segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A Antiga e a Nova Classe Média

Deparei-me outro dia com esse artigo no Jornal GGN, intitulado Pobre de Avião, o DNA da Ultra-direita Brasileira, que defende uma curiosa tese: a contra-revolução conservadora que se seguiu ao governo petista teria sido motivada pelo incômodo causado à classe média pela presença de pobres no aeroporto.

Certamente que não endosso tese tão primária, mas o dito artigo levantou certas suposições que eu já havia observado em outros contextos. A mais central delas é que não existiria apenas uma classe média, mas duas, uma "antiga" oriunda da classe alta em declínio, e uma "nova" originada da classe pobre em ascensão, e a hostilidade contra os pobres viria, por contraditório que pareça, precisamente desta nova classe média. Faz algum sentido. Observa o autor do artigo:

"Os muito ricos não se sentem ameaçados por pobres em nenhum espaço ou momento, a não ser em conflitos reais, como tumultos, vandalismo (...) Muitos bilionários têm visão social e praticam alguma forma de ação de apoio, menos no Brasil e mais nos países centrais, onde grandes fortunas criaram grandes fundações filantrópicas"


"Muitos ricos são de centro esquerda, alguns de direita, mas a ultra direita se concentra na classe média que vê perigo nos pobres chegando perto, física ou socialmente"


A velha classe média brasileira, realmente, originou-se da decomposição da antiga aristocracia luso-brasileira, à medida em que a propriedade comum era dividida por herança e os descendentes passaram a ter que ganhar a vida com suas profissões, mas conservando postura e hábitos herdados dos tempos antigos, tais como manter empregadas domésticas. Como bem apontou o autor do artigo, essa antiga classe média nunca se importou com a proximidade física dos pobres, e até fazia questão de mantê-los próximos enquanto serviçais. Isso porque os espaços físico e social eram muito bem delimitados - o pobre, como se dizia, "sabia o seu lugar". De fato, eventualmente os pobres eram até ajudados por seus patrões ou padrinhos.

Já a nova classe média brasileira originou-se sobretudo da grande onda de imigração ocorrida entre o fim do século 19 e o início do século 20, após a abolição do tráfico de escravos. Esses imigrantes experimentaram uma ascensão social à custa de muito esforço, o que lhes causa orgulho, e a lembrança do passado de pobreza serve como referência de tudo o que é mau e errado - talvez por isso não demonstrem nenhuma empatia por pobres, ao contrário da velha classe média. Mas há uma causa mais prosaica: a concorrência, fator crucial a quem ambiciona ascensão social à custa do próprio esforço.

É sabido que nos EUA, historicamente, o racismo se originou sobretudo da classe trabalhadora branca, como reação à presença de ex-escravos e imigrantes pobres disputando seus empregos. Os ricos não se importavam tanto, afinal raramente algum negro atravessava-lhes o caminho. Por aqui costumamos apresentar os EUA como contra-exemplo de tudo o que é o oposto de nossa realidade, mas o fato é que, histórica e socialmente, os EUA tem, sim, muitos paralelos com o Brasil, e este é um deles. Trump acusa os imigrantes de "roubar o trabalho" dos americanos. Ele está certo. Mas os imigrantes que de fato roubam o trabalho dos americanos não são aqueles que cruzam ilegalmente a fronteira - esses vão procurar serviços recusados pelos próprios americanos - e sim os descendentes deles, já com estudo e cidadania, que querem disputar empregos qualificados.

Já no Brasil, por ter uma dinâmica social mais lenta, nunca se viu um racismo declarado de imigrantes brancos contra pretos ex-escravos, mas um aforismo que veio dos tempos da escravidão era aquele que afirmava que não havia dono de escravos mais cruel do que o ex-escravo. A tese do Pobre de Avião faz algum sentido, sim. Ainda que irônico. Então, contrariando o ideário da luta de classes marxista, o pior inimigo do pobre não é o rico, mas o outro pobre? Com certeza algo embaraçoso de admitir.

Mas uma diatribe antiga da esquerda intelectual contra a classe média sempre existiu, uma espécie de grito primal de revolta, originado até do próprio ambiente doméstico desses militantes, geralmente oriundos da classe média. Os pais representavam, para eles, o establishment, sempre "caretas" e insistindo para que se formassem e fossem trabalhar para os ricos. A classe média era entendida como o esteio da ordem social, sempre conservadora, medíocre e alvo de caricatura. Em determinado momento durante o governo petista esta antiga diatribe tornou-se declarada - o manifesto de ruptura foi aquele famoso discurso da filósofa petista Marlena Chauí, Eu Odeio a Classe Média.

E no entanto, esse mesmo PT foi quem alardeou haver incluído milhões de cidadãos na classe média, e sempre declarou ter como objetivo criar um país de classe média. Como pode, então, odiar a sua própria criação? Ainda mais levando-se em conta que a maior repulsa contra os pobres vem justamente da nova classe média recém-incluída, conforme é reconhecido. A explicação, a meu ver, vem daquele grito de revolta primal, reprimido durante anos pelos militantes. O PT não se originou dos extratos mais pobres da população, mas da classe média intelectualizada e politizada de São Paulo, muitos com histórico de militância desde os anos 60. Durante um bom tempo o eleitorado petista reduziu-se a este núcleo, enquanto as massas pobres continuavam fiéis aos políticos tradicionais com seus laços de clientelismo. A partir do momento em que o PT obteve o apoio desse eleitorado pobre majoritário, percebeu que não dependia mais da classe média que havia sido o seu esteio, e pôde então renegá-la ostensivamente - a partir daí, os inimigos eram os "coxinhas", sobretudo os paulistas.

Mas não se percebeu uma coisa: o eleitorado pobre não é ideologizado. Limita-se a dar o voto a quem tem a chave do cofre no momento, e pode conceder benefícios de imediato. Por conseguinte, a massa do eleitorado pobre não é fiel. Já o eleitorado da classe média vota de acordo com suas ideia, e não gostou do repúdio que o PT lhes dedicou. Muitos eleitores da classe média que eram neutros, e até simpatizavam com o PT, migraram para a direita, ao mesmo tempo em que o eleitorado pobre dava as costas a este partido tão logo percebeu que a crise esvaziara o saco de bondades. Foi essa a verdadeira causa da guinada conservadora que derrubou o PT, e não a suposta raiva da classe média contra os pobres no aeroporto.

Não creio que a esquerda voltará ao poder enquanto não superar sua diatribe contra a classe média.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Brasil no olho do furacão?

Nosso continente é sujeito a tendências cíclicas, isso já é sabido. A derrota de Macri na Argentina, os distúrbios no Chile e no Equador, parecem indicar o fim do ciclo de governos conservadores que sucedeu ao ciclo populista da primeira década do século. Não obstante, o Brasil está tranquilo, assim como quem fica bem no olho do furacão. Isso apesar da posturas polêmicas que o governo Bolsonaro vem assumindo. A oposição é ruidosa, reunindo intelectuais, jornalistas, economistas e até ex-apoiadores do presidente, mas não empolga as massas.

A reação das massas nem sempre é fácil de prever. Isso ficou claro em 2013, quando um mês antes a aprovação de Dilma era de 70%, e de súbito despencou para menos de 30%, pondo a nu a frustração que vinha se acumulando silenciosamente contra seu governo. O caso do Chile parece ser análogo, mesmo porque começou, tal como aqui, com uma discussão em torno de centavos nas passagens do metrô. No Brasil, atribuo a atual pasmaceira, em primeiro lugar, à pasmaceira da economia. Não melhora, mas também não piora: a inflação está sob controle e não há pacotes econômicos à vista. Mas algumas coisas estão acontecendo devagar. A reforma da presidência foi aprovada sem estardalhaço, e o pacote anticrime avança entre percalços.

Penso que a ausência de manifestações violentas de repúdio à reforma da previdência se deve a esta reforma não haver sido colocada na forma de pacote, como é o costume nessa parte do mundo, mas ao invés disto haver sido alvo de longo debate. De qualquer modo, a queda do dólar nos últimos dias indica maior confiança na economia após a aprovação. O índice de desemprego também vem registrando ligeira queda, muito pequena para fazer diferença, mas sinalizando um cenário mais favorável daqui por diante. Foi anunciada uma redução no número de homicídios, também muito pequena para fazer diferença, mas que pode ter a ver com o pacote anticrime ora em debate.

Enfim, o povo parece haver dado um longo crédito de confiança ao governo. Estamos em compasso de espera enquanto nossos vizinhos se agitam. Mas o futuro, para eles, é previsível, e para nós é obscuro. A Argentina tem longa tradição de revezamento entre governos peronistas e conservadores, geralmente os primeiros arruinando a economia com gastos excessivos e os segundos entrando para consertar com medidas "neoliberais", mas o inverso também pode acontecer, como foi o caso do  peronista Menem, além da tendência dos conservadores argentinos de promoverem desastres ainda piores que aqueles dos populistas. No Chile também é observado um bipartidarismo, mais recente que o argentino, porém menos turbulento, com governos socialistas e conservadores se sucedendo desde o fim da ditadura de Pinochet, sem contudo desmanchar o arcabouço que permitiu ao Chile ser o país mais estável do continente.

Mas no Brasil, o bipartidarismo que deveria ser entre PT e PSDB naufragou em razão da postura agressiva dos petistas ao conquistar o poder, e da falta de coragem dos tucanos em defender o legado de FHC. Por conseguinte, o que virá depois de Bolsonaro é uma incógnita total. Conseguirá Bolsonaro se reeleger ou fazer seu sucessor, contrariando a tendência atual pró-esquerda do continente? O PT irá voltar ao poder, mais moderado e compondo-se com os demais partidos? Ou o PT vai voltar ao poder rancoroso e partindo para um confronto que necessariamente terminará em ditadura?

O que se pode fazer, por enquanto, é contemplar ao redor do olho do furacão.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Bacurau, Pensamento e Desejo

Uma expressão na língua inglesa que não tem tradução exata em português é "wishful thinking". Literalmente "pensamento desejoso", denota uma atitude tão movida pelo desejo de que uma certa premissa seja verdadeira, que se passa a tomar decisões e tirar conclusões embasadas por aquela premissa, cada vez desligando-se mais da realidade. Tal como a construção de teorias conspiratórias, abundam em épocas quando há grande desalento e frustração coletiva. Tudo a ver com o tempo presente, a partir da eleição de Bolsonaro, que significa utopia para uns e distopia para outros.

Tais pensamentos desejosos podem se manifestar por diversos canais, da produção de estudos ao cinema. Um filme recentemente lançado e muito comentado, que tem inspirado numerosas análises, é Bacurau, de Kléber Mendonça. Este artigo no Jornal GGN, de autoria de Guilherme Mello, mostra bem como o enredo une utopia e distopia aplicadas ao momento histórico atual no Brasil. Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha do filme, e sim mostrar o quanto as imagens exibidas expressam pensamentos e desejos frustrados do momento político de agora. Trata-se sem dúvida de uma história contada por cineastas de esquerda, onde estão facilmente identificáveis os representantes de sempre da luta de classes - o burguês, o imperialista, o trabalhador, o guerrilheiro, etc. Até aí sem novidade. Mas não é uma mensagem da esquerda cheia de alento dos anos sessenta, e sim da esquerda desalentada após a queda do PT, onde se nota agudamente o choque entre a utopia e a distopia, e brotam os "wishful thinkings".

