terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Gênese do Mundo Ocidental

Uma hora ou outra, todos sentem vontade de responder à pergunta: quem somos? De onde viemos? Por que somos assim? Geralmente isso ocorre nos momentos de insegurança, quando sentimos nossas convicções abaladas. Na dúvida, queremos agarrar a nossa tábua de valores. Por este motivo, é útil decifrar o gênese de nosso mundo, o Mundo Ocidental, e oportuno fazê-lo nesse momento em que o fenômeno da globalização ameaça dissolver as identidades em um caldo único, e inclusive muita gente deseja declarar que não pertencemos ao ocidente, tema de outro ensaio meu.

A Civilização Ocidental é recente se comparada a outras como a chinesa e a japonesa, tem no máximo dois mil anos, mas só fez jus de fato a essa designação a partir da Alta Idade Média. Antes o ocidente era Roma e o oriente era a Grécia, sendo que o norte da Europa era totalmente distinto. A menção meramente geográfica, Oeste X Leste, já não faz mais sentido na época atual, mas o núcleo difusor da civilização ocidental efetivamente teve início em um local geográfico que correspondia ao oeste de um continente. Aquelas terras do mundo que receberam o influxo desta civilização compõem hoje o Mundo Ocidental, e são tão geograficamente dispersas quanto a América Latina e a Nova Zelândia. Mas precisamos recuar dois mil anos no tempo para levantar o gênese deste mundo.

O senso comum é que a Civilização Ocidental possui quatro pilares: a herança greco-romana, origem dos idiomas, das instituições e da filosofia, e a herança judaico-cristã, origem das crenças e valores. Mas como esses pilares se uniram não é tão fácil explicar. Mesmo porque, em sua origem, eles eram bastante disjuntos. A primeira noção de um ocidente oposto a um oriente vem a surgir na Grécia de cinco séculos antes de cristo, época das guerras contra os persas. Na visão dos gregos, os persas constituíam não apenas seu inimigo, mas também uma anti-civilização, oposta em tudo à helênica. Assim, o mundo dos bárbaros passou a ser o oriente. Para a porção ocidental da Europa além da Grécia, contudo, essa dicotomia ainda não fazia sentido.

Após a conquista romana, a Grécia passou a ser o oriente. Roma era o ocidente. Mas como é norma acontecer nos casos em que a superioridade militar não corresponde a uma superioridade cultural, os romanos assimilaram o legado cultural dos gregos, e as duas civilizações se fundiram. Temos aí os dois primeiros pilares fincados. Mas o norte da Europa nada tinha a ver com o mundo greco-romano; sua civilização era peculiar, e eram considerados tão diferentes quanto os povos da Ásia Menor. Como foi que essa porção do mundo se incorporou ao contexto civilizacional greco-romano, formando a Europa como hoje a conhecemos? Ironicamente, foi graças aos bárbaros da Ásia Menor, devido a uma religião por eles difundida. Inicialmente, a conquista militar só incorporou ao mundo romano o oeste da Europa, mas quando Roma já não tinha a força militar, sua civilização passou a difundir-se por meio da religião à qual se haviam convertido, o cristianismo.

Penso eu, se a herança greco-romana forneceu as pedras da construção, a herança judaico-cristã foi o cimento que as uniu. Uma religião que incorpora uma ética lida com crenças íntimas, onde se encontram as convicções mais profundas do homem do povo. Pode ser difundida pela força, mas também, e mais eficazmente, pela persuasão. Missionários propagam uma civilização de forma mais rápida, limpa e completa do que legionários ou mercadores. Não foi à toa que para a conquista do Novo Mundo, padres e pastores desempenharam um papel essencial. Mas afinal como foi que uma religião vinda do oriente, totalmente estranha aos valores romanos, foi aceita por este povo que desprezava os orientais como bárbaros?

Esse é um dos grandes mistérios da História, ainda não totalmente explicado. A combinação de componentes tão opostos quanto o politeísmo romano e o monoteísmo judaico, a filosofia grega e o dogmatismo cristão, não se deu em um instante, nem foi isenta de luta. Foi assim como uma reação química fulminante, que combina ingredientes imisturáveis e produz um composto totalmente distinto. O processo inteiro levou cerca de cinco séculos, e na maior parte do tempo distinguiu-se mais por estranhamento do que por adesão.

O choque começou entre os dois pilares do oriente, o judaísmo e o cristianismo. Como se sabe, o cristianismo foi repudiado em seu local de nascimento, a Judéia romana, mas propagou-se com rapidez nos arredores. Jesus aparentemente era analfabeto, pois não deixou obra escrita, mas sua doutrina foi apropriada por seus seguidores. Inicialmente uma seita do judaísmo, o cristianismo ganhou identidade definitiva de nova religião quando surgiram os primeiros textos doutrinários escritos, sobretudo os de autoria de São Paulo. Mas a herança judaica foi acomodada na nova religião como o Antigo Testamento, traduzido para o grego entre os séculos I e III A.C. em Alexandria, versão conhecida como septuaginta por supostamente haver sido redigida por setenta escribas. Os dois pilares do oriente estavam unidos.

A penetração da nova religião no mundo romano foi mais traumática. Mesmo porque, em perspectiva, a crença judaico-cristã nada tinha a ver com a mentalidade romana, que prezava o corpo, a glória e a riqueza terrenas. Os primeiros cristãos eram vistos como uma seita macabra que se refugiava em catacumbas, onde celebravam, dizia-se, rituais medonhos onde comiam o corpo e bebiam o sangue de um tal Jesus. E além disso ainda repudiavam o banho. Não admira que fossem responsabilizados pelo incêndio de Roma, já que viviam falando de um fim do mundo pelas chamas. Foram reprimidos com violência, mesmo porque a adesão cada vez maior da parte dos escravos alimentava o receio de uma revolução social. Mas a despeito de tudo isso, o número de convertidos crescia sem parar.

