sábado, 25 de fevereiro de 2017

Lula em 2018

Por que estudamos História?

Respondo: para que possamos prever o futuro. Só quem conhece os fatos do passado pode fazer ideia dos fatos que acontecerão daqui para a frente. Saber o passado permite entender o presente, e entender o presente permite projeções para o futuro. Só não podemos é cair na conclusão apressada de que o futuro será mera repetição do passado, pois é bem conhecida a máxima citada por Marx, de que a História acontece duas vezes: na primeira como tragédia, e na segunda como farsa. Qualquer indivíduo bem informado já viu e está vendo ainda amostras de tragédias que se repetiram como farsas.

É nesse contexto que devemos encaixar a notícia que tem circulado nas redes sociais, e ainda timidamente nas mídias comerciais: que Lula é o candidato com maior intenção de votos para 2018. É claro que até lá muita coisa pode mudar, sobretudo se a disputa for para o segundo turno, e o próprio Lula corre risco de ser preso e impedido de concorrer à eleição. Mas a questão instigante que se coloca é a seguinte: o novo governo de Lula vai repetir a glória de seu primeiro governo? Lula vai reverter toda a queda que o Partido dos Trabalhadores e a esquerda em geral têm experimentado nos últimos anos?

Primeiro, é preciso reconhecer que os dois primeiros mandatos de Lula foram de fato muito bem sucedidos. Ele soube obter a confiança do eleitorado, bem como do empresariado, e montou uma boa base de sustentação. No plano econômico ele herdou a estabilidade de dez anos de Plano Real e teve pelo frente anos de firme expansão da economia mundial, puxada sobretudo pelo crescimento chinês e consequente boom da commodities. Diferente dos surtos de crescimento anteriores por que o país passou, como aqueles da época de JK ou do "milagre" dos militares, voos de galinha onde os ganhos do trabalhador com a expansão da oferta de emprego eram rapidamente anulados pela inflação que vinha em seguida, o crescimento na Era Lula ocorreu dentro de um quadro de estabilidade econômica, puxado sobretudo por uma grande expansão do crédito, que permitiu ao trabalhador adquirir bens financiados a longo prazo. Essas boas notícias criaram uma mística em torno da figura de Lula.

Entretanto, se Lula soube surfar a onda que se ergueu à sua frente, foi também ele o responsável por plantar as sementes da queda que viria em seguida, primeiro por ressuscitar a esgotada fórmula do nacional-estatismo na Nova Matriz Econômica, lançada já na metade de seu segundo mandato, segundo por indicar a desastrada Dilma Rousseff como sua sucessora, ciente de que ela faria tudo para implementar as malfadadas diretrizes da Nova Matriz Econômica, que trouxeram o país para a crise atual e pavimentaram o caminho para a queda do governo petista. O PT, na realidade, começou a ruir ainda no governo de Lula, na época do mensalão, mas o próprio Lula permaneceu incólume, negou auxílio aos camaradas e pareceu até satisfeito de ver que a queda do PT deixava-o livre e desimpedido na liderança. O pedestal de Lula só começaria a rachar bem mais tarde, quando caiu na mira da Lava-Jato.

O fato de Lula haver se recusado a disputar as eleições em 2014 sugere que ele estava ciente de que sua fórmula tinha mesmo validade temporária e que já havia se esgotado. Só tarde demais ele arrependeu-se de haver indicado Dilma Rousseff. Agora, já envelhecido e desgastado por denúncias, ele anuncia sua disposição de concorrer em 2018. O que pretende Lula, afinal? Reverter todos os erros cometidos desde o final de seu segundo mandato e lançar o país em nova era de crescimento e inclusão social? Ou meramente colocar-se a salvo da Operação Lava-Jato?

Isso ainda não sabemos, mas é fato que as condições políticas e econômicas de 2002 não existem mais em 2017. A base aliada de Lula deixou de existir, e a economia exige medidas de austeridade, medidas impopulares. Lula em 2018 será um refém de partidos que têm ampla maioria no congresso, ou irá conseguir uma espetacular virada de jogo? O Lula de 2018 será uma caricatura do Lula de 2002, a História se repetindo como farsa?

