos as poucas qualidades e os muitos defeitos dos brasileiros de sua geração.

domingo, 31 de outubro de 2021

Extrema Direita X Extrema Esquerda

Pelo senso comum, a próxima eleição presidencial no país será disputada entre a extrema direita e a extrema esquerda, mais exatamente entre Bolsonaro e Lula, com todas as consequências que a polarização politica pode surtir. Mas direita e esquerda são termos gastos de tanto uso. Convém averiguar o quanto ainda se aplicam ao quadro político que se desenha com as próximas eleições.

Jair Bolsonaro com certeza é direita. Fica a gosto do freguês afirmar se ele é extrema direita ou apenas direita. Entretanto, ele não saiu de um partido formalmente direitista, nem é versado em ideologias. Seu direitismo reduz-se à admiração pelo regime militar de 1964, do qual não participou em razão da pouca idade. O eleitorado de direita aglutinou-se em torno dele simplesmente porque não havia mais ninguém que se assumisse direitista no país, desde a morte de Enéas Carneiro. E a ironia é que quem matou a direita no Brasil, foi justamente o regime militar que Bolsonaro admira.

Historicamente, a direita nacional era representada pela UDN, onde pontificavam líderes como Carlos Lacerda. Mas ao tomar o poder em 1964, a segunda coisa que os militares fizeram, depois de liquidar a esquerda comunista e trabalhista, foi liquidar a UDN, justamente para evitar que esse partido chegasse ao poder. Os principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados, e os demais atirados à vala comum da ARENA, partido sem ideologia e sem força. Evidente que eliminar a direita não era o objetivo declarado do grupo que tomou o poder - eles queriam eliminar alternativas civis à presidência, independente da cor ideológica. Seu projeto era um Estado com plenos poderes, garantido pelos militares e gerido pelos tecnocratas, superministros cuja influência ia muito além do escopo de suas pastas, dos quais os mais notáveis representantes foram Delfim Neto e Mário Simonsen. Nada tão original, também era assim o getulismo da época do Estado Novo, por sua vez gestado no positivismo do século 19, que propugnava uma "ditadura republicana, racional e científica" conduzida por critérios puramente técnicos em lugar dos interesses regionais, corporativos ou meramente pessoais dos políticos profissionais.

Mas os políticos não foram banidos de todo. Diferente das ditaduras pré-segunda guerra, a polarização ideológica da guerra fria proclamava-se uma luta do "mundo livre" contra o totalitarismo comunista. Então o regime inaugurado em 1964 tinha que exibir uma fachada democrática, com corpos legislativos supostamente atuantes e ao menos um partido de oposição admitido. Para criar esse simulacro, toda a legislação eleitoral foi alterada para privilegiar rincões políticos do interior em detrimento dos grandes centros. As consequências dessa repaginação de nossa classe política se manifestaram muito além do fim do regime militar. Por este motivo a direita brasileira não se recompôs após a supressão de suas lideranças em 1964 - nunca mais surgiram líderes intelectualmente valorosos e administradores competentes como Carlos Lacerda, o que surgiu em seu lugar foram políticos provincianos e medíocres. Estou convicto de que em 1964, José Sarney não imaginava que um dia seria o presidente.

Então, no deserto da direita nacional, quem apareceu foi a singularidade de Jair Bolsonaro. Ele nunca foi um líder direitista capaz para além de um pequeno carisma. Sofre tanto da falta de disposição para o jogo político quanto da falta de poder efetivo para implantar a ditadura que almeja, e nem lá nem cá, vai produzindo sucessivos impasses, às vezes apenas por conta de uma teimosia pueril. O tempo passa, a economia trava e as promessas vão ficando no vazio.

Concorrendo com ele, há o Lula renascido da prisão. Cabe agora definir se é de extrema esquerda ou apenas esquerda. Na minha opinião, não é nem de esquerda, e ele concorda. Não o vejo sequer como petista. Lula é, simplesmente... lulista. Seu marketing pessoal sobreviveu a todas as intempéries, e desde suas origens no ABC tem demonstrado uma incrível capacidade de se reinventar. Mesmo que perdesse muitas eleições, sempre esteve em evidência. Com o PT desmoralizado por escândalos, emergiu como líder inquestionável. Não acredito que o PT teria grandes chances na próxima eleição se seu candidato não se chamasse Lula.

Direita ou esquerda, a próxima eleição será disputada entre dois candidatos que se valem de seu carisma. Ainda continuamos carentes de partidos fortes com propostas claras.

domingo, 17 de outubro de 2021

Em Tempos de Polarização

 Recebi recentemente uma correspondência que tem bem a ver com esses tempos de efervescência social e polarização político-ideológica. Refere-se a uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar publicada nas páginas amarelas da revista Veja.