A única explicação que encontro é que a mensagem dos cristãos tinha, efetivamente, uma aceitação profunda da parte dos homens e das mulheres do povo, propiciando-lhes um conforto que as religiões então existentes nunca poderiam permitir. Diferente dos deuses pagãos, o deus dos cristãos não se limitava a conceder graças em troca de oferendas, mas exigia um comportamento ético da parte de seus seguidores. Proibia o roubo, a cobiça e a violência. Já os deuses pagãos relacionavam-se com seus seguidores mais ou menos da mesma forma que qualquer senhor poderoso da época relacionava-se com seus clientes: apenas uma troca de favores. Não amavam nem eram amados, nada tinham a ensinar, favoreciam àqueles que concediam-lhes as melhores oferendas e castigavam impiedosamente conforme sua veneta. O deus dos cristãos tinha para com seus seguidores uma intimidade só concebível entre duas criaturas unidas por amor sincero, e preenchia profundas carências, comuns em uma época de insegurança e violência desmedidas. Seus ensinamentos aliviavam a opressão cometida por senhores contra seus servos, e sobretudo contra as mulheres: dizer isso hoje em dia pode soar estranho, mas quando de seu surgimento, o cristianismo impôs uma sensível melhora na condição feminina se comparado ao que havia antes. Proibiu a poligamia e o divórcio, o que não é pouca coisa levando-se em conta que os homens de então podiam ter várias esposas e divorciar-se delas sem lhes dar nada.

Aceito o cristianismo como a religião oficial do império romano, veio o embate seguinte, opondo a doutrina cristã à cultura helênica. Agora são cristãos os opressores; destroem templos pagãos, mas também perseguem filósofos e cientistas. Foi uma luta violenta e repleta de lances trágicos, como o linchamento da filósofa Hipatia de Alexandria por uma turba enlouquecida. Por um instante parecia que os cristãos iam liquidar a vida intelectual do mundo grego e reduzir a recém-nascida civilização ocidental à mediocridade, mas a previsão não se cumpriu. O legado intelectual dos gregos acabou por ser acolhido entre os cristãos, e tão bem preservado que mil anos após conheceria um formidável florescimento, que dura até hoje. Difundido por toda a Europa por intermédio de escolas e universidades, formatou o racionalismo e o cientificismo que hoje nos parecem inseparáveis da mentalidade ocidental. Conceitos como democracia, cidadania e civismo, ao ressurgirem no século 18, pareciam tão atuais quanto no tempo dos atenienses, evidenciando o quanto a herança grega acompanhou a gênese de nossa civilização, mesmo que por muitos séculos permanecesse arquivada e disponível apenas a uns poucos letrados.

Foi assim que chegamos aqui. Quatro pilares, que pareciam de todo inconciliáveis, de algum modo se combinaram e forneceram um patamar extremamente sólido para uma civilização que, bem ou mal, tem sido a dominante no planeta nos últimos cinco séculos.

Só não entendo porque os ocidentais têm um afã tão grande em criticar e renegar sua própria civilização. Sentimento de culpa?

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Em busca do Jesus Histórico

Todo final de ano, época de natal, é a mesma coisa: são exibidos na TV paga várias séries e documentários especulando sobre o "verdadeiro Jesus", ou o Jesus histórico. Confrontam informações da bíblia com as de historiadores antigos e da arqueologia, são em geral interessantes mas pecam pelo excesso de imaginação, deixando mais perguntas que respostas. Não sou nenhum especialista em teologia, mas tenho algumas opiniões a respeito.

O primeiro ponto que me chama a atenção é: como personagem de tal importância não foi citado por nenhum cronista contemporâneo? Josephus citou Herodes, Pilatus e João Batista, mas não disse uma palavra sobre Jesus, que só começa a aparecer em textos escritos mais de cem anos depois. A explicação que encontro é que Jesus era analfabeto, pois não existe amostra de sua escrita. Essa premissa é compatível com a origem humilde do messias. Por este motivo, suas ideias se propagaram inicialmente apenas por via oral, com lentidão. Seus ensinamentos não foram escritos pelo próprio, mas por discípulos conhecidos como evangelistas, sendo de todo justo que se levantem dúvidas quanto a sua autenticidade; de fato, há várias versões dos ditos evangelhos, algumas bem divergentes, mas a Igreja adotou como autênticos quatro textos que correspondem mais ou menos um ao outro. Os demais são considerados apócrifos. Alguns têm todo jeito de narrativa folclórica, como aquelas passagens da infância de Jesus fazendo mágicas para os amigos e atazanando seus pais, mas outros são bem instigantes. A discussão é longa e vou parar por aqui.

Outro ponto que me chama a atenção é a diferença da pregação de Jesus comparada com a dos demais profetas do Antigo Testamento. Todos aqueles tinham o foco no coletivo, dirigiam-se ao povo, censuravam os costumes do povo e anunciavam castigos para o povo inteiro. Jesus falava ao público, mas sua mensagem se dirigia ao indivíduo. Diversas passagens dos evangelhos mostram colóquios individuais entre Jesus e um interlocutor, geralmente uma mulher. Aparentemente, Jesus não foi influenciado por aqueles profetas antigos, então de que fonte bebeu? Houve época que estava na moda apontar Jesus como um membro dos essênios, a seita mais exotérica do judaísmo; há de fato pontos em comum, mas um estudo mais detalhado da doutrina dos essênios desmente essa assertiva. Outros comentaristas vão além e fazem um paralelo com o budismo. Faz algum sentido: de fato, o desapego aos bens materiais não era ideia muito em voga no Oriente Médio até então, mas é preciso muito esforço para imaginar Jesus viajando à Índia e à China para adquirir seus conhecimentos. Teria Jesus desenvolvido sua doutrina inteiramente sozinho? Alguns afirmam que ele foi discípulo de João Batista, mas nada se pode provar.