Mesmo conhecendo o passado, é difícil prever o futuro. As injunções geram mais perguntas do que respostas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A História volta atrás?

De tanto em tanto bater boca em forum´s da internet, às vezes surge uma questão instigante que nem tem nada a ver com a matéria que estava sendo comentada. Foi o que aconteceu nessa postagem do fórum do Jornal GGN, o meu preferido. André Araújo estava comentando sobre Donald Trump, e eu puxei o assunto para a globalização, que já tinha sido objeto de uma postagem minha aqui. Contestei a visão catastrofista de que a globalização estaria destruindo a economia norte-americana, ao exportar os empregos industriais para os países periféricos. Lembrei que a ascensão da Califórnia e seu Vale do Silício é tão palpável quanto o declínio do meio-oeste e da indústria automobilística de Detroit. Quis afirmar que a globalização é fenômeno inexorável, posto que não tem um pequeno conjunto de protagonistas, mas milhões espalhados pelo mundo. André Araújo contestou:

Os processos históricos, políticos ou econômicos, não são lineares, não caminham em linha reta. 
Com a Revolução Francesa de 1789 imaginava-se que  as monarquias europeias cairiam como um dominó. Não aconteceu.. 
Nos anos 30 o fascismo e o nazismo era considerados o FUTURO, as democracias parlamentares eram a decadência (...) Essa novidade dos anos 20 e 30 acabou em ruinas e a decadente democracia voltou ao seu apogeu na Europa Ocidental e nas Americas.
A URSS tambem era o "mundo novo" que apontava para o futuro, depois o "caminho do futuro" acabou. 
Meu caro, a Historia dá voltas e como dá
Será certo isso? A História pode voltar atrás?

Para aqueles pensadores que julgam haver encontrado a fórmula que explica a História, não há dúvida: a História só anda para a frente, e na direção que eles previram. As pessoas comuns variam do saudosismo de um tempo que foi bom e não volta mais, ao alívio por haver passado um tempo que foi mau. Aos otimistas, é agradável imaginar um mundo em constante evolução, ainda que com percalços. No primeiro grupo cita-se o caso de Karl Marx, que modelou toda a História humana conforme os paradigmas da luta de classes e previu que a etapa atual - o capitalismo - seria sucedida pelo comunismo. Como se sabe, a predição não se cumpriu. Mas tampouco o mundo voltou atrás. Quanto ao segundo grupo, a psicologia em grande parte explica: a memória humana é seletiva, e filtra os fatos maus do passado, deixando apenas os bons. A psicologia também explica em grande parte o sentimento daqueles do terceiro grupo: se o passado fosse bom, seria presente, diz o ditado popular. Estes podem curtir o alívio, mas para sempre conviverão com a dúvida: os maus tempos podem retornar?

O senso comum diz que não. O que passou, passou. Mas os argumentos citados pelo André Araújo são bastante consistentes: por muita décadas o nazi-fascismo e o comunismo foram, efetivamente, considerados os regimes do futuro que vinham substituir a ineficaz e plutocrática democracia parlamentar. No Brasil tivemos o getulismo, na Argentina o peronismo, ambos calcados no modelo fascista italiano e considerados alentos modernizadores que vinha tirar seus países do atraso. Depois tudo acabou, e quem incensava esses regimes teve que admitir que a velha democracia "burguesa" era mesmo o único sistema político aceitável. A História voltou atrás, então.

