sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Laurentino Gomes e a Escravidão

Soube que Laurentino Gomes vai lançar mais um livro, na verdade uma trilogia. Desta vez o tema será o tráfico negreiro, e o escritor tem a pretensão de determinar, no histórico da escravidão, as marcas deixadas na sociedade brasileira até os dias de hoje.

"A escravidão e suas consequências ainda estão no DNA do Brasil"

Não é uma ideia nova. Joaquim Nabuco já afirmava, no final do século 19, que a escravidão ainda seria por longos anos a marca distintiva do Brasil. Não sei se o autor, que até agora distinguiu-se pelo tom leve e jornalístico em suas obras anteriores, terá sucesso nessa empreitada que exige o trabalho de um historiógrafo de raiz. Meu receio é que caia no mesmismo de outra vertente de ensaios, esta da lavra de autores mais casuais, que aponta na sociedade brasileira uma alegoria da escravidão. Esse artigo é um bom exemplo.

Os argumentos são repetitivos. O membro da classe dominante brasileira é apresentado como uma caricatura de senhor de escravo, supostamente mantendo até hoje uma mentalidade escravocrata, o que explicaria ao alto índice de desigualdade social no Brasil e a falta de empreendorismo de nossa elite empresarial. Mas como toda estereotipação caricatural, é fácil de reconhecer mas difícil de identificar. Até onde essa imagem corresponde à realidade?

O membro da "classe dominante" citada, presumivelmente é o grande capitalista. Mas enumerando os nomes de grandes empresários brasileiros da atualidade, há muitos descendentes de senhores de escravos?

Não, não há. A classe patronal brasileira é formada, em sua maioria, por descendentes de imigrantes europeus, árabes e orientais chegados aqui nos estertores finais da escravidão ou logo após a abolição. É óbvio que o sucesso que esses pioneiros tiveram estava relacionado às transformações econômicas que sucederam o fim da escravidão, sem o qual não teriam sequer mão-de-obra para suas fábricas. Esses personagens são, de fato, o oposto do senhor de escravos, atores de um cenário sócio-econômico incompatível com a escravidão.

O desfavorecimento dos descendentes de escravos em nosso quadro social é autoevidente. Mas passados mais de cem anos da abolição, até que ponto esse desfavor ainda pode ser atribuído ao passado escravocrata?

Observando nossos vizinhos que tiveram muito menos escravidão e a aboliram muito antes de nós, vê-se que o quadro social ali não é muito diferente. As diferenças sociais são marcantes e os descendentes de europeus estão em uma posição muito superior. Mas se isso não é consequência da escravidão, será consequência do racismo inerente à mesma?

Até certo ponto, sim. O racismo existe e é perceptível em várias situações da vida social e profissional dos indivíduos, aqui e em nossos vizinhos. Mas um equívoco que tenho observado muito persistente é atribuir ao racismo a diferença social entre brancos e pretos. Em um processo de seleção para um cargo bem pago, é possível que um candidato negro seja preterido em favor de um branco. Mas na maioria dos processos de seleção para cargos bem pagos, só há candidatos brancos. Os negros não chegam lá porque em geral não puderam frequentar boas escolas. Mas um branco pobre teria a mesma dificuldade.

É também frequentemente apontada a predominância de jovens negros entre as vítimas de homicídio e a população carcerária. Mas em geral os assassinos de negros também são negros, e assim como a maioria das vítimas de marginais negros. Penso que esse discurso é um esforço dar um viés racial à luta de classes marxista. Tem fundamento? Eu nunca vi jovens favelados saírem pelas ruas a agredir brancos. O envolvimento de negros com a marginalidade está obviamente relacionado ao passado escravocrata, que fez a população negra predominante nas áreas de alta criminalidade. Entretanto não é o racismo o motor dessa criminalidade, mas principalmente o tráfico de drogas.

Acredito que a falta de capilaridade social consequente da pouca eficiência de nossa economia é a verdadeira causa da alta diferença social entre brancos e negros. Uma explicação puramente econômica, que pode ocorrer em vários lugares independente de haver ou não uma grande herança da escravidão. E penso, também, que se nossos empresários são pouco empreendedores, tal não se deve à mentalidade escravagista, mas ao vício de depender do estado para fomentos, subsídios e protecionismo - este sim um traço cultural que pode ser rastreado na História, mas cuja origem não é a escravidão, mas o sistema econômico conhecido como mercantilismo, que vigorou no país até a abertura dos portos em 1808. Muitos empresários brasileiros ainda estão esperando um alvará régio que lhes conceda o monopólio em uma determinada área para atuarem, tal como acontecia nos tempos de colônias.

