sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Rebelião dos Barriga Cheia

Quem está de barriga cheia faz rebelião?

Os eventos da História só podem ser corretamente interpretados em seu significado após um conveniente distanciamento no tempo, que permita apreciar os antecedentes e as consequências. Alguns demoram mais a serem entendidos. Isso se aplica às manifestações de junho de 2013, que contaram com a participação de vários ativistas de esquerda, mas que hoje são vistas como um movimento de direita para derrubar o governo petista. Alguns daqueles personagens que ganharam destaque naqueles dias, como a ativista Elisa Quadros, mais conhecida como Sininho, agora tentam se livrar da pecha de traidores ou ingênuos que ajudaram a pavimentar o caminho para a tomada do poder pela direita, como consta neste artigo de autoria de Elisa Quadros.

Quando eclodiram as manifestações de 2013, o pretexto inicial foi reclamar contra o aumento de poucos centavos nas passagens de ônibus, mas logo se viu que o fenômeno era mais amplo. Os manifestantes não tinham um perfil nítido, tampouco suas reivindicações; parecia mais a exibição de um descontentamento difuso, contra "tudo isso que está aí", frase lançada naquela época. O governo petista foi pego totalmente de surpresa. Vinha de uma longa sequência de sucessos desde o primeiro mandato de Lula, que incrementou o padrão de vida de milhões aproveitando o contexto econômico favorável, e a presidente Dilma esbanjava popularidade. De um momento para outro tudo mudou: a popularidade de Dilma despencou, e as manifestações contra o governo aumentaram até o seu melancólico fim.

Como foi possível? Um governo popular pode ser alvo de massivas manifestações contrárias? Quem está com as panelas cheias sai batendo panela?

A verdade é que não foi um fenômeno isolado, a rebelião dos barriga cheia já aconteceu ouras vezes na História da humanidade. O evento mais notável foi o maio de 1968 com suas manifestações estudantis que começaram em Paris contra a proibição do ingresso dos estudantes masculinos no dormitório feminino, e se espalharam apelo mundo afora, também "contra tudo isso que está aí", sem uma agenda política clara além do bordão de que é proibido proibir. Não causaram nenhuma mudança política, mas foram um marco na revolução dos costumes. Mas quem fazia aquelas manifestações? Basicamente estudantes universitários membros da classe média, e não trabalhadores. Eram o produto da onda de prosperidade que se seguiu ao fim da segunda guerra, a qual multiplicou o número de estudantes universitários e permitiu o protagonismo destes.

Do mesmo modo, as jornadas de 2013 no Brasil seguiram-se a um período de prosperidade e crescimento da classe média. Inserem-se, portanto, na fenomenologia da rebelião dos barriga cheia, que deve ser vista como um fenômeno mais psico-social do que puramente político. Sempre que um grande número de indivíduos ascende à classe média e passa a ter consciência, tempo e disposição para abordar assuntos políticos, segue-se uma onda de insatisfação e turbulência muito semelhante à típica rebeldia que acomete os indivíduos quando chegam à adolescência. São pessoas que vem escutando promessas e tendo suas aspirações atendidas, então sempre querem mais e mais. A população brasileira vinha experimentando melhoras em seu padrão de vida desde meados dos anos 2000, em razão da conjuntura econômica favorável, e o número de estudantes universitários aumentou consideravelmente neste período. Quando o governo Dilma começou a ratear em 2013 e surgiram os primeiros sinais da corrupção desenfreada, essa multidão embalada por promessas suspeitou de um engodo, e a reação foi violenta.

Por vezes essa inquietação de uma nova camada da população que ganha súbito protagonismo revolve sentimentos ocultos lá no fundo, que sobem à tona. Por este motivo que essas rebeliões de barriga cheia ganham por vezes um inesperado tom conservador. O exemplo mais notório aconteceu na Tailândia em outubro de 1976, conhecido como o Massacre da Universidade Thammasat. Os antecedentes foram semelhantes. No início dos anos 60 a Tailândia experimentou um surto de prosperidade, que fez crescer enormemente o número de estudantes universitários. Esses estudantes começaram a participar de manifestações contra o regime, que em 1973 provocaram a queda de um governo ditatorial.