Mas inevitável mesmo, e recorrentes, são as especulações em torno de um Jesus "libertador", ou seja, revolucionário. Jesus censurava os ricos e exaltava os pobres. Um socialista? Jesus afirmou que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Disse, aquele que tem duas capas, dê uma aos pobres. Quanto a mim, não tenho dúvida nenhuma: se Jesus fosse mesmo um socialista, teria aceito a sugestão de satanás no deserto, de transformar pedras em pães (para distribuir aos pobres, é claro, mas também pegar para si, que ninguém é de ferro, né?) bem como a sugestão de adorar satanás prostrado para em troca ter o poder sobre todos os reinos da terra (para governar em favor dos pobres, é claro). Havia um discípulo em particular que pensava dessa maneira. Uma ocasião em que uma pecadora arrependida banhou os pés de Jesus com um perfume caríssimo, ele se indignou e declarou que melhor seria vender aquele perfume e distribuir o dinheiro aos pobres. Resposta de Jesus? Pobres, sempre os tereis convosco. O nome do discípulo? Judas Iscariotis. Que bem pode ser considerado o patrono da Teologia da Libertação, bem como da mais atual Teologia da Prosperidade...

A concepção de um Jesus "socialista" revela uma compreensão incompleta de sua doutrina. Jesus pregava o desapego aos bens materiais como premissa necessária para se obter a elevação espiritual. Portanto, o conselho de vender os bens e distribuir aos pobres tinha o propósito de beneficiar o doador dos bens, e não o receptor, pois de resto Jesus sempre esteve ciente de que mesmo se todos distribuíssem seus bens aos pobres, não bastaria para erradicar a pobreza do mundo - pobres, sempre os tereis convosco. Que Jesus não era um revolucionário, disso também estava ciente Pilatus, que hoje se sabe, era adepto da repressão violenta aos oponentes do domínio romano, e dispunha de um ótimo serviço de informações. Por isso sabia que Jesus não se opunha a Roma, e até declarava ser válido pagar impostos a César; era anátema para a elite farisaica, não para os romanos. No máximo, um desordeiro, caso para umas chicotadas, que Pilatus prontamente mandou aplicar, mas um governante romano deve preservar a Paz Romana, e por este motivo Pilatus cedeu aos sacerdotes e mandou crucificar Jesus.

Tenha sido quem foi o Jesus histórico, é fato que o cristianismo, religião surgida no oriente, foi indispensável para o estabelecimento da civilização ocidental como a conhecemos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Qual vai ser a reencarnação do PMDB?

Falar das próximas eleições é falar de História?

Sim, desde que se conheça a gênese dos partidos políticos. Quem conhece, não se espanta com certos fenômenos, pois é tudo dejà vu. Certos partidos políticos são a reencarnação de outros partidos do passado. É o caso do PMDB, que não lança candidato próprio faz 30 anos, mas está no poder desde sempre. O PMDB, como se sabe, é a reencarnação da velha ARENA implodida quando da eleição de Tancredo Neves, a qual, por sua vez foi a reencarnação do velho PSD, que por sua vez foi a reencarnação de velhos partidos da república velha. Em comum, todos esses partidos têm a ausência de ideais autônomos e o oportunismo de fazer conchavos que atendam a interesses provincianos, corporativos ou meramente pessoais de seus integrantes. Parece desprezível, mas são precisamente esses conchavos que permitem o que se chama a governabilidade. Em outras palavras, significam que o partido que está nominalmente no poder pode governar de fato, posto que assim se cria uma teia de compromissos que mantém colaborativas ou pelo menos quietas em seu canto todas as forças capazes de influir na política. Alguns presidentes, como JK, foram especialmente habilidosos em tecer essa teia, outros nem tanto, mas todos dependeram da existência de um partido que aglutinasse aqueles que não tinham ideais, apenas interesses.

Esse partido precisa existir, pois sem ele as peças do jogo político não se movem. É o chão da política, por assim dizer. É sujo? Sim, mas ser sujo é da natureza de todo chão, assim como é da natureza do chão sustentar o que se constrói sobre ele. E devemos admitir, o PMDB tem executado bem essa função nos últimos trinta anos. Sem fazer alarde, sustentou o bipartidarismo PSDB & PT que sucedeu ao colapso do nacional-estatismo autoritário e bem ou mal tem feito o país funcionar desde o Plano Real. Mas nada é para sempre, e como dizem os alemães, tudo tem um fim, exceto a salsicha, que tem dois. Revendo o passado, todos os partidos que correspondem às reencarnações passadas do PMDB um dia implodiram. E observando o quadro atual, com a crise, os escândalos e as prisões de seus principais dirigentes, a mim não fica dúvida: o PMDB acabou. Pode até estar nominalmente no poder, mas tem o presidente com menor índice de aprovação da história, sem a mínima possibilidade de fazer seu sucessor. Pode até ser majoritário no legislativo, mas não tem mais lideranças capazes de mobilizar seus próprios deputados a votar em projetos do governo, se é que estes ainda existem.