Entretanto, cabe notar que essas propostas brotaram em países onde a democracia parlamentar estilo ocidental não havia ainda frutificado. Nos países centrais do ocidente, como a Inglaterra, a França e os EUA, verificaram-se movimentos e tendências para um lado e para o outro, mas o regime político e o sistema econômico prosseguiram inabalados. Não houve uma cronologia Antes X Depois entre a democracia parlamentar e as inovações totalitárias do século 20,  mas uma coincidência de tempo histórico, bem como de local (tanto um quanto o outro emergiram no ocidente antes de se propagarem para as periferias) levando a um inevitável enfrentamento: tais soluções inovadoras foram um contraponto, ou uma antítese ao capitalismo e à democracia parlamentar que evoluíam desde a Revolução Gloriosa inglesa. Convém lembrar que tampouco existiu uma cronologia Antes X Depois entre o fascismo e o comunismo: ambos surgiram no mesmo tempo histórico, produtos da mesma sequência de eventos que vinha desde a Revolução Industrial: a  multiplicação do proletariado e suas reivindicações, o imperialismo das grandes potências e as disputas daí resultantes, o nacionalismo dos países e o internacionalismo dos operários. O fascismo não antecedeu nem sucedeu ao comunismo, mas foi, de fato, um contraponto a este, apresentando uma solução alternativa para o mesmo problema (as reivindicações do proletariado) e substituindo o internacionalismo pelo nacionalismo. Como se sabe, no Brasil dos anos trinta, comunistas e integralistas disputavam o mesmo público e toda a nossa Consolidação das Leis do Trabalho foi inspirada pela Carta Del Lavoro de Mussolini.

Não se pode, portanto, afirmar que no mundo todo, a democracia parlamentar cedeu lugar ao nazi-fascismo, que depois retrocedeu de volta à democracia parlamentar, provando que a História volta atrás. A História estava acontecendo, não tinha acontecido.

Penso, então, que na realidade a História não volta atrás. Dá voltas e faz zigue-zague, mas não retrocede. O que, aliás, fica claro na conhecida citação de Marx: a História acontece pela primeira vez como tragédia, e pela segunda vez como farsa. Melhor assim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Saudades do nacional-estatismo

Nesses tempos de desalento em relação ao cenário econômico, em forte contraste com a euforia que reinava nos mandatos de Lula apenas dez anos atrás, tenho observado a profusão, nos forum´s que frequento, de dois tipos de artigos: as teorias conspiratórias e o saudosismo do modelo econômico pré-Real. Um bom exemplo está nesse artigo aqui de André Araújo. Muitos falam com nostalgia dos tempos em que o país crescia a altas taxas puxado por investimentos do estado, e culpam os paradigmas modernos, como a austeridade fiscal e o controle da inflação pelo fim do ciclo de prosperidade e pleno emprego. Afirmam, até, que a inflação seria benéfica e mesmo indispensável ao crescimento, e que o controle da inflação seria coisa do interesse de minorias de rentistas que nada fazem de produtivo para o país.

Quanto às teorias conspiratórias, a psicologia explica: o desalento atrai para o mundo da fantasia. Quanto à nostalgia em relação ao nacional-estatismo, essa é para se preocupar. Pois esse modelo um dia fez sentido, e rendeu frutos, justificando a saudade. Do início do século 20 até 1980, o crescimento acumulado do Brasil só foi inferior ao do Japão. O que, como sabemos, não nos conduziu ao primeiro mundo nem diminuiu a desigualdade, mas em todo caso, parecia ser esse o caminho a ser trilhado. Esse modelo, conhecido genericamente como desenvolvimentismo e mais precisamente como nacional-estatismo, foi estabelecido por Vargas nos anos trinta, ao submeter as oligarquias regionais ao comando de um estado central forte e planejador. Foi continuado por Juscelino Kubitschek, levado ao auge pelos militares nos anos setenta, e esgotou-se nos anos oitenta. Oscilava entre um viés "nacionalista", centrado em empresas estatais (Vargas, Geisel) e um viés "entreguista", que procurava atrair empresas multinacionais (Kubitschek, Castello). Uma característica, entretanto, foi constante: o crescimento da inflação.

