sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Para os historiadores do futuro explicarem

A História só pode ser devidamente apreciada com um mínimo de distanciamento no tempo. Como se diz, não se pode contemplar uma catedral estando dentro dela. E um fenômeno que os historiadores do futuro terão que explicar é a queda do PT, o partido dos trabalhadores que dez anos atrás exibia ampla aprovação, mas terminou rejeitado por esses mesmos trabalhadores.

Já dei minha opinião a respeito em outras oportunidades. Mas uma coisa que sempre me chamou a atenção é a capacidade de certas figuras populares, intelectualmente rasas, de sintetizar em poucas palavras a explicação para um fenômeno que os intelectuais não conseguem ou não querem explicar. Nesse artigo do Jornal GGN, intitulado o Povo Quer as Milícias no Poder, o rapper Mano Brown assim criticou o PT:

Deixou de entender o povão, já era. Se é Partido dos Trabalhadores, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender

Ele disse o mesmo que eu já repeti tantas vezes: o principal motivo do divórcio entre o Partido dos Trabalhadores e o trabalhador foi a negligência com a questão da segurança pública, que é a preocupação número um do povo das periferias assoladas pelo crime. Mas como um partido que sempre se disse antenado com o povo pôde ignorar uma demanda tão óbvia?

No mesmo artigo, a socióloga Angelina Peralva ressalta que a violência no Brasil se acentuou no período pós-ditadura. De fato, ela já vinha em ascensão durante a ditadura, negligenciada pelos militares, mas foi mesmo nos anos 80 que deu um salto. E esse salto está diretamente ligado à ascensão de governos de esquerda, sendo o exemplo mais notável Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Como se sabe, Brizola proibiu a polícia de subir aos morros, e em consequência os traficantes se armaram e passaram a dominar seus territórios como um exército de ocupação. Em resposta, a população se cotizou para pagar guardas particulares, geralmente policiais ou ex-policiais, que depois se tornaram as milícias.

Como isso foi possível?

O equívoco fundamental, a meu ver, foi a própria abordagem da questão da segurança por parte dos petistas, em sua maioria indivíduos egressos de meios intelectuais sem contato com o povo nas ruas. Foi dado ao fenômeno da criminalidade uma leitura de luta de classes, sob a óptica marxista - por conseguinte, reprimir os criminosos é reprimir o povo. A abordagem marxista não enxerga o indivíduo, apenas a classe social. Como tanto os marginais quanto os trabalhadores pertencem à classe dos proletários, então, julgam os petistas, eles são a mesma coisa, e devem merecer o mesmo favor. Isso vai diametralmente contra o enfoque que o povo das periferias tem a respeito de si próprio e dos marginais: a dicotomia Trabalhador X Vagabundo. Uma vez que habita as mesmas paragens que os marginais, o trabalhador fica indefeso contra eles, exceto se contar com as milícias. Natural que busque apoio em quem promete dureza no combate ao crime.

Essa substituição dos trabalhadores pelos marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, na verdade vem desde o fim da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores. O proletariado não ingressava na guerrilha, mas em contrapartida, as favelas cresciam. Daí que a esquerda foi buscar seu novo público entre esses lúmpens, aí entendidos não só como os marginais, mas como todo grupo de indivíduos desajustados e inconformistas. Isso escandalizou o povo das periferias, profundamente conservador, que correu para os pastores evangélicos e selou de vez o divórcio com o PT.

Frequentador que sou de forum´s da internet, chama-me a atenção, também, a resistência dos petistas em admitir seu equívoco. Isso se deve, a meu ver, ao DNA revolucionário do PT. O tópico foi debatido nesse artigo, também do Jornal GGN.

É certo que o PT nunca foi, formalmente, um partido revolucionário, como era o antigo pecebão. Mas foi constituído desde o princípio por elementos oriundos de movimentos revolucionários. O revolucionário não é igual ao político, eles não se vê como participante de um jogo onde pode ganhar ou perder, tampouco como porta-voz de demandas populares avulsas. Ele se vê como portador de uma verdade excelsa e definitiva, um sistema de ideias coerente e completo que deve substituir o que está aí, e iniciar uma nova etapa histórica onde será hegemônico - para ele não existe A ou B, mas Certo ou Errado. É a mesma atitude do pregador de uma nova religião. O profeta não pode admitir estar errado, ou perderá sua legitimidade.

