terça-feira, 17 de novembro de 2020

O Refluxo da Religião

 A derrota do bispo Crivella nas eleições para prefeito no Rio de Janeiro parece sinalizar que um fenômeno que tomou conta do país começa seu refluxo. Refiro-me à virada para a religião, que fez (e ainda faz) pipocar uma igreja evangélica em cada esquina de cada comunidade, e elegeu dezenas de candidatos pastores.

A virada para a religião não é um fenômeno alvissareiro. Denota um desalento com a situação geral. Nos termos da doutrina hindu das quatro castas, mencionada em um artigo que publiquei, representa um retorno ao governo brâmane, com a suposta restauração dos valores abandonados. Por aqui observamos, de fato, uma corrida rumo ao conservadorismo, que não deixa de passar um sentimento de derrota: se voltamos atrás, é porque estávamos em um caminho errado.

Assim, se o fenômeno começa de fato a refluir, é sinal de que o otimismo em geral começa a voltar. Mas cabe aqui uma reflexão. Por que a religião continua a exercer um fascínio tão grande sobre as populações, fascínio esse que se transforma em poder? Como uma mensagem escrita para povos de séculos atrás continua tão atual?

Refiro-me, é claro, às religiões monoteístas (ou abraâmicas) - cristianismo, judaísmo e islamismo. A primeira delas a surgir, o judaísmo, trazia uma novidade inédita para o mundo de então: um deus que não se limitava a conceder graças em troca de oferendas, mas também exigia um comportamento ético da parte de seus seguidores. No caso do Brasil, deve ser destacado o cristianismo que emergiu na matriz do mundo ocidental, a civilização greco-romana de dois mil anos atrás. Os deuses então disponíveis para adoração não preenchiam todos os anseios da população. De fato, portavam-se, e inclusive pareciam-se fisicamente, com qualquer patrono do qual uma pessoa comum do povo pudesse se tornar cliente, apenas acrescidos de poderes sobrenaturais, mas de resto mantendo todas a fraquezas e falhas de caráter dos patronos de carne e osso.

Não espanta que tais deuses tivesse um aspecto por vezes caricato e não fossem levados muito a sério, exceto na esfera do folclore e das crendices populares. Os romanos e gregos cultos preferiam a filosofia à religião. E de fato a filosofia proporcionava muito mais respostas a seus anseios cognitivos e angústias espirituais, na forma de explicações lógicas. Mas havia um problema. A instrução era acessível somente aos ricos, as massas ficavam alheias ao saber.

Nesse contexto surgiu uma religião que tinha uma mensagem profética e doutrinária que era acessível tanto aos cultos quanto aos incultos - não precisava entender, bastava crer. O que leva milhões de indivíduos a crer em uma mensagem que lhes é fornecida sem discussão? A resposta é: o atendimento a seus anseios. Os deuses antigos, tal como os patronos dos quais eram clientes, eram tão inconstantes e temíveis quanto estes patronos, podendo como estes ser ora aliados, ora inimigos, ora benfeitores, ora malfeitores. O deus dos cristãos tinha um compromisso com seus seguidores, e sua lealdade era assegurada desde que suas diretivas fossem cumpridas. Acenava com uma melhoria das condições sociais da maioria da população, tanto que os primeiros cristão foram sobretudo escravos e mulheres. Aos escravos, afirmava que o reino dos céus pertencia aos humildes, e que os ricos e egoístas seriam punidos. Às mulheres, acenava com a proibição da poligamia e do divórcio, algo interessante para um tempo em que a maioria das sociedades permitia aos homens terem mais de uma esposa, bem como delas se divorciar sem lhes dar nada. Por isso o cristianismo triunfou sobre os antigos deuses.

Mas tais promessas não seriam coisa datada, que só faziam sentido no mundo de dois mil anos atrás? Com certeza. Se fosse baseado apenas em agrados à população pobre e oprimida, o cristianismo teria sido somente uma moda passageira, tal como o discurso dos políticos populistas da época atual. O que dá substância ao cristianismo, e lhe tem permitido estar presente século após século, é justamente algo que, em princípio, ele teria tornado desnecessário: uma filosofia, que é complexa, e portanto acessível somente aos estudiosos, mas cujo desconhecimento não impede que indivíduos incultos sigam os preceitos cristão, desde que assessorados por sacerdotes, padres ou pastores. Ao longo dos séculos o cristianismo tem agregado uma refinada elite intelectual, e esta elite forma a espinha dorsal, sustentáculo da doutrina, inclusive capaz de atualizá-la conforme a época, passando por vezes ao protagonismo na cena política, fenômeno observado recentemente no país, outras vezes voltando às sombras, mas sempre influente na cena intelectual. Este é o"pulo do gato" do cristianismo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O Futuro Era Assim?