Mas as esperanças de que a ascensão dessa nova camada da população inaugurasse um período democrático logo se desfizeram. A classe média ascendente era monarquista e visceralmente anticomunista. O novo governo foi marcado por caos e instabilidade. Quando em outubro de 1976 os estudantes ocuparam a universidade Thammasat para protestar contra o retorno dos ditadores exilados, foram massacrados, e muitos dos que participaram do massacre foram outros estudantes universitários, colegas dos que foram mortos.

Ao menos aqui no Brasil a guinada conservadora foi bem mais benigna. Mas igualmente mostra como são imprevisíveis os acontecimentos quando uma nova camada social ascende ao cenário político. Quem dava importância aos pastores da periferia 20 anos atrás?

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Bolsonaro veio para ficar

É essa a conclusão a que chego, após um ano de governo. E para que não digam que é uma opinião particular minha, mostro esse e mais esse artigos publicados na imprensa francesa.

Quando o fenômeno Bolsonaro começou a tomar corpo, especulei se ele não seria mais um daqueles cometas que periodicamente cruzam o céu de nossa política para logo desaparecer no horizonte, como foram Jânio Quadros e Collor de Mello. Decorrido um ano de governo, o desempenho parece aquém das expectativas. O índice de aprovação caiu para cerca de 30%. O crescimento da economia foi pequeno. A maior parte do pacote anti-crime de Moro foi vetada.

Mas convém lembrar que em sete meses, Jânio Quadros já havia renunciado, e em menos tempo ainda Collor de Mello e seu pacote econômico já estavam desmoralizados. A queda do índice de aprovação de Bolsonaro segue o padrão de todos os presidentes após a "lua de mel" da época da eleição, não se trata de uma queda brutal e inesperada. A economia avançou pouco, mas avançou. A reforma da previdência foi aprovada sem grande alarde. Estatísticas mostram uma diminuição nos crimes. Não há grandes escândalos de corrupção, nem manifestações massivas contra o governo.

Enfim, penso estar autorizado a concluir que Bolsonaro não segue o roteiro dos "cometas" que o precederam, e ao que tudo indica terminará seu mandato e tem grandes chances de fazer seu sucessor, conforme mostram as projeções. Para o bem ou para o mal, o fenômeno Bolsonaro parece que vai cristalizar-se em nossa política, congregando facções conservadoras até então desgarradas ou naufragadas no antigo DEM, dando partida, talvez, a um bipartidarismo com facções de esquerda moderada, papel que o PSDB falhou em executar. O mais é futurismo, pois nossa política é inerentemente instável, mas considero factíveis essas previsões.

Aos que se desapontam com este quadro, resta tentar encontrar uma explicação. Penso que aqueles que apostaram contra Bolsonaro, subestimaram o personagem que ele representa. Sim, pois todo líder que ascende pela via do carisma, sem estar apoiado por lideranças políticas estabelecidas, cria um personagem para si mesmo, e passa a representa-lo. E Bolsonaro, que passou de oficial subalterno sem prestígio para político exótico e alternativo, mais conhecido por suas declarações polêmicas do que por seus projetos, soube de fato criar um personagem que foi acolhido por uma multidão órfã de líderes de direita e cansada de líderes de esquerda. De fato, desde que a vanguarda da direita do Brasil foi liquidada, paradoxal que pareça, pelo regime de 1964, que cassou Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek, e atirou os demais na vala comum da ARENA, não surgiu no país um líder convincente de direita para além do exótico Enéas Carneiro. E tampouco os líderes de esquerda souberam se renovar, ao contrário, desgastaram-se por suas práticas corruptas e por seu discurso que feriu os sentimentos conservadores e religiosos do povão, que preferiu correr para os pastores pentecostais das periferias.

Mas por que Bolsonaro não se queimou, como tantos outros linguarudos? Eu acredito que o segredo de Bolsonaro foi nunca se colocar na pele de seu personagem, ao contrário do que fizeram Jânio Quadros e Collor de Mello, que efetivamente se entusiasmaram, acreditaram ter o prestígio que se creditava aos personagens que criaram, e como diz o ditado popular, deram um passo maior que as pernas. Bolsonaro, no fundo, não deixou de ser aquele homenzinho enfezado que diz coisas escatológicas, provocando ora riso, ora indignação. Mas ao redor dele há um governo que, bem ou mal, caminha devagar, mas caminha na direção prometida. É esse governo que tem merecido a confiança de uma população desalentada e cansada de promessas não cumpridas. Voltando a recorrer a ditos populares, Bolsonaro não deixou a peteca cair nem o caldo entornar.

