segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O ponto a que chegamos

A eleição foi ontem. Por toda parte os comentaristas trombeteiam: nunca antes neste país houve situação de tal polarização política! Eu concordo. Mas o estudo da História serve para isso mesmo: só sabendo o passado podemos entender o presente e prever o futuro. A História se repete? Não integralmente. Disse Oscar Wilde, a História não se repete, são os historiadores que repetem uns aos outros...

Mas quem leu meu último artigo não pode deixar de perceber uma flagrante analogia entre o que aconteceu na Alemanha dos anos trinta e o que aconteceu ontem no Brasil. Conforme eu mesmo levantei, uma maneira da extrema direita chegar ao poder é através do vácuo aberto por um partido centrista que colapsa. Na República de Weimar, foi o partido social-democrata; no Brasil do presente, foi o PSDB.

O desmoronamento do PSDB é um fenômeno ainda a ser desvendado com exatidão. Esse partido, que lançou o Plano Real, foi o responsável pela transição do país do século 20, com seu modelo nacional-estatista esgotado, para o país do século 21, onde estamos agora. Como uma agremiação que teve tal importância histórica pode terminar tão melancolicamente? A meu ver, o PSDB relutou em aceitar o papel que a História reservava para ele, o de compor um bipartidarismo com o PT e proporcionar estabilidade política ao país. O PSDB, com sua herança da Era FHC, tinha tudo para ser um contraponto liberal à social-democracia do PT, mas deliberou renegar seu passado e tentar um retorno tardio a suas raízes social-democratas, esquecido que esse escaninho já estava ocupado pelo PT, e ninguém vai querer a cópia se pode ter o original. Tivesse perseverado no caminho traçado desde 1994, o PSDB com certeza não teria sido capaz de vencer o PT em 2006 e 2010, mas permaneceria íntegro para o eleitorado liberal, e seria capaz de triunfar em uma eleição futura quando a esquerda estivesse em baixa. Mas ao invés disto, desmoralizou-se com sucessivas derrotas. Deve ser lembrado que a real causa da desmoralização não é a derrota em si - Lula foi derrotado em 1989, 1994 e 1998, e só se fortaleceu - mas o abandono de seus ideais.

Desprezada a escolha segura, que permite repetir o passado, fica aberto o caminho para aventureiros e arrivistas. O desalento das massas pode explicar o momento que estamos vivendo. Relembro um artigo que escrevi tempos atrás, comparando o modelo de quatro castas hindu - sacerdotes, guerreiros, comerciantes e trabalhadores - com a evolução dos tipos de governo através da História: teocracia, reinos, repúblicas democráticas. O sentido normal é esse, mas em momentos de crise política, moral ou espiritual, a população pode ansiar pelo retorno ao estágio anterior. Quando o governo de líderes militares nacionalistas parece fracassar, o povo sente a nostalgia do tempo em que era governado por pios líderes religiosos - no mundo atual, esse fenômeno foi observado na eclosão do fundamentalismo islâmico, que é o retorno do governo da casta dos guerreiros para a casta dos sacerdotes. Quando o povo se sente desiludido com seus políticos corruptos e medíocres, vem a nostalgia de um tempo em que os governantes eram varonis e se pautavam por uma ética de guerreiros - é a volta do governo da casta dos comerciantes para o governo da casta dos guerreiros. É precisamente nesse estado de espírito em que estamos o presente. O passado do governo militar instalado em 1964 tornou-se mítico, e ainda há os que desejam o retorno a um estágio ainda mais pregresso, o governo dos sacerdotes, no caso, os pastores evangélicos.

Mas o contexto histórico atual é outro. Não há justificativa para um governo sustentado pela força militar, pois a guerra fria terminou, não há mais guerrilhas nem inimigo armado a combater. As possibilidades que temos até o segundo turno são mesquinhas. Se Haddad vencer, sem ter o apoio deste congresso maciçamente conservador, ele apenas passará de pau-mandado de Lula para refém de sua base: terá que ceder, ou o país permanecerá no mesmo impasse em que se encontra desde 2014. Se Bolsonaro vencer, ele não terá apoio para reeditar a ditadura dos generais, mesmo porque generais não gostam de obedecer a um capitão. Periga ter o mesmo fim de Collor de Mello. Não digo que terá que se reinventar, terá mesmo que se inventar, pois as frases de efeito que fazem sucesso nos palanques de nada valem para governança. Se tiver juízo, moderará o palavreado e se concentrará na economia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Falácia Ad Hitlerum

Mas como? Eu, que nem historiador sou, me atrevo a escrever sobre Adolf Hitler, possivelmente o personagem mais notório do último século, sobre o qual já foram escritas dezenas de biografias com centenas de páginas? Tenho a pretensão de adicionar algum dado que ainda não tenha sido debatido?
Não pretendo escrever exatamente a respeito da pessoa de Adolf Hitler, sobre o qual, aliás, li pouco, mas li coisa interessante. Tenho uma predileção por livros finos e pouco conhecidos, convicto que estou que nenhum autor precisa de muitas páginas para expor uma conclusão sucinta que tenha escapado aos autores que escreveram muitas páginas. O livro que gostei chama-se Um Tal de Adolf Hitler, de autoria de uma tal de Sebastian Haffner, que é um jornalista, e não um historiador. Ele procura decifrar as singularidades de Hitler e do nazismo observando as diferenças entre ele e outros grandes líderes do mundo ocidental, bem como as semelhanças entre o nazismo e o comunismo, ambos florescidos na mesma época.

