domingo, 31 de outubro de 2021

Extrema Direita X Extrema Esquerda

Pelo senso comum, a próxima eleição presidencial no país será disputada entre a extrema direita e a extrema esquerda, mais exatamente entre Bolsonaro e Lula, com todas as consequências que a polarização politica pode surtir. Mas direita e esquerda são termos gastos de tanto uso. Convém averiguar o quanto ainda se aplicam ao quadro político que se desenha com as próximas eleições.

Jair Bolsonaro com certeza é direita. Fica a gosto do freguês afirmar se ele é extrema direita ou apenas direita. Entretanto, ele não saiu de um partido formalmente direitista, nem é versado em ideologias. Seu direitismo reduz-se à admiração pelo regime militar de 1964, do qual não participou em razão da pouca idade. O eleitorado de direita aglutinou-se em torno dele simplesmente porque não havia mais ninguém que se assumisse direitista no país, desde a morte de Enéas Carneiro. E a ironia é que quem matou a direita no Brasil, foi justamente o regime militar que Bolsonaro admira.

Historicamente, a direita nacional era representada pela UDN, onde pontificavam líderes como Carlos Lacerda. Mas ao tomar o poder em 1964, a segunda coisa que os militares fizeram, depois de liquidar a esquerda comunista e trabalhista, foi liquidar a UDN, justamente para evitar que esse partido chegasse ao poder. Os principais líderes, como Carlos Lacerda, foram cassados, e os demais atirados à vala comum da ARENA, partido sem ideologia e sem força. Evidente que eliminar a direita não era o objetivo declarado do grupo que tomou o poder - eles queriam eliminar alternativas civis à presidência, independente da cor ideológica. Seu projeto era um Estado com plenos poderes, garantido pelos militares e gerido pelos tecnocratas, superministros cuja influência ia muito além do escopo de suas pastas, dos quais os mais notáveis representantes foram Delfim Neto e Mário Simonsen. Nada tão original, também era assim o getulismo da época do Estado Novo, por sua vez gestado no positivismo do século 19, que propugnava uma "ditadura republicana, racional e científica" conduzida por critérios puramente técnicos em lugar dos interesses regionais, corporativos ou meramente pessoais dos políticos profissionais.

Mas os políticos não foram banidos de todo. Diferente das ditaduras pré-segunda guerra, a polarização ideológica da guerra fria proclamava-se uma luta do "mundo livre" contra o totalitarismo comunista. Então o regime inaugurado em 1964 tinha que exibir uma fachada democrática, com corpos legislativos supostamente atuantes e ao menos um partido de oposição admitido. Para criar esse simulacro, toda a legislação eleitoral foi alterada para privilegiar rincões políticos do interior em detrimento dos grandes centros. As consequências dessa repaginação de nossa classe política se manifestaram muito além do fim do regime militar. Por este motivo a direita brasileira não se recompôs após a supressão de suas lideranças em 1964 - nunca mais surgiram líderes intelectualmente valorosos e administradores competentes como Carlos Lacerda, o que surgiu em seu lugar foram políticos provincianos e medíocres. Estou convicto de que em 1964, José Sarney não imaginava que um dia seria o presidente.

Então, no deserto da direita nacional, quem apareceu foi a singularidade de Jair Bolsonaro. Ele nunca foi um líder direitista capaz para além de um pequeno carisma. Sofre tanto da falta de disposição para o jogo político quanto da falta de poder efetivo para implantar a ditadura que almeja, e nem lá nem cá, vai produzindo sucessivos impasses, às vezes apenas por conta de uma teimosia pueril. O tempo passa, a economia trava e as promessas vão ficando no vazio.

Concorrendo com ele, há o Lula renascido da prisão. Cabe agora definir se é de extrema esquerda ou apenas esquerda. Na minha opinião, não é nem de esquerda, e ele concorda. Não o vejo sequer como petista. Lula é, simplesmente... lulista. Seu marketing pessoal sobreviveu a todas as intempéries, e desde suas origens no ABC tem demonstrado uma incrível capacidade de se reinventar. Mesmo que perdesse muitas eleições, sempre esteve em evidência. Com o PT desmoralizado por escândalos, emergiu como líder inquestionável. Não acredito que o PT teria grandes chances na próxima eleição se seu candidato não se chamasse Lula.