Não sei se foi uma época de otimismo em alta, ou eu que era novo e deslumbrado, mas tenho a impressão de que lá pelo anos 60 havia uma sólida e otimista expectativa quando ao futuro. Talvez puxada pelas viagens espaciais, a fascinante novidade de então, esperava-se que ali pelo ano 2000 teríamos um futuro a la Jetsons, com carros voadores, robôs e casas arejadas no alto de torres.

Mas se gosto tanto de pesquisar a História, é porque o futuro teima em repetir o passado. Até mesmo nos Jetsons, produto de entretenimento inteiramente moldado às ideias dos roteiristas, temos um robô empregada doméstica. Quer dizer que as hierarquias sociais do presente continuarão a existir no futuro, apenas substituindo a pessoa pela máquina, mas mantendo íntegro todo o simbolismo inerente -  a empregada-robô está estritamente paramentada como tal.

E no fim, o futuro chegou, pois o futuro, bom ou ruim, sempre chega. Mas tenho dúvidas se o mundo realmente melhorou. A impressão que fica é que houve melhoras, mas não no essencial. Muitas coisas previstas mostraram-se fantasiosas, como os carros voadores. Bem, o carro voador já existe, chama-se helicóptero, mas ninguém imagina um congestionamento de helicópteros, seria desastre certo. Hoje em dia, se você é rico o suficiente, pode ir de helicóptero da casa para o trabalho, mas nem o homem mais rico do mundo é capaz de ir voando ao cinema ou a seu restaurante preferido, como previam os futurólogos de mais de cem anos atrás. Santos Dumont gostava de ir voando em seus balões até os cafés que frequentava, foi o primeiro homem a fazer isso. E o último também.
 
Por outro lado, certos inventos não previstos nem mesmo pelos mais fantasistas surgiram efetivamente. Lembro-me de uma cena do filme 2001, Uma Odisseia No Espaço, feito em 1968, onde os astronautas percorrem a nave ultra-tecnológica conferindo os equipamentos, mas trazem nas mãos pranchetas e caneta, nada de palm-top. Lembro também do desenho de Speed Racer, com aquele automóvel cheio de funcionalidades que contrariavam as leis da física, todas acionadas por um botão no volante. Na minha opinião, a mais absurda de todas era acionada pelo botão G, bem no centro: uma portinhola se abria e saía uma pomba-robô voando com suas asas de metal, para levar mensagens e buscar socorro. Essa nem eu na época engolia. E foi a única que se materializou no futuro: chama-se drone. A única diferença é que voa com hélices, e não com asas de metal.
 
Outra previsão que se concretizou foi o trabalho remoto. O escritor Monteiro Lobato, lá pelos anos vinte do século passado, no livro O Presidente Negro, já previa um mundo de ruas vazias, manso de tráfego, pois a maioria das pessoas ficava em casa e transmitia por ondas de rádio seu trabalho ao escritório. Mas ironicamente, para que essa realidade se concretizasse, foi preciso a quarentena em consequência da pandemia do coronavírus. O que mostra que não era uma necessidade assim tão 
premente, afinal. Descobri que posso perfeitamente trabalhar em casa e transmitir meu trabalho pela internet, mas meu rendimento não melhorou por causa disto. E pergunto-me se a falta de exercício de quem fica em casa dias seguidos não vai causar um aumento das doenças inerentes ao sedentarismo.
 
Mas de modo geral, a impressão que tenho é que as grandes conquistas tecnológicas do futuro que chegou são amaldiçoadas pela palavra virtual. Não têm consistência material, se puxar a tomada, 
desaparecem. No visor do GPS, tudo está limpo e claro (e olha que eu nem previa GPS 30 anos atrás). Mas da janela do carro, vejo ruas esburacadas me conduzindo a favelas, e por este motivo que raramente uso o GPS. A eletrônica digital, tecnologia que de longe foi a que mais evoluiu, é 90% voltada para o entretenimento, e não tenho paciência para jogar videogame. Os 10% restantes foram voltados para aumentar a conectividade  e encurtar distâncias, originando o atual mundo globalizado. Mas quanto a casas, roupas, comida, segurança, meio ambiente, trânsito, infra-estrutura urbana, enfim, essas coisas palpáveis e essenciais à qualidade da vida, reais e não virtuais, melhoraram?
 