O futuro, veremos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Marxismo Cultural, ele existe?

Certas palavras estão inefavelmente ligadas a certas épocas e locais. Um termo que parece muito ligado e que pretensamente explica o momento político atual é Marxismo Cultural. O governo e os direitistas acusam o PT e a esquerda de promover tal coisa com o fim de demolir os valores tradicionais da população e assim engendrar uma espécie de revolução cultural que transformará todos em dóceis militantes. A esquerda obviamente nega que tal coisa exista.

Diz o verbete no wikipedia:

"Marxismo cultural é uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita estadunidense desde a década de 1990. Refere-se a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada de termos econômicos a termos culturais pela Escola de Frankfurt, que teria se infiltrado nas sociedades ocidentais com o objetivo final de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma sociedade global, igualitária e multicultural"


Historicamente, o termo introduziu-se no âmbito acadêmico na década de 1930. Os teóricos da Escola de Frankfurt, assim como Marx, consideram que a cultura é inseparável de seu contexto social, econômico e político e, portanto, deve ser estudada levando em conta o sistema e as relações sociais que a produzem. No ambiente acadêmico do Brasil, como tudo o mais, só chegou bem mais tarde. Nos anos 60 ninguém falava disso, e até se acreditava em revolução armada. Mas como temos o vício antropofágico de deglutir e dar uma feição peculiar ao que vem de fora, e é certo que palavras, mesmo vazias, de tão repetidas podem mesmo materializar conceitos, o marxismo cultural ganhou vida e recebeu uma acepção própria entre nós. É produto da progressiva substituição dos trabalhadores pelos lúmpens como o público revolucionário por excelência, fenômeno que vem desde o final do século passado, mais exatamente desde o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores.

Uma vez que os trabalhadores aderiram ao capitalismo, então os militantes procuraram seu novo público entre os marginais da sociedade, aqueles a quem Marx denominava lúmpen-proletariado, e afirmava serem imprestáveis como revolucionários. A coisa funciona assim: onde quer que exista um grupo de indivíduos desfavorecidos em algum conflito, antissociais, desajustados e inconformistas, os militantes vão lá e buscam a sua adesão, mesmo que o conflito no qual eles estão envolvidos não tenha nada a ver com luta anticapitalista. Com este fim, produzem um discurso que se convencionou chamar de marxismo cultural.

Mas esse discurso causa imensa repulsa nas massas populares, em geral religiosas e conservadoras em termos de costumes, e tem sido a causa principal do divórcio entre o eleitorado trabalhador e a esquerda.

Ao fim e ao cabo, vemos que Marx estava de todo certo ao considerar os lúmpens imprestáveis como revolucionários. Embora eles afrontem a ordem burguesa com sua conduta antissocial, por outro lado são facilmente cooptados pela burguesia, em razão de seu caráter venal. Através da História, os burgueses sempre compraram os lúmpens por poucos tostões, inclusive para jogá-los contra os trabalhadores.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Três Democracias

Sabe-se que a América Latina é um caso muito peculiar no contexto do mundo ocidental. Já passou por várias experiências democráticas com recaídas em regimes totalitários, e principalmente, já experimentou tipos diferentes de democracia, até o momento definidas, grosso modo, como regimes oligárquicos ou populistas.

Este artigo que descobri, de autoria de Fernando Horta, contudo, consegue ser inovador em conceitos. Define três tipos de democracia recorrentes na América Latina fazendo uma comparação com arquétipos femininos atemporais: a mãe, a esposa e a puta. A democracia-mãe seria um modelo abstrato, enaltecido mas não realizado:

"A mulher-mãe é o campo do sagrado, do perfeito e do intocado (...) O arquétipo é tão forte que permite que machistas tenham ódio pelas mulheres e carinho pela sua mãe, num contrassenso que se desfaz na sacralidade da palavra 'mãe' (...) Os conservadores, por exemplo, admiram a 'democracia-mãe' (...) é tão venerada quanto mais irreal ela for. É muito comum, nos discursos conservadores a reiterada imagem de apoio e apreço à 'democracia', sempre – contudo – querendo referir-se à irrealidade do arquétipo de mãe. Pode-se ser, na cabeça desta gente, contra a participação popular e 'a favor da democracia', ou contra 'partidos políticos' e a favor da 'democracia', da mesma forma que se odiavam mulheres e amava a mãe"