"O pai de Adolf Hitler percorreu sua vida em ascensão. Apesar de filho ilegítimo de uma criada, conseguiu alcançar um cargo elevado no funcionalismo público, morrendo honrado e respeitado. O filho começou a vida em declínio. Não terminou o colégio, foi reprovado no exame de admissão para a Escola de Belas-Artes... A vida de Adolf Hitler carece de tudo o que normalmente dá peso, calor e dignidade à existência de um homem: cultura, profissão, amor, amizade, casamento, paternidade..."
Se alguém encontrar esse livro em algum sebo, recomendo que o compre. Mas o meu interesse agora por este tema diz respeito ao impacto que o nazismo ainda apresenta no mundo atual. De fato, com frequência lemos por aí ataques a líderes políticos repugnantes comparando-os a Hitler, bem como regimes políticos repugnantes sendo comparados ao nazismo. Chama-se isso falácia Ad Hitlerum, termo cunhado pelo filósofo político Leo Strauss. Adicionado à conhecida coleção de falácias da retórica, consiste de uma argumentação que visa desqualificar um oponente de forma irremediável e irreversível.

Pelo senso comum, faz sentido. Na História Universal, não há expoente de malignidade maior do que Hitler, o vilão máximo. Mas se há tantos hitleres soltos por aí, então isso é um sinal de que Hitler não está morto. Parece existir um temor coletivo de que o nazismo possa ressurgir subitamente. Quem vive a época atual sabe do que estou falando, e por época atual não me refiro a mês e dia, mas a toda a época, mesmo. Os hitleres mudam de nome e os nazismos mudam de endereço, mas há sempre um por aí a ser denunciado.

Não se pode suprimir um medo sem entender sua origem. O que foi, exatamente, o nazismo? Ainda há algumas pessoas vivas que testemunharam aquele período, mas para as gerações recentes, se comparado com o mundo atual, parece uma época tão distante quanto a Idade Média, e Hitler parece um personagem tão obscuro quanto um Gengis Khan. Se assistimos um documentário e visualizamos imagens, prova cabal do que ocorreu naquela época, o contraste com o mundo atual é tão impactante quanto o contraste da antiga fotografia em preto-e-branco com a moderna fotografia a cores. Se as imagens são colorizadas, parecem um filme de ficção, do tipo dos seriados de terror e ficção científica encontráveis na TV a cabo. Sabemos que guerras e massacres ainda ocorrem em determinadas partes do mundo, mas não na Europa, tida como um lugar refinado e ordeiro, sendo a Alemanha um lugar particularmente refinado e ordeiro, e já era assim antes dos eventos que originaram o nazismo. Como aquilo tudo pôde ocorrer em um local que é o paradigma do mundo civilizado? Como um país tão evoluído quanto a Alemanha pôde ter um líder como Hitler?

O incômodo dessas questões é: se aconteceu aquilo com eles, que eram tão bons, então quem garante que não possa acontecer conosco? E se aconteceu uma vez, quem garante que não pode acontecer de novo? Incapazes de determinar as origens do fenômeno, ficamos com a suspeita de que o nazismo ainda está entre nós, insidiosamente incubado e pronto a ressurgir, mesmo que seja na figura de um exótico candidato a presidente. É o momento ideal para uma reflexão, procurando entender o que realmente foi o nazismo, e afastar certas pressuposições que erguemos como barreira contra constatações atemorizantes.

A primeira dessas pressuposições é a crença de que a doutrina nazista está circunscrita à Alemanha e à pessoa de Hitler. Mas está havendo aqui uma amnésia coletiva. A noção de superioridade racial era corrente no início do século 20, e no século anterior fora objeto de enunciados pretensamente científicos por vários pesquisadores que não eram "nazistas" no sentido em que essa palavra adquiriu posteriormente. A crença de que a raça deveria ser melhorada por políticas públicas, denominado eugenia, era considerada respeitável. É verdade que seus seguidores não pregavam o extermínio de quem já nasceu, e sim evitar o nascimento de indivíduos considerados degenerados, mas a mensagem implícita é a mesma: raças e indivíduos inferiores devem ser levados à extinção. Diversas práticas eugênicas já vinham sendo implantadas por países desenvolvidos, e isso era visto como progresso; não levavam pessoas para câmaras de gás, mas em muitos casos pessoas eram esterilizadas sem o seu consentimento.