O primeiro deles é a própria caracterização de Bacurau, a cidadezinha do interior do nordeste onde se passa a trama. Bacurau é ostensivamente apresentada como sendo a epítome do Brasil Autêntico, oposto ao Brasil Falso do sul estrangeirado. Portanto, deve ser aquilo que os intelectuais e militantes de esquerda acreditam que é o país autêntico: conforme descrição do autor do artigo do Jornal GGN,
 
"É um povoado pobre, mas marcado pela solidariedade entre seu povo, pelo respeito às diferenças (sociais, étnicas, sexuais, etc.), pela força feminina, pelas liberdades individuais e pelo respeito à história e conhecimento (...) Em suma, estamos diante de uma comunidade que pratica uma espécie de comunismo primitivo laico, com valorização da mulher e da diversidade"


Em Bacurau, a igreja existe, mas é usada como depósito, enquanto o orgulho da cidade é o museu que homenageia o passado cangaceiro do local. O uso de drogas na cidade também é livre.

O segundo wishful thinking, este representando a distopia, é a caricatura do sulista supremacista. Ele não se considera mais parte do mesmo país, e a televisão mostra cenas de execuções públicas em São Paulo, aplaudidas pela população. Já o estrangeiro invasor, este é alemão e comporta-se como um nazista em um campo de concentração, sem necessidade de explicação.

Entre a utopia e a distopia, onde fica o mundo real? Claramente, Bacurau não existe. As cidades pequenas do interior, muito pelo contrário, sempre encarnaram tudo aquilo que a esquerda mais abomina: universo rural sob o domínio de latifundiários, população religiosa e conservadora. Se a busca é por um "país autêntico", este pode ser encontrado muito mais em São Paulo, em razão de seu cosmopolitismo e de reunir indivíduos oriundos de todas as regiões do país, além de ser muito mais liberal em todos os sentidos. Lula nasceu no nordeste, mas teve que vir para São Paulo para construir sua carreira. O PT nasceu em São Paulo e desenvolveu-se no sul bem antes de penetrar no nordeste. Tampouco já ouvi falar de alguma cidade nordestina onde museus glorificassem cangaceiros - muito pelo contrário, o que eu já ouvi falar é de um museu em Mossoró dedicado à resistência armada feita pela população, que expulsou o bando de Lampião quando este tentou invadir a cidade para saqueá-la.

Ao final, a população de Bacurau reage com violência, esmaga os invasores e exibe suas cabeças cortadas, como os autores do filme desejariam que a população brasileira fizesse. As cabeças cortadas evocam velhas cenas do cangaço. Mas como bem observou Guilherme Mello:

"No entanto, o que há de mais realista em Bacurau é sua brasilidade, construída nas referências ao passado cangaceiro do povoado. A resistência não se dá de forma 'civilizada', com passeatas de classe média gritando palavras de ordem. Ela é organizada por bandidos, assassinos, guerrilheiros, mas também por mulheres, homens andróginos, professores, trabalhadores e prostitutas (...) Não são heróis virtuosos os que resistem, não é uma resistência branca, limpa, ideológica e civilizada. É uma resistência negra, mulata, desviante, pobre e bárbara..."


A tipificação do cangaceiro como herói popular não é nova, vem do tempo de Glauber Rocha, que à falta de um bandido-revolucionário tipo Pancho Villa em nossa história, reciclou a figura do cangaceiro para este papel. De fundamento, há apenas a admiração de um populacho inserido em um meio social violento, que vê a coragem e a ousadia como valores - mesmo fenômeno que transformou em heróis cinematográficos os bandidos do velho oeste norte-americano. Mas se o zé-povinho admirava a macheza de Lampião, a recíproca nunca foi verdadeira. O Rei do Cangaço jamais teve qualquer consciência ou consideração pelos desfavorecidos, distinguia apenas aqueles que lhe eram leais daqueles que eram inimigos. O próprio Eric Hobsbawm foi reticente ao incluir Lampião em seu rol de "bandidos sociais". Já o "wishful thinking" que tipifica como revolucionários os marginais da sociedade - bandidos, desviantes, inconformistas, prostitutas - é fenômeno mais recente, consequência do abandono dos ideais revolucionários pela classe trabalhadora, cada vez mais incluída no capitalismo. Os intelectuais marxistas, então, têm procurado angariar seu novo público entre os marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, e tentam convencer-se de que os marginais farão a revolução que os trabalhadores se recusaram a fazer.

Outra mensagem que chama a atenção é a ênfase na cisão norte-sul, calcada em uma suposta cisão étnica entre um Brasil genuíno e um Brasil estrangeiro. Também é uma abordagem recente; até os anos sessenta o discurso da esquerda nacional reproduzia o puro modelo de luta de classes marxista - o país era dividido entre burgueses e trabalhadores, imperialistas e nacionalistas, e só. Conflitos étnicos e raciais eram característicos de outras paragens, sem relação com nossa idiossincrasia. Durante muito tempo esse foi o senso comum. A mudança na abordagem reflete a apropriação do discurso das esquerdas brasileiras por parte de ONG´s e "think tanks" globalistas, que desejam exportar para aqui os mesmos pontos de vista que aplicam no mundo inteiro: então devemos ser racistas e secessionistas, tal como os demais.

Um pormenor que poderia passar quase despercebido é o uso livre de drogas em Bacurau, mas Guilherme Mello percebe aí uma mensagem essencial:

"A forma liberal com que é encarada o uso de drogas não é o elemento central do filme, como algumas críticas apontam. O uso das drogas aparece como um alerta de que o enfrentamento da realidade que ameaça os direitos e a existência de parte da sociedade exige pensar para além do real. Resistir no mundo atual exige sonho, utopia e alguma dose de delírio..."


Não é novidade: desde os anos sessenta os militantes de esquerda defendem o uso de drogas como iluminador para abrir a mente a novas ideias e afrontar o convencionalismo burguês. Mas o problema é que esse consumo de drogas sustenta um lucrativo comércio que absorve aqueles lúmpen-proletários a quem os drogados sonham fazer seu público revolucionário. Até aí o capitalismo triunfa... Guilherme Mello conclui:

"A virtude não está nas pessoas, mas na utopia. E quem disse que bandidos não podem sonhar com uma sociedade mais justa?"


Realmente é preciso muita droga para acreditar que bandidos podem sonhar com uma sociedade mais justa. Mas no desolador panorama político atual, é o que a esquerda nacional pode fazer, além de produzir na tela alegorias de um país imaginário. O medo que eu tenho é que decidam permanecer em definitivo no mundo da fantasia, deixando a cena política monopolizada por uma direita canhestra.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Colonialismo Britânico e Ibérico

Uma das teses mais repetidas em minha geração foi a explicação da diferença econômica entre a América do Sul e a América do Norte: eles foram uma "colônia de povoamento", e nós fomos uma "colônia de exploração". Penso que todo o mundo que estudou comigo já ouviu isso de professores de história e geografia, e provavelmente aceitou como verdade cristalina.

As definições são autoexplicativas. Nós somos pobres porque o projeto do colonizador era apenas explorar, e não construir. Já nas colônias do norte, o propósito era povoar e construir países. Ponto. Mas o caráter raso dessas definições também fica evidente à mínima abordagem. Se não houve povoamento aqui, então de onde veio a nossa população?

Colocado assim, fica parecendo que o Brasil foi como a Índia colonizada por britânicos, ou a Indonésia colonizada por holandeses, onde já havia uma população autóctone e a presença do colonizador deu-se apenas na forma de um pequeno estrato de funcionários governamentais, técnicos e homens de negócio, que não fixaram residência definitiva. Mas é óbvio que esse não é o nosso caso. A grande maioria de nossa população descende de povoadores vindos de várias partes. Não eram apenas fidalgos que chegaram para tomar posse de cargos públicos ou sesmaria, junto deles vieram milhares de colonos despossuídos; fomos, sim, também uma colônia de povoamento. Então, se hoje somos pobres e eles são ricos, a explicação deve ser outra.

Um outro paradigma, então, foi urdido: teria havido um projeto colonial "bom", o britânico, que foi bem sucedido, e um projeto colonial "mau", o ibérico, que fracassou. O projeto ibérico era baseado em trabalho escravo, religiosidade obscurantista e governo absolutista, o projeto britânico era baseado em um ideal de liberdade e empreendorismo. Assim, o continente americano foi dividido entre os herdeiros de um projeto bem sucedido e um projeto fracassado. A dicotomia Norte X Sul aprofundou-se a ponto de implantar no imaginário coletivo a noção de duas civilizações distintas e descorrelatadas, sendo que apenas a América do Norte pertenceria ao Mundo Ocidental, e dentro dela os EUA ocuparia um papel a parte em razão de seu excepcionalismo e características únicas. A crença nesse excepcionalismo americano é arraigada tanto dentro quanto fora dos EUA, e um bom exemplo pode ser encontrado nesse artigo, onde um comentarista observa: "Os EUA foram a única nação fundada sobre um credo". Uma abordagem racial dessa dicotomia também implantou no imaginário coletivo a visão dos EUA como um mundo branco, enquanto o sul seria um mundo negro-latino, aqui entendido "latino" como a definição de uma raça sul-americana supostamente autóctone.
Mas quais são os limites deste modelo entre uma realidade política, econômica e antropológica, e aquilo que os americanos chamam um "wishful thinking", uma ideia que é agradável considerar verdade?

Penso que nunca houve, de fato, um projeto colonial "britânico" e outro "ibérico", pois de fato ambos coexistiram em várias regiões do Novo Mundo, praticados por várias potências colonialistas. O projeto "ibérico", baseado em trabalho escravo para monoculturas e mineração, é característico do sistema econômico denominado mercantilismo, que predominou entre os séculos 15 e 18, antes de ser substituído pelo capitalismo moderno (que aliás ensejaria um novo projeto colonial da parte das potências industriais, já no século 19, mas deste não fizemos parte). Foi praticado por Portugal e Espanha em todos os seus domínios, mas não só por eles. Também foi praticado pelos ingleses no sul dos EUA e em algumas regiões do Caribe, onde também foram estabelecidas colônias francesas e holandesas praticantes do mesmo sistema escravocrata. O sul dos EUA, após uma guerra que forçou sua reinclusão na União, também teve forçada sua inclusão no modelo econômico industrial e desenvolvido, mas acaso são países desenvolvidos hoje Haiti, Belize, Jamaica, Guiana Francesa e as ex-Guianas Inglesa e Holandesa?

Se a explicação não está no modelo econômico do colonialismo, então deve estar na sua qualidade. Os países hoje desenvolvidos foram povoados por colonos brancos puritanos, que traziam consigo um ideal e valores que favoreciam a liberdade e o progresso; os países do sul tiveram povoadores não-brancos e católicos, que traziam uma mentalidade de autocracia e obscurantismo religioso. Essa tese é endossada por numerosos comentaristas, tanto lá quanto aqui. Mas de novo faz-se a pergunta: até que ponto isso também é "wishful thinking"?

Mas pensando bem, o Brasil também recebeu uma boa quantidade desses povoadores brancos e protestantes, e eles de fato fizeram prosperar as regiões onde se estabeleceram. Mas os imigrantes católicos vindos de Portugal, Itália e Polônia, sem falar nos japoneses, exibiram uma ética de trabalho notavelmente semelhante. Penso, então, que esse afã de prosperar tem sua origem na condição específica do imigrante, alguém que sabe que só pode contar com seu trabalho, e não de uma raça ou religião. Os primeiros povoadores dos EUA são muito reverenciados por seu credo em fundar uma terra de livres, mas não se distinguiram particularmente pelo progresso material, mesmo porque foram prejudicados neste aspecto por suas próprias crenças utópicas. A grande maioria dos povoadores dos EUA não desembarcou lá movida por um credo, mas pelo desejo de fugir da pobreza em sua terra natal, tal como os imigrantes que aportaram aqui. Foram esses indivíduos materialistas e pragmáticos os maiores responsáveis pela prosperidade.