Acho que não.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Social Democracia e Fascismo

 Um dos obstáculos para o bom entendimento do momento político e econômico brasileiro é o emprego de terminologias importadas de outros contextos, que não se aplicam aqui como se aplicaram alhures. Na verdade, as palavras trocam de sentido ao mudar de latitude e de época. Se a chave para a compreensão do presente continua sendo o passado - ou seja, a História - não é possível apreciar a História apartada de seu contexto histórico, e aqui temos uma redundância. Aquelas definições que fizeram sentido naqueles países e naquelas épocas, podem ganhar um sentido diferente no país da época atual.

Uma dessas definições é o conceito de Social Democracia, hoje uma bandeira comum dos partidos de esquerda, ou que se dizem de esquerda. Mas em suas origens, a social democracia surgiu no quarto final do século 19 urdida por um governo conservador, aquele do chanceler Bismark no então segundo império alemão. Tinha como objetivo combater os movimentos socialistas ao contrapor reformas que atraíssem o apoio dos trabalhadores. E assim foi exportada para outros países. Lenin, vitorioso na primeira revolução socialista da História, definia a social-democracia como a tropa de choque da burguesia, que vinha combater os socialistas em seu próprio meio e disputando seu próprio público, maliciosamente transformando os trabalhadores em pretensos pequeno-burgueses.

Passadas muitas décadas e transplantada para essas terras, a Social Democracia adquiriu acepções diferentes. Primeiro compôs o nome de partidos sem ideologia definida, que eram social-democratas pro forma. O primeiro partido brasileiro que se propôs social-democrata de raiz foi o PSDB. Mas no poder, fez o oposto do que pregava, e paradoxalmente teve sucesso, com a vitória do Plano Real. Já o PT, em seus primórdios, coerente com o discurso de Lenin, condenava a Social Democracia, mas no poder fez um arquetípico governo social-democrata. Tudo fruto da conjuntura política e econômica que molda a ação dos políticos: o PSDB foi um partido social-democrata que por força das circunstâncias tornou-se liberal. E o PT foi um partido revolucionário que por força das circunstâncias tornou-se social-democrata, e hoje louva o legado varguista.

Um desdobramento desta mutação de conceitos foi a mutação de mais um conceito, o de neoliberalismo, termo muito repetido nos anos 80. Relatado na época à Inglaterra de Thatcher e aos EUA de Reagan, desde os anos 90 tem grudado como uma cola ao PSDB e suas ações de diminuição do Estado e privatizações de estatais. Já em desuso no resto do mundo, entre nós virou quase um palavrão. Em seu contexto original, o neoliberalismo foi uma reação aos excessos do chamado Estado de Bem-Estar Social, cujo alto custo limitava o poder de investimento do Estado e causava a estagnação da economia. Daí a revalorização de princípios clássicos do liberalismo econômico, severamente criticados por outros. Mas entre nós, tal como em nosso entorno latino-americano, jamais existiu um Estado de Bem-Estar Social, e o que se chama de neoliberalismo em geral refere-se aos cortes que qualquer governo se vê obrigado a fazer quando as despesas superam as receitas. Até presidentes de esquerda podem se tornar "neoliberais" se as circunstâncias o exigem, como foi o caso de Menem na Argentina.

Outro conceito desvirtuado, também transformado em xingamento e atirado sobretudo contra o governo Bolsonaro, é aquele grito: fascista! Fascista! Tudo que parece truculento ou reacionário é "fascismo". Mas o que foi o fascismo em seu contexto original?

Foi um regime totalitário, antiliberal, ultra-nacionalista e belicista, surgido na Europa do início do século 20, propondo a superação da democracia liberal, vista como ineficaz, e ao mesmo tempo um apresentando-se como um substitutivo ao socialismo revolucionário. Com esta finalidade, o fascismo substituía o internacionalismo operário pelo nacionalismo étnico e racial, e a expropriação pelo Estado dos meios de produção pela colocação do Estado como mediador entre o capital e o trabalho. O legado da Social-Democracia foi encampado e ampliado pelos regimes fascistas, não sendo de admirar que a nossa Consolidação das Leis do Trabalho tenha sido de todo inspirado pela Carta Del Lavoro de Mussolini.