Enfim, não foram os nazistas que inventaram a doutrina da superioridade racial, o que eles fizeram foi colocá-la em prática. Após o trauma gerado pela descoberta dos campos de extermínio nazistas, esses conceitos caíram em desgraça e estabeleceu-se a amnésia coletiva que impede de perceber que não foram os nazistas seus inventores.

E tampouco foram os nazistas que inventaram os campos de concentração. Já havia campos de prisioneiros com essas características na Rússia em 1918, criados pelos bolchevistas. Mas os introdutores do conceito foram os britânicos durante a Guerra dos Boers, tendo sido criados campos na África onde eram aprisionadas famílias inteiras.

A segregação de raças, a proibição da miscigenação e do contato físico entre indivíduos de raças diferentes já vinha sendo praticada nos EUA desde o século 19, amplamente amparada na legislação, e prosseguiu até bem depois da derrocada nazista.

O nazismo não foi a invenção de um gênio maligno. Seus preceitos, embora renegados na época atual, fizeram parte da bagagem de crenças e práticas das nações mais evoluídas do mundo ocidental em época recente. Daí que, por mais absurdo que tenha sido, ainda parece familiar hoje. Recentemente houve uma discussão em torno de um vídeo divulgado pela embaixada alemã, questionando se o nazismo teria sido um movimento de esquerda, e não de direita. Parece estapafúrdio, mas a questão esconde um mal entendido: o nazismo é, obviamente, de direita. Mas a direita e a esquerda do início do século 20 derivavam do mesmo fenômeno social e disputavam o mesmo público de proletários, intelectuais descontentes e inconformistas em geral. Na época presente convencionou-se que direita é sinônimo de conservadorismo, mas os regimes fascistas que brotaram a partir da década de vinte nada tinham de conservadores. As imagens evocadas ainda hoje pelo nazismo trazem multidões, bandeiras, fanfarra, operários e estudantes desfilando uniformizados etc. etc. Impressiona o entusiasmo da juventude, bem como o fato de que quase todos os líderes nazistas recém-chegados ao poder eram jovens na faixa dos 30 anos, inclusive o próprio Hitler.

Fascismo e socialismo emergiram do mesmo contexto de revolução industrial, expansão do proletariado, nacionalismo e rivalidade entre potências colonialistas. Pregavam a superação tanto do sistema político quando do sistema econômico vigentes em favor de um regime de partido único e um líder carismático. Como diferença básica, o socialismo era internacionalista (união dos proletários contra os burgueses) e o fascismo era nacionalista (confundindo os conceitos de raça e nacionalidade), mas de resto ambos eram muito semelhantes em seus ritos e métodos. Basicamente antiliberais e anticapitalistas, preconizavam o Estado no comando da economia e da vida privada dos cidadãos.

O fascismo nunca foi um regime de elites econômicas, como se acredita hoje; era um regime apoiado por organizações de massa que em determinado momento conquistou o apoio dos grandes empresários, que consideraram-no uma alternativa ao comunismo. O verdadeiro oposto do fascismo não é o socialismo, mas o liberalismo, e no caso do nazismo, isso fica claro no próprio nome: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mas o parentesco entre as duas correntes políticas pode ser deduzido também da história pessoal de figuras notáveis da direita, que em sua juventude foram socialistas, inclusive o próprio Benito Mussolini. No poder, o nazi-fascismo não eliminou a burguesia como fez o comunismo, mas colocou-a a serviço do Estado (na prática os fascismos criam uma burguesia para uso próprio, seja favorecendo empresários amigos ou enriquecendo seus próprios acólitos, ao mesmo tempo em que perseguem e expropriam os burgueses não cooptados).

Então, não é estranho que o nazismo nos pareça familiar quando observamos certos líderes, partidos e regimes ao redor. A pergunta é: pode surgir novamente em nossa história? Afinal, já tivemos simpatizantes do nazismo no passado. Para responder essa pergunta é preciso verificar se além das ideias, também as condições sociais daquele momento podem repetir-se. Na Alemanha dos anos vinte havia multidões de ex-soldados, gente que não tinha emprego, mas tinha disciplina e sabiam usar armas. Foram esses indivíduos que engrossaram as organizações de massa e paramilitares do partido nacional-socialista. O exemplo que temos mais próximo de nós é o da Colômbia, onde uma longa guerra civil deixou uma multidão de combatentes que tampouco têm empregos, mas sabem usar armas, e vem integrando tanto grupos guerrilheiros quanto bandos armados de traficantes.

Por aqui não temos essa disponibilidade de massas que possam integrar grupos paramilitares antes de migrar para bandos criminosos. As que temos já foram direto para bandos criminosos. Mas convém lembrar que em sua época, o partido nacional-socialista alemão, ao mesmo tempo em que armava seus militantes, concorria a eleições e aumentava sua representação no parlamento. Para isso valeu-se do colapso do partido centrista, o social-democrata da classe média conservadora, para tomar o poder de forma quase anestésica, dentro do quadro de legalidade ainda vigente. Durante a chamada República de Weimar, o partido social-democrata manteve um equilíbrio precário sustentado pelos conservadores, enquanto os descontentes se dividiam entre o partido comunista e o nacional-socialista. Quando os comunistas começaram a bandear-se em massa para o nacional-socialismo, a balança se desequilibrou, e o resto da história todos conhecem.