Do mesmo modo, também os EUA receberam escravos africanos, e sempre existiu ali uma população autóctone, seja de nativos ou de hispânicos que ali já residiam quando os estados do sul e do oeste foram tomados aos mexicanos. A dicotomia Norte Branco Protestante X Sul Mestiço Católico, a meu ver, é mesmo um "wishful thinking" construído para sustentar a crença no excepcionalismo americano. Não corresponde à realidade histórica e demográfica. Negros, hispânicos e católicos sempre existiram na América do Norte, também. Brancos e protestantes sempre existiram na América do Sul, também.

Analogamente, a dicotomia Colônia de Povoamento X Colônia de Exploração é, entre nós, uma armadilha mental para justificar nosso atraso de uma forma peremptória e inexorável. O colonialismo "bom" e o colonialismo "mau" não são peculiares de regiões geográficas específicas, mas de fato se encontram esparsos por todo o continente americano, de norte a sul, com maior ou menor concentração aqui e ali. A explicação racional para o nosso atraso é a incidência menor do colonialismo "bom", que no entanto nunca deixou de existir aqui e acolá, embora desprovido de mitos fundadores que o glorifiquem.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Laurentino Gomes e a Escravidão

Soube que Laurentino Gomes vai lançar mais um livro, na verdade uma trilogia. Desta vez o tema será o tráfico negreiro, e o escritor tem a pretensão de determinar, no histórico da escravidão, as marcas deixadas na sociedade brasileira até os dias de hoje.

"A escravidão e suas consequências ainda estão no DNA do Brasil"

Não é uma ideia nova. Joaquim Nabuco já afirmava, no final do século 19, que a escravidão ainda seria por longos anos a marca distintiva do Brasil. Não sei se o autor, que até agora distinguiu-se pelo tom leve e jornalístico em suas obras anteriores, terá sucesso nessa empreitada que exige o trabalho de um historiógrafo de raiz. Meu receio é que caia no mesmismo de outra vertente de ensaios, esta da lavra de autores mais casuais, que aponta na sociedade brasileira uma alegoria da escravidão. Esse artigo é um bom exemplo.

Os argumentos são repetitivos. O membro da classe dominante brasileira é apresentado como uma caricatura de senhor de escravo, supostamente mantendo até hoje uma mentalidade escravocrata, o que explicaria ao alto índice de desigualdade social no Brasil e a falta de empreendorismo de nossa elite empresarial. Mas como toda estereotipação caricatural, é fácil de reconhecer mas difícil de identificar. Até onde essa imagem corresponde à realidade?

O membro da "classe dominante" citada, presumivelmente é o grande capitalista. Mas enumerando os nomes de grandes empresários brasileiros da atualidade, há muitos descendentes de senhores de escravos?

Não, não há. A classe patronal brasileira é formada, em sua maioria, por descendentes de imigrantes europeus, árabes e orientais chegados aqui nos estertores finais da escravidão ou logo após a abolição. É óbvio que o sucesso que esses pioneiros tiveram estava relacionado às transformações econômicas que sucederam o fim da escravidão, sem o qual não teriam sequer mão-de-obra para suas fábricas. Esses personagens são, de fato, o oposto do senhor de escravos, atores de um cenário sócio-econômico incompatível com a escravidão.

O desfavorecimento dos descendentes de escravos em nosso quadro social é autoevidente. Mas passados mais de cem anos da abolição, até que ponto esse desfavor ainda pode ser atribuído ao passado escravocrata?

Observando nossos vizinhos que tiveram muito menos escravidão e a aboliram muito antes de nós, vê-se que o quadro social ali não é muito diferente. As diferenças sociais são marcantes e os descendentes de europeus estão em uma posição muito superior. Mas se isso não é consequência da escravidão, será consequência do racismo inerente à mesma?

Até certo ponto, sim. O racismo existe e é perceptível em várias situações da vida social e profissional dos indivíduos, aqui e em nossos vizinhos. Mas um equívoco que tenho observado muito persistente é atribuir ao racismo a diferença social entre brancos e pretos. Em um processo de seleção para um cargo bem pago, é possível que um candidato negro seja preterido em favor de um branco. Mas na maioria dos processos de seleção para cargos bem pagos, só há candidatos brancos. Os negros não chegam lá porque em geral não puderam frequentar boas escolas. Mas um branco pobre teria a mesma dificuldade.

É também frequentemente apontada a predominância de jovens negros entre as vítimas de homicídio e a população carcerária. Mas em geral os assassinos de negros também são negros, e assim como a maioria das vítimas de marginais negros. Penso que esse discurso é um esforço dar um viés racial à luta de classes marxista. Tem fundamento? Eu nunca vi jovens favelados saírem pelas ruas a agredir brancos. O envolvimento de negros com a marginalidade está obviamente relacionado ao passado escravocrata, que fez a população negra predominante nas áreas de alta criminalidade. Entretanto não é o racismo o motor dessa criminalidade, mas principalmente o tráfico de drogas.

Acredito que a falta de capilaridade social consequente da pouca eficiência de nossa economia é a verdadeira causa da alta diferença social entre brancos e negros. Uma explicação puramente econômica, que pode ocorrer em vários lugares independente de haver ou não uma grande herança da escravidão. E penso, também, que se nossos empresários são pouco empreendedores, tal não se deve à mentalidade escravagista, mas ao vício de depender do estado para fomentos, subsídios e protecionismo - este sim um traço cultural que pode ser rastreado na História, mas cuja origem não é a escravidão, mas o sistema econômico conhecido como mercantilismo, que vigorou no país até a abertura dos portos em 1808. Muitos empresários brasileiros ainda estão esperando um alvará régio que lhes conceda o monopólio em uma determinada área para atuarem, tal como acontecia nos tempos de colônias.

Falta de capitalismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A História se repete: queimadas na Amazônia

Várias vezes tenho dito aqui: o motivo mais importante de se saber o passado é obter embasamento para entender o presente. Ou seja, perceber que as notícias que parecem novidades bombásticas aos desatentos, na verdade são dejà vu. O conhecimento da História dá uma percepção de profundidade aos fatos observados, tal como naqueles antigos desenhos de silhuetas que às vezes apareciam nas páginas de recreação das revistas. A figura sombreada em duas dimensões parecia uma feiticeira mexendo um caldeirão, mas acrescida a luz e recuperada a perspectiva em profundidade, via-se que o desenho mostrava uma mulher varrendo debaixo de uma mesinha sobre um tapete redondo, e o chapéu da bruxa na verdade era um pote sobre uma prateleira em segundo plano.

A bola da vez são as queimadas na Amazônia. A percepção imediata é que se trata de uma medonha catástrofe, mas quem tem memória deve se lembrar que o mesmo alarmismo já foi repetido 10, 20, 30 anos atrás. Eu particularmente me lembro de meus tempos de escola, e lá se vão 40 anos, quando se afirmava que o Brasil desflorestava uma Bélgica por ano, ou uma Suíça, ou uma França, ou outro país qualquer. Então como explicar que hoje em dia a floresta ainda continue de pé?

Pesquisando e comparando cuidadosamente notícias ao longo desses anos, pude tirar algumas conclusões. O principal motivo do equívoco é a definição mesma do que é, e do que não é a Amazônia. O Brasil tem vários biomas, e a floresta amazônica propriamente dita se inicia ao norte de Mato Grosso e oeste de Goiás - ou ao menos tem sido assim nos últimos milhares de anos - fazendo fronteira com o cerrado e o pantanal. Verificando as fotos dos satélites que detectam as queimadas, vê-se que a maioria delas encontra-se na região limítrofe, principalmente ao norte de Mato Grosso e sul do Pará.



Ou seja, parte das queimadas, na verdade, não estão ocorrendo na região da floresta. Sem contar que podem estar sendo registradas queimadas em áreas que já foram desflorestadas muito tempo atrás, pois é sabido que é preciso repetir a queimada de tanto em tanto para se limpar o terreno. Mas não é assim que as notícias têm sido vinculadas, sobretudo no exterior, mesmo porque no imaginário dos estrangeiros a floresta ocupa o Brasil inteiro. Essa impressão ficou bem flagrante naquele conhecido episódio dos Simpsons, onde Homer é sequestrado, só que ao invés de ser levado a uma favela, seu cativeiro é na floresta amazônica supostamente localizada logo atrás do Rio de Janeiro.

O mesmo equívoco explica a notícia de que São Paulo teria tido um dia convertido em noite em razão da fumaça das queimada na Amazônia. A foto do satélite mostra o que realmente ocorreu:




Nota-se que a nuvem se move horizontalmente, vindo desde a Bolívia. A fumaça que enegreceu o céu de São Paulo presumivelmente originou-se de queimadas no Mato Grosso do Sul, Paraguai e na própria Bolívia. Sobre a mancha verde da Amazônia, não há nuvem. E basta observar o tamanho desta mancha verde para constatar que perto de 90% da floresta original ainda permanece onde sempre esteve.

Ou seja, as queimadas existem há muito tempo, mas estão longe de configurar a catástrofe que se quer mostrar. Elas não podem ser contidas porque ocorrem em uma área imensa, mas justamente por ser imensa esta área, é difícil de acreditar que a floresta terminará destruída nestes tempos de preocupações ambientalistas, sendo que em 500 anos sem preocupações ambientalistas não conseguimos destruir mais de 10% dela. O problema é que o ambientalismo se tornou uma doutrina, com suas crenças e dogmas. Posso citar aqui algumas.

O primeiro mito é a crença de que a Amazônia seria o pulmão do mundo, responsável pelo oxigênio do planeta. O verdadeiro pulmão do mundo são os oceanos, e a quantidade de oxigênio na atmosfera tem permanecido estável, A real importância da floresta está no clima.

Outro mito renitente é essa criatura gestada pelos ecologistas, o índio ecologicamente correto. Presume-se que o índio é um ser telúrico, que vive em harmonia com a natureza, portanto garantir a integridade dos territórios indígenas é garantir a integridade da floresta. Duplamente falso. O interesse dos índios em manter seus territórios é garantir para a tribo a exclusividade na exploração dos recursos ali contidos, no que, aliás, estão inteiramente certos, pois se não defenderem seus interesses, ninguém mais o fará. Os ambientalistas românticos dizem que se trata de índios corrompidos que aderiram à civilização predatória, e abandonaram seu modo de vida original. Mas tampouco seu modo de vida original jamais foi ecologicamente correto, pois sempre necessitaram caçar, pescar e derrubar árvores para construir suas malocas. É praticado até hoje na floresta um tipo de pesca que consiste em dissolver na água um veneno vegetal, que mata bem mais espécies de peixe do que aquelas aproveitadas na alimentação E é sabido que os tupis que ocupavam o litoral na época do descobrimento desde muito praticavam uma agricultura primitiva com queimadas. Sim, as queimadas são mais antigas do que se supõe. Índios nunca tiveram consciência ecológica, mas apenas consciência do que precisavam fazer para sobreviver.

Já que não podemos parar com as queimadas, devíamos ao menos entender o fenômeno dentro dos parâmetros em que efetivamente se encontra.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entre o militarismo e o parlamentarismo

Após oito meses de governo, a impressão mais marcante até agora do presidente Jair Bolsonaro é de alguém pequeno cercado de personagens maiores do que ele. E esses personagens são, em sua maioria, militares.

