A operação de Trump na Venezuela reúne caracterísricas da invasão do Panamá para capturar Noriega com a caçada para matar Bin Laden. Sem dúvida os EUA tem capacitação para levar a cabo esse tipo de operação. Mas não vou falar aqui da Trump, nem do regime chavista. Vou falar do termo usado por Trump para definir o regime chavista - Narcoestado.
Não é mera força de expressão, nem se refere somente à Venezuela. Refere-se a uma tendência que vem se manifestando desde o princípio dos anos 80 em várias regiões da América Latina, onde o poder e a riqueza dos narcotraficantes aumentou a ponto de confundir-se com o Estado, substituindo os antigos grupos insurgentes de guerrilheiros que eram até então o paradigma do contrapoder. Esses grupos não despareceram de imediato, mas pertencem a uma era passada,o tempo da Guerra Fria. Com o fim do apoio soviético, eles tiveram que buscar suporte financeiro no narcotráfico, e os que não foram aniquilados, fundiram-se aos cartéis já existentes.
Agora, em vários países sul-americanos, são os narcotraficantes que fornecem o apoio econômico e militar a qualquer governo que queira ter poder demais. Haja visto a frase de Fidel Castro dita a Hugo Chávez, quando foi criado o eixo Venezuela-Narcotraficantes-Cuba: este é o míssil com que vamos furar o bloqueio norte-americano. De fato, o público norte-americano injeta bilhões nesses países ao comprar drogas, quantia por vezes superior às divisas de seu produto legal de exportação mais vendido. Esses bilhões penetram na economia, produzindo não apenas quadrilheiros, mas movimentando toda uma rede de fornecedores e trabalhadores diretos e indiretos, em várias regiões superando de longe o total movimentado por qualquer atividade legal. As pessoas, ricos ou pobres, que dependem dessa atividade ilegal com certeza não apóiam que ela seja eliminada, e o poder político não tem como contrariá-los, restando pactuar com o narcotráfico. A partir deste ponto, o Estado torna-se um Narcoestado.
Não é possível um Narcoestado deixar de ser um Narcoestado sem experimentar uma quebra generalizada de sua economia. Portanto, não há previsão de quando esse fenômeno começará a recuar na América Latina. É possível aos EUA capturar Nicolas Maduro, mas não podem deter o narcotráfico com mais de uns tantos barcos explodidos, tampouco com um porta-aviões gigantesco e quase inócuo para esse tipo de guerra. A única coisa que pode deter o narcotráfico é suprimir quem o financia - os compradores de drogas. Todo combate ao narcotráfico é inútilenquanto os EUA gastarem milhões para combater drogas, e bilhões para comprar drogas.
Por aqui, não chegamos a ser um Narcoestado. O país é consumidor, e não produtor de drogas, e portanto a atividade ilegal está segregada aos pontos de venda - as favelss - e não atinge ao núcelo do poder, tampouco movimenta quantia significativa do PIB. Mas contemplando as favelas, temos amostras perfeitas de mini-narcoestados.