Veja:

O senhor já disse que "se bacharelou em subversão" em Moscou e escreveu um poema em que a moça era "quase tão bonita quanto a revolução cubana". Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Ferreira Gullar:

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. 

Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. 

Veja:

Por que o capitalismo venceu?

Ferreira Gullar:

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. 

O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. 

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora.

É bobagem. Sem a empresa não existe riqueza. 

Um depende do outro. 

O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só o explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo seja inerentemente bom. 

O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções. 

O capitalismo é forte porque é instintivo. 

O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. 

O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhares de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. 

É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. 

Não tem cabimento.

Sabemos que o comunismo seduziu mais de uma geração de intelectuais brasileiros, mesmo quando já era uma ideia abandonada em seu local de nascimento, e serve ainda hoje para atiçar o debate político, bem como de espantalho para se acusar os adversários. É oportuno procurar explicar a evolução peculiar dessa ideologia em nosso ambiente. Ferreira Gullar é um personagem bem adequado para essa discussão, pois ele viveu intensamente um período de nossa História, aderiu com fervor à utopia comunista na época em que ela cortejava nossos intelectuais, bem como soube admitir honestamente e compreender os motivos do fracasso daquela utopia.

A idade dourada da utopia comunista no Brasil e em outros países de quadro histórico e social similar foi o produto de um hiato em nosso desenvolvimento comparado com a Europa da revolução industrial. Ali o comunismo nasceu do momento histórico específico: boa parte da força de trabalho alocada no ambiente fabril, onde eram sobre-explorados mas exerciam as mesmas funções, trabalhavam nas mesmas fábricas e residiam nos mesmos bairros operários, então podiam reunir-se, organizar-se em torno de reivindicações comuns e parecia fazer sentido uma tomada do poder pelos trabalhadores - afinal, o mundo tal como eles o viam parecia resumir-se a patrões e trabalhadores, os primeiros em posição de poder e os segundos subjugados, bastando portanto inverter esse jogo para escapar à exploração.

Mas por aqui a industrialização foi lenta, e a utopia comunista entrou trazida em sua maioria por intelectuais, e não por trabalhadores. Quando se estabeleceu, o quadro industrial sombrio da época da revolução industrial já havia desaparecido do mundo desenvolvido, sem nunca haver aparecido de todo aqui. Daí que a utopia, entre nós, tenha vicejado justamente no momento em que fenecia em seu nascedouro, na época da Guerra Fria, quando o comunismo era visto como ditadura e opressão no mundo desenvolvido. Mas aqui, onde o capitalismo não havia trazido a mesma pujança, parecia uma alternativa viável, que qualquer um podia idealizar como quisesse. Foi assim que o comunismo tornou-se "o ópio dos intelectuais", contraposto ao "ópio do povo", como Marx descrevia as religiões.

Marx viu o mundo de seu tempo, marcado pela polarização Trabalhador X Empresário, e criou a sua teoria extrapolando aquele quadro social para o passado, até o início dos tempos (toda a História nada mais seria do que Luta de Classes) e também para o futuro, até o fim dos tempos (a tomada do poder pelos trabalhadores pondo fim à Luta de Classes e ao próprio Estado). Mas aquele quadro social que Marx via era peculiar ao presente do século 19 europeu, e não à História como um todo. Por isso suas predições não se cumpriram. Ferreira Gullar apontou corretamente a falha maior da teoria marxista, a crença de que o empresário seria um parasita que se apropria do trabalho alheio (a mais valia). Assim, pensava Marx, a eliminação desse parasita significaria abundância, pois o trabalhador passaria a usufruir da totalidade do resultado de seu trabalho.

Não foi o que aconteceu. O nível de vida dos trabalhadores encolheu ao invés de aumentar nos países comunistas. Isso porque o operário é apenas um componente solto da máquina, que sozinho de nada vale, e cabe ao empresário montar a máquina, alocando os operários e dando-lhes uma função. Portanto, o empresário não é uma excrescência, mas exerce uma função essencial de comando e gerência - ele pode até ser eliminado, mas a função que ele exerce não pode ser eliminada, outro alguém terá que exercê-la. Nos países comunistas esta função foi exercida pelos comissários do partido, que tinham uma vida privilegiada tal como os antigos patrões, solapando a utopia de um governo de trabalhadores onde todos teriam igual participação. Como o acesso ao alto comissariado do partido era muito mais restrito do que o acesso à antiga classe empresarial (pois requer apadrinhamento e contatos políticos, enquanto há abundantes relatos de pessoas comuns que se tornaram grandes industriais sob o regime capitalista) redunda que a gestão desses comissários é muito menos eficiente do que a gestão do empresário. Há muito menos estímulo ao trabalho, e portanto muito menos produtividade.

