segunda-feira, 27 de junho de 2022

Revendo 2013

O distanciamento no tempo permite a avaliação correta do significado dos acontecimentos históricos. E há um cuja explicação ainda não é um consenso. Refiro-me ao fenômeno das manifestações de 2013. Surgiram meio como raio em céu sereno, disparadas por um quase anódino movimento que pregava o passe livre nas conduções, em um momento político que parecia tranquilo para um governo que colhia bons frutos das duas administrações anteriores de Lula, e revelara uma profunda inquietação popular. Hoje, ao contrário, quando o momento político e econômico é conturbado, não se vê grandes manifestações. O horizonte está vazio de ideias.

O que teriam sido de fato aquelas manifestações que encheram as ruas por várias semanas? O despertar de uma nova geração de movimentos sociais, desvinculados de organizações tradicionais e de partidos políticos? Ou o surgimento de uma onda conservadora que permanece até agora no poder? O que se sabe é que o fenômeno fugiu totalmente ao planejamento da esquerda tradicional então no poder. Logo de início o governo petista tentou pegar carona no movimento e anunciou com alarde a convocação de uma assembleia constituinte, sonhada para dar o golpe e por fim instalar um regime bolivariano onde o legislativo passaria a ser controlado por "organizações sociais" obviamente controladas pelo PT. Mas tal como a moça feia da canção de Chico Buarque, enganou-se achando que a banda tocava para ela. Hoje não há dúvida de que aquelas manifestações foram o começo da queda do governo Dilma e da própria era petista.

Passada quase uma década, o que se nota é que não houve um movimento único, mas vários movimentos manifestando-se ao mesmo tempo. O rescaldo de uma breve era de otimismo - os dois governos de Lula, em um momento econômico favorável e crescimento. Muitas promessas foram levantadas, e sentimentos reprimidos vieram à tona. Mas seguiu-se uma sensação de engodo depois que Dilma assumiu. O povão viu que as promessas não seriam cumpridas, e a classe média decepcionou-se com o ostensivo desprezo com que era tratada pelos líderes petistas. De repente ficou claro que aquele governo não era o que parecia ser, e tinha propósitos ocultos. Sua ideologia não conseguiu cativar a parcela mais pobre da população, mas foi suficiente para pisotear valores antigos muito caros, o que deu origem à onda conservadora da Nova Direita. As manifestações de 2013 foram basicamente o choque entre a fervura e a água.

Mas isso agora é passado, e difícil é prever o futuro. Teremos uma nova era de fermentação de ideias e otimismo? Ou vai continuar o embate entre uma nova direita que já envelheceu, e uma velha esquerda que não sabe se renovar? O que sei é que tenho saudades de 2013.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A Polícia que Mata

Mais uma vez uma operação da polícia no RJ deixa dezenas de mortos, e mais uma vez ecoa nas manchetes, inclusive estrangeiras, o mesmo bordão: a polícia brasileira está entre as que mais matam no mundo,

Em geral essa afirmação bombástica vem acompanhada das denúncias de que "metade dos mortos não tinha passagem na polícia", outros eram inocentes vítimas de balas perdidas, outros foram executados, etc.

Podem até ser verdadeiras algumas dessas denúncias. Mas é nítida a mensagem de que a polícia mata deliberadamente trabalhadores inocentes. A polícia brasileira mata? Sim, isto é flagrante. Mas também morre. O que as manchetes raramente dizem é que a polícia brasileira está entre as que mais morrem no mundo. Quanto a mim, não nego nem estranho, nem a primeira afirmação, nem a sua contrapartida: a meu ver trata-se do resultado inevitável de um quadro onde os bandidos formam numerosas quadrilhas e usam armamento pesado, do tipo só usado pelas forças armadas, adquirido de grandes contrabandistas internacionais. Todos sabem que os bandidos ocupam posições privilegiadas do alto das favelas, de onde começam a disparar tão logo a polícia chega ao pé do morro. De um combate assim, só podem resultar muitas morte, inclusive por bala perdida. O que vale é que os bandidos têm as mais poderosas armas, mas não o treinamento apropriado para usá-las: não sabem nem segurá-las direito. Aí quando vão enfrentar soldados que sabem usar a arma, o resultado é esse.