E religião por religião, isso os pastores evangélicos sabem fazer melhor.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Dois motivos para otimismo

Ainda não dá para ter uma ideia precisa de como será o novo governo, mas dois fatos por mim observados autorizam certo otimismo.

O primeiro, é a estabilidade da economia, que ainda está longe de apresentar forte crescimento, mas exibe inflação baixa e desemprego em queda, ao contrário da típica turbulência que se segue às incertezas de um novo governo.

O segundo, foi o modesto discurso de Bolsonaro em Davos.

Esses sinais apontam para aquele que considero o cenário ideal para o país, nesse momento: o protagonismo da economia e o eclipse da política. Ao fazer um discurso curto, quase tímido, Bolsonaro mostrou que não está disposto a se embrenhar em um terreno que definitivamente não é seu forte: a palavra. Dizem que ele, calado, é um poeta. Difícil é ficar calado por quatro anos, mas se mantiver um estilo discreto, já é alguma coisa. Já a economia, tal como a grama, cresce quando ninguém olha para ela.

Bolsonaro claramente é um personagem despreparado para a política. Nunca exerceu um cargo executivo, e no congresso notabilizou-se por seus bate-bocas insultosos. Foi eleito pelo voto de raiva de multidões decepcionadas por sucessivos governos de esquerda que atiraram ao lixo a moralidade pública e se recusaram a reprimir criminosos. Mas parece ter percebido cedo que a retórica dos palanques é inútil nos gabinetes. O escândalo envolvendo seu filho também veio em ocasião oportuna para baixar sua crista. A esperança é que mantenha o estilo discreto e deixe o governo para os especialistas. O momento é crucial para que sejam feitas as reformas de que o país necessita, cujo impasse vem travando o crescimento, em especial a reforma da previdência. Bolsonaro tem grande potencial, tanto de destravar este nó com as reformas, quanto de provocar um enorme desastre. Dar prosseguimento ao discurso extremista do tempo dos palanques, neste momento, terá o mesmo efeito que sambar na corda bamba.

Observando o cenário econômico, o que se vê ainda é pasmaceira. Mas isto não é ruim, levando em conta o histórico desde o início da crise. É nesse momento que se pode apreciar corretamente o valor do governo Temer, o de menor índice de aprovação de nossa História. Quando assumiu, a economia apresentava um quadro de acelerada degradação, com inflação em alta e crescimento negativo. Temer não fez o país sair da crise, mas entrega a seu sucessor um quadro de inflação em queda e crescimento positivo. Faltou-lhe apoio, é certo, para as reformas cruciais como a da previdência, além de estar ele próprio manchado por escândalos, mas fez o essencial: desviou o país da rota para o desastre. Como se diz, estancou a sangria. Se Temer tem algum valor a mostrar, é o valor do presidente impopular, que não tem ambições políticas futuras, e por isso mesmo pode dar-se ao luxo de tomar aquelas medidas desagradáveis, porém indispensáveis para se sair de uma crise, medidas essas que Dilma Rousseff dificilmente teria condições de tomar, presa que estava aos compromissos eleitorais. Tivesse ela permanecido no poder, o quadro econômico teria se agravado, e as últimas eleições seriam disputadas em um ambiente de raiva e polarização ainda mais pronunciado.

Mas agora a economia parece pronta para novo ciclo de crescimento, desde que livre de turbulências políticas e de projetos bombásticos. Há boa chance disto acontecer, esperando-se que Bolsonaro permaneça disposto a acolher aquele conselho que o rei da Espanha deu a Hugo Chávez: "pusque no te callas?"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Colonialismo e Sociedade Civil

É recorrente afirmar-se que a má formação de nossa sociedade civil origina-se no colonialismo pautado em violências e escravidão. Mas sempre ficam alguns tópicos mal explicados: por que o mesmo não ocorreu nas colônias britânicas do norte? Recentemente li um artigo na revista Leituras da História a respeito da obra do abade francês Guillaume-Thomas Raynal, História Filosófica e Política dos Estabelecimentos e dos Comércios dos Europeus nas Duas Índias, que me chamou a atenção.