A História mostra, portanto, que um modo pelo qual o nazismo pode alcançar o poder é introduzindo-se pela fenda aberta com o colapso de um partido centrista. Resta saber se essas condições podem se fazer presentes um dia entre nós.

Ou se tudo não passa de falácia Ad Hitlerum.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Orgulho Negro X Orgulho Branco

Não dá para fugir ao assunto, faz parte do espírito da época. Eu não sei dizer exatamente quando começou esta abordagem racialista dos problemas brasileiros, aqui onde antes era senso comum que o nosso problema não era o racismo, mas a desigualdade social. Mas com certeza é um produto da globalização. À medida em que os espaços se encurtam, aumenta o estranhamento entre as raças. O que sei com certeza é que a expressão Orgulho Negro se tornou corriqueira, reverberada em camisetas onde está escrito: 100% negro.

Por este motivo vi com preocupação o surgimento da expressão Orgulho Branco, que nunca antes tinha ouvido, e camisetas com a inscrição 100% branco. Pareceu-me estar surgindo uma reação contra o orgulho racial negro, capaz de fomentar, enfim, o racismo que tanto se esforçam em denunciar. Mas é difícil negar legitimidade a essa reivindicação. Se eles podem proclamar o orgulho de serem negros, nós podemos proclamar o orgulho de sermos brancos, certo?

Por acaso deparei-me com a primeira refutação lógica deste axioma. Um blogueiro explica porque as demais expressões de orgulho não são racismo, e apenas a expressão de orgulho branco é.



Preto = herança cultural africana
Mexicano  = herança cultural mexicana
Asiático = herança cultural da Ásia
Muçulmano = herança cultural e religiosa
Branco = cor da pele

Assim, explica Robert Gonzales, celebrar orgulho italiano, irlandês, mexicano, alemão, espanhol, é celebrar uma herança cultural que não pertence a uma raça específica. Celebrar orgulho branco é celebrar somente a cor da pele, pois não existe uma herança cultural branca, posto que os povos europeus pertencem a várias culturas. Faz sentido. A fusão dos conceitos de raça e cultura é um equívoco atroz, e detestável, pois implica que alguém de uma raça específica deve obrigatoriamente ter uma cultura específica, e uma cultura específica não pode ser abraçada por alguém de outra raça. As consequências nefastas desta linha de pensamento estão bem visíveis na história recente.

Quanto a mim, nunca pensei em sair por aí com uma coisa tão idiota quanto uma camisa escrito 100% branco, mas também penso aqui comigo: na África existe somente uma cultura? Não será simplismo, ignorância ou meramente racismo afirmar que todo indivíduo de tez escura deve obrigatoriamente ter as mesmas crenças, os mesmos valores, enfim, a mesma cultura?

E mesmo dentro das fronteiras de um único país, é obrigatório que exista somente uma cultura? O México, por exemplo, compartilha uma vigorosa cultura dos povos ancestrais e uma herança espanhola do colonizador. A que exatamente se refere a expressão Orgulho Mexicano? Se o dito orgulho não se refere a um único país, mas a toda uma região, a expressão torna-se mais vaga ainda: o que significa Orgulho Asiático? Na Ásia só existe uma civilização? Se os europeus reconhecem múltiplas civilizações em seu continente de origem, a ponto de não possuir sentido cultural a expressão Orgulho Branco, então por que reconhecem uma única cultura em toda a Ásia? Não haveria aí uma generalização simplista de fundo racial, tipo todo indivíduo de olho amendoado é a mesma coisa?

Esse discurso racialista que permeia a época atual parece-me mais uma cortina de fumaça que impede de ver com clareza os contornos de povos, civilizações e crenças.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O país que odeia seu passado

O incêndio que destruiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista não foi exatamente uma surpresa. O estado precário dos museus brasileiros é coisa antiga e bem conhecida, e só nos últimos anos já houve outros dois incêndios em São Paulo. Além do que, incêndios têm sido uma especialidade dos edifícios sob a administração da UFRJ, já houve o da antiga faculdade da Praia Vermelha, e um no próprio prédio da reitoria. Mas o bate-boca e a troca de acusações que se seguiu chamaram minha atenção. Alguns responsabilizaram o governo atual, por sua política de cortes e sua PEC que congelou gastos. Mas outros lembraram que o museu já vinha sofrendo cortes desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, que aliás foi quem colocou Temer na vice-presidência.

Tanto os primeiros quanto os segundos estão com razão. E quando dois contentores têm razão em uma polêmica, dá para suspeitar que a verdadeira explicação é bem outra, ou como se diz, o buraco é mais embaixo.