O que isso significa? Estamos entrando em uma nova fase de militarismo no país? É nesses momentos de dúvida que se torna oportuno conhecer a História, a fim de buscar e estabelecer paralelos com etapas do passado que parecem análogas ao presente, cabendo analisa-las e discernir o que é cíclico do que é mero dejâ vu. Os militares têm se acercado do poder desde a proclamação da república, mas sempre como uma opção revolucionária. Os presidentes militares que chegaram ao poder por eleições, dentro das regras estabelecidas, foram apenas dois e mostraram-se figuras apagadas. De resto, o último período de militarismo no país, para além da retórica anti-esquerdista, mostra pouca semelhança com o atual. Em 1964 havia uma grande expectativa de que os militares iam "consertar o país", varrendo a corrupção e a subversão. O movimento que depôs Goulart foi por muitos considerado, de fato, uma revolução, cabendo prolongar-se e deixar mudanças perenes. Sob esta óptica, os militares da época viam sua chegada ao poder não apenas como uma missão de combater a subversão, mas também a oportunidade de implementar um projeto desenvolvimentista. Ironicamente, essa propensão tornava-os mais afins do PT do que do governo atual de Bolsonaro, o qual se opõe formalmente ao desenvolvimentismo nacional-estatista e propõe o encolhimento do estado.

Na prática, o desenvolvimentismo dos militares de 1964 não era diferente do modelo anterior, oscilando entre uma vertente "nacionalista" (Vargas, Geisel) e uma vertente "entreguista" (Castelo Branco, Kubitschek). Fez sucesso nos anos 70, mas esboroou-se na década seguinte. O fracasso econômico final minou o prestígio dos militares como governantes superiores aos civis, e eles eclipsaram-se nas décadas seguintes, só voltando ao protagonismo com a última eleição. Assim encerrou-se um ciclo. Mas voltando ao início do ciclo, lá nos primórdios de século anterior, é preciso identificar qual fator elevou o prestígio dos militares e apontou-os como solução política. Esse fator foi a crença de que, em razão de não estarem vinculados a partidos e sim ao país, os militares estariam investidos de um papel de Poder Moderador, cabendo-lhes intervir nos momentos em que os poderes constituídos entrassem em conflito. Enquanto os militares exercessem essa função, o país estaria livre de impasses sangrentos e guerras civis.

A menção a um Poder Moderador reporta a outra figura histórica, o imperador Pedro II, que esteve formalmente investido deste poder tal como foi definido na constituição de 1824. Não há nenhuma semelhança entre a pessoa do ex-imperador e o atual presidente, exceto um detalhe circunstancial: Pedro II também esteve cercado, a maior parte da vida, por figuras politicamente mais influentes do que ele próprio. Assumiu o trono aos quinze anos, e por certo que meninos de quinze anos não são colocados no poder para mandar, mas para serem mandados. Em tese, seus poderes eram amplos - a constituição de 1824 não instituía um regime parlamentarista, posto que não havia nenhuma obrigatoriedade do imperador nomear um ministério obedecendo à maioria da câmara, tanto que convencionou-se chamar o regime monárquico brasileiro de parlamentarismo às avessas: primeiro o imperador indicava o presidente do Conselho de Ministros, e este indicava os nomes que o legislativo devia aprovar. Na prática, porém, o imperador tendia a referendar a corrente majoritária no momento, de modo que o regime gradualmente tornou-se parlamentarista de facto. A facilidade com que o idoso monarca foi descartado ao final de seu governo mostra bem como ele já era, então, uma figura já de todo esvaziada de poderes. Coube aos militares dar o empurrão final.

Podemos ver, então, estabelecida uma regra histórica: sempre que o chefe de estado se torna menor do que aqueles que o cercam, o país tende a se encaminhar, ou para o parlamentarismo, ou para o militarismo. A alternativa é o chefe de estado exercer uma espécie de poder moderador, do contrário se revelará descartável. O que fará Bolsonaro? Irá se eclipsar voluntariamente, e deixar o governo ser conduzido pelos que o cercam? Terá a sabedoria de moderar as correntes a sua volta que disputam o poder? Acabará simplesmente descartado, e será substituído pelo vice? Ou assumirá por fim as rédeas do governo com autoridade?

Aí já não temos que olhar para o passado, mas para o futuro.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Virada para a Religião

É um fenômeno palpável: o povo brasileiro está cada vez mais se voltando para a religião. A bancada evangélica cresce em número e em influência. Eu próprio, no dia-a-dia das redes sociais, noto cada vez mais mensagens de cunho religioso, que me deixam pensando: sempre foi assim, e eu nunca reparei? Quando foi que isso tudo começou?

Ainda sem ter uma resposta satisfatória a essas perguntas, topei com uma questão instigante. O surgimento do protestantismo no século 16, coincidindo com o fim da Idade Média e o surgimento do capitalismo mercantil, marcou também o início do ciclo de prosperidade dos países da Europa Central, que deixaram para trás os países católicos do sul. É bem conhecida a tese de Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, que explica essa diferença econômica como produto de determinados princípios da religião protestante que favoreceram o desenvolvimento do capitalismo que se iniciava então. Desde então o senso comum tem associado, com justiça ou não, o protestantismo à riqueza e o catolicismo à pobreza. Particularmente, nós no Brasil somos pobres porque devemos a nossa formação a um colonizador católico e obscurantista. Ponto. E eis que nesse início de século 21, uma tardia reforma protestante parece iniciar-se entre nós...

Ironias à parte, deve-se examinar até que ponto há uma correspondência entre o fenômeno atual e o fenômeno do século 16. Religioso, o povo brasileiro sempre foi, mas majoritariamente católico. A diferença agora é a corrida para as igrejas neo-pentecostais, a todo dia sendo abertas por um pastor qualquer nas periferias. Essas igrejas prometem a prosperidade a seus seguidores, daí sua pregação haver sido rotulada de "teologia da prosperidade". Será que vamos ficar mais ricos por causa disto? Dada a cupidez de certos pastores, alguns fiéis estão ficando é mais pobres. Mas ao menos filosoficamente, essas igrejas exaltam a prosperidade, vista como prêmio ao bom fiel. Essa postura contrasta com a devoção católica à pobreza e ao conformismo. No século 16, o catolicismo condenava a cobrança de juros, considerada usura, que era permitido pelo protestantismo. Fica para trás, também, a "opção preferencial pelos pobres" da Teologia da Libertação que fez sucesso no tempo da ditadura. Os pentecostais defendem ostensivamente o capitalismo.

Comparando os dogmas lançados pelo luteranismo e pelo calvinismo no século 16, com os dogmas católicos até hoje vigentes, vejo uma discussão de todo inserida no âmbito da teologia. Não vale a pena reproduzi-la aqui, pois não tem interesse fora da religião. O que se pode afirmar, com certeza, é que os reformadores protestantes não tinham em mente a prosperidade material, e se esta ocorria para seus fiéis, seria se tanto um subproduto dos costumes e valores que praticavam. Até onde haveria uma relação entre esta ética protestante diluída nas populações e o progresso verificado nos países protestantes? Há muito o que se discutir, mas de minha parte, tenho dúvidas de que o mesmo possa ocorrer no Brasil do século 21 que adere ao protestantismo dos pastores das periferias. O progresso dos países protestantes a partir do século 16 é para ser explicado considerando o contexto específico da época, quando o capitalismo, então no nascedouro, era endossado pelas crenças dos protestantes e visto com reservas pelos católicos, ainda ligados ao imobilismo social característico do feudalismo. Mas no século 21, o Brasil é um passageiro retardatário do trem do capitalismo.

Outro aspecto polêmico desta virada para a religião que se verifica no Brasil atual, é o ostensivo envolvimento dos pastores com a política. A bancada evangélica no congresso, inicialmente referida como anedota, agora é uma poderosa realidade, e os pastores já se imiscuem também no executivo. O país, então, vai e transformar em uma teocracia, e seremos governados por pastores que ditarão ao povo suas crenças obscurantistas e desviarão o dinheiro dos impostos para suas igrejas?

O senso comum diz que sempre que a religião se mistura à política, esta se corrompe. Os líderes religiosos tornam-se tirânicos e materialistas, o terreno sucede ao espiritual. É um temor que vem de eras pregressas, quando a religião não se reduzia a crenças íntimas, noção que hoje temos do religioso, mas era todo um sistema de ideias destinado a moldar vários aspectos da vida privada, social, legal e política dos fiéis. É evidente que não se pode obrigar milhões de pessoas a viver de uma determinada maneira se não forem usados poderosos instrumentos de coerção. A igreja católica, particularmente, está manchada pelo passado do tribunal da inquisição, embora esta possa ser perfeitamente compreendida no contexto de sua época.

Isto pode repetir-se na época atual? O senso comum repele tal hipótese como bizarra, mas um temor fica. É preciso convir, contudo, que se no passado as pessoas permitiam que a religião controlasse diversos aspectos de suas vidas, era porque a religião dava resposta a demandas que igualmente surgiam de vários aspectos de suas vidas: além de não haver quem lhes desse conforto espiritual, tampouco havia quem lhes proporcionasse justiça, estabilidade, amparo, normas de conduta, explicação para o que não entendiam. Hoje essas demandas são bem ou mal satisfeitas por associações e instituições surgidas na sociedade civil, a ciência fornece respostas a quase todas as perguntas, e a religião está confinada ao terreno do misticismo e das crenças íntimas. Mas se o povo elege tantos pastores, é um sinal de que ainda busca um "algo mais" para satisfazer demandas que não estão sendo satisfeitas devidamente pela sociedade civil.

Não sei até onde nos levará essa virada para a religião, mas vejo-a como um necessário momento de reflexão diante de uma crise que não é apenas política e econômica, mas também moral. É como voltar às origens e perguntar: onde foi que erramos?

sábado, 29 de junho de 2019

Positivismo e Espiritismo, tudo a ver

A revista Leituras da História surgiu no último número com um artigo que me surpreendeu, por eu julgar que juntava fatos que não tinham correlação entre si: Ideais Republicanos de Kardec.

Acredito que a maioria das pessoas não terá dificuldade em identificar Alan Kardec, o fundador do Espiritismo, doutrina religiosa de larga difusão entre os brasileiros. Mas pergunte a um francês quem foi Kardec. Provavelmente ele não saberá. O mesmo ocorreu com Auguste Comte, filósofo criador do Positivismo, doutrina que igualmente tinha pretensões religiosas, de grande influência no Brasil ao final do século 19, mas de pouco sucesso na França onde Comte nasceu. O pouco comentado Jean-Christophe Rufin, de O Império e os Novos Bárbaros, já comentava o fenômeno de ideias já esquecidas na Europa onde nasceram terem um reavivamento extemporâneo em países do Terceiro Mundo, por vezes assumindo uma forma bem diferente de sua versão original.

O referido artigo mostra como Espiritismo e Positivismo floresceram lado a lado na segunda metade do século 19, ambos brandindo um discurso pró-república, pretensamente esclarecido e oposto ao obscurantismo monárquico e católico, sem cair no revolucionarismo socialista que vicejava no mesmo período. Não espanta que fosse assim, pois tanto um quanto outro eram praticados pela mesma classe de intelectuais imbuídos do cientificismo característico da época. Havia a crença de que o progresso apagaria as nódoas da ignorância, do fanatismo e da superstição, e elevaria o padrão de vida de todas as classes sociais.

Esta crença era generalizada em todo o mundo ocidental, mas no Brasil tornou-se particularmente aguda, posto que aqui as diferenças sociais eram enormes, os intelectuais percebiam o chocante contraste entre seu pensamento esclarecido e as massas ignaras, a culpava-se a doutrina católica pela manutenção do povo no obscurantismo. Foi nesse contexto que tanto o Positivismo quanto o Espiritismo encontraram solo fértil, e irmanaram-se na luta em prol de uma república, que pensava-se, viria tirar o país do atraso.