Mas então, o fascismo é de esquerda? Essa colocação maliciosa revolta muitos comentaristas viciados na dicotomia Direita X Esquerda. Certamente que fascismo e socialismo não são a mesma coisa. Mas o fascismo nasceu do mesmo tronco que o socialismo, ambos fruto da revolução industrial no velho continente, que trouxe o acirramento do antagonismo entre patrões e trabalhadores, bem como do antagonismo entre as potências industriais. Fora deste contexto, o fascismo foi imitado em várias partes do mundo, inclusive aqui.

As características do fascismo são o culto à personalidade do Líder Supremo, o Partido Único, organizações de massa, símbolos e rituais, um certo exoterismo, militarismo, dirigismo da economia pelo Estado, apresentação de um inimigo externo real ou imaginário para catalisar a mobilização popular a este alvo e desviá-la da crítica ao governo, a presença de milícias controladas pelo Partido, e não pelo Estado. O regime atual, próximo de nós, que mais abarca essas características, é justamente o bolivarianismo venezuelano, sobretudo no que se refere ao culto à personalidade do líder vivo, culto místico à personalidade do líder morto Simon Bolivar (que nunca foi socialista) e a presença das milícias bolivarianas, controladas pelo partido, tal como as organizações de massa. Para quem tem conhecimento da História latino-americana, isso não surpreende: o bolivarianismo venezuelano do século 21 é um sucessor do peronismo argentino dos anos 40, lembrando que Perón era um admirador declarado de Mussolini.

Portanto, não se pode concluir que o fascismo seja o antípoda do socialismo. O verdadeiro antípoda do socialismo é a democracia liberal com seus parlamentos, que Marx afirmava serem o balcão de negócios da burguesia. O fascismo inverte esta relação entre burguesia e Estado: se nas democracias liberais (ou democracias burguesas) a burguesia comanda o Estado, sob o fascismo é o Estado que comanda a burguesia (na realidade os regimes fascistas criam uma burguesia para seu uso, seja favorecendo empresários aliados ou enriquecendo seus próprios acólitos, ao mesmo tempo em que perseguem e expropriam os burgueses não cooptados, fenômeno bem encarnado pela chamada boliburguesia).

Essa deturpação de conceitos contribui decisivamente para o não entendimento de quem somos, aonde estamos e para onde vamos. Sem dúvida que estamos presos aos trilhos de nossa própria História, distinta daquela de quem nos emprestou os conceitos que deturpamos, mas é angustioso não ter discernimento da própria História.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Revendo Nosso "Melting Pot"

 Um dos mais conhecidos mitos fundadores de nosso país diz respeito à miscigenação: o Brasil seria peculiar em razão da mistura de portugueses, índios e negros. Alguns apresentam essa característica nacional em tons melífluos, afirmando ser ela a origem do (suposto) caráter cordial e da ausência de sentimentos racistas em nossa população. Outros veem essa assertiva como uma mal disfarçada tentativa de conciliação de classes, e afirmam que nossa miscigenação nada mais seria que o reflexo do caráter predatório do dominador português, que chegava aqui emprenhando índias e escravas para depois abandoná-las. Outros ainda introjetam o antigo olhar estrangeiro sobre a terra abaixo do equador onde "não existe pecado", e devolvem pela via da academia, da literatura e do cinema o retrato do Brasil como uma imensa senzala habitada por mulatas assanhadas e portugueses lúbricos.