Eu penso que deve ser reconhecido o seguinte: o Brasil é um país que odeia seu passado E consoante com esta diatribe, desdenha de tudo que remonte ao passado, seja os vestígios materiais conservados nos museus, seja a própria memória coletiva. Concomitantemente, exibe uma idolatria babosa e injustificada por seu futuro - o Brasil é o país do futuro, não é? Viva a juventude!

A expressão material deste desprezo pelo passado combinado com a celebração do futuro pode ser vista, de um lado, no estado lastimável do Museu Nacional, e do outro, no novíssimo e reluzente Museu do Amanhã, que custou aos cofres públicos muitas vezes o valor da manutenção anual do museu das velharias. Eu estive lá tem dois anos, só para conferir. Não me pareceu um museu, ou pelo menos, nada que tivesse mínimo valor científico. Era mais uma sala de exposição de artes plásticas, reverberando umas tantas platitudes e lugares-comuns do discurso globalista para "salvar o planeta". Kitsch e presunçoso, construído no auge da euforia vivida pelo estado no boom das commodities, de certa forma pressagiava a vertiginosa queda que viria em seguida, queda esta fechada com chave de ouro pelo incêndio de nosso museu mais antigo.

Mas por que odiamos tanto nosso passado? Penso que é porque fomos ensinados que nosso passado é mau. Fomos colônia, como se diz, colônia de exploração; massacramos índios, tivemos escravos, tivemos ditadura, nossos personagens históricos foram uns canalhas, etc. Enfim, nosso passado é um carma vergonhoso de que temos que nos livrar, e por isso qualquer reverência ou celebração do passado é contraproducente. Temos que olhar para o futuro, que acreditamos ser promissor, embalados por uma série de argumentos pueris, que vão desde supostas qualidades de nosso caráter até a grandeza de nossos recursos naturais. Outra vertente de nossa repulsa ao passado pode ser contemplada em nossa mania de estar sempre reformando a língua - quantas reformas ortográficas já não fizemos nos últimos 80 anos? Estamos sempre querendo expurgar de nossa cultura qualquer traço herdado da civilização do colonizador e afirmar uma brasilidade original, voltada para o futuro. Só conseguimos desorientar cada vez mais quem tenta aprender a escrever.

Odiar o passado é odiar a nós mesmos, pois bem ou mal, feio ou bonito, somos o produto de nossa História. Quem ignora o passado não pode entender o presente, e quem não entende o presente não pode moldar o futuro. Sem museus que nos mostrem a evolução das coisas, não percebemos para onde estamos indo. Sem passado, o futuro se reduz a um burburinho de ecos dos discursos da moda, um eterno presente que só faz repetir o passado que não nos preocupamos em registrar. Ironicamente, só chegaremos ao futuro que almejamos no dia em que nos reconciliarmos com nosso passado.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

FHC e a História

Vale a pena ainda falar de Fernando Henrique Cardoso?

Eu penso que vale. Mesmo que seja para explicar esse fenômeno curioso: por que há tanta volúpia em afirmar que ele foi um personagem desprezível em nossa História?

Eu que frequento muito forum´s de discussão, me impressiono de ver como toda vez que o nome maldito é mencionado, surgem dúzias de comentários raivosos acusando-o de todo tipo de ignomínia, não raro embasados por críticas pouco imaginosas, como afirmar que ele não teria sido o verdadeiro autor do Plano Real. Já li até alguém afirmando que na época de Sarney o país cresceu mais do que com ele...

Mas a simples quantidade de ódio que a sua figura desperta é um indicativo suficiente de que sua importância histórica é maior do que afirmam. Do contrário, para que tanto afã em chutar cachorro morto? Primeiro de tudo, um presidente que obteve uma reeleição não pode ser considerado um aborto histórico como foram um Fernando Collor ou uma Dilma Rousseff. Mas ele fez mais do que isso: para o bem ou para o mal, ele foi um divisor de águas, pôs fim à etapa histórica iniciada com o nacional-estatismo varguista nos anos 30 e esgotada nos anos 80, e iniciou nova etapa após o sucesso do Plano Real. Sem Fernando Henrique, não teria havido Lula. Ao menos não o Lula que conhecemos. Tivesse Lula tido o azar de vencer qualquer eleição entre 1989 e 1998, só teria duas opções: fazer mais ou menos o mesmo que FHC fez, e assim ficar totalmente desmoralizado junto às bases, ou conduzir o país à hiperinflação, repetindo o roteiro de Alan Garcia no Peru. No poder, o PT herdou uma macroeconomia funcionando, a tal herança maldita, na verdade bendita. Por isso eu penso que o motivo de ser FHC tão malquerido entre os petistas tem raízes psicológicas: é doloroso reconhecer que devem tanto a ele. Até sua reeleição, Lula deveu a FHC, pois a emenda foi aprovada em sua gestão.