Direita ou esquerda, a próxima eleição será disputada entre dois candidatos que se valem de seu carisma. Ainda continuamos carentes de partidos fortes com propostas claras.

domingo, 17 de outubro de 2021

Em Tempos de Polarização

 Recebi recentemente uma correspondência que tem bem a ver com esses tempos de efervescência social e polarização político-ideológica. Refere-se a uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar publicada nas páginas amarelas da revista Veja.

Veja:

O senhor já disse que "se bacharelou em subversão" em Moscou e escreveu um poema em que a moça era "quase tão bonita quanto a revolução cubana". Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Ferreira Gullar:

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. 

Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. 

Veja:

Por que o capitalismo venceu?

Ferreira Gullar:

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. 

O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. 

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora.

É bobagem. Sem a empresa não existe riqueza. 

Um depende do outro. 

O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só o explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo seja inerentemente bom. 

O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções. 

O capitalismo é forte porque é instintivo. 

O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. 

O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhares de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. 

É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. 

Não tem cabimento.

Sabemos que o comunismo seduziu mais de uma geração de intelectuais brasileiros, mesmo quando já era uma ideia abandonada em seu local de nascimento, e serve ainda hoje para atiçar o debate político, bem como de espantalho para se acusar os adversários. É oportuno procurar explicar a evolução peculiar dessa ideologia em nosso ambiente. Ferreira Gullar é um personagem bem adequado para essa discussão, pois ele viveu intensamente um período de nossa História, aderiu com fervor à utopia comunista na época em que ela cortejava nossos intelectuais, bem como soube admitir honestamente e compreender os motivos do fracasso daquela utopia.

A idade dourada da utopia comunista no Brasil e em outros países de quadro histórico e social similar foi o produto de um hiato em nosso desenvolvimento comparado com a Europa da revolução industrial. Ali o comunismo nasceu do momento histórico específico: boa parte da força de trabalho alocada no ambiente fabril, onde eram sobre-explorados mas exerciam as mesmas funções, trabalhavam nas mesmas fábricas e residiam nos mesmos bairros operários, então podiam reunir-se, organizar-se em torno de reivindicações comuns e parecia fazer sentido uma tomada do poder pelos trabalhadores - afinal, o mundo tal como eles o viam parecia resumir-se a patrões e trabalhadores, os primeiros em posição de poder e os segundos subjugados, bastando portanto inverter esse jogo para escapar à exploração.

Mas por aqui a industrialização foi lenta, e a utopia comunista entrou trazida em sua maioria por intelectuais, e não por trabalhadores. Quando se estabeleceu, o quadro industrial sombrio da época da revolução industrial já havia desaparecido do mundo desenvolvido, sem nunca haver aparecido de todo aqui. Daí que a utopia, entre nós, tenha vicejado justamente no momento em que fenecia em seu nascedouro, na época da Guerra Fria, quando o comunismo era visto como ditadura e opressão no mundo desenvolvido. Mas aqui, onde o capitalismo não havia trazido a mesma pujança, parecia uma alternativa viável, que qualquer um podia idealizar como quisesse. Foi assim que o comunismo tornou-se "o ópio dos intelectuais", contraposto ao "ópio do povo", como Marx descrevia as religiões.

Marx viu o mundo de seu tempo, marcado pela polarização Trabalhador X Empresário, e criou a sua teoria extrapolando aquele quadro social para o passado, até o início dos tempos (toda a História nada mais seria do que Luta de Classes) e também para o futuro, até o fim dos tempos (a tomada do poder pelos trabalhadores pondo fim à Luta de Classes e ao próprio Estado). Mas aquele quadro social que Marx via era peculiar ao presente do século 19 europeu, e não à História como um todo. Por isso suas predições não se cumpriram. Ferreira Gullar apontou corretamente a falha maior da teoria marxista, a crença de que o empresário seria um parasita que se apropria do trabalho alheio (a mais valia). Assim, pensava Marx, a eliminação desse parasita significaria abundância, pois o trabalhador passaria a usufruir da totalidade do resultado de seu trabalho.