No meio dessa discussão, é oportuno citar um alvará régio de 1755, incentivando a união legal entre portugueses(as) e índios(as) e protegendo seus descendentes:

(Marquês de Pombal) – Eu, El Rei. Faço saber aos que este meu Alvará de lei virem, que considerando o quanto convém que os meus reais domínios da America se povoem, e que para este fim pode concorrer muito a comunicação com os Índios, por meio de casamentos: sou servido declarar que os meus vassalos deste reino e da America, que casarem com as Índias dela, não ficam com infâmia alguma, antes se farão dignos da minha real atenção; e que nas terras, em que se estabelecerem, serão preferidos para aqueles lugares e ocupações que couberem na graduação das suas pessoas, e que seus filhos e descendentes serão hábeis e capazes de qualquer emprego, honra, ou dignidade, sem que necessitem de dispensa alguma, em razão destas alianças, em que serão também compreendidas as que já se acharem feitas antes desta minha declaração: E outro sim proibido que os ditos meus vassalos casados com Índias, ou seus descendentes, sejam tratados com o nome de Caboucolos, ou outro semelhante, que possa ser injurioso; (...) O mesmo se praticara a respeito das Portuguesas que casarem com Índios: e a seus filhos e descendentes, e a todos concedo a mesma preferência para os ofícios, que houver nas terras em que viverem; e quando suceda que os filhos ou descendentes destes matrimônios tenham algum requerimento perante mim, me farão saber esta qualidade, para em razão dela mais particularmente os atender. E ordeno que esta minha real resolução se observe geralmente em todos os meus domínios da America. Pelo que mando ao vice-rei e capitão general de mar e terra do estado do Maranhão e Pará, e mais conquistas do Brasil, capitães mores delas, chanceleres, e desembargadores das Relações da Bahia e Rio de Janeiro, ouvidores gerais das Comarcas, juízes de fora e ordinários, e mais justiças dos referidos estados, cumpram e guardem o presente alvará de ley, e o façam cumprir e guardar na forma que nele se contém; o qual valerá como carta, posto que seu efeito haja de durar mais de um ano, e se publicará nas ditas comarcas, e em minha chancelaria mor da corte, e reino, onde se registrará, como também nas mais partes, em que semelhantes alvarás se costumam registrar; e o próprio se lançará na Torre do Tombo. Lisboa, quatro de abril de mil setecentos e cinquenta e cinco. – Rey

Então, nossa miscigenação não é exatamente produto do "Estupro Fundamental", como muitos denominam a chegada aqui dos portugueses. Mesmo porque o propósito do estupro não é produzir descendentes, embora isso possa acontecer. Nenhum historiador sério acredita que o atual povo francês seja o produto de mulheres gaulesas estupradas por invasores romanos, nem que o atual povo escocês é o produto de mulheres celtas estupradas por vikings, mas muitos acreditam que nossa vasta população morena tenha sido gerada por uma série de estupros de portugueses sobre índias e escravas. Tem a ver com os mitos fundadores que fazem o gosto das pré-suposições: os colonos da América do Norte eram puritanos que chegavam com suas famílias, dispostos a construir um novo país, enquanto os portugueses, povo meridional possuído pela sensualidade tropical, fizeram uma farra doida com as mulheres locais, originando assim dois países: um ordenado, porém racista; outro bagunçado, porém isento de racismo. Assim teriam surgido os EUA e o Brasil. Ponto.

Mas os cultores desta teoria omitem um dado histórico fundamental: ao contrário do que sucedeu nos EUA, as primeiras levas de colonos que aportaram aqui só traziam homens. Esses colonos não tinham outra alternativa senão desposar mulheres índias, mesmo porque eram só um punhado e não podiam sobreviver sem aliança com as tribos. É fácil de conceber que um colono que chega em uma terra desconhecida e despovoada, da qual não pode esperar qualquer proteção, sente a necessidade imperiosa de produzir descendentes o mais rápido e na maior quantidade possível, mesmo porque, sem os quais, não terá sequer como sustentar-se quando lhe faltarem forças para o trabalho.

Descendentes em grande quantidade e leais ao patriarca só podem ser concebidos via uniões estáveis. Conclui-se, portanto, que os colonos não saíam por aí emprenhando índias, mas ao invés disso se casavam com elas respeitando as convenções locais. Mesmo porque não teriam o favor das tribos se desrespeitassem suas mulheres. Outro fator que pode ter contribuído para a lenda do colono cafajeste que abandonava os filhos seria uma interpretação equivocada dos costumes dos índios, que aceitavam a poligamia, e cujos filhos só permaneciam na companhia dos pais até uns 8 anos, sendo criados coletivamente pela tribo após esta idade.