Passando ao largo do sensacionalismo, podemos raciocinar: se 20 morreram, imagine quantos escaparam. Por aí dá para avaliar o tamanho das quadrilhas. Se metade dos mortos não tinha ficha na polícia, isso não é prova de que eram inocentes. Isso é prova da generalizada impunidade dos bandidos que dominam as favelas onde a polícia raramente incursiona. Qualquer garoto ali, vendo um companheiro que já é quadrilheiro desde muitos anos sem ter sido jamais preso, só pode se animar a seguir a mesma carreira.

A solução é matar? Não concordo. Bandido, em geral, não tem medo de morrer, porque já viram muitas mortes, sabem que sua vida será curta de qualquer jeito, então tratam de desfrutá-la ao máximo. Bandido tem medo, isso sim, de cana dura: passar longos anos em uma cela, onde não tem festa, nem bebida, nem droga, nem mulher, nem nada daquilo que o motivou a entrar para o crime. A solução é prender; matar é apenas a consequência inevitável de um enfrentamento onde do lado de lá atiram com armas pesadas que sequer sabem utilizar.

Não deixo de lamentar os vinte mortos na operação. Mas eles morreram porque estavam lá, e não na cadeia onde deveriam estar.

domingo, 24 de abril de 2022

Entre Lula e Bolsonaro

 A próxima eleição presidencial está se desenhando como uma disputa pessoal entre Lula e Bolsonaro, o que não é nada animador, não só pela sensação de dejà vu que evidencia a ausência de renovação, mas pelo radicalismo tosco dos personagens, que evidencia uma ruptura do espectro político que não se percebe no dia-a-dia da grande maioria da população.

Se Lula foi uma esperança que gorou, Bolsonaro é o retrato de um país de mau humor, desapontado por haver sido frustrado em suas esperanças. Bolsonaro é um boquirroto, mas ele não faz tanta bobagem quanto fala, ou teria ficado lá pelo meio do mandato tal como Jânio Quadros, Collor de Mello e outros "pontos fora da curva" de nossa política. Lula, é forçoso reconhecer, não fala bobagens. É extremamente articulado com as palavras, embora eventualmente tropece na gramática. Mas pelas costas faz as bobagens que não fala, é narcisista e ardiloso. Lula é um político. Bolsonaro é um anti-político. Lula é um malandro. Bolsonaro é um santarrão. E as comparações não param por aí.

Na realidade, tanto Bolsonaro quanto Lula encarnam caricaturas de figuras do passado. Bolsonaro é um patético ditador militar perdido em uma democracia, com a cabeça ainda no regime dos generais, do qual não participou porque era um simples cadete na época. Lula encarna o sonho dos anos sessenta, o operário no poder, utopia que ruiu com o Muro de Berlim. O país, de fato, parece ter sido congelado em algum momento entre o inicio dos anos 80, quando ruiu o sonho do Brasil Grande dos militares, e o início dos anos 90, quando ruiu a utopia socialista.

Mas ao contrário de Bolsonaro, Lula sabe se reinventar. Se não há renovação, então ficamos na expectativa do Novo Lula versão 2023. Bolsonaro parece que já deu o que tinha que dar.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Não se fazem mais guerras como antigamente

O que não mudou, é que a guerra é sempre uma desgraça. Bem como o séquito de refugiados. Minto: antigamente ninguém ligava para refugiados, hoje eles ao menos se materializam em imagens. Mas as guerras de antigamente pareciam mesmo ter um roteiro: havia um vencedor e um perdedor, milhares de prisioneiros, um armistício e uma ocupação. Já as guerras da atualidade se parecem mais a desordens.

Desconheço as raízes do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e não vou comentá-las. Mas parece-me que esse conflito se insere no padrão da guerra "moderna" - a primeira que vi foi a guerra Irã X Iraque nos anos 80, que durou não sei quantos anos e terminou sem vencedores e sem alteração no balanço geopolítico do Oriente Médio. A guerra moderna, ou é essa empatação que apenas consome vidas e recursos, ou se assemelha a uma operação policial levada a cabo por potências que se arrogam uma função policialesca dos conflitos globais, como foi a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. Haverá um equilíbrio de forças, ou um receio de se lançar mão da força total? Já dizia o general Sherman, da época da guerra civil norte-americana:

"Guerra é crueldade. Quanto mais cruel, mais cedo termina"