Bastante dejà-vu, certo? Não preciso entrar em detalhes. Já a democracia-esposa seria a democracia consentida, que preserva a hierarquia social vigente:

"A esposa é aquela que 'ajuda a construir', mas dentro – e somente dentro – dos limites autorizados pelo masculino (...) O espaço de existência da democracia-esposa é todo aquele delimitado e permitido pelo poder econômico. E este não se sente constrangido em podar, diminuir ou mesmo eclipsar a democracia caso 'ela passe dos limites'. No fundo, o limite máximo é o código. A democracia só pode existir até onde 'O' código permitir"


Já a democracia-puta seria aquela que compreende os setores marginalizados da sociedade, sem estar autorizada pela classe dominante:

"A mulher-puta é a transgressora por natureza. Capaz 'das piores' coisas no mundo. Aquela que se dá e se deixa apenas pelo seu próprio instinto de necessidade e possibilidade. Incorrigível, indomável, violenta e incivilizada. A mulher-puta não tem dono (...) A democracia-puta gera medo (...) Ela tem a indignidade de flertar com os pobres, de se associar com os indigestos e não queridos. Ela é incontrolável. A democracia das ruas precisa ser contida com cassetetes e tiros nos olhos, para que não possa mais ver"


Tenho que convir que a comparação foi original e criativa, e forçoso é admitir, bem procedente em alguns pontos. Tanto que podemos acrescentar: no mundo real, o futuro das prostitutas não costuma ser alvissareiro. A profissão é desgastante para o corpo, muitas desenvolvem vícios e não raro terminam na pobreza depois que envelhecem, com a exceção de umas poucas que se tornam cafetinas. Exatamente o que tem acontecido com as democracias-putas que pululam na América Latina: ou levam seus países à pobreza após uma curta fase de gastança e deslumbramento, ou aderem ao capitalismo mais deslavado e reservado apenas aos seus apaniguados, aqueles que foram cafetinados...

A história mostra vários exemplos de países latino-americanos que passaram de um para outro entre esses três tipos de democracia, sem dar sinal de uma trajetória evolutiva, mas de um mero rodízio sem fim. O que fizemos de errado? No restante do mundo ocidental, as democracias antigas obtém sua estabilidade no bipartidarismo. Exatamente o que faltou entre nós. Até poucos anos atrás, tudo estava pronto para se estabelecer um bipartidarismo entre o PT e o PSDB, mas o PT preferiu fazer do PSDB seu inimigo figadal e se aliar ao que há de mais obscuro e pérfido em nosso espectro político. Ainda não foi desta vez...

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A Antiga e a Nova Classe Média

Deparei-me outro dia com esse artigo no Jornal GGN, intitulado Pobre de Avião, o DNA da Ultra-direita Brasileira, que defende uma curiosa tese: a contra-revolução conservadora que se seguiu ao governo petista teria sido motivada pelo incômodo causado à classe média pela presença de pobres no aeroporto.

Certamente que não endosso tese tão primária, mas o dito artigo levantou certas suposições que eu já havia observado em outros contextos. A mais central delas é que não existiria apenas uma classe média, mas duas, uma "antiga" oriunda da classe alta em declínio, e uma "nova" originada da classe pobre em ascensão, e a hostilidade contra os pobres viria, por contraditório que pareça, precisamente desta nova classe média. Faz algum sentido. Observa o autor do artigo:

"Os muito ricos não se sentem ameaçados por pobres em nenhum espaço ou momento, a não ser em conflitos reais, como tumultos, vandalismo (...) Muitos bilionários têm visão social e praticam alguma forma de ação de apoio, menos no Brasil e mais nos países centrais, onde grandes fortunas criaram grandes fundações filantrópicas"


"Muitos ricos são de centro esquerda, alguns de direita, mas a ultra direita se concentra na classe média que vê perigo nos pobres chegando perto, física ou socialmente"