Sem o PMDB para formar o chão, o quadro eleitoral torna-se instável, e aparecem os arrivistas, outra tendência atávica de nossa política, já abordada por mim em outros artigos. Conhecemos bem as consequências a longo prazo desses arrivistas no poder, mesmo que tenham nele permanecido por pouco tempo. É improvável que o bipartidarismo PSDB & PT vá continuar, mesmo porque tampouco PSDB e PT são os mesmos. Fica a indagação: quem será a reencarnação do PMDB, que irá proporcionar uma nova era de estabilidade política?

Um candidato a este papel  é o PSDB, um abortado partido social-democrata que se tornou liberal por força da circunstâncias, que até ontem fez par com o PT, um abortado partido bolivariano que se tornou social-democrata por forças das circunstâncias. O PSDB bem poderia descer mais um degrau e tornar-se conservador, reencarnando o PMDB. Mas retornando ao exemplo da História, convém lembrar que a encarnação passada da velha ARENA não foi a UDN, partido opositor aguerrido, e sim o PSD, partido de conchavos. E nos últimos anos, mais precisamente desde a primeira eleição de Lula, o PSDB tem sido mais uma UDN renascida, posto que foi única oposição declarada ao governo petista, mesmo que nem de longe tão ferina quanto a dita cuja. Para quem foi UDN, parece tarde para ser PSD. Sem renovação em suas lideranças, o PSDB periga cair na irrelevância e deixar o campo livre para o PT, que está bastante abalado, mas ainda tem Lula na liderança das intenções de voto. Mas como será um futuro governo do PT sem o PMDB para lhe garantir a tão necessária governabilidade? Periga fazer o caminho oposto, e de social-democrata passar a bolivariano, isso se tiver força. Se não tiver, suprema ironia, periga do próprio PT tornar-se a reencarnação do atual PMDB, devidamente amansado e sanitizado, tornado viveiro de políticos profissionais.

O ano que vem dará as respostas.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Revendo os Guias Politicamente Incorretos

Já está na TV paga uma série mostrando reportagens sobre os conhecidos Guias Politicamente Incorretos, apresentada entre outros por Leandro Narloch, autor da maioria deles. Eu li todos, e saudei o seu surgimento como enfim um rompimento com os esquematismos ideológicos que vem dominando o ensino de História desde o quarto final do século passado. A popularidade dos guias bem mostra que o público estava cansado das repetições de sempre: que os índios foram sempre vítimas, que o Brasil promoveu um genocídio no Paraguai a mando dos imperialistas britânicos, que nossos heróis foram uns canalhas etc. Mas desde o primeiro ficou na minha cabeça uma advertência levantada por Narloch: não seriam esses guias tão politicamente enviesados quanto os textos que eles combatem?

São, sim, politicamente enviesados como o próprio autor deixou implícito ao admitir que seu propósito era mostrar como é fácil exibir uma versão tendenciosa dos fatos históricos. E convém lembrar, Leandro Narloch não é um historiador, mas um jornalista. Ele não foi às fontes originais obter informações novas, apenas exibiu informações já sabidas mas que vinham sendo sistematicamente omitidas pelos cultores do politicamente correto, a fim de apresentar uma nova versão. Falsear a História é fácil porque não é preciso mentir, basta omitir. Enfatizar aqui e minimizar ali. Mas já é tempo de se fazer uma revisão dos guias politicamente incorretos. Controvérsias não faltam, mas vou me ater aos aspectos que considero mais triunfantes dos guias.

O primeiro deles, sem dúvida, foi acabar com a imagem romântica que se tinha dos índios, vistos como um povo pacífico que vivia em comunhão com a natureza, procurando conservar a floresta que os colonizadores destruíram. Para começar, os índios não são um povo, mas vários povos, que não falavam as mesmas línguas nem eram exatamente amigos uns dos outros. Recentes descobertas arqueológicas, já comentadas aqui por mim, revelam que havia grandes aldeias no feitio de cidades, roçados e pomares em diversas regiões. Então, quinhentos anos atrás não devia haver muito mais floresta nativa do que há hoje. É claro que os índios também destruíam a floresta. Não foi devidamente explicado porque essas grandes aldeias desapareceram, mas a arqueologia também revelou que diversas culturas tiveram períodos de expansão e declínio antes da chegada dos portugueses, certamente o resultado de guerras e condições naturais adversas. Os índios não precisavam dos colonos para exterminar os índios, sabiam fazê-lo eles próprios. O que não deve causar surpresa, pois nunca foram vítimas patéticas, mas povos com interesses próprios, que como todos os outros, também jogaram o Jogo da Civilização. Às vezes ganharam, outras vezes perderam.
Bem oportuno foi o desmentido da versão da Guerra do Paraguai lançada pela conhecida obra de JJ Chiavenatto: Guerra do Paraguai, Genocídio Americano, que vinha sendo adotada como versão oficial nas escolas, e contava a história de uma guerra onde Brasil e Argentina foram fantoches dos imperialistas britânicos, interessados em liquidar o Paraguai, que supostamente dispunha de um modelo desenvolvimentista independente das grandes potências. Na verdade, essa versão já havia sido derrocada pela excelente obra Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, essa sim completa e com sólida base documental e metodológica. Os ingleses não tinham interesse em destruir o Paraguai, e no início do conflito, quem tinha relações cortadas com o Império Britânico era o Brasil, consequência da Questão Christie. Ao contrário, os ingleses tinham aceito a encomenda de navios de primeira linha por parte do Paraguai, que acabaram não sendo entregues porque a guerra eclodiu antes. Ficou mostrado que Chiavenatto queria fazer um paralelo entre o Brasil, o Paraguai e a Inglaterra do século 19 com o Brasil, Cuba e os EUA do século 20, sendo os EUA o modelo da potência imperialista que foi a Inglaterra, o Brasil o modelo do estado subalterno aos imperialistas, e o Paraguai de López uma espécie de Cuba onde toda a população era alfabetizada, não havia propriedade privada e todos trabalhavam para o Estado. Não era bem assim. No Paraguai da época, as terras pertenciam ao Estado, mas o Estado pertencia aos lopistas.

