domingo, 5 de setembro de 2021

O Sete de Setembro de Jair Bolsonaro

O Sete de Setembro costuma ser um feriado morno, com manifestações esquematizadas, o tradicional desfile. Afinal, a independência do país é um dos raros eventos históricos sobre o qual há unanimidade: alguém aí é contra a independência? Mas o deste ano promete surtir um efeito extra, em razão das manifestações programadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

O fenômeno já é conhecido: de tanto em tanto surgem personagens improváveis em nossa História, tipo corpos estranhos ao sistema, que cruzam o céu da política em uma trajetória meteórica, chegam ao ápice e logo depois desaparecem de forma inglória. O primeiro foi Jânio Quadros, fenômeno eleitoral que governou por sete meses e renunciou tentando um golpe que fracassou. O segundo foi Paulo Maluf, que furou a cena da sucessão que deveria ser controlada pelo presidente Figueiredo como era praxe do regime, mas seus colegas de partido preferiram implodir o partido a abrir caminho para o arrivista. O terceiro foi Fernando Collor, que de um partido nanico saltou para a presidência com um rosto jovem e um currículo antigo, e terminou impedido após provocar a pior crise econômica da História. Em comum, todos tinham um caráter de homem-forte independente dos clãs políticos tradicionais, um discurso bombástico e um posicionamento inclinado à direita. E todos foram expelidos como corpos estranhos ao organismo político nacional.

Eis que surge um quarto personagem com precisamente tais características. Fica no ar a pergunta: será que desta vez vai dar certo? O golpe que Bolsonaro arma para o sete de setembro vai triunfar onde falhou o golpe da renúncia de Jânio? Bolsonaro vai ser bem sucedido onde Maluf falhou ao obter o apoio de sua base aliada? Seus planos econômicos vão dar certo onde o confisco da poupança de Collor fracassou?

Pessoalmente não acredito. Todo fenômeno político que se repete termina banalizado, pois o roteiro torna-se por demais conhecido - primeiro acontece como tragédia, e depois se repete como farsa. E já é o quarto re-play. O próprio dia escolhido carrega algo de farsesco: a real data da independência do Brasil não foi o sete de setembro, mas o conhecido "dia do fico", pois desde aquela data o imperador já se encontrava formalmente rompido com o governo metropolitano. O sete de setembro foi escolhido posteriormente para simbolizar a independência, mas a sequência de eventos teria acontecido de qualquer maneira, independente do que Dom Pedro fizesse ou deixasse da fazer naquele dia. A partir daí toda uma mitologia foi erguida em torno da data, a começar pelo suposto grito. Os professores de História não deixam de lembrar que o imperador só parou às margens do Ipiranga porque estava com uma diarreia. Outros dizem que Dom Pedro estava indo a São Paulo só para se encontrar com sua amante, sendo que o imperador nem conhecia dona Domitila na ocasião - veio a conhecê-la nessa viagem por acaso. Querendo a todo custo achincalhar com o país, passam a mensagem de que a independência foi algo tão fortuito que aconteceu graças a uma indisposição intestinal e a uma pulada de cerca.

Com tanta farsa no ar, não dá para levar muito a sério este sete de setembro de Bolsonaro. Vou pagar para ver. Minha aposta é que a diferença entre Bolsonaro e os três aventureiros que o antecederam, será que ao contrário destes, Bolsonaro vai terminar seu mandato.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Bandeirantes, Heróis e Vilões

 Uma ocorrência menor, mas que chamou-me a atenção recentemente, foi o incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, por parte de ativistas contrários a homenagens a vultos históricos implicados no escravagismo e no extermínio de povos indígenas. Não é um ato isolado: trata-se do eco de um movimento que vem ganhando força em várias partes do mundo, onde se veem estátuas de antigos traficantes de escravos sendo derrubadas.