Mais de um século depois, podemos ver o quanto a história do país foi marcada pela adesão a estas doutrinas. Ficou particularmente marcada a dicotomia Superior X Inferior, enfatizada pelo espiritismo, que narrava uma evolução de espíritos rumo a um plano superior, bem como pelo positivismo, que pregava o governo de homens superiores na forma de uma "ditadura científica". Este homem superior, esclarecido, detentor de conhecimento, seria necessariamente também um homem solidário, praticante da caridade e tendo em vista o bem comum. A massa ignara seria apenas um objeto passivo que deveria ser moldado conforme a evolução a ser conduzida pelos homens superiores. Mesmo que com outras palavras, essas ideias penetraram fundo na mentalidade dos brasileiros por todo o século 20, e só no presente século deram sinal de esgotamento.

O que dizer do presente governo? Seria um herdeiro dessa tradição cientificista-autoritária, ou um restaurador do obscurantismo que essa tradição quis sepultar ainda no século 19? Difícil dizer, e quero crer que não seja nem um nem outro, mas que possa abrir caminho para uma nova leitura da realidade nacional, a ser feita pelos que vierem depois. Que nunca mais tenhamos que catar na lata de lixo velhas ideias para reciclar,

sábado, 25 de maio de 2019

Porque a Economia Brasileira não tem um Crescimento Sustentado em longo prazo

Esta é uma pergunta que tem sido muito feita ultimamente, enquanto estamos nesse impasse de ausência de crescimento e espera por reformas. Como tudo o que se refere à economia, tem muitas respostas e dá para discutir longamente. Mas vou seguir a pista da comparação com aqueles que eram pobres como nós e conseguiram o crescimento sustentado que almejamos: os novos países industrializados da Ásia.

Respondo sem titubear: basicamente, a causa da ausência de um crescimento sustentado é a baixa taxa de poupança interna. Esse tem sido o diferencial entre o Brasil e os países da Ásia, que desde os anos 60 mantém um crescimento sustentado com altas taxas de poupança interna.

Antes dos anos 80, nós optamos pela poupança externa (endividamento) e pela emissão de moeda, causando inflação. O crescimento sustentado por esses fatores é sempre temporário. As taxas de juros não se mantém baixas indefinidamente. E a emissão de moeda dá um resultado imediato, mas a médio prazo, com a perda do poder aquisitivo da população, o consumo cai, as empresas quebram e mandam embora. As robustas taxas de crescimento anteriores a 1980 escondiam um desastre financeiro: os ganhos que os trabalhadores obtinham com o pleno emprego eram prontamente anulados pelo surto inflacionário que vinha em seguida. Assim obtivemos uma combinação de alto crescimento com pouca ou nenhuma inclusão social, dando origem ao quadro de alta desigualdade que persiste até hoje.

Com o Plano Real, a inflação foi controlada, mas persistiram diversos desajustes nas contas públicas, daí não ter havido um crescimento sustentado. A crise de 1997 nos pegou com força porque tínhamos poucas reservas externas. Com os cortes e privatizações promovidos por FHC, à custa de alta impopularidade, o país chegou no início do século 21 com mais reservas e um quadro econômico mais estável, que combinado com um contexto externo favorável (alta dos preços das commodities) permitiu um surto de crescimento nos dois mandatos de Lula após uma breve recessão no primeiro ano, esta causada pelas incertezas que se dissiparam quando o mercado percebeu que Lula não ia desmantelar o legado do Plano Real, conforme era prometido pelo PT em campanhas passadas.

Preservando a macroeconomia herdada de FHC, Lula conseguiu manter boas taxas de crescimento em seus dois mandatos, mas tampouco preocupou-se com a sustentabilidade a longo prazo. Isto significou que os desajustes das contas deixados pela administração passada, entre os quais já se destacava o da previdência, não foram mexidos: Lula apenas preocupou-se em surfar a onda de prosperidade. A situação começou a degringolar após o anúncio da Nova Matriz Econômica já na metade do segundo mandato, mas ninguém percebeu isso de imediato porque o governo continuou gastando a fim de manter o crescimento alto mesmo após a crise de 2008, que Lula ironizou chamando-a de “marolinha”.

A Nova Matriz Econômica ressuscitou o nacional-estatismo esgotado desde os anos 80, e revelou-se obviamente desastrosa, sobretudo para a Petrobrás, que foi obrigada a manter os preços dos combustíveis artificialmente baixos e quase quebrou. Nesse quadro, a corrupção teve um efeito mais de desprestígio político do que de prejuízo econômico, embora não seja difícil construir teorias conspiratórias afirmando que a causa da recessão foi a Lava-Jato e os EUA de olho no pré-sal. Com enorme desequilíbrio nas contas, Lula terminou seu mandato saindo bonito na foto, mas legou uma bomba para explodir no colo de sua sucessora.

Desde então a incerteza política tem sido a causa da ausência da retomada do crescimento: Dilma viu a economia se deteriorar durante seu primeiro mandato, e fez uma campanha agressiva e cheia de mentiras para se reeleger. Conseguiu, mas logo no primeiro mês ficou flagrante que a crise era real. Enfurecido com o estelionato eleitoral, o povo abandonou a presidente a seus inimigos, que a destituíram do cargo sem que ninguém movesse uma palha para defendê-la. Seu sucessor, figura obscura e desprestigiada, nem de longe teve força no parlamento para fazer os ajustes necessários, na verdade era um refém dos deputados em razão de suas práticas corruptas. Agora a questão é saber se Bolsonaro terá a força que Temer não teve.

Crescimento sustentável, só com contas no azul e alta poupança interna. Desenvolvimento sustentável é desenvolvimento onde as contas fecham, onde a verba sai do orçamento e é aplicada conforme previsto sem desvios, onde os contratos são respeitados e o prometido é cumprido. O mais é embromação.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Maio de 1968, Maio de 2019

O entendimento dos fenômenos consiste em identificar similaridade onde tudo parece diferente, e perceber diferenças onde tudo parece igual. Assim sabemos que um camundongo é parente de uma capivara, e não de uma toupeira. No estudo da História, deve-se notar quando certos eventos se repetem, e procurar compara-los após remove-los de seu contexto específico.

A discussão é antiga. Uns dizem que a História se repete, outros dizem que são os historiadores que se repetem uns aos outros. Mas observando as recentes manifestações estudantis anti-Bolsonaro, não pude deixar de lembrar de outro maio, o de 1968. Há alguma semelhança após 51 anos?

O senso comum afirma que manifestações anti-governo ocorrem em momentos de crise, quando a população está obviamente insatisfeita. Mas não foi assim em maio de 1968. A explosão de descontentamento da juventude de então decorreu do surto de prosperidade do pós-guerra, que fez aumentar enormemente o número de estudantes universitários, os quais, pela primeira vez, puderam tornar-se protagonistas da História. Sentindo-se emponderados, eles clamavam por hedonismo. Queriam vida boa e acesso ao dormitório das meninas, ao invés da vida dura de trabalhar desde cedo sob as ordens dos pais. A aliança que no primeiro instante formou-se entre o movimento estudantil e os trabalhadores logo mostrou-se um mal entendido. Hoje aquele pessoal parece um bando de românticos inconsequentes.

Guardadas as proporções, algo semelhante ocorreu no Brasil em 2013, quando o país foi sacudido por um surto de manifestações tão violentas quanto inesperadas. Tinha ocorrido um período de prosperidade nos anos anteriores, o que fez despertar muitas expectativas. A decepção explodiu quando o povo se inteirou do engodo do governo Dilma.

Diferentemente de 1968 e 2013, as manifestações estudantis agora ocorrem, coerentemente, em um momento de retração econômica com cortes diversos. Mas o discurso parece requentado. E não se observa aliança entre trabalhadores e estudantes. Sabe-se que o movimento estudantil, desde muito, tem sido monopolizado por determinados partidos políticos, já nada tem de romântico ou inconsequente. Diante deste quadro, é impossível não pensar na acusação que foi feita por Bolsonaro: serão todos um bando de idiotas úteis?

Quem viver, verá.

sábado, 27 de abril de 2019

Em Busca do Jesus Histórico

É uma discussão antiga: quem foi o "verdadeiro" Jesus? Um místico? Um revolucionário incompreendido? Um iniciado essênio? Mero personagem fabricado? Não é fácil de responder, pois são escassas as fontes primárias. O próprio não deixou nada escrito, e ao que tudo indica, era analfabeto. Os primeiros evangelhos só começaram a surgir cem anos depois. Em seu tempo, nenhum cronista o mencionou, embora outros personagens dos evangelhos tenham sido citados. O grande historiador judeu Flavius Josephus não fala de Jesus, embora mencione João Batista.
Com certeza muito ainda será discutido, e não falta espaço para fantasias várias. Mas toda época de páscoa vemos encenada na televisão um enredo mal contado: Jesus chega em Jerusalém montado em um burro e é recebido como rei. Depois expulsa os mercadores do templo, mas quando questionado sobre se é válido pagar impostos a Roma, responde que a César o que é de César. Em seguida é traído por um discípulo e entregue aos romanos, mas as autoridades do lugar não querem condená-lo. Pressionado pelo sumo sacerdote, o procurador romano Pôncio Pilatos enfim concorda em condenar Jesus à morte.

Digo um enredo mal contado porque destoa da imagem que é exposta nos evangelhos até este momento, e muitos personagens agem de forma contraditória, deixando perguntas em aberto. Por exemplo:

- Por que Jesus, que nunca pretendeu ser um líder político, deixou-se homenagear como rei no Domingo de Ramos?

- Por que Jesus agiu com violência contra os mercadores do templo, se em todas as demais passagens dos evangelhos ele se mostra pacífico?

- Qual a motivação de Judas Iscariotis ao trair Jesus?

- Por que Pilatus, reconhecido como um prócer violento e opressivo, não quis condenar Jesus?

- Por que tampouco Herodes quis condenar Jesus, embora ele fosse acusado de querer proclamar-se rei em seu lugar?

- Qual a motivação do sumo sacerdote Caifás ao insistir na condenação de Jesus?

Juntando trechos do evangelho com o conhecimento histórico da época, é possível formular algumas hipóteses para responder a essas perguntas. Começo com o personagem mais contraditório de todos: Judas Iscariotis. Por que, de um momento para o outro, ele resolveu trair seu mestre? Os evangelhos dizem que ele recebeu 30 denários pelo serviço. Terá sido o dinheiro a motivação? Quanto valeriam na época 30 denários?

Segundo os evangelhos, Judas depois se arrependeu e quis devolver o pagamento, mas este não pôde ser recolocado no tesouro sagrado, pois era "dinheiro de sangue". Os sacerdotes, então, usaram a importância para comprar um terreno onde foi criado um cemitério para estrangeiros. Deve ser lembrado: conforme o Pentateuco, cadáveres eram impuros, bem como os gentios (estrangeiros não judeus). Então, um terreno destinado a ser um cemitério para estrangeiros por certo não ficaria em uma área valorizada. Ou seja, Judas não só vendeu Jesus, mas vendeu-o barato. Claramente, sua motivação não foi o dinheiro.