Foi assim nos primórdios da colonização. Depois começaram a chegar mulheres europeias nos navios, e já não havia necessidade de se casar com mulheres locais. Estando os colonos bem estabelecidos e com poder, diminuía a necessidade de alianças com as tribos. A partir de então os esporádicos enlaces entre colonos e mulheres índias assumiriam o caráter do que hoje chamamos de sexo casual, ou mesmo estupro, mas é duvidoso que um grande contingente populacional tenha sido formado por esta via, mesmo porque a maioria das tribos aceitava o infanticídio e não permitia o nascimento de nenhuma criança indesejada. Ademais, a massa de mestiços, chamados caboclos, já havia sido gerada nos primórdios da colonização, e reproduzia-se vegetativamente.

Outra lenda que precisa ser revista é aquela que afirma que a população de mulatos teria sido gerada exclusivamente pelo estupro de escravas. Estupros com certeza ocorreram, mas é preciso lembrar que os costumes da época podiam ser tolerantes com o abuso sexual das escravas, mas não eram tolerantes com crianças legítimas e bastardas convivendo sob o mesmo teto. Penso que maioria das crianças filhas das visitas do sinhôzinho à senzala era abortada, vendida para outra fazenda ou feita desaparecer por algum outro meio. Após o fim da escravidão, os negros recém-libertados começaram a se casar em número crescente com os antigos caboclos, que tinham uma condição social semelhante à deles, sendo essa a origem da maioria dos atuais mulatos (que a bem dizer, seriam cafuzos, descendentes de brancos, índios e negros). Uniões entre brancos puros e negros puros, possivelmente, eram tão raras naqueles tempos quanto hoje em dia.

Às vezes a História se constrói mais pela remoção de falsas suposições do que pelo adendo de novas descobertas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Nosso Passado Não Resolvido

Quando penso no futuro, não esqueço do passado, diz a letra da música. Quem estuda a História sob uma perspectiva neutra, pensa no passado, e não no futuro. Mas quando o afã de pensar no futuro nos leva invariavelmente ao passado, temos aí o sintoma de um passado não resolvido. Recentemente descobri esse artigo instigante do jornalista e historiador Marcos Guterman, intitulado O País Enfrenta Superabundância de Passado Não Resolvido.
Como toda tentativa de repetição da História, há na aventura bolsonarista, nostálgica do regime militar, um tanto de farsa. O próprio presidente Jair Bolsonaro não foi exatamente um exemplo de bom militar e seria preciso um grande esforço para vê-lo como líder de uma retomada dos ideais que moveram os generais que governaram o Brasil entre 1964 e 1985
Qualquer um que tenha acompanhado a trajetória de Bolsonaro sabe que ele não foi um personagem do regime de 1964, mesmo porque não tinha idade para ter sido. E o modo como agiu destoa, aliás, dos ditames daquele regime. O então capitão foi preso por indisciplina ao reclamar dos baixos soldos da tropa, e entrou na carreira política como uma espécie de líder sindical portando as reivindicações dos oficiais de baixa patente, uma posição que pode ser classificada como de esquerda, e não de direita. Tornado presidente, sua política econômica liberal e privatista nada tem a ver com o nacional-estatismo do regime dos generais.
 
Diante destas constatações, o autor do artigo deduz que o ponto não resolvido do passado, ao contrário do que se supõe, não se localiza em 1964, mas em 1985, marco inicial da "Nova República".
 
De fato, o regime iniciado em 1964 e encerrado em 1985 não possui mais conexões com o presente. Subversivos armados são personagens extintos, como extinto está o modelo econômico desenvolvimentista de substituição de importações, iniciado por Vargas nos anos 30, levado pelos militares ao auge nos anos 70, e ao esgotamento nos anos 80. O malogro econômico do regime pôs fim ao mito de que os militares seriam governantes mais competentes que os civis, e desde então não se ouviram mais clamores pela volta dos militares ao poder, exceto em época recente, mas já em indisfarçável tom de saudosismo. Todos sabem que o regime de 1964 é incompatível com o tempo histórico atual, começando pelos militares que ora fazem parte do governo.
 