Foi também oportuna a revisão do retrato estabelecido de alguns heróis nacionais. Não que o propósito fosse denegri-los, a intenção era mostrar como certas versões originadas de boatos ou pura ficção acabaram se tornando verdade de tão repetidas, ou por serem sedutoras. Todos conhecem o artista Aleijadinho, que sofria de grave enfermidade que lhe fez cair os dedos das mãos, e executava suas obras com as ferramentas amarradas ao que sobrou de seus membros. O que muitos não sabem é que quase todas as informações que se tem sobre ele provem de um livreto escrito décadas após sua morte, e as fontes do autor são desconhecidas.

As escassas provas materiais da existência de Aleijadinho, além das obras atribuídas a ele, são recibos assinados pelo artista, o que prova que ele tinha dedos nas mãos que lhe permitiam, ao menos, segurar uma pena. A lenda de que ele trabalhava com as ferramentas atadas às mãos doentes sempre me despertou certa desconfiança. Ainda que fosse possível atar as ferramentas ao que lhe sobrara das mãos, ele por certo não suportaria a dor de manusea-las. Convém lembrar, as madeiras nobres utilizadas em estatutária são bastante duras, e entalhá-las é tarefa desgastante até para quem é sadio. A realidade deve ter sido menos fantástica. Lembrou o autor dos guias, a arte barroca é um trabalho essencialmente coletivo, e lembro eu, o artista apelidado de aleijadinho era bem conceituado, e é plausível supor que dispunha de um ateliê com bom número de auxiliares, e ao final da vida, já doente, ele se limitasse a supervisionar os trabalhos.

Parabenizo o autor pela coragem de mexer com um dos heróis mais unânimes de nossa história, o inventor Santos Dumont. Mais uma vez, o propósito não era denegri-lo, apenas chamar a atenção para um mal entendido que vem desde o início do século passado: não foi ele o inventor do avião. Os irmãos Wright voaram primeiro.

A polêmica é antiga, mas desde algum tempo eu já havia dado ganho de causa os americanos. Não vou entrar aqui no mérito de questões técnicas do voo, como o uso ou não de uma catapulta para fazer decolar. Chamo a atenção para um aspecto mais óbvio: foi a configuração da aeronave dos irmãos Wright que prevaleceu. E essa configuração era totalmente diferente daquela do 14-bis.
Quase todo mundo (eu inclusive) quando vê uma foto do 14-bis imagina-o voando com a hélice na frente e o leme atrás. Mas era o contrário. A hélice ficava atrás, junto com o piloto e as asas, e o leme (ou profundor) ficava na frente. Essa configuração, batizada de canard (pato, em francês) é totalmente estranha nos dias atuais, e por um bom motivo: nunca foi encontrada uma solução de estabilidade para ela. Quando tentava fazer curvas, o 14-bis facilmente perdia a sustentação, e acabou destruído em um acidente. Santos Dumont construiu outra aeronave, batizada número 15, com uma configuração semelhante à do 14-bis, que acabou destruída em um acidente também muito semelhante. Desde então a configuração canard nunca mais foi usada por nenhum construtor de aviões, nem mesmo pelo próprio Santos Dumont. Já a aeronave dos irmãos Wright lembra em tudo um avião atual: motores montados sobre as asas, piloto na frente, leme e profundor atrás. Todos os aviões atuais utilizam esta configuração.

Fora do Brasil, Santos Dumont nunca foi considerado o inventor do avião. Na realidade, ele levava mais fé em balões dirigíveis, no que aliás não estava de todo errado, pois até o acidente com o Hindenburg, os dirigíveis foram os mais utilizados em viagens transoceânicas. Isso fica implícito até no nome que deu a seu invento, 14-bis, denotando que no projeto original a aeronave seria apenas um complemento a seu balão número 14. Só depois de muita insistência de amigos ele decidiu dar meios a sua aeronave para decolar por conta própria. A pessoa de Santos Dumont é fascinante e paradoxalmente pouca conhecida de brasileiros. Eu recomendo a leitura de Asas da Loucura, escrita por um americano. O inventor foi, acima de tudo, um excêntrico. Não almejava ganhar dinheiro, mas trabalhava apenas por prazer, e conforme sua inspiração, podia tanto fazer inventos úteis quanto bizarrices estilo Professor Pardal. Foi um grande homem, mas não foi o inventor do avião.

Também nesse quesito de figura histórica construída por obras literárias ao invés de fatos, eu poderia citar Dona Beja, que todos conhecem, mas poucos sabem que a história que é contada em novelas baseia-se em um romance escrito muito depois de sua morte. A personagem existiu, mas quase tudo que se diz sobre ela é lendário. O mesmo acontece com Xica da Silva. O caso é que há heróis que surgem para satisfazer uma demanda do público, e personagens históricos são escalados para este papel. Os guias citam também Lampião, até hoje herói popular, mas que na realidade foi um bandido cruel, amigo de vários coronéis do sertão e que não tinha nenhum apreço pelo zé-povinho.