Não foi o que aconteceu. O nível de vida dos trabalhadores encolheu ao invés de aumentar nos países comunistas. Isso porque o operário é apenas um componente solto da máquina, que sozinho de nada vale, e cabe ao empresário montar a máquina, alocando os operários e dando-lhes uma função. Portanto, o empresário não é uma excrescência, mas exerce uma função essencial de comando e gerência - ele pode até ser eliminado, mas a função que ele exerce não pode ser eliminada, outro alguém terá que exercê-la. Nos países comunistas esta função foi exercida pelos comissários do partido, que tinham uma vida privilegiada tal como os antigos patrões, solapando a utopia de um governo de trabalhadores onde todos teriam igual participação. Como o acesso ao alto comissariado do partido era muito mais restrito do que o acesso à antiga classe empresarial (pois requer apadrinhamento e contatos políticos, enquanto há abundantes relatos de pessoas comuns que se tornaram grandes industriais sob o regime capitalista) redunda que a gestão desses comissários é muito menos eficiente do que a gestão do empresário. Há muito menos estímulo ao trabalho, e portanto muito menos produtividade.

O capitalismo não é justo, mas é compatível com a natureza, que tampouco é justa. O capitalismo não é uma ideologia, mas um método, e foi gestado no dia-a-dia de pessoas comuns, e não nas mesas de filósofos ou militantes. Como pode um sistema cujo objetivo não é a justiça, produzir abundância? Como é que poucos donos dos modos de produção vão querer produzir para muitos? O segredo está no Livre Mercado. Os trabalhadores são a grande maioria dos consumidores, e produzir muitos itens baratos para os pobres sempre rendeu mais do que produzir poucos itens caros para os ricos. Afinal, é a Volkswagen a dona da Rolls-Royce, e não a Rolls-Royce a dona da Volkswagen, e é a Fiat a dona da Ferrari, e não a Ferrari a dona da Fiat. Desde os primórdios da revolução industrial, a maioria dos produtos das fábricas destinava-se ao consumo dos trabalhadores, e não dos ricos - assim, ao mesmo tempo em que eles eram sobre-explorados por seus patrões, o custo de vida baixava para eles. Não é verdade que a pobreza do século 19 fosse pior que a pobreza do século 18 pré-industrial, ela apenas tornou-se mais visível, posto que era uma pobreza urbana, podendo sensibilizar intelectuais como Marx e escritores como Dickens.

Por aqui, nossos modelos de industrialização no passado não deram os resultados esperados porque foi uma industrialização orientada pelo Estado, e não pelo Mercado - importações proibidas e empresas nacionais produzindo para empresas estatais, sem concorrência, formando assim o conhecido conluio entre políticos e empreiteiras. Enfim, para nossos empresários, a fórmula do sucesso não era a boa qualidade nem o bom preço, mas sim o bom relacionamento com os círculos do poder. Diferente do que aconteceu nos novos países industrializados da Ásia, como a Coréia do Sul, que desde o início direcionaram sua produção para a exportação. Por este motivo não se pode alegar que "se o comunismo não deu certo, tampouco o capitalismo deu certo no Brasil". O capitalismo nunca foi tentado em sua plenitude por aqui.

Resta saber se agora vamos superar essa polarização anacrônica em nosso debate político.

domingo, 26 de setembro de 2021

Paulo Freire, o responsável pelo desastre de nossa educação?