Não conhecia esse autor. Suas conjecturas não diferem muito das de outros autores humanistas, sobretudo religiosos, acerca das violências da colonização europeia do Novo Mundo, mas algumas colocações são originais. Em linhas gerais, o autor questiona: como haveria progresso em uma sociedade dividida entre dominadores cruéis e dominados apáticos e improdutivos?

Pelo que Raynal observou, a violência dos colonos não apenas abatia aos nativos, mas também desumanizava os próprios colonos: "As molas de sua alma foram quebradas", escreveu, referindo-se aos nativos. Já os colonos eram constituídos por indivíduos "descontentes de sua sorte", ou seja, a escória de sua sociedade, que tinham a oportunidade de enriquecer à custa da rapina em um local onde o governo civil era fraco e incapaz de contê-los. Seus descendentes, escreveu, tornavam-se "tiranos". Isso deu origem a uma sociedade "destituída de virtudes cívicas".

Raynal se pergunta se o europeu, uma vez liberto dos constrangimentos das leis e dos costumes, não é mais perverso que o selvagem. Compara os colonos portugueses a "tigres domesticados que retornam à floresta". Nada disso é novidade. Mas uma observação de Raynal me chamou a atenção. Ao afirmar que os descendentes dos primeiros colonos, aventureiros, tornavam-se pequenos tiranos, ele afirma que a chusma de pequenos tiranos é mais danosa que um grande tirano.

Penso que aí pode estar a chave para entender as diferenças entre a colonização ibérica e a britânica na América do Norte. Diferenças quanto aos resultados, pois quanto aos métodos, há mais semelhanças que diferenças. Também no norte a ocupação do território por europeus foi marcada pela brutalidade. Também ali havia aventureiros, escravidão e opressão aos nativos. Mas não se distinguem ali os pequenos tiranos a que Raynal se referiu. Havia apenas um grande tirano - o governo colonial inglês - do qual os colonos se livraram de um golpe só, o fazerem a revolução.
A administração colonial portuguesa era tirânica, mas fraca. No vasto interior, a multidão de pequenos tiranos, os "homens bons" das câmaras, fazia o que queria. Repetidamente desobedeciam, ameaçavam e corrompiam os funcionários do governo. Aqueles senhores de terras e escravos sabiam que a manutenção de suas posses dependia muito mais de sua capacidade de ter homens armados sob seu comando, do que da investidura de um rei tão distante que parecia lendário. Mas na América do Norte, a administração colonial mostrou-se capaz de conter os excessos dos colonos, e assim originar virtudes cívicas. Suas instituições, em grande medida, foram conservadas pelo governo independente que se instalou em seguida.

De fato, no Brasil, os colonos chegados só começaram a manifestar um comportamento parecido com os da América do Norte após a independência. Mas aí já não se chamavam colonos, e sim imigrantes. Os imigrantes de diversas origens foram os primeiros exemplos de virtudes cívicas do país, nem sempre reconhecida, mas bastante presente no imaginário nacional: a união familiar e a organização de comunidades, a devoção ao trabalho, a educação das crianças. Foram esses imigrantes os responsáveis pelos primeiros estabelecimentos de agricultura familiar no país, bem como das primeiras indústrias. E no entanto, eram constituídos pelo mesmo grupo humano dos antigos colonos, aqueles a quem Raynal denominou "os descontentes com sua sorte".

Mas se o colono era como um tigre domesticado que retornava à vida selvagem, o imigrante foi um tigre domesticado que se tornou um manso gatinho. O motivo é bastante evidente: eles não aportavam no país como aventureiros, nem era tolerado que fizessem o que quisessem. Tinham locais delimitados para se estabelecer. Eles não compunham câmaras de "homens bons" capazes de todos os desmandos, na verdade a entrada na política esteve praticamente vedada a eles até meados do século 20 Tiveram que concentrar-se em sua vida e seus projetos pessoais.

Se quisermos realmente cultivar virtudes cívicas, temos que liquidar o passivo dos descendentes dos aventureiros que aqui aportaram, e penso que isso só pode ser feito com o endurecimento da legislação e penalidades severas. Antes um só tirano que uma chusma de pequenos tiranos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Escola Sem Partido

Um dos projetos mais polêmicos do momento atual é aquele que institui a Escola Sem Partido. Suscita reações vigorosas, tanto de apoiadores quanto de opositores. Quanto a mim, não é surpresa. A descarada doutrinação nas escolas já vinha sendo denunciada havia tempos, e um sintoma de que o pessoal estava saturado disso foi o sucesso dos Guias Politicamente Incorretos, que já citei aqui várias vezes.