Mas não foi apenas o sonho desenvolvimentista autoritário dos generais que se esboroou naquele ano de 1985. A utopia socialista dos opositores do regime também já vinha em adiantada decomposição, o que foi confirmado ao final da década pela queda dos regimes socialistas do leste. Bem observou o autor do artigo, não foram apenas os bolsonaristas os inconformados em 1985. Naquele mesmo ano o PT proibiu seus oito parlamentares de participar do processo de escolha do presidente no colégio eleitoral e chegou a afastar os três que contrariaram a ordem e votaram em Tancredo Neves. Depois seus deputados negaram-se a assinar a constituição de 1988, deixando claro que não a reconheciam por considerá-la uma farsa da democracia burguesa. Ao mesmo tempo em que participavam de eleições e embrenhavam-se cada vez mais nos meandros da democracia burguesa que diziam não reconhecer, os petistas conservavam o discurso sectário, presos a um passado não resolvido que prometiam obsessivamente retomar em algum momento no futuro. A corda se esticou, e se rompeu em 2016, sinalizando a ruptura entre a prisão no passado e o futuro que não conseguiam alcançar. Conclui o autor do artigo:
É nesse ponto que o petismo e o bolsonarismo se encontram: no desconforto sobre o desfecho do regime militar. Para os bolsonaristas, a Nova República serviu para franquear a máquina estatal a parasitas do dinheiro público e a minorias moralmente abjetas, alimentando saudades da ditadura, supostamente incorruptível e a salvo da perversão comunista. Para os petistas, a Nova República foi o modo que as elites encontraram para proteger seu modelo hegemônico das demandas crescentes de inclusão social e participação política desde os estertores da ditadura
A sensação que fica é a de quem pegou um atalho errado, e deparando-se como fim da trilha, quer voltar ao ponto de partida. O clima é de saudosismo, farsa e desalento. O país do futuro perdeu seu norte em 1985. E agora vive do passado. Até quando?

domingo, 9 de agosto de 2020

Que Fim Levou o Socialismo?

Nesses tempos de desalento, fica a impressão de que a utopia morreu. Se morreu, cumpre entender sua causa mortis. Refiro-me à utopia socialista, que embalou os sonhos de múltiplas gerações, e até quem não acreditava nela, achava-a bonita. Alguém ainda acredita nela? Há renitentes defensores, que mantém a fé sustentada por argumentos por toda a vida. Eu achei interessante essa entrevista do sociólogo Antônio Cândido, uma das últimas que ele concedeu antes de morrer. 
 
 "Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial (...) Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado"
 
Quando um aluno contrapôs que o capitalismo também tinha uma face humana, ele replicou:
 
"O capitalismo não tem face humana nenhuma (...) O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia"
 
A última afirmação de Antônio Cândido provocou curiosidade no entrevistador, pela aparente contradição. Ele explicou:
 
"[Porque] virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder"
 
Penso que o sociólogo encontrou a resposta, meio que sem querer. O socialismo só dá certo quando não é implantado, e permanece como utopia, eventualmente arrancando concessões do capitalismo. De fato, os únicos regimes socialistas que restaram no mundo foram aqueles que se abriram ao capitalismo, mesmo que em apenas algumas localidades restritas - o melhor exemplo é a China. Cuba vai pelo mesmo caminho: toda a liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. Já a Coréia do Norte, por certo Antônio Cândido ficaria embaraçado se lhe pedissem apontar onde está a face humana ali, mas a Coréia do Norte é ponto fora da curva.
 
Mas afinal, como um regime pautado por tão nobres ideais, que reconhecidamente obteve grandes conquistas para os trabalhadores, pôde fracassar tão fragorosamente?
 
Isso o sociólogo não disse, mas minha convicção é que o capitalismo triunfou sobre o socialismo precisamente em razão daquilo que Antônio Cândido afirmou que ele não possuía - o rosto humano. Não me refiro ao rosto humano no sentido de bondade, mas de compatibilidade com a natureza humana, que é individualista. Ao contrário do socialismo, o capitalismo não foi uma criação de filósofos, mas surgiu da necessidade e da materialidade, espontaneamente. Algumas práticas capitalistas são tão antigas que existem a milênios, e outras são tão elementares que sobreviveram mesmo dentro dos regimes comunistas mais fechados. O capitalismo está sempre renascendo, como os tufos de relva que surgem pelas frestas das calçadas quebradas.
 
Enfim, é isso: o benefício não é tão bom quanto o salário, a igualdade não é tão boa quanto a liberdade, a segurança não é tão boa quanto a oportunidade. O mundo real é duro, mas como disse Andy Wharrol, ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife. E a utopia? Precisa existir, porque sonhar também faz parte da natureza humana. Mas convém não esquecer aquele ditado safado: nunca deseje demais uma coisa, você se arrisca a obter o que deseja...