Falta de capitalismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A História se repete: queimadas na Amazônia

Várias vezes tenho dito aqui: o motivo mais importante de se saber o passado é obter embasamento para entender o presente. Ou seja, perceber que as notícias que parecem novidades bombásticas aos desatentos, na verdade são dejà vu. O conhecimento da História dá uma percepção de profundidade aos fatos observados, tal como naqueles antigos desenhos de silhuetas que às vezes apareciam nas páginas de recreação das revistas. A figura sombreada em duas dimensões parecia uma feiticeira mexendo um caldeirão, mas acrescida a luz e recuperada a perspectiva em profundidade, via-se que o desenho mostrava uma mulher varrendo debaixo de uma mesinha sobre um tapete redondo, e o chapéu da bruxa na verdade era um pote sobre uma prateleira em segundo plano.

A bola da vez são as queimadas na Amazônia. A percepção imediata é que se trata de uma medonha catástrofe, mas quem tem memória deve se lembrar que o mesmo alarmismo já foi repetido 10, 20, 30 anos atrás. Eu particularmente me lembro de meus tempos de escola, e lá se vão 40 anos, quando se afirmava que o Brasil desflorestava uma Bélgica por ano, ou uma Suíça, ou uma França, ou outro país qualquer. Então como explicar que hoje em dia a floresta ainda continue de pé?

Pesquisando e comparando cuidadosamente notícias ao longo desses anos, pude tirar algumas conclusões. O principal motivo do equívoco é a definição mesma do que é, e do que não é a Amazônia. O Brasil tem vários biomas, e a floresta amazônica propriamente dita se inicia ao norte de Mato Grosso e oeste de Goiás - ou ao menos tem sido assim nos últimos milhares de anos - fazendo fronteira com o cerrado e o pantanal. Verificando as fotos dos satélites que detectam as queimadas, vê-se que a maioria delas encontra-se na região limítrofe, principalmente ao norte de Mato Grosso e sul do Pará.



Ou seja, parte das queimadas, na verdade, não estão ocorrendo na região da floresta. Sem contar que podem estar sendo registradas queimadas em áreas que já foram desflorestadas muito tempo atrás, pois é sabido que é preciso repetir a queimada de tanto em tanto para se limpar o terreno. Mas não é assim que as notícias têm sido vinculadas, sobretudo no exterior, mesmo porque no imaginário dos estrangeiros a floresta ocupa o Brasil inteiro. Essa impressão ficou bem flagrante naquele conhecido episódio dos Simpsons, onde Homer é sequestrado, só que ao invés de ser levado a uma favela, seu cativeiro é na floresta amazônica supostamente localizada logo atrás do Rio de Janeiro.

O mesmo equívoco explica a notícia de que São Paulo teria tido um dia convertido em noite em razão da fumaça das queimada na Amazônia. A foto do satélite mostra o que realmente ocorreu:




Nota-se que a nuvem se move horizontalmente, vindo desde a Bolívia. A fumaça que enegreceu o céu de São Paulo presumivelmente originou-se de queimadas no Mato Grosso do Sul, Paraguai e na própria Bolívia. Sobre a mancha verde da Amazônia, não há nuvem. E basta observar o tamanho desta mancha verde para constatar que perto de 90% da floresta original ainda permanece onde sempre esteve.

Ou seja, as queimadas existem há muito tempo, mas estão longe de configurar a catástrofe que se quer mostrar. Elas não podem ser contidas porque ocorrem em uma área imensa, mas justamente por ser imensa esta área, é difícil de acreditar que a floresta terminará destruída nestes tempos de preocupações ambientalistas, sendo que em 500 anos sem preocupações ambientalistas não conseguimos destruir mais de 10% dela. O problema é que o ambientalismo se tornou uma doutrina, com suas crenças e dogmas. Posso citar aqui algumas.

O primeiro mito é a crença de que a Amazônia seria o pulmão do mundo, responsável pelo oxigênio do planeta. O verdadeiro pulmão do mundo são os oceanos, e a quantidade de oxigênio na atmosfera tem permanecido estável, A real importância da floresta está no clima.