Mas o ódio é tanto, que eu penso que há alguma coisa a mais que mero recalque. E uma pista vem daquela afirmação que fiz a pouco: alguém teve o desplante de dizer que Sarney foi melhor que FHC. Não, não é uma sandice. Sarney surgiu nos estertores do nacional-estatismo, e por isso foi capaz de radicalizar até o limite este modelo já moribundo. Congelamento de preços, moratória da dívida externa, reserva de mercado para a indústria nacional, Sarney fez tudo aquilo que os petistas sempre sonharam. Com o Plano Real, FHC pôs fim a isso tudo. Em outras palavras, FHC pôs fim ao estado de exceção na economia, pois o estado de exceção na política já havia terminado desde o fim do governo dos generais. E justamente por isso ele é tão odiado hoje. Eu acompanhei com atenção, e não sem surpresa, a massiva conversão dos militantes petistas ao nacional-estatismo varguista, eles que antes eram socialistas utópicos "contra tudo isso que está aí". Esse pessoal sente saudades dos tempos em que a economia podia ser governada discricionariamente, produzindo-se inflação para cobrir os déficits do governo mediante o confisco do poder aquisitivo da população, anulando a lei da oferta e da procura com o congelamento de preços, diminuindo o valor dos salários mediante reajustes inferiores à inflação, anulando a livre concorrência com o protecionismo, dando calote nos credores. Tal como a ditadura política, a ditadura econômica era justificada por ser "necessária ao desenvolvimento". Nesse ponto Vargas e os generais concordavam. E aparentemente, os petistas recém-convertidos ao varguismo também concordam.

Obrigando a economia a seguir as leis econômicas do sistema capitalista, tal como a política é obrigada a seguir as leis da democracia representativa, FHC obrigou o país a entrar no capitalismo. Não há motivo mais pertinente para ser odiado por quem se opõe ao capitalismo. Por muito que seu legado seja aproveitável por aqueles que vieram em seguida, FHC nunca será perdoado por isso. A nuvem negra de difamação por muito tempo ainda vai impedir que a exata dimensão histórica de Fernando Henrique Cardoso seja determinada.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Afinal, em que ponto a nossa cultura se trumbicou?

É visível o baixo nível dos atuais pré-candidatos à presidência, bem como a falta de renovação dessas lideranças. A sensação é de desalento. O país parece incapaz de produzir gente de valor, o que aponta para uma certa constatação que está bem na cara, mas que poucos se atrevem a enunciar: o baixo nível geral de nossos políticos é apenas um sintoma da morte de nossa cultura.
Mas afinal, uma cultura pode morrer?

Pode, sim. Mas também pode renascer, pois o país não morre. No momento atual, contudo, quem tem noção de cultura e de tempo fica com a nítida impressão de que nós já fomos bem melhores. Não todos, evidentemente. Não é fácil captar o momento em que a cultura fenece, pois como já foi dito por alguém, a inteligência, ao contrário de dinheiro e saúde, quanto mais a perdemos menos damos por sua falta, pois sem ela ficamos incapazes de avaliar nossa própria mediocridade. No fim achamos tudo normal. Mas certos aspectos da cultura são mais impactantes e atingem nosso emocional, e esses são mais fáceis de reparar. Qualquer um que visite um vídeo de uma canção antiga ou nem tão velha assim, encontrará nos comentários um rosário de lamentações, frisando que não se fazem mais músicas assim, e como decaímos após a invasão do funk e suas vulgaridades. Nossa música está morrendo! Mas é apenas um sintoma da morte de nossa cultura.

Isso é um contrassenso. Costumávamos achar que nossas limitações culturais se deviam à deficiência de nossa educação, e bem ou mal, todas as estatísticas mostram que o índice de alfabetização aumenta sem cessar, e os brasileiros passam cada vez mais tempo na escola. Mas isso é um julgamento de quantidade. Em termos de qualidade, estamos caindo desde muito tempo. Quem só viveu essa geração não sabe, quem é de outra geração mas não olha à sua volta também não sabe, mas quem conhece e acompanha a História sabe que já tivemos políticos bem melhores, bem como intelectuais, escritores e músicos bem superiores. Não há dúvida: nossa cultura está se acabando. E ante à consternação, surge a pergunta.

Afinal, em que ponto a nossa cultura se trumbicou?

Uma teoria muito conhecida afirma que foi tudo resultado de um desmonte deliberado. Produto da estratégia gramscista, urdida pelo intelectual italiano Antonio Gramsci, que preconizava a tomada do poder pela via da cultura. Segundo pregava, os intelectuais militantes deveriam ocupar todos os espaços difusores de cultura, e substituir os conteúdos ali existentes pela ideologia revolucionária. Não vou dizer nem sim nem não, há muitas páginas por aí tratando do assunto e denunciando o gramscismo como a causa de nosso declínio cultural. Mas procurando encontrar o nervo mais profundo que dá sensibilidade à criação, penso é a própria noção do superior e do inferior. Do bem feito e do mal feito, do bonito e do feio, do elaborado e do tosco.