Os guias são tendenciosos e possuem falhas, mas a discussão suscitada por eles é sempre bem vinda.

domingo, 19 de novembro de 2017

Multiculturalismo: o Brasil e a Catalunha

Causou curiosidade e certa perplexidade por aqui a notícia da declaração da independência da Catalunha. Não que tenhamos, é óbvio, alguma coisa a ver com o ocorrido, que de resto não teve efeitos práticos, mas foi muito significativo no contexto presente de rejeição ao globalismo, sendo eventos recentes o Brexit e a eleição de Trump. Faz pensar. No senso comum sul-americano, a Europa é um continente de estados-nação estabelecidos e estáveis, onde termos como Catalunha, Galícia, Beira, Gales, Silésia, Tirol, Valônia possuem apenas um significado geográfico e histórico, e causa surpresa saber que algumas dessas regiões se veem como países independentes. Isso parece contraditório: movimentos separatistas seriam mais plausíveis em países como o nosso, muito mais recentes e instáveis, com muito maior diversidade regional, e menos densidade populacional com regiões isoladas. Por que não é assim?

É uma oportunidade de rever a História. Globalismo e multiculturalismo são daqueles conceitos que de tão usados na época atual, acabaram banalizados: todos os repetem, mas poucos sabem defini-los. Diz-se que o Brasil é um país multicultural, e fundamenta-se essa assertiva em nossa diversidade étnica e cultural. Mas é preciso discernir até onde vai de fato essa nossa suposta diversidade.

A primeira coisa que precisa ser dita é que a nossa diversidade étnica é, no atacado, uma diversidade racial. Não é a mesma coisa. Uma etnia significa um povo que tem identidade própria, língua e história próprias. Computam-se no Brasil cerca de 400 línguas diferentes faladas por grupos nativos isolados, mas o número total de nativos brasileiros não chega a 1% da população total do país. O restante exibe apenas a nossa conhecida diversidade racial, com pouca diferença cultural, exceto algumas idiossincrasias de região para região. É significativo que apesar de todo o isolamento regional e do analfabetismo que cem anos atrás chegava a 80% da população, o português brasileiro não se fracionou em dialetos mutuamente ininteligíveis.

Bem diferente é o quadro na Europa, onde regiões relativamente pequenas e com alta densidade populacional exibem conjuntos de grupos étnicos antigos, que preservam sua língua ancestral, embora todos falem a língua oficial do país, e são muito ciosos de sua identidade. Isso acontece porque esses povos, séculos atrás, eram de fato independentes. Diferente da evolução histórica do Brasil, onde nossa diversidade étnica foi lançada em um caldeirão de mistura, que sempre girando não permitiu  a fixação de grupos muito distintos. Para começar, os povoadores aqui estabelecidos raramente dispuseram de alguma autonomia política que os permitisse preservar língua e práticas ancestrais, e em muitas ocasiões, foram abertamente proibidos de fazê-lo. Nosso multiculturalismo é basicamente uma mistura muito indistinta, onde se percebe aqui e ali vestígios do passado.

O que não impede que muitos usem a retórica para amplificar nossa diversidade, muitas vezes com propósitos inconfessáveis ligados ao globalismo. O exemplo mais marcante é a exigência de que os brasileiros de pele escura se identifiquem como "afro-brasileiros", como se tivessem alguma ligação menos que remota com a África de origem. Mas há exemplos mais maliciosos, como a construção ideológica de "nações indígenas" que supostamente deveriam ter autonomia, tal como tem a Catalunha e o País Basco na Espanha. Já foi amplamente denunciado que essas nações são, na verdade, constituídas de reminiscências de várias tribos sem relação entre si, e obviamente incapazes de autogoverno, ficariam sob a tutela internacional, como querem os globalistas. Há também exemplos mais caseiros, como os que veem as favelas das grandes cidades como enclaves étnicos tal como existem na Europa, e clamam que as comunidades ali residentes teriam uma cultura própria que deveria ser respeitada. É nesse contexto que o baile funk é considerado "resistência cultural" do povo da periferia, esquecido de que se trata de uma importação dos guetos norte-americanos, sem raízes em nossa cultura popular.

A separação da Catalunha (ou da Escócia, da Valônia ou do que seja) é fenômeno restrito à Europa. Por aqui, movimentos separatistas, como os que querem um sul independente ou uma amazônia pertencente aos povos indígenas têm um aspecto caricato. Felizmente.

domingo, 12 de novembro de 2017

Brasil x Argentina: eu sou você amanhã?

Chamamos aos argentinos de "los hermanos" com um pingo de ironia. O paralelismo entre os acontecimentos no Brasil e na Argentina é um fenômeno histórico curioso, e por vezes embaraçoso. Certos ciclos por que um país atravessa parecem se repetir no outro, como se fosse uma imitação. Foi assim com o peronismo, que aqui se chamou getulismo. Mais tarde o casal Nestor e Cristina Kirshner seria mimetizado pelo "casal" Lula e Dilma, e quando tanto os primeiros quanto os segundos saíram do governo, pode-se afirmar que Michel Temer é o nosso Macri. Essa última comparação torna-se instigante agora que parece que Macri está obtendo uma recuperação econômica consistente e obtendo apoio popular para seu projeto, em substituição ao nacional-populismo, então Temer devia fazer o mesmo aqui.

Mas até onde são procedentes esses paralelos?

Não gostamos de ser considerados imitadores dos argentinos, que não sem motivo nos chamam de macaquitos. A rivalidade entre brasileiros e argentinos é evidente, mas também folclórica, pois é uma rivalidade pueril, muito canalizada para as disputas futebolísticas. É outra coisa quando a rivalidade surge em decorrência de um passado de guerras e confrontos. Sabemos que, no fundo, não somos muito diferentes um do outro. Mas até onde vai essa semelhança, afinal?