Nenhuma personalidade esteve mais na berlinda nos últimos anos do que o educador Paulo Freire, proclamado patrono de nossa educação em 2012. Seus detratores afirmam que levando em conta os desastrosos resultados obtidos pelos estudantes brasileiros em todas as avaliações, Paulo Freire é um adequado ocupante de tal posto. É acusado de ser o maior responsável pelo fracasso de nossa educação. Agora, em seu centenário, tem recebido diversas homenagens. Herói ou vilão?

Vou expressar minha opinião desapaixonada. Não acredito que Paulo Freire seja o responsável por nosso fracasso educacional. E nem poderia ser, por uma razão cabal: ele não é um educador, e sim um filósofo. Vão dizer, mas ele tem um método. Sim, mas o método a ele atribuído destina-se à alfabetização de adultos, não é de uso geral. Sua obra magna, Pedagogia do Oprimido, não cita nenhum educador, mas apenas líderes revolucionários. Não tem nenhuma utilidade prática em pedagogia ou didática. Enfim, Paulo Freire é um personagem arcano, bom para receber títulos honoris causa e citações elogiosas - e nada além disso. Os maus resultados de nossos estudantes têm outras causas, mais prosaicas e diversas, desde a falta de condições de trabalho de nossos professores até o mau estado das escolas.

Mas se não é o responsável pelo fracasso de nossa educação, Paulo Freire é o responsável pela aceitação resignada deste fracasso, em razão do desprestígio da figura do professor e do próprio ato de educar, trazido pelas ideias que disseminou. Ao conferir um significado político ao ato de educar, Paulo Freire vendeu a noção de que a principal finalidade do professor não seria ensinar a matéria, mas "formar cidadãos" - conceito subjetivo que cada um interpreta como quiser. Então, qual é o problema das notas estarem baixas, se a real finalidade da educação não é essa?

Com seu edifício de teorias construído em um mundo onde só há oprimidos e opressores, Paulo Freire deu o papel de opressor ao professor que tenta ensinar, mais precisamente, ao professor que tenta passar conhecimentos ao aluno - atitude condenável de quem vê o aluno como uma conta bancária que recebe depósitos, o que denominou "educação bancária", própria do opressor que tenciona replicar na geração seguinte a mesma sociedade injusta da qual supostamente é beneficiário. Segundo essa abordagem, o aluno não sabe menos que o professor, mas ambos têm saberes diferentes, tampouco existe aluno mau ou aluno bom, apenas pontos de vista distintos.

Desta forma fica impossibilitada qualquer hierarquia de autoridade que permita ao professor impor disciplina e transmitir o que sabe ao aluno que não sabe, bem como invalidado qualquer tipo de avaliação que permita premiar o aluno capaz e esforçado. Foi aberto assim o caminho à nefasta aprovação automática, implementada por Freire, já que reprovar seria um ato de opressão, mas motivada pelo propósito mais pragmático de zerar as estatísticas de reprovação. Até o bom uso do idioma foi demonizado, posto que a norma culta seria uma imposição do opressor, e a maneira de falar do inculto - o oprimido - supostamente é tão boa quanto. Desnecessário frisar que o mau domínio do idioma dificulta o aprendizado de qualquer conteúdo mais complexo.

Somente abandonar as ideias de Paulo Freire não fará a nossa educação sair do buraco. Mas permitirá ao menos enxergar este buraco, e restaurar o papel correto do educador e do educando permitirá ao menos enxergar a direção a seguir. 

domingo, 5 de setembro de 2021

O Sete de Setembro de Jair Bolsonaro

O Sete de Setembro costuma ser um feriado morno, com manifestações esquematizadas, o tradicional desfile. Afinal, a independência do país é um dos raros eventos históricos sobre o qual há unanimidade: alguém aí é contra a independência? Mas o deste ano promete surtir um efeito extra, em razão das manifestações programadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