É no próprio evangelho que encontramos a resposta para o procedimento de Judas. Em outra passagem, quando uma pecadora arrependida banha os pés de Jesus com um perfume caríssimo, Judas fica indignado e argumenta que melhor fariam vendendo o perfume e distribuindo o dinheiro aos pobres, ao que Jesus replica, incisivo, que "pobres sempre o tereis convosco, a mim nem sempre o tereis". Fica patente que o discípulo traidor não é um asceta, mas um revolucionário social. Interessa-o as condições materiais em que vive a população sob o domínio romano. O possível engajamento de Jesus em questões políticas e sociais já havia sido previamente descartado na passagem em que ele vai para o deserto para ser tentado. Satanás incita-o a transformar as pedras em pães, a fim de matar a fome, e promete-lhe o poder sobre todos os reinos da terra, mas Jesus recusa. Iscariotis, portanto, pode ser definido como um aluno que falhou neste teste e cedeu à tentação de Satanás, preferindo transformar pedras em pães (para alimentar o povo, mas também a si próprio, pois ninguém é de ferro) e ser investido do poder sobre os reinos (para libertar o povo, mas também para locupletar-se, presumo). De certa forma, ele é o patrono dos seguidores da moderna "Teologia da Libertação".

Naquela páscoa, quando Jesus foi recebido com ramos pela população de Jerusalém, grandes eram as esperanças depositadas nele. Mas ao invés de proclamar-se rei, Jesus ataca os mercadores do templo. Deve ser notado que a presença de mercadores no templo, na época, não consistia nenhuma transgressão. Eles não ocupavam as áreas sagradas, e sua função era necessária, pois vendiam os animais usados nos sacrifícios e faziam o intercâmbio de moedas para os peregrinos que vinham de países estrangeiros. Portanto, naquele dia Jesus não agiu nem como líder político, nem religioso, mas meramente como desordeiro. O desencanto é completo quando logo em seguida, indagado se é justo pagar impostos a Roma, Jesus manda dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus - uma resposta repleta de ironia, sendo apontada a incoerência de não querer pagar impostos e ao mesmo tempo usar o dinheiro romano, lastreado com seus impostos.

Não é difícil imaginar Judas naquele instante levando as mãos à cabeça. Sua decepção com Jesus é total. Pensa ele, da forma como age, aquele Jesus é um louco, está pedindo para ser trucidado, e trucidados também serão os imprudentes que forem encontrados junto dele. Urge eliminá-lo o quanto antes! Por isso Judas toma a decisão de entregar Jesus. Entretanto, seu arrependimento e posterior suicídio sugerem que as coisas não se passaram bem como ele previa. Talvez tivesse a esperança de que, com Jesus preso, seus seguidores se levantariam em rebelião. Isso não aconteceu.

Outro personagem mal explicado é o procônsul romano na Judéia, Pôncio Pilatus. As fontes históricas apontam-no como um governante violento, que nutre grande desprezo pelos judeus. Entretanto, os evangelhos afirmam que Pilatus procurou salvar Jesus, e concentram a culpa sobre Caifás, que exigia sua condenação. Qual dos Pilatus é o verdadeiro?

Na verdade, ambos, mas para fazer a ponte entre o primeiro e o segundo, é preciso transportar-se para o contexto da época. Roma, uma mera cidade-estado, controlava aqueles vastos domínios habitados por populações tão diversas mediante um delicado exercício de política e diplomacia denominado a Paz Romana. Os governantes das províncias procuravam o mais possível conciliar os interesses de Roma com os interesses das elites locais, bem como respeitar os costumes locais desde que não constituíssem afronta ao domínio romano. Com esta fórmula, uma certa dose de segurança e prosperidade era garantida aos habitantes, o suficiente para dissuadir rebeliões. Um compromisso tácito era conhecido: os governadores romanos tinham carta branca para aplicar todas as medidas repressivas que achassem necessário, mas se da aplicação dessas medidas resultasse o rompimento da Paz Romana, eles caíam em desgraça. Por isso, tinham que agir com cautela.

Podemos imaginar Pilatus furioso por haver sido tirado da cama para atender a uma questão interna daqueles bárbaros, mas ele está ciente de que sua posição é delicada. Uma rebelião pode eclodir na Judéia romana de um momento para o outro, e esta pode ser desencadeada tanto pelos seguidores de Jesus quanto pelos sacerdotes. Resolve, então, agir de forma estritamente política. Ele não deseja condenar Jesus, pois sabe que Jesus não se opõe a Roma, e seu desentendimento é apenas com os fariseus e sacerdotes, gente com quem Pilatus tampouco simpatiza. Mas um governante romano deve em primeiro lugar preservar a Paz Romana. Então resolve averiguar qual partido é o mais forte. Manda tirar do cárcere um outro preso tido como herói popular, chamado Barrabás, e conclama o povo a escolher quem será libertado: Barrabás ou Jesus? A escolha por Barrabás parece indicar que parte do populacho, tal como Judas, estava igualmente desapontada com as atitudes tomadas por Jesus nos últimos dias.

Outro personagem ambíguo é o rei Herodes Antipas, para cuja presença Jesus foi levado. Se Jesus é acusado de querer proclamar-se rei em seu lugar, então Herodes deveria ser mais que todos interessado em sua condenação. Mas o encontro de Jesus com Herodes é marcado pela galhofa. Herodes incita Jesus a praticar milagres, a fim de dar prova de que é capaz de fazê-lo, mas Jesus se recusa, então Herodes ri dele e o dispensa, desapontado. Fica patente que, em sua opinião, Jesus não passa de um fanfarrão. A hipótese do Jesus Revolucionário não foi levada a sério pelos dois homens mais poderosos da Judéia - para Pilatus, apenas um desordeiro, para Herodes, apenas um fanfarrão. Fica difícil, portanto, sustentar essa hipótese nos dias de hoje, embora muitos simpatizem com ela.

O papel de grande vilão do dia, segundo os evangelhos, ficou para Caifás. Mas sua posição deve ser examinada. Acreditaria ele em um Jesus revolucionário capaz de livrar os judeus do jugo romano? Ou temeria um Jesus reformador, capaz de provocar um cisma religioso? Em sua posição de sumo sacerdote, deveria levar em conta esta segunda hipótese. Um Jesus revolucionário poderia ser até potencial aliado, embora Caifás não pudesse dizê-lo abertamente. Mas levaria ele a sério um profeta tão anticonvencional e destoante dos demais profetas hebreus? A hipótese mais provável, a meu ver, é que Caifás, tanto quanto Pilatus, queria apenas preservar a Paz Romana, e não via em Jesus nem um líder político nem religioso, mas um perigoso agitador, capaz de atrair a repressão violenta da parte dos romanos.

Falta o personagem principal, o próprio Jesus. A forma como agiu naquela semana foi destoante de tudo o que fizera até então. Como explicar aquele Jesus agressivo, que expulsa a chicotadas os mercadores do templo, depois desilude os patriotas mandando-os pagar impostos a Roma, e por fim facilita a própria prisão? Como explicar aquele Jesus que antes tão altivo, recusa-se a defender-se quando diante de Pilatus e Herodes?

A única explicação lógica é que Jesus fez tudo deliberadamente, provocando o próprio martírio, ciente de que a comoção despertada por sua paixão, morte e suposta ressurreição seria suficiente para lançar o marco de uma nova religião, o que não aconteceria se ele tivesse uma morte natural, quando acabaria esquecido como tantos profetas populares de seu tempo. Neste caso, temos que admitir que Judas não foi de fato um traidor, mas um discípulo que apenas cumpriu as determinações do mestre.

Esta é minha modesta contribuição para o resgate do Jesus histórico.

sábado, 13 de abril de 2019

Paulo Freire e o fracasso da educação

Os resultados da educação no país são reconhecidamente ruins, e numerosas causas têm sido apontadas desde muito. Mas recentemente uma nova causa foi levantada e chamou a atenção: o principal responsável pelo malogro da educação nacional seria a influência de Paulo Freire, que ironicamente foi consagrado como o patrono da educação brasileira.

“Se temos uma filosofia de educação tão boa, [e] Paulo Freire é uma unanimidade, por que temos resultados tão ruins?”


São palavras do Ministro da Educação, Abraham Weintraub. Se a polêmica já chegou na esfera governamental, então deve ser discutida. Será Paulo Freire o culpado pelos sucessivos fracassos do país nas avaliações internacionais do desempenho dos alunos?

Na minha opinião, isso é um exagero. As avaliações internacionais colocam-nos juntos a países em sua maioria do Primeiro Mundo, com os quais saímos necessariamente perdendo em qualquer comparação. É óbvio que a causa principal é a precariedade material de nossas escolas e da própria estrutura familiar de boa parte dos alunos. Não estamos na Finlândia. E independente disto, Paulo Freire a priori não pode ser considerado o culpado, simplesmente porque ele nunca foi um educador, e sim um filósofo. O método a ele atribuído destina-se à alfabetização de adultos, portanto, não é de uso geral. Nossas escolas não podem afirmar que aplicam o método Paulo Freire, exceto em um sentido muito subjetivo. Sua obra mater, Pedagogia do Oprimido, não trata de didática, mas é de fato um apanhado de aforismos em prol da educação como veículo de transformação social em um mundo necessariamente dividido entre opressores e oprimidos. Esse discurso atraiu muitos admiradores que desejam uma educação libertária, tanto que seu livro é o terceiro mais citado do mundo em trabalhos acadêmicos na área de humanidades, fato frequentemente invocado como prova da excelência do suposto educador.

Mas os que citam Paulo Freire são em geral também filósofos que compartilham seus pontos de vista políticos. Não há nada de prático em sua obra no terreno da pedagogia, da didática, daquilo que pode efetivamente melhorar o desempenho dos alunos. Paulo Freire só é bom para dar nome a institutos, ser representado em estátuas e servir de referência a teses de doutorado muito complicadas. Mesmo no terreno da alfabetização de adultos, alvo original de seu método, os resultados são questionáveis. Paulo Freire já retornou do exílio há muitas décadas e exerceu diversos cargos públicos até sua morte, mas o Brasil continua um dos campeões em analfabetos adultos. Os mais ingênuos afirmam que o ideário de Paulo Freire é bom, o problema seria o uso político que se faz dele, como se não fosse este o objetivo de Freire.

De minha parte, acredito que a parcela de culpa de Paulo Freire quanto ao fracasso de nossa educação não vem de sua atuação como educador, coisa que ele nunca foi, mas sim, efetivamente, de sua atuação como filósofo. O discurso de Freire criou um ambiente ideal para a desvalorização do ensino e da própria figura do professor, ao colocar a conscientização social como foco principal, e invalidar a hierarquia que deve existir entre educador e educando. Assim, pode-se sempre argumentar que o ensino está ruim, mas isso não é grave porque a "verdadeira missão" do mestre não é ensinar as matérias, mas sim "formar cidadãos" - expressão de sentido vago que cada um pode interpretar como quiser. Ao nivelar professor e aluno (a educação deve ser dialógica, esquecido que o diálogo pressupõe equivalência de conhecimento entre interlocutores) e aluno bom e aluno ruim (não existe bom nem ruim, só diferentes) Freire também abre caminho para métodos inovadores de avaliação que excluem provas, e portanto camuflam as deficiências do ensino, aprovando automaticamente todos os alunos - algo sem dúvida do agrado de políticos que querem exibir boas estatísticas ao Ministério da Educação.

Mas Freire vai além. Destrói o próprio conceito de honra ao mérito, origem do esforço de auto superação que deve necessariamente existir para todo aquele que pretende distinguir-se pela educação. Na visão binária de Freire, onde só há oprimidos e opressores, e onde quem não é oprimido é opressor, o aluno que procura superar seu colega é um vil membro da classe dos opressores, inimigo da igualdade, e o professor que procura melhorar o desempenho de sua turma mediante avaliações rigorosas é um autoritário que recusa o diálogo. A tendência inevitável de quem aceita esse ideário será conformar-se a uma vala comum de mediocridade. Falta alguém perguntar: se eu não sou opressor nem oprimido, onde eu entro aí? Posso ser melhor que meu colega? Posso cobrar mais de meus alunos?