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Da Distopia à Utopia

Cansados da "bad trip" por que passa o país, que passou da utopia à distopia, conforme mencionei em meu último artigo, alguns observadores estão ansiosos pelo momento em que o país finalmente passará da distopia à utopia. O jornalista Zuenir Ventura escreveu um artigo com este título nos últimos dias.

O veterano Zuenir fez uma comparação ingênua entre o momento atual do Coronavirus e os tempos da peste negra do século XIV, esta igualmente originada da China, que devastou a Europa, mas no dizer do jornalista, "Mesmo esse horror foi capaz de incubar um dos mais ricos movimentos culturais, o Renascimento, que produziu gênios como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Rafael, para só citar os principais. Uma tese tenta explicar o divino mistério desse período: a devastação de Florença pela peste provocou uma tal mudança de mentalidade e de visão que, paradoxalmente, teria levado ao Renascimento"

É fato que a súbita retirada de milhões da população trouxe algumas consequências benéficas para a economia na época, como a maior oferta de terras e de casas vazias. Mas nem usando muita imaginação eu consigo vislumbrar como isso possa ter de algum modo alterado a mentalidade das pessoas e provocado o Renascimento. Penso que este movimento já vinha sendo incubado desde o final da Idade Média, e foi acelerado pela migração de inúmeros letrados do antigo Império Bizantino para a Itália após a queda de Constantinopla, que aconteceu pouco antes. Mas Zuenir tem imaginação suficiente para chegar a esta conclusão. Não me surpreende que ele anseie pela utopia: foi um dos grande utópicos dos anos 60, sobre os quais escreveu o emblemático 1968, O Ano que Não Terminou. E pelas décadas seguintes fez o que pôde para permanecer otimista. Eu particularmente me lembro da entrevista que fez com o traficante Flávio Negão para o livro Cidade Partida, na qual destacou, enternecido, a afirmação do entrevistado de que nunca assaltara um ônibus porque "lá só tem trabalhador". Magnífica demonstração de consciência social da parte do bandido. A meu ver, magnífico "wishful thinking" da parte do autor. Zuenir não quis considerar a hipótese de que Flávio Negão não assaltava ônibus porque não compensava roubar trabalhadores sem vintém.

A última utopia dessa turma foi, de fato, transformar marginais das favelas em heróis populares defensores de suas comunidades. Nem essa cola mais nos dias de hoje. Mas compreende-se: nos anos 60, a utopia estava indelevelmente ligada à ideia de uma revolução a ser feita. Até mesmo os militares chamavam sua tomada do poder de "revolução". Eu particularmente não gosto da ideia, pois além das desgraças que provocam, revoluções muitas vezes mudam o ruim para pior, e na melhor das hipóteses, fazem com violência o que podia ter sido feito pela negociação, sem prisão nem fuzilamento. Mas como estudioso da História, eu sou obrigado a reconhecer que bem ou mal, o mundo em que hoje vivemos é o produto de uma série de revoluções.

De quem não gosta de mudanças bruscas e violências, diz-se que é um sujeito contemplativo. Eu de fato gosto de contemplar paisagens. A psicologia explica porque é reconfortante ficar olhando longamente uma paisagem natural: é que elas oferecem a nossos olhos o contraponto à paisagem urbana das cidades, esta sempre em mutação. Mas os morros, vales e rios, esses podemos ter a tranquila certeza de que permanecerão  para sempre iguais a como eram em nossa juventude, certo? Só que não é bem assim. A paisagem natural muda, também, e não só por ação humana, mas por ação da própria natureza: a chuva, os ventos, a erosão. A cena bucólica que contemplamos foi moldada por um passado de eventos catastróficos como enchentes, terremotos, erupções vulcânicas, encostas que desabam. E do mesmo modo, a imagem plácida dos países ordeiros onde as leis prevalecem, os partidos se alternam no poder e os cidadãos têm garantias, esconde um passado de eventos brutais como guerras, revoluções, migração, colonialismo e escravidão. Mas tanto em um quanto em outro, tudo isso acontece tão lentamente que a ilusão da imobilidade satisfaz as expectativas de quem gosta de ordem.

Quanto a mim, no momento, prefiro ficar olhando a paisagem. Não há muito de alvissareiro para comentar no país atual.