Mas o projeto dá medo, sim. Os alunos ganham a prerrogativa de denunciar um professor que supostamente tenta fazer doutrinação política, e isso pode criar um clima de retração e caça às bruxas. Uma coisa assim pode, efetivamente, ser usada para propósitos escusos. No meio desta polêmica, chamou-me a atenção uma entrevista do ex-senador e ex-ministro da educação Cristovam Buarque, intitulada Soviéticos e Nazistas Tentaram Escola Sem Partido e Falharam.

O título parece mais uma patacoada estilo Falácia Ad Hitlerum para demonizar certo movimento. De Cristovam Buarque não esperava mesmo outra coisa, sempre o tive como um comentarista de esquerda pouco imaginoso e especialista em platitudes. Por isso me surpreendi quando o vi reconhecer:
"Primeiro, é preciso reconhecer: muitos professores exageraram nos últimos anos, em vez de debater, querendo doutrinar. Houve certo exagero na maneira como alguns professores se sentiram donos da verdade de um partido"

Sim, finalmente um comentarista de esquerda admitiu. Anos atrás, eu já me horrorizava ao ler trechos de livros didáticos de História repletos de chavões em meio a erros gramaticais e linguagem chula. Comparando-os com os livros-texto de meus tempos de estudante, dava para ter uma boa ideia do quanto o nível do ensino caiu no país. Mas afinal, essa doutrinação que persistiu em nossas escolas por anos a fio surtiu algum efeito do ponto de vista dos doutrinadores?

Em um debate com um blogueiro esquerdista que também é professor de ensino médio, ele me respondeu categórico: "Tudo o que um professor espera hoje dos alunos é que não ponham abaixo a sala de aula". É, parece que eliminar a disciplina das escolas não foi uma boa ideia. Sem disciplina não se faz nada. Nem revolução. Outro comentarista que também foi professor de ensino médio disse: "Quando os alunos não estão a fim de assimilar uma coisa, pode repetir cem vezes que entra por um ouvido e sai pelo outro". Questionado pelo entrevistador, Cristovam responde com impressionante sinceridade:

"O pessoal fala em escola sem partido, mas o problema, no Brasil, é escola e ponto. Esse país nem tem escola [de qualidade], quer dizer, só tem para uma minoria. Estão querendo tirar o partido da escola antes de fazer a escola"

Sim, ele disse o óbvio. Como cultor de platitudes, a especialidade de Cristovam é mesmo dizer o óbvio, embora nem sempre com neutralidade. Eu já havia chegado à mesma conclusão: a doutrinação em sala de aula, seja do viés que for, é ineficaz para produzir uma geração de militantes, mas é eficaz para mediocrizar o ensino. Isso porque o raciocínio é substituído pela repetição de chavões. Não vendo nexo lógico entre a realidade perceptível e aquilo que o professor afirma, o aluno desacostuma-se a pensar. Um professor que diz coisas engraçadas, que debocha dos personagens históricos, dos ricos, dos famosos e de todos aqueles que despertam a inveja das pessoas comuns, sempre é popular entre as ditas pessoas comuns. Quando nada, será o professor de uma matéria fácil de passar, cujas aulas são divertidas.

E não é só isso: além de mediocrizar o ensino, um professor assim também detona a autoestima dos alunos. Todos são convencidos de que pertencem a um povo ordinário e patético, sem valor, cujos heróis são vilões e que não fazem nada que preste. O que um jovem que recebe esta mensagem vai pensar? Que ele tem mais é que mandar o país às favas, pois mesmo se ele fizer alguma coisa grandiosa, os professores de História do futuro vão dizer que ele foi um mané, igual fazem os professores do presente com os personagens históricos do passado. Não me parece a melhor maneira de formar militantes entusiasmados.