É fora de questão, portanto, que a excelência da criação cultural deriva de uma apurada sensibilidade do superior. Não é crível que essa excelência seja atingida, ou mesmo procurada, em um ambiente onde o superior é odiado, a elite é desprezada e as massas são enaltecidas, a qualidade é preterida pela quantidade, a desigualdade é anátema e tudo se procura nivelar por baixo. Por influência ou não do pensador italiano, em algum momento esse ambiente se estabeleceu aqui. Por esse motivo os comentaristas do youtube lamentam que nossa música tenha sido devastado pelo funk das periferias: não se pode dizer que funk é um horror, pois quem o fizer estará sendo elitista, racista ou qualquer coisa politicamente incorreta. O que vale não é a qualidade, mas a suposta autenticidade popular. E pouco importa que o funk seja uma importação dos guetos norte-americanos, sem raízes em nossa cultura popular.

Os educadores afirmam com toda a seriedade que não se deve corrigir o aluno que fala errado, tipo "nóis pega o peixe", pois segundo afirmam, ele apenas tem um modo diferente de falar. Corrigi-lo, portanto, seria um gesto de prepotência de quem quer impor a norma culta usada pela elite. Até faz um certo sentido. Historicamente, proibir o uso do idioma tem sido um método de oprimir minorias e forçar sua assimilação. Mas se esquece que a fala errada dos ignorantes não constitui um dialeto completo. Um dialeto não obedece à norma culta, mas é coerente com sua própria norma. Entretanto, a fala errada que se escuta por aí nada mais é do que um conjunto de variações em torno de uma norma mal aprendida, que não obedecem a nenhuma regra identificável. Permitir que o aluno se expresse sem obedecer regra gramatical alguma só causará o empobrecimento da comunicação, com a perda de clareza, a multiplicação das ambiguidades, tornando mais difícil a expressão de qualquer conteúdo mais complexo, coisa vital para quem só conta com o estudo para melhorar de vida.

Há quem responsabilize o próprio patrono de nossa educação pela falência da educação no Brasil. Refiro-me a Paulo Freire, autor de um método acusado de ser mero pretexto para doutrinação de estudantes. Eu faço umas ressalvas. Não considero Paulo Freire um educador, mas um filósofo marxista, portanto seu suposto método não pode ser responsabilizado. Mas seu arrazoado fornece uma justificativa ideal para minimizar as deficiências da educação em geral, pois segundo afirma, o importante não é ministrar conhecimentos, mas "formar cidadãos", premissa vaga que cada um pode interpretar como quiser. Na verdade, nem haveria o que ensinar. Segundo Freire, é o professor que aprende com o aluno, e portanto seria uma prepotência de sua parte achar que o aluno tem que aprender com ele. Ora, como a cultura pode fluir daquele que a tem para aqueles que não a têm, se ambos interlocutores são colocados no mesmo patamar?

As teorias são várias, mas a constatação, no presente, é uma só: se os intelectuais marxistas tinham de fato um plano para chegar ao poder pela estratégia gramscista, esse plano falhou redondamente. A destruição da cultura não os levou ao poder: ao contrário, o que temos agora é um governo conservador e uma crescente onda conservadora difusa pela sociedade, capitaneada sobretudo pelos pastores evangélicos. É um conservantismo tão tosco quanto a doutrinação esquerdista que o precedeu, como só poderia ocorrer em um ambiente onde a cultura tornou-se rasa. O que foi que deu errado? Como um plano tão elaborado pôde fracassar tão miseravelmente?

Essa eu acredito ter a resposta. O ponto de falha foi precisamente o ponto que liga a cultura ao comportamento. Consoante com a estratégia de substituir o establishment cultural da elite pela suposta autenticidade popular, primeiro os intelectuais, depois os políticos de esquerda foram se aproximando cada vez mais de elementos marginais da sociedade. E no momento, não há nada que o povo tema mais do que a criminalidade desenfreada das grandes cidades. No poder, a esquerda recusou-se a reprimir os criminosos, receando incomodar aqueles a quem considerava seu público. Foi um erro enorme. A parcela mais pobre da população, longe de se identificar com os marginais, é a mais atingida por eles, posto que divide os mesmos espaços nas favelas e periferias. É dos pobres que tem vindo o maior clamor por dureza no combate ao crime. Acossada pela violência e pela imoralidade, vendo seus valores enxovalhados, o povão correu em massa para os pastores das igrejas pentecostais que brotam como cogumelos nas periferias.