Outro mito renitente é essa criatura gestada pelos ecologistas, o índio ecologicamente correto. Presume-se que o índio é um ser telúrico, que vive em harmonia com a natureza, portanto garantir a integridade dos territórios indígenas é garantir a integridade da floresta. Duplamente falso. O interesse dos índios em manter seus territórios é garantir para a tribo a exclusividade na exploração dos recursos ali contidos, no que, aliás, estão inteiramente certos, pois se não defenderem seus interesses, ninguém mais o fará. Os ambientalistas românticos dizem que se trata de índios corrompidos que aderiram à civilização predatória, e abandonaram seu modo de vida original. Mas tampouco seu modo de vida original jamais foi ecologicamente correto, pois sempre necessitaram caçar, pescar e derrubar árvores para construir suas malocas. É praticado até hoje na floresta um tipo de pesca que consiste em dissolver na água um veneno vegetal, que mata bem mais espécies de peixe do que aquelas aproveitadas na alimentação E é sabido que os tupis que ocupavam o litoral na época do descobrimento desde muito praticavam uma agricultura primitiva com queimadas. Sim, as queimadas são mais antigas do que se supõe. Índios nunca tiveram consciência ecológica, mas apenas consciência do que precisavam fazer para sobreviver.

Já que não podemos parar com as queimadas, devíamos ao menos entender o fenômeno dentro dos parâmetros em que efetivamente se encontra.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entre o militarismo e o parlamentarismo

Após oito meses de governo, a impressão mais marcante até agora do presidente Jair Bolsonaro é de alguém pequeno cercado de personagens maiores do que ele. E esses personagens são, em sua maioria, militares.

O que isso significa? Estamos entrando em uma nova fase de militarismo no país? É nesses momentos de dúvida que se torna oportuno conhecer a História, a fim de buscar e estabelecer paralelos com etapas do passado que parecem análogas ao presente, cabendo analisa-las e discernir o que é cíclico do que é mero dejâ vu. Os militares têm se acercado do poder desde a proclamação da república, mas sempre como uma opção revolucionária. Os presidentes militares que chegaram ao poder por eleições, dentro das regras estabelecidas, foram apenas dois e mostraram-se figuras apagadas. De resto, o último período de militarismo no país, para além da retórica anti-esquerdista, mostra pouca semelhança com o atual. Em 1964 havia uma grande expectativa de que os militares iam "consertar o país", varrendo a corrupção e a subversão. O movimento que depôs Goulart foi por muitos considerado, de fato, uma revolução, cabendo prolongar-se e deixar mudanças perenes. Sob esta óptica, os militares da época viam sua chegada ao poder não apenas como uma missão de combater a subversão, mas também a oportunidade de implementar um projeto desenvolvimentista. Ironicamente, essa propensão tornava-os mais afins do PT do que do governo atual de Bolsonaro, o qual se opõe formalmente ao desenvolvimentismo nacional-estatista e propõe o encolhimento do estado.

Na prática, o desenvolvimentismo dos militares de 1964 não era diferente do modelo anterior, oscilando entre uma vertente "nacionalista" (Vargas, Geisel) e uma vertente "entreguista" (Castelo Branco, Kubitschek). Fez sucesso nos anos 70, mas esboroou-se na década seguinte. O fracasso econômico final minou o prestígio dos militares como governantes superiores aos civis, e eles eclipsaram-se nas décadas seguintes, só voltando ao protagonismo com a última eleição. Assim encerrou-se um ciclo. Mas voltando ao início do ciclo, lá nos primórdios de século anterior, é preciso identificar qual fator elevou o prestígio dos militares e apontou-os como solução política. Esse fator foi a crença de que, em razão de não estarem vinculados a partidos e sim ao país, os militares estariam investidos de um papel de Poder Moderador, cabendo-lhes intervir nos momentos em que os poderes constituídos entrassem em conflito. Enquanto os militares exercessem essa função, o país estaria livre de impasses sangrentos e guerras civis.