No passado as guerras ocasionavam por vezes tenebrosos massacres, mas tinham um papel no desenrolar da História, não eram simples desordem à espera de um policial para restaurar a ordem. Algumas até davam lucro ao vencedor, como foram as guerras movidas pelas potências imperialistas do século 19, notadamente as promovidas pelos EUA. Mas a Primeira Guerra Mundial veio pela primeira vez sinalizar que a guerra moderna havia se tornado tão custosa que significava prejuízo até para o vencedor - de fato, todos sofreram com a crise econômica que veio no rescaldo da guerra e prolongou-se até a Segunda Guerra Mundial, que foi ainda mais custosa, mas o pós-guerra veio quebrar o paradigma: não era mais o derrotado o encarregado de pagar toda a conta, mas os vencedores deviam se encarregar de ajudar na recuperação de todos a fim de criar um equilíbrio onde não houvesse mas ressentimentos que conduzissem a um novo conflito - e funcionou: a guerra seguinte, denominada a Guerra Fria, foi a guerra que não aconteceu, a despeito das previsões apocalípticas dos que viam como inexorável uma Terceira Guerra Mundial.

Havia também os chamados Conflitos de Baixa Intensidade, uma espécie de guerra "a prestação", que permanecia latente às vezes por décadas a fio, com longos intervalos intercalando uns tantos choques violentos. O conflito árabe-israelense, segundo alguns analistas, se enquadra nesta definição. A guerra da independência da América Latina durou 27 anos no início do século 19, mas não houve combates ininterruptos durante todo esse período, e sim avanços e recuos compondo uma longa história. De modo geral, na época, as guerras só afetavam intensamente as regiões onde se encontravam o teatro de operações. Isso mudou com o advento da guerra moderna industrial já na segunda metade do século, a nova guerra que não envolvia somente os exércitos, mas o comprometimento de toda a economia do país e o trabalho da população civil na retaguarda. Os primeiros exemplos de guerra moderna industrial foram a guerra civil norte-americana e a guerra franco-prussiana. A principal característica era o custo muito maior em dinheiro e vítimas.

Pouca gente sabe, mas a Guerra do Paraguai, ocorrida nesta mesma época, pode também ser enquadrada como exemplo pioneiro de guerra moderna industrial - bem distinta dos outros conflitos do continente, esta guerra destacou-se por sua longa duração, o enorme número de baixas (mesmo o Brasil perdeu 30% de seus efetivos, um percentual muito grande para um vencedor) e seu exorbitante custo. Evidente que o Brasil, exportador de produtos primários, não tinha condição de arcar com uma guerra industrial moderna, onde tinha que importar das potências industriais quase todo o seu material bélico, de modo que o conflito foi o início da derrocada do Segundo Império - uma vitória pírrica, de certo modo antecipando a mensagem que só ficaria clara meio século mais tarde, de que a guerra podia custar tão caro que não compensava nem para o vencedor.

No século 20, ao mesmo tempo em que desaparecia o conflito entre grandes potências, ganhava destaque a guerra de guerrilhas, grande moda da época, algumas se prolongando até os dias atuais, obviamente obedecendo ao paradigma dos Conflitos de Baixa Intensidade, mas que também já saiu de moda após o fim da Guerra Fria. O que sobrou foi essa guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que ocupa os noticiários até cansar, vira meme e dá suspeita de ser uma grande palhaçada. Já não se fazem mais guerras como antigamente, só não sei se isso é bom ou ruim.

domingo, 13 de março de 2022

Mamãe Falei Besteira

Da guerra entre Rússia e Ucrânia, pouco tenho a dizer, por não ter conhecimento do contexto específico a este conflito. Fico então com o assunto do momento: a desastrada fala do deputado conhecido por Mamãe Falei a respeito das mulheres ucranianas, que considerou lindas e fáceis "porque são pobres".

Nunca tinha ouvido falar deste deputado, mas a julgar pelo seu apelido, deve ser daqueles que buscam notoriedade com falas bombásticas ou engraçadinhas. Esta última de sua lavra com certeza vai deixá-lo queimado por um longo tempo, talvez para sempre. Mas antes de juntar-me ao coro condenatório, é preciso lembrar que ao menos uma coisa pode ser dita em sua defesa: ele não tinha intenção de tornar pública aquela fala. Nem imagino quem foi, ou quais as intenções de quem vazou o vídeo, o caso é que vazou, e já que está aí, temos uma rara oportunidade de saber o que pensam e falam nossos políticos em sua privacidade. E não surpreendentemente, eles mostram a mesma grosseria de milhões de brasileiros comuns que nunca se candidataram a nada.