O passo seguinte desses pastores foi entrar para a política, onde se compõem com outra estirpe em ascensão, os fascistas rastaqueras ou qualquer um que se proponha a baixar o pau na bandidagem, e desta forma obtém o apoio do eleitorado que tem como prioridade máxima o retorno da segurança e dos bons costumes. Assim formou-se a atual onda conservadora. Não sei até onde essa onda vai nos levar, mas tenho a esperança que será apenas o refluxo da onda de transgressão que a precedeu. Quanto à ressurreição de nossa cultura, para essa não coloco prazo. Apenas constato que uma vez vilipendiada a cultura superior, tocamos um fundo do poço constituído por aqueles valores mais elementares de todos, aqueles valores atemporais da cultura do povão, que não pôde ser destruída pelos intelectuais militantes, pois o povão não escuta os intelectuais, militantes ou não. Atingido o fundo do poço, vem o penoso esforço de subir novamente à tona. A primeira coisa a ser feita é restabelecer a noção do que é valoroso e do que não tem valor. Espero antes de morrer, ao menos poder escutar músicas boas que não sejam aquelas antigas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Responsabilidade fiscal: a falsa comparação com um orçamento doméstico

A discussão volta e meia retorna, como desta feita no Jornal GGN. Ao defender a responsabilidade fiscal, surgem comentaristas a contra-argumentar que não procede a comparação entre o orçamento de uma nação e o orçamento doméstico ou de uma pequena empresa, pois ambos são de natureza muito distinta.

"A lógica do Estado não funciona como a lógica privada de uma família. As variáveis fiscais (arrecadação, gasto e dívida) são diferentes e essa comparação só leva a políticas danosas para a sociedade. Fazer dívida nem sempre é ruim"


Assim, a comparação entre o orçamento de uma nação com as contas de um pai de família que só quer manter a casa em ordem assume um caráter de moralismo simplório. Quem defende essa linha normalmente são comentaristas que sentem saudades dos tempos em que não havia controle fiscal e a inflação podia, supostamente, ser usada para induzir ao desenvolvimento do país. Isso é uma falácia, sem dúvida. Mas a um ponto eles têm razão: o orçamento de uma nação e o orçamento doméstico são de fato coisas distintas, e esse ponto deve ser esclarecido, mesmo que seja para não desacreditar a defesa da responsabilidade fiscal.

A diferença básica entre um e outro é que no orçamento doméstico, a entrada é fixa (um ordenado de valor conhecido) e no orçamento da nação, a entrada é variável (a arrecadação depende do estado da economia, o qual depende de vários fatores). Assim, sabendo-se que a entrada será de certo valor, faz sentido pré-fixar um teto para os gastos, assim como faz sentido uma maior flexibilidade para o caso em que a entrada não é fixa, e aliás depende de investimentos feitos pelo próprio gestor do orçamento (o governo). Nesse caso, procede mais a comparação com uma pequena empresa, e todos sabem que pequenos empresários tomam empréstimos e fazem "pedaladas" em seu próprio orçamento à vontade.

Mas em todos os demais aspectos, a analogia é perfeita. Acreditar que para aumentar a arrecadação basta injetar mais dinheiro para fomentar a atividade econômica, é acreditar que o retorno de tais investimentos será tão rápido e vultoso que permitirá cobrir o rombo e repetir a operação, em um ciclo sem fim. A mesma lógica do devedor costumaz, que acredita que o retorno do que investiu com o dinheiro emprestado será tão rápido que permitirá pagar os juros e fazer novo empréstimo, em um ciclo sem fim. É claro que no mundo real as coisas não funcionam desta maneira, pois se assim fossem, a economia seria algo mágico e maravilhoso, e o progresso estaria ao alcance de uma simples canetada. Todos sabem que existiram e ainda existem empresários destituídos de capital que enriqueceram após contrair um empréstimo e aplicarem-no em algum negócio que deu certo. Mas não há nenhum caso de empresário que tenha permanecido próspero a vida inteira à custa somente de dinheiro emprestado. O mesmo se aplica às nações.

O ataque à responsabilidade fiscal vem de duas extremidades, uma maliciosa e outra ingênua. A maliciosa é aquela que aprecia o recurso eficaz de cobrir os rombos das contas do governo mediante o confisco do poder aquisitivo da população, assim como um imposto invisível que não precisa da aprovação do parlamento. Por este motivo, a inflação foi por anos componente essencial do modelo desenvolvimentista vigente desde Vargas até os militares, passando por JK. Obviamente, quem defende esse método assume-se como parte da máquina do Estado ou beneficiário direto desta. Para os que estão de fora, o pretexto é que assim se produz o desenvolvimento e se geram empregos. Mas assim como o endividamento, produzir inflação só tem o efeito de rolar uma conta para ser paga mais adiante. Durante décadas o truque pareceu funcionar, pois o país apresentou altos índices de crescimento em determinados períodos, como nos anos JK e no "milagre" dos militares. Mas os ganhos do trabalhador com a oferta abundante de empregos eram rapidamente anulados pelo surto inflacionário que vinha em seguida. Desta forma o país experimentou uma combinação de alto crescimento com pouca ou nenhuma inclusão social, tornando-se uma das sociedades mais desiguais do planeta. Nos anos 80 a conta chegou e a mágica acabou.

A extremidade ingênua é daqueles que acreditam que dinheiro nasce em árvores. Tem muita gente...