A menção a um Poder Moderador reporta a outra figura histórica, o imperador Pedro II, que esteve formalmente investido deste poder tal como foi definido na constituição de 1824. Não há nenhuma semelhança entre a pessoa do ex-imperador e o atual presidente, exceto um detalhe circunstancial: Pedro II também esteve cercado, a maior parte da vida, por figuras politicamente mais influentes do que ele próprio. Assumiu o trono aos quinze anos, e por certo que meninos de quinze anos não são colocados no poder para mandar, mas para serem mandados. Em tese, seus poderes eram amplos - a constituição de 1824 não instituía um regime parlamentarista, posto que não havia nenhuma obrigatoriedade do imperador nomear um ministério obedecendo à maioria da câmara, tanto que convencionou-se chamar o regime monárquico brasileiro de parlamentarismo às avessas: primeiro o imperador indicava o presidente do Conselho de Ministros, e este indicava os nomes que o legislativo devia aprovar. Na prática, porém, o imperador tendia a referendar a corrente majoritária no momento, de modo que o regime gradualmente tornou-se parlamentarista de facto. A facilidade com que o idoso monarca foi descartado ao final de seu governo mostra bem como ele já era, então, uma figura já de todo esvaziada de poderes. Coube aos militares dar o empurrão final.

Podemos ver, então, estabelecida uma regra histórica: sempre que o chefe de estado se torna menor do que aqueles que o cercam, o país tende a se encaminhar, ou para o parlamentarismo, ou para o militarismo. A alternativa é o chefe de estado exercer uma espécie de poder moderador, do contrário se revelará descartável. O que fará Bolsonaro? Irá se eclipsar voluntariamente, e deixar o governo ser conduzido pelos que o cercam? Terá a sabedoria de moderar as correntes a sua volta que disputam o poder? Acabará simplesmente descartado, e será substituído pelo vice? Ou assumirá por fim as rédeas do governo com autoridade?

Aí já não temos que olhar para o passado, mas para o futuro.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Virada para a Religião

É um fenômeno palpável: o povo brasileiro está cada vez mais se voltando para a religião. A bancada evangélica cresce em número e em influência. Eu próprio, no dia-a-dia das redes sociais, noto cada vez mais mensagens de cunho religioso, que me deixam pensando: sempre foi assim, e eu nunca reparei? Quando foi que isso tudo começou?

Ainda sem ter uma resposta satisfatória a essas perguntas, topei com uma questão instigante. O surgimento do protestantismo no século 16, coincidindo com o fim da Idade Média e o surgimento do capitalismo mercantil, marcou também o início do ciclo de prosperidade dos países da Europa Central, que deixaram para trás os países católicos do sul. É bem conhecida a tese de Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, que explica essa diferença econômica como produto de determinados princípios da religião protestante que favoreceram o desenvolvimento do capitalismo que se iniciava então. Desde então o senso comum tem associado, com justiça ou não, o protestantismo à riqueza e o catolicismo à pobreza. Particularmente, nós no Brasil somos pobres porque devemos a nossa formação a um colonizador católico e obscurantista. Ponto. E eis que nesse início de século 21, uma tardia reforma protestante parece iniciar-se entre nós...

Ironias à parte, deve-se examinar até que ponto há uma correspondência entre o fenômeno atual e o fenômeno do século 16. Religioso, o povo brasileiro sempre foi, mas majoritariamente católico. A diferença agora é a corrida para as igrejas neo-pentecostais, a todo dia sendo abertas por um pastor qualquer nas periferias. Essas igrejas prometem a prosperidade a seus seguidores, daí sua pregação haver sido rotulada de "teologia da prosperidade". Será que vamos ficar mais ricos por causa disto? Dada a cupidez de certos pastores, alguns fiéis estão ficando é mais pobres. Mas ao menos filosoficamente, essas igrejas exaltam a prosperidade, vista como prêmio ao bom fiel. Essa postura contrasta com a devoção católica à pobreza e ao conformismo. No século 16, o catolicismo condenava a cobrança de juros, considerada usura, que era permitido pelo protestantismo. Fica para trás, também, a "opção preferencial pelos pobres" da Teologia da Libertação que fez sucesso no tempo da ditadura. Os pentecostais defendem ostensivamente o capitalismo.

Comparando os dogmas lançados pelo luteranismo e pelo calvinismo no século 16, com os dogmas católicos até hoje vigentes, vejo uma discussão de todo inserida no âmbito da teologia. Não vale a pena reproduzi-la aqui, pois não tem interesse fora da religião. O que se pode afirmar, com certeza, é que os reformadores protestantes não tinham em mente a prosperidade material, e se esta ocorria para seus fiéis, seria se tanto um subproduto dos costumes e valores que praticavam. Até onde haveria uma relação entre esta ética protestante diluída nas populações e o progresso verificado nos países protestantes? Há muito o que se discutir, mas de minha parte, tenho dúvidas de que o mesmo possa ocorrer no Brasil do século 21 que adere ao protestantismo dos pastores das periferias. O progresso dos países protestantes a partir do século 16 é para ser explicado considerando o contexto específico da época, quando o capitalismo, então no nascedouro, era endossado pelas crenças dos protestantes e visto com reservas pelos católicos, ainda ligados ao imobilismo social característico do feudalismo. Mas no século 21, o Brasil é um passageiro retardatário do trem do capitalismo.