A comparação entre Perón e Vargas, eu considero uma simplificação grosseira. Há um paralelismo óbvio quanto ao contexto histórico, político e econômico em que ambos surgiram: fim do domínio das oligarquias rurais, urbanização, transição de uma economia agrária para industrial, centralismo e dirigismo, influências do fascismo europeu e do comunismo. Mas quanto ao estilo pessoal, não há muito em comum além de ambos terem sido autoritários. Perón foi um populista assumido que se apoiava em uma rede de sindicatos atrelados ao governo. Vargas foi acusado de ser um populista e de querer montar uma "república sindicalista" nos moldes peronistas. Décadas depois, a comparação parece estar mais calcada naquilo que Vargas foi acusado de ser, do que naquilo que ele efetivamente foi.

Na economia, também há paralelismo. Nos anos oitenta, o plano austral lá e o plano cruzado aqui, ambos fracassados e terminados em hiperinflação. Depois o Plano Cavallo lá e o Plano Real aqui, bem sucedidos inicialmente. Depois a comparação diverge. O Plano Cavallo terminou em crise, e a inflação voltou sob os Kirshner, ao passo que aqui o Plano Real, bem ou mal, sobreviveu e foi mantido pelo governo que sucedeu seu criador (ou pelo menos, esse governo não conseguiu se livrar dele).

A volta do nacional-populismo no início do século 21 também se enquadra em um contexto político e econômico similar por que ambos os países passaram: o esgotamento do ciclo dito neoliberal, que acabou com a inflação; o saudosismo do estado grande, o boom das commodities que permitiu medidas de alcance social. Mas há uma diferença importante: na Argentina, a herança do peronismo foi encampada por um partido político sólido e unido, enquanto que aqui os partidos trabalhistas se fragmentaram e vários se proclamam herdeiros do varguismo. Os Kirshner, na Argentina, adotaram medidas discricionárias que o PT nunca teve força para adotar aqui. Por outro lado, a queda do kirshnerismo se deu por uma eleição regular, enquanto aqui a queda do petismo se deu por impedimento da presidente.

Mas voltando à pergunta feita de início, Temer vai repetir o sucesso que Macri está tendo no momento atual, fazendo seu sucessor dentro de um projeto consistente e oposto ao nacional-estatismo? Primeiro de tudo é preciso lembrar que Temer é um herdeiro do governo anterior, do qual foi vice-presidente. Nunca foi eleito, nem tem uma base parlamentar sólida. As ideias estão no ar, mas falta um líder que as concatene. Se teremos um Macri brasileiro, este só vai surgir na eleição de 2018. Ou então teremos que escolher entre Lula e Bolsonaro.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Nova Luz Sobre o Brasil Pré-cabralino

Terminei de ler o livro 1499 O Brasil Antes de Cabral, de Reinaldo José Lopes. Em estilo jornalístico, leitura leve e até divertida, própria para o grande público, a obra dá conta de recentes descobertas que vem mostrar que os nativos brasileiros não eram tão primitivos nem tão parados no tempo quanto se estabeleceu no senso comum e foi endossado por professores nas escolas - ao contrário, nossos índios moravam em aldeias do tamanho de cidades, cercadas de muros e interligadas por estradas, praticavam uma agricultura evoluída e tinham redes de comércio. O livro deixa muitas revelações e algumas indagações.

A ideia de índios "diferentes", na verdade, não é tão estranha assim do público. Todos conhecem o nome do rio Amazonas, tirado da lendária tribo de mulheres guerreiras da antiguidade clássica, e segundo consta, chamado assim porque um explorador espanhol narrou haver sofrido ataque de mulheres guerreiras na região. O nome pegou, mas as tais mulheres nunca foram vistas novamente. Afirmou-se que o explorador teria tomado por mulheres homens com cabelos longos, comuns nas tribos da região. Mas outros exploradores menos imaginosos fizeram narrativas bem mais minuciosas, contudo igualmente inacreditáveis. Falaram de aldeias tão grandes que podiam ser avistadas por horas enquanto os barcos desciam o rio, ligadas por estradas largas e planas, paliçadas, roçados e muito mais.

Tal como as mulheres guerreiras, ninguém nunca mais viu tal coisa, e essas narrativas passaram ao terreno das lendas, até que recentes descobertas arqueológicas apontaram vestígios das tais aldeias gigantes e seus planos urbanísticos. Muito antes o povo da região já se referia à "terra preta dos índios", herança de antigos roçados sustentados por fertilizantes naturais. Também eram conhecidos certos "pomares naturais" na floresta, com grande concentração de uma única espécie de árvore, que dificilmente poderiam ter surgido por obra do acaso.

De fato, a pré-história brasileira é muito pouco conhecida e certos conceitos estabelecidos já sofreram reviravolta no passado, a começar pelo própria antiguidade do povoamento da América. O autor contou a história de Luzia, nome dado a um crânio feminino de características africanas e melanésias encontrado em Minas Gerais, e posteriormente datado de 15 mil anos. As características do crânio deram origem a especulações de que os primeiros habitantes dessas terras não teriam sido siberianos que atravessaram o estreito de Behring como sempre se supôs, mas habitantes do Pacífico sul que teriam de alguma forma cruzado os mares. A discussão continua aberta, mas a mim parece que a explicação é mais simples: todas as raças humanas se originaram da África, há cerca de cinquenta mil anos, e só lentamente adquiriram as características atuais à medida em que as populações migravam e se adaptavam ao clima das regiões onde se estabeleciam. Então, é possível que os siberianos de 15 mil anos atrás não fossem muito diferentes dos atuais africanos.