O capitalismo não é justo, mas é compatível com a natureza, que tampouco é justa. O capitalismo não é uma ideologia, mas um método, e foi gestado no dia-a-dia de pessoas comuns, e não nas mesas de filósofos ou militantes. Como pode um sistema cujo objetivo não é a justiça, produzir abundância? Como é que poucos donos dos modos de produção vão querer produzir para muitos? O segredo está no Livre Mercado. Os trabalhadores são a grande maioria dos consumidores, e produzir muitos itens baratos para os pobres sempre rendeu mais do que produzir poucos itens caros para os ricos. Afinal, é a Volkswagen a dona da Rolls-Royce, e não a Rolls-Royce a dona da Volkswagen, e é a Fiat a dona da Ferrari, e não a Ferrari a dona da Fiat. Desde os primórdios da revolução industrial, a maioria dos produtos das fábricas destinava-se ao consumo dos trabalhadores, e não dos ricos - assim, ao mesmo tempo em que eles eram sobre-explorados por seus patrões, o custo de vida baixava para eles. Não é verdade que a pobreza do século 19 fosse pior que a pobreza do século 18 pré-industrial, ela apenas tornou-se mais visível, posto que era uma pobreza urbana, podendo sensibilizar intelectuais como Marx e escritores como Dickens.

Por aqui, nossos modelos de industrialização no passado não deram os resultados esperados porque foi uma industrialização orientada pelo Estado, e não pelo Mercado - importações proibidas e empresas nacionais produzindo para empresas estatais, sem concorrência, formando assim o conhecido conluio entre políticos e empreiteiras. Enfim, para nossos empresários, a fórmula do sucesso não era a boa qualidade nem o bom preço, mas sim o bom relacionamento com os círculos do poder. Diferente do que aconteceu nos novos países industrializados da Ásia, como a Coréia do Sul, que desde o início direcionaram sua produção para a exportação. Por este motivo não se pode alegar que "se o comunismo não deu certo, tampouco o capitalismo deu certo no Brasil". O capitalismo nunca foi tentado em sua plenitude por aqui.

Resta saber se agora vamos superar essa polarização anacrônica em nosso debate político.

domingo, 26 de setembro de 2021

Paulo Freire, o responsável pelo desastre de nossa educação?

Nenhuma personalidade esteve mais na berlinda nos últimos anos do que o educador Paulo Freire, proclamado patrono de nossa educação em 2012. Seus detratores afirmam que levando em conta os desastrosos resultados obtidos pelos estudantes brasileiros em todas as avaliações, Paulo Freire é um adequado ocupante de tal posto. É acusado de ser o maior responsável pelo fracasso de nossa educação. Agora, em seu centenário, tem recebido diversas homenagens. Herói ou vilão?

Vou expressar minha opinião desapaixonada. Não acredito que Paulo Freire seja o responsável por nosso fracasso educacional. E nem poderia ser, por uma razão cabal: ele não é um educador, e sim um filósofo. Vão dizer, mas ele tem um método. Sim, mas o método a ele atribuído destina-se à alfabetização de adultos, não é de uso geral. Sua obra magna, Pedagogia do Oprimido, não cita nenhum educador, mas apenas líderes revolucionários. Não tem nenhuma utilidade prática em pedagogia ou didática. Enfim, Paulo Freire é um personagem arcano, bom para receber títulos honoris causa e citações elogiosas - e nada além disso. Os maus resultados de nossos estudantes têm outras causas, mais prosaicas e diversas, desde a falta de condições de trabalho de nossos professores até o mau estado das escolas.

Mas se não é o responsável pelo fracasso de nossa educação, Paulo Freire é o responsável pela aceitação resignada deste fracasso, em razão do desprestígio da figura do professor e do próprio ato de educar, trazido pelas ideias que disseminou. Ao conferir um significado político ao ato de educar, Paulo Freire vendeu a noção de que a principal finalidade do professor não seria ensinar a matéria, mas "formar cidadãos" - conceito subjetivo que cada um interpreta como quiser. Então, qual é o problema das notas estarem baixas, se a real finalidade da educação não é essa?

Com seu edifício de teorias construído em um mundo onde só há oprimidos e opressores, Paulo Freire deu o papel de opressor ao professor que tenta ensinar, mais precisamente, ao professor que tenta passar conhecimentos ao aluno - atitude condenável de quem vê o aluno como uma conta bancária que recebe depósitos, o que denominou "educação bancária", própria do opressor que tenciona replicar na geração seguinte a mesma sociedade injusta da qual supostamente é beneficiário. Segundo essa abordagem, o aluno não sabe menos que o professor, mas ambos têm saberes diferentes, tampouco existe aluno mau ou aluno bom, apenas pontos de vista distintos.