Quanto a mim, não consigo imaginar como se consegue ver beleza e sensualidade em uma fila de refugiados. É sabido mundialmente que as mulheres do leste europeu são muito bonitas, mas se elas são mesmo tão pobres quanto dizem, fico na dúvida. Também é sabido mundialmente que as mulheres brasileiras são muito bonitas, mas quanto a essas não tenho dúvidas, já que meu país eu conheço: existem algumas de fato muito bonitas, que se tornam modelos de sucesso internacional, mas também uma enorme massa de mulheres feias. A média é muito fraca, e penso que não há dificuldade em atribuir à pobreza esta média fraca: beleza tem seu preço.

Muitos observadores estrangeiros, contudo, têm as mesmas ideias de Mamãe Falei quanto às mulheres brasileiras. Lembro de um entrevistado que abordava o grande número de modelos brasileiros de sucesso, e (por incrível que pareça) querendo parecer gentil e inteligente, expôs sua dedução: muitas mulheres brasileiras se tornam modelos porque "são bonitas e sentem fome". Foram essas suas palavras. Fiquei pensando se havia alguma lógica aí. Que um estrangeiro que pouco conhece do Brasil tenha essa fantasia, isso se entende, mas quem tem um mínimo de vivência deve saber que tornar-se modelo custa dinheiro: é preciso pagar cursos, ensaios fotográficos, além de uma vida saudável com boa alimentação ser requisito óbvio para quem quer ficar bonita. Das modelos brasileiras de sucesso, muito poucas tiveram origem pobre, a maioria teve na juventude condições ao menos razoáveis. É necessário muito esforço para imaginar Gisele Bündchen passando fome quando criança.

Deixando de lado o politicamente correto, é preciso reconhecer: mulher pobre em geral é feia. O que não impede que muitos turistas sexuais sejam vistos pelas praias do país ao lado de tipos que passam longe do catálogo de modelos, em geral negras ou mulatas, o que parece ser uma preferência da parte deles, espécie de fetiche de "sinhôzinho" ou eco dos contos dos marinheiros de cinco séculos atrás sobre as praias povoadas de índias nuas de pele escura sem noção de pecado. Agora, se no leste europeu as mulheres pobres são bonitas, não sei, nunca estive lá. O que posso concluir é que existe um traço comum no imaginário masculino internacional, a lenda de um lugar onde mulheres lindíssimas estão disponíveis a quem lhes pagar um prato de comida.

Uma vez perguntaram a um pesquisador de crimes horríveis o que ele buscava naqueles casos escabrosos que colecionava, e ele respondeu: conhecer a alma humana. O lixo do pensamento, bem ou mal, também é uma maneira de conhecer a alma humana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A Morte de Olavo e a Nova Direita

 A direita no Brasil renasceu com Olavo de Carvalho. Mas será que remorreu com a morte deste?

É fato que até poucas décadas atrás a direita brasileira parecia tão extinta quanto os antigos dinossauros. A direita política foi suprimida após a tomada de poder pelos militares em 1964, que não queriam nenhum partido político proeminente e tampouco qualquer resquício de poder civil, fosse de esquerda ou de direita. Já no terreno das ideias, durante a após a ditadura, ser direita era simplesmente ser politicamente incorreto, embora a expressão ainda não existisse. Ser de direita significava ser a favor da ditadura, da tortura, da desigualdade social, do massacre dos índios, etc. etc. Nesse deserto de ideias assentaram-se camadas de lugares-comuns repetidos pelos pretensos esquerdistas, que sedimentaram-se no senso comum.

Daí que a inesperada aparição de Olavo de Carvalho, desmontando peça por peça aquelas toscas construções ideológicas, tenha sido recebida como uma libertação para milhares de conservadores, que se viram novamente livres para expressar suas ideias sem as barreiras na novilíngua esquerdista. Houve mesmo uma euforia, e falou-se do surgimento de uma Nova Direita no país, finalmente apta a disputar o poder e romper com a hegemonia do ideário esquerdista.