Na realidade, a inflação era componente essencial do modelo econômico, pois tratava-se da real fonte de receita para os altos gastos do governo necessários ao fomento do crescimento acelerado. Funcionava como um imposto invisível, com a vantagem de poder ser criado prescindindo da aprovação do parlamento. Bastava emitir mais moeda que a mágica estava feita: os rombos das contas do governo eram cobertos e a fatura ia para a população, que a pagava com a perda de seu poder aquisitivo. Parecia um sacrifício necessário, afinal o país cresceu, obras foram feitas e empregos foram gerados. O efeito secundário foi incutir na mente de muitos a ideia de que a inflação é necessária ao desenvolvimento, e portanto quem combate a inflação é inimigo do povo e age por interesses inconfessáveis.

Mas os que elogiam os bons tempos do crescimento com inflação parecem ter apagado de sua memória toda a década de 80. É como se em 1994 o país estivesse com a economia em plena carga, construindo estradas e refinarias, até que veio o Plano Real e acabou com tudo aquilo. Esquecem-se de que a inflação foi companheira da recessão durante toda a década de 80, que representou a derrocada de um modelo que parecia fazer sentido no tempo em que o país era jovem e tinha baixa carga tributária, mas é totalmente inviável no país atual com déficit previdenciário e alta carga tributária. Não temos mais futuro para ser hipotecado ao presente, nem há mais espaço para se criar um invisível imposto inflacionário. Provou-se uma ingenuidade e uma temeridade a noção de que se poderia sempre gastar mais do que se arrecadava, pois o progresso assim induzido proporcionaria recursos para se cobrir os déficits, e assim sucessivamente. O crescimento foi de fato considerável, mas intercalado em "voos de galinha", onde os benefícios do pleno emprego eram logo em seguida anulados pela inflação que arruinava o salário dos trabalhadores. Nos anos 80, a conta chegou e a mágica nunca mais funcionou.

A conjuntura internacional favorável, em particular o impressionante crescimento chinês, permitiram a Lula um revigoramento tardio do velho nacional-estatismo. Mas conforme era esperado, não durou. Vê-se hoje que o surto de crescimento da Era Lula só foi possível porque havia estabilidade na moeda, o que permitia compras a crédito com juros minimamente razoáveis, então dava para o trabalhador "tirar" uma geladeira nas Casas Bahia pagando em 15 vezes. Se a inflação voltar, tudo isso acaba. O salário mínimo voltará a valer merreca, as bolsas e benefícios podem não ser cancelados, mas seu valor será irrisório. Tudo em prol do desenvolvimento.

Saudade do nacional-estatismo? Tenho mesmo é saudades do Nacional Kid.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sobre as quatro meninas de Castelo do Piauí

Um ano e meio atrás, aconteceu um brutal caso de estupro coletivo na pequena cidade de Castelo do Piauí, onde quatro adolescentes foram brutalmente agredidas, estupradas e depois atiradas de um despenhadeiro por quatro meninos também menores de idade. Quem não se lembra?

Investigando o caso, notei instigantes simetrias e sincronicidades que devidamente analisadas, permitem lançar luz sobre o atual fenômeno da criminalidade no país, em particular a criminalidade juvenil e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Preparei um artigo em minha página, onde exponho minhas conclusões. Está aqui.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Procuradorismo, o novo tenentismo?

Li um artigo de Aldo Fornazieri que me pareceu instigante. Analisando o papel de protagonismo que membros do ministério público, juízes e policiais federais - os procuradores, como ele os chama - têm assumido na política na época atual, ele traça um paralelo com o conhecido fenômeno do tenentismo do século passado.

O tenentismo é bem conhecido de nossa historiografia. Sabe-se que seus desdobramentos chegaram até o final do século 20. Mas existe um fenômeno atual que poderia ser chamado, grosso modo, de procuradorismo? Esse fenômeno apresenta alguns paralelos com o antigo tenentismo?