A velha classe média brasileira, realmente, originou-se da decomposição da antiga aristocracia luso-brasileira, à medida em que a propriedade comum era dividida por herança e os descendentes passaram a ter que ganhar a vida com suas profissões, mas conservando postura e hábitos herdados dos tempos antigos, tais como manter empregadas domésticas. Como bem apontou o autor do artigo, essa antiga classe média nunca se importou com a proximidade física dos pobres, e até fazia questão de mantê-los próximos enquanto serviçais. Isso porque os espaços físico e social eram muito bem delimitados - o pobre, como se dizia, "sabia o seu lugar". De fato, eventualmente os pobres eram até ajudados por seus patrões ou padrinhos.

Já a nova classe média brasileira originou-se sobretudo da grande onda de imigração ocorrida entre o fim do século 19 e o início do século 20, após a abolição do tráfico de escravos. Esses imigrantes experimentaram uma ascensão social à custa de muito esforço, o que lhes causa orgulho, e a lembrança do passado de pobreza serve como referência de tudo o que é mau e errado - talvez por isso não demonstrem nenhuma empatia por pobres, ao contrário da velha classe média. Mas há uma causa mais prosaica: a concorrência, fator crucial a quem ambiciona ascensão social à custa do próprio esforço.

É sabido que nos EUA, historicamente, o racismo se originou sobretudo da classe trabalhadora branca, como reação à presença de ex-escravos e imigrantes pobres disputando seus empregos. Os ricos não se importavam tanto, afinal raramente algum negro atravessava-lhes o caminho. Por aqui costumamos apresentar os EUA como contra-exemplo de tudo o que é o oposto de nossa realidade, mas o fato é que, histórica e socialmente, os EUA tem, sim, muitos paralelos com o Brasil, e este é um deles. Trump acusa os imigrantes de "roubar o trabalho" dos americanos. Ele está certo. Mas os imigrantes que de fato roubam o trabalho dos americanos não são aqueles que cruzam ilegalmente a fronteira - esses vão procurar serviços recusados pelos próprios americanos - e sim os descendentes deles, já com estudo e cidadania, que querem disputar empregos qualificados.

Já no Brasil, por ter uma dinâmica social mais lenta, nunca se viu um racismo declarado de imigrantes brancos contra pretos ex-escravos, mas um aforismo que veio dos tempos da escravidão era aquele que afirmava que não havia dono de escravos mais cruel do que o ex-escravo. A tese do Pobre de Avião faz algum sentido, sim. Ainda que irônico. Então, contrariando o ideário da luta de classes marxista, o pior inimigo do pobre não é o rico, mas o outro pobre? Com certeza algo embaraçoso de admitir.

Mas uma diatribe antiga da esquerda intelectual contra a classe média sempre existiu, uma espécie de grito primal de revolta, originado até do próprio ambiente doméstico desses militantes, geralmente oriundos da classe média. Os pais representavam, para eles, o establishment, sempre "caretas" e insistindo para que se formassem e fossem trabalhar para os ricos. A classe média era entendida como o esteio da ordem social, sempre conservadora, medíocre e alvo de caricatura. Em determinado momento durante o governo petista esta antiga diatribe tornou-se declarada - o manifesto de ruptura foi aquele famoso discurso da filósofa petista Marlena Chauí, Eu Odeio a Classe Média.

E no entanto, esse mesmo PT foi quem alardeou haver incluído milhões de cidadãos na classe média, e sempre declarou ter como objetivo criar um país de classe média. Como pode, então, odiar a sua própria criação? Ainda mais levando-se em conta que a maior repulsa contra os pobres vem justamente da nova classe média recém-incluída, conforme é reconhecido. A explicação, a meu ver, vem daquele grito de revolta primal, reprimido durante anos pelos militantes. O PT não se originou dos extratos mais pobres da população, mas da classe média intelectualizada e politizada de São Paulo, muitos com histórico de militância desde os anos 60. Durante um bom tempo o eleitorado petista reduziu-se a este núcleo, enquanto as massas pobres continuavam fiéis aos políticos tradicionais com seus laços de clientelismo. A partir do momento em que o PT obteve o apoio desse eleitorado pobre majoritário, percebeu que não dependia mais da classe média que havia sido o seu esteio, e pôde então renegá-la ostensivamente - a partir daí, os inimigos eram os "coxinhas", sobretudo os paulistas.