O ato, classificado por alguns de vandalismo, foi perpetrado por um grupo que tem como divisa "Revolução periférica - a favela vai descer e não vai ser carnaval" conforme faixa colocada em frente ao monumento em chamas. Pessoalmente duvido que algum morador de favela esteja preocupado com Borba Gato, ou mesmo saiba quem é, mas o dístico não me surpreende. Apenas confirma o fenômeno da mutação da militância de esquerda no país desde a década de setenta, época da derrocada da luta armada que não teve o apoio dos trabalhadores, e desde então os militantes vem trocando a porta das fábricas pelas periferias, os operários pelos marginais, desajustados e inconformistas, esperançosos de que os habitantes das favelas vão fazer a revolução que os trabalhadores não quiseram fazer. Só isso já dá um certo ar farsesco ao movimento. Mas achei interessante este vídeo, onde a dona do canal argumenta que o ato não foi mero vandalismo nem uma patética tentativa de apagar a História, mas uma necessária ressignificação da figura do bandeirante, que deve ser apresentado como um escravizador genocida, e não como um herói.

Sem novidade. Os bandeirantes já sofreram antes uma ressignificação, esta no século passado, quando foram transformados em heróis, responsáveis por desbravar e conquistar os territórios que hoje habitamos. É desta época que datam suas estátuas e quadros que ornam os museus. Mas em seu tempo, eles não ganharam nenhuma estátua nem pintura, jamais foram retratados em vida. Mal vistos pelas autoridades, eram considerados fora-da-lei porque invadiam território índio e espanhol, e capturavam índios quando a escravização de indígenas já estava ilegalizada. Isto não impedia que as autoridades recorressem a seus serviços como sertanistas e mercenários na luta contra tribos hostis e quilombolas, mas estavam muito longe de serem considerados heróis. Assim como sua figura passava longe das representações pictóricas por que os conhecemos hoje - alguns comentaristas os descreveram como "bárbaros, que mal falavam o português e se expressavam mais nas línguas dos índios". Nada glamuroso.

Mas o país independente precisava de mitos fundadores, e os bandeirantes prestaram-se a este papel. Agora este mito está sendo desconstruído, e os bandeirantes apresentados como cruéis escravizadores e matadores de índios. Sabe-se também que saqueavam as tropas que levavam as riquezas extraídas do império espanhol - ou seja, bandoleiros. E a menina do vídeo acrescenta: estupradores de mulheres índias. Com certeza faziam essas coisas todas, mas o real impacto histórico de cada uma deve ser corretamente mensurado, e aí começam as mistificações. O vídeo lamentavelmente repete uma lenda que muitos até hoje acreditam: que os brasileiros mestiços de índio e europeu, chamados caboclos ou mamelucos, foram produto de índias estupradas por bandeirantes.

Estupros sem dúvida ocorreram, mas deve ser lembrado que o propósito do estupro não é produzir descendentes, e quando produz, em geral eles não são cuidados. A maioria das tribos praticava o infanticídio (algumas o praticam até hoje) e não permitiam o nascimento de nenhuma criança indesejada. Afirmar que os milhões e milhões de brasileiros caboclos são o produto de um estupro cometido em algum momento do passado, em termos históricos e antropológicos, é táo primário quanto defender a tese de que os franceses atuais são o produto de mulheres gaulesas estupradas por legionários romanos, e que os escoceses surgiram de mulheres bretãs estupradas por vikings. Mas afinal, toda ressignificação traz necessariamente um rastro de lenda, pois ressignificar significa, estritamente, impingir um significado. No caso, um significado do interesse do momento histórico do presente.

E a verdade histórica, onde fica? Sabe-se que a grande massa de caboclos, na verdade foi produto anterior à era dos bandeirantes. Sua gestação ocorreu na época dos primeiros colonos, quando quase não havia mulheres entre os povoadores, e os colonos tinham que casar-se com mulheres indígenas a fim de obter descendentes e alianças com as tribos, o que era indispensável naquela fase inicial da colonização. Não havia nenhum estupro aí, nem podia haver, se quisessem mesmo o apoio das tribos amigas. Mas foi a partir de então que nasceu a lenda do português colono que saía a emprenhar nativas e a largar os filhos por aí. Pode ter contribuído para esta lenda o costume peculiar dos índios, pelo qual os filhos só eram cuidados pelos pais em idade tenra, e depois passavam a ser criados pela tribo inteira, coletivamente.