O procuradorismo, explica Fornazieri, se forjou em várias operações de combate à corrupção política e administrativa, destacando-se o escândalo do Banestado, a operação Satiagraha, a operação Castelo de Areia, os Mensalões tucano, petista e do DEM e, finalmente, a Lava Jato. Guarda alguma semelhança com o contexto em que surgiu o tenentismo no país dos anos vinte, auge da República Velha? De saída, pode-se apontar a entrada em cena de personagens que, em uma situação "normal", não teriam protagonismo: no passado, oficiais subalternos; no presente, meros funcionários concursados, teoricamente sem ligações políticas e voltados a suas carreiras. Também há em comum o discurso moralizante: os tenentes viam a República Velha como essencialmente corrupta, dominada por oligarcas que se utilizavam da fraude eleitoral.

Mas de saída, também, nota-se uma diferença flagrante: o tenentismo, embora iniciado do descontentamento de jovens oficiais que viam a honra militar ferida, mostrou-se fecundo em ideologias e projetos. Propunham o fim das oligarquias e o voto secreto; no plano econômico e social, a legislação trabalhista, educação obrigatória, política industrial nacional e defesa dos interesses nacionais. No assim chamado procuradorismo, o discurso moralista é abstrato, desligado de um plano político ou social.

Ao contrário do tenentismo, os problemas sociais, a questão da dominação das elites, a questão nacional e os rumos estratégicos do país não motivam a rebelião dos procuradores, juízes e policiais federais. O procuradorismo é motivado pela ideologia moralizante de coloração conservadora, típica das classes médias.

Mas lembram Hélio Jaguaribe e Francisco Iglesias, a década de 1920 vai representar também o aparecimento da luta ideológica. A devoção dos tenentes a essa fermentação de ideias foi tal que, como se sabe, acabou por cingir e desintegrar o movimento: uns aderiram ao comunismo, outros ao fascismo, a maior parte foi cooptada pelo desenvolvimentismo varguista que era tributário tanto de um quanto de outro. Nada surpreendente aí: o tenentismo deita suas raízes no positivismo de Comte do século 19, que desacreditava da política parlamentar e pregava que o governo eficiente deveria ser exercido na forma de uma "ditadura racional e científica" comandada por uma elite de iluminados sem ligações com grupos específicos. Essa ditadura científica viria a assumir o nome de tecnocracia durante o regime militar de 1964, que foi de fato o lance final do tenentismo, já tão distanciado de suas origens que poucos se lembravam que os generais de então eram os tenentes de outrora.

E o assim chamado procuradorismo, vai manter sua neutralidade, ou se deixará contaminar pela política? No momento não há sinais que permitam responder a essa pergunta. Fornazieri recorre à filosofia de Gramsci, invocando o conceito de crise de interregno e do surgimento do Partido do Estado, que conforme definição de Gramsci, seria uma espécie de partido apolítico, sem conexões com os partidos políticos, que assume o poder em tempos de crise com o único objetivo de manter o status quo dos grupos dominantes. Os procuradores, então, estariam formando o Partido do Estado surgido com a crise atual que se iniciou com o esgotamento do modelo petista a partir de 2013 e a explosão da corrupção nas estatais.

Não vou entrar no mérito da filosofia de Gramsci, que conheço pouco, mas simplificando a questão, parece-me que Fornazieri repete a ideia do poder moderador que, afirma-se, surge para salvar o país quando os demais poderes falham. Esse poder foi exercido pelo imperador no século 19, depois passou aos militares, e agora supostamente é exercido pelos procuradores. Se é isso, espero que o chamado procuradorismo deixe logo de existir, pois a presença de um poder moderador, real ou farsesco, é sempre a evidência da fragilidade das instituições.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Morre Fidel: a História o absolverá?

Uns dizem que ele já estava morto e não sabia. Outros dizem que ele é imortal. O fato é que desde já algum tempo, afastado da presidência por motivos de saúde, Fidel já não comandava os destinos do país que chefiou por 47 anos. É o de menos: Fidel pertence àquela categoria de homens públicos cuja relevância do que representava para os outros tornou irrelevante aquilo que ele efetivamente era. Fidel foi um ídolo, não um homem de carne e osso, tal como um John Lennon, que como pessoa era péssimo em todos os sentidos, mau marido, mau pai, grosso e mal educado, mas isso obviamente não importa.