Os nazistas e comunistas, como se sabe, nunca criaram uma Escola Sem Partido. Eram regimes de partido único, e por conseguinte não tiveram nenhuma propensão em disfarçar que o Partido permeava a escola, tal como permeava toda a vida cultural e até social dos cidadãos. Se por aqui o projeto Escola Sem Partido vai materializar uma Escola de Partido Único (do governo), isso veremos. Cristovam concluiu:

"Nós precisamos é de um partido para a escola, porque não temos nenhum. Um partido que ponha a escola como eixo central do progresso"

É raro eu concordar com Cristovam, mas desta vez eu concordo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Contrarrevolução Cultural

A revolução cultural fez história em minha geração. Não estou me referindo à China de Mao, onde o termo foi efetivamente lançado nos anos 60 e evoca memórias de horror à população. Refiro-me ao sentido romântico que o termo ganhou no ocidente. Todas as revoluções políticas tentadas desde então fracassaram, ou foram tão patéticas que nem se pode chama-las assim, mas por outro lado ficou a sensação de que foi obtido triunfo em revolução de costumes que mudou definitivamente o mundo. Fala-se com naturalidade da revolução dos estudantes de maio de 1968 em Paris, que se irradiou pelo mundo inteiro, esquecido que em maio de 1968 não aconteceu revolução nenhuma strictu sensu, pois o governo não foi derrubado nem o regime foi mudado.

Pouco sangue, muito esperma, ironizou na época certa personalidade francesa cujo nome não me lembro, querendo dizer que tudo não passou de arroubos de uma juventude arruaceira e hedonista. Mas ninguém duvida que a década de 60 produziu uma virada geral nos costumes, que demoliu antigas crenças e tabus que vinham dos primórdios de nossa civilização. O vento da mudança soprou, refrescou e levantou a poeira. Quem viveu aquela época, e mesmo quem nasceu depois, lembra-se dela com ternura.

Por aí se entende o desconcerto desse pessoal ao contemplar a atual onda conservadora que varre o mundo ocidental, que no nosso país produziu a eleição de Bolsonaro. Ideias que pareciam ultrapassadas e enterradas desde muito voltam à pauta. Cresce a religiosidade e o prestígio dos pastores. A mudança de costumes, que consideravam irreversível, está sendo contestada. Após a revolução cultural dos anos 60, estaria acontecendo, então, uma tardia contrarrevolução cultural? Comentou Rodrigo Constantino, na Gazeta do Povo:

A esquerda 'progressista' plantou as sementes que levaram ao crescimento dessa direita nacionalista e 'xenófoba'. Mas os 'progressistas' se recusam a fazer uma reflexão profunda sobre seu mea culpa nessa história. Desde a década de 1960, em que prometem 'liberdade' por meio da libertinagem...


Vovó já dizia para não confundir liberdade com libertinagem. E parece que tinha razão. A libertinagem prometida pelos revolucionários dos anos 60, longe de conduzir à liberdade, prendeu os indivíduos em uma espiral de dissipação. O fenômeno mais palpável que se verificou a partir daí foi a explosão do consumo de drogas. O hedonismo é intrinsecamente autodestrutivo. Na Europa, o vazio existencial dos filhos e netos de maio de 1968 vem sendo preenchido pelos radicais muçulmanos, aqui fazem a festa os pastores evangélicos. Menos mal.

Impressiona que essa contrarrevolução cultural esteja partindo do povão que frequenta as igrejas evangélicas das periferias, e não das elites. Todas as grandes revoluções culturais até hoje no mundo ocidental partiram das elites. O iluminismo do século 18 foi gestado nos salões, e não nas tabernas, onde o povo sequer sabia ler. O maio de 1968 foi produto do aumento expressivo do número de estudantes universitários, na esteira da prosperidade após a segunda guerra - afinal, tudo começou porque os estudantes queriam frequentar o dormitório de suas namoradas, não foi? Os intelectuais militantes, incapazes de explicar como o povão, de quem se consideram porta-vozes, pôde mudar de tal maneira sua mentalidade, tecem teorias conspiratórias e falam do despeito de uma classe média com o aumento do poder de compra dos pobres e a invasão destes a seus espaços exclusivos. Como se classe média, no Brasil, decidisse eleição.