Se Paulo Freire quis promover uma revolução com seu método, sem dúvida que fracassou. Mas antes de morrer, talvez o mestre tenha aprendido uma lição. Sem disciplina não se faz nada. Nem revolução.

domingo, 31 de março de 2019

Rememorando 1964

Em 1946, ninguém lembrava do golpe de 1889. Em 1986, ninguém lembrava da revolução de 1930. Mas hoje, o golpe de 1964 continua alvo de agitadas polêmicas, a começar pela própria definição, se tratou-se de um golpe, de um contragolpe ou de uma revolução. Se o passado recusa-se a ficar quieto nos livros de História, é porque não é passado, e sim presente.

É visível o embaraço que a instrução do presidente Bolsonaro de comemorar o golpe de 1964 causou aos chefes militares. Mas primeiro de tudo, deve-se esclarecer o que isto significa para o próprio Bolsonaro. Nem ele, nem qualquer integrante de seu governo tiveram qualquer participação nos governos instituídos a partir do golpe de 1964, e o protagonismo de Bolsonaro só começa no governo Sarney. Ele é apenas um admirador daquele período. E de resto, seu governo tido como neoliberal nada tem a ver com o desenvolvimentismo nacional-estatista seguido pelos presidentes do período militar.

Passando ao largo da questão de comemorar ou não a data, enaltecer ou criticar o regime, deve-se entender o que de fato aconteceu na época. Havia uma forte rejeição ao governo Goulart e um genuíno temor a uma revolução ou guerra civil. Isto fica patente nas manifestações de massa contrárias ao presidente, até então as mais numerosas do país. Mas logo mostrou-se ingênuo o propósito de retomar de imediato a normalidade após a saída do presidente, como se a normalidade constitucional, este delicado pacto, pudesse ser desligada e religada como quem aciona um interruptor. Quem assumiu o poder não foi a cúpula da UDN e a ESG, ambos logo alijados do comando por uma série de "golpes dentro do golpe" entre 1964 e 1969. Castelo Branco assumiu a presidência com plenos poderes, mas era uma mandatário já esvaziado de poderes quando passou a presidência a Costa e Silva, com cuja candidatura não concordava. Costa e Silva assinou o AI-5, mas terminou seu governo como mero fantoche, imobilizado por uma trombose. O poder foi de fato assumido por um estamento burocrático que vinha sendo gestado desde os anos 50, quando Juscelino iniciou a prática de comprar o apoio dos militares dando-lhes cargos na administração e nas empresas estatais.

É emblemática a figura de Garrastazu Médici, que presidiu o país no período mais violento, mas que não costumava vociferar bravatas em seus discursos, e apreciava a ditadura porque ela lhe dava poderes para levar seu projeto desenvolvimentista sem empecilhos. Neste aspecto, não se pode considerar o regime de 1964 como uma singularidade: foi a continuação do projeto varguista dos anos 30, do desenvolvimento induzido pelo Estado autoritário. De fato, foi durante o período militar que o nacional-estatismo foi levado ao auge, nos anos setenta, e ao esgotamento nos anos oitenta. E deve ser lembrado que o nacional-estatismo vicejou muito mais tempo sob regimes ditatoriais do que democráticos, desde o Estado Novo de Vargas, o que é coerente com sua premissa básica: o desenvolvimento deve ser conduzido pelo Estado, e não pelos cidadãos.

Mas o próprio nacional-estatismo autoritário teve suas raízes em tempos mais antigos. É uma herança do positivismo de Comte, muito apreciado pelas elites intelectuais e militares da segunda metade do século 19. Comte repudiava a democracia parlamentar e propugnava em seu lugar uma "ditatura republicana, racional e científica", conduzida por homens superiores e imbuídos do propósito único de conduzir o país ao progresso. A descrença nas formas representativas de governo empurrou gerações de jovens militares ao radicalismo no começo do século 20, dividindo-se entre o fascismo e o comunismo. Embora o regime de 1964 fosse visceralmente anticomunista, deve ser lembrado que o comunismo, no Brasil, surgiu com o tenentismo dos anos 20, e entre Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra e Lamarca, numerosos comunistas históricos foram oriundos das fileiras do exército.

Contudo, o regime de 1964 de certa forma implantou aquele projeto dos positivistas do século anterior. Era uma "ditadura republicana" no sentido em que os presidentes tinham plenos poderes, mas seus mandatos eram fixos, preservando o formato republicano do regime. Era "racional e científico" no sentido em que a administração era conduzida por tecnocratas, um conjunto de superministros cuja atuação ultrapassava o escopo original de suas pastas. Esses tecnocratas supostamente exerceriam a administração de acordo com critérios puramente técnicos, em substituição aos interesses pessoais dos políticos. Como se sabe, o regime produziu alguns resultados na economia, mas esgotou-se sem nunca deixar de ser violento.

Enquanto o golpe de 1964 não passar definitivamente aos livros de História, o país permanecerá preso ao contexto que o gerou. Bolsonaro podia começar por deixar de lado a sua admiração pueril pela ditadura, assumir que a fase histórica é outra, e que as propostas de seu governo são opostas ao desenvolvimento tutelado pelo Estado, que se acreditava na época.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Respondendo à pergunta: para que serve, afinal, o ensino de História?

Da boa coleção de revistas de História que tínhamos poucos anos atrás nas bancas, parece que sobrou somente a Leituras da História. Da Revista de História da Biblioteca Nacional, eu me abasteço e um bom sebo que tem todos os números antigos. Mas nas bancas, tenho que me virar mesmo com o Leituras da História. Que entretanto melhorou um pouco de qualidade, talvez alguns colaboradores das revistas descontinuadas tenham se mudado para ela. O último número fechou com um artigo instigante: Para que serve, afinal, o ensino de História?

O artigo enumera certos sofismas antigos que, infelizmente, os professores de História continuam a repetir a seus alunos. Até aqui sem novidade. Um pequeno passo atrás em uma revista que vem dando passos à frente.
 
"Entender porque tivemos habitantes nesse território há milhares de anos, e só termos sido 'descobertos' em 1500... Entender porque é comum falar em Descobrimento do Brasil, se não havia um Brasil... Entender porque Pedro I era português e nobre, e trouxe a 'independência' ao Brasil... Entender porque Pedro II manteve a escravidão por 48 dos 49 anos que governou, e mesmo assim é conhecido por um sábio... Porque Getúlio Vargas é lembrado e homenageado mesmo tendo sido um ditador sombrio a maior parte de seu governo..."


Mas não ficou claro se o autor endossa essas afirmações, ou se lança o debate. Por isso vale a pena respondê-las uma por uma.

"Entender porque tivemos habitantes nesse território há milhares de anos, e só termos sido 'descobertos' em 1500"


O sofisma é: se o território já era habitado em 1500, então o Brasil já havia sido descoberto por seus primitivos habitantes. Só que o que havia antes não era o Brasil, mas a região geográfica habitada por diversos povos que não tinham qualquer ideia de que faziam parte de uma nação. Bom ou mau, feio o bonito, o Brasil como o entendemos é uma criação do colonizador e passa a existir a partir de 1500.

"Entender porque é comum falar em Descobrimento do Brasil, se não havia um Brasil"


De fato, seria melhor falar da fundação do Brasil, ao invés da descoberta.

"Entender porque havia milhões de habitantes nas primeiras décadas após o 'descobrimento', e depois disso ficaram restrito a poucos milhares"


A ideia que se quer vender é que ocorreu aqui um genocídio, e os milhões de índios que existiam em 1500 foram massacrados até se tornarem os poucos milhares que existem hoje. É um antigo sofisma. Não se pode colocar em um mesmo recenseamento indivíduos que viveram em séculos diferentes. É óbvio que todos os índios que viviam aqui em 1500 já morreram, seja de velhice, doença ou até combate com os colonos. Foram sucedidos por outras gerações. Só que a cada geração, mais e mais índios abandonavam a vida tribal e se integravam de bom ou mau grado na sociedade do colonizador. Ou seja, os índios "morreram" no sentido antropológico, não no sentido biológico. Se houve aqui um genocídio, como se explica que tantos brasileiros da atualidade tenham genes dos antigos habitantes da terra?

"Entender porque Pedro I era português e nobre, e trouxe a 'independência' ao Brasil"


De fato, Dom Pedro I poderia ter acatado a ordem de retornar a Lisboa, e ali levar sossegadamente a vida dissoluta que tantos fidalgos portugueses já tiveram antes dele. Mas preferiu arriscar o pescoço e fazer a nossa independência, grafada entre aspas porque não corresponde ao que o autor desejaria que fosse. Poucos personagens históricos são alvo de tanta tentativa de desmoralização por parte dos professores de História, que o pintam como um pândego, e até um semi-analfabeto.

"Entender porque Pedro II manteve a escravidão por 48 dos 49 anos que governou, e mesmo assim é conhecido por um sábio"


Essa é até desonestidade intelectual. Dom Pedro II não era monarca absoluto, portanto não podia abolir a escravidão sem a aprovação de um parlamento integrado por donos de escravos.
 
"Porque Getúlio Vargas é lembrado e homenageado mesmo tendo sido um ditador sombrio a maior parte de seu governo"


Os personagens históricos são relevantes pelo que influenciaram no rumo dos acontecimentos, e não pelo julgamento moral que é feito deles. Sendo eles homens públicos, tanto o bem quanto o mal que fizeram não podem ser creditados unicamente à sua pessoa, mas divide-se coletivamente entre todos aqueles que o apoiaram e possibilitaram que fizesse aquele bem e aquele mal. Getúlio Vargas foi um ditador sombrio a maior parte de seu governo, mas pelo que realizou, é indubitavelmente o personagem brasileiro mais importante do século 20.

Esses são os sofismas. As outras questões levantadas são menos óbvias.

"Entender porque na primeira experiência democrática brasileira, entre cinco presidentes, um se matou, outro renunciou e outro foi derrubado"


Os políticos de então eram menos democráticos que o regime. Sempre havia alguém clamando por um golpe, e prevalecia a crença de que as forças armadas deveriam intervir como "poder moderador".

"Entender porque Castelo Branco assumiu prometendo uma transição rápida, e os militares ficaram 21 anos no poder"


Quem efetivamente assumiu o poder não foi a cúpula udenista nem o pessoal da ESG, do qual Castelo fazia parte. Esses deram o golpe, mas sucessivos "golpes dentro do golpe" vieram a afastá-los e colocaram em seu lugar um time de burocratas desenvolvimentistas, que acreditavam que a democracia só deveria ser restabelecida após o país se tornar desenvolvido.

"Entender porque os planos econômicos de Sarney e Collor não deram certo, e ninguém foi responsabilizado"


Na verdade eles fizeram aquilo que o pessoal de então sonhava: resolver os problemas econômicos por passe de mágica. Sarney, então, por irônico que pareça, foi responsável pela primeira experiência socialista do país: ele seguiu todo o receituário que a esquerda pregava desde os anos 60, do congelamento de preços à moratória da dívida externa. Mas parou após a vitória do MDB nas eleições.

"Entender porque o PT prometeu um governo ético e caiu na vala comum das transações mesquinhas"


O combate à corrupção sempre foi uma bandeira da direita, pois a proibição de roubar deriva do tabu da inviolabilidade da propriedade privada. O PT roubava para o bem do povo, ou assim acreditava.