Assim nasceu o povo brasileiro - certo ou errado, feio ou bonito, é graças ao que os bandeirantes fizeram que existimos hoje. Podemos achar aquilo tudo um crime inominável, e assim o expressaram muitos comentaristas do vídeo. Mas que indivíduos com sobrenomes Costa, Mota, Reis, Vianna acreditem-se porta-vozes de povos originários, me parece um tanto falso, para não dizer hipócrita. Somos todos cúmplices de um genocídio? É certo que ninguém mais ouve falar das etnias indígenas que se defrontaram com os bandeirantes. Como também ninguém mais ouve falar de gauleses, bretões ou vikings, e no entanto ninguém afirma que esses povos foram vítimas de um genocídio. Esses povos perderam sua especificidade, misturaram-se com outros povos e deram origem à população européia atual. O mesmo aconteceu com as antigas tribos do tempo dos bandeirantes.

Incendiar a estátua de Borba Gato tem um significado simbólico, sem dúvida, mas não reescreve a História. Apenas a reinterpreta. A empostação dos bandeirantes como heróis já é coisa ultrapassada, mas a meu ver, mais importante do que ressignificar a História, é conhecê-la com exatidão.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

A Ditadura Perfeita

As notícias relatando protestos de rua em Cuba causaram-me surpresa. Não foi muitos dias atrás, e alguns apressados até comemoraram a próxima queda do regime iniciado por Fidel Castro, mas até agora ninguém sabe dizer exatamente o que aconteceu, nem como terminou. O fantástico, porém, foi aqueles protestos haverem acontecido, pois não é todo dia que se vê uma coisa assim em um regime comunista, e tampouco jamais alguém viu um regime comunista ser derrubado por protestos de rua.

O caso é que há ditadura perfeitas, assim entendido por não ser possível derrubá-las por intermédio de uma revolução. Elas caem por outros motivos. Outro exemplo foi o regime nazista, que a despeito de todas as suas atrocidades, e de toda a sua disposição de prosseguir com uma guerra perdida que causava enorme sacrifícios a sua população, jamais foi derrubado por uma revolução. Extinguiu-se com a derrota da Alemanha na guerra. Bem diferente do que acontecera em 1918, quando a mesma população, saturada dos sacrifícios impostos pela guerra, sacrifícios esses incomparavelmente menores do que aqueles sofridos em 1945, rebelou-se e pôs fim ao regime do Kaiser. Contando que o mesmo fosse acontecer na 2a Guerra, os aliados impuseram massivos bombardeios sobre a população civil alemã. Mas o que aconteceu foi o contrário: cada vez mais dependente do amparo do Estado, a população dedicou cada vez mais apoio ao governo, repetindo aliás o mesmo que havia acontecido quando a Inglaterra foi bombardeada em 1940.

O regime comunista soviético tampouco foi derrubado por uma revolução: desabou sozinho feito prédio condenado quando pedreiros imprudentes tentam fazer uma reforma de emergência. O que há em comum entre todas essas "ditaduras perfeitas"? Respondo eu: a redução do indivíduo a um estado de total dependência do governo. Ensina a História que revoluções bem sucedidas só acontecem quando está presente na sociedade local uma classe de indivíduos que detêm considerável espaço na economia, porém nenhum espaço na política, o que faz surgir uma demanda por poder. Mas para haver meios de se pressionar o governo, essa classe necessita ter a posse de bens materiais, mesmo que apenas sua força de trabalho. Por este motivo os regimes comunistas são ditaduras perfeitas: qual indivíduo consegue rebelar-se contra quem é, ao mesmo tempo, seu empregador, seu locatário, o dono da escola onde seu filho estuda, do hospital onde ele se trata e do jornal que ele lê? Que fazer quando não se é dono sequer de sua força de trabalho, já que é proibido vendê-la a um patrão?

Não acredito que o regime cubano venha a ser derrubado por uma revolução. O que não quer dizer que ele já não esteja sendo corroído há tempos, por força de sua inviabilidade econômica. Penso que a evolução será a mesma do regime comunista chinês: toda a liberdade ao capital, nenhuma ao indivíduo. O regime chinês, aliás, é outra ditadura perfeita. Com a prosperidade permitida por entrepostos altamente conectados com o mundo capitalista, como Hong Kong e Shangai, e a consequente subida do padrão de vida, a população pôde mesmo adquirir hábitos de consumo típicos do ocidente, sem que o regime político fosse alterado, ou sequer abrandado. Uma bem sucedida imitação do ocidente capitalista, a ponto de atualmente quase ninguém mais se lembrar de que a China é uma ditadura. Perfeita.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Lula, corrupto e corruptor

 Agora que Lula volta à cena eleitoral depois do longo ostracismo, fica a impressão de que sua condenação foi injusta, produto de uma perseguição, ou no mínimo desproporcionalmente severa. Lula foi corrupto? Se foi, não parece ter sido grande coisa se comparado a tantos outros bem conhecidos megacorruptos deste país. O maior emblema da pequenez da corrupção de Lula é a imagem dos pedalinhos do sítio de Atibaia. Mas este artigo da Isto É cita uma observação feita por Ciro Gomes. Ele definiu Lula como o maior corruptor da história brasileira.