Para a esquerda, foi quase um deus. O David que venceu o Golias Americano. O gênio que transformou um país miserável e devastado pela exploração e pela injustiça em um exemplo de equidade, com trabalho, comida e saúde para todos, capaz até para exportar médicos. Para a direita, foi quase um demônio. O tirano que colocou em fuga quase um terço da população de seu país, reduziu os restantes à pobreza e governou sem convocar eleições por quase meio século. Para os jornalistas mexeriqueiros, foi um indivíduo enigmático, mulherengo, com uma vida privada cheia de episódios obscuros. Devemos deixar que apenas estes últimos se encarreguem de decifrar o "verdadeiro" Fidel?

Mas um ídolo não se prende à pessoa física nem ao local geográfico. Mesmo sem nunca haver comandado guerrilha no Brasil, Fidel governou o imaginário de boa parte da juventude brasileira, muitos dos quais, hoje grisalhos, ainda o admiram. Não que ainda tenham a pretensão de imitar o exemplo cubano, mas Fidel foi uma lembrança terna que embalou os devaneios de toda uma geração, e foi uma compensação para as sucessivas derrotas experimentadas desde 1964. Mas se a morte, que chega para todos, heróis ou covardes, grandes ou medíocres, nada mais é, como se diz, um encontro entre o deve e o haver, cumpre aproveitar esse momento para ao menos tentar fazer um julgamento histórico de Fidel Castro.

Se muitos não o chamam de tirano, ao menos todos concordam que foi um ditador, mas é preciso reconhecer que é um enorme erro de avaliação coloca-lo no mesmo patamar que os tiranos comunistas genocidas da estirpe de um Stálin ou um Mao Tsé-Tung. Fidel modestamente fuzilou uns tantos, aqueles mataram milhões, a maioria de fome, como consequência de desastrosas política agrícolas impostas sob a égide de um poder absoluto. Não, Fidel não foi um monstro. Mas garimpando os talentos que ele efetivamente possuía, e que não são um exagero de seus admiradores, cita-se que Fidel era capaz de discursar de improviso por cinco horas seguidas. Imenso carisma. Mas fora o carisma não sobra quase nada além de um talentoso criador de ilusões. Com a queda da ex-URSS e o fim da mesada que sustentava a economia cubana, o mundo pôde perceber o imenso engodo que era a Cuba imaginada pelos revolucionários sonhadores.

O mito da Cuba que erradicou a miséria e o analfabetismo, que tem excelente saúde pública e índice de mortalidade infantil inferior ao dos EUA, coisa que muita gente acredita ainda hoje, mesmo os que não são admiradores de Fidel, foi uma mistura de wishful thinking com paciente manipulação de informações. Na verdade, o mito foi construído em duas mãos: a primeira, exagerando as realizações da revolução; a segunda, exagerando as carências da Cuba pré-castrista.

A Cuba de 1958 não era um inferno sobre a terra, o país possuía indicadores acima da média da América Latina. O índice de alfabetização naquele ano era de 80%, superior ao que tínhamos no Brasil na mesma época. Passar de 80% para 100% em 40 anos não me parece uma façanha extraordinária. A educação em Cuba, na época, era a terceira da América Latina, só inferior à da Argentina e do Uruguai. Mesma posição que ocupa hoje.

Da excelência da saúde pública cubana, o que há de verdade é um número enorme de médicos por habitante, mais que o dobro do índice da Dinamarca e muito superior ao considerado ideal pela Organização Mundial de Saúde. Mas os remédios que eles receitam nunca estão nas prateleiras. E esses médicos, na realidade, se destinam à exportação, a fim de angariar fundos para o regime. Quanto ao baixíssimo índice de mortalidade infantil de Cuba, inferior até ao dos EUA, é uma realidade, mas raramente se fala do altíssimo índice de abortos em Cuba, um dos maiores do mundo. A coisa funciona da seguinte maneira: se um nascimento apresenta alguma possibilidade de ter problemas, o feto é abortado. Assim se constrói a estatística reconhecida pelas organizações internacionais e apresentada como propaganda do regime.