A esquerda que comemorava a demolição das amarras morais da pequena burguesia, agora sente que o tapete lhe foi puxado, e começa a por em dúvida a eficácia da estratégia gramscista, lançada pelo intelectual italiano Antonio Gramsci, que aliás foi o criador do termo revolução cultural. A explosão do consumo de drogas, na esteira da rebelião da juventude dos anos 60, inundou de crime as periferias. Acossado pela violência e pela imoralidade, o povão que mora ali corre para os pastores evangélicos e dá seu voto ao primeiro candidato que aparece prometendo baixar o pau na bandidagem e regressar a tempos pregressos supostamente mais felizes. A visão da mocinha de seios de fora nas passeatas dos anos 60, se na época evocava desafio e transgressão, hoje só evoca vulgaridade.
De fato, no Brasil, o hedonismo como propensão revolucionária sempre foi um grande mal entendido, muito antes, aliás, do maio de 1968. Longe de nos conduzir à libertação, deixou-nos prisioneiros da dicotomia Civilizado X Selvagem configurada pelo aforismo que afirmava não existir pecado do lado de baixo do equador. Quem pensa que isso é coisa do tempo das caravelas devia prestar atenção a certa entrevista dada pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Perguntado porque os vilões do filme A Pele Que Habito eram brasileiros, respondeu com naturalidade:

Eu não queria que a família de Ledgard fosse espanhola e que ele tivesse recebido uma educação cristã. Não queria que ele tivesse sido criado numa lógica de culpa e castigo. Logo, eu o inseri numa família brasileira. Trata-se de um clã muito feroz, de raízes possivelmente africanas. Por isso pensei no Brasil


Não me pareceu que o cineasta espanhol estava ironizando. E vindo de quem vem, fica evidente que não se trata de opinião de pessoas ignorantes ou desinformadas. Sim, há o senso comum de que o aporte da civilização e da religião do colonizador não aconteceu aqui, e que o Brasil ainda é aquela praia habitada pelas índias nuas que não conheciam o pecado. E que os africanos tampouco foram cristianizados, e mantém seus credos originais, que supostamente não comportavam o sentimento de culpa (engraçado que os atores eram todos brancos).

Por essas e outras, penso que não há nada mais revolucionário no Brasil do que o conservadorismo, aliás coisa normal no maior país católico do planeta, que vai se tornando rapidamente evangélico, mas de qualquer modo tanto um quanto o outro, cristão e refratário à agenda de mudança dos costumes. Não sei até onde nos levará essa atual onda conservadora, mas se convencer os estrangeiros de que aqui existe o conceito de pecado, já está de bom tamanho.

domingo, 11 de novembro de 2018

Histórias não (ou mal) contadas: escravidão

Estou lendo mais um livro de Rodrigo Trespach, da série Histórias Não (ou Mal) Contadas. Tal como a série dos Guias Politicamente Incorretos de Leandro Narloch, dedica-se a desmontar de forma leve e bem-humorada todo um amontoado de mitos que viraram verdade oficial após haverem sido muito repetidos por professores escritores ideologicamente enviesados - algo bem oportuno para a época plena de revisionismos que estamos vivendo, sem dúvida.

Um dos mitos mais duradouros, aliás, que muita gente acreditou, foi que o Brasil teria sido o último país do mundo a abolir a escravidão. Não foi nem o último das américas, pois Cuba só aboliu em 1898. Mas em outras partes do mundo, a escravidão continuou legal pelo século 20 adentro - só foi abolida na Arábia Saudita em 1960, e na Mauritânia em 1980, muito embora seja sabido que a escravidão continue de forma clandestina em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. O livro procura desmentir, sobretudo, a impressão mais persistente de todas: que a escravidão seria pertinente a uma única etnia.

Essa impressão repetiu-se em épocas distintas da História da humanidade, que coincidiram com um crescimento explosivo do número de escravos, em razão de diversos fatores. A mais recente foi a escravização maciça de africanos para trabalhar nas plantações do Novo Mundo colonizado, que fez grudar até hoje nos afrodescendentes o estereótipo de ex-escravo, a ponto de qualquer escravidão que incidisse sobre elementos de outra raça ser taxada de "escravidão branca". Mas houve um tempo em que o povo-escravo-padrão era outro, branco e originário do leste da Europa: os eslavos. O nome originou o próprio termo "escravo" (em inglês, "slave"). O motivo teria sido semelhante ao que ocasionou a escravização massiva dos africanos: muita divisão, muitas tribos inimigas, muitas guerras. Mas durante a expansão máxima do escravismo, na época da Roma antiga, a escravidão sempre foi multiétnica.