É a verdadeira medida do papel que Lula teve na História Brasileira, para o bem ou o mal. Sob a chefia de Lula, o PT elevou a corrupção a um paradigma até então inédito. A corrupção sempre existiu, mas em geral era um conluio que beneficiava particulares. Com Lula, o grosso da verba desviada passou a fluir para o caixa do partido. Entende-se: o Brasil sempre teve partidos fracos e políticos fortes, para quem importava mais o carisma pessoal do que a coligação de siglas por vezes bizarra que o sustentava. Ao redor, enxameavam ladrões de vários calibres. Nesse cenário o PT surgiu como o primeiro partido forte, organizado e com militantes rigidamente obedientes a uma hierarquia. Esse partido chegou ao poder, adquiriu uma base aliada na multidão de políticos ávidos para vender seu apoio, e logo tratou de montar uma máquina que garantisse sua futura hegemonia. Para tal, precisou de muitos milhões. O negócio foi montar um complexo unindo o Partido, mais empresas estatais, mais empreiteiras que dependiam desses dois primeiros, tudo funcionando como um conglomerado.

Evidente que em um desvio de verbas que priorize a caixa do Partido, para que a parte que cabe aos operadores do esquema continue a ser atrativa, é necessário que o montante desviado seja muito maior. Assim a corrupção explodiu no país. O PT foi ingênuo ao acreditar que tal quantidade de desvios não seria detectada por uma Polícia Federal que foi sensivelmente melhorada e reequipada por ele mesmo, neste sentido pode-se dizer que o PT deu um tiro no próprio pé. Como também foi ingênuo em acreditar que a nova classe média que vangloriava-se de haver criado ficaria silente diante de tamanho roubo, tal como havia se calado ante roubalheira varejista do passado.

Se como corrupto Lula foi um peixe pequeno, como corruptor foi um gigante. Conclui o citado artigo da Isto É:

Quero dizer com isso que o uso que Lula e seu partido fizeram da Petrobras, para comprar apoio político e estender sabe lá até quando a sua permanência no poder, é muitíssimo mais grave do que qualquer pixuleco que o ex-presidente possa ter embolsado

O Lula corruptor foi muito mais nocivo ao país e à democracia do que o Lula que se deixou corromper.

É preciso que haja uma terceira via. 

A má gestão inerente à administração corrupta causa às empresas um prejuízo muito maior do que a comissão que é desviada do caixa no primeiro momento. Ninguém duvida que a perda que a Petrobrás teve com a aquisição da Refinaria de Pasadena, só para citar um exemplo, foi muito maior do que a propina paga aos diretores que aprovaram a compra de tal refinaria. É assim que a corrupção quebra um país inteiro.

Teremos isso de volta, se Lula retornar à presidência? O Rouba Mas Faz vai continuar a engambelar gerações? Uma coisa que Lula sabe fazer muito bem é se reinventar. É possível que o novo Lula que assumirá em 2023 não seja o mesmo Lula que saiu em 2010, assim como o Lula que assumiu em 2003 não foi o mesmo Lula dos palanques do ABC. Mas o ideal é mesmo que haja uma terceira via.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Um Projeto de Nação

Sentindo o alento que vem da perspectiva do fim da pandemia e da escolha de um novo governo para o ano que vem, é trazida de volta à baila um antigo dístico: o tal de "Projeto de Nação".

Já ouvimos muito essa história anos atrás, mas ela saiu de moda depois que se descobriu que o Estado era mais um peso do que um condutor para a economia. E após tanto tempo de desalento, ela nos causa uma certa saudade, evocando uma época em que ao menos acreditávamos no futuro. Escreveu Luciano Huck em um artigo:

Não há vento bom para uma nau sem rumo. O Brasil precisa de um projeto de nação. Um projeto de arquitetura, engenharia e construção.