E como se sabe, a direita chegou ao poder nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, o próprio Olavo de Carvalho nunca estabeleceu-se como líder político, tendo preferido cercar-se de um séquito de discípulos fiéis, porém figuras apagadas fora dos círculos intelectuais. Foi proclamado como o guru da Nova Direita e grande inspirador de Jair Bolsonaro, mas o real alcance de sua influência sobre o presidente nunca ficou claro. Ele próprio não disfarçou estar um tanto desapontado com seus supostos seguidores e com o próprio Bolsonaro, e há quem diga que ele foi traído pelo presidente. A impressão que fica é que a direita que chegou ao poder não foi bem a sonhada por Olavo e seus discípulos. Mesmo porque o ideário dessa Nova Direita sempre me pareceu de pouca utilidade para o mundo político, misturando preceitos religiosos e filosóficos um tanto bizarros. Confusa como seu mentor, que nunca teve uma formação acadêmica regular. Polemista brilhante, mas difícil de conceituar, Olavo de Carvalho obteve sua formação intelectual catando preceitos de fontes avulsas, desde altos estudos clássicos até esoterismos e superstições - por muitos anos definiu-se como astrólogo. Nunca conseguiu montar um conjunto coerente de ideias, e parece não ter sido esse o seu objetivo. Amargo, pouco empático e sem disposição para o diálogo, abusando de linguagem chula contra quem ousasse contestá-lo, tornou-se aquilo que acusava a esquerda de ser: um sectário.

Olavo de Carvalho está ligado a um momento específico da História brasileira, aquele do esgotamento e da desilusão com a hegemonia das ideias da esquerda. Não foi feito para durar. Sua morte coincide com o esgotamento da direita no país.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Presidente bom é presidente chato

Estou com saudades de Michel Temer. Não, não é piada. Se ele foi um dos mais apagados e esquecíveis personagens que já sentaram na cadeira presidencial, e inclusive a legitimidade de seu mandato foi colocada em dúvida pelos que não aceitavam o impedimento de Dilma Rousseff, por outro lado é preciso recordar que naqueles anos a situação financeira do país foi melhorando gradual e continuamente, a ponto de Jair Bolsonaro pegar o país já com uma modesta recuperação econômica. Pouco depois, como se sabe, o dólar disparou e o crescimento travou.
 
Alguém comentou que Temer deveria ter aproveitado o fato de ser um presidente impopular para tomar medidas impopulares, o que ele fez até certo ponto, mas na minha opinião deveria ter feito mais. O problema é que o antigo paternalismo vigente por aqui nas relações entre governantes e governados faz com que as pessoas acreditem que os sucessos e os fracassos de um presidente dependem de sua boa ou má vontade. Lula pegou uma conjuntura econômica favorável e vendeu a ideia de que os bons resultados eram obra de sua gestão, mas dificilmente poderá repetir a mágica se eleito agora. Como Dilma igualmente não pôde. Vendo o saco de bondades do PT esvaziado, o povo voltou suas esperanças para "o mito", sempre a procura de um salvador da pátria.
 
Michel Temer me lembra Itamar Franco, outro presidente sem carisma que assumiu após o impedimento do titular cheio de carisma. Sua melhor ideia foi reativar a produção do fusca. Mas foi também no seu período que se iniciou o primeiro planejamento econômico sério desde muitas décadas após a pior crise econômica do país. Fernando Henrique começou a gestar o Plano Real ainda como ministro de Itamar, depois tornou-se o presidente, e sua figura está indelevelmente ligada ao plano que pôs fim à hiperinflação que arruinava o país, ao passo que Itamar é mais lembrado por haver tirado aquela foto junto à modelo sem calcinha. Não sei quando a importância de Itamar será devidamente reconhecida, mas parece-me que assim como de tanto em tanto surgem umas figuras exóticas que ocupam a presidência com estardalhaço para desaparecer em seguida, também de tanto em tanto surgem umas figuras apagadas para colocar a casa em ordem.
 
Lembro-me daquele ditado dos frequentadores de estádios: o bom juiz de futebol é aquele que após o jogo você não sabe o nome. Porque se você sabe o nome, alguma coisa errada ele fez. Do mesmo odo, os presidentes mais falados são aqueles que mais desastres causaram ao país. Eu não sei o nome do síndico do prédio onde moro. Mas infelizmente sempre sei o nome do presidente do país.
 
Michel Temer para presidente!