Outro aspecto polêmico desta virada para a religião que se verifica no Brasil atual, é o ostensivo envolvimento dos pastores com a política. A bancada evangélica no congresso, inicialmente referida como anedota, agora é uma poderosa realidade, e os pastores já se imiscuem também no executivo. O país, então, vai e transformar em uma teocracia, e seremos governados por pastores que ditarão ao povo suas crenças obscurantistas e desviarão o dinheiro dos impostos para suas igrejas?

O senso comum diz que sempre que a religião se mistura à política, esta se corrompe. Os líderes religiosos tornam-se tirânicos e materialistas, o terreno sucede ao espiritual. É um temor que vem de eras pregressas, quando a religião não se reduzia a crenças íntimas, noção que hoje temos do religioso, mas era todo um sistema de ideias destinado a moldar vários aspectos da vida privada, social, legal e política dos fiéis. É evidente que não se pode obrigar milhões de pessoas a viver de uma determinada maneira se não forem usados poderosos instrumentos de coerção. A igreja católica, particularmente, está manchada pelo passado do tribunal da inquisição, embora esta possa ser perfeitamente compreendida no contexto de sua época.

Isto pode repetir-se na época atual? O senso comum repele tal hipótese como bizarra, mas um temor fica. É preciso convir, contudo, que se no passado as pessoas permitiam que a religião controlasse diversos aspectos de suas vidas, era porque a religião dava resposta a demandas que igualmente surgiam de vários aspectos de suas vidas: além de não haver quem lhes desse conforto espiritual, tampouco havia quem lhes proporcionasse justiça, estabilidade, amparo, normas de conduta, explicação para o que não entendiam. Hoje essas demandas são bem ou mal satisfeitas por associações e instituições surgidas na sociedade civil, a ciência fornece respostas a quase todas as perguntas, e a religião está confinada ao terreno do misticismo e das crenças íntimas. Mas se o povo elege tantos pastores, é um sinal de que ainda busca um "algo mais" para satisfazer demandas que não estão sendo satisfeitas devidamente pela sociedade civil.

Não sei até onde nos levará essa virada para a religião, mas vejo-a como um necessário momento de reflexão diante de uma crise que não é apenas política e econômica, mas também moral. É como voltar às origens e perguntar: onde foi que erramos?

sábado, 29 de junho de 2019

Positivismo e Espiritismo, tudo a ver

A revista Leituras da História surgiu no último número com um artigo que me surpreendeu, por eu julgar que juntava fatos que não tinham correlação entre si: Ideais Republicanos de Kardec.

Acredito que a maioria das pessoas não terá dificuldade em identificar Alan Kardec, o fundador do Espiritismo, doutrina religiosa de larga difusão entre os brasileiros. Mas pergunte a um francês quem foi Kardec. Provavelmente ele não saberá. O mesmo ocorreu com Auguste Comte, filósofo criador do Positivismo, doutrina que igualmente tinha pretensões religiosas, de grande influência no Brasil ao final do século 19, mas de pouco sucesso na França onde Comte nasceu. O pouco comentado Jean-Christophe Rufin, de O Império e os Novos Bárbaros, já comentava o fenômeno de ideias já esquecidas na Europa onde nasceram terem um reavivamento extemporâneo em países do Terceiro Mundo, por vezes assumindo uma forma bem diferente de sua versão original.

O referido artigo mostra como Espiritismo e Positivismo floresceram lado a lado na segunda metade do século 19, ambos brandindo um discurso pró-república, pretensamente esclarecido e oposto ao obscurantismo monárquico e católico, sem cair no revolucionarismo socialista que vicejava no mesmo período. Não espanta que fosse assim, pois tanto um quanto outro eram praticados pela mesma classe de intelectuais imbuídos do cientificismo característico da época. Havia a crença de que o progresso apagaria as nódoas da ignorância, do fanatismo e da superstição, e elevaria o padrão de vida de todas as classes sociais.