Já com o fecho do artigo, eu concordo plenamente:

"Ela é esse resgate, e ao mesmo tempo esse roteiro. Entender o que se passou para compreender a bagunça do presente e balizar as ações"

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Carnaval é só Carnaval

Está chegando o carnaval, e esse foi o título de uma crônica publicada por Diogo Mainardi na revista Veja, e lá se vão mais de 10 anos. Não que eu seja um grande fã deste cronista, que sempre considerei amargo e repetitivo. Mas na ocasião admirei a sua disposição em refutar certos lugares-comuns que ao longo dos anos os brasileiros se acostumaram a ter como verdade acerca do carnaval. De fato, há pelo menos 80 anos insistimos em ver um significado antropológico profundo no carnaval brasileiro, que seria o emblema máximo da brasilidade, mesmo até a chave para o entendimento de como nossa sociedade funciona e se mantem a despeito da enorme desigualdade.

Não vou repetir aqui esses chavões um por um. Mas permito-me constatar que passados 80 anos, esses chavões materializaram uma imagem caricatural do país, veiculada sobretudo no exterior, onde carnaval é a primeira coisa que vem à cabeça do estrangeiro quando se fala em Brasil. Muitos não veem mal nisso. Ter a imagem do país associada a uma grande festa onde todos se divertem seria uma coisa positiva, ou no máximo uma tolice inócua. O problema surge quando se pretende enxergar aí um significado histórico e antropológico profundo, e isso é o que tem sido feito ao longo dos anos.

Tentando entender como essa imagem se solidificou, a principal pista é a grande aceitação dela no exterior. Claramente introjetamos uma leitura que os estrangeiros têm feito de nós ao longo dos anos, e se damos o que eles querem ver, temos em troca o reconhecimento. Desde o século 16 existe na Europa uma utopia a respeito dos trópicos do Novo Mundo, vistos como uma espécie de Jardim do Éden antes do pecado original - diz o provérbio, não existe pecado do lado de baixo do equador. O que queriam dizer era que do lado de baixo do equador, não seria errado fazer o que era errado fazer em casa. Ali podia-se fazer sexo com as mulheres índias e ter várias esposas, o que efetivamente aconteceu. E daí nasceu um mito fundador do Brasil relacionado ao sexo: o povo brasileiro, e por conseguinte o país, só pôde surgir mediante a supressão da moral cristã e à conjunção carnal ilimitada entre todas as raças, em uma enorme orgia até hoje celebrada no carnaval. Quem quiser entender o Brasil, portanto, deve entender o carnaval. Por isso que somos assim, sem culpa, enquanto os puritanos do norte reprimiam sua sexualidade e cultivavam o racismo.

Há algum fundamento nesta teoria? Ou ela é aceita apenas porque satisfaz as fantasias que os povos do norte têm historicamente alimentado a respeito dos trópicos? Na verdade, não há muito fundamento. Os portugueses católicos não tinham uma atitude em relação ao sexo muito diferente daquela dos ingleses protestantes, mas havia outra diferença, esta sim fundamental: quando chegaram aqui as primeiras levas de colonos, não havia mulheres. Ao contrário dos colonos da América do Norte, que sempre trouxeram mulheres em suas jornadas. Portanto, para os portugueses, coabitar com índias não era uma escolha, mas uma necessidade, não apenas para produzir descendentes, indispensáveis para quem está se estabelecendo em uma terra estranha e despovoada, mas também para firmar alianças com as tribos. Por conseguinte, essa coabitação não se deu na forma de uma desbragada orgia como é imaginada, mas tinha que amoldar-se aos costumes dos locais, que aceitavam a poligamia, mas não o abandono de esposa e filhos. Os colonos não saíam por aí a emprenhar índias e abandona-las, como afirma a caricatura; eles tinham que tratar suas esposas com deferência, se quisessem continuar a contar com o favor das tribos.

Foi assim nos primórdios. Algumas décadas depois, já estabelecidos no litoral e contando com mulheres europeias chegando em quantidade nos navios, os colonos puderam dispensar as alianças com as tribos e retomar a moral sexual cristã. A partir de então o sexo com nativas assumiu o caráter de entretenimento, senão de estupro, que se mantém até hoje. Mas os descendentes mestiços originados daquela fase de "intoxicação sexual", como se refere Gilberto Freyre, continuaram a produzir descendentes, e hoje oferecem ao mundo a imagem de um povo que não vê barreiras raciais quando se trata de fazer amor, e supostamente por este motivo, aqui "não existe racismo". E no carnaval todos festejam.

Não é difícil entender como o estrangeiro comprou uma imagem que endossava o que ele esperava ver. Mais difícil é entender porque o brasileiro tanto se esforçou para vender uma imagem que, bem considerada, era desairosa. É preciso lembrar que a noção da não existência de pecado nas colônias deriva de uma dicotomia Civilizado X Selvagem. O civilizado é regido por costumes, o selvagem se deixa levar por instintos. O civilizado tem uma moral, o selvagem não tem. Uma relação baseada em uma dicotomia Civilizado X Selvagem nunca é de fato amistosa, ainda que pareça. Para entender, é preciso retornar ao passado. Até o início do século 20, o carnaval era muito mal visto pelas "boas famílias", mas ali pelos anos 30, as coisas mudaram. O país passava por uma fase de autoafirmação e nativismo, buscando por mitos fundadores e o resgate de "coisas nossas" supostamente genuínas. Daí começou a glorificação do carnaval e a construção de teorias que afirmavam seu suposto significado antropológico. Queríamos exibir ao mundo uma imagem que fosse autenticamente nossa, e assim reconhecida pelo estrangeiro. Mas acabamos introjetando ideias que esses mesmos estrangeiros sempre nutriram a nosso respeito, e resgatamos o país da esbórnia sexual, festejado no carnaval.

Os principais responsáveis por esta construção foram intelectuais como Gilberto Freyre, apologista da mistura de raças, mas obcecado por sexo interracial, como ele deixou claro em um livro de memórias intitulada De Menino a Homem, onde narra diversas experiências sexuais bizarras de sua juventude. Mas também havia os políticos que consideravam a oficialização do carnaval como festa nacional uma maneira de domestica-lo, transformando as letras de samba em glorificação do regime, e os foliões em paradistas bem comportados. O fato é que, desde então, o carnaval perdeu muito de sua espontaneidade e de suas características originais.

Já outros comentaristas preferem apontar um significado social no carnaval - seria uma colossal confraternização entre as classes. Ao menos naqueles dias os papéis se inverteriam, o pobre poderia vestir-se de rei e festejar ao lado do rico. Sem essa válvula de escape o país supostamente explodiria em conflitos. Uns acham isso bom, porque permite a paz social, e outros acham isso ruim, porque retarda a revolução. Mas tem algum fundamento?

Muito pouco. Na Roma antiga, de onde se originou o carnaval, de fato havia o costume de se vestir um escravo como rei durante certa festividade. Mas no Brasil de hoje, o carnaval foi apossado pela indústria turística. Uma pequena parcela da população adora o carnaval, outra pequena parcela odeia-o, e para a maioria trata-se apenas de um feriado que aproveitam para viajar. Alguém acredita que se o carnaval for suspenso, haverá uma revolução?

Só podemos repetir a conclusão de Mainardi. Carnaval é só carnaval.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Para os historiadores do futuro explicarem

A História só pode ser devidamente apreciada com um mínimo de distanciamento no tempo. Como se diz, não se pode contemplar uma catedral estando dentro dela. E um fenômeno que os historiadores do futuro terão que explicar é a queda do PT, o partido dos trabalhadores que dez anos atrás exibia ampla aprovação, mas terminou rejeitado por esses mesmos trabalhadores.

Já dei minha opinião a respeito em outras oportunidades. Mas uma coisa que sempre me chamou a atenção é a capacidade de certas figuras populares, intelectualmente rasas, de sintetizar em poucas palavras a explicação para um fenômeno que os intelectuais não conseguem ou não querem explicar. Nesse artigo do Jornal GGN, intitulado o Povo Quer as Milícias no Poder, o rapper Mano Brown assim criticou o PT:

Deixou de entender o povão, já era. Se é Partido dos Trabalhadores, tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender

Ele disse o mesmo que eu já repeti tantas vezes: o principal motivo do divórcio entre o Partido dos Trabalhadores e o trabalhador foi a negligência com a questão da segurança pública, que é a preocupação número um do povo das periferias assoladas pelo crime. Mas como um partido que sempre se disse antenado com o povo pôde ignorar uma demanda tão óbvia?

No mesmo artigo, a socióloga Angelina Peralva ressalta que a violência no Brasil se acentuou no período pós-ditadura. De fato, ela já vinha em ascensão durante a ditadura, negligenciada pelos militares, mas foi mesmo nos anos 80 que deu um salto. E esse salto está diretamente ligado à ascensão de governos de esquerda, sendo o exemplo mais notável Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Como se sabe, Brizola proibiu a polícia de subir aos morros, e em consequência os traficantes se armaram e passaram a dominar seus territórios como um exército de ocupação. Em resposta, a população se cotizou para pagar guardas particulares, geralmente policiais ou ex-policiais, que depois se tornaram as milícias.

Como isso foi possível?

O equívoco fundamental, a meu ver, foi a própria abordagem da questão da segurança por parte dos petistas, em sua maioria indivíduos egressos de meios intelectuais sem contato com o povo nas ruas. Foi dado ao fenômeno da criminalidade uma leitura de luta de classes, sob a óptica marxista - por conseguinte, reprimir os criminosos é reprimir o povo. A abordagem marxista não enxerga o indivíduo, apenas a classe social. Como tanto os marginais quanto os trabalhadores pertencem à classe dos proletários, então, julgam os petistas, eles são a mesma coisa, e devem merecer o mesmo favor. Isso vai diametralmente contra o enfoque que o povo das periferias tem a respeito de si próprio e dos marginais: a dicotomia Trabalhador X Vagabundo. Uma vez que habita as mesmas paragens que os marginais, o trabalhador fica indefeso contra eles, exceto se contar com as milícias. Natural que busque apoio em quem promete dureza no combate ao crime.

Essa substituição dos trabalhadores pelos marginais, aqueles a quem Marx denominava o lúmpen-proletariado, na verdade vem desde o fim da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores. O proletariado não ingressava na guerrilha, mas em contrapartida, as favelas cresciam. Daí que a esquerda foi buscar seu novo público entre esses lúmpens, aí entendidos não só como os marginais, mas como todo grupo de indivíduos desajustados e inconformistas. Isso escandalizou o povo das periferias, profundamente conservador, que correu para os pastores evangélicos e selou de vez o divórcio com o PT.

Frequentador que sou de forum´s da internet, chama-me a atenção, também, a resistência dos petistas em admitir seu equívoco. Isso se deve, a meu ver, ao DNA revolucionário do PT. O tópico foi debatido nesse artigo, também do Jornal GGN.

É certo que o PT nunca foi, formalmente, um partido revolucionário, como era o antigo pecebão. Mas foi constituído desde o princípio por elementos oriundos de movimentos revolucionários. O revolucionário não é igual ao político, eles não se vê como participante de um jogo onde pode ganhar ou perder, tampouco como porta-voz de demandas populares avulsas. Ele se vê como portador de uma verdade excelsa e definitiva, um sistema de ideias coerente e completo que deve substituir o que está aí, e iniciar uma nova etapa histórica onde será hegemônico - para ele não existe A ou B, mas Certo ou Errado. É a mesma atitude do pregador de uma nova religião. O profeta não pode admitir estar errado, ou perderá sua legitimidade.

E religião por religião, isso os pastores evangélicos sabem fazer melhor.