O fenômeno já é conhecido: de tanto em tanto surgem personagens improváveis em nossa História, tipo corpos estranhos ao sistema, que cruzam o céu da política em uma trajetória meteórica, chegam ao ápice e logo depois desaparecem de forma inglória. O primeiro foi Jânio Quadros, fenômeno eleitoral que governou por sete meses e renunciou tentando um golpe que fracassou. O segundo foi Paulo Maluf, que furou a cena da sucessão que deveria ser controlada pelo presidente Figueiredo como era praxe do regime, mas seus colegas de partido preferiram implodir o partido a abrir caminho para o arrivista. O terceiro foi Fernando Collor, que de um partido nanico saltou para a presidência com um rosto jovem e um currículo antigo, e terminou impedido após provocar a pior crise econômica da História. Em comum, todos tinham um caráter de homem-forte independente dos clãs políticos tradicionais, um discurso bombástico e um posicionamento inclinado à direita. E todos foram expelidos como corpos estranhos ao organismo político nacional.

Eis que surge um quarto personagem com precisamente tais características. Fica no ar a pergunta: será que desta vez vai dar certo? O golpe que Bolsonaro arma para o sete de setembro vai triunfar onde falhou o golpe da renúncia de Jânio? Bolsonaro vai ser bem sucedido onde Maluf falhou ao obter o apoio de sua base aliada? Seus planos econômicos vão dar certo onde o confisco da poupança de Collor fracassou?

Pessoalmente não acredito. Todo fenômeno político que se repete termina banalizado, pois o roteiro torna-se por demais conhecido - primeiro acontece como tragédia, e depois se repete como farsa. E já é o quarto re-play. O próprio dia escolhido carrega algo de farsesco: a real data da independência do Brasil não foi o sete de setembro, mas o conhecido "dia do fico", pois desde aquela data o imperador já se encontrava formalmente rompido com o governo metropolitano. O sete de setembro foi escolhido posteriormente para simbolizar a independência, mas a sequência de eventos teria acontecido de qualquer maneira, independente do que Dom Pedro fizesse ou deixasse da fazer naquele dia. A partir daí toda uma mitologia foi erguida em torno da data, a começar pelo suposto grito. Os professores de História não deixam de lembrar que o imperador só parou às margens do Ipiranga porque estava com uma diarreia. Outros dizem que Dom Pedro estava indo a São Paulo só para se encontrar com sua amante, sendo que o imperador nem conhecia dona Domitila na ocasião - veio a conhecê-la nessa viagem por acaso. Querendo a todo custo achincalhar com o país, passam a mensagem de que a independência foi algo tão fortuito que aconteceu graças a uma indisposição intestinal e a uma pulada de cerca.

Com tanta farsa no ar, não dá para levar muito a sério este sete de setembro de Bolsonaro. Vou pagar para ver. Minha aposta é que a diferença entre Bolsonaro e os três aventureiros que o antecederam, será que ao contrário destes, Bolsonaro vai terminar seu mandato. Nada além disso.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Bandeirantes, Heróis e Vilões

 Uma ocorrência menor, mas que chamou-me a atenção recentemente, foi o incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, por parte de ativistas contrários a homenagens a vultos históricos implicados no escravagismo e no extermínio de povos indígenas. Não é um ato isolado: trata-se do eco de um movimento que vem ganhando força em várias partes do mundo, onde se veem estátuas de antigos traficantes de escravos sendo derrubadas.

O ato, classificado por alguns de vandalismo, foi perpetrado por um grupo que tem como divisa "Revolução periférica - a favela vai descer e não vai ser carnaval" conforme faixa colocada em frente ao monumento em chamas. Pessoalmente duvido que algum morador de favela esteja preocupado com Borba Gato, ou mesmo saiba quem é, mas o dístico não me surpreende. Apenas confirma o fenômeno da mutação da militância de esquerda no país desde a década de setenta, época da derrocada da luta armada que não teve o apoio dos trabalhadores, e desde então os militantes vem trocando a porta das fábricas pelas periferias, os operários pelos marginais, desajustados e inconformistas, esperançosos de que os habitantes das favelas vão fazer a revolução que os trabalhadores não quiseram fazer. Só isso já dá um certo ar farsesco ao movimento. Mas achei interessante este vídeo, onde a dona do canal argumenta que o ato não foi mero vandalismo nem uma patética tentativa de apagar a História, mas uma necessária ressignificação da figura do bandeirante, que deve ser apresentado como um escravizador genocida, e não como um herói.