Esta crença era generalizada em todo o mundo ocidental, mas no Brasil tornou-se particularmente aguda, posto que aqui as diferenças sociais eram enormes, os intelectuais percebiam o chocante contraste entre seu pensamento esclarecido e as massas ignaras, a culpava-se a doutrina católica pela manutenção do povo no obscurantismo. Foi nesse contexto que tanto o Positivismo quanto o Espiritismo encontraram solo fértil, e irmanaram-se na luta em prol de uma república, que pensava-se, viria tirar o país do atraso.

Mais de um século depois, podemos ver o quanto a história do país foi marcada pela adesão a estas doutrinas. Ficou particularmente marcada a dicotomia Superior X Inferior, enfatizada pelo espiritismo, que narrava uma evolução de espíritos rumo a um plano superior, bem como pelo positivismo, que pregava o governo de homens superiores na forma de uma "ditadura científica". Este homem superior, esclarecido, detentor de conhecimento, seria necessariamente também um homem solidário, praticante da caridade e tendo em vista o bem comum. A massa ignara seria apenas um objeto passivo que deveria ser moldado conforme a evolução a ser conduzida pelos homens superiores. Mesmo que com outras palavras, essas ideias penetraram fundo na mentalidade dos brasileiros por todo o século 20, e só no presente século deram sinal de esgotamento.

O que dizer do presente governo? Seria um herdeiro dessa tradição cientificista-autoritária, ou um restaurador do obscurantismo que essa tradição quis sepultar ainda no século 19? Difícil dizer, e quero crer que não seja nem um nem outro, mas que possa abrir caminho para uma nova leitura da realidade nacional, a ser feita pelos que vierem depois. Que nunca mais tenhamos que catar na lata de lixo velhas ideias para reciclar,

sábado, 25 de maio de 2019

Porque a Economia Brasileira não tem um Crescimento Sustentado em longo prazo

Esta é uma pergunta que tem sido muito feita ultimamente, enquanto estamos nesse impasse de ausência de crescimento e espera por reformas. Como tudo o que se refere à economia, tem muitas respostas e dá para discutir longamente. Mas vou seguir a pista da comparação com aqueles que eram pobres como nós e conseguiram o crescimento sustentado que almejamos: os novos países industrializados da Ásia.

Respondo sem titubear: basicamente, a causa da ausência de um crescimento sustentado é a baixa taxa de poupança interna. Esse tem sido o diferencial entre o Brasil e os países da Ásia, que desde os anos 60 mantém um crescimento sustentado com altas taxas de poupança interna.

Antes dos anos 80, nós optamos pela poupança externa (endividamento) e pela emissão de moeda, causando inflação. O crescimento sustentado por esses fatores é sempre temporário. As taxas de juros não se mantém baixas indefinidamente. E a emissão de moeda dá um resultado imediato, mas a médio prazo, com a perda do poder aquisitivo da população, o consumo cai, as empresas quebram e mandam embora. As robustas taxas de crescimento anteriores a 1980 escondiam um desastre financeiro: os ganhos que os trabalhadores obtinham com o pleno emprego eram prontamente anulados pelo surto inflacionário que vinha em seguida. Assim obtivemos uma combinação de alto crescimento com pouca ou nenhuma inclusão social, dando origem ao quadro de alta desigualdade que persiste até hoje.

Com o Plano Real, a inflação foi controlada, mas persistiram diversos desajustes nas contas públicas, daí não ter havido um crescimento sustentado. A crise de 1997 nos pegou com força porque tínhamos poucas reservas externas. Com os cortes e privatizações promovidos por FHC, à custa de alta impopularidade, o país chegou no início do século 21 com mais reservas e um quadro econômico mais estável, que combinado com um contexto externo favorável (alta dos preços das commodities) permitiu um surto de crescimento nos dois mandatos de Lula após uma breve recessão no primeiro ano, esta causada pelas incertezas que se dissiparam quando o mercado percebeu que Lula não ia desmantelar o legado do Plano Real, conforme era prometido pelo PT em campanhas passadas.