As revelações do autor tocam certos pontos sensíveis de nosso sentimento identitário. Ao longo de nossa história, a herança indígena tem sido alternadamente desprezada e exaltada. Há um sentimento de inferioridade em relação ao colono europeu, e mesmo às outras etnias nativas da América, bem mais evoluídas. Outros, porém, têm usado o índio brasileiro para moldar mitos fundadores que estabeleçam uma afinidade do brasileiro com sua terra ancestral, e nesse afã o índio é romantizado. Exemplos não faltam. Para uns, o índio é corajoso e varonil; para outros, é uma vítima patética, massacrado e exterminado pelo colonizador. Nesse ponto, e obra de Reinaldo Lopes é oportuna para mostrar que o índio verdadeiro não é uma coisa nem outra, mas assim como faz muitas revelações, também deixa algumas indagações.

A principal delas é: se os índios que habitavam o interior do país há apenas 500 anos atrás eram tão evoluídos, por que poucos séculos depois só restavam vestígios de suas enormes aldeias?
Sabe-se que muitas tribos do litoral foram dizimadas e expulsas pelo colonizador. Mas não há relatos de bandeirantes travando combates com exércitos de tribos populosas que habitavam verdadeiras cidades no interior de Goiás e Mato Grosso. Quando eles chegaram a essa região, os povos que encontraram habitavam pequenas aldeias e não eram mais evoluídos que os do litoral. Seja lá o que foi que aconteceu, foi antes deste momento. O autor não chega a dar uma explicação completa, e acaba levantando mais indagações. Começa por apontar uma dificuldade comum dos povos nativos da América: o conhecido Princípio de Ana Karênina, popularizado por Jared Diamond.

O princípio refere-se às dificuldades encontradas pelos domesticadores de animais e plantas, nos primórdios da Revolução Agrícola. Escreveu Tolstói em seu romance, todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz, é infeliz a seu modo. Fazendo uma analogia, Jared Diamond lembra que todas as espécies domesticáveis se parecem, posto que compartilham um conjunto mínimo de características em comum, mas cada espécie indomesticável apresenta uma não-conformidade distinta: o animal pode ter um temperamento indócil, não se reproduzir em cativeiro, ser difícil de alimentar, ser territorialista e não tolerar viver em confinamento. Nesse quesito, o desfavor do continente americano em comparação aos outros continentes é evidente. Aqui se domesticou a mandioca e o pato-bravo. A gravura de Debret que ilustra a capa do livro mostra o que parece ser um cachorro-vinagre, espécie da fauna brasileira, mas além disso muito pouco foi domesticado pelos nativos brasileiros. Mesmo na América andina, muito mais evoluída, poucas espécies foram domesticadas. Além do milho e da batata, de animais apenas a lhama, a alpaca e o porquinho-da-índia foram domesticados. Faltaram sobretudo grandes mamíferos, que além de fonte de alimento pudessem servir como animais de carga. Por aí não se admira que os maias, tão evoluídos, não conhecessem a roda (ou melhor, conheciam-na, mas só a utilizavam em brinquedos).

Por que tanto desfavor? O autor lembra que até Darwin, quando passou por aqui, espantou-se da pobreza do continente em termos de animais de grande porte, em comparação com a África equatorial, que tem um panorama físico semelhante. O naturalista, que na ocasião coletava fósseis, também admirou-se da variedade e do porte dos mamíferos que aqui viveram até o fim da última Era Glacial, com tatus do tamanho de um boi e preguiças do tamanho de um elefante.

Por que todos desapareceram? Houve extinção em massa também no norte, desapareceram mastodontes e rinocerontes da Europa, mas para a felicidade nossa sobraram os ancestrais dos atuais bois e cavalos. Aqui nem os cavalos sobraram, embora a espécie, ironicamente, tenha se originado da América. Não há ainda uma explicação, mas sabe-se que os primitivos habitantes do continente tiveram pouco papel nessa extinção, pois quando chegaram aqui há dez ou quinze mil anos atrás, a mega-fauna já estava quase toda extinta (diferente da Austrália, povoada desde 40 mil anos atrás, onde os nativos tiveram um papel importante ao exterminar a mega-fauna local).

O autor aventa outra hipótese para explicar a desaparição das grandes aldeias do Brasil central: o que chamou de um telefone-sem-fio das doenças transmissíveis. É bem conhecido o efeito das doenças trazidas pelo colonizador sobre os nativos que tiveram contato com eles, produzindo epidemias que dizimaram aldeias inteiras. Mas esse contágio pode ter acontecido também longe das vistas dos colonos, pois os índios possuíam estradas e rotas comerciais por onde circulavam os infectados. Então, quando os bandeirantes chegaram ao país central, já encontraram as grandes aldeias exterminadas. É uma hipótese, mas não se pode provar nem que sim nem que não. Mas o autor também citou evidências arqueológicas de que o povoamento da Ilha de Marajó (uma das áreas mais evoluídas da região amazônica, célebre por sua cerâmica) apresentou vários períodos de crescimento e declínio, e isso antes de 1500 e da chegada dos colonos e suas doenças infecciosas. Penso eu, é provável que as instabilidades e incertezas próprias do limiar da Revolução Agrícola tenham sido as responsáveis pelo declínio das aldeias que um dia foram cidades. Numerosos exemplos de cidades inteiras encontradas por arqueólogos engolidas pela selva são o testemunho de que povos que um dia foram evoluídos, regrediram a um estágio anterior quando alterações no ambiente inviabilizaram o sustento de tais civilizações urbanas.

O livro de Reinaldo Lopes é bem-vindo para substituir crenças equivocadas por evidência científica.