Sem novidade. Os bandeirantes já sofreram antes uma ressignificação, esta no século passado, quando foram transformados em heróis, responsáveis por desbravar e conquistar os territórios que hoje habitamos. É desta época que datam suas estátuas e quadros que ornam os museus. Mas em seu tempo, eles não ganharam nenhuma estátua nem pintura, jamais foram retratados em vida. Mal vistos pelas autoridades, eram considerados fora-da-lei porque invadiam território índio e espanhol, e capturavam índios quando a escravização de indígenas já estava ilegalizada. Isto não impedia que as autoridades recorressem a seus serviços como sertanistas e mercenários na luta contra tribos hostis e quilombolas, mas estavam muito longe de serem considerados heróis. Assim como sua figura passava longe das representações pictóricas por que os conhecemos hoje - alguns comentaristas os descreveram como "bárbaros, que mal falavam o português e se expressavam mais nas línguas dos índios". Nada glamuroso.

Mas o país independente precisava de mitos fundadores, e os bandeirantes prestaram-se a este papel. Agora este mito está sendo desconstruído, e os bandeirantes apresentados como cruéis escravizadores e matadores de índios. Sabe-se também que saqueavam as tropas que levavam as riquezas extraídas do império espanhol - ou seja, bandoleiros. E a menina do vídeo acrescenta: estupradores de mulheres índias. Com certeza faziam essas coisas todas, mas o real impacto histórico de cada uma deve ser corretamente mensurado, e aí começam as mistificações. O vídeo lamentavelmente repete uma lenda que muitos até hoje acreditam: que os brasileiros mestiços de índio e europeu, chamados caboclos ou mamelucos, foram produto de índias estupradas por bandeirantes.

Estupros sem dúvida ocorreram, mas deve ser lembrado que o propósito do estupro não é produzir descendentes, e quando produz, em geral eles não são cuidados. A maioria das tribos praticava o infanticídio (algumas o praticam até hoje) e não permitiam o nascimento de nenhuma criança indesejada. Afirmar que os milhões e milhões de brasileiros caboclos são o produto de um estupro cometido em algum momento do passado, em termos históricos e antropológicos, é táo primário quanto defender a tese de que os franceses atuais são o produto de mulheres gaulesas estupradas por legionários romanos, e que os escoceses surgiram de mulheres bretãs estupradas por vikings. Mas afinal, toda ressignificação traz necessariamente um rastro de lenda, pois ressignificar significa, estritamente, impingir um significado. No caso, um significado do interesse do momento histórico do presente.

E a verdade histórica, onde fica? Sabe-se que a grande massa de caboclos, na verdade foi produto anterior à era dos bandeirantes. Sua gestação ocorreu na época dos primeiros colonos, quando quase não havia mulheres entre os povoadores, e os colonos tinham que casar-se com mulheres indígenas a fim de obter descendentes e alianças com as tribos, o que era indispensável naquela fase inicial da colonização. Não havia nenhum estupro aí, nem podia haver, se quisessem mesmo o apoio das tribos amigas. Mas foi a partir de então que nasceu a lenda do português colono que saía a emprenhar nativas e a largar os filhos por aí. Pode ter contribuído para esta lenda o costume peculiar dos índios, pelo qual os filhos só eram cuidados pelos pais em idade tenra, e depois passavam a ser criados pela tribo inteira, coletivamente.