Desta forma fica impossibilitada qualquer hierarquia de autoridade que permita ao professor impor disciplina e transmitir o que sabe ao aluno que não sabe, bem como invalidado qualquer tipo de avaliação que permita premiar o aluno capaz e esforçado. Foi aberto assim o caminho à nefasta aprovação automática, implementada por Freire, já que reprovar seria um ato de opressão, mas motivada pelo propósito mais pragmático de zerar as estatísticas de reprovação. Até o bom uso do idioma foi demonizado, posto que a norma culta seria uma imposição do opressor, e a maneira de falar do inculto - o oprimido - supostamente é tão boa quanto. Desnecessário frisar que o mau domínio do idioma dificulta o aprendizado de qualquer conteúdo mais complexo.

Somente abandonar as ideias de Paulo Freire não fará a nossa educação sair do buraco. Mas permitirá ao menos enxergar este buraco, e restaurar o papel correto do educador e do educando permitirá ao menos enxergar a direção a seguir. 

domingo, 5 de setembro de 2021

O Sete de Setembro de Jair Bolsonaro

O Sete de Setembro costuma ser um feriado morno, com manifestações esquematizadas, o tradicional desfile. Afinal, a independência do país é um dos raros eventos históricos sobre o qual há unanimidade: alguém aí é contra a independência? Mas o deste ano promete surtir um efeito extra, em razão das manifestações programadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

O fenômeno já é conhecido: de tanto em tanto surgem personagens improváveis em nossa História, tipo corpos estranhos ao sistema, que cruzam o céu da política em uma trajetória meteórica, chegam ao ápice e logo depois desaparecem de forma inglória. O primeiro foi Jânio Quadros, fenômeno eleitoral que governou por sete meses e renunciou tentando um golpe que fracassou. O segundo foi Paulo Maluf, que furou a cena da sucessão que deveria ser controlada pelo presidente Figueiredo como era praxe do regime, mas seus colegas de partido preferiram implodir o partido a abrir caminho para o arrivista. O terceiro foi Fernando Collor, que de um partido nanico saltou para a presidência com um rosto jovem e um currículo antigo, e terminou impedido após provocar a pior crise econômica da História. Em comum, todos tinham um caráter de homem-forte independente dos clãs políticos tradicionais, um discurso bombástico e um posicionamento inclinado à direita. E todos foram expelidos como corpos estranhos ao organismo político nacional.

Eis que surge um quarto personagem com precisamente tais características. Fica no ar a pergunta: será que desta vez vai dar certo? O golpe que Bolsonaro arma para o sete de setembro vai triunfar onde falhou o golpe da renúncia de Jânio? Bolsonaro vai ser bem sucedido onde Maluf falhou ao obter o apoio de sua base aliada? Seus planos econômicos vão dar certo onde o confisco da poupança de Collor fracassou?

Pessoalmente não acredito. Todo fenômeno político que se repete termina banalizado, pois o roteiro torna-se por demais conhecido - primeiro acontece como tragédia, e depois se repete como farsa. E já é o quarto re-play. O próprio dia escolhido carrega algo de farsesco: a real data da independência do Brasil não foi o sete de setembro, mas o conhecido "dia do fico", pois desde aquela data o imperador já se encontrava formalmente rompido com o governo metropolitano. O sete de setembro foi escolhido posteriormente para simbolizar a independência, mas a sequência de eventos teria acontecido de qualquer maneira, independente do que Dom Pedro fizesse ou deixasse da fazer naquele dia. A partir daí toda uma mitologia foi erguida em torno da data, a começar pelo suposto grito. Os professores de História não deixam de lembrar que o imperador só parou às margens do Ipiranga porque estava com uma diarreia. Outros dizem que Dom Pedro estava indo a São Paulo só para se encontrar com sua amante, sendo que o imperador nem conhecia dona Domitila na ocasião - veio a conhecê-la nessa viagem por acaso. Querendo a todo custo achincalhar com o país, passam a mensagem de que a independência foi algo tão fortuito que aconteceu graças a uma indisposição intestinal e a uma pulada de cerca.

Com tanta farsa no ar, não dá para levar muito a sério este sete de setembro de Bolsonaro. Vou pagar para ver. Minha aposta é que a diferença entre Bolsonaro e os três aventureiros que o antecederam, será que ao contrário destes, Bolsonaro vai terminar seu mandato. Nada além disso.