A ideia de um Projeto de Nação, levado a cabo por um governo benévolo fiel a um receituário, surgiu no início da Era Vargas, com sua proposta de industrialização e modernização social. Mais industrialização que progresso social, na verdade. Desde então, a ideia foi encampada por governos de variados matizes ideológicos, democráticos ou ditatoriais, mas compartilhando da crença de que cabe ao Estado planificar e conduzir a economia (e por que não, tutelar o social). Embora comandada pela face autoritária de um presidente, a ideia tem atrás de si uma utopia. Somos o país do futuro, não? Ou pelo menos éramos. Quando foi que deixamos de ser? Escreveu o apresentador:

Infelizmente o Brasil hoje não tem a capacidade de liderar qualquer agenda global. Ao longo de todo o século XX, mesmo sendo um país pobre e em desenvolvimento, nós sempre fomos respeitados e reconhecidos pela nossa arte, arquitetura, música, cultura, esporte e agricultura. Na década de 50 fomos capazes de construir uma capital em 5 anos, tivemos a sensibilidade de encomendar uma cidade pelo olhos de gênios como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Fizemos o primeiro palácio aberto, horizontal, envidraçado, nivelado na altura “do povo”. Longe do estilo rococó que materializava “o poder” ao redor do planeta.

Este Brasil infelizmente sumiu. Foi sufocado por uma visão míope das potencialidades brasileiras e atropelado por quem adora fazer apologia da mediocridade.

A utopia desapareceu. Sempre tivemos uma utopia. Vargas queria ser o Pai dos Pobres. JK tinha a utopia de Brasília. A garotada revolucionária dos anos sessenta tinha a utopia do socialismo. Os militares dos anos setenta tinham a utopia do Brasil Grande. Foram os militares, aliás, os autores do último Projeto de País, levando ao extremo o desenvolvimentismo nacional-estatista, que se esboroou nos anos oitenta, a "década perdida". Desde então o Estado Dirigista tornou-se um vilão, impedindo a economia de crescer com seus gastos excessivos, seus deficit´s e sua corrupção. Não acreditamos mais no poder transformador do Estado, mas parece que tampouco acreditamos em nós mesmos.

Quem fará o próximo Projeto de País? Desde o fim do governo dos militares, a pugna por um Estado Dirigista passou da direita para a esquerda, sendo encampada pelo PT, herdeiro do legado varguista. Em outros tempos Lula definiu a CLT como "o AI-5 dos trabalhadores". Hoje o PT defende-a com unhas e dentes, e no período em que esteve no poder, implementou uma espécie de getulismo tardio, reciclando um modelo desenvolvimentista e mesclando-o com conquistas na área social. Como se sabe, só funcionou enquanto bons ventos da economia mundial sopraram para o nosso lado. Se o PT chegar de novo ao poder nas próximas eleições, como indicam as pesquisas, terá que urdir um novo Projeto de País. Que ideias estão no ar? Voltando ao artigo de Luciano Huck:

É possível construir um futuro, encontrar saídas e retomar a esperança, mas isso só vai acontecer se a sociedade civil responder a um chamamento e se unir em torno do bem comum.

A agenda da sustentabilidade vai se impor. Quer dizer, já está se impondo. Não só porque é a escolha moralmente correta, mas também porque é importante para o sucesso dos negócios (...) O Brasil pós-2022 pode e deve liderar esta agenda verde, da agroindústria sustentável, da preservação, da floresta em pé, da proteção dos nossos povos ancestrais.

Vamos ter de definir nosso propósito e nossa missão. Quando você tem clareza sobre isso como nação, as oportunidades aparecem e o mundo vem até você. Nada virá por geração espontânea.

Parece um tanto piegas, sem dúvida, e tampouco Luciano Huck parece ser a pessoa mais habilitada a tratar desses assuntos. Sustentabilidade ao invés de fábricas. Mais respeito às minorias ao invés de mais direitos trabalhistas. O espírito da época está bem diferente daquele dos anos Vargas. Entretanto, continuo duvidando que pode haver um Projeto de País se não houver uma utopia por trás.