Entretanto, até o início do século 19, nunca deixaram de existir escravos europeus brancos, capturados por piratas árabes ou otomanos e vendidos nos mercados da África e da Ásia. O número não se comparava ao de escravos negros no mesmo período, mas atingia a cifra de milhões: de fato, essa escravização só cessou por completo depois que a colonização europeia do norte da África destruiu as bases por onde operava esses piratas. Mas também sempre existiram escravos brancos pertencentes a senhores brancos. Uma das falhas do ensino de História nas escolas tem sido a suposição de que a escravidão, na Europa, teria sido fenômeno da Idade Antiga, sucedida pela servidão da gleba na Idade Média - o estatuto do servo da gleba teria sido bem diferente e melhor do que o do antigo escravo, pois ele não pertencia a um senhor, mas à gleba da qual não podia ser apartado, e que garantia a sua subsistência. Erro duplo: primeiro, a escravidão na Europa não cessou durante a Idade Média e prosseguiu até a Idade Moderna, embora em pequeno número, pois não havia um imperativo econômico que implicasse no uso intensivo do trabalho escravo; segundo, a situação do servo da gleba não era muito diferente daquela do escravo. Ele estava sujeito aos mesmos abusos e castigos, assim como ao trabalho forçado. O Senhor não podia tirar-lhe mais do que o necessário para a subsistência, mas tampouco interessava ao Senhor que sua mão-de-obra morresse de fome.

O livro é minucioso e trata de peculiaridades da escravidão pouco conhecidas, bem como da persistência dela no mundo atual. Só senti falta de uma abordagem mais economicista. O autor poderia ter derrubado outro mito: de que nossa desigualdade social é produto da escravidão. Olhando ao redor, vemos muitos vizinhos sul-americanos que tiveram histórico de escravidão bem inferior e aboliram-na já no início do século 19, e que têm uma desigualdade muito semelhante à nossa. Poderia ter tratado também da incompatibilidade intrínseca do regime de trabalho escravo com o capitalismo industrial que se expandia pelo século 19, o qual necessitava do regime de trabalho assalariado.

Foi de fato a expansão do capitalismo que impôs o fim da escravidão, ao menos daquela escravidão intensiva e presente nas regiões economicamente mais ativas do globo. Para forçar esse fim, chegou-se até à guerra, como é sabido. Um raro exemplo da total incompatibilidade entre o trabalho escravo e o capitalismo industrial foi apresentado por Jorge Caldeira em sua biografia do Barão de Mauá. Quando o barão comprou o estaleiro de Ponta de Areia com o intuito de iniciar a produção de barcos a vapor, teve que comprar também o plantel de escravos que já trabalhavam ali. O capital gasto na aquisição dos escravos foi praticamente o mesmo investido na compra das instalações. Sem dúvida que o barão preferiria reservar esse capital para si e, ao invés, pagar salários, mas ele sabia muito bem que era impossível: mesmo que ele procurasse por trabalhadores, não os encontraria, pois quase toda a mão-de-obra existente estava na forma de escravos.

Sem dúvida que a revolução industrial não teria sido possível em um mundo onde cada industrial, após empatar seu capital na aquisição da fábrica, tivesse que empatar igual quantia na aquisição de escravos. A existência de uma massa de trabalhadores livres e disponíveis era essencial. O capitalismo, onde se instalou com força, afugentou o escravismo por força de sua própria lógica de produção, mas do que do humanismo de seus próceres.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Eu vi o futuro repetir o passado

O que era previsto aconteceu. Já na minha postagem passada eu manifestava a impressão de que a história ia se repetir. Disse Marco Túlio Cícero,

Aquele que não conhece a História será sempre um menino


Cícero quis dizer que para aquele que não conhece a História, tudo parece novidade, assim como tudo é novo para uma criança que ainda não tem vivência. O estudo da História serve ao menos para isso, para não ser feito de bobo. Quem conhece a História sabe que o fenômeno não é novo. Já é a terceira edição. O cenário é o mesmo: em um momento de desalento com a política, surge um arrivista sem ligações com as facções políticas tradicionais, prometendo um renovação geral em "tudo isso que está aí". O primeiro foi Jânio Quadros em 1961. O segundo foi Collor de Mello em 1989. Agora temos Jair Bolsonaro.