Mas não se percebeu uma coisa: o eleitorado pobre não é ideologizado. Limita-se a dar o voto a quem tem a chave do cofre no momento, e pode conceder benefícios de imediato. Por conseguinte, a massa do eleitorado pobre não é fiel. Já o eleitorado da classe média vota de acordo com suas ideia, e não gostou do repúdio que o PT lhes dedicou. Muitos eleitores da classe média que eram neutros, e até simpatizavam com o PT, migraram para a direita, ao mesmo tempo em que o eleitorado pobre dava as costas a este partido tão logo percebeu que a crise esvaziara o saco de bondades. Foi essa a verdadeira causa da guinada conservadora que derrubou o PT, e não a suposta raiva da classe média contra os pobres no aeroporto.

Não creio que a esquerda voltará ao poder enquanto não superar sua diatribe contra a classe média.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Brasil no olho do furacão?

Nosso continente é sujeito a tendências cíclicas, isso já é sabido. A derrota de Macri na Argentina, os distúrbios no Chile e no Equador, parecem indicar o fim do ciclo de governos conservadores que sucedeu ao ciclo populista da primeira década do século. Não obstante, o Brasil está tranquilo, assim como quem fica bem no olho do furacão. Isso apesar da posturas polêmicas que o governo Bolsonaro vem assumindo. A oposição é ruidosa, reunindo intelectuais, jornalistas, economistas e até ex-apoiadores do presidente, mas não empolga as massas.

A reação das massas nem sempre é fácil de prever. Isso ficou claro em 2013, quando um mês antes a aprovação de Dilma era de 70%, e de súbito despencou para menos de 30%, pondo a nu a frustração que vinha se acumulando silenciosamente contra seu governo. O caso do Chile parece ser análogo, mesmo porque começou, tal como aqui, com uma discussão em torno de centavos nas passagens do metrô. No Brasil, atribuo a atual pasmaceira, em primeiro lugar, à pasmaceira da economia. Não melhora, mas também não piora: a inflação está sob controle e não há pacotes econômicos à vista. Mas algumas coisas estão acontecendo devagar. A reforma da presidência foi aprovada sem estardalhaço, e o pacote anticrime avança entre percalços.

Penso que a ausência de manifestações violentas de repúdio à reforma da previdência se deve a esta reforma não haver sido colocada na forma de pacote, como é o costume nessa parte do mundo, mas ao invés disto haver sido alvo de longo debate. De qualquer modo, a queda do dólar nos últimos dias indica maior confiança na economia após a aprovação. O índice de desemprego também vem registrando ligeira queda, muito pequena para fazer diferença, mas sinalizando um cenário mais favorável daqui por diante. Foi anunciada uma redução no número de homicídios, também muito pequena para fazer diferença, mas que pode ter a ver com o pacote anticrime ora em debate.

Enfim, o povo parece haver dado um longo crédito de confiança ao governo. Estamos em compasso de espera enquanto nossos vizinhos se agitam. Mas o futuro, para eles, é previsível, e para nós é obscuro. A Argentina tem longa tradição de revezamento entre governos peronistas e conservadores, geralmente os primeiros arruinando a economia com gastos excessivos e os segundos entrando para consertar com medidas "neoliberais", mas o inverso também pode acontecer, como foi o caso do  peronista Menem, além da tendência dos conservadores argentinos de promoverem desastres ainda piores que aqueles dos populistas. No Chile também é observado um bipartidarismo, mais recente que o argentino, porém menos turbulento, com governos socialistas e conservadores se sucedendo desde o fim da ditadura de Pinochet, sem contudo desmanchar o arcabouço que permitiu ao Chile ser o país mais estável do continente.

Mas no Brasil, o bipartidarismo que deveria ser entre PT e PSDB naufragou em razão da postura agressiva dos petistas ao conquistar o poder, e da falta de coragem dos tucanos em defender o legado de FHC. Por conseguinte, o que virá depois de Bolsonaro é uma incógnita total. Conseguirá Bolsonaro se reeleger ou fazer seu sucessor, contrariando a tendência atual pró-esquerda do continente? O PT irá voltar ao poder, mais moderado e compondo-se com os demais partidos? Ou o PT vai voltar ao poder rancoroso e partindo para um confronto que necessariamente terminará em ditadura?