Se a figura mítica do ídolo Fidel não vai morrer tão cedo, a Cuba sonhada pelos revolucionários românticos já morreu faz tempo. Sob a chefia de líderes menos carismáticos e mais pragmáticos, por mera questão de sobrevivência vai aderindo ao capitalismo seguindo o modelo chinês: toda liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. Quando ele próprio ainda era um revolucionário sonhador, Fidel disse a seus julgadores: a História me absolverá. Não sei se a História absolverá Fidel, mas espero ao menos que, gradualmente livre das opiniões passionais de admiradores e detratores, a História por fim reduza Fidel a sua correta dimensão.

domingo, 6 de novembro de 2016

Visconde do Uruguai, fundador de nossa diplomacia

A Revista de História da Biblioteca Nacional, que recentemente voltou a sair nas bancas (embora a intervalos irregulares) prestou mais um bom serviço à difusão do conhecimento histórico, com um bem escrito artigo de Miguel Gustavo de Paiva Torres resgatando a figura de Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai.

Que o Brasil trata mal seus vultos históricos, é bem sabido. Quando não os relega ao esquecimento, deturpa sua memória, apresentando-os como vilões e envolvendo-os em anedotas e teorias conspiratórias. Mas há outro tipo de deturpação: a interpretação errada ou incompleta quanto ao papel histórico efetivamente desempenhado pela figura. É o caso do Visconde do Uruguai, cuja atuação política durante a regência e o início do segundo reinado é razoavelmente conhecida, mas é frequentemente esquecida sua atuação na política externa, pela qual merece ser considerado o real fundador de nossa diplomacia.

Nada de desmerecer o Barão do Rio Branco, considerado com justiça nosso maior diplomata. Mas se José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, integrou um corpo diplomático já profissionalizado, deve isto a Paulino Soares de Souza, o Visconde do Uruguai. Como observa Miguel Gustavo:

...seu legado imprimiu à política externa a noção de razão de estado, sobrepondo o coletivo aos interesses particulares, consolidando os fundamentos do interesse nacional e profissionalizando o ofício diplomático (...) a diplomacia se resumia a uma pequena rede de pessoas chefiadas por plenipotenciários nomeados pelo imperador, de acordo com as necessidades das circunstâncias externas.


Em sua primeira gestão à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi essencial para reconhecer a independência do Paraguai, contrariando as pretensões expansionistas do general argentino Juan Manuel Rosas. Suas gestões também contribuíram para frear as ambições deste caudilho quanto ao Uruguai, em reconhecimento do que recebeu o título pelo qual é conhecido. Tendo garantido a estabilidade e a livre navegação no Rio da Prata, em sua segunda gestão no Ministério dos Negócios Estrangeiros tratou de fechar o rio Amazonas à navegação internacional, pois estava ciente das pretensões norte-americanas de incorporar aquela região à economia sulista algodoeira e escravocrata. Garantida a integridade das fronteiras externas, em sua gestão como Ministro da Justiça lutou para manter a integridade do território nacional, ameaçada por movimentos separatistas. O visconde defendia o centralismo monárquico e não acreditava na viabilidade aqui do modelo federalista norte-americano, pois bem sabia que seu único efeito seria substituir a autoridade da corte pelo mandonismo de miríades de chefes regionais, os famigerados coronéis do sertão, o que viria efetivamente a ocorrer após a proclamação da república. E realizou o primeiro concurso público para ingresso na diplomacia.

Tendo caído progressivamente no esquecimento, o ministro, senador e conselheiro do império faleceu pobre e recluso em 1866. Não havia mordomias nem pensões para políticos naquele tempo, mas o patriotismo era genuíno.

Esperemos que a Revista de História da Biblioteca Nacional permaneça ativa e continue resgatando momentos e indivíduos esquecidos de nossa História.