A opção mais lucrativa do presente pode não ser a do futuro.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Brasileiros Vem das Selvas

Causou celeuma a afirmação recente do presidente argentino Alberto Fernández de que “Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós os argentinos, chegamos de barcos". Pegou mal, e ele próprio tratou de dar uma explicação, destacando a origem miscigenada dos argentinos. Na verdade ele estava parafraseando um músico argentino chamado Litto Nebbia, que incluiu essa frase em sua canção "Llegamos de Los Barcos". Igualmente parafraseava o autor mexicano Octávio Paz, que escreveu “os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos, dos navios” (Octávio Paz não mencionou os brasileiros).

Nota-se na versão do argentino uma distinção entre os nativos brasileiros e os astecas e incas - segundo é dito, apenas esses últimos seriam "índios", enquanto os brasileiros são "selvagens". Ironicamente, as estatísticas mostram que o Brasil recebeu mais imigrantes europeus do que a própria Argentina, embora a presença destes seja menos notável aqui, por ter havido maior mistura. Entretanto, a identificação do povo brasileiro com a selva não é um preconceito lançado por argentinos. A rejeição de uma imagem eurocêntrica do Brasil é tão antiga quanto a aceitação de uma imagem eurocêntrica da Argentina, inclusive no exterior, onde o Brasil é normalmente identificado com a região amazônica, ao passo que toda a metade inferior do subcontinente sul-americano é referida vagamente como "Argentina", porção que inclui o sul do Brasil. Enfim, não vale a demografia nem as estatísticas da imigração, mas a ideia estabelecida de como cada um "deve ser".

É fato que nós mesmos, brasileiros, temos historicamente procurado difundir um mito fundador do Brasil ligado aos índios, daí advindo um orgulho patético, tal como os argentinos se orgulham de ser descendentes de europeus. Desde a época da Semana de Arte Moderna, intelectuais brasileiros têm se esforçado para resgatar uma suposta autenticidade nacional derivada dos índios, e taxar a herança cultural do colonizador como imitação subserviente. Antes disso já era moda nomes próprios de origem indígena. Antigas famílias brasileiras se orgulham de ter antepassados índios, fato que confere uma autenticidade simbólica ao direito dessas famílias à terra, além de terem os índios a fama de guerreiros valorosos. Mas se encontramos motivo para ter orgulho de sermos descendentes de índios, será que o mundo tem a mesma percepção?

Na concepção do presidente argentino, que apenas ecoa um senso comum mais geral, os índios brasileiros sequer são denominados índios - esta classificação vai apenas para astecas e incas. Os brasileiros, disse, vieram da selva, de onde se conclui que os índios brasileiros seriam tão-somente selvagens, criaturas sem cultura, conforme o entendimento daquilo que é "selvagem". Os antigos patriarcas das famílias quatrocentonas podiam se orgulhar de ter ancestrais índios, mas isso não significava que tolerariam a presença de índios em suas fazendas. Na verdade, mesmo a mais de cem anos atrás, pouquíssimos brasileiros já haviam visto um índio ou sabiam como era um índio, dai ser tão fácil romantizar uma figura meramente imaginada.

Mas na minha opinião, tudo não passa de um grande mal entendido. Essa busca por uma autenticidade nativista parece-me uma revolta pueril contra o antigo colonizador - queremos crer que o país já existia aqui em 1500, quando supostamente foi invadido pelos europeus. Mas o que existia aqui não era um país, e sim uma região geográfica habitada por numerosas tribos que não obedeciam a uma liderança central, nem tinham territórios demarcados por fronteiras. O conceito de estado-nação foi trazido pelo colonizador, e só a partir dele pode-se falar de um país como entidade política, étnica ou cultural. Bom ou mau, feio ou bonito, o Brasil é uma criação do colonizador, e não do índio. Não obstante, esse brasileiro que veio da selva está pronto para ser reconhecido internacionalmente, posto que atende às utopias que os europeus têm nutrido sobre nós desde o século 16: a terra onde não há pecado, habitada pelas índias nuas e pelo bom selvagem de Rousseau. Modernamente, a utopia se reciclou na figura do índio ecologicamente consciente, que quer preservar as florestas invadidas pelo homem branco, e assim o planeta será salvo, ficando os brasileiros na selva e os europeus mantendo seus padrões de consumo sem pôr em risco a camada de ozônio.