O que se pode fazer, por enquanto, é contemplar ao redor do olho do furacão.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Bacurau, Pensamento e Desejo

Uma expressão na língua inglesa que não tem tradução exata em português é "wishful thinking". Literalmente "pensamento desejoso", denota uma atitude tão movida pelo desejo de que uma certa premissa seja verdadeira, que se passa a tomar decisões e tirar conclusões embasadas por aquela premissa, cada vez desligando-se mais da realidade. Tal como a construção de teorias conspiratórias, abundam em épocas quando há grande desalento e frustração coletiva. Tudo a ver com o tempo presente, a partir da eleição de Bolsonaro, que significa utopia para uns e distopia para outros.

Tais pensamentos desejosos podem se manifestar por diversos canais, da produção de estudos ao cinema. Um filme recentemente lançado e muito comentado, que tem inspirado numerosas análises, é Bacurau, de Kléber Mendonça. Este artigo no Jornal GGN, de autoria de Guilherme Mello, mostra bem como o enredo une utopia e distopia aplicadas ao momento histórico atual no Brasil. Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha do filme, e sim mostrar o quanto as imagens exibidas expressam pensamentos e desejos frustrados do momento político de agora. Trata-se sem dúvida de uma história contada por cineastas de esquerda, onde estão facilmente identificáveis os representantes de sempre da luta de classes - o burguês, o imperialista, o trabalhador, o guerrilheiro, etc. Até aí sem novidade. Mas não é uma mensagem da esquerda cheia de alento dos anos sessenta, e sim da esquerda desalentada após a queda do PT, onde se nota agudamente o choque entre a utopia e a distopia, e brotam os "wishful thinkings".

O primeiro deles é a própria caracterização de Bacurau, a cidadezinha do interior do nordeste onde se passa a trama. Bacurau é ostensivamente apresentada como sendo a epítome do Brasil Autêntico, oposto ao Brasil Falso do sul estrangeirado. Portanto, deve ser aquilo que os intelectuais e militantes de esquerda acreditam que é o país autêntico: conforme descrição do autor do artigo do Jornal GGN,
 
"É um povoado pobre, mas marcado pela solidariedade entre seu povo, pelo respeito às diferenças (sociais, étnicas, sexuais, etc.), pela força feminina, pelas liberdades individuais e pelo respeito à história e conhecimento (...) Em suma, estamos diante de uma comunidade que pratica uma espécie de comunismo primitivo laico, com valorização da mulher e da diversidade"


Em Bacurau, a igreja existe, mas é usada como depósito, enquanto o orgulho da cidade é o museu que homenageia o passado cangaceiro do local. O uso de drogas na cidade também é livre.

O segundo wishful thinking, este representando a distopia, é a caricatura do sulista supremacista. Ele não se considera mais parte do mesmo país, e a televisão mostra cenas de execuções públicas em São Paulo, aplaudidas pela população. Já o estrangeiro invasor, este é alemão e comporta-se como um nazista em um campo de concentração, sem necessidade de explicação.

Entre a utopia e a distopia, onde fica o mundo real? Claramente, Bacurau não existe. As cidades pequenas do interior, muito pelo contrário, sempre encarnaram tudo aquilo que a esquerda mais abomina: universo rural sob o domínio de latifundiários, população religiosa e conservadora. Se a busca é por um "país autêntico", este pode ser encontrado muito mais em São Paulo, em razão de seu cosmopolitismo e de reunir indivíduos oriundos de todas as regiões do país, além de ser muito mais liberal em todos os sentidos. Lula nasceu no nordeste, mas teve que vir para São Paulo para construir sua carreira. O PT nasceu em São Paulo e desenvolveu-se no sul bem antes de penetrar no nordeste. Tampouco já ouvi falar de alguma cidade nordestina onde museus glorificassem cangaceiros - muito pelo contrário, o que eu já ouvi falar é de um museu em Mossoró dedicado à resistência armada feita pela população, que expulsou o bando de Lampião quando este tentou invadir a cidade para saqueá-la.