Assim nasceu o povo brasileiro - certo ou errado, feio ou bonito, é graças ao que os bandeirantes fizeram que existimos hoje. Podemos achar aquilo tudo um crime inominável, e assim o expressaram muitos comentaristas do vídeo. Mas que indivíduos com sobrenomes Costa, Mota, Reis, Vianna acreditem-se porta-vozes de povos originários, me parece um tanto falso, para não dizer hipócrita. Somos todos cúmplices de um genocídio? É certo que ninguém mais ouve falar das etnias indígenas que se defrontaram com os bandeirantes. Como também ninguém mais ouve falar de gauleses, bretões ou vikings, e no entanto ninguém afirma que esses povos foram vítimas de um genocídio. Esses povos perderam sua especificidade, misturaram-se com outros povos e deram origem à população européia atual. O mesmo aconteceu com as antigas tribos do tempo dos bandeirantes.

Incendiar a estátua de Borba Gato tem um significado simbólico, sem dúvida, mas não reescreve a História. Apenas a reinterpreta. A empostação dos bandeirantes como heróis já é coisa ultrapassada, mas a meu ver, mais importante do que ressignificar a História, é conhecê-la com exatidão.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

A Ditadura Perfeita

As notícias relatando protestos de rua em Cuba causaram-me surpresa. Não foi muitos dias atrás, e alguns apressados até comemoraram a próxima queda do regime iniciado por Fidel Castro, mas até agora ninguém sabe dizer exatamente o que aconteceu, nem como terminou. O fantástico, porém, foi aqueles protestos haverem acontecido, pois não é todo dia que se vê uma coisa assim em um regime comunista, e tampouco jamais alguém viu um regime comunista ser derrubado por protestos de rua.

O caso é que há ditadura perfeitas, assim entendido por não ser possível derrubá-las por intermédio de uma revolução. Elas caem por outros motivos. Outro exemplo foi o regime nazista, que a despeito de todas as suas atrocidades, e de toda a sua disposição de prosseguir com uma guerra perdida que causava enorme sacrifícios a sua população, jamais foi derrubado por uma revolução. Extinguiu-se com a derrota da Alemanha na guerra. Bem diferente do que acontecera em 1918, quando a mesma população, saturada dos sacrifícios impostos pela guerra, sacrifícios esses incomparavelmente menores do que aqueles sofridos em 1945, rebelou-se e pôs fim ao regime do Kaiser. Contando que o mesmo fosse acontecer na 2a Guerra, os aliados impuseram massivos bombardeios sobre a população civil alemã. Mas o que aconteceu foi o contrário: cada vez mais dependente do amparo do Estado, a população dedicou cada vez mais apoio ao governo, repetindo aliás o mesmo que havia acontecido quando a Inglaterra foi bombardeada em 1940.

O regime comunista soviético tampouco foi derrubado por uma revolução: desabou sozinho feito prédio condenado quando pedreiros imprudentes tentam fazer uma reforma de emergência. O que há em comum entre todas essas "ditaduras perfeitas"? Respondo eu: a redução do indivíduo a um estado de total dependência do governo. Ensina a História que revoluções bem sucedidas só acontecem quando está presente na sociedade local uma classe de indivíduos que detêm considerável espaço na economia, porém nenhum espaço na política, o que faz surgir uma demanda por poder. Mas para haver meios de se pressionar o governo, essa classe necessita ter a posse de bens materiais, mesmo que apenas sua força de trabalho. Por este motivo os regimes comunistas são ditaduras perfeitas: qual indivíduo consegue rebelar-se contra quem é, ao mesmo tempo, seu empregador, seu locatário, o dono da escola onde seu filho estuda, do hospital onde ele se trata e do jornal que ele lê? Que fazer quando não se é dono sequer de sua força de trabalho, já que é proibido vendê-la a um patrão?