Os argentinos se orgulham se ser descendentes de europeus. Não sei se os europeus se orgulham de ter os argentinos como descendentes, mas parece-me que decididamente não se orgulham de ter os brasileiros como seus descendentes, ou sequer têm ciência disto.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Escravidão, Racismo e Desigualdade

 Joaquim Nabuco, militante abolicionista, afirmava que por muitos anos a escravidão ainda seria o traço definidor do Brasil. Não falta quem atribua a ela a origem de todos os males nacionais, não sem alguma dose de razão. Recebi recentemente um email de um propagandista do Movimento Negro, endossando essa tese.

"Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo 'racial' entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios. Como esse mecanismo funciona na realidade cotidiana? Minha tese é a de que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve 'na prática' inalterado desde a abolição da escravatura"

"O ex-escravo é afastado do mercado de trabalho competitivo e passa a desempenhar as mesmas funções humilhantes e indignas que exercia antes. Seja tanto as funções de trabalho sujo, pesado e perigoso, para os homens, quanto as funções domésticas do antigo 'escravo doméstico', para as mulheres, as quais reproduzem todas as vicissitudes da antiga relação senhor/escravo. Faz parte do âmago desta relação não só a exploração do trabalho vendido a preço vil, mas também a humilhação cotidiana transformada em prazer sádico para o gozo frequente e para a sensação de superioridade e a 'distinção social' das classes média e alta"

Existe de fato uma analogia óbvia entre o escravo e o trabalhador mal qualificado que está na base da pirâmide social. Mas até que ponto há uma relação causa-efeito entre o primeiro e o segundo? É sabido que a grande maioria dos ex-escravos brasileiros veio a compor o extrato mais baixo de nosso proletariado. Entretanto, uma divisão social semelhante pode ser vista em nossos vizinhos sul-americanos que tiveram no passado muito pouca escravidão, e a aboliram muito antes de nós.

Eu penso, então, que a desigualdade social característica do mundo subdesenvolvido decorre de fatores puramente econômicos e impessoais - a falta de um dinamismo na economia que faz com que pouca riqueza seja produzida à custa de muito trabalho, e por conseguinte, o trabalho tenha pouco valor agregado. Chamar isso de escravidão moderna pode servir como metáfora, mas se levada em seu sentido literal, conduz a uma armadilha psicológica - o cidadão desfavorecido economicamente crê ser um escravo, vítima de manipulação maldosa da parte de uma "classe dominante" abstrata. Nesse contexto, a escravidão do passado atua como um trauma: seja ou não descendente de escravos, o desfavorecido enxerga escravidão aonde quer que olhe. 

Acrescente-se que analisados em seu substrato sócio-econômico, o escravo e o proletário assalariado não são a mesma coisa. Em termos de condições materiais, podem até assemelhar-se, mas o escravo é um bem de raiz de seu proprietário, enquanto que o proletário é parte de um exército de reserva. O escravo compõe o capital de seu dono; pode ser comprado, vendido, alugado e herdado, mesmo que em determinado momento não esteja produzindo nada. O trabalhador assalariado não compõe o capital de seu patrão, que por conseguinte não se dispõe a mantê-lo caso por algum motivo ele não esteja produzindo. O trabalhador deve ser parte de um exército de reserva pronto a colocar-se a serviço de seu patrão quando for necessário, e pronto a ser dispensado quando não for necessário. Por aí entende-se facilmente porque escravidão e capitalismo são sistemas mutuamente incompatíveis e antagônicos: não é possível haver capitalismo se toda ou quase toda a força de trabalho se encontra imobilizada como bem de raiz de alguém. O capitalismo, longe de ser uma versão atualizada da velha escravidão, entrou em rota de colisão contra esta, impondo-lhe a condição: ou deixa de existir, ou será suprimida pela força. A guerra da secessão norte-americana, opondo o norte industrial ao sul escravocrata, foi o mais bem acabado exemplo histórico do conflito entre capitalismo e escravidão.