Ao final, a população de Bacurau reage com violência, esmaga os invasores e exibe suas cabeças cortadas, como os autores do filme desejariam que a população brasileira fizesse. As cabeças cortadas evocam velhas cenas do cangaço. Mas como bem observou Guilherme Mello:

"No entanto, o que há de mais realista em Bacurau é sua brasilidade, construída nas referências ao passado cangaceiro do povoado. A resistência não se dá de forma 'civilizada', com passeatas de classe média gritando palavras de ordem. Ela é organizada por bandidos, assassinos, guerrilheiros, mas também por mulheres, homens andróginos, professores, trabalhadores e prostitutas (...) Não são heróis virtuosos os que resistem, não é uma resistência branca, limpa, ideológica e civilizada. É uma resistência negra, mulata, desviante, pobre e bárbara..."


A tipificação do cangaceiro como herói popular não é nova, vem do tempo de Glauber Rocha, que à falta de um bandido-revolucionário tipo Pancho Villa em nossa história, reciclou a figura do cangaceiro para este papel. De fundamento, há apenas a admiração de um populacho inserido em um meio social violento, que vê a coragem e a ousadia como valores - mesmo fenômeno que transformou em heróis cinematográficos os bandidos do velho oeste norte-americano. Mas se o zé-povinho admirava a macheza de Lampião, a recíproca nunca foi verdadeira. O Rei do Cangaço jamais teve qualquer consciência ou consideração pelos desfavorecidos, distinguia apenas aqueles que lhe eram leais daqueles que eram inimigos. O próprio Eric Hobsbawm foi reticente ao incluir Lampião em seu rol de "bandidos sociais". Já o "wishful thinking" que tipifica como revolucionários os marginais da sociedade - bandidos, desviantes, inconformistas, prostitutas - é fenômeno mais recente, consequência do abandono dos ideais revolucionários pela classe trabalhadora, cada vez mais incluída no capitalismo. Os intelectuais marxistas, então, têm procurado angariar seu novo público entre os marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, e tentam convencer-se de que os marginais farão a revolução que os trabalhadores se recusaram a fazer.

Outra mensagem que chama a atenção é a ênfase na cisão norte-sul, calcada em uma suposta cisão étnica entre um Brasil genuíno e um Brasil estrangeiro. Também é uma abordagem recente; até os anos sessenta o discurso da esquerda nacional reproduzia o puro modelo de luta de classes marxista - o país era dividido entre burgueses e trabalhadores, imperialistas e nacionalistas, e só. Conflitos étnicos e raciais eram característicos de outras paragens, sem relação com nossa idiossincrasia. Durante muito tempo esse foi o senso comum. A mudança na abordagem reflete a apropriação do discurso das esquerdas brasileiras por parte de ONG´s e "think tanks" globalistas, que desejam exportar para aqui os mesmos pontos de vista que aplicam no mundo inteiro: então devemos ser racistas e secessionistas, tal como os demais.

Um pormenor que poderia passar quase despercebido é o uso livre de drogas em Bacurau, mas Guilherme Mello percebe aí uma mensagem essencial:

"A forma liberal com que é encarada o uso de drogas não é o elemento central do filme, como algumas críticas apontam. O uso das drogas aparece como um alerta de que o enfrentamento da realidade que ameaça os direitos e a existência de parte da sociedade exige pensar para além do real. Resistir no mundo atual exige sonho, utopia e alguma dose de delírio..."


Não é novidade: desde os anos sessenta os militantes de esquerda defendem o uso de drogas como iluminador para abrir a mente a novas ideias e afrontar o convencionalismo burguês. Mas o problema é que esse consumo de drogas sustenta um lucrativo comércio que absorve aqueles lúmpen-proletários a quem os drogados sonham fazer seu público revolucionário. Até aí o capitalismo triunfa... Guilherme Mello conclui:

"A virtude não está nas pessoas, mas na utopia. E quem disse que bandidos não podem sonhar com uma sociedade mais justa?"


Realmente é preciso muita droga para acreditar que bandidos podem sonhar com uma sociedade mais justa. Mas no desolador panorama político atual, é o que a esquerda nacional pode fazer, além de produzir na tela alegorias de um país imaginário. O medo que eu tenho é que decidam permanecer em definitivo no mundo da fantasia, deixando a cena política monopolizada por uma direita canhestra.