O fato está consumado, resta agora tentar explicar como um obscuro e exótico personagem, que frequentou por tanto tempo o congresso sem apresentar quase nenhum projeto, pôde de repente conquistar milhões de votos e tornar-se o novo presidente do país. E tentar prever o futuro à luz do passado.

O voto em Bolsonaro foi, claramente, um voto de raiva. Reflete um descontentamento difuso com o que vinha acontecendo no país desde longo tempo. É neste ponto que torna-se imprescindível explicar: por que tanta rejeição ao PT, que governou o país por 14 anos com nítido saldo positivo?

O sucesso de Bolsonaro foi, em grande medida, a transmutação do insucesso do PT. Mesmo que o governo Dilma tenha sido um desastre, os dois mandatos de Lula proporcionaram amplas melhorias ao nível de vida da população, e a popularidade do então presidente atingiu níveis recordes. Como foi possível o PT cair de maneira tão fragorosa tão pouco tempo depois?

As teorias são muitas, mas eu prefiro a mais simples. A falha maior do PT, a meu ver, foi não escutar aquele que é o anseio máximo da população: o combate ao crime que desde muito assola a sociedade em níveis crescentes. A proposta anunciada pelo PT foi criar penas alternativas no intuito de diminuir a população carcerária, e assim aumentar o número de criminosos soltos. Foi um erro visceral, do qual o PT não pôde escapar, pois já estava comprometido com essa linha desde pelo menos os anos 70, quando o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores, fez com que os ideólogos de esquerda cada vez mais se aproximassem dos marginais da sociedade, chamados eufemisticamente de "excluídos", mas a quem Marx cem anos atrás já denominava o "lumpen-proletariado", e com toda a razão afirmava serem imprestáveis como revolucionários.

Os trabalhadores aderiram ao capitalismo, então a esquerda vai buscar seu novo público entre os lúmpens, aí entendidos não apenas como os marginais, mas como todo grupo de indivíduos desajustados e inconformistas. Neste ponto o PT tocou em cordas muito sensíveis do caráter nacional. De fato, boa parte do eleitorado petista é constituída por aqueles cidadãos mais humildes, que são justamente os mais atingidos pela avassaladora criminalidade, bem como os detentores dos valores morais e religiosos mais conservadores. Essas pessoas viram seus valores enxovalhados pelo discurso petista, e endossaram a narrativa do PT como "partido de bandidos e vagabundos". Penso que o chamado marxismo cultural, que os militantes mais antigos viam como mera distração (e estavam certos) terminou por ser um estrondoso tiro no próprio pé.

Resta agora prognosticar o futuro. Há basicamente dois roteiros mais prováveis. O primeiro, como já citado, é Bolsonaro repetir a trajetória de Jânio Quadros e Collor de Mello: jovem e sem experiência em conchavos, cairá na ilusão de que pode governar sozinho, perderá gradativamente o apoio até ser excluído do poder de alguma forma. No segundo roteiro, Bolsonaro abandonará a linguagem ferina e o discurso extremista, e fará um governo pragmático conduzido por seu ministro da economia, tomando as necessárias medidas de austeridade para a retomada do crescimento econômico, e seu sucessor colherá os frutos. Será o novo Fernando Henrique Cardoso. Curioso que tanto no primeiro como no segundo roteiro, o desdobramento será a retomada do poder pela esquerda com o próximo presidente.

Há ainda um terceiro roteiro: Bolsonaro aprofundar sua retórica extremista e reinstaurar o regime dos militares encerrado em 1985. Mas uma nova ditadura será uma ópera bufa. As condições do presente nada tem a ver com as de 1964. Não há mais guerra fria, não há mais URSS bancando o partido comunista, não há mais exilados em Cuba, não há mais guerrilheiros no interior. Seria até uma contradição de termos, pois o regime dos generais era estatista, e Bolsonaro proclama-se liberal. Aí não sei o que vai acontecer, mas é provável que sua queda será ainda mais rápida. Se Bolsonaro quiser mesmo começar uma nova etapa na política e fazer seu sucessor, terá que reinventar-se. A retórica de botequim de nada vale nos gabinetes.

A roda da História nunca deixa de girar. Mas às vezes não sai do lugar. Esperemos que o futuro não repita o passado.