Preservando a macroeconomia herdada de FHC, Lula conseguiu manter boas taxas de crescimento em seus dois mandatos, mas tampouco preocupou-se com a sustentabilidade a longo prazo. Isto significou que os desajustes das contas deixados pela administração passada, entre os quais já se destacava o da previdência, não foram mexidos: Lula apenas preocupou-se em surfar a onda de prosperidade. A situação começou a degringolar após o anúncio da Nova Matriz Econômica já na metade do segundo mandato, mas ninguém percebeu isso de imediato porque o governo continuou gastando a fim de manter o crescimento alto mesmo após a crise de 2008, que Lula ironizou chamando-a de “marolinha”.

A Nova Matriz Econômica ressuscitou o nacional-estatismo esgotado desde os anos 80, e revelou-se obviamente desastrosa, sobretudo para a Petrobrás, que foi obrigada a manter os preços dos combustíveis artificialmente baixos e quase quebrou. Nesse quadro, a corrupção teve um efeito mais de desprestígio político do que de prejuízo econômico, embora não seja difícil construir teorias conspiratórias afirmando que a causa da recessão foi a Lava-Jato e os EUA de olho no pré-sal. Com enorme desequilíbrio nas contas, Lula terminou seu mandato saindo bonito na foto, mas legou uma bomba para explodir no colo de sua sucessora.

Desde então a incerteza política tem sido a causa da ausência da retomada do crescimento: Dilma viu a economia se deteriorar durante seu primeiro mandato, e fez uma campanha agressiva e cheia de mentiras para se reeleger. Conseguiu, mas logo no primeiro mês ficou flagrante que a crise era real. Enfurecido com o estelionato eleitoral, o povo abandonou a presidente a seus inimigos, que a destituíram do cargo sem que ninguém movesse uma palha para defendê-la. Seu sucessor, figura obscura e desprestigiada, nem de longe teve força no parlamento para fazer os ajustes necessários, na verdade era um refém dos deputados em razão de suas práticas corruptas. Agora a questão é saber se Bolsonaro terá a força que Temer não teve.

Crescimento sustentável, só com contas no azul e alta poupança interna. Desenvolvimento sustentável é desenvolvimento onde as contas fecham, onde a verba sai do orçamento e é aplicada conforme previsto sem desvios, onde os contratos são respeitados e o prometido é cumprido. O mais é embromação.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Maio de 1968, Maio de 2019

O entendimento dos fenômenos consiste em identificar similaridade onde tudo parece diferente, e perceber diferenças onde tudo parece igual. Assim sabemos que um camundongo é parente de uma capivara, e não de uma toupeira. No estudo da História, deve-se notar quando certos eventos se repetem, e procurar compara-los após remove-los de seu contexto específico.

A discussão é antiga. Uns dizem que a História se repete, outros dizem que são os historiadores que se repetem uns aos outros. Mas observando as recentes manifestações estudantis anti-Bolsonaro, não pude deixar de lembrar de outro maio, o de 1968. Há alguma semelhança após 51 anos?

O senso comum afirma que manifestações anti-governo ocorrem em momentos de crise, quando a população está obviamente insatisfeita. Mas não foi assim em maio de 1968. A explosão de descontentamento da juventude de então decorreu do surto de prosperidade do pós-guerra, que fez aumentar enormemente o número de estudantes universitários, os quais, pela primeira vez, puderam tornar-se protagonistas da História. Sentindo-se emponderados, eles clamavam por hedonismo. Queriam vida boa e acesso ao dormitório das meninas, ao invés da vida dura de trabalhar desde cedo sob as ordens dos pais. A aliança que no primeiro instante formou-se entre o movimento estudantil e os trabalhadores logo mostrou-se um mal entendido. Hoje aquele pessoal parece um bando de românticos inconsequentes.

Guardadas as proporções, algo semelhante ocorreu no Brasil em 2013, quando o país foi sacudido por um surto de manifestações tão violentas quanto inesperadas. Tinha ocorrido um período de prosperidade nos anos anteriores, o que fez despertar muitas expectativas. A decepção explodiu quando o povo se inteirou do engodo do governo Dilma.

Diferentemente de 1968 e 2013, as manifestações estudantis agora ocorrem, coerentemente, em um momento de retração econômica com cortes diversos. Mas o discurso parece requentado. E não se observa aliança entre trabalhadores e estudantes. Sabe-se que o movimento estudantil, desde muito, tem sido monopolizado por determinados partidos políticos, já nada tem de romântico ou inconsequente. Diante deste quadro, é impossível não pensar na acusação que foi feita por Bolsonaro: serão todos um bando de idiotas úteis?

Quem viver, verá.