Não acredito que o regime cubano venha a ser derrubado por uma revolução. O que não quer dizer que ele já não esteja sendo corroído há tempos, por força de sua inviabilidade econômica. Penso que a evolução será a mesma do regime comunista chinês: toda a liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. O regime chinês, aliás, é outra ditadura perfeita. Com a prosperidade permitida por entrepostos altamente conectados com o mundo capitalista, como Hong Kong e Shangai, e a consequente subida do padrão de vida, a população pôde mesmo adquirir hábitos de consumo típicos do ocidente, sem que o regime político fosse alterado, ou sequer abrandado. Uma bem sucedida imitação do ocidente capitalista, a ponto de atualmente quase ninguém mais se lembrar de que a China é uma ditadura. Perfeita.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Lula, corrupto e corruptor

 Agora que Lula volta à cena eleitoral depois do longo ostracismo, fica a impressão de que sua condenação foi injusta, produto de uma perseguição, ou no mínimo desproporcionalmente severa. Lula foi corrupto? Se foi, não parece ter sido grande coisa se comparado a tantos outros bem conhecidos megacorruptos deste país. O maior emblema da pequenez da corrupção de Lula é a imagem dos pedalinhos do sítio de Atibaia. Mas este artigo da Isto É cita uma observação feita por Ciro Gomes. Ele definiu Lula como o maior corruptor da história brasileira.

É a verdadeira medida do papel que Lula teve na História Brasileira, para o bem ou o mal. Sob a chefia de Lula, o PT elevou a corrupção a um paradigma até então inédito. A corrupção sempre existiu, mas em geral era um conluio que beneficiava particulares. Com Lula, o grosso da verba desviada passou a fluir para o caixa do partido. Entende-se: o Brasil sempre teve partidos fracos e políticos fortes, para quem importava mais o carisma pessoal do que a coligação de siglas por vezes bizarra que o sustentava. Ao redor, enxameavam ladrões de vários calibres. Nesse cenário o PT surgiu como o primeiro partido forte, organizado e com militantes rigidamente obedientes a uma hierarquia. Esse partido chegou ao poder, adquiriu uma base aliada na multidão de políticos ávidos para vender seu apoio, e logo tratou de montar uma máquina que garantisse sua futura hegemonia. Para tal, precisou de muitos milhões. O negócio foi montar um complexo unindo o Partido, mais empresas estatais, mais empreiteiras que dependiam desses dois primeiros, tudo funcionando como um conglomerado.

Evidente que em um desvio de verbas que priorize a caixa do Partido, para que a parte que cabe aos operadores do esquema continue a ser atrativa, é necessário que o montante desviado seja muito maior. Assim a corrupção explodiu no país. O PT foi ingênuo ao acreditar que tal quantidade de desvios não seria detectada por uma Polícia Federal que foi sensivelmente melhorada e reequipada por ele mesmo, neste sentido pode-se dizer que o PT deu um tiro no próprio pé. Como também foi ingênuo em acreditar que a nova classe média que vangloriava-se de haver criado ficaria silente diante de tamanho roubo, tal como havia se calado ante roubalheira varejista do passado.

Se como corrupto Lula foi um peixe pequeno, como corruptor foi um gigante. Conclui o citado artigo da Isto É:

Quero dizer com isso que o uso que Lula e seu partido fizeram da Petrobras, para comprar apoio político e estender sabe lá até quando a sua permanência no poder, é muitíssimo mais grave do que qualquer pixuleco que o ex-presidente possa ter embolsado

O Lula corruptor foi muito mais nocivo ao país e à democracia do que o Lula que se deixou corromper.

É preciso que haja uma terceira via. 

A má gestão inerente à administração corrupta causa às empresas um prejuízo muito maior do que a comissão que é desviada do caixa no primeiro momento. Ninguém duvida que a perda que a Petrobrás teve com a aquisição da Refinaria de Pasadena, só para citar um exemplo, foi muito maior do que a propina paga aos diretores que aprovaram a compra de tal refinaria. É assim que a corrupção quebra um país inteiro.

Teremos isso de volta, se Lula retornar à presidência? O Rouba Mas Faz vai continuar a engambelar gerações? Uma coisa que Lula sabe fazer muito bem é se reinventar. É possível que o novo Lula que assumirá em 2023 não seja o mesmo Lula que saiu em 2010, assim como o Lula que assumiu em 2003 não foi o mesmo Lula dos palanques do ABC. Mas o ideal é mesmo que haja uma terceira via.