"É importante notar que, paralelamente à condenação do negro à exclusão, o país passa a implementar a política abertamente racista da importação de imigrantes europeus brancos, na imensa maioria italiano (...) Uma parte considerável destes 'neobrasileiros' ascende rapidamente, alguns inclusive à elite de proprietários e de novos industriais, mas boa parte irá constituir a classe média branca de grandes cidades como São Paulo. Nas outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Recife, os portugueses exerceriam o mesmo papel do italiano em São Paulo"

"O imigrante branco, na maioria o italiano ou o português, irá constituir no Brasil, ao mesmo tempo em aliança e a serviço da elite de proprietários, uma espécie de 'bolsão racista e classista' contra os negros e pobres que constituem a maior parte do povo. Para a elite, isso significa a oportunidade de criminalizar e estigmatizar a soberania popular no nascedouro com a cumplicidade das classes médias (...) Muitos imigrantes não conseguiram ascender à classe média verdadeira nem à elite. Boa parte vai constituir uma zona cinza que inclui a classe trabalhadora precária e o que poderíamos chamar de 'baixa classe média'. O cotidiano de muitos destes não difere muito da vida do negro e do pobre brasileiro. Moram eventualmente no mesmo bairro e passam privações materiais. É precisamente nesta faixa social que o preconceito de raça é ainda mais importante. Afinal, a única distinção positiva [reconhecível socialmente] que este pessoal tem na vida é a 'brancura' da cor da pele para exibir contra o negro (...) Enfatizar uma distância social quase inexistente do ponto de vista econômico exige um racismo 'racial' turbinado e levado às últimas consequências"

No Brasil, contudo, a substituição do escravo negro pelo imigrante branco não foi parte de um projeto para implantar o capitalismo, mas ironicamente, de um projeto para dar sobrevida à escravatura, posto que a importação de novos escravos da África fora proibida, e novas frentes agrícolas estavam se abrindo. A implantação do capitalismo no Brasil por parte desses imigrantes e seus descendentes, que se tornaram empresários e trabalhadores, foi um fenômeno marginal e não-planejado, pois o que se esperava originalmente deles é que fossem os novos escravos (e de fato, muitos foram tratados com escravos). Esses imigrantes eram em geral camponeses que viviam uma situação de miséria na Europa da Revolução Industrial, frequentemente enganados por promessas não cumpridas da parte do governo brasileiro e lesados pelas companhias que patrocinavam suas viagens.

A ascensão social deste grupo pode ser explicada porque, ao contrário dos negros ex-escravos, eles já tinham experiência em trabalho fabril e pequenos empreendimentos em seus países de origem, bem como de pequena agricultura. Infelizmente também traziam o racismo de seus países de origem, que em geral eram impérios com colônias onde os nativos eram vistos como uma raça inferior. É irônico constatar que eram mais racistas do que os antigos fazendeiros escravocratas, os quais não viam os brancos pobres como superiores aos negros, mas como equivalentes a esses.

"Este é também precisamente o caso dos brancos americanos, das classes sociais mais ou menos, baixas e médias, que são convencionalmente - e depreciativamente - referidos como 'white trash', e que ajudaram a eleger Trump, o objeto do desejo e de imitação de Bolsonaro. Os brancos do Sul dos EUA, inferiores social e economicamente aos brancos do Norte, são, por conta disso, como uma espécie de 'compensação' da riqueza inexistente, os racistas mais ferozes e ativistas de uma 'Ku Klux Klan' que assassinava e linchava negros indiscriminadamente. Esta parece ser a aspiração do Bolsonarismo e de seus seguidores no Brasil, também"

Sabe-se que no Brasil, Bolsonaro foi eleito embalado por uma nuvem de ressentimento anti-petista. Faz algum sentido, portanto, a comparação da "white trash" norte-americana com a baixa classe média brasileira. Mas o papel que cada uma teve no fenômeno não é o mesmo. Deve ser lembrado que nos EUA, os brancos e a classe média são maioria, enquanto que no Brasil a maioria da população tem raça indefinida, e a classe média é minoritária. Portanto, quem quiser explicar a ascensão de Bolsonaro, deve se ater ao que dele pensam as massas, e não a classe média. A meu ver, este apoio deveu-se ao anseio que o povo das periferias tem por valores tradicionais e combate ao crime, mesmo motivo que leva este mesmo povo a correr para as igrejas evangélicas. Bolsonaro foi o único que prometeu algum endurecimento contra a bandidagem.

O que mostra que, ao contrário dos bairros pobres de negros e imigrantes nos EUA, o povo de nossas periferias não vê uma dicotomia Negros X Brancos no fenômeno da criminalidade que assola seus bairros. Este é um discurso importado, que não corresponde